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ESTRANHO ESQUECIMENTO

Sábado, 16.11.13

O Cardoso estacionou o carro de praça, junto à porta da casa do senhor padre. O reverendo solicitara-lhe, veementemente, na véspera, que estivesse às dez em ponto. Sem falta! O Cardoso cumpria sempre à risca as exigências das propostas solicitadas pelos clientes. Mais se esmerava, ainda, quando se tratava de um eclesiástico. Apesar de ser o único carro de praça existente na Fajã Grande, era preciso agradar a todos, sobretudo aos que o solicitavam com mais frequência. Cumprir, cumprir sem falhas era o seu lema. O pároco era o pároco e era um bom cliente!

Assim um pouco antes das dez lá estava o Cardoso, de boné, gravata e tudo. Estacionou mesmo em frente à porta que dava para o saguão que conduzia ao andar superior da residência hierática e, como a porta estava semiaberta, nem sequer parou o motor, cuidando que o reverendo não havia demorar a descer.

Apesar de tudo, aguardou uns bons momentos, passados os quais ficou surpreendido com um estranho barulho. Pareciam vozes altas, exaltadas, vindas, aparentemente, de dentro, da residência do pároco. Nada de anormal, pois toda a gente sabia que o reverendo, já avançado em anos, frequentemente se inquietava e enervava com coisas de somenos importância. Por isso e como o senhor padre demorasse, o Cardoso desligou o motor. Pode então confirmar melhor que aquele ruído de vozes alteradas, espezinhadas e ressequidas, vinha mesmo dali. Pouco depois o pároco, com um notável aborrecimento a emanar-lhe do rosto e com um excessivo enervamento a saltar-lhe do espírito, vermelho que nem um pêro, a escorrer suores e a bufar imprecações, desceu as escadas, transpôs a porta da rua, entrou no carro, baqueando a porta, sem tugir nem mugir.

O Cardoso, abstraindo-se do ar estranho e misterioso que o clérigo aparentava, sem dizer palavra, ligou o motor, pôs o veículo em movimento e subiu a Assomada, o Descansadouro, o Delgado e a Cabaceira, em direcção à Fajãzinha, sem que um ou outro dissesse qualquer palavra que fosse. Era condutor de um carro de praça e, por isso, estava ali para servir os clientes e não para conversar, nem muito menos se meter na vida ou nos problemas dos passageiros, pensou consigo. Por isso, em silêncio, prosseguiram a viagem até ao Vale Fundo.

Foi então que, junto à ponte da Ribeira do Ferreiro, o padre, levando as mãos à cabeça e quebrando tão invulgar silêncio, ordenou:

- José, volta para trás!

Estranhando tão esquisita e inesperada decisão, o Cardoso tirou o pé do acelerador, reduziu a marcha e indagou:

- Mas… o senhor padre já não quer ir à Fajãzinha?

O prebendado, voltou a ordenar, com mais veemência;

- José, já te disse, volta para trás! – E levando, de novo, desta feita apenas a mão direita à cabeça, justificou a razão de tão estranha deliberação: – Esqueci-me da paspalhona da minha afilhada.

E o Cardoso, contendo o riso muito a custo, inverteu a marcha no largo do caminho que dava para o Curralinho, e regressou à Fajã. Pouco depois, dando a volta à Praça e recuando até à porta da residência paroquial, pode ver a Juliana, sozinha, chorosa, muito triste, aflitíssima e excessivamente atrapalhada, junto a uma ombreira da porta de entrada. Lesto que nem um láparo, saiu e, sem dizer nada, veio abrir-lhe a porta de trás do veículo, fazendo um gesto assertivo com a cabeça, como que a convidá-la a entrar.

Já dentro do carro, a Juliana, mais aliviada, com voz trémula e hesitante, desabafou:

- Obrigado, padrinho! Eu pensei que já não queria que eu fosse consigo à Fajãzinha.

Um silêncio medroso voltou ao interior do automóvel.

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publicado por picodavigia2 às 21:48





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