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O ?ONTA DELGADA

Domingo, 17.11.13

Com o desastre do Arnel, encalhado no Baixio dos Anjos, na ilha de Santa Maria, em 19 de Setembro de 1958, poucas horas depois  de ter iniciado mais uma das muitas viagens que realizava entre aquela ilha e a de São Miguel, surgiu a necessidade urgente, por parte da Companhia Insulana de Navegação, de se construir um novo navio que emparceirasse com o Cedros no serviço de transporte de passageiros e carga entre as ilhas. Impunha-se, de facto, um acréscimo de viagens que satisfizesse as exigências da população insular. Se bem o pensou melhor o fez a Insulana. Assim, aquela empresa, que na altura detinha o monopólio do transporte de pessoas e mercadorias entre as ilhas açorianas, mandou de imediato construir um novo navio, o qual foi baptizado com o mesmo nome da maior e mais importante urbe açoriana - “Ponta Delgada”.

O Ponta Delgada foi construído em Lisboa pela construtora NAVALIS, por encomenda da Empresa Insulana de Navegação, destinando-se, de facto, a substituir o Arnel, no serviço de transporte de pessoas e mercadorias nos Açores. O contrato de construção foi assinado a 10 de Março1960. A quilha foi assente em Novembro do mesmo ano, o casco lançado à água em 3 de Abril do ano seguinte e o navio foi dado como pronto e entregue à Insulana em Dezembro seguinte, sendo seu primeiro comandante o capitão Armando Gonçalves Cordeiro. Depois de visitado pelo Ministro da Marinha, almirante Fernando Quintanilha e registado na capitania do porto de Lisboa, o novo navio de passageiros entre as ilhas saiu da capital com rumo a São Miguel, ancorando na doca de Ponta Delgada, em Janeiro do longínquo ano de1962. Apartir de então deu início a viagens regulares entre as ilhas, largando de Ponta Delgada ou para Santa Maria ou para as ilhas do Grupo Central. Na segunda viagem que fez ao Faial, o navio rumou às Flores e Corvo, passando assim a assegurar o serviço de passageiros entre todas as ilhas dos Açores, nomeadamente para as Flores, onde intercalava as viagens com as do Carvalho Araújo, alternando-as mensalmente com o Cedros, permitindo deste modo que a ilha fosse visitada por um navio de quinze em quinze dias. Durante os vinte e dois anos em que navegou nos mares açorianos, servindo as nove ilhas, o Ponta Delgada apenas numa das suas viagens, enquanto veio a Lisboa para reparação, foi substituído por um navio grego, o Aquileus IV, alugado para tal, pela empresa responsável.

O Ponta Delgada tinha cerca de sessenta e dois metros de cumprimento e dez de largura máxima, tendo capacidade para o transporte 400 passageiros e mais de mil toneladas de carga. Com o casco pintado de azul escuro e a restante parte de branco, o navio desfrutava apenas duas classes de passageiros com beliches, mas possuía, na parte traseira um enorme salão, com bancos. Assim aos viajantes mais pobres, era possível abdicar de viajar em primeira ou segunda classe com preços muito caros e optar pela compra de um bilhete de viagem bastante mais barato, na categoria de salão, sem direito nem a beliche nem a alimentação. Quem fizesse esta opção teria que se apressar e, atempadamente, conseguir um lugar no salão para passar a noite, o que por vezes era muito difícil, uma vez que o mesmo se encontrava, geralmente, sobrelotado e, pior do que isso, a abarrotar de vómitos e de cheiros nauseabundos. No entanto, viajar no Ponta Delgada, tinha uma vantagem, pois uma vez que não transportava gado e, dado que o volume de carga era reduzido, as viagens das Flores à Terceira eram bem mais rápidas do que as do Carvalho, demorando geralmente duas noites e um dia.

O Ponta Delgada, que até durante os anos em que serviu os Açores, chegou a fazer alguns cruzeiros ao Continente, cessou a sua actividade transportadora nas ilhas no ano de 1985, sendo, pouco tempo depois, fretado para ser efectuada a bordo a rodagem de um filme. A partir daí e após algumas obras de restauro e modernização, passou apenas a ser utilizado para a realização de pequenos cruzeiros entre Lisboa e o Algarve, efectuando no entanto, anos mais tarde, uma viagem a Moçambique, país onde foi utilizado também com meio de transporte de passageiros. Após esta sua aventura africana, o Ponta Delgada regressou a Lisboa e atracou ao cais do Poço do Bispo, onde permaneceu treze anos, abandonado, marginalizado, destruído e apodrecido, acabando por afundar-se em 3 de Junho de 2001. Triste fim, este do “nosso saudoso” Ponta Delgada, tão útil e tão querido dos açorianos e sobretudo dos florentinos que, familiarmente, o tratavam simplesmente por “ Pontalgada”.

O Ponta Delgada, nas suas viagens às Flores, fez serviço por diversas vezes na Fajã Grande e dele se contam inúmeras aventuras e “estórias”, sendo a mais célebre aquela em que numa noite de temporal o navio, abandonou a doca do Faial e partiu para as Flores. Ao longo da viagem, o estado do tempo piorou substancialmente e a umas boas milhas de distância do Faial, o comandante perdeu o controlo do leme, ficando o barco à deriva, assolado por ventos muito fortes e por ondas altíssimas. Todos entraram em pânico, incluindo o comandante que revelava enormes dificuldades na orientação e comando do navio. Uma onda mais forte provocou-lhe um rombo na borda do casco. Era o fim! A tragédia total” Foi então que um experiente marinheiro do Pico, aclimatado a ventos e tempestades ainda mais fortes, decidiu tirar o leme das mãos do comandante, assumindo ele próprio a condução do navio e em poucas horas conseguiu fazê-lo regressar ao Faial, onde foi recebido por todos com enorme alegria. Os passageiros e a tripulação estavam todos salvos, apenas o navio sofrera graves prejuízos.

 

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publicado por picodavigia2 às 01:39





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