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A POPULAÇÃO DO CAMINHO DE BAIXO

Segunda-feira, 18.11.13

O Caminho de Baixo tinha a vantagem de encurtar a distância entre a Fontinha e a Rua Direita, com a qual comunicavam ente si, ligando a casa do Caixeiro ao Chafariz que ficava junto à Casa de Espírito Santo de Cima, mas era a mais pequenina e a menos populosa artéria da Fajã. Além disso, grande parte da mesma era tão estreita, tão estreita que nem um carro de bois ou corção por ali podiam passar. Apesar de tudo por ela circulavam muitos transeuntes, com o real intuito de atenuar distâncias e, no caso das mulheres, evitar passar à Praça, sempre repleta de homens dispostos a mirar de cima abaixo quem por ali transitasse.

A primeira casa habitada era a do Caixeiro que ficava de costas para a Fontinha, da qual estava separada apenas pelo celebérrimo “Rego de Trás” da Rosaria Sapateira que ali vivia com o sobrinho, hábil pescador e destemido baleeiro. Tia e sobrinho tinham no entanto um modo de ser e de agir que, por vezes, era objecto de brincadeiras e chacotas diversas. Deles também se contavam muitas “estórias”, escaramuças, desavenças ou partidas que se lhes pregavam. Entre outras, contava-se que certo dia, ao zangar-se com a tia, o Caixeiro saiu de casa em direcção ao Porto com a aparente e simulada intenção de se atirar ao mar, gritando em alto e bom som, para espanto de todos: “ Vou deitar-me ao mar! Vou deitar-me ao mar!”. José Mancebo ouviu, aproximou-se e deu-lhe um forte toutição na cabeça, dizendo-lhe:

- Vais-te deitar ao mar, vais! Mas vais caladinho e não o digas a mais ninguém.

O Caixeiro deu meia volta e voltou para casa cabisbaixo.

Ao lado morava o João Barbeiro, casado com a Eva e com um filho, o José Nunes. Para alem dos trabalhos do campo o João Barbeiro tinha, na loja por baixo da casa, uma espécie de pequena oficina onde ia fabricando ou fazendo minúsculas reparações em tudo o que fosse pequenos objectos de ferro, de madeira, etc.

Já na parte mais larga desta ruela, numa casa com dois pisos, implantada entre a Fontinha, da qual ficava acentuadamente desnivelada, e o próprio Caminho de Baixo, morava o Manuel Dawling, a mulher e duas filhas. O piso superior da casa correspondia à habitação propriamente dita, enquanto no inferior ficavam as lojas de arrumo. Mas o acesso principal ao piso superior fazia-se através de uma escada com balcão encostados à fachada principal, a partir do Caminho de Baixo. O Manuel Dawling chegara à Fajã havia muitos anos, vindo, não se sabia bem donde. Tinha olhos e traços asiáticos e falava constantemente nas “Terras Canecas”, região do globo terrestre que nunca ninguém soube ao certo onde se situava, pese embora afirmasse que ficava nas ilhas Filipinas, donde seria natural. Por ali se fixou definitivamente, casou e teve filhos e netos. Era um acérrimo defensor de Estaline e do regime soviético, de quem falava com muita frequência. Para além de também se dedicar à agricultura, ele e as filhas viviam sobretudo da actividade de moleiro, dado que tinham dois moinhos na Ribeira do Cão e um na das Casas.

Finalmente e ao lado da Casa de Espírito Santo de Cima morava a Glória Fagundes com uma irmã mais velha e adoentada. Esta Glória Fagundes não tinha nenhuma actividade e, por isso, se dedicava ao vulgar hábito fajagrandense de quem não tinha que fazer, “andar pelas casas” incentivando, apoiando e, até, consolidando os habituais e tradicionais e tão frequentes mexericos, próprios dos lugares pequenos e isolados.

 

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publicado por picodavigia2 às 09:53





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