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OS TRABALHOS, AS CANSEIRAS E O FIM DA MINHA BENFEITA (DIÁRIO DE TI’ANTONHO)

Terça-feira, 26.11.13

13 de Novembro de 1946

“Que saudades eu tenho da minha Benfeita. Era o meu “ai Jesus”. Era uma vaca lavrada de preto e branco, com um pelo muito luzidio e um andar muito elegante. Boa de leite e sempre pronta a puxar o arado ou o corção.

Nasceu e foi criada no meu palheiro. A sua mãe era uma vaca toucada que tive durante muitos anos e o pai, um belo touro de meu compadre Mateus. Bem cedo percebi que daquela bezerra se havia fazer uma boa vaca de leite. Não me enganei. Apanhou cria muito nova e logo na primeira vez que pariu, deu-me a lata grande de 12 litros, a transbordar de leite.

Coitadinha! É que cedo, ainda era bezerrinha, meti-lhe a canga e habituei-a ao trabalho. A valente nunca me virou a cara às sementeiras, ao lavrar dos campos ou ao puxar o “corsão” de canguinha, bem carregado, umas vezes de lenha, outras de milho e outras de feitos e cana roca. Ainda nem tinha um ano e já calcorreara o cerrado do Areal três vezes. A primeira faina era a mais árdua e desgastante. A terra estava coberta duma camada de estrume que ela havia carreado, dias a fio. Tornava-se muito rija com os rigores climatéricos do Inverno, por isso tinha que ser lavrada com o arado de ferro, muito mais pesado e com umas aivecas gigantes que perfuravam a terra em grandes sulcos. Mas aquela valente tinha que o puxar de canguinha. Ela lá ia pacientemente, lutando contra a força opositora dos regos sulcados pelo arado e contra os impropérios, insultos, ameaças e, por vezes vergastadas que lhe dava. Pobre coitada! Agora bem me arrependo. Eram horas e horas de trabalho, de esforço e canseiras. No fim estava exausta. Da boca escumava-lhe uma baba esbranquiçada que lhe caía em fios sobre a terra fresca, o corpo cobria-se-lhe de suores, sentia vertigens, quase desfalecia. É verdade que no fim lhe passava a mão pelo lombo, lhe anafava os pelos, lhe fazia uns carinhos e lhe dava umas maçarocas de milho, o que servia de lenitivo para o enorme desgaste e sofrimento. Sim, porque os animais também sofrem e não se queixam. Depois seguia-se o puxar da grade, tarefa não menos árdua do que a anterior, embora bastante mais rápida. É que a terra não podia ficar assim cheia de leivas e torrões, a aquecer ao Sol. Amarrava-a então à uma grade, cravejada de enormes bicos de ferro de um dos lados. Do outro lado colocava-lhe enormes pedregulhos a fim de que os dentes de ferro penetrassem na terra e a alisassem. Passados dois ou três dias a Benfeita voltava ao serrado do Areal. Agora era encangada ao arado de madeira muito mais leve e com uma pequena aiveca de madeira com uma luzidia ponteira de ferro que ia abrindo pequenos regos destinados à sementeira do milho. Eu voltava a atrelá-la ao arado e ela, sozinha e sem ninguém diante, traçava regos paralelos e simétricos de uma extremidade à outra do serrado. A minha Maria seguia atrás de nós e, retirando punhados de milho de uma cesta que levava enfiada no braço, atirava os grãos com tanta agilidade e perícia que eles caiam direitinhos no rego, muito bem alinhados uns à frente dos outros. A Benfeita parava quando era preciso alisar algum torrão com a aguilhada e virava no fim de cada rego que se fechava com o abrir do seguinte, tapando assim os grãozinhos que ali ficavam a germinar durante alguns dias. No fim voltavam os mimos e as maçarocas de milho pois esperava-a, mais uma vez, a grade. A terra tinha que ser de novo gradeada e alisada para que os grãos ficassem todos muito bem escondidinhos e assim germinassem mais facilmente.

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publicado por picodavigia2 às 11:13





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