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CAFÉ SIM

Terça-feira, 19.11.13

A Tia Cristóvão tinha por hábito passar os dias fora de casa. De manhã, na igreja, de tarde, em casa das vizinhas e amigas. Na igreja, assistia à missa logo pela madrugada, que o pároco levantava-se cedo e, depois por ali ficava quase até à hora do almoço. Novena a Santa Teresinha, ofício menor da Senhora do Carmo, coroinha do Sagrado Coração de Jesus, Padre Nossos em catadupa, por alma de uns de outros, Avé Marias em louvor de todos os anjos e santos do Céu, uma confissão dia sim, dia não, alternando-a com um exame de consciência e uma oração ao Anjo da Guarda. Oração agora e jaculatória de seguida e estava a manhã toda ocupada. Regressava a casa, por volta das onze embrulhada no seu xaile de lã e com um bioco na cabeça a cobrir-lhe uma boa parte do rosto. Pelo caminho dois dedos de conversa aqui, uma alcoviteirice acolá, uma “miradela” às casa das vizinhas e, como a sua ficava bem distante, lá para os fundos das Courelas, já quase no Areal, chegava ao seu cardenho tão tarde que já nem se predispunha a fazer almoço. Se pouco lhe apetecia, menos ainda podia pois as forças já eram poucas e o dinheiro quase nenhum. Umas vezes umas sopas de café, outras, alguma coisa que sobrasse da véspera ou apenas umas batatas sem nada. Por tudo isso, a maioria das suas tardes eram duma fome desnaturada a que se aliava uma consequente e inexaurível debilidade, até porque as mesmas se consubstanciavam em corrupios intensos, persistentes e desmesurados pelas casas das vizinhas e amigas a visitar umas e a bisbilhotar e mexericar com outras.

Certa tarde em que se alapou em casa da viúva de Ti José Luís, de tão fraca que estava e de tanta fome de que padecia, decidiu-se por simular um desmaio. Era uma casa farta, onde havia de tudo. Era, pois, uma oportunidade de petiscar alguma coisa, pois a viúva era de mãos largas, sempre solícita e sempre generosa, capaz de dar o que vestia a quem dele precisasse. Mas, por azar, foi a Evelina, a filha que ainda permanecia solteira em casa da mãe, mas mais somítica e menos generosa quem a socorreu. Além disso, muito aflita, não dando pelo embuste e julgando-a desmaiada de verdade, logo lhe trouxe um simples copo de água, cuidando que com isso a Cristóvão havia de vir a si. Mas a velha, esbugalhando os olhos, ao pressentir nos lábios o fresco da água, de imediato ripostou:

- Água não, não. Café sim! E, já agora, com uns bisc

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publicado por picodavigia2 às 00:03





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