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A POPULAÇÃO DA VIA D'ÁGUA

Sábado, 23.11.13

A Via d’Água era a rua da Fajã mais próxima do mar. Casas haviam, lá ao fundo, que ficavam paredes-meias com o Oceano Atlântico. Por outro lado, era através dela que circulavam todas as pessoas, corções, carros de bois e outras viaturas que se deslocavam para as terras do Porto, do Estaleiro e do Cantinho ou que tinham como destino a orla marítima desde do Respingadouro até ao Pesqueiro de Terra. Este facto, não apenas lhe dava o nome mas também e sobretudo fazia da rua da Via d’Água a única e exclusiva forma de acessibilidade ao mar.

A Via d’Água começava no fim da rua Direita e no cruzamento com a Tronqueira e iniciava-se com uma ladeira bastante íngreme e sinuosa, frente à casa de José Padre, mas que, sobretudo depois da construção da estrada, tinha todas as condições necessárias e ideais para nós miúdos ensaiarmos as corridas de toda a espécie de carripanas feitas de madeira, de canas ou até de milheiros, arquitectadas e construídas por nós próprios e muitas vezes a esquartejarem-se no meio de todas aqueles salientes pedregulhos de calçada romana, mas que nela deslizavam com uma velocidade estonteante. Muitos galos na cabeça, variadíssimos “mamulos” na testa, um sem fim de arranhões nos braços e nas pernas e muitas negras a cobrirem-nos o corpo todo… Tantas maleitas se conquistavam ali, quando uma ou outra das geringonças em que se descia, por vezes, a velocidade vertiginosa e estonteante, ou se desfazia ou, depois de se despistar na curva lá ao fundo, ia enfiar-se nos muros do Furtado ou emborcar-se nos pátios da Catrina.

No cimo da ladeira, à esquerda de quem descia, morava um irmão da minha avó, o António Maria, casado com uma irmã de José Inácio e Jorge e com uma filho e uma filha, tendo esta falecido, ainda muito jovem. Os pais partiram para América com o filho e venderam a casa ao Roberto, natural de Santa Cruz, casado na Ponta e que era responsável por uma loja que existia à Praça, pertença da firma Martins e Rebelo. Paredes-meias ficava a casa dos filhos de Mestre Mariano, os quais também partiram para a América.

Em frente e do outro lado da rua morava a viúva de José Padre, com duas filhas e dois filhos, o Albano e o José Santos, ambos tocadores na Filarmónica Senhora da Saúde. Uma das filhas, a Ana, estudou no Faial fez o Curso do Magistério e era professora do ensino primário, tendo dado aulas na já então escola mista da Fajã Grande, que funcionava no edifício da Casa de Espírito Santo de Baixo, precisamente no ano em que eu frequentei a primeira classe. Dela guardo as melhores recordações como excelente pessoa e óptima professora, tendo inclusivamente aceitado que eu entrasse para escola em Abril do ano anterior ao que devia entrar, precisamente na altura em que fiz sete anos, pese embora não estivesse matriculado.

Numa pequena casa logo a seguir e separada por uma canada que dava para a residência da Tia Xavier, ficava a moradia de João Inácio, um homem pobre mas bom e generoso. Era da idade de meu pai e muito amigo dele. João Inácio trabalhava muito, apesar de sofrer de uma enorme anomalia corporal que lhe dificultava o andar e que por vezes e juntamente com algumas contrariedades de ordem emocional eram objecto de uma injusta e ingrata chacota por parte de espíritos mais atrevidos e trocistas.  Era casado com uma senhora bastante mais nova do que ele e não tinham filhos. Por sua vez a Tia Xavier era oriunda da Quada, irmã do “Baigoret” e era, segundo se dizia, muito rica e dona de muitas terras. Foi ela que fez papel ao Arnaldo, o faroleiro, depois de a casa onde morou com a mãe ser destruída, a quando da abertura da estrada para o Porto.

Na primeira transversal da Via d’Água e do lado esquerdo de quem descia morava o José Pureza, casado com uma filha da irmã do Jos´Tia’Anina e mais um filho. Na mesma travessa e numa casa que pertencia ao farol, ainda viveu, algum tempo, o Arnaldo que era o faroleiro e consequentemente pessoa rica pois era das poucas que recebiam um ordenado. Casara em segundas núpcias com uma filha de tia Gonçalves. Mais tarde foi viver para a casa da Tia Xavier que lhe fez papel e da qual herdou a casa, as terras e o dinheiro.

Nessa mesma travessa ainda moravam os filhos da Genoveva. Eram um grupo de irmãos todos solteiros dos quais se destacava o Albino, notável pela sua capacidade de negociar, de ajudar em tudo e a todos e ser um dos grandes colaboradores em todas as festas e actividades realizadas na freguesia. Era pela festa da Senhora da Saúde que ele montava uma enorme barraca onde para além de vender bebidas, chocolates e “pinotes”, tinha dois jogos muito procurados por todos os forasteiros: o do “boneco” e o da “pesca à cerveja”. Quanto ao primeiro, tratava-se de um boneco de madeira suspenso num balouço a quem, por cinquenta centavos, se atiravam cinco bolas de pano com o objectivo de levar o boneco a dar uma cambalhota, obtendo nesse caso um prémio – um chocolate ou uma bebida. Por sua vez o da “pesca à cerveja” tinha como objectivo de entre seis jogadores a quem era entregue uma cana com um fio e uma argola na ponta, conseguir ser o primeiro a enfiar a argola no gargalo de uma cerveja. Nesse caso o prémio era a própria cerveja ou uma laranjada ou chocolate. O Albino que passava horas e horas a orientar e acompanhar estes jogos, no fim entregava rigorosamente todo o dinheiro à igreja, para as despesas da festa.

Finalmente numa enorme curva que havia ali a meio da Via d’Água e em frente ao fontanário, numa das melhores casas da Fajã morava a mãe do Arnaldo com a neta e filha do primeiro casamento do filho, até à altura em que foi construída a estrada. A casa teve então que ser demolida para desfazer a enorme curva que ali existia.

Antes da abertura do troço da estrada que ligava o Porto da Fajã à Ladeira do Pessegueiro, a meio da Via d’Água havia um chafariz que ficava numa curva junto à primitiva casa do Arnaldo e um pouco antes da do Chileno. Ao redor do chafariz situavam-se várias casas. Antes da curva e à direita de quem descia havia um prédio geminado onde moravam duas famílias: numa a Catrina com uma irmã e na outra um filho do Raulino Fragueiro, o João que ali vivia com a mulher e um filho, tendo os três, também, emigrado.

Mesmo ao lado do chafariz e no vértice da curva, com um pátio sempre a abarrotar de sécias, azáleas, cubres e  de outras flores a separá-la do caminho, ficava a casa de José Furtado, um homem muito inteligente, sabedor e sobretudo um artista de vários ofícios. Ali vivia com a esposa, uma filha e uma irmã, a Marquinhas Furtado, senhora de uma simpatia e ternura admiráveis. O Furtado, dizia-se, tinha “jeito para tudo”, embora nem sempre tivesse muita paciência para com os que o procuravam na demanda de favores. Uma vez fui pedir-lhe emprestada uma chave de fendas. Ele assomou à porta, com uma calma descomunal e um sorriso cínico e perguntou-me apenas: “Quem sabes se queres uma talhadinha de melão!” Chave!? Nem vê-la! Dei maia volta e regressei como chegara – sem nada. Mas foi ele quem, quando o padre Pimentel visitou à América e comprou um motor para a igreja, uma vez que ainda não havia electricidade na freguesia, montou não só o motor mas toda a instalação eléctrica dentro e fora da igreja, esta por altura das festas. Era ele ainda, sempre que necessário, quem punha o motor a trabalhar, lhe mudava o óleo e fazia a respectiva manutenção. Também “arreou” à baleia, sendo o maquinista da Santa Teresinha. Além disso era músico pois fez parte do primitivo elenco de músicos da senhora da Saúde, tocando saxofone, durante muitos anos. O Furtado, no entanto, aborrecia-se e zangava-se por tudo e por nada. Para o arreliar, e dado que se chamava apenas José Furtado, perguntavam-lhe, de vez em quando:

- O senhor só tem Furtado?

Furioso resmungava em voz baixa com um ou outro palavrão:

- Desculpe, - acrescentava o gozador – é que eu pensava que o Senhor só tinha Furtado.

 E ele que nem uma barata!

Do outro lado da Fonte morava o Roberto de José Padre, casado com uma filha da Maria da Ponta e com dois filhos, o Luís e o José. O José faleceu bastante jovem. Andava a pescar sozinho e sem saber nadar, na Poça das Salemas, caiu ao mar e morreu afogado. Contava-se que andando certo dia o Roberto a lavrar uma terra ali para os lados do Cimo da Assumada, como as vacas trabalhavam mal a mulher tinha que “andar à frente” a fim de as conduzir pelo sítio certo. A determinada altura a mulher perguntou-lhe para que lado queria que voltasse. Já muito aborrecido porque a lavra não lhe estaria a correr de feição, o Roberto parou, veio postar-se em frente à mulher de braços abertos, dizendo: “Por onde a minha menina quiser”. O Roberto foi a terceira vítima do acidente do Vale Fundo, embora sofrendo apenas ferimentos ligeiros.

Ao lado desta casa, e em frente à interessantíssima casa do Chileno, numa outra pequenina morava a Irene Cardoso, juntamente com a mãe, uma senhora já de avançada idade e que já não saía de casa. Por sua vez e do outro lado da rua, mas mesmo ali ao lado da casa do chileno, morava a Irene Sapateira, a única mulher da Fajã assumidamente mãe solteira, embora na altura tal estatuto não granjeasse grande respeito e admiração. A Irene tinha vários filhos e vivia na companhia do tio o “Lajone”, que se dedicava à pesca para ajudar a alimentar os sobrinhos, tendo também sido baleeiro, durante muitos anos. O epíteto de Lajone advinha-lhe do facto de alguém ao regressar da América se ter dirigido a ele e saudando-o por: “Olá, Jonh.”

Finalmente e para terminar o penúltimo grupo de famílias cujas almas dos defuntos seriam lembradas na novena das almas nos últimos dias de Novembro, falta acrescentar a Mariana Felizarda, que morava ali em frente à Irene Sapateira. Ficara viúva muito nova, granjeando assim mais notoriedade e vivia numa casa que foi parcialmente demolida para alargamento da estrada, ali mesmo já quase no Porto. O filho Rafael fez parte do elenco primitivo de músicos da Senhora da Saúde, tocando trombone.

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publicado por picodavigia2 às 09:16





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