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VIAGEM À ÍNDIA NUMA NOITE (DIÁRIO DE TI’ANTONHO)

Quarta-feira, 20.11.13

Segunda-feira, 17 de Junho de 1946                                                              

Uma outra “estória”, que a minha avó me contava era aquela do homem que foi à Índia numa noite num pequeno barco. Contou-ma tantas vezes que jamais a esqueci. Sentada no banquinho de lavar os pés, na cozinha, minha avó contava assim:

Era uma vez um pescador que tinha um pequeno barco, com o qual todos os dias arreava para o mar a fim de apanhar algum peixe para o seu sustento e o da sua família, que era pobre e muito numerosa. Sempre que regressava da pesca, depois de tirar o peixe para terra, lavava o barco, varava-o e guardava-o numa pequena ramada, sem porta, para que secasse durante a noite. No dia seguinte, de madrugada, quando voltava para o mar, o barco estava seco, brilhante e limpo.

Certa manhã, ainda escuro como breu, o pescador dirigiu-se ao porto e verificou que o seu barco estava todo molhado e sujo, como se tivesse sido lançado à água durante a noite. Ficou muito admirado, ainda mais porque, na manhã seguinte, verificou que tinha acontecido o mesmo ao barco, apesar de o deixar bem limpo e seco na véspera. O mesmo aconteceu em todas as manhãs dos dias seguintes. Começou então a pensar na maneira de descobrir quem arreava o seu barco de noite e para onde iam com ele. Por isso, uma noite, pensou esconder-se debaixo da proa, na esperança de descobrir o que realmente acontecia ao barco para aparecer naquele estado todas as manhãs.

Se bem o pensou, melhor o fez e, numa noite, lá foi acaçapar-se bem escondido debaixo da proa. Esperou algum tempo e, por fim, viu aparecer duas mulheres que saltaram para o barco e o arrearam com um à vontade e ligeireza invejáveis.

Sem demoras iniciaram a viagem, na direcção do alto mar, enquanto o pescador, no seu esconderijo, pasmava pois nunca tinha feito uma viagem tão rápida. O pequeno barco parecia que tinha asas e voava. Em breves minutos estavam numa terra. As mulheres, que afinal eram duas feiticeiras, vararam o barco num grande areal e desapareceram. O homem saiu do seu esconderijo e percebeu que estavam na Índia. Decidiu saltar do barco, apanhar um punhado de areia e guardá-lo no bolso do seu casaco. Daí a algum tempo as feiticeiras voltaram para o barco e iniciaram a viagem de regresso. Passados poucos minutos o homem percebeu que tinham chegado ao porto, pois ouviu o cantar dos galos.

Chegaram pois as feiticeiras ao Porto, vararam o barco, meteram-no na ramada e fugiram. O homem saiu do seu esconderijo e foi para casa, ainda estonteado pelo que lhe tinha acontecido.

No dia seguinte contou a toda a gente da freguesia o que lhe tinha sucedido na noite anterior, mas ninguém acreditou, só quando mostrou a areia que pelo aspecto era mesmo da Índia, todos acreditaram que não mentia e que, naquela noite, tinha ido à Índia, no seu barco, juntamente com as duas feiticeiras. Mas para azar do pescador todos ficaram cheios de medo e não mais compraram peixe pescado com aquele barco. Por isso, o pescador teve que desfazer-se do barco, construir um novo e fechá-lo a sete chaves na ramada, todas as noites.

Esta “estória” tem algumas parecenças com a lenda da Cana-da-Índia mas é um pouco diferente.

Era assim que a minha avó a contava.

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publicado por picodavigia2 às 19:13





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