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A POPULAÇÃO DA RUA NOVA

Sábado, 16.11.13

A Rua Nova e o Caminho de Baixo eram as ruas menos populosas da Fajã. O número de casas era igual numa e noutra, dado que cada uma tinha apenas quatro casas habitadas, mas a Rua Nova levava a melhor, não só em tamanho e largura, até porque era a artéria mais ampla da Fajã mas também em população, pois lá moravam dezasseis pessoas, enquanto no Caminho de Baixo residiam apenas doze.

Lá bem no fundo da Rua Nova e já quase nas Furnas, morava o Urbano, com a mulher, prima da minha mãe e também de nome Angelina e quatro filhos: a Maria Teresa, o José, o Edmundo e o Antonino. O Urbano, para além de trabalhar nos campos, foi sempre muito dedicado ao mar e à pesca e durante muitos anos foi um notável baleeiro e primoroso executor de uma das mais arriscadas e arrojadas tarefas da caça à baleia, a de “trancador” ou arpoador. Também se distinguiu como jogador de futebol e um dos fundadores do Atlético Clube da Fajã Grande, em 1939, colectividade desportiva que ainda hoje sobrevive, embora com outras modalidades desportivas.

Ao lado e casado também com uma prima da minha mãe, morava o José Pereira, com dois filhos. O José Pereira foi talvez o maior e o melhor pescador de sempre da Fajã Grande. Era verdadeiramente um homem do mar e, durante muitos anos, foi ele quem abasteceu de peixe a maior parte da freguesia. Tinha uma lancha, era um excelente marítimo e um óptimo pescador, tendo também “arreado” durante várias épocas à baleia, exercendo a função de mestre de lancha no gasolina “Sta Teresinha” que durante anos e anos ficou ancorada no Poceirão, do Porto Velho, a fim de, após o foguete lançado pelo vigia, puxar os botes para o mar alto, dar-lhes apoio durante o tiroteio da caça à baleia e arrastar, posteriormente, os cetáceos já mortos para a fábrica de óleo do Boqueirão, em Santa Cruz. Contava-se, com alguma graça, que o Pereira, apesar de ser considerado o melhor marítimo da Fajã, certo dia virou a lancha, carregadinha de peixe, mesmo ali, no Porto Velho. Algum tempo depois o Manuel Machado foi pedir ao senhor Arnaldo para tirar cédula de marítimo e carta de mestre. A resposta do Arnaldo foi negativa, dizendo-lhe:

- Se o José Pereira virou no Porto, tu viras mesmo na ramada.

Mais adiante e numa casa um pouco isolada vivia sozinha a senhora Josefina Greves, pessoa muito discreta, sensata, muita amiga de todos e muito conversadeira com quem por ali passava. Mais adiante, na única travessa que a Rua Nova tinha, vivia o António Lourenço, casado com a Marquinhas do Carmo e com quatro filhos: o José, a Ema, o Lucindo e o Antonino. Este casal era um dos mais simpáticos e prestável da freguesia. O António Lourenço era pessoa extremamente solícita, de tacto muito agradável e atencioso, foi director da Sociedade, cabeça de festas e do Fio. A esposa exerceu durante muitos anos a honrosa função de parteira da freguesia, sempre com uma dedicação e um êxito notáveis. Além disso exercia também a função de enfermeira e até de “médica”, tratando todos gratuitamente e sem distinção, quer os que a procuravam na sua própria casa quer deslocando-se às casas dos que a não podiam procurar, mas necessitavam dos seus cuidados. Em boa hora o povo da Fajã Grande já lhe prestou a devida homenagem, dando, inclusivamente, o seu nome a uma rua da freguesia, precisamente à Rua Nova.

 

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publicado por picodavigia2 às 14:38





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