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O BEM E O MAL

Quarta-feira, 20.11.13

O garoto saiu de casa espavorido. Era imperioso regressar com algum. Atravessou o largo de mãos nos bolsos, chutando lata aqui, pedregulho acolá, como quem se revolta contra a indefinição exagerada do destino. Percorreu, titubeante, uma rua escura, esburacada, sem pessoas, sem passeios, sem flores e sem alegria. Chegou ao parque e sentou-se num banco à espera que passasse o primeiro que ostentasse aspecto merecedor da sua ousadia de pedinte. O rosto, salpicado de sujidade, reflectia, simultânea e enigmaticamente, desconfiança e hesitação. Os olhos azulados, mas sem brilho e sem fulgor, revelavam a desesperante inconformidade de esperar nada ou coisa nenhuma. Do nariz escorria-lhe um monco mefítico e escurecido, estancado de vez em quando com as costas da mão. As pernas, integradas num corpo esquelético, balouçavam, aceleradamente, exasperando uma confusa revelia.

A manhã avançava, embora lentamente, mas cerceava as possibilidades de exercitar uma mendigação eficiente e rentável. O sol surgira na máxima força e o calor ameaçava provocá-lo. Procurou outro banco. Por um lado, beneficiava da sombra e por outro parecia-lhe colocar-se em posição mais estratégica.

Tinha razão. Não demorou muito, surgiu o primeiro candidato. Hesitou à primeira, mas aventurou-se... Levantou-se e apenas estendeu a mão... Para quê palavras, a esclarecer um gesto já institucionalizado? Acertouem cheio. Ohomem levou imediatamente a mão ao bolso: cinco escudos. Aparecessem mais como este e regressaria a casa, liberto das contrariedades inerentes ao voltar de mãos vazias.

Os clientes seguintes, no entanto, consubstanciaram autênticos fracassos. Apenas um mocinho, pela sua idade, sem ele entender bem porquê, entrou com cinquenta centavos. A fome começava, no entanto, a fazer-se sentir. Já passava do meio-dia. Empregados, operários, estudantes, regressavam, apressadamente, a casa. Dirigir-se a estes era tempo perdido. Voltar para casa, apenas com aquele dinheiro? Impossível... Não chegava para nada e sujeitava-se a uns valentes tabefes...

O tempo, porém, tornava-se mais quente e sufocado. A tarde avançava e já ia a mais de meio. Uns escudos daqui e outros de acolá e já lhes perdera a conta. Levantou-se. Circundou junto à montra do café e entrou. Era arriscado. Já fora muitas vezes escorraçado dali, mas era local rentável. O primeiro nada. O segundo insultou-o, por entre dentes. Arriscou o terceiro e teve sorte: uma moeda de dez escudos. Saiu apressadamente e veio colocar-se num canto escondido da rua a contar mas sem sucesso. Acertou nas moedas mas errou no dinheiro.

Voltou à montra do café e olhou o cartaz dos gelados. A fome e o calor tentavam. Hesitou... Analisou, demoradamente, a situação... Entrou, saiu e voltou a entrar, aproximando-se do balcão. O homem dos dez escudos já lá não estava. Assim, era mais fácil, pois o seu benemérito não compartilhava a clandestinidade do investimento.

O dono do café, com ar desconfiado e ameaçador, indagou:

- O que queres, pá?

O miúdo apontou timidamente para o gelado pretendido:

- Quero este.

- Tens dinheiro?

Tímido e hesitante, levou a mão ao bolso e colocou em cima do balcão um punhado de moedas. O homem contou-as, pacientemente, uma por uma. Depois, foi buscar o gelado e, quando lhe ia a dar as moedas que sobravam, como visse que o rapaz já se escapulira, nem chamou por ele. Meteu-as na registadora murmurando:

- “Se calhar foram roubadas.”

Cá fora, porém, o garoto iniciava-se, sofregamente,em delícia. Pararafora da porta do café e saboreava sofregamente o gelado.

Mal iniciara o bródio, surge-lhe pela frente o homem dos dez, em tom ameaçador

- Ah! Seu grande tratante! Foi para isso que te dei os dez paus!?

Logo um coro de impropérios organizado por alguns circundantes se formou, em defesa do benemérito traído:

- Estes tipos sabem-na toda!

- Dar-lhe mas era um ponta pé no rabo.

- Falta de trabalho é que é.

- Vadios! Ainda se fosse comida!

Ao longe, uma vizinha acrescia a confusão:

- É para isso que tua mãe te manda? Vais ver, quando chegares a casa!...

A confusão avolumava-se.

Finalmente um polícia que por ali passava, ávido de impor a autoridade, estabelecer a ordem pública e contribuir para a defesa e o bom nome dos cidadãos honrados, interveio com ar arrogante e autoritário:

- Onde é que foste roubar isso, pá?

Como o rapaz não respondesse, acrescentou, agarrando-o pelo braço e apertando sem dó nem piedade:

- Não respondes, pá? Não sabes que te posso prender? Diz lá: onde roubaste essa merda?

Como o garoto permanecesse calado, esboçando contínuas mas frustradas tentativas de libertação das garras do agente da autoridade, este, perdendo a paciência, apertou-lhe o braço com mais violência e sacudiu-o. O gelado caiu no chão, desfazendo-se  por completo.

O grupo dos circundantes dividiu-se, de imediato. Uns, liderados pelo homem dos dez, consideravam que assim é que se impunha a ordem e o respeito, que era preciso acabar com a malandragem e que, se o senhor guarda não tivesse procedido desta forma, o rapaz amanhã faria ainda pior. Outros, associando-se a um velhote que desde o início se mantivera calado, observando a cena, intervieram, condenando radicalmente o guarda, apregoando em alto e bom som, que aquilo não se devia fazer a quem quer que fosse, muito menos a uma criança indefesa.

O miúdo, sem que ninguém desse por isso, aproveitou a confusão reinante para se por na alheta. De vez em quando, de longe, olhava para trás, com ar revoltado e apreensivo. Deambulou pela cidade, lamentando a sua sorte. O desânimo penetrara tão profundamente no seu espírito que decidiu por termo à pedincha.

Continuou, no entanto, a deambular até se perder. Penetrou numa rua de prédios altos, novos e desertos. Transbordava à sua volta um silêncio enigmático e assustador. Aterrava-o o penetrar contínuo e decidido na solidão. Mas quanto mais avançava, mais sentia a abstracção inequívoca do que lhe acontecera. Já não via casas, carros, pessoas… Já não via nada, nem coisa nenhuma.

Chegou, finalmente, a um jardim. Um lago e uma esplanada! Era o princípio do fim da tarde. Clientes, poucos. Apenas sobressaía, bem escarrapachada, numa mesa sobranceira ao lago, uma senhora de idade avançada. Óculos na ponta do nariz, cabelo em estilo rococó, sombrinha esbranquiçada a proteger-se do sol, a velhota vigiava, cuidadosamente, um garoto sentado ao seu lado, muito bem vestido, comendo um enorme gelado de copo, ornamentado com tons de colorido tropical. Perante os protestos da velhota, o rapaz aproximou-se do lago subjacente à esplanada e, num ápice, atirou aos peixinhos o gelado, exasperando mimosamente:

- Eu não gosto deste, avó... Tem gosto a canela... Quero outro... Dá-me outro, avó!...

A velhota ainda ensaiou algumas formas de oposição que, de imediato, esbarraram com a impertinência do garoto. O empregado trouxe novo gelado, em tudo semelhante ao primeiro. O rapaz mimado começou a comê-lo, mas dirigiu-se de novo para a beira do lago, enquanto a avó, cuidando que o segundo gelado teria o mesmo destino do primeiro, corria apressadamente atrás dele, gritando:

- Pedrinho, não voltes a deitar o gelado fora! Ouviste?

A esplanada ficou deserta. Empregado e patrão entretinham-se a contar os trocos na registadora. Em cima da cadeira a velha do penteado rococó deixara a sombrinha esbranquiçada e a mala semiaberta, onde se podiam vislumbrar algumas notas de cem escudos e uma de quinhentos.

O garoto de monco no nariz viu e tremeu... Hesitou e voltou a tremer ainda mais... Mas não teve tempo para reflectir. Ali, à mão!... Era só pegar!... Resolveria o seu problema e ninguém daria por nada. Culpado?! Culpados seriam a mãe, o polícia, o homem dos dez, o dono do café e todos os que o tinham insultado.

Aproximou-se, sorrateiramente, da mesa e tirou uma nota de cem, escapulindo dali com tal rapidez que mais ninguém lhe pôs a vista em cima.

 A velhota, orgulhosa da sua vitória sobre o neto, regressou ao seu lugar, não cessando de vituperar as diabruras do garoto. Nada viu, nem de nada se apercebeu. Sentada de novo, ocupava-se a responder às respeitosas e conspícuas saudações de alguns transeuntes:

- Como tem passado a senhora dona Francisca?

- Senhora dona Francisca, os meus respeitosos cumprimentos!

- Como está senhora dona Francisca? O senhor doutor, seu filho, tem passado bem?

- Ai dona Francisquinha! Há tanto tempo que a não via! Está óptima!...

Longe dali, o garoto de monco no nariz cheio de fome entrou num bar e comeu uma sanduíche de queijo e bebeu um sumol, trocando a nota de cem. Mais adiante, entrou numa pastelaria e comprou um bolo e um pacote de leite achocolatado, pagando com a nota de cinquenta que recebera de troco. Juntou as moedas resultantes de ambas as transacções e fez cinco montinhos mais ou menos idênticos. Ao chegar a casa entregou um à mãe, escondeu os restantes e decidiu tirar férias por cinco dias.

 

*****

O Telejornal das oito, nesse dia, entre a inauguração de um troço de autoestrada e a abertura de uma campanha eleitoral, anunciava mais um caso de corrupção e facturas falsas. Era a firma “Melo & Saraiva L.da”, de que era gerente e principal accionista, o doutor Pedro Lucas Saraiva de Melo. Essa a razão por que a velhota de penteado rococó e sombrinha esbranquiçada não deixou, nessa noite, que o Pedrinho visse televisão.

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publicado por picodavigia2 às 00:08





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