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RENASCER

Sábado, 23.11.13

Reformara-se novo porque começara a trabalhar ainda garoto. Passava parte das manhãs e as tardes arrastando-se pelos carcomidos bancos dos jardins e avenidas. Apenas entrava num ou noutro café, a seguir ao almoço e entretinha-se, durante algum tempo, a passar os olhos pelo jornal. Depois circulava pelas ruas apático e indiferente, abstraído de sentimentos e absorto em indignação. A vida era vazia de sentido e a cidade parecia-lhe um circo povoado de fantasmas, de arquétipos imbecis e de abantesmas que teimosamente tentavam sobrepor-se à aniquilante solidão que o dominava - um espaço abstruso, quase repugnante e até mesmo inútil, conjugado com um tempo infinito, indeterminado e inaudito. Por vezes, inconscientemente, seguia pela rua da Lapa, virava na do Salgueiros e, cortando à direita, entrava na do Monte Cativo. Estava, assim, vezes sem conta, quase sem se aperceber, em frente à porta de entrada da Semilhas L.da, onde encontrava o Almeida e outros antigos companheiros de trabalho, a quem, na hora do almoço, dava sempre dois dedos de conversa.

Pouco depois afastava-se e recomeçava a caminhar só. O burburinho da rua e o circular constante de transeuntes e veículos davam-lhe uma sensação de imobilidade inútil. Os olhos cravavam-se nos reclames florescentes que teimavam indefinidamente em propagar a sua luminosidade na enorme pertinácia da luz solar. Olhava para as janelas dos prédios onde um ou outro vulto de mulher jovem aparecia e, em sua imaginação, como que se demorava a contemplá-lo. Entrava em mais duas ou três ruas e regressava à Avenida, sentando-se num banco, onde se entretinha-se a atirar umas migalhas aos pombos, ensaiando intermináveis e frustradas tentativas de os contar.

À enigmática insignificância das manhãs e das tardes, misturava-se a pertinente solidão das noites e a tristeza das madrugadas que não floresciam. A viuvez antecipara-se à reforma e ambas se conjugavam, agora, numa conspiração destruidora de projectos e sonhos. Carregava sobre si o estigma duma sociedade cada vez mais industrializada, individualista e competitiva, preocupada, sobretudo, com o consumo e galvanizada pelo avanço tecnológico.

Numa tarde de verão, em que encontrou o Almeida na Baixa, depois de tomarem um café, o Abílio, na tímida tentativa de lhe revelar o tédio enfadonho que continuamente o assombrava, desabafou:

- Sinto-me um subproduto nesta sociedade miserável, caracterizada por uma complexidade evolutiva cada vez maior, onde reina a solidão, o anonimato e o carácter superficial das relações humanas e que rejeita os que já não constituem força de trabalho. Pertenço ingloriamente a uma civilização que transforma os seus membros em consumidores famintos e em abutres desenfreados.

O Almeida, apesar de não o entender muito bem, ouviu-o com atenção. Por fim atirou-lhe de chofre:

- Homem, isto não pode continuar assim! Ainda dás em doido. Tens que dar outro rumo à tua vida... A esperança nunca pode morrer. Não podemos ser nós a acabar com a nossa própria vida, a destruirmo-nos a nós próprios, a não a deixar que os outros nos aniquilem. No fim do mês parto de férias. Tu vens comigo. Isto não é um convite, é uma ordem. Tenho uma casa em Dardavaz perto de Tondela, lá para os lados de Viseu. É para lá que vamos!

A insistência do Almeida foi tanta que, passado algum tempo produziu efeitos.

Circulando pelo IP 5, o Porto, agora, diluía-se numa mais que fragilizada imaginação. À sua frente, bem real, a mais caracterizadamente lusitana das províncias portuguesas - a Beira Alta. Pararam, num miradouro. Para trás ficara Oliveira de Frades e Vouzela. A nascente já se avistava São Pedro do Sul, onde entre casas e arvoredos, proliferavam campos agrícolas e pastagens. Ao redor sobressaíam imponentes, altivas e escuras, um conjunto de montanhas que ora se afundavam ora se erguiam, até se diluírem em lombas de suaves declives ou degenerarem em pisos e fragas abruptas. Lá ao fundo, mais para sul, começavam a desenhar-se os contrafortes da Estrela, que, vista de longe, parecia um monstro baço e obscuro. Misturada com o horizonte, apenas se clarificava pelas suas formas fragosas, abstrusas e opacas. A poente, um maciço, menos agreste e de lombas menos declivosas ia, aos poucos, como que se desfazendo e transformando numa enorme planície interposta entre as montanhas e o mar.

- Ultimamente o concelho de São Pedro do Sul tem-se desenvolvido muito, graças à estância termal, já explorada pelos visigodos, pelos romanos e pelo próprio D. Afonso Henriques, que, segundo se diz, ali terá vindo refugiar-se para se curar duma ferida obtida em combate – explicava o Almeida, que se revelava cada vez mais um perito em questões beirãs.

Viseu surgiu pouco depois. A cidade impunha-se altiva e orgulhosa. Guardiã de testemunhos duma intensa vivência histórica e pré-histórica, Viseu estava ali, como cidade paradigma de um contraste entre o passado e o desenvolvimento moderno, fundamentado na riqueza agrícola, pecuária, vinícola, industrial, comercial e até turística, que toda a região beirã e muito especialmente a sub-região do Dão encerra. Uma visita, embora rápida, deu ao Abílio uma visão da magnífica cidade, com paragens obrigatórias na Sé, monumento dos tempos da nacionalidade. Um magnífico templo de três naves, com as duas imponentes torres românicas, ladeando um frontispício seiscentista, onde se acolhiam as imagens dos quatro evangelistas, de Santa Maria da Assunção e a de São Teotónio, padroeiro da cidade. Em frente, a igreja da Misericórdia e o lado o museu Grão Vasco. Apesar de fechado o Almeida bem explicou que ali, no que fora o antigo Paço Episcopal dos Bispos de Viseu, se encontrava agora um valioso acervo de pinturas, com destaque para alguns painéis quinhentistas, da autoria do patrono. Depois um périplo pela cidade, passando em frente à casa onde nasceu D. Duarte e pelas principais ruas e pelo recinto do Fontelo e da Feira de S. Mateus. O Almeida referiu ainda muitos outros locais de interesse, na cidade e arredores. Ficaria para uma próxima oportunidade. Pacientemente esclarecia o Abílio:

- Existem muitos vestígios históricos nesta região: as antas de Mamaltar do Vale das Fachas, em Rio de Loba e as da Lameira do Fojo, na freguesia do Couto de Cima, o pelourinho de Pevolide, a estrada romana ainda existente em Lordosa. O artesanato também é rico: são as flores de papel de Fragosela, os estanhos de Bodiosa, os linhos de Calde, as rendas de bilro de Torredeita e a latoaria, o ferro forjado e a cestaria de Viseu.

- E a gastronomia? – Interrogava o Abílio – Já ouvi dizer que é de se lhe tirar o chapéu.

- Sim, sim - acrescentava o Almeida – há por aqui umas coisitas jeitosas para acompanhar o Dão. O rancho à moda de Viseu, o arroz de carqueja e o de feijão, o entrecosto com grelos, trutas de escabeche, bacalhau na brasa, a vitela assada, o cabrito assado, os rojões com morcela e batata cozida, não esquecendo os doces como as castanhas de ovos de Viseu, pão-de-ló, arroz doce, leite creme, doces de ovos, enfim, é um nunca mais acabar.

- Isso apenas em Viseu ou em toda a região da Beira Alta? – Interrogava o Abílio.

- Estou a referir-me apenas a Viseu e aos arredores da cidade. Se passarmos a Mangualde, Nelas, Oliveira de Frades, Sátão, Penalva do Castelo, Aguiar da Beira, Castro Daire, tudo se diversifica e aumenta, quer no aspecto histórico, quer no artesanal e no gastronómico.

- Esqueceste Tondela – acrescentou o Abílio? – Será modéstia da tua parte?

- Não, não é modéstia. Tondela é mais do que todas as outras, Tondela é tudo para mim, mas quero que sejas tu a descobrir com os teus próprios olhos. É surpresa, por isso, nada te conto.

 

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publicado por picodavigia2 às 15:26





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