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A REQUINTA CONTA A SUA ESTÓRIA

Sábado, 16.11.13

Quando a aldrava da porta do velho e esconso armário, colocado a um canto da Casa do Espírito Santo de Cima se abriu, a Tarola rolou pelo chão, a Trompete despregou-se e o Bombo caiu sobre o Bombardino, provocando sons martelados, abstrusos e enrouquecidos que acordaram a maioria dos outros instrumentos.

O Contrabaixo foi o primeiro a levantar-se e a extorquir os primeiros sons. Dirigindo-se a alguns instrumentos que ainda se encontravam sonolentos, ordenou com voz grossa e ar ameaçador:

- Vamos lá a levantar. Já não é sem tempo! Durante tantos aqui fechados, parados, sem ver a luz do dia...

- E sem sermos ouvidos – acrescentou o Primeiro Clarinete, na sua voz de cana rachada.

- Se calhar alguns já estão enferrujados. Aos anos que para aqui estamos abandonados!... – Lamentou o Saxofone.

Um a um fomos saindo do nosso ergástulo. Mas o estado em que a maior parte de nós se encontrava era lastimoso e bastante triste. Ao Bombo haviam-lhe rebentado três cordas, os Pratos estavam cheios de ferrugem, assim como um dos Trombones e as duas Trompetes. Um dos Segundos Clarinetes tinha a palheta quebrada, o Primeiro Cornetim estava cheio de cinabre e o Bombardino tinha os pistões partidos. Eu, apesar de tudo, estava em muito bom estado.

Desde há anos que ali havíamos sido guardados e nunca mais de lá saíramos.

- Um cemitério de vivos! – Exclamou, na altura, o Bombo.

- Arrumar connosco na flor da idade – confirmou o Segundo Cornetim.

- E nós que éramos tão afinadinhos... - Acrescentei eu, que teimava em não entrar para semelhante remanso.

De nada serviriam os nossos protestos e lamentos. E lá fomos definitivamente fechados, postos em cativeiro.

E a verdade é que o nosso destino não era aquele. Tínhamos sido comprados há muitos anos, graças ao esforço do povo da Fajã Grande, oferecendo o leite do primeiro domingo de cada mês. Mas tínhamos nascido para tocar, para abrilhantar festas e arraias, receber entidades, enfim, para estarmos presentes em todos os momentos de festa e de grandiosidade, nomeadamente na festa mais importante da freguesia, a da Senhora da Saúde, de quem até herdáramos o nome. Éramos o orgulho da nossa terra. Porém, a desertificação que, na altura, se foi acentuando, levou a que muitos tocadores nos abandonassem. Alguns haviam sido mobilizados para a guerra do Ultramar, muitos haviam emigrado para a América e para o Canadá, um ou outro havia falecido e alguns, simplesmente, haviam perdido a vontade de continuar a tocar. Assim, uns após os outros, quase todos fomos arrumados e guardados no armário e, algum tempo depois, fomos todos ali definitivamente fechados.

Foi muito doloroso o nosso cativeiro. Sobretudo para mim, a mais magra e raquítica da Banda. Foi muito triste estarmos ali, anos e anos fechados, sem ensaios, sem marchas, sem festas e sem procissões, na incerteza de a porta, algum dia, se voltar a abrir. O ar imponente que, outrora, conferíamos a todos os festejos, o orgulho que sentíamos quando, de cima do coreto, abraçados por homens de bonés azuis e fardas brancas, emitíamos sons harmónicos e afinados, que chamavam a atenção de todos, pareciam nunca mais voltar. A alegria de percorrermos a rua Direita em desfile harmonioso, a sensação de sermos acarinhados, a certeza de testemunharmos o património e a cultura de um povo, faltavam-nos. A música harmoniosa e bela que de nós emanava, os sons melodiosos e agradáveis que produzíamos, haviam-se calado, aniquilado, desfeito progressivamente e reduzido ao mais humilhante e fastidioso dos silêncios.

Foi por isso que, quando, passados muitos de anos, se abriu a porta do velho armário, a esperança renasceu em todos nós e a alegria voltou a dominar-nos. Íamos ser restaurados e a Filarmónica Nossa Senhora da Saúde, da Fajã Grande das Flores, havia de voltar a tocar!

Os dias seguintes foram de azáfama e de acúleo. Muitos jovens, de ambos os sexos, acompanhados de um ou outro antigo tocador, haviam sido recrutados na freguesia para, a partir de agora serem os nossos novos tocadores. Durante noites seguidas reuniram-se, na Casa do Espírito Santo de Cima, para aprender solfejo. A ideia era restaurar-nos, dar-nos vida.

 - É preciso atrair a juventude, dar-lhe valores, afastá-la dos perigos – ouvi, certa noite dizer um dos músicos antigos. Depois acrescentou com fascínio – Uma Banda é o orgulho duma terra! Faz parte da sua identidade e da sua cultura. Não podemos nem devemos perder o património que os nossos antepassados nos deixaram.

E as noites de aprendizagem de solfa sucederam-se, até que, um dia, o novo maestro – um antigo tocador de clarim - ordenou:

- Hoje vamos distribuir os instrumentos, tendo em conta as aptidões de cada um.

Eu fiquei muito nervosa e inquieta. Quem seria o meu futuro tocador? Lembrava-me, vagamente do de outrora. Era um homem já de idade avançada, baixo, forte, de enormes bigodes e cabelo grisalho. Como ele gostava de mim, como me acariciava, como se empenhava em tocar bem. Tocava admiravelmente e sentia por mim um carinho e uma ternura que muito me agradava e de que me ufanava. Por vezes até me tratava por “minha linda”. Provavelmente também teria emigrado. Não o via por ali...

 E agora quem me iria tocar?

Aguardei com enorme apreensão e expectativa a decisão do maestro. Primeiro limparam-me e depois afinaram-me em mi bemol. Os instrumentos que estavam em piores condições haviam sido mandados restaurar. Agora estávamos todos como novos.

Em seguida vieram as decisões:

- O Primeiro Trombone... é para o José Manuel...  – E prosseguiu o maestro, por aí adiante.

E eu cada vez mais expectante e nervosa. Por fim, chegou a minha vez:

 - A Requinta vai ser... Bom, para a Requinta é preciso ter bom ouvido, muito bom ouvido... Para a Requinta... vai ser... a Maria José!

E foi a Maria José que, também muito nervosa, logo me agarrou. Era uma jovem, bela e meiga, de cabelos louros e soltos sobre o rosto, mãos finas e dedos delicados. Pegou-me, tímida e hesitante. Os primeiros sons saíram trôpegos e desafinados. Mas pouco depois já tocava a escala diatónica: dó, ré, mi, fá, sol, lá, si, dó. Para em seguida a repetir descendente: dó, si, lá, sol, fá, mi, ré, dó. Não demorou muitos dias e os sons saíam perfeitos, afinados e harmoniosos, a integrarem-se perfeitamente no conjunto dos restantes instrumentos. Passei a ser tocada eximiamente. Além disso, a Maria José também me tratava com muito carinho e cuidados excessivos e desmesurados, os quais, rapidamente, me fizeram esquecer o meu primeiro tocador. Guardava-me numa caixa aveludada e levava-me para casa, o que lhe permitia que ensaiasse mais e melhor. Além disso, zelava com excessivos cuidados e acentuados desvelos pela minha conservação. É que eu temia que, regressando ao armário, fosse novamente lançada ao abandono e regressasse ao desafino.

Depois de noites e noites de ensaios, foi agendado o dia da nossa nova apresentaçãoem público. Previa-seuma grande festa.

No adro da igreja, o coreto todo engalanado. À volta, homens, mulheres e crianças, muitos vindos de outras freguesias da ilha, acotovelavam-se na tentativa, em muitos casos frustrada, de ocupar a primeira fila e aproximar-se o mais possível de nós. Desfilámos da Casa de Cima até ao adro. Para além de muito povo esperavam-nos algumas autoridades. Antes de darmos início ao concerto, uma delas, a quem chamavam o Senhor Vereador da Cultura da Câmara Municipal das Lajes, usando da palavra, afirmou:

“...Desde os tempos mais remotos que a música andou associada a todas as manifestações festivas do homem, quer no aspecto religioso, quer no profano. A música está pois inerente a toda a vida humana, quer no seu aspecto lúdico, quer no religioso, quer até no social, cultural e, porque não, no laboral. Por isso mesmo, ela não pode ser apenas património de artistas e intelectuais ou de grandes cidades. Ela também pertence ao povo humilde das pequenas localidades. As Bandas de Música ou Filarmónicas são uma das formas de preservar a riqueza cultural do nosso povo e das nossas ilhas. Por outro lado e porque a sua formação ou reestruturação, como foi o vosso caso, resulta dum conjunto de esforços comuns, dum trabalho de grupo, as Bandas Filarmónicas têm também uma componente social muito grande, pois congregam esforços e sacrifícios. Por isso é com enorme satisfação que vemos hoje reorganizada e reestruturada a Banda Filarmónica “Nossa Senhora da Saúde”, infelizmente, adormecida durante tantos anos. Espero e faço votos para que esta data seja mais um marco importante no desenvolvimento sócio-cultural não só desta freguesia mas de todo o nosso concelho. Todos nós sabemos e conhecemos a importância da música na formação dos cidadãos, nomeadamente, nos jovens. E é com prazer que vemos jovens, felizmente, de ambos os sexos, integrando o elenco musical da Senhora da Saúde. De facto, na nossa ilha, onde infelizmente rareiam os espectáculos e as realizações culturais, as Bandas Filarmónicas são a expressão mais pura duma verdadeira cultura musical. Elas permitem, também, uma aproximação das pessoas, uma conjugação harmónica de valores e interesses, indiciam uma notável forma de cultura popular e permitem uma procura acentuada de padrões de interesse comum. Assim, a todos os que contribuíram para o restauro da Filarmónica Senhora da Saúde, ao seu maestro, a todos os seus músicos e a todos vós, formulo as maiores felicitações e os maiores êxitos musicais.”

Seguiu-se uma enorme salva de palmas. De imediato, iniciámos o espectáculo, tocando um variado repertório: aberturas, marchas, rapsódias, tangos, modinhas, passe-dobles, etc.

Eu sentia-me altiva e orgulhosa. Vezes sem conta, a minha voz fina e aguda fazia-se ouvir por entre os sons do restante instrumental. A Maria José tocava-me divinalmente.

Quando a festa terminou os outros instrumentos regressaram ao armário. Apenas eu escapei, porque a Maria José querendo proteger-me, levou a caixinha dentro da qual religiosamente me colocara para casa. Porém, quando me despedi dos meus colegas, senti que os dominava a certeza de que o armário, outrora transformado no nosso ergástulo, a partir de agora, abrir-se-ia frequentemente, quer para os ensaios semanais, quer para tocarmos pomposamente e abrilhantarmos as festas, as procissões e outras espectáculos que, ao longo do ano, se realizavam naquela pequenina freguesia, em outras da ilha e até nas de outras ilhas açorianas. Contribuiríamos, assim, significativamente, para o seu desenvolvimento sócio cultural não só da Fajã Grande mas também da própria ilha das Flores.

 

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publicado por picodavigia2 às 17:52





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