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ESCALÉRIA

Quinta-feira, 14.11.13

A serra, vista de longe, é um monstro baço, negro e obscuro. Misturada com o horizonte, define-se e clarifica-se pelas suas formas fragosas, abstrusas e opacas. Envolto num enigma edénico e bucólico, o seu perfil austero e gigantesco aparenta um enorme e chavasco cenotáfio.

Quando observada mais de perto, porém, a serra surge como um ténue e esverdeado manto, salpicado aqui e além por pequenas manchas esbranquiçadas, envoltas por um matiz acrisolado de cores, de sons, de melodias e de perfumes. Entrecortada por penhascos e ravinas, sulcada por rios e regatos, crivada de verdura e arvoredos, a serra é, quando nela penetramos, um recanto ubérrimo e sublime, um paraíso empavesado e atraente mas agreste e adverso.

A serra é também uma colmeia de pequenas aldeias. Umas dispersais nas encostas soalheiras, outras debruçadas sobre fragas e pináculos.

Escaléria da Serra ou simplesmente Escaléria é uma delas. A sua história perde-se no tempo e a sua origem remonta aos primórdios da fundação da nacionalidade. Concedeu-lhe foral Sancho I. Teve pelourinho e capela românica, fundada pelos monges Premonstratenses, no séc. XII. Isolamento, penúria e demência cultural contribuíram para a destruição de um e o abandono da outra, substituída esta última por uma construção de blocos de cimento, com portas de alumínio. Talvez tenha herdado o nome do espanhol “escalera” que significa degrau, epíteto que se prende com a sua estratégica situação na serra. Segundo uma opinião mais ousada, porém, terá sido uma ilustre dama, chamada Scaléria, que lhe deu nome. Fugindo às atrocidades e sevícias de um marido, janízaro, sem moral e sem consciência, Scaléria ter-se-á ali refugiado, como que transformando a serra no seu ergástulo. A densa vegetação e o isolamento, terão contribuído para dificultar a procura, por parte do sacripanta. O bardino nunca encontrou Scaléria e esta, acompanhada por um reduzido número de escravos, a quem havia dado alforria, fixou-se por ali, definitivamente, dando nome ao povoado.

Escaléria, hoje, é um resíduo enigmático de uma diminuta população em que predominam os idosos, arrastando-se por vielas esconsas, caminhos sinuosos, por aclives e bamburrais, sobrevivendo graças a uma labuta macerada e férvida. As ruas cheiram a silêncio e solidão. Da maioria das casas emerge abandono e escalavramento. A aldeia, perdida nos barrocais da serra, é um mito desfeito, um paradigma de paixões perdidas, um deserto de desejos e projectos.

Enquanto o fumo anunciador de lares ou lareiras, esquivando-se pelos telhados, se perde por entre o acinzentado das manhãs, os homens e as mulheres que ainda se movimentam procuram, nos campos circunvizinhos, o sustento quotidiano, que lhes garanta a sobrevivência. Depois o almoço frugal. De tarde, a exígua população decide-se pelo repouso. Os homens reúnem-se na baiuca do Ti Jerónimo do Lameiro. As mulheres, se é inverno ou chove, aconchegam-se cada qual no seu cardenho. Pelo contrário, nas tardes solarengas da primavera e do verão, juntam-se em alegre contubérnio, nos degraus da pátio da Maria Constança, local central da aldeia, transformando-o ora em areópago de mexericos e má-língua, ora em santuário de murmúrios e lamentações.

A Joaquina Fardola é a primeira a chegar; depois a Perpétua do Tesoureiro, a Florinda da Benta, a Maria Augusta, a viúva do Justino, a própria anfitriã e algumas outras. O diálogo inicia-se geralmente sobre maleitas e sezões, terminando em sonhos perdidos e desejos desfeitos, passando por crónicas de maldizer e críticas mordazes.

- Ai estas pernas que já não me ajudam nada! – Lamenta a Benta para a viúva do Justino.

- Com a tua idade, menina, com a tua idade, dava pulos numa estrela. Ó! Se dava! –Contraria a Maria Constança, que, afinal, não aparenta grande diferença de idade da viúva.

A Augusta, de imediato, intervém:

- Estas catraias de agora não sabem o que é a vida, nem o que é sofrerem. Hoje têm tudo! Não fazem nada. Sabem o que ouvi dizer ao meu José, quando esteve cá? Que lá na França em casa dele têm máquinas para tudo. Até têm uma máquina para lavar a loiça! Já viram vocês? Uma máquina para lavar os pratos e as panelas... A mulher e as filhas não fazem nada!... Isto tem que se lhe diga, meninas... Tem que se lhe diga...

- E admiras-te? – Interrompe a Florinda. – Então o meu Joaquim não tem uma caixinha, assim a modos que preta, com umas luzinhas e uns botões. Ele carrega nos botões e zás! Toca a falar para onde quer. Até fala para a França, para o meu Gilberto! Para a França, vejam lá vocês...

- Modernices! Modernices! – Exclama a Evelina das Cavadas acrescentando - Estas gentes modernas não sabem o que é trabalhar. No nosso tempo é que era!...

- Ah! Pois era! Só que depois do 25 de Abril isto mudou tudo. Trabalho? Quanto menos, melhor! Boa vida, vadiagem e, agora estas drogas, que dizem que andam por toda a parte. Antigamente é que era... Nem à escola meu pai me deixava ir... Só à missa... Mas era ir num pé e voltar no outro! Nada de demoras ou paragens – explica com acentuado denodo a Joaquina Fardola.

A Perpétua do Tesoureiro, cujo apelido fora herdado do pai, que acumulara durante anos e anos as funções de sacristão com as de presidente da Junta de Escaléria, entra de imediato em defesa do seu progenitor acerrimamente:

- Escola!? Escola nem havia. Era no palheiro do José do Monte! Nem janelas tinha...Vocês já não se lembram, mas foi o senhor Salazar, a pedido do meu santo pai, que Deus tenha, que mandou construir aquela ali na Fonte Nova. E que bela escola que era! Um primor! Vocês vêem o estado a que chegou? Vidros partidos, portas arrombadas, tudo destruído. Foram os comunistas, credo em cruz - e benzia-se vezes sem conta – foram os comunistas que deram cabo de tudo. E agora, nem professora temos. Vem um carro buscar os do Aníbal para os levar para a escola de Trelhal. O senhor Salazar é que era um governante como deve ser!

- Foi a seguir ao 25 de Abril!... Deram cabo de tudo - confirma a Fardola.

A Perpétua não desarma:

- Não só deram cabo de tudo como favoreceram os vadios, os preguiçosos, os vigaristas, os drogados, os que não fazem nada. Isto é uma vergonha! Sabem o que a minha Ritinha me disse quando cá veio? Que nessas televisões que agora há por aí, disseram que Portugal era o país do mundo onde havia mais bêbados. Ora vejam lá, mais bêbados...

- Credo menina, credo – contraria a Constança - Mas então nessas Rússias e Américas? Dizem que é muito pior do que aqui. É só guerras e mortes. O meu home diz que, quando esteve no hospital de Trelhal, via muitas vezes as notícias numa televisão que lá tinham, que não é igual a essas das cidades, é a modos que só a preto e branco, mas, mesmo assim, diz que aquilo tinha dias que era um horror. Era mortes, mortes, mortes por esses mundos fora...

- E aqui não há guerras, mas há malandragem e vadiagem! – Sentencia a das Cavadas.

- E abandono. Estamos para aqui abandonados, sem ninguém olhar por nós ou por esta terra. – Acrescenta a Florinda.

- E doença... Doença.... Ai estas pernas – lamenta-se, mais uma vez a Benta, acrescentando com ar fingidamente tristonho - É estar aqui à espera da morte!

- Morte!? Há meses que não vem cá um padre - explica a viúva do Justino, que até então permanecera muda – Nem padre temos para nos “asssacramentar” à hora da morte.

- E médico? Há quantos anos não vem cá um? – Interroga a Benta, ajeitando a anágua.

- Foi o 25 de Abril. Ai estes anos a seguir ao 25 de Abril! – Lamentam em coro.

O Agripino que passava por ali parou e, debruçando-se sobre o muro que dava para o pátio em cujos degraus estavam sentadas as mulheres, intervém meio a sério meio a rir:

- Isto é que é má-língua. As mulheres quando se juntam é sempre para dizer mal. Então não vêem os melhoramentos que se fizeram na nossa aldeia, durante estes anos, a seguir ao 25 de Abril.

- Melhoramentos?! Melhoramentos em Escaléria?! Isso é lá nas cidades e na França! – Explica a Augusta, catedrática presumida em questões francesas - Aqui o que é que vês? Miséria, só miséria...

- E malandragem – acrescenta a Perpétua.

- E abandono – proclamam conjuntamente a viúva e a das Cavadas.

- E doença - acrescenta prontamente a Augusta voltando a lamentar-se -  Ai estas pernas... Qualquer dia nem andar posso.

- Olhem que isso não é bem assim. Então não vêem esta estrada que hoje nos leva até lá abaixo, à estrada que dá para Trelhal? Não se lembram como os caminhos eram antigamente? Nem carro de bois passava... E ali, no largo? As árvores e os bancos que lá puseram. Dizem que a luz vem a caminho, a água virá depois. O cemitério foi melhorado.

- Sim, sim... Caminhos para quem tem automóvel. E cemitério para quê? Depois de mortos não precisamos de nada. Em vivos sim, enquanto estamos vivos é que precisamos de cuidados – acrescenta a Fardola considerada a mais letrada do grupo.

O Agripino bem explicava que afinal a seguir ao 25 de Abril muita coisa tinha mudado e para bem de todos. Se ainda lá não tinha chegado a luz e a água era questão de mais uns anos ou talvez meses. E acrescentava:

- Mas, meninas, o que de melhor temos agora, depois do 25 de Abril, é a democracia e a liberdade em que vivemos, no nosso país. Somos um país democrático e um povo livre. Além disso, o governo agora interessa-se muito mais pelos pobres do que no tempo do Salazar, cujo governo só beneficiava os ricos. Este governo até dá um subsídio às famílias mais pobres. Mas o mais importante de tudo é a liberdade. Olhem, se não houvesse liberdade vocês nem podiam falar assim...

 E voltando-se para a Perpétua do Tesoureiro, interrogou-a com acrimónia:

- Já não te lembras como era no tempo de teu pai? Era ele que mandava em tudo eem todos. Eraum fascista como os da Pide. Não se podia falar mal do governo diante dele, ou dos que lhe iam meter tudo no cu, os que eram como ele. Não havia liberdade. E já não te lembras da guerra do Ultramar? E dos filhos da Joaquina Toina, do Bento do Moleiro e meu sobrinho, que morreram na guerra de Angola?!

A Perpétua bem protestava, implorando que moderasse a língua e respeitasse a memória do seu paizinho, que esse sim, muito fizera por Escaléria e o pagamento era ter sido tratado como foi.

- Um santo! Um santo! – Exclamam as outras, em tom reconfortante.

A noite descia apressadamente sobre o povoado. A viúva do Justino foi a primeira a desertar. As outras, umas isoladas, outras em pares, foram-lhe seguindo o exemplo, recolhendo aos seus lares.

Pouco depois os degraus da Constança ficaram desertos. Sobre Escaléria e sobre a serra caía um silêncio profundo e uma noite cada vez mais escura e mais indefinida. Nas poucas casas habitadas, terminado o caldo no escano junto à lareira, esbagoavam-se camândulas e bichanavam-se ave-marias. Depois, um sono profundo e tranquilo dominava todos até que a manhã, por entre os sombreados esconsos da serra começasse timidamente a clarificar e a definir-se.

E na tarde dos dias seguintes, nos degraus do pátio da Maria Constança, lá estavam, ocupando os mesmos lugares, a Joaquina Fardola, a Perpétua do Tesoureiro, a Florinda da Benta, a Maria Augusta, a viúva do Justino e a Evelina das Cavadas sonhando com o passado, condenando o presente e obliterando o futuro, enquanto a serra se ia tornando cada vez, mais escura, sombria e enigmática, porque mais distante e longínqua.

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publicado por picodavigia2 às 19:01





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