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MÚSICA DE CANA

Segunda-feira, 02.12.13

A criação de uma Filarmónica na Fajã Grande, no início da década de cinquenta, a chegada à freguesia dos instrumentos, vindos de Lisboa, a Bordo do Carvalho, as lições de solfejo, os ensaios quase diários, na Casa do Espírito Santo de Cima e, sobretudo, a primeira actuação da Senhora da Saúde, no dia sete de Setembro de 1951, a abrilhantar a festa em honra da sua homónima, foram acontecimentos ainda hoje presentes na memória de muitos e que marcaram, significativamente, não só a vida mas também os costumes de uma boa parte da população da Fajã, muito especialmente dos homens e rapazes, nomeadamente dos que constituíam o seu elenco. Mas as próprias crianças da freguesia também se imiscuíram e emaranharam de tal forma com a chegada da Filarmónica Senhora da Saúde, designada, simplesmente, por “a Música”, que até alteraram as suas tradicionais e quotidianas brincadeiras.

Na realidade não havia ensaio, nem muito menos cortejo em que Filarmónica participasse, nem se verificava uma actuação em público que a Música realizasse, sem que toda a ganapada da freguesia não estivesse presente, quer ouvindo os diferentes sons que iam saindo de todos e de cada um dos instrumentos, quer, no caso dos cortejos, correndo em procissão atrás dos músicos e das suas atraentes fardas azuis e brancas. E mesmo quando a Senhora da Saúde era convidada e ia actuar à Ponta ou à Fajãzinha, lá ia a miudagem toda atrás. Um enlevo! Mas um enlevo que cedo se alastrou de forma contagiante e galopante, passando a dominar tudo e todos, a sobrepor-se e até a fazer esquecer muitos outros folguedos, divertimentos e brincadeiras.

O sonho da criançada era ter também uma Música, em ponto pequeno, claro, mas que tocasse, que desfilasse e que percorresse as ruas da freguesia a fim de que todos ouvissem os seus belos acordes e se deleitassem com as suas suaves melodias. Sonhavam os fedelhos imitar os adultos. Se bem o sonharam melhor o fizeram e, cedo se generalizou a ideia de que seriam as canas, tão abundantes na Ladeira e no Outeiro, que devidamente cortadas e trabalhadas, haviam de transformar-se em pequenos instrumentos musicais, nos de sopro, claro, porque bombo, pratos e tarola arranjar-se-iam doutra forma. O bombo era o mais difícil de conseguir. Talvez alguém tivesse um tambor de tocar pelos Reis e Ano-Novo que os havia numa ou noutra casa, mas servia muito bem uma simples peneira das grandes, estragada e abandonada, forrada de papelão que alguém surripiasse lá em casa. A tarola até podia ser a simples tampa de um barril de cal que os comerciantes deitavam fora e os pratos duas tapas de caldeirões ou tachos de alumínio que se haviam de procurar na lixeira das Furnas. Os restantes instrumentos, esses sim, haviam de ser feitos de canas, com muita mestria, arte e engenho.

Canas, havia-as, em grande quantidade, ali perto, na Ladeira, no Outeiro e até no Pico. Mas era preciso saber escolher as melhores. Nem muito secas, nem muito verdes e umas mais grossas outras mais delgadas. Era preciso, também, junto a um dos nós, descobrir a película, isto é, ir cortando a cana, muito suavemente, com uma navalha, até ficar a descoberto a película interior, tarefa ingrata e difícil, pois vezes sem conta, com a cana já cortada ou com o instrumento já construído, esta película rompia-se. Era a película que produzia o som, quando se soprava na outra extremidade do canudo, som que se diferenciava consoante a maneira de soprar, a espessura e o tamanho da cana e ainda com a área maior ou menor de película descoberta. A restante parte de cada instrumento era feita também com canas, com vimes e com espadanas que se iam juntando e amarrando ao tubo inicial e que continha a película já descoberta. A requinta e os clarinetes eram fáceis de elaborar. Bastava, apenas, que a seguir o tubo com a película se deixassem mais dois ou três nós da própria cana, nos quais se abriam buraquinhos, destinados apenas a simular os buracos e as chaves que continham os clarinetes a sério. Depois os trombones que também eram de fácil execução, exigindo, no entanto três canas. Uma semelhante à dos clarinetes, mas mais curta, uma segunda pouco maior do que esta e uma terceira bastante comprida. Para a execução de um trombone eram também preciso um vime ou outra vara maleável e fios de espadana. Os vimes, devidamente cortados, ligavam as pontas das três canas: a da película que se estendia à frente do rosto ligava-se à cana grande, sendo amarradas com a espadana, na posição horizontal. Depois unia-se a parte de trás da cana grande, com outro vime, à outra cana mais pequena, mas na posição vertical, e amarrava-se também com espadana, de maneira a que, esta terceira cana se projectasse, enquanto se soprava a primeira cana, atrás da orelha esquerda. Estava o trombone feito. Com técnicas semelhantes faziam-se os cornetins, as trompetes e até os saxofones, mas estes com as canas dobradas e amarradas em forma de z. Mais difíceis de fazer eram os Contrabaixos, os Bombardinos e as Trompas e, por isso mesmo, raramente, constituíam o conjunto dos instrumentos musicais.

E estava a Música pronta. Escolhia-se o maestro com a sua batuta, enfileiravam-se os tocadores, de dois a dois ou três a três e desfilava-se pela Assomada e pela Rua Direita que era um primor. Nem a Senhora da Saúde a sério! Só que de vez em quando uma ou outra película rompia-se, depois mais uma e outra, três, quatro e, por vezes, até a banda toda. Mas verdade é que mesmo sem película todos tocavam os seus instrumentos, parecendo tudo aquilo, em tais situações, uma perfeita e verdadeira “Cana Rachada”.

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publicado por picodavigia2 às 17:43





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