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A FAJÃZINHA

Quinta-feira, 21.11.13

Paredes meias com a Fajã Grande situava-se a freguesia da Fajãzinha. Separadas pelo imenso e por vezes intransponível caudal da Ribeira Grande, apesar de vizinhas ficavam, por vezes, tão distantes que deslocar-se da Fajã à Fajãzinha era quase um acto heróico, uma aventura, sobretudo para os mais pequenos, que ao vir esperar os americanos e outros passageiros vindos no Carvalho, se quedavam pela Eira da Cuada, junto ao Calhau de Nossa Senhora, lá no alto da ladeira do Biscoito.

Anichada na encosta sueste de um largo vale, aberto sobre o mar, a Fajãzinha constitui, na realidade, uma pequena fajã delimitada a nordeste pelo curso da Ribeira Grande e a Sul pela rocha dos Bredos, no cimo da qual foi construída e inaugurada em 1949, a 14 de Setembro, dia em que a Igreja Católica celebra festa litúrgica da “Exaltação da Santa Cruz” um grande cruzeiro, num alto sobranceiro à freguesia, como que a abençoá-la. O território da freguesia, no entanto, prolonga-se para o interior da ilha, por um extenso planalto irregular, contendo diversas turfeiras e maciços de floresta natural, rica em plantas endémicas, entre as quais se destaca o cedro-do-mato, produtor de valiosa madeira utilizada no artesanato local. Nesta região existem algumas belas lagoas e diversas ribeiras, muitas das quais caem em impressionantes e magníficas quedas pela rocha que circunda o povoado e as terras baixas. A maior e mais bela destas cascatas, com cerca de 300 metros de altura, é da Ribeira Grande, a maior torrente de água da ilha das Flores, que, apesar de bela e majestosa, provocou inúmeras inundações ao longo da história da freguesia, muitas delas com trágicas consequências.

A região onde se situa a freguesia, com o seu relevo marcado pela presença de grandes falésias e enormes rochedos expostos, forma uma paisagem de grande beleza que João Vieira descreve assim: “Na encosta íngreme do vale, a mão do homem, com muito suor, construiu a sua igreja e as casas, abriu o caminho onde penosamente deslizaram "corsões" (zorras), meio de comunicação com o resto da ilha. Admirável exemplo da implantação no terreno em harmonia com a paisagem. Visto do alto, o casario, talvez por ciúme, corre para o mar, acompanhando a Ribeira Grande, que por mais de quatro séculos abasteceu de aguadas a navegação que sulcou os mares entre o Velho e Novo Mundo. Entre searas de milho que circundam o casario branco, uma estrada de asfalto negro serpenteia entre a verdura. Se o paraíso bíblico tivesse existido à beira-mar… bem poderíamos pensar que este recanto lhe pertenceu…”

Apesar de historicamente importante e de ter sido a partir dela que se originou a freguesia da Fajã Grande, a Fajãzinha é, actualmente uma das freguesias menos populosa da ilha das Flores, com apenas 72 habitantes, segundo os censos 2011. Apesar de pequena é a única freguesia da ilha que mantém, actualmente, uma Filarmónica: a Sociedade Filarmónica Nossa Senhora dos Remédios, fundada em 1951, com o apoio do pároco de então, o padre António Joaquim de Freitas, que paroquiou a freguesia durante mais de quarenta anos.

Desde a sua génese que a Fajãzinha foi uma freguesia voltada para as actividades agrícolas, hoje quase exclusivamente centradas na criação de gado bovino, aproveitando a riqueza dos seus viçosos e verdejantes pastos e a enorme quantidade água que brota do seu subsolo. Crê-se que a Fajãzinha seja mesmo a freguesia portuguesa com mais água no subsolo. Para além da pecuária apenas existe um restaurante, “O Pôr do Sol” e um pequeno estabelecimento comercial.

A Fajãzinha orgulha-se de ter no seu território algumas das paisagens naturais mais belas dos Açores, muitas delas disputadas com a Fajã Grande, com destaque para as cascatas da Ribeira Grande, do Ferreiro, o Poço da Cascata do Ferreiro, o Miradouro de Fajãzinha e as lagoas do planalto interior da ilha. Por sua vez, entre o seu património edificado destacam-se a igreja paroquial, edificada em 1778, com três naves, divididas por cinco arcos e uma torre sineira, o império do Divino Espírito Santo do Rossio, inaugurado em 1864, o moinho de água da Alagoa, junto à estrada, de duplo engenho e ainda pode laborar e a garagem dos Terreiros, há alguns anos o ponto de partida e de chegada obrigatório para quem se deslocava à freguesia em transporte público. Em frente da garagem, inicia-se também o caminho que conduz à Rocha da Figueira, percurso que se assemelha a uma autêntica escada de pedra. Quase no final da descida, desemboca-se na Lagoinha, um sugestivo paul repleto de ervas aquáticas e de inhames nas suas margens alagadiças e pantanosas.

A freguesia realiza a suas principais festas em honra de Nossa Senhora dos Remédios no último domingo de Agosto, a festa do Patrocínio em Outubro e a do Senhor dos Passos na Quaresma.  Como em todas as povoações dos Açores, as festas do Espírito Santo, no Domingo de Pentecostes, têm uma partícular importância.

A gastronomia local tem como confecções mais específicas a sopa de agrião de água, o inhame com linguiça, o folar da Páscoa, as filhós do Entrudo e os molhos de dobrada, enquanto do seu artesanato fazem parte os trabalhos em vime, nomeadamente cestaria e mobília, fruto da abundância de água da localidade, de miniaturas em madeira de cedro-do-mato e de tapetes em casca de milho.

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publicado por picodavigia2 às 09:34





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