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O LUGAR DO POCESTINHO

Quinta-feira, 14.11.13

O Pocestinho era um dos maiores, mais úteis, mais belos e mais produtivos lugares de terras de mato da Fajã Grande, na década de cinquenta. Ali existia uma vegetação luxuriante, um arvoredo frondoso, um manancial de verdura, uma espécie de mina de lenha, um tapete terrestre pleno de pequenos arbustos, de inhames e de algumas árvores de fruto. Situado lá bem no interior do território da freguesia, o Pocestinho confrontava a Sul com o Pico Agudo, a Oeste com a Cancelinha e a Cabaceira, a Norte com as Queimadas e a Este com a Escada Mar e a Alagoinha de Baixo. O acesso àquela espécie de éden fazia-se através do caminho que unia a Fontinha aos Lavadouros. Assim depois de subir a Fontinha, o Alagoeiro, a Fontecima, o Batel e a Silveirinha, chegava-se à Escada-Mar, onde havia um enorme largo e um grande descansadouro. Voltando-se à direita encontrava-se precisamente o caminho que dava para o Pocestinho e cuja primeira parte, até à última relva da Escada-Mar, era larga e acessível a carro de bois ou corsão, embora o piso não fosse calcetado. A partir daí seguia-se por uma canada, estreita e sinuosa, que ia ligando, de ambos os lados, umas e outras terras, todas elas de mato e de inhames com algumas árvores de fruto à mistura, separadas do caminho por paredes negras e altíssimas, muitas delas crivadas de “coicelos”, musgo, eras e erva-santa. Desta canada bifurcavam-se outras, mais curtas e mais estreitas e algumas veredas que por sua vez a ligavam às terras mais interiores. Mas, em muitos casos, eram as próprias terras que davam passagem umas às outras, sobretudo às mais distantes do caminho. Este acesso ao Pocestinho na sua parte final ainda se tornava mais estreito, transformando-se numa pequena e apertada vereda que, prolongando-se por entre terras de faias e incensos, de troncos grossíssimos e aparentemente seculares, vinha dar à canada da Cancelinha, ligando assim o caminho da Fontinha/Lavadouros ao da Assomada/Lavadouros. Por isso, tudo aquilo que as terras do Pocestinho produziam, tinha mesmo que ser acarretado às costas, no caso dos homens, ou à cabeça, no caso das mulheres, pelo menos até à Escada-Mar. E as terras do Pocestinho produziam muito, sobretudo faia e incenso misturados com um ou outro pau branco, sanguinho ou loureiro. Eram por isso, sobretudo terras que produziam incensos para alimentação do gado e de lenha para o lume. Entre estas árvores, porém, cresciam fetos e cana roca que eram ceifados todos os anos, por alturas do verão. Os fetos eram secos, “emólhados”, acarretados e guardados nas casas velhas a fim de, no inverno, servirem de cama para o gado e a cana roca utilizada para “enxugar” os lameiros da cerca do porco ou então era simplesmente cortada para limpeza do terreno. Nalgumas belgas mais planas cultivavam-se inhames de mistura com uma ou outra árvore de fruta, nomeadamente com macieiras, pereiras e ameixeiras, dado que as laranjeiras por ali se não davam muito bem. Mais tarde, no final da década de cinquenta, alargou-se a canada do Pocestinho, de modo a que carros de bois e corsões chegassem junto das terras.

Acredita-se que este topónimo terá tido a sua origem em dois nomes “Poço do Justino” os quais terão evoluído para “Poçojustino” e, mais tarde “Pocestinho”. A prova de tal facto é sobretudo a de se terem encontrado registos muito antigos de algumas propriedades deste local que se diziam localizadas no lugar do “Poço do Justino”. Parece-me, no entanto que este poderá ter sido um erro do funcionário que terá percebido mal o nome e o terá escrito desta forma, situação nada invulgar nos tempos idos. Neste caso a origem do nome deste lugar poder-se-á encontrar noutras palavras e talvez tenha a ver com o diminutivo de “cesto”, ou seja “cestinho”. Talvez de “Posso cestinho”, significando que neste caso que, em termos de produtos agrícolas, aquelas terras seriam pouco férteis, isto é produziriam uma quantidade tão pequena de frutos que uma pessoa sozinha podia facilmente trazê-los num pequeno cesto ou cestinho, dado que, fundamentalmente eram terras de mato. Assim até eu “posso num cestinho” trazer o pouco que elas produzem, sob o ponto de vista agrícola. Daí o topónimo actual “Pocestinho”.

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publicado por picodavigia2 às 12:21





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