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AS BILHAS DO PETRÓLEO

Quarta-feira, 20.11.13

Na década de cinquenta, o petróleo já era utilizado em quase todas as casas da Fajã, como fonte de energia. O petróleo era necessário, fundamentalmente, para que se tivesse luz em casa ou até fora dela, onde, para além das lanternas, também se podia utilizar os “focses” a pilhas. Também eram utilizadas com alguma frequência algumas gotas daquele inflamável líquido para aspergir os garranchos e a lenha, acendendo-se assim, mais rápida e eficientemente, o lume. Embora algumas pessoas mais pobres ainda utilizassem para iluminação, sobretudo na cozinha, as candeias de ferro fundido, abastecidas com enxúndia de galinha ou com a graxa de fritar o peixe, na maioria das casas, sobretudo quando se fazia serão na sala, também designada por casa de fora, já se usavam os candeeiros a petróleo. Quando se saía de casa em noites escuras e sem lua, para se ir tratar do gado à loja ou ao palheiro ou até para se limpar o esterco dos palheiros ou simplesmente para tirar o leite às vacas a iluminação era efectuada com lanternas também alimentadas a petróleo.

Assim era necessário ir comprar o petróleo às lojas e guardá-lo em casa. O petróleo vinha do continente em bidões, era vendido a retalho aos comerciantes que por sua vez o vendiam ao litro. Um litro de petróleo custava, na altura, oitenta centavos. Mas como se dizia e era crença popular que o dito cujo não havia de ser exposto â luz solar, pois perdia as suas qualidades e enfraquecia, criou-se o hábito de o transportar e guardar em bilhas – as tradicionais bilhas do petróleo. A aquisição de uma bilha, no entanto, não era fácil. O processo mais normal era herdá-la conjuntamente com outros bens de família, o que não era fácil pois a bilha pertenceria por direito próprio apenas ao filho que herdava a casa e o seu recheio. Raramente vinham bilhas fabricadas na Lagoa, em São Miguel e, neste caso comprá-las também não era fácil porque não eram baratas. O processo mais fácil e acessível era pedi-las nas lojas, para onde vinham do continente bilhas de barro cheiinhas de genebra, a qual era vendida, nas lojas, ao copo. Uma vez esvaziadas, as bilhas não tinham nenhuma outra utilidade para os comerciantes que as deitavam fora, sendo as mesmas alvos de cobiça por parte dos pequenos consumidores do petróleo. Eram então que se faziam filas, nas lojas, à espera de que cada qual fosse contemplado com uma bilha de barro para o petróleo.

As bilhas de petróleo eram fáceis de se transportar, pois na pare superior, logo abaixo do gargalo tinham uma pequena asa, a qual se pegava para transporte, mas, por outro lado tinham um inconveniente muito grande, pois se caíssem ao chão desfaziam-se logo em mil pedaços. Lá se ia a bilha e lá se ia o petróleo. Mas verdade é que a bilha do petróleo era uma espécie de ex libris da Fajã Grande e não havia quem a não tivesse, por vezes já sem asa e com o gargalo partido.

                                                 

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publicado por picodavigia2 às 21:19





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