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O DESASTRE DA RIBEIRA DAS CASAS

Quarta-feira, 20.11.13

Na Fajã Grande chovia com muita frequência e intensidade, pelo que não era necessário regar os campos com a água das nascentes ou das ribeiras, umas e outras a proliferar pela freguesia e a alagar escarpas e veredas. Se por vezes não chovia o necessário, o que acontecia, excepcionalmente, apenas nos meses de verão, faziam-se “rogações” e normalmente Deus atendia as rituais orações do pároco e as fervorosas preces do povo, concedendo a chuva tão desejada e necessária para os campos.

Assim a água que nascia lá do fundo da terra, sobretudo, no Mato e na Rocha e que escorria, em belas cascatas, pelas grotas e ribeiras daquele altíssimo alcantil, sobranceiro à freguesia, era aproveitada apenas e exclusivamente para alimentar os moinhos e para drenar lagoas, ou seja, os terrenos pantanosos onde a erva crescia substancialmente e era ceifada e acarretada para os palheiros para alimento do gado, ou simplesmente servia para lavar roupas e tripas, nos pequenos lagos que se formavam, sobretudo na Ribeira das Casas e na Ribeira, os cursos de água mais próximas do povoado.

Mas para que a água corresse na direcção dos moinhos e movimentasse os seus engenhos com a sua força motriz era preciso controlar o seu caudal, desviá-la do seu curso regular e conduzi-la por regos e levadas, na direcção dos moinhos. A principal ribeira que alimentava moinhos na Fajã Grande, para além da Ribeira do Cão lá para os lados da Ponta, era a Ribeira das Casas.

Orientar e canalizar as suas águas no espaço que ela percorria cá em baixo, perto do povoado e em terreno chão, serpenteando por entre relvas e campos de milho, a ligar o mítico Poço do Bacalhau ao Rolo, onde tinha a sua foz, era tarefa relativamente fácil e nada perigosa. Mas fazê-lo lá no alto, por cima da Rocha, já no Mato, na zona do Bracéu, onde ela corria, altiva e volumosa através de um leito crivado de pedregulhos e com as margens rodeadas de silvados, de calhaus e de bardos de hortênsias era bem mais difícil e perigoso. Mas a tarefa tinha que ser efectuada pelos donos dos moinhos ou pelos seus familiares.

Certa tarde, o moinho do Engenho, situado na margem direita da Ribeira das Casas, logo abaixo das Águas, parou de repente, sem que ninguém o esperasse. Cuidaram os seus proprietários que tal paragem se devia a um inesperado corte de água, lá para cima, no Mato, possivelmente devido a alguma ovelha morta, caída no Caldeirão e que ali encalhara, a alguma ribanceira que se tivesse despenhado, entulhando o caudal ou a outro motivo qualquer. Assim, era imperioso que a ribeira retomasse o seu curso normal e a sua água chegasse ao moinho. O Antonino de José Luís e o Francisco de José Francisco, de imediato, se prontificaram junto dos pais para resolver o imbróglio. Decidiram caminhar os dois para o Mato, com destino ao lugar do Bracéu, nas margens da Ribeira das Casas, precisamente na tentativa de recuperar, orientar e coordenar as suas águas, no sentido de que elas voltassem a alimentar o moinho que não poderia continuar parado. Sem que nada o fizesse prever, enquanto se baixavam para chafurdar nos lodos, arrancar leivas, retirar pedregulhos e troncos de árvores ali encravados pelas enxurradas, a fim de abrir espaço por onde a água voltasse a deslizar, um enorme calhau despenhou-se do alto, atingindo mortalmente o Francisco. Perante o corpo inanimado do amigo, o Antonino começou a fazer sinais alarmantes e a gritar na direcção do povoado, a fim de informar o que se passava e ser enviado auxílio. Foram alguns velhotes que estavam sentados na banqueta da Casa de Espírito Santo de Baixo, a descansar, que deram pelo rebate. Logo grupos de homens partiram lestos para o local enquanto familiares, amigos e praticamente toda a população da Fajã gritava, chorava, clamava e berrava prevendo que enorme desgraça acontecera. No entanto uns homens da Ponta que andavam pero dali, na Rocha, para os lados das Covas, ouvindo os gritos e apercebendo-se da tragédia, adiantaram-se e subindo pela rocha do Vime, chegaram, mais cedo, ao local. Nem eles nem os da Fajã que demandaram o local pouco depois, puderam fazer o que quer que fosse para salvar o Francisco. Na realidade o Francisco estava morto e o Antonino em estado de choque. Desceram a Rocha, com o cadáver às costas e o Antonino aos ombros, por entre os choros e os lamentos de toda a freguesia. O féretro foi colocado na casa velha do Laureano Cardoso, à Praça, aguardando a chegada do Padre Pimentel que alguém fora chamar à Fajãzinha, para onde o reverendo se havia deslocado, a fim de participar na Festa do Patrocínio.

Após ser ungido com a Santa Unção, o corpo do Francisco foi transportado numa simples escada, até à casa dos pais, na Tronqueira, onde foi velado, sendo sepultado no dia seguinte.

Um trágico acontecimento que atingiu drasticamente uma freguesia inteira. O Francisco, um jovem na flor da vida, era muito respeitado e querido, amigo de todos e tinha o seu casamento marcado, precisamente com uma irmã do amigo que o acompanhou em momento tão trágico.

 

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publicado por picodavigia2 às 09:53





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