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O DESCANSADOURO DA CASA DE BAIXO

Quarta-feira, 20.11.13

A Casa do Espírito Santo de Baixo situava-se praticamente no centro da Fajã, na rua Direita, um pouco abaixo da igreja. Um lugar ideal para se transformar em descansadouro, não apenas para repouso e convívio dos que moravam por ali perto mas também como local de descanso para os que atravessavam a freguesia de lés-a-lés, carregando molhos, sacos e cestos. Paralela à rua, a casa possuía no seu exterior uma espécie de bancada, de apenas um degrau, mais alto, a noroeste, do lado da casa do Guarda Furtado e cuja altura ia diminuindo ao longo da casa, de norte para sul, terminando, no lado oposto já “remines” com o caminho.

Era precisamente esta bancada, com o apoio dos degraus das duas portas, que fundamentalmente servia de assento a quem quisesse ali descansar, até porque, ficando voltado a leste, aquele espaço beneficiava de uma sombra magnífica e acolhedora durante toda a tarde. Quando a lotação desta bancada ficava sobrelotada havia um muro relativamente baixo, do outro lado da rua, paredes meias com a máquina de baixo e em frente à casa do senhor Nunes, que funcionava como bancada complementar, embora beneficiasse de sombra apenas a partir de meio da tarde. Para além disso este descansadouro precisamente por ficar entre as casas e por ter mais semelhanças com uma praça, era muito diferente dos que se situavam entre os campos de cultivo, relvas e terras de mato. Entre essas diferenças havia uma que se destacava. É que tinha a excelsa vantagem de possuir água, pois na empena sul da casa de Espírito Santo de Baixo havia um chafariz, com uma fonte onde quem quisesse e necessitasse podia ali saciar a sede.

Este descansadouro, na realidade, funcionava mais como uma espécie de “praça” que os homens procuravam mesmo quando não acarretavam molhos, cestos ou sacos e onde, nas calorentas tardes de verão e aos domingos, se sentavam a descansar e sem fazer coisa alguma a não ser fumar, falquejar, conversar, combinar isto e aquilo, mexericar e meter-se na vida de uns dos outros. Os que utilizavam aquele local para descanso da carga que traziam às costas, colocavam os molhos, os sacos e os cestos sobre os muros do Gil e de Tio José Luís. Eram sobretudo homens da Assomada e das Courelas que vinham das Covas e das Ribeiras das Casas com pesadíssimos molhos de erva, toda encharcada, com o pescoço e a cabeça forrados com sacos de serapilheira para se protegerem da água a pingar-lhes pelo lombo abaixo ou os da Via d´Água e da Tronqueira que vinham do Pocestinho e da Cabaceira, banhados em suores e vergados a pesados cestos de inhames ou molhos de lenha. Mas era sobretudo à tardinha, quando os sócios da Cooperativa ou os seus familiares vinham trazer o leite à máquina e esperavam pelos funcionários e pelo toque do búzio gigante, ali se sentavam a descansar, deliciando com o fresco da tarde, que o descansadouro da Casa de Baixo se enchia quase por completo. Mas como povo atraía povo, muitos outros que por ali passavam também paravam em frente à casa e, se houvesse lugares vagos, sentavam-se associando-se ao descanso e à cavaqueira de fim de dia, transformando aquele local numa espécie de ágora do mexerico, da coscuvilhice e da má-língua.

 

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publicado por picodavigia2 às 09:49





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