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OS ABAFADORES DOS BULES DE CAFÉ

Terça-feira, 30.07.13

Se éramos nós, crianças que, noutros tempos, com a nossa imaginação e criatividade construíamos os nossos brinquedos, valha a verdade que, na Fajã Grande, também, pela mesma altura, eram os adultos, com não menos imaginação e outra tanta ou mais criatividade, que construíam grande parte dos objectos necessários ao seu trabalho e às actividades e lides que o seu quotidiano comportava. Entre os muitos e variados objectos de fabrico caseiro ou artesanal estavam os abafadores dos bules de café que existiam em todas os lares e que eram fabricados geralmente pela dona da casa, sendo que a maior parte revelava grande imaginação e assumida criatividade.

Como é por demais sabido, na Fajã Grande o café era, muito provavelmente, a bebida mais consumida. Bebia-se o apetitoso e aromático líquido, feito com uma mistura de favas, chicória e café puro, geralmente misturado com um pouquinho de leite. As favas eram cultivadas por cada um e depois de secas e torradas eram misturadas à chicória e aos grãos de café, comprado geralmente em menor quantidade do que a chicória porque esta era mais barata. Todos estes ingredientes eram misturados e moídos no moinho de café que existia em quase todas as casas, aparafusado numa das paredes da cozinha.

Bebia-se muito café ao longo do dia: ao levantar, pela madrugada, ao longo da manhã, ao jantar, de tarde e por vezes até à ceia ou à noite antes de ir para a cama. Muitas vezes, sobretudo quando se ceifava feitos, lavrava os campos ou sachava o milho, as crianças ou as mulheres iam aos campos levar café acompanhado de pão ou bolo com queijo aos homens que ali realizavam aquelas árduas e cansativas tarefas.

Assim e devido às dificuldades e demoras no acender do lume e ferver a água, muitas vezes com garranchos verdes e alagados, era impossível fazer café a cada hora e a cada momento. Por isso, tornava-se imperioso e necessário que em cada casa houvesse permanentemente café quentinho, mas sem ser feito na altura, o que apenas se conseguia com recurso aos “abafadores”, geralmente feitos pelas mulheres.

O abafador, que mantinha o café quente por muitas horas, era feito com dois pedaços velhos de fazenda da mais grossa possível, geralmente retalhos de casacos ou “camurças” já não usados e que eram cosidos de maneira a formar uma espécie de saco, sendo que a extremidade oposta à da abertura ou era oval ou cóncava, conferindo assim uma ar de maior graciosidade ao abafador que ficaria exposto diariamente em cima da mesa da cozinha ou da “amassaria”, com o objectivo não só de manter o café quente mas também de agradar aos olhares das visitas, sempre curiosas e sempre a meter o nariz em tudo. Depois de feito o simulado saco, por vezes até com bordados laterais, fazia-se um outro também de pano velho e preferencialmente de lã, que serviria de forro e ao qual se dava a forma do primeiro mas que era bastante menor, tendo mais ou menos o tamanho de um bule de café. De seguida eram metidos um no outro e colocava-se no espaço que restava entre ambos, devido à sua diferença de tamanho, uma enorme quantidade de chumaço feito de lã e trapos velhos de forma que o interior ficasse bem cheio como se fosse uma almofada de sofá. Cosidas a boca de um saco à do outro, o abafador ficava completo e pronto a ser colocado sobre o bule, cobrindo-o na totalidade e protegendo-o do frio. Os abafadores adquiriam formas diversas e diversificadas. Uns, os formados por sacos convexos, adquiriam a forma de um semicírculo, enquanto os outros, os de forma convexa, se assemelhavam a uma fralda de criança estendida na corda, a secar. Havia, no entanto, abafadores mais sofisticados e muito mais perfeitos sob o ponto de vista estético, não apenas pela melhor qualidade do tecido mas também pela excelência do chumaço e, sobretudo, pelo formato diferente que lhe davam, sendo que os havia até em forma de galo sentado, com bico, crista e tudo.

O uso dos abafadores diminuiu bastante, nos finais da década de cinquenta, com a chegada à Fajã das garrafas termos ou “garrafas de calor”, como se dizia, inventadas no longínquo ano de 1892 pelo escocês James Dewar.

Mas creio que actualmente os abafadores terão desaparecido por completo por culpa dos modernos, práticos e rápidos microondas.

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publicado por picodavigia2 às 16:40

MAU AGOIRO

Segunda-feira, 29.07.13

(UM TEXTO DE VITORINO NEMÉSIO)

 

A Canada do Búzio era uma bocarra, um deserto. Não se via vivalma. Só as faias da terra e as do norte vingavam ali entre silvas... – suor de sangue! Escorralho do Rei dos Reis coroado por mangação! O lugarejo molhava as suas abas naquele mar podre e morto, a matutar como um tolo nos penedos da Ponta do Cavalo vigiada dos garajaus – ou então, bravo e alto, fora de suas estribeiras, atirando a espuma às poças.

Era daí que uns pinheiritos – poucos mas bons e baixos como uma quadrilha de ladrões – se atreviam a subir com os braços cheios de pinhas: uns, cornudos e torcidos; outros, esbracejando direitos no meio da lava e dos faiais. Pareciam talhados nos lombos verdes do mar e atirados vivos à costa. O vento carpinteiro levava-lhes a agulha e o cheiro delicado da resina. Vento excomungado, que parecia falar-lhes ao ouvido: «Abriguem-se vocês! Vá... Abaixem-se aí!»

A casa da Cacena ficava plantada neste inferno. A Canada do Búzio parecia uma goela aberta à noite. Vizinhança – nenhuma. Só de verão havia um pouco de alegria e de cor nalguma maçã madura. O mês de Abril começava a consolar quem no via carregado de flores brancas e de botões cor-de-rosa...

Ah! Mas, dobrado o cabo de Todos-los-Santos e dos Fiéis Defuntos, a casa da Cacena era uma barca à flor do mar das vinhas. Turvava-se tudo. O cebolinho de ao pé do forno ficava de cabelo ceifado: Aqueles casebres mais pareciam fojos de bruxas do que tectos de gente baptizada. Se não fosse algum molho de palha que o Menino Jesus sempre acende, o Inverno era frio como a neve e negro como um tição.

Ora, seriam umas três da manhã (água, se Deus a dava!) quando João se ergueu do quente da enxerga e disse para a velha:

– São horas, minha Mãe! Aqueça-me uma pinga de leite...

A Cacena era uma triste mulher, sozinha neste mundo. O Rei, ou lá quem quer que é que bebe o sangue dos pobres, tirara-lhe o bordão da velhice mandando-lhe o filho às sortes e levando-o para o Castelo. De nada serviram os pedidos ao Doutor, a este e àquele: os cambos de ofertas; os presentes; uma ave ou duas debaixo do lenço, algravitadas, bravas nos corredores. Tempo perdido! O rapaz ficou apurado para caçanha. E então veio a recruta, com madrugadas, frios, muito poucas dispensas... As correias da mochila levaram-lhe uma tira do lombo; as botas do Casão fizeram-lhe um calo de sangue. Enfim, já praça pronta, houve a peste numónica em Santa Bárbara e ele foi destacado lá para os quintos...

Entretanto a triste Necessidade (a feiticeira!) fazia o seu pé de alferes à porta da casa sem homem. Primeiro, a coivinha atempou; passante disso, morreu a leitoa empachada. E um belo dia, de manhã, um tição de lume queimou as faias da cozedura, o fogo passou-se à copeira, e, ementes o diabo esfrega um olho (cruzes!), o forro do sótio ardia todo. Acudiu-lhe a vizinhança em peso (ninguém está livre de trabalhos!) e à força de água e de machado salvaram o resto da poisada – seja pelo santo amor-Deus!.

Quando João soube disto, no Castelo, chorou malaguetas curtidas e quase se pôs de joelhos:

– Só uns dias meu promeiro! Foi a casinha que me ardeu... A prove da minha mãe stá pràli sozinha, sem ter quem no ganhe...

Então o Capitão, com pena dele, fez «cantar à Ordem» aqueles três diazinhos «a benefício dos fundos do caldeiro», como se dizia na Peluda. João andou a tirar umas esmolas para ajuda da casa, com dois amigalhaços, como quem pede para toiros. Um deu vinte tábuas de forro; outro, uma mancheia de telha; outro, os barrotes, de amor-Deus. O Niquinha tirou dois dias de obras, e lá levantaram ambos a cozinha, com frechais e asnas novas.

– Que mais quer, minha Mãe? – Disse ele, cobrindo a velhota de beijos. – Nem que vossemecê se tornasse agora a casar... Nã l’há-de chover pinga dentro, se Dês quiser!...

E, com efeito, não choveu. Mas vem o caim dum pé de vento, uma noite, e leva de guinda o postigo envidraçado para cima duma riça de silvas.

– Mais fizera a Nosso Senhor Jasu-Cristo! – cramou a Cacena resignada, de mãos postas. E pôs um rolho de trapos no buraco do seu postigo.

Mas desde esse dia reparou que, muito madrugada, mal luzia o buraco, vinha um biquinho esfregar-se melgueiramente no chumaço, e logo, pela calada, três unhinhas de nada riscavam. Aquilo era no batente – ora, se não! O certo era que se não ouvia mais nada senão dali a um pedaço: Umas asinhas miúdas vinham espenujar-se no trapo; uns pios de aflição pareciam picar-nos o juízo como pontinhas de alfinetes.

Era ao azular da hora de alva. No quarto da pobre Cacena, por cima da cama, a telha de vidro ia-se enchendo de flor de anil e azulão, a todo o comprimento; e, assim abaulada, cismava-se no caixão de um pagãozinho que um anjo levava para o céu.

Três dias e três noites a fio a Cacena malucou naquilo. Afinal... – labandeiras!

Eram as labandeiras! São passarinhos brandos de asa, de rabo de forquilha, que às vezes malucam nos caminhos em riba de burgalhaus, e que, ao ouvirem o passo mais à toa, tremem da passarinha, dão duas guinadas de espreita e põem-se ao fresco, todas repatanadas, até encontrarem solidão.

Desde menina que a Cacena com elas vivia e labutava, mas benzendo-se:

– não porque levem bruxedo, mas porque a triste sina se apega adonde elas apontam os biquinhos. A coderniz é pior. Quando Herodes mandou botar o bando e degolar os Inocentes, que José prantou a Senhora mai-lo Menino na burra e abalou para o Egipto, as codernizes, amassadas nos restolhos, davam fé daqueles santos pelingrinos e, voando baixo, toca a chocalheirar:

– «Cá vão eles! Cá vão eles!»

Vitorino Nemésio, O Mistério do Paço do Milhafre, 1949

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publicado por picodavigia2 às 16:36

MANGÃO

Segunda-feira, 29.07.13

Se consultarmos o site oficial da Câmara Municipal das Lajes das Flores e procurarmos em “freguesias” Fajã Grande, poderemos ver, entre outras informações, umas dez linhas dedicadas à gastronomia, nas quais, para além das filhós, do pão doce ou massa sovada e dos doces tradicionais (arroz doce e bolos caseiros) se referem os seguintes pratos típicos, também considerados “iguarias da freguesia da Fajã Grande”: Enchidos, Carne de Porco Salgada, Mariscos, Lapas, Peixe, Pão de Milho, Bolo de Milho, Batata-doce e Inhame.

Na realidade todos estes comeres não se podem considerar propriamente iguarias, ou seja comidas preparadas ou cozinhadas, mas sim produtos ou géneros alimentares com que se confeccionavam e muito provavelmente ainda se confeccionam os tais pratos típicos que o site não refere, embora, na realidade, excepcionando o marisco que não era usual nos cardápios de antanho, todos os outros alimentos indicados faziam parte da alimentação quotidiana fajãgrandense. Obviamente que numa terra pobre e tendo em conta as limitadas condições de vida da época e a falta de produtos, de meios e, até de tempo, não se pode falar de uma cozinha rica, variada e abundante. Apesar disso, confeccionavam-se alguns destes alimentos de forma própria, única, típica e talvez mesmo, nalguns casos, exclusiva da Fajã Grande. É a esses cozinhados ou aos pratos deles resultantes que se pode, em abono da verdade, chamar pratos típicos, como era o caso da caçoila e das sopas fritas ou até da linguiça já referenciados neste blogue.

Havia no entanto alguns outros pratos, um dos quais o célebre Mangão, em que o elemento base era a batata branca e geralmente preparado quando não havia conduto para acompanhar as próprias batatas, o que acontecia com muita frequência. Aliás e pela sua estrutura e ingredientes percebe-se que este é um prato que terá nascido simplesmente do facto de não se ter nada para comer, a não ser as batatas. Assim, duma limitação ou duma ausência cria-se um prato típico, o que não é inédito na culinária portuguesa, bastando para tal recordar a razão que levou os habitantes do Porto a inventar e confeccionar as tripas à moda do Porto: simplesmente porque durante as invasões francesas, os franceses comiam a carne, deixando-lhes apenas as tripas. Houve que inventar e que criar. O mesmo terá acontecido com o nosso Mangão, com a diferença de que não foram nem os franceses nem outro povo qualquer a comer-nos o conduto. Este simplesmente não existia.

Para confeccionar o Mangão, para além das batatas brancas cozidas, era necessária banha de porco, preferencialmente daquela que cobrira a linguiça, cebola e alho picados. Uma vez derretidas duas ou três colheres de banha, num caldeirão de ferro, alouravam-se a cebola e o alho. As batatas, previamente cozidas, eram bem esmagadas com um garfo até ficarem desfeitas e, quando o refogado estava pronto, adicionavam-se ao mesmo. Depois era tudo muito bem mexido para que as batatas e a cebola ficassem bem envolvidas e misturadas. O Mangão estava pronto e era servido directamente do caldeirão de ferro para os pratos, a fim de se comer bem quentinho.

Ainda não há muito tempo, através de um telefonema duma amiga dos meus tempos de infância, fui informado que na casa dos seus pais e possivelmente nalgumas outras, se comia o Mangão polvilhado com açúcar. Penso que este costume, por mim desconhecido, terá a sua origem numa “estória” que se contava, nos meus tempos de infância, de um navio carregado de açúcar que em tempos idos, naufragou na Fajã Grande. Tanto foi o açúcar que se espalhou pelo baixio que o povo encheu sacos e sacos e trouxe-o para as suas casas, utilizando-o como tempero em substituição do sal.

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publicado por picodavigia2 às 16:34

DESESPERADAMENTE À PROCURA DA LAVRADA

Domingo, 28.07.13

O Manuel Branco morava numa casa bastante isolada, lá para os fundos da Tronqueira, quase no cimo da ladeira do Calhau Miúdo. Era um homem pobre, honrado e trabalhador mas muito ingénuo e simplista. Esta última qualidade permitia que a garotada da freguesia, com mais frequência do que a tolerada pela paciência humana, lhe pregasse algumas partiditas, umas inocentes e jocosas outras malévolas e arreliadoras. O Manuel, porém, paciente e com uma muito limitada capacidade de revolta e indignação, lá ia vendo, ouvindo, calando e suportando tudo.

Certa noite de que se haviam de lembrar os ganapelhos? O Manuel, mesmo ali em frente da casa onde morava, tinha o “ai Jesus” da sua árdua labuta quotidiana: um cerrado de milho do melhor que havia, bem crescido e verdinho, já espigadote, à espera do estio para que amadurecesse, fosse apanhado, “encambulhado” e pendurado no estaleiro, a fim de lhe garantir o sustento da família ao longo de todo ano. Ao lado da casa e ao fundo do pátio ficava o pequeno palheiro onde guardava a Lavrada, a única vaca que possuía, na qual havia pendurado ao pescoço uma campainha de som inconfundível aos ouvidos do dono, como era uso e costume na Fajã.

Alta noite, enquanto o Manuel e todos lá em casa dormiam regaladamente, vão os “monços” ao palheiro, tiram a campainha do pescoço da Lavrada e escondem-se entre o milho, fazendo propositadamente algum barulho e simulando um badalar da campainha, a imitar, na perfeição, as lentas passadas do animal.

Foi a mulher quem primeiro acordou assarapantada: 

- “Credo! Sante Nome de Jasus! Virge Santísema! Home, acorda! Nan oives? A nossa Lavrada assoltou-se e está a dar cabo do nosse milhinhe tode”!

O Manuel deu um pulo e, mesmo em “ciroillhas”, com a Jesuína atrás, em “naitigão”, a insuflar-lhe coragem, assomou à porta e, ouvindo a campainha da vaca, cuidou que de facto ela se soltara do palheiro e andava por entre o milho. Muito aflito e atrapalhado, atravessou o pátio que separava a casa da terra, saltou o muro e começou a chamar pelo animal, na tentativa de o apanhar:

- “Lavrada! Lavrada!  Ou vaca, ou”!

Contendo as gargalhadas, continuaram os atrevidotes a simular, com o toque da campainha, que era o animal que por ali andava, fazendo estalar de vez em quando e propositadamente um ou outro pé de milho. O Manuel entrou desesperadamente na terra, correndo como um louco à procura da vaca, chamando por ela e incentivando-a a parar. Mas quanto mais corria e chamava, mais o som da campainha se afastava e fugia.

- “Ora essa”! – Resmungava a mulher – “Uma vaca assim tan mansa! Parece que tem o diabe no corpe”!

Procuraram toda à noite mas a vaca nunca apareceu. Só de madrugada quando regressavam a casa, quer porque já não ouvissem o som da campainha quer porque começassem a desconfiar de que ali havia marosca, foram ao palheiro. Encontraram a porta bem fechada com a taramela e a Lavrada amarrada e deitada no seu canto, muito calma e tranquila, a ruminar a sua ceia, como se nada tivesse acontecido, mas… sem a campainha ao pescoço. Só então deram conta do embuste.

E a campainha? Bem, essa só apareceu na altura da apanha do milho.

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publicado por picodavigia2 às 10:51

FF

Domingo, 28.07.13

As Farturas são uma especialidade portuguesa, adaptada dos finos churros espanhóis, mas mais grossas e substanciosas. Feitas com uma massa especial, à base de farinha, açúcar e ovos, as farturas, depois de fritas em óleo bem quente, são polvilhadas com açúcar em pó e canela, também, em pó, tornando-se um pitéu muito apreciado e saboroso. A massa, para o seu fabrico, é colocada numa espécie de seringa gigante que as vai despejando circularmente sobre o óleo a ferver, dando-lhe a forma de uma banana ou de um uma linguiça e que depois é cortada em grandes pedaços. Por sua vez, as filoses, tipicamente açorianas, são feitas com uma massa muito semelhante à massa sovada, mas menos doce e, depois de esticadas com a mão, são colocadas a fritar, adquirindo uma forma redonda ou oval. São também muito apreciadas e comidas sobretudo por altura do Carnaval ou de outras festas.

Não há nada como comer uma fartura ou uma filó, ainda quentinha, com o cheiro da massa e, sobretudo, o da canela, misturados com o barulho das tesouras e dos clics dos corta-unhas, de uma pédicure cuidadosa e meiga. São luzes coloridas que suavizam e aliviam a dor e o sofrimento.

No entanto, é necessário ter em conta que o consumo regular de alimentos fritos como as farturas ou as filoses está associado a um risco aumentado de desenvolvimento de doenças diversas. Mas são sobretudo os doentes que sofrem de insuficiência renal que se devem abster quer das farturas quer das filoses, não apenas por serem fritas mas também por conterem grande quantidade de gema de ovo, muito rica em proteínas. Essa a razão por que eu próprio devo, também, abdicar totalmente da saborosa, apetecível e muito apreciada FF.

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publicado por picodavigia2 às 10:47

O LUGAR DA RIBEIRA DAS CASAS

Sábado, 27.07.13

Um dos mais emblemáticos lugares de quantos existiam na Fajã Grande era o da Ribeira das Casas, situado logo no início do caminho que dava para a Ponta e que era atravessado por uma Ribeira com o mesmo nome. Confrontava a sul com o Calhau Miúdo, o Mimoio e as Águas, a leste com o Pulo e a Rocha e a norte com as Covas e o Vale do Linho, enquanto, a oeste, ficava separado do mar pelo Rolo. Era uma zona fundamentalmente de relvas, muitas das quais, transformadas em lagoas, mas também existiam, por ali, algumas terras de cultivo. Este lugar, talvez por ser atravessado por uma ribeira e, consequentemente, ser abundante em água, era a zona da Fajã em que havia mais e melhores lagoas as quais possuíam nascentes de água de óptima qualidade. Meu pai tinha uma lagoa mesmo ao lado da ribeira e junto a uma outra pertencente ao Fernando de Tio Manuel Rosa, a qual tinha a melhor nascente das redondezas. Muitos transeuntes que por ali passavam, quer os que iam ou vinham da Ponta, quer os que trabalhavam os campos aquém e além, ou os que transportavam por aqueles caminhos molhos de erva, de incensos ou de lenha, paravam ali, num largo que havia mesmo ao lado da ribeira, na margem esquerda, no cruzamento do caminho com uma canada que dava para o Mimoio e para a Ribeira, a fim, não só de descansarem mas também de se refrescarem com aquela saborosíssima água. Mas era sobretudo durante a altura de “tirar o sargaço”, no Rolo, ou no tempo de o acarretar para os campos que a água da lagoa do Fernando, transportada em gigantescas folhas de inhame, abastecia quantos se dedicavam àquela faina. Possuíam também lagoas na Ribeira das Casas o Alfredo Lourenço, o David, o Gil, Ti Manuel Luís e o Manuel Dawling, entre outros. Por sua vez as relvas existentes naquele lugar pertenciam ao Mancebo e ao Gil, enquanto os proprietários das terras de cultivo eram Ti José Cardoso, o João Barbeiro, o Gil, o José Ti’Anina, o Manuel Dawling e a Maria José Fragueiro, sendo a sua propriedade trabalhada pelo António Teodósio.

Era também no lugar da Ribeira das Casas que ficavam todos os moinhos da Fajã. Na margem direita havia três: dois pertencentes a Ti Manuel Luís e um ao Manuel Dawling, enquanto que na margem esquerda havia um só moinho, o do Engenho, que teve vários proprietários, acabando, mais tarde, por ser abandonado.

Quanto à Ribeira das Casas, nascia no Mato, para os lados dos Cabeços e do Miradouro, entre o Queiroal e a Burrinha, por onde deslizava, ladeada por tapumes de hortênsias e bardos de queirós. À entrada para o Queiroal, o seu leito era profundamente alterado, tornando-se irregular, abrupto e desnivelado, devido, sobretudo, a um enorme, fundo e enigmático buraco, designado por “Caldeirão da Ribeira das Casas” dentro do qual a água caía em cascata e que, em tempos de chuvas e tempestades, até ovelhas arrastava por ali abaixo. Depois a Ribeira deslizava até à zona do Bracéu, recebia como afluentes algumas grotas e despejava-se abruptamente pelas encostas da Rocha das Covas, caindo em cascata no mítico Poço do Bacalhau. De seguida atravessava o vale formado pelas Covas e pelas Águas, recebia o seu maior afluente, a Ribeira dos Paus Brancos e corria lentamente até ao mar, alimentando moinhos e distribuindo água pelas lagoas limítrofes. Entre a entrada para os moinhos de Ti Manuel Luís, na margem direita, e o largo que dava para o Mimoio, na esquerda, havia uma estreita e frágil ponte de madeira, destinada apenas à travessia das pessoas. Por baixo da ponte havia umas pedras enormes e ásperas que ora serviam de passadeiras ora de lavadouros para muitas mulheres que ali iam lavar a roupa e que, por vezes punham a coarar nas relvas ali ao lado. Os animais e os carros de bois ou corsões transpunham-na atravessando a água.

Ainda hoje se não sabe se foi a Ribeira que deu nome ao lugar ou o inverso. No entanto, acerca da origem deste interessante topónimo ouvi várias vezes, quando era criança, a pessoas de mais idade, que o referido lugar e a ribeira receberam o nome de “das casas” porque ali se teriam fixado os primeiros povoadores e ali teriam construído as suas primitivas habitações. Mas devido a uma enorme ribanceira caída da Rocha todas as casas ficaram soterradas, sendo a população forçada a deslocar-se para o local onde hoje se situa a Fajã Grande. E a verdade é que os vestígios de uma enorme ribanceira lá estão, na margem direita, ao lado do Poço do Bacalhau, no sítio denominado por Covas. Se debaixo da mesma se encontra soterrado um antigo povoado só escavações realizadas naquele local o poderiam demonstrar, o que provavelmente nunca acontecerá

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publicado por picodavigia2 às 18:45

FP

Sábado, 27.07.13

Quer os Fritos quer os Panados devem ser evitados e banidos dos nossos menus e cardápios diários, sobretudo, quando se trata da alimentação de doentes, muito especialmente, dos que sofrem de insuficiência renal. Primeiro, porque há sempre que ter em conta que as próprias gorduras de que o nosso organismo necessita, não precisam de serem fritas! É verdade que precisamos de alguma gordura para sobreviver, mas não necessitamos de Fritos e Panados para perdurar! A fritura é um superaquecimento, quer da gordura animal, como a banha de porco, quer de gordura vegetal, como os óleos vegetais, sendo que actualmente, com o objectivo de melhorar a saúde e a qualidade de vida, os óleos vegetais são os mais utilizados quando se fritam alimentos. Mas mesmo quando realizado com óleos vegetais de boa qualidade, o aquecimento exagerado das gorduras transforma-as em gordura com uma qualidade nutricional que deve ser total e absolutamente eliminada da alimentação humana. Não se deve considerar apenas a qualidade do óleo utilizado, mas também o tempo que o alimento fica em imersão, no mesmo, assim como o tempo durante o qual o óleo está a ser aquecido.

De uma maneira geral, quando se tiver que realizar qualquer tipo de fritura, esporadicamente, deve-se utilizar um óleo vegetal de qualidade e aquecer o menor tempo possível, pois quanto maior o tempo e maior a temperatura, mais alterações o óleo original sofre. Nunca se deve reutilizar o óleo da fritura na alimentação e o ideal, sobretudo para os doentes que sofrem de insuficiência renal, é banir, por completo, o uso de alimentos fritos ou panados.

A fritura faz com que ocorram alterações químicas no óleo utilizado, deixando de ser uma fonte de gordura insaturada, fundamental para nossa saúde, dando lugar a uma gordura saturada, que, consumida em excesso, pode causar diversas doenças. A fritura pode também promover a formação das gorduras que provoquem o aumento de doenças cardiovasculares e promover a formação de uma substância chamada acroleína, que é altamente cancerígena.

Há estudos que indicam que os principais problemas de saúde relacionados com estes tipos de gorduras encontradas nos fritos e panados, quando consumidos em excesso, são, entre outros, as doenças cardiovasculares, o aumento da pressão arterial, o desenvolvimento de cancro, a redução do crescimento, a má absorção de nutrientes e a diminuição da fertilidade.

É que o excesso de gorduras já é facilmente alcançado pela alimentação habitual, uma vez que temos outros alimentos que nos fornecem essas gorduras e que são consumidos, diariamente, pela maioria da população, como carnes, leites, queijos, bolachas, biscoitos, produtos industrializados, sorvetes, etc. Ou seja, sem nos apercebermos, consumimos muito mais do que deveríamos, relativamente a gorduras, pelo que não necessitamos de fritos ou panados.

Desta forma, os fritos e os panados devem ser consumidas esporadicamente ou banidos por completo da nossa alimentação e a substituição destes tipos de gorduras por opções mais saudáveis deve ser realizada diariamente, associando a adopção de outros hábitos alimentares mais saudáveis, para garantir prevenção de doenças e a optimização da saúde. Sendo assim, os alimentos que se não podem comer crus devem ser grelhados, simplesmente, cozidos ou assados. Além disso, não devemos nos esquecer de ingerir diariamente alimentos que são fontes de gorduras de boa qualidade.

Tudo isto se aplica, com muito mais rigor e solidez aos doentes que sofrem de insuficiência renal. Essa a razão por que abdico ou, pelo menos, evito, diariamente, de  FP. É como se de uma espécie de escola de condução se tratasse, que me ensinasse a conduzir por estradas e caminhos, pejados de pedregulhos e silvados ou por mares cheios de baixios e escolhos e um miraculoso M me afastasse destes perigos.

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publicado por picodavigia2 às 18:42

PIERLUIGI BRAGAGLIA

Sexta-feira, 26.07.13

Da autoria de Pierluigi Bragaglia, foi recentemente editado e publicado um livro intitulado “Ilha das Flores – Açores Roteiro Histórico e Pedestre”. Trata-se duma obra de grande qualidade, rigor e interesse que retrata de forma clara e inequívoca aspectos históricos, informativos, paisagísticos e naturais interessantíssimos sobre a mais ocidental ilha açoriana.

O livro divide-se em quatro partes às quais se segue um anexo com fotos de excelente qualidade sobre os lugares e paisagens mais emblemáticos da ilha. Na primeira parte, o autor faz uma resenha histórica das Flores, desde os primórdios do seu povoamento até aos nossos dias, desenvolvendo, com recurso a outros historiadores e obras sobre a ilha, vários temas importantes com destaque para o povoamento, a pirataria, a baleação e a emigração. Nas partes seguintes Pierluigi Bragaglia faz uma espécie de viagem, em três etapas, ao redor da ilha: uma de Santa Cruz às Lajes, dando a conhecer as duas vilas e toda a costa sudoeste, abrangendo as freguesias da Caveira, Lomba e Fazenda (II Parte); outra descrevendo o sudoeste, as lagoas e o estremo ocidental europeu, onde surgem as freguesias do Lajedo, Mosteiro, Fajãzinha e Fajã Grande e ainda as localidades da Costa, Caldeira, Cuada e Ponta (III Parte); finalmente o autor viaja pelo norte na descoberta de Ponta Delgada e Cedros, com destaque ainda para a localidade da Ponta Ruiva (IV Parte). Cada uma destas partes, por sua vez, divide-se em capítulos sobre as localidades abrangidas por cada zona, sendo que e relativamente a cada uma, o autor, para além de identificar, informar e pormenorizar todos os trilhos existentes, faz um resumo histórico de cada vila freguesia ou localidade, terminando cada capítulo com um conjunto de informações actualizadas sobre cada uma das freguesias da ilha.

No que concerne à Fajã Grande, Pierluigi Bragaglia apresenta dados históricos de grande interesse e rigor sobre a mesma, menciona os seus filhos mais ilustres, descreve os naufrágios que por ali proliferavam outrora, a importância da freguesia na origem da baleação açoriana e a emigração clandestina no sec XIX, referindo ainda dados históricos respeitantes aos lugares da Ponta e da Cuada. Relativamente aos trilhos fajãgrandenses enumera e descreve os seguintes: “Vigia da Baleia (subida ao Pico da Vigia)”, “Assomada – Cuada - Paus Brancos - Escada Mar – Fontinha”, “Rocha da Fajã e Lagoas Negra – Comprida, Seca, da Água Branca” e “Poço do Bacalhau”. Finalmente realça o antigo itinerário entre a Fajã e Ponta Delgada, considerando que este antigo caminho pedestre constitui ainda hoje a única via de comunicação terrestre entre estas duas freguesias.

Por tudo isto o livro não é apenas “mais um livro” sobre as Flores mas sim uma espécie de enciclopédia de consulta sobre o passado e o presente da ilha, com destaque obviamente para os seus itinerários ou roteiros, o qual pode ser consultado a cada momento, sobretudo para quem visita a ilha ou dela se afastou há muitos anos. Na realidade este Roteiro Histórico e Pedestre das Flores assume-se, como afirma o próprio autor “como um manual de instruções ambivalente, uma ferramenta para quem esteja interessado, por um lado, em pesquisar as diversas temáticas históricas que a ilha inspira, por vezes aqui reinterpretada com outro olhar.”

O livro está à venda e pode ser adquirido pela Internet, através do seguinte contacto: infoarrobaargonauta-flores.com ou pelo telefone 292552219.

Pierluigi Bragaglia é natural de Medicina, Bolonha, Itália e reside desde há quase duas décadas na Fajã Grande das Flores, terra a que dedica uma atenção inexaurível e um carinho desmesurado. Possui um currículo académico e literário notável. Em 1992, licenciou-seem Ciências Políticaspela Universidade de Bolonha, com uma tese de História Moderna sobre os Açores e a Madeira, orientada pelo Dr. Joel Serrão. Depois de ter estudado Português na Faculdade de Letras, licenciou-se em História na Universidade Nova de Lisboa, em 1995. Entre 1995 e 1996 passou a ser Sócio-Gerente da editora Jornal de Cultura de Ponta Delgada, Ilha de São Miguel, participando na abertura da filial daquela empresa no Funchal, Ilha da Madeira.

Na Fajã Grande das Flores, desde 1991 é proprietário e gerente do Argonauta, situada na esquina da Rua Direita com as Courelas, naquela que foi a casa da Sra Alvina. Para além de alojamento de qualidade, Pierluigi ainda disponibiliza aos visitantes da ilha serviços de transporte e prestações de guia turístico e cozinha para os hóspedes. Paralelamente continua a trabalhar na pesquisa histórica e a escrever de modo independente, colaborando por vezes com as autarquias locais, tendo escrito, para além de outros livros, uma importante obra sobre os lacticínios, na Ilha Flores.

 

NB – Este texto foi publicado no blogue “Pico da Vigia”, em 31/01/10

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publicado por picodavigia2 às 09:53

NOITINHA

Sexta-feira, 26.07.13

(UM POEMA DE ALFRED LEWIS)

 

O sol cerrou a porta!

De pouco a pouco o silêncio cobre

Aldeia e campos. Deus, como sempre

Acende os astros, grandes e pequenos,

E padeja carvão para acender a lua.

 

Com seu bordão de cedro Ti Corvelo sai

Com passos certos sobre as pedras lisas,

Que o vão levar ao templo

Para tocar o sino e chamar o povo

Em oração nocturna

Ao pastor santo que nos vê e guia.

 

Um vapor branco

Com bandeiras de mastro a mastro

Desliza-se no mar, perto da praia,

De rumo contra as nuvens espalhadas

Em baixo, lá, sobre a linha do pego.

 

Sobre uma parede

Balanceando as pernas, um rapaz toca

Uma gaita americana.

Um grilo, curioso, começa e pára

A toada do costume

Com que saúda a chegada da noite.

 

E o cheiro da comida!...

Bonito assado ou bolos no forno

E um caldo de agrião,

Soletram ceia para a gente

Nos sentarmos à mesa da cozinha.

 

Mais tarde, sob uma colcha tecida na terra

E um lençol crespo de linho

Iremos escutar passos lá fora

Da gente de outro mundo

Perdido, a chorar, na solidão das horas,

 

Até que o sono bata à porta e entre.

 

Los Banos, Cal. 8-III-73

            Alfred Lewis, (natural da Fajazinha, ilha das Flores, viveu e faleceu nos USA)

Aguarelas Florentinas e outras poesias,

Angra do Heroísmo, Serviços de Emigração, 1986.

 

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publicado por picodavigia2 às 09:46

DUAS DA TARDE LISBOA À VISTA

Quinta-feira, 25.07.13

(POEMA DE PEDRO DA SILVEIRA( 

 

Primeiro, a água era azul:

puro espelho celeste.

Depois, tornou-se verde:

Opaco verde de desgosto.

 

Agora é barro dissolvido:

Terra

de Portugal que o Tejo incita

a descobrir as Índias

e Américas ainda

por encanto encobertas.

 

– De quem o lenço que acena,

acolá,

do cais?

 

Pedro da Silveira Eu Fui ao Mar às Laranjas

 

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publicado por picodavigia2 às 16:29

AMENDOIM

Quinta-feira, 25.07.13

O amendoim, nos Açores e, por influência californiana, chamado “pinotes”, é uma planta da família Fabaceae. Embora confundido, por vezes, com noz, o amendoim é um membro da família da beterraba-marinha e o seu fruto é do tipo vagem. A planta do amendoim é uma erva, com um caule pequeno e folhas trifolioladas, com abundante indumento, raiz aprumada, medindo entre 30 a 50 de altura. As suas flores são pequenas, amareladas e, depois de fecundadas, inclinam-se para o solo, a fim de penetrarem na terra, uma vez que o fruto do amendoim se desenvolve debaixo do solo.

O amendoim é uma planta originária da América do Sul, mais concretamente, do Brasil, Paraguai, Bolívia e Argentina, ou seja, na região do Chaco, incluindo os vales dos rios Paraná e Paraguai. A Argentina, mesmo transfigurada, em tempos ancestrais, em UB, a transbordar beleza e sedução, apesar de agora distante, longínqua e desgastada, ainda é, actualmente, o maior produtor mundial de amendoim.

A difusão do amendoim deveu-se aos indígenas que o levaram para as diversas regiões da América Latina, América Central e México. No século XVIII foi introduzido na Europa pelos Baptistas e, no século seguinte, difundiu-se na África e nas Filipinas, China, Japão e Índia, para onde foi levado, sobretudo do Brasil e do Peru.

O amendoim tem uma enorme importância económica, principalmente, na indústria alimentar. Algumas variedades de amendoim têm uma grande quantidade de lípidos e têm sido utilizadas para o fabrico de óleo de cozinha. Em várias regiões de África, o amendoim é moído, a fim de, com a farinha daí resultante, cozinharem vários pratos da culinária local, que ficam assim mais ricos em lípidos e proteínas.

O consumo mais popular do amendoim é feito não só forma dos grãos torrados ou até crus mas também transformados em manteiga de amendoim. A principal utilização da manteiga de amendoim é em casa, mas grandes quantidades são também utilizadas na produção comercial de sanduíches, doces e produtos de panificação. O amendoim também é largamente utilizado como recheio ou componente de chocolates e bombons, sendo ainda consumido no formato de bolo e sorvete.

Óleo de amendoim é frequentemente utilizado na culinária, porque tem um sabor suave e queima a uma temperatura relativamente elevada. O amendoim também é usado para a alimentação de aves de jardim. Os amendoins têm uma variedade de usos finais industriais para o fabrico de tintas, vernizes, óleos lubrificantes, roupas de couro, mobiliário polonês, insecticidas e nitroglicerina são feitos de óleo de amendoim. O sabão é feito de óleo de saponificada, cosméticos e muitos contêm óleo de amendoim e seus derivados. A porção de proteínas do óleo do amendoim é usada no fabrico de algumas fibras têxteis.

A nível industrial, até as cascas do amendoim são aproveitados no fabrico de plástico, gesso, abrasivos, e combustível e, também, para fazer celulose rayon, cola e mucilagem. A parte aérea da planta de amendoim é utilizada para fazer feno. O bolo de proteína (farelo de bagaços), resíduo do processamento do óleo, é usado na alimentação animal e como fertilizante do solo. O amendoim também pode ser usado, como outros legumes e grãos, para fazer um leite sem lactose, como bebida, o leite de amendoim.

Quer sob a forma de grão, torradinho, crocante e estaladiço, quer soba forma de manteiga, fofinha, macia e deslumbrante o amendoim, extremamente, desejável, apetecível, saboroso, delicioso e deleitoso também me está total e abruptamente proibido, devido à insuficiência renal.

 

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publicado por picodavigia2 às 16:26

TÍMIDO

Quarta-feira, 24.07.13

MENU 8 – “TÍMIDO”

 

ENTRADA

Salada de Feijão-Verde, cozido e salteado em azeite, com alho e perfumado com hortelã, aninhada sobre taglierini.

Queijo fresco, com ervas e alho, sobre bolacha torrada

 

PRATO

Posta de atum fresco, assada na brasa, com batata branca, cozida.

 Molho verde com pimento, cebola, alho e salsa, encharcado em azeite e vinagre de vinho fresco.

Salada de alface e pepino, com perregilde curtida e bolo de milho, do Pico.

 

SOBREMESA

 

Geleia de ananás e maça ao natural

 

Preparação da Entrada –  Cozer o feijão partido às tirinhas, junto com a massa e separar. Aquecer azeite e perfumá-lo com alho e hortelã. Escorrer o feijão cozido e salteá-lo no azeite. Torrar as bolachas e barrá-las com creme de queijo fresco com ervas doces e alho.

Preparação do Prato - Cozer as batatas e assar o peixe na brasa. Picar cebola, salsa, alho, pimento vermelho e uma pontinha de malagueta. Juntar azeite e vinagre. Descascar o pepino e parti-lo às rodelas, juntando a alface despedaçada e misturar umas folhinhas de perregilde, curtida.

Sobremesa – Preparação tradicional.  

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publicado por picodavigia2 às 18:53

A MINHA VIZINHA LUCINDA

Terça-feira, 23.07.13

Logo no princípio da Assomada, a seguir à Praça, em frente à minha casa, do outro lado da rua, morava uma velhinha, a Tia Lucinda. De tantos anos que já tinha, da muita doença que a apoquentava e de tanto que se havia cansado da vida, a Tia Lucinda já não ia trabalhar para os campos, nem levar a moenda ao moinho, nem lavar roupa à ribeira, nem sequer apanhar garranchos de lenha, na ladeira que ficava atrás da sua casa, a fim de com eles acender o lume para aquecer o café ou ferver o leite, nem ia às compras às lojas, nem sequer à missa aos domingos, apesar de nem as lojas nem a igreja ficarem muito longe da sua casa. Numa palavra, a minha vizinha Lucinda, ou a viúva de Ti Manuel Rosa, como também lhe chamavam, já não saía de casa a não ser para assomar ao portão do seu pátio, a fim de dar dois dedos de conversa a quem passava pelo caminho ou para chamar minha mãe e pedir-lhe que me deixasse ir comprar-lhe um litro de petróleo, um quarto de barra de sabão, meio quilo de café ou qualquer outra coisa que lhe fizesse falta. Claro que recebia de imediato o beneplácito da minha progenitora e lá ia eu todo vaidoso e contente, a correr, agarrando com quantas forças tinha, para as não perder, as moedas de um escudo ou de cinquenta centavos que a minha vizinha me havia colocado na mão, recomendando-me que tivesse cuidado para não me escapulirem. O que seria de mim se tal acontecesse!... Ia num pé e vinha no outro. É que para além daquele pequeno mandalete não me desagradar absolutamente nada, sabia que no fim seria sempre recompensado pela generosidade da minha vizinha. Mesmo que não trouxesse troco resultante do pagamento da compra de que fora incumbido, ao voltar e ao entrar na casa da Tia Lucinda para lhe entregar as compras, ela suspendia o que estava a fazer e ia buscar uma moedinha de dez centavos que parecia ter sempre guardada de propósito para me dar como recompensa. Se por acaso alguma vez, o que raramente acontecia, não encontrasse a moedinha, não me deixava sair de mãos a abanar. Dava-me uma fatia de pão de trigo barradinha com doce de pêssego, o que também não me desagradava.

A Tia Lucinda, no entanto, trabalhava muito dentro de casa. É que vivia com dois filhos, ambos solteiros, que se dedicavam ao cultivo dos campos e à criação vacas e era ela que cozinhava, lavava a roupa, limpava a casa, cozia o bolo e o pão, tratava das galinhas e do porco e fazia muitos outros trabalhos caseiros, apesar de bastante doente, muito velhinha e excessivamente enfraquecida e de “já não poder fazer nada”, como ela própria reconhecia.

- Quantos anos tem, Tia Lucinda?

- Ui! Muntos, muntos! Já lhes perdi a conta!...

Tia Lucinda, talvez porque não soubesse, nunca me dizia quantos anos tinha, nem há quantos se casara.

Mas o mais interessante é que apesar de nem o marido, (Manuel Furtado Luís Júnior) nem sequer o pai do marido (Manuel Furtado Luís) terem nos seus nomes o apelido de “Rosa”, mas apenas e tão somente porque o avô do marido, nascido há mais de cento e cinquenta anos, se chamava José Furtado Rosa, a minha vizinha Lucinda era tratada por quase toda a gente da Fajã pela “viúva de Ti Manuel Rosa” e os seus filhos o Fernando e o Luís de Ti Manuel Rosa.

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publicado por picodavigia2 às 17:08

MEU AVÔ E ANINA DE OURO EM SOIBAR

Terça-feira, 23.07.13

José de seu nome nasceu no longínquo ano de 1855, na Fajã Grande das Flores. Embora tivesse dois dos apelidos mais frequentes na freguesia - Fagundes e Silveira – herdados dos primeiros povoadores da ilha das Flores, foi sempre conhecido por José Bartolomeu, epíteto herdado de seu pai, ou seja de meu trisavô, Bartolomeu Lourenço Fagundes nascido em 1825, e que o povo, com a sua hábil capacidade linguística de facilitar a pronúncia das palavras, traduziu simplesmente por “Batelameiro”. Ainda criança, José começou a ceifar erva e acarretar molhos de lenha, a cavar a terra e a trepar a rocha, a lavrar os campos e a tirar o estrume do palheiro, a saltar paredes e maroiços no tratamento do gado e no amanho das terras. Trabalhava de sol a sol, à chuva, ao vento, durante as tempestades e nevoeiros, com o frio do norte a tolher-lhe os ossos, as brisas matinais a perfurarem-lhe o rosto, o cabo da enxada a desfazer-lhe as mãos e as pedras pontiagudas das canadas e caminhos a esmurrarem-lhe os pés descalços. Cedo porém se tornou objector de consciência às limitadas condições de vida que a freguesia e a ilha lhe proporcionavam e embarcou, às escondidas, fugindo aos tiros da guarda costeira, na Rocha dos Fanais, a bordo duma escuma indo parar à Costa Leste dos Estados Unidos. Mas não era ali o seu destino. O “El dorado” ficava longe, muito longe, do outro lado do Mundo, quase tão distante dali como distante estava ele da ilha onde nascera. E aventurou-se novamente. Atravessou a América de lés-a-lés, de comboio, descansou alguns dias no Colorado e foi parar à Serra Nevada. Aí pastoreou ovelhas, guardou ranchos, ganhou dólares, guardou-as quase todas que os gastos eram poucos e comprou terras. Passados alguns anos vendeu o que tinha comprado, juntou as águias até então guardadas e voltou à terra natal. Apaixonou-se e casou em 1880 com Maria da Conceição, a minha bisavó. Desse casamento resultaram cinco filhos: Maria 1883, José, o meu avô materno, 1886 e Ana em 1887. Novamente intrigado e descontente com a vida precária da ilha e sonhando com algo de melhor para os filhos, resolve regressar à Califórnia, desta feita, levando a mulher grávida de algumas semanas e os filhos ainda pequeninos. Mas a Serra Nevada não era destino aconselhável a quem emigrava com a família, sobretudo com uma mulher prenhe e com crianças de tenra idade. Por isso José tomou novo rumo e foi parar ao Norte da Califórnia, mais concretamente ao novo e promissor condado de Siskiyou que, apesar de ser um dos maiores em superfície era, nessa altura, um dos condados do estado da Califórnia mais pequenoem população. Fundado em 1858, o condado de Siskiyou já na altura fazia jus de grande prosperidade. Tinha fronteira a norte com o estado do Origan, a leste com o Condado de Del Norte, a Sul com o Trinity e o Shasta e a Oeste com o Modos. Aí nascem mais dois filhos: Francisco, em 1892 e Maria do Céu 1895. José volta a comprar terras e gado. Floresce o negócio, granjeia prestígio e em 20 de Julho de 1892 torna-se cidadão Americano por decisão da “Superior Court” da cidade de Yreka, capital do Condado de Siskiyou. A doença da esposa, porém, obriga José a regressar aos Açores e às Flores, voltando a vender as terras a quem, para desgraça sua, nunca lhas pagou. Minha bisavó faleceu pouco depois do seu regresso à Fajã Grande e, no ano seguinte, José refaz a sua vida, voltando a casar-se, desta feita com Maria Rosa. Não demorou muito este casamento, falecendo a 2ª consorte do meu bisavô em 1904, juntamente com uma criança recém-nascida. Triste e desconsolado José volta a Siskiyou onde havia deixado casa, alguns bens e uma outra terra que não vendera. Aguardava-o ainda o sonho de recuperar o dinheiro perdido na venda das primeiras terras e que nunca lhe tinha sido pago. Esse sonho não se realizou porque como não possuía provas de venda, o verdadeiro devedor negou que tal facto jamais tivesse acontecido. Era a palavra de um contra a do outro e José ficou sem dinheiro e sem as terras. Apesar de tudo e porque era forte, resignado, de fibra rija e sem medo do trabalho, refez a sua vida e com o seu labutar digno e honrado pode recuperar, em parte, o que havia perdido com a vigarice e a desonestidade de outros. Voltou a comprar terras. Os filhos mais velhos, no entanto partiram para outras zonas da Califórnia. José voltou a ficar só, triste e desconsolado, decidindo voltar definitivamente para as Flores e para Fajã Grande, onde viveu sozinho durante alguns anos, dedicando-se novamente ao trabalho agrícola, até que em 1907, com 52 anos de idade casou, pela 3º vez, com Mariana Luísa da qual ainda teve mais três filhas, falecendo no ano de 1923.

Mas a “estória” de José não fica por aqui. Antes de partir para os Açores, sabendo que já não regressaria mais a Siskiyou, vendeu tudo o que ali possuía e também o que nem cuidava possuír. É que, como mais tarde se veio a saber, entre as terras vendidas pelo meu bisavô, havia uma, próximo de Soibar, no condado de Siskiyou, que tinha nada mais, nada menos, do que uma mina de ouro, que mais tarde, muito contribuiu, para o desenvolvimento daquele pequeno condado do Norte da Califórnia

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publicado por picodavigia2 às 08:54

AS LAGOAS DA FAJÃ GRANDE

Sábado, 20.07.13

- Ainda haverá lagoas na Fajã Grande? – Perguntei a alguém, há uns tempos atrás, mas ninguém me soube responder.

É convicção minha, porém, que já não deve haver. Mais, estou em crer que muitos dos actuais habitantes da Fajã Grande, sobretudo os mais novos, não saberão o que eram nem para que serviam as lagoas supracitadas no título em epígrafe, cuidando talvez que o mesmo se refira às caldeiras do mato, também designadas por esta palavra. Mas não. Não é a essas lagoas que me refiro. A pergunta acima formulada diz respeito a outras lagoas. De contrário a questão inicialmente expressa não teria sentido.

O que eram então as lagoas? Eram relvas que ou tinham uma ou mais nascentes de água ou beneficiavam de regos através dos quais captavam a água das lagoas vizinhas ou de alguma ribeira ou grota que por ali passasse. Num e noutro caso a água espalhava-se por todo o terreno, tornando-o um autêntico pântano que proporcionava condições ideais para que a erva crescesse fresca e tenrinha, geralmente misturada com inhames e com agriões, uns e outros de muito boa qualidade. Devido às condições pantanosas do terreno e à sua especificidade esta erva não podia em nenhum caso ser pastada pelos bovinos, antes teria que ser ceifada com foice de mão e trazida para as manjedouras. Este ceifar da erva, no entanto, era um trabalho árduo, difícil, cansativo e moroso. Primeiro porque tinha que ser efectuado de madrugada, antes do Sol nascer para que a erva se mantivesse fresquinha. Segundo porque a ceifa, como o terreno era alagadiço, tinha que ser feita de cócoras e de botas de borracha ou descalço mas com as calças arregaçadas até ao joelho. Terceiro porque tinha que se ceifar apenas um molho por dia porque a dita cuja não era muita e constituía uma espécie de dieta para as vacas parturientes e leiteiras ou para o gado de engorda e, por isso, não era acarretada em carro ou corção mas às costas, toda molhada e a pingar água sobre os ombros de quem a acartava, pese embora muitas vezes os homens se protegessem dos pingos da água com uma froca de “angrim” sobre os ombros ou com uma saca de serapilheira em forma de capuz, enfiada na cabeça. Anos mais tarde surgiram as gadanhas, umas foices gigantes, manejadas em pé, com ambas as mãos e consequentemente mais rápidas mas muito perigosas e mais caras, pelo que não eram acessíveis a todos.

Um outro obstáculo tornava ainda mais árdua e espinhosa esta tarefa matinal. É que a maioria das lagoas se situavam bastante longe das casas e dos palheiros onde estava o gado, pois ficavam junto à Rocha, onde havia nascentes de água. Havia lagoas nos seguintes lugares: Covas, Ribeira das Casas, Águas, Ribeira, Figueira, Silveirinha, Paus Brancos e Alagoinha. Muitos homens e rapazes, na realização desta tarefa, apanhavam doenças graves, geralmente reumáticas e dos ossos. O uso das botas de borracha era bastante prejudicial à saúde e, por vezes, a água no terreno era tanta, que chegava a encher as botas. Os que ceifavam descalço, geralmente em jejum, ainda estavam sujeitos a mais doenças. A posição de cócoras para poder manejar a foice com uma mão e apanhar a erva com a outra durante uma hora ou duas, para além de eventualmente provocar cortes nos dedos, era malévola para a coluna e acarretar um molho de erva às costas, pesado como chumbo, carregadinho de água a penetrar pelo pescoço abaixo e a chegar até aos tornozelos também não era deliciosa nem saudável tarefa. Acrescente-se que esta actividade era realizada em jejum e antes de se iniciar um dia normal de trabalho agrícola e rural.

Ainda hoje me recordo de ver dezenas de homens, antes do Sol nascer, a deambular pelas ruas da Fajã, todos alagados, vergados ao peso de um enorme molho de erva a escorrer água. Caminhavam lentamente, com a foice enfiada na erva, a mão esquerda a segurar o molho na parte inferior do qual espetavam um bordão que apoiavam no ombro direito como se fosse uma espécie de alanca para aliviar o peso e sobre o qual pendiam a mão direita. Muito deles, os mais pachorrentos, traziam pendurados no bordão, num balouçar rimado pelas lentas passadas e amarrado com um fio de espadana, um molhinho de agriões que haviam escolhido entre a erva e que, juntamente com uma talhadinha de toucinho, fariam uma deliciosa sopa para a ceia.

Vida dura a dos nossos antepassados!

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publicado por picodavigia2 às 14:57

LUISA EM VEZ DE EUNICE

Sexta-feira, 19.07.13

Quando, pela primeira vez, recebi o veredicto de que poderia ir sozinho ao arraial da Senhora da Saúde foi, para mim, um total deslumbramento. Eu era ainda muito pequenito, talvez ainda nem tivesse cinco anos. Por impertinência minha, depressa me prepararam, lavando-me, em água fria e com sabão azul das pontas dos pés ao cocaruto da cabeça. Fiquei a cheirar a lavado que era um consolo. Depois inspeccionaram-me a cabeça a pente fino. Mas nada! Nem piolhos, nem lêndeas. De seguida enfarpelei-me eu próprio: uma camisa de seda cor-de-rosa, calças curtas com suspensórios castanhos, ligados à frente e sobre o peito com uma espécie de tira de papelão oval, ornamentada com uma macacada qualquer, peúgas brancas e sapatos de pele de cabra. Um luxo! Bem penteadinho, trinta centavos no bolso, mãos a abanar e com um ar de grande senhor lá fui numa correria louca, numa alucinação inexaurível e com uma alegria viva, contagiante e indescritível.

Era sábado, véspera da festa e o arraial já há muito havia começado. A Praça estava pejada de gente e a Rua Direita toda engalanada. Presas nas varandas ou pregadas nos cantos das casas e estendidas em fio barbante uma enorme quantidade de bandeirinhas de todas as cores suspendiam-se em ziguezague, dando à rua um ar festivo e um colorido desusado. Dezenas e dezenas de pessoas, muitas delas vindas de outras freguesias da ilha, desciam-na e subiam-na para voltar a descê-la, em grupo, em pares ou isoladamente, num vaivém invulgar. O café da Chica estava repleto de homens e a loja do Senhor Rodrigues a abarrotar de gente. Muito a custo lá entrei e fui atendido com alguma dificuldade, até porque o investimento era minúsculo, pese embora significasse uma terça parte do meu pecúlio: um rebuçado com sabor a morango por dez centavos. Saí deliciando-me em doçura e cheguei ao adro da igreja onde se situava o verdadeiro epicentro do arraial.

O adro ainda estava mais ornamentado e povoado do que a Rua Direita. Do alto da cruz da igreja despendiam-se em arcos côncavos carreiros e carreiros de bandeirinhas que vinham prender-se nas varandas e cantos das moradias circundantes. Sobre um coreto de madeira a “Senhora da Saúde”, com os instrumentos ainda a brilhar de novos, deliciava os presentes com os seus acordes musicais. Num dos cantos do adro, um dos locais mais procurados pelos homens, o Albino orientava o jogo em que o protagonista principal era um boneco de madeira suspenso, na cintura, por um eixo e que rodopiava sobre um caixilho também de madeira, apoiado no chão com algumas pedras. O jogo consistia em atirar, de uma distância previamente delimitada, cinco bolas ao boneco, por um escudo. Quem acertasse no dito cujo e conseguisse que ele desse uma volta completa sobre si próprio receberia um prémio: um chocolate, uma laranjada, uma cerveja ou um pirolito, dos de bola. Ao lado o quiosque da quermesse com duas rifas. Uma constituída pela roleta e a outra por pequeninos quadrados de papel muito bem enrolados, uns em branco, outros com um número que correspondia a um prémio. Todos os números e os prémios respectivos constavam de uma lista que, à medida que cada prémio era entregue ao sortudo que o tirara, se ia descarregando. Investi mais dois terços do meu pecúlio: vinte centavos por um bilhete. Desenrolei-o e estarreci por completo: era branco, branco que nem a cal. Bem me apeteceu voltar atrás e ir comprar dois rebuçados, mas já era tarde. Fiquei triste e macambúzio de olhar fixo na roleta que representava a outra rifa ali existente. Era uma roda de madeira presa num pau e a rolar sobre um eixo. A roda tinha colado na frente um papel branco, rigorosamente dividido em dezasseis partes iguais, separadas no bordo por pregos e com oito nomes de homens alternados com outros tantos de mulheres, escritos à mão sobre o papel branco. Na parte superior do pau e encaixada entre os pregos havia uma palheta que ia travando o rodopiar da roleta, depois de movimentada manualmente, até a parar por completo, indicando assim o nome sorteado e que correspondia a um dos bilhetes que havia sido vendido.

Estava eu a observar esta pequena obra de engenharia arraialesca quando me surge pela frente o meu vizinho que era professor no Seminário de Angra e estava a passar férias na Fajã. Sem mais de meias, resolve comprar um bilhete com o nome de uma sua prima chamada Eunice e oferece-mo, dizendo:

 - Está atento ao nome que sair pois o prémio é para ti!

Todo contente e esperançado, fiquei ali bem quietinho até a roleta andar. De bilhete em riste, esperei algum tempo que me pareceu uma eternidade. Finalmente a roleta andou… Rolou… Andou... Rolou.... Avagou e, finalmente, parou. E não é que saiu o nome de Luísa, mesmo ali bem ao lado e coladinho ao de Eunice que o meu vizinho me tinha oferecido e que eu guardava religiosamente

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publicado por picodavigia2 às 12:06

IMPERTURBÁVEL

Quinta-feira, 18.07.13

MENU 7 – “IMPERTURBÁVEL”

 

ENTRADA

Croquetes de inhame e albacora

Salada simples de alface, pimentos, nozes e cebola

 

PRATO

Inhame assado no forno, recheado com albacora assada e legumes

Com cobertura de creme de queijo fresco e salmão

Rodelas de pepino grelhadas e barradas com creme de queijo fresco, ervas e alho.

 

SOBREMESA

 

Geleia de ananás e maça ao natural

 

Preparação da Entrada – Esmagar, com um garfo, pedaços de inhame cozido. Refogar em azeite, cebola, alho e salsa. Desfazer os pedaços de albacora assada, depois de lhes retirar as peles e as pinhas e misturar tudo. Formar pequenos croquetes, passá-los por ovo e pão ralado e fritá-los. Picar a alface, a cebola, os pimentos e o pepino, juntar nozes e temperar.

Preparação do Prato - Cozer o inhame e, depois de frio, descascá-lo partindo-o, ao comprido, em duas metades iguais. Com uma faca ou colher, fazer-lhe, na parte interior, uma concavidade, formando uma espécie de parquinho. Refogar a cebola, o alho, a salsa, os pimentos, o pepino e outros ingredientes e temperar. Juntar a parte retirada ao inhame e pedacinhos de albacora assada. Misturar tudo e encher o interior dos inhames, com este recheio, dispondo-os numa travessa e levar ao forno, cobrindo-o com creme de queijo fresco com sabor a salmão. Cortar o pepino em rodelas finas, grelhá-las e barrá-las com crene de queijo fresco.

Sobremesa – Preparação tradicional.  

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publicado por picodavigia2 às 21:16

PASTEL FOLHADO

Quinta-feira, 18.07.13

O pastel folhado é um tipo de bolo muito comum nas pastelarias e cafés portugueses, servindo, muitas vezes, de refeição rápida, substituindo, assim, suculentos pratos ou lautas refeições. Trata-se um alimento que tem como base a massa folhada, formando com ela pequenos bolinhos, devidamente recheados e que se cozem no forno, depois de pincelados, exteriormente, com gema de ovo. Assim, o que caracteriza e especifica cada tipo de bolo folhado, não é a massa, mas o recheio que pode ser de carne, de marisco e cogumelos, de queijo e salsichas, de queijo e fiambre, de queijo e presunto, de frango e até de bacalhau.

A massa folhada e ainda mais, os pastéis feitos com ela, além de gostosos são muito apetecíveis e saborosos. A massa pode ser caseira e é, neste caso, de fácil confecção, mas também pode ser comprada nos supermercados, pronta a ser utilizada. Depois é só fazer o recheio que se pretende, rechear com ele pedacinhos de massa, embrulhá-los e metê-los no forno. O recheio fica ao gosto de cada um! Mas o pastel folhado é tanto melhor quanto a qualidade do recheio o for!

Também existem pastéis folhados recheados com doces variados, com chocolate, com compota ou geleia ou com creme de gema de ovo. Estes, exteriormente, podem ser salpicados com açúcar.

No século XXI, a falta de tempo da vida urbana dificulta a possibilidade de manter uma dieta saudável. Assim, o rápido, o prático e o cómodo ganham espaço e tornam-se solução. Pizas, fast-food, pastéis, folhados, salgadinhos, bolachas, entre outros, passam a fazer parte do nosso cardápio diário, substituindo, por vezes, as tradicionais refeições de faco e garfo. No entanto, é importante ter em conta que este tipo de refeições rápidas são “recheadas” de gorduras, ácidos graxos que aumentam o LDL (colesterol mau) e diminuem o HDL (colesterol bom) e proporcionam prejuízos à saúde. Há também relatos de que esse tipo de gordura produz a gordura visceral, aquela considerada a mais perigosa para a saúde, que se instala entre os órgãos e fica alojada na barriga. Entre os males associados à gordura visceral estão diabetes, hipertensão, colesterol e outros factores de risco para o coração.

Devido aos variados conteúdos do recheio, e também à gema de ovo que contêm todo o tipo de pastel folhado, saboroso, apetecível e delirante me está, radical e completamente proibido. E ele é tão frequente nos cafés e pastelarias da região, quer de Paredes, quer de Paços quer de outras cidades do Vale do Sousa, nomeadamente, Paços de Ferreira. 

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publicado por picodavigia2 às 10:19

AS FURNAS DA ROCHA

Quinta-feira, 18.07.13

Quem subia a Rocha da Fajã Grande, dia após dia, a fim de ir tirar o leite às vacas que pastavam no Mato, durante o Verão, que no Inverno só havia gado alfeiro naqueles descampados, ou mesmo quem a escalasse apenas esporadicamente no cumprimento de tarefas fortuitas, como ceifar feitos, cortar bracéu, ir buscar queirós para a matança, apanhar amoras para fazer doce, ir ao Fio ou até simplesmente quem pretendesse viajar para os Cedros ou para Santa Cruz, neste caso para evitar a travessia da Ribeira Grande junto à Fajãzinha, encontrava, ao longo daquelas íngremes e sinuosas trinta e duas voltas, três furnas: a do Peito, a da Caixa e a dos Dez Réis.

As furnas eram concavidades encravadas na rocha, mesmo à beirinha do caminho, com formatos diferentes, com tamanhos desiguais e com fins diversificados, embora todas elas constituíssem marcos significativos na subida de tão gigantesca e descomunal escarpa.

A Furna do Peito era a primeira, a maior e a mais útil. Situava-se logo no início da subida, na décima volta e tinha a forma de uma grande caverna encravada num sítio mais saliente e pedregoso da Rocha cuja forma se assemelhava a um gigantesco peito humano, razão óbvia do seu epíteto. A Furna tinha uma dupla finalidade: ora servia de abrigo da chuva, de protecção dos ventos e resguardo dos temporais ora de lugar de descanso, de repouso e de retoma de fôlego. Mas era também uma espécie de templo onde entravam os caminhantes, sobretudo os que sentiam mais medos e ostentavam maiores dificuldades, durante a subida, a fim de obterem ânimo, calma, tranquilidade e, sobretudo, esperança de chegar ao cimo, livres de qualquer perigo ou salvos duma eventual derrocada. Por isso havia sido colocada, numa das paredes interiores da furna, uma grande cruz de madeira e ao redor de todo o seu interior havia-se construído uma espécie de bancada feita de pedras toscas, onde os transeuntes que ali entravam se sentavam ou a descansar e a retemperar forças para continuar a subida, ou a implorar a Deus, à Virgem e a todos os Santos, Anjos e Arcanjos que impedissem o desabamento por ali abaixo de pedras ou ribanceiras, pelo menos enquanto durasse a extenuante e morosa caminhada, até ao acimo.

Por sua vez a Furna da Caixa era bastante mais pequena, tinha muito pouca profundidade e situava-se, rigorosamente, a meio da escalada. Quem ali chegava, pelo menos, tinha a certeza de que já galgara a primeira metade daquela abstrusa, enigmática e escabrosa subida. Como o seu tamanho e profundidade, de tão escassos que eram, não permitiam a um cristão sequer ali entrar para descansar ou abrigar-se, alguém construíra nos seus limítrofes um logradouro, com um muro protector e uma banqueta em forma de semicírculo e que servia simultaneamente de local de descanso e de miradouro. Na realidade, dali, enquanto se descansava, podia-se observar a Fajã como se de uma vista aérea se tratasse. Ao perto o verde das relvas da Figueira e das Águas e as terras de mato do Pocestinho e dos Paus Brancos; mais além as belgas da Bandeja e das Queimadas, os cerrados do Alagoeiro e do Mimoio e depois as casas com o vermelho escuro dos telhados a misturarem-se com o verde amarelado das courelas. Por fim e a delimitar a imensa fajã a mancha negra do baixio, recortada por caneiros e enseadas a entrelaçarem-se com o oceano imenso e infinito onde se haviam cravado desavergonhadamente, lá ao longe, a Baixa Rasa e o Monchique.

Finalmente, logo a seguir à Fonte Vermelha, a mítica Furna dos Dez Réis, a última, a mais pequena e, provavelmente a mais profunda. Tão pequena que nem uma cabeça humana caberia na sua entrada, tão funda que não se lhe conhecia a profundeza. Era no entanto uma das mais importantes e mais almejada de atingir por todos os que subiam aquele inexaurível alcantil. Por um lado, chegar à Furna dos Dez Réis era ter a certeza de que faltavam apenas dez voltas para chegar à cancela do Mancebo, no cimo da Rocha. Por outro lado aquela furna tinha um poder mágico e sobrenatural: quem metesse lá dentro uma mão bem fechada e formulasse um desejo que não fosse muito ambicioso, esse desejo ser-lhe-ia concedido.

Quanto a mim todas as vezes que por ali passava, metia a mão, firmemente fechada, pela furna dentro e formulava o desejo de chegar ao cimo da rocha são e salvo. E confesso que esse desejo sempre me foi concedido.

 

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publicado por picodavigia2 às 10:17

O SOBRINHO DO MAGO

Terça-feira, 16.07.13

(CONTO TRADICIONAL)

 

Era uma vez um mago que tinha na sua companhia um sobrinho. O mago viajava muito e, sempre que o fazia, pedia ao sobrinho que, durante a sua ausência, lhe guardasse a casa e vigiasse os seus bens para que ninguém o roubasse. Antes de sair, porém, entregava-lhe duas chaves, pedindo-lhe que por nada deste mundo abrisse as duas portas que elas fechavam e que, se o fizesse, morreria.

O rapaz, assim que se viu sozinho, não se lembrou mais do pedido do tio e abriu uma das portas. Ao abri-la, deparou-se com um campo escuro e um lobo que vinha correndo na sua direcção. Cheio de medo, o rapaz fechou a porta imediatamente. Mas o mago quando chegou, algum tempo depois, apercebeu-se de que o sobrinho havia desrespeitado as suas ordens e disse-lhe:

– Desgraçado! Porque desobedeceste às minhas ordens, abrindo aquela porta? Poderias ter morrido!

O rapaz, muito arrependido, chorou e pediu perdão ao tio, acabando este por esquecer e perdoar-lhe. Passado algum tempo, porém, o mago partiu novamente, voltando a fazer as mesmas recomendações, ao sobrinho. Mas o rapaz, muito curioso, não se conteve e abriu a outra porta. De imediato viu um campo muito grande, onde pastava um cavalo branco. O cavalo começou aos saltos e a correr na direcção do rapaz que, lembrando-se das ameaças do tio e já o sentindo subir pela escada, começou a gritar:

– Ai que agora é que estou perdido!

O cavalo branco, correndo sempre na sua direcção, aproximou-se dele e disse-lhe

– Apanha desse chão um ramo, uma pedra e um punhado de areia, e monta quanto antes, em cima de mim.

No entanto, o mago chegou a casa mas o rapaz já saltara para cima do cavalo branco, gritando-lhe:

– Foge! Chegou o meu tio e vai matar-me.

O cavalo branco correu pelos ares fora mais veloz do que o vento, levando o rapaz consigo. Quando já iam muito distantes da casa do tio, o rapaz voltou a gritar:

– Corre, cavalo! Meu tio já me apanha para me matar.

O cavalo branco correu mais, e quando o mago estava quase a apanhá-los, disse para o rapaz:

– Deita fora o ramo.

O rapaz assim fez e apareceu logo ali uma densa floresta. Enquanto o mago tentava abrir caminho para sair dela, o cavalo e o rapaz puseram-se muito longe. Mas pouco depois, este tornou a gritar:

– Corre, cavalo, corre! Que atrás de nós está meu tio, que nos vai matar.

Disse o cavalo branco:

– Bota fora a pedra.

Logo ali se formou uma grande serra cheia de penedias, que o mago teve de subir, enquanto eles avançavam porque sabiam o caminho. Mais adiante, grita o rapaz:

– Corre, cavalo, corre muito! Que meu tio agarra-nos.

– Pois atira ao vento o punhado de areia, disse-lhe o cavalo branco.

Apareceu logo ali um mar sem fim, que o mago não pôde atravessar. Eles, no entanto, atravessaram-no e foram dar a uma terra onde estava muito gente a fazer muitos e grandes prantos. O cavalo branco largou ali o rapaz e disse-lhe que quando se visse em grandes dificuldades chamasse por ele, mas que nunca dissesse como viera ter ali. O rapaz foi andando e perguntou a uma mulher, por quem eram aqueles grandes prantos.

– É porque a filha do rei foi roubada por um gigante que vive em uma ilha aonde ninguém pode chegar.

– Pois eu sou capaz de ir lá.

Foram dizê-lo ao rei e este obrigou o rapaz, sob pena de morte, a cumprir o que dissera. O rapaz valeu-se do cavalo branco, e conseguiu ir à ilha e trazer de lá, consigo, a princesa, porque apanhara o gigante dormindo.

Assim, a princesa, finalmente regressou ao palácio mas estava muito chorosa. Não havia maneira de lhe cessarem as lágrimas. Perguntou-lhe o rei:

– Porque choras tanto, minha filha?

– Choro porque perdi o anel que me tinha dado a fada minha madrinha e, enquanto o não encontrar, estou sujeita a ser roubada outra vez ou ficar para sempre encantada.

O rei mandou lançar um pregão em como dava a mão da princesa a quem achasse o anel que ela tinha perdido. O rapaz chamou o cavalo branco, que lhe trouxe do fundo do mar o anel. O rei mandou, conforme o prometido, fazer o casamento da princesa com o rapaz, os quais viveram felizes para sempre.

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publicado por picodavigia2 às 16:49

BIFANA

Terça-feira, 16.07.13

Bifana é uma iguaria, tipicamente, portuguesa, constituída por febras de porco, cozinhadas à base de alho, vinho e outros temperos, que, depois de guisadas, se colocam dentro de um pequeno pão ou papo-seco, geralmente, pré-aquecido. As febras, normalmente, são temperadas com mostarda, ketchup e molho picante. As que se seleccionam para a bifana são pequenas tiras, tenras, muito finas e bem temperadas com um molho à base de vinho branco ou cerveja. Há, no entanto, bifanas feitas com a febra de porco, inteira.

A bifana é um tipo de bife muito poderoso e de grande valor alimentar. Já na Grécia antiga, era considerada um dos alimentos que trazia mais benefícios aos deuses, visto ser a única comida que eles realmente apreciavam e degustavam. A bifana, também, esteve presente em todas as conquistas mundiais de Portugal entre 1888 e 1889 e consta que o rei Dom João VI voltou do Brasil, para Portugal, por causa dela.

Normalmente come-se a bifana no pão, mas ela também pode ser servida em prato, acompanhada de batatas feitas e misturada com salada, molho de tomate, manjericão, pimentão, maconha.

O consumo da carne de porco, quer natural, quer transformada em enchidos, tem uma profunda tradição na cozinha portuguesa, sendo consumido, praticamente, em todo o país. O mesmo acontece com a bifana que se tornou muito generalizada em Portugal, incluindo as ilhas dos Açores, nomeadamente a do Pico, onde, em festas e arraias, também já se serve a bifana de albacora, na qual o peixe substitui a carne. São saborosíssimas as bifanas de albacora!

No entanto, no Douro Litoral, na zona de Penafiel e Paredes, com incidência em Lordelo mantém-se pura e viva a tradição de servir-se a boa, apetecível e saborosa bifana com carne de porco, muito bem temperada, tenrinha e apetitosa… É a verdadeira bifana, considerada a “queen” da região!

Lamentavelmente, assim como muitos outros bons petiscos, a bifana, de modo muito especial a “queen” está-me interdita por sofrer de insuficiência renal

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publicado por picodavigia2 às 16:35

AVANCEMOS

Segunda-feira, 15.07.13

(UM POEMA DE FERNANDO PESSOA)

 

“De tudo ficaram três coisas:

A certeza de que estamos sempre a começar;

A certeza de que é preciso continuar;

A certeza que seremos interrompidos antes de terminar.

Portanto, devemos fazer da interrupção um caminho novo,

Da queda um passo de dança,

Do medo uma escada,

Do sonho uma ponte,

Da procura um encontro.”

 

Fernando Pessoa

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publicado por picodavigia2 às 16:53

O SEMINÁRIO DE ANGRA

Segunda-feira, 15.07.13

No final do segundo em que frequentei o Seminário Menor, em Ponta Delgada, ano não beneficiei das mordomias que me haviam caído como dádivas celestes, no final do primeiro. Os exames do segundo ano terminavam um ciclo e, por isso mesmo, eram de maior responsabilidade. Sendo assim impunha-se que os fizesse em conjunto com os outros alunos. Além disso, conceder-me novamente benesses idênticas às do final do primeiro ano seria muito injusto para os meus colegas. Assim fiz os exames juntamente com eles e aguardei a chegada do Cedros.

 Realizados os exames, com resultados muito bons, despedi-me da magnífica cidade de Ponta Delgada que me acolhera durante dois anos e rumei até Angra, juntamente com os meus colegas das ilhas do grupo central. Trazia uma carta de recomendação para entregar ao Vice-Reitor do Seminário, o Senhor Cónego Jeremias (estranhamente, à altura, no Seminário de Angra não havia Reitor) que me acolheu de maneira muito simpática e me instalou, principescamente, num quarto dos teólogos, onde já vagavam vários, em virtude dos alunos ordenados já terem partido de férias. Aboletei-me no quarto número um, o primeiro à esquerda e o maior de quantos havia na “Avenida da Liberdade”. Esperei que os seminaristas acabassem os exames e partissem para férias, ficando apenas, no Seminário, os alunos das Flores, aguardando a chegada do Carvalho. Assim foi-me permitido, durante uns dias, conhecer e conviver com eles, na companhia de quem, dias depois, viajei para as Flores: o Fernando Gomes, o Caetano Serpa, o Aurélio Nóia e o Nuno Vieira.

Pese embora inicialmente estivesse pouco à vontade e bastante envergonhado, sobretudo na hora das refeições, pois não conhecia ninguém, aos poucos fui desabrochando, até porque muitos dos teólogos começavam a conversar e a meter-se comigo, admirados com a minha presença ali, o Agostinho Quental, o Raimundo, o Benjamim, o Manuel António, o Quaresma, o Fernando Gomes e muitos outros. Ajudava às missas de manhã, na capela de cima, em catadupa, para aliviar os que estudavam para os exames, descansava, comia, dormia e ia a São Rafael visitar meu pai. Foi o Caetano Serpa, natural da Ponta e que já me conhecia antes de eu vir para o Seminário e que também conhecia meu pai, que gentilmente me acompanhou, várias vezes, nas visitas, ao aperceber-se que eu revelara alguma apreensão e receio em realizá-las sozinho.

Depois dos exames terminarem, ficaram apenas os alunos das Flores. Durante esses dias tínhamos o privilégio de tomar as refeições no refeitório dos Superiores e junto com eles. Para além dos quatro professores das Flores, ainda ali estavam alguns das outras ilhas, os quais tive a oportunidade de conhecer, sendo que alguns deles seriam meus professores no ano lectivo seguinte.

Mas o que mais me fascinou, durante os dias que ali permaneci, foi aquele enorme edifício, situado nas antigas instalações do barão do Ramalho, na esquina da Rua do Palácio com a Rua do Rego, paredes meias com o palácio da Marquesa e em frente ao palácio dos Capitães e à Pide. Era um prédio monumental com três áreas transversais ligadas com uma frente altiva onde se destacava ao centro um enorme frontispício e com a parte traseira a ligar-se aos campos de futebol e recreios anexos. Comparado com o antigo colégio dos Jesuítas, de Ponta Delgada, era um edifício menos sombrio, menos assombroso e menos enigmático, desfruindo de uma imponência monumental, de uma grandiosidade graciosa e de uma claridade cativante. Os professores eram muitos e os alunos distribuídos por dez anos e agrupados em três prefeituras: Miúdos, Médios e Teólogos.

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publicado por picodavigia2 às 09:05

O TERÇO DO ESPÍRITO SANTO NA TERRA DO PÃO

Segunda-feira, 15.07.13

A Irmandade União e Caridade da Terra do Pão, ilha do Pico, realizou, no passado fim-de-semana, a sua festa anual, em honra do Divino Espírito Santo. A principal razão porque esta celebração se realiza no início do verão, prende-se, fundamentalmente, com o regresso à localidade de inúmeros emigrantes, dispersos pela América e pelo Canadá, e que estão de visita, à terra que os viu nascer.

A festa, em si, é muito semelhante às festas do Espírito Santo, realizadas por altura do Pentecostes, nas restantes freguesias e localidades do Pico: arraial, cortejo, missa e distribuição de rosquilhas. Além disso, como as festas de Maio, a glorificação do Paráclito incluiu, na semana que precedeu a festa, o “canto do Terço do Espírito Santo” que, no entanto, aqui tem uma especificidade muito própria, diferenciando-se quer na música, quer no texto, do mesmo Terço, cantado no lugar da Prainha, freguesia de São Caetano a que aquela localidade também pertence. 

 O “Terço do Espírito Santo”, cantado na Terra do Pão é, incontestavelmente, uma celebração de caris profundamente religioso e que, a julgar pelo próprio texto, transmitido por tradição oral, remonta, muito provavelmente, aos primórdios do povoamento da ilha e aos tempos em que a mesma era abalroada por crises sísmicas frequentes e por outras calamidades, como se pode depreender de alguns dos textos cantados. O terço é constituído por cinco partes, nas quais se repete uma invocação dez vezes seguidas, sendo que a orientadora canta a primeira parte e o povo a segunda, situação que se alterna nas dez invocações seguintes. É este o texto, cantado cinquenta vezes, repartido por cinco blocos de dez invocações cada, que se diferencia do cantado noutros lugares, dali bem próximos. A primeira invocação é feita no presente do indicativo Adoramos com afectos de alma, o Espírito Santo Divino, enquanto na Prainha, é feita no mesmo tempo verbal, mas no conjuntivo. E as diferenças (aqui referidas entre aspas) continuam: “E” dos Céus “descenceu” sobre nós, “com” incêndios de amor divino. Os grupos de dez blocos são separados apenas com uma invocação, dividida, do mesmo modo que a invocação anterior, pelo condutor da assembleia e fiéis: Glória ao Pai que nos criou, glória ao Filho que nos remiu,/Glória ao Espírito “San“, “com a sua graça” nos “concebiu”(obviamente, em vez de concebeu e para rimar com remiu”. A segunda invocação: Fazei ó Santo Espírito a Deus Pai, Filho amar/A um só Deus em três pessoas, no Céu p’ra sempre adorar, cantada na Prainha, aqui não existe. No fim do terço, segue-se a Salve Rainha, também cantada e que termina com duas invocações, repetidas três vezes, com profunda intensidade, quer da música quer do texto: Senhor Deus de Misericórdia/Virgem Mãe de Deus, rogai por nós. Depois rezam-se alguns Pai-Nossos pelos irmãos falecidos e pelas intenções do mordomo, terminando a novena com o “Oferecimento ao Divino Espírito Santo”, durante o qual se cantam os seguintes versos, também parcialmente diferentes: Ó Senhor Espírito Santo/Nós roguemos com clamor/Mandai oprimir à terra,/Que não haja mais tremores. Sois pai de misericórdia/Livrai-nos de todo o mal/Não castigueis com tremores/Esta ilha de ofendal. Não desprezeis a fé grande/Com que nós recomendamos/Fazei como Pai Divino/Naja que nós o merecemos. Barca onde embarcou Cristo/Na galera tão realFeita em tão bela hora/Para aquele general. À popa leva sentado/Santo António com seu véu/Que rica viagem de anjos/Leva Jesus para o Céu. Senhor que lá estais em cima/Nesses Céus de alegria/Vos peço que nos chamais/Para a Vossa companhia. Andavas tão vigiado/Sem saberes da partida/Morte de uma ocasião/Vida nova nova vida. Chega-te à confissão,/Se te queres confessar/ Morte da ocasião/ É o laço do pecado. Mil vezes cada dia/ Tua alma com deligência/ Toma paz e alegria/Que é da boa consciência. Quando Deus formou a terra/Bons e maus Deus os criou/Quando nos Céus se encerram/Só os bons Deus os guardou. Ó Senhor eu vos ofereço/Esta nossa devoção/Seja honra e glória Vossa/Para nossa devoção.

Curiosamente, no final, na Terra do Pão não é habitual cantar-se o hino “Alva Pomba” por estar reservado, exclusivamente, para o dia da festa, sendo cantado uma outra invocação: Senhor Espírito Santo/ Espírito Divino/ Levai-nos à Glória/ Ensinai-nos o caminho. Senhor Espírito Santo/ Espírito Ardente/ Levai-nos à Glória, Para eternamente. Senhor Espírito Santo/ Real Esplandecido/ Livrai-nos dos pêsames/ De vos ter ofendido. Senhor Espírito Santo/ Nós pedimos e roguemos/ Fazei, com o Pa de Misericórdia/ Naja que nós o merecemos. Senhor Espírito Santo/ Meu Senhor e Meu Bem/ Levai-nos à Glória/ Para sempre. Amem.

Acrescente-se que o Terço é cantado por todos (homens, mulheres, jovens e crianças) com um respeito profundo e uma devoção intensa, consubstanciando um acto religioso comunitário, muito digno, embora presidido por um leigo e a que, aparentemente, a “Igreja Docente” é alheia.

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publicado por picodavigia2 às 00:22

SÓ ISTO

Domingo, 14.07.13

(POEMA DE PEDRO DA SILVEIRA)

 

Só isto:

O céu fechado,

uma ganhoa pairando.

Mar. E um barco na distância:

olhos de fome a adivinhar-lhe a proa.

Califórnias perdidas de abundância.

 

Pedro da Silveira

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publicado por picodavigia2 às 16:46

VACAS DE FAVA E PORQUINHOS DE BATATA DOCE

Domingo, 14.07.13

Não será prolixo, nem muito menos cansativo repetir-se que na longínqua década de cinquenta, ali na Fajã Grande, ora protegidos pela alta Rocha dos ventos e dos temporais, ora a levar com as tempestades e maresias trazidas pelos ventos do Norte e do Oeste, num e noutro caso, consequentemente, impedidos de trabalhar e com tempo para a brincadeira, éramos nós próprios que, geralmente, construíamos os nossos brinquedos, aproveitando tudo o que tínhamos à mão e que para tal fosse adequado. E verdade é que geralmente o fazíamos, com muita imaginação, perícia e performance. Além disso, idealizava-se a construção dos nossos brinquedos no que fazia parte do nosso quotidiano e no dos nossos progenitores.

Ora as vacas e os porcos eram animais que, para além de presentes no nosso dia-a-dia, constituíam uma espécie de epicentro de toda a actividade laboral, diária, da maioria dos habitantes da Fajã Grande. Por isso e naturalmente era relacionada com essa actividade que arquitectávamos grande parte das nossas brincadeiras e era também ela que delineava os limites da nossa imaginação, configurava a nossa criatividade e como que se personificava na maioria dos nossos brinquedos. Entre estes tinham lugar de destaque as vacas feitas com as vagens das favas e os porquinhos feitos com batatas-doces.

As vacas de fava eram construídas geralmente no tempo em que o gado andava no “oitono”, ou seja, durante os meses da Primavera. À tardinha, enquanto os nossos progenitores e os outros homens, agrupados em função das proximidades das terras onde tinham o gado amarrado à estaca, aguardavam, em amena cavaqueira, a hora da ordenha e enquanto os animais ruminavam a última “cordada”, ou porque as houvesse ali por perto ou porque as fôssemos procurar mais além, apanhávamos algumas vagens de fava, escolhendo as mais compridas e grossas e as que julgávamos de maior beleza estética. Depois arranjávamos quatro “fochos”, cortávamo-los todos do mesmo tamanho e “falquejávamo-los” numa das extremidades. Eram essas extremidades que depois espetávamos no bordo mais côncavo da fava ou seja do lado em que o pé da mesma se curvava, de maneira a simular o focinho do animal, enquanto os pauzinhos espetados representavam as mãos e os pés. Depois descascávamos uma outra fava, escolhíamos um grão que prendíamos entre as pernas da vaca recém-criada, a fazer de “mojo”, e cujo tamanho variava consoante queríamos uma vaca acabadinha de parir ou uma gueixa alfeira. Aos bois era-lhes espetado um pequeno “focho” na barriga a imitar o falo. Finalmente dois “fochos” no lado da fava que representava a cabeça e estava um animal perfeito, com o qual brincávamos durante alguns dias apenas, pois as favas tinham um prazo de validade bastante limitado.

Por sua vez os porcos com que também gostávamos de brincar, eram feitos de batata-doce, a qual, na altura, abundava na Fajã. Da mesma forma escolhíamos criteriosamente a bata mais redondinha, rechonchuda e que considerávamos mais parecida com o corpo de um suíno. Quatro “fochos”, desta feita mais pequenos e mais grossos do que os das vacas de fava, transformavam-se nos pés e nas mãos do suíno enquanto outros dois mais pequeninos, espetados do lado contrário simulavam-lhe as orelhas. E aí estava um porco perfeito. Depois era criá-lo, matá-lo e até, por vezes comê-lo, porque na realidade muitas vezes, naqueles tempos, até comíamos batata-doce crua.

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publicado por picodavigia2 às 08:19

DECRÉSCIMO DEMOGRÁFIO

Sexta-feira, 12.07.13

 

( CONCELHO DAS LAJES DAS FLORES)

 

A emigração, primeiro, e o envelhecimento natural da população, depois, transformaram o concelho das Lajes das Flores, o mais ocidental dos Açores e de Portugal, no mais grave caso demográfico de entre todos os 19 concelhos que compõem as nove ilhas do arquipélago dos Açores. Com uma densidade populacional que se queda, presentemente, pelos 21,58 hab/km2, sensivelmente um quinto da média dos Açores, o concelho perdeu, também, entre 1950 e 1960, o estatuto, que desde sempre detivera na ilha, de concelho mais populoso, tendo sido, inexorável e definitivamente, ultrapassado pelo de Santa Cruz das Flores. Os seus 1.501 habitantes, segundo os «Censos 2011», estão distribuídos pelas suas sete freguesias da seguinte forma: Lajes 627, Fazenda das Lajes 257, Lomba 206, Fajã Grande 199, Lajedo 93, Fajazinha 76 e Mosteiro apenas 43 habitantes. Estas minúsculas freguesias representam o ponto mais baixo de uma acentuada – e no último meio século, contínua – curva descendente da sua população do concelho das Lajes, e podem ser vistas igualmente como o prenúncio do desaparecimento próximo de algumas pequenas comunidades, a exemplo do que já sucedeu, no último quartel do século XX, com os lugares da Cuada, que nos seus tempos áureos chegou a ter mais de uma centena e meia de almas, e da Caldeira do Mosteiro e ainda, em anos anteriores dos lugares de Pentes e Fajã dos Valadões, na Fajãzinha.

Com uma superfície de 69,59 km2, o concelho de Lajes das Flores terá conhecido a sua população máxima nos já distantes meados do século XIX (5.982 habitantes em 1849). Daí para cá, porém, a sua população tem vindo gradualmente a diminuir, sendo que a década de 1950 fica, para já, a marcar o início de uma viragem sem retorno previsível – 5.865 habitantes em 1864, 5.369 em 1878, 4.999 em 1890, 4.498 em 1900, 3.991 em 1911, 3.518 em 1920, 3.508 em 1930, 3.780 em 1940, 4.041 em 1950, 3.376 em 1960, 2.486 em 1970, 1.896 em 1981, 1.701 em 1991 e 1.502 em 2001. Se a emigração para o Brasil não teve influência significativa na demografia local – pese embora haver notícia de várias embarcações que, na década de 30 do século XIX, com maior ou menor sucesso, aqui tentaram arregimentar braços que supostamente eram depois vendidos “como vis escravos aos plantadores dos ardentes climas das Américas”, já o mesmo não sucedeu em relação aos Estados Unidos e mais tarde o Canadá, que os primeiros florentinos cedo lograram alcançar a bordo das baleeiras americanas que na ilha habitualmente faziam refresco e substituição de tripulantes. Em vésperas, ainda, da grande “corrida ao ouro” na Califórnia, garantia já em 1857 o governador civil da Horta que “das Flores a emigração para as baleeiras, assim como para os Estados Unidos, é feita clandestinamente, não se podendo dizer que seja em pequena escala” E tanto assim foi que, só capitães baleeiros, será possível identificar, nas décadas seguintes, ao serviço da frota americana, uma boa dúzia de florentinos, ou filhos destes – António Caetano Corvelo, Henry Clay, William F. Joseph, Francisco Augusto, Nicholas Rodrigues Vieira, John A. Vieira, Joseph A. Vieira, António José de Freitas, Joseph T. Edwards, Antone T. Edwards, John T. Edwards e Joseph F. Edwards.

A grande sangria populacional da ilha só viria a ocorrer, porém, no último quartel do século XIX e nas duas primeiras décadas do século XX. Não há elementos estatísticos que permitam quantificar essa emigração, avessa a passaportes, mas, a crer na imprensa local, o fenómeno, que tivera como causa próxima a alteração, em Abril de 1873, da lei do recrutamento, eliminando as remissões a dinheiro, depressa atingiu proporções nunca antes vistas. Em 1883, por exemplo, o vapor Açoriano chegou a Boston com duas centenas de florentinos e, na primavera seguinte, também o lugre Paladin e as barcas Sarah e Verónica desembarcam naquela cidade e em New Bedford uma centena acrescida de emigrados. Em Maio de 1889, a logra Mary Frazier zarpou da ilha para Boston “com nada menos de 200 passageiros” viagem que repetiria dois meses depois, tal como o patacho Rival, ambos “cheios de emigrantes”  E sob o título “Escravatura Branca”, um jornal local noticiava em Maio de 1891 que a barca Sarah saíra, naquele mês, para Boston abarrotada “de passageiros clandestinos, ou escravatura branca, como lhe chama o próprio capitão” pois só três dos embarcados possuíam passaporte. “Até há poucos anos só emigravam alguns mancebos sujeitos ao recrutamento (...) mas hoje abandonam a ilha famílias inteiras sem distinção de idades nem de sexos”, escrevia o mesmo jornal, adiantando que a emigração “vai tomando proporções assustadoras”, tanto mais que a autoridade “não só deixa embarcar os naturais da ilha, mas ainda aqueles que, não podendo embarcar nas suas terras, vêm aqui para mais livremente seguir o seu destino”.

Na viragem do século XIX para o XX já eram mais de quinhentos, na ilha, os americanos in nomine, muitos deles guindados agora, nesse seu regresso à terra-mãe, à condição de pequenos proprietários, graças às águias amealhadas nas longínquas Califórnias de abundância.

Não se ateve, todavia, a esta vertente económica a influência americana na vida dos florentinos, antes podemos encontrá-la, também, no cancioneiro popular, na arte do scrimshaw, na linguagem recheada de americanismos, até na introdução das ideias protestantes, chegadas, no dizer de um periódico local, sob a forma de um “verdadeiro aluvião de livros heréticos e bíblias falsas” que de Lowel remetera um emigrante dos Cedros. Foi dessa América, também, que à ilha chegaram quase todas – a grande excepção terá sido o primeiro coupé, trazido de Lisboa em 1889 – as “suas” inovações da época – as primeiras caliveiras e debulhadoras mecânicas para os milhos, a primeira impressora tipográfica, as primeiras canoas baleeiras e seus apetrechos, os primeiros aparelhos de rádio, etc.

Estancou-se, finalmente, a emigração. Mas quantos sobram hoje, também?! Como cantou, há quase meio século, o poeta Pedro da Silveira. “É uma família morta, a de meu pai: / uma família morta, / de ausentes e mortos. / Na Europa só eu resto: os outros / desertaram a casa, / abalaram, são hoje / nos que não sei, / americanos, filipinos, cubanos / e brasileiros, / venezuelanos / e uruguaios / - primos dispersos, / parentes / entre si ignorados.”

 

Obs – Texto elaborado a partir de dados retirados da Internet e actualizados com os do Censos 2011,

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publicado por picodavigia2 às 13:40

O CAIS DAS LAJES

Sexta-feira, 12.07.13

A ilha das Flores era a única ilha dos Açores em que o velhinho Carvalho Araújo, que as visitava mensalmente, atracava em duas localidades:em Santa Cruz, durante a manhã e nas Lajes, ao longo da tarde e até à noite.

Os habitantes da Fajã Grande que nele viajavam, como grande parte dos de toda ilha, normalmente desembarcavamem Santa Cruz.É verdade que a deslocação para a Fajã era um pouco mais longa, mas, em compensação era possível fazer o trajecto até aos Terreiros de carro. Além disso desembarcando da parte da manhã, os passageiros chegavam sempre mais cedo a casa. Pelo contrário, o embarque era quase sempre feito pelas Lajes, permitindo assim sair-se de casa no próprio dia, percorrendo o longo e sinuoso caminho, entre a Fajã e as Lajes, durante a madrugada e manhã.

Por isso no cais da Lajes, em dia de chegada do Carvalho, reinava uma confusão tremenda e uma barafunda descomunal. Homens, mulheres, crianças, malas, baús, grades, bidões, caixotes, barris, sacos de serapilheira, bois, vacas e até alguns cavalos amontoavam-se em desusada caldeação. Aguardava-se a chegada de mais uma das duas pequenas barcaças que iam e vinham, alternadamente, entre o cais e o enorme paquete ancorado a umas duas ou três milhas de terra. Eram lanchas pequenas, vagarosas e frágeis que iam e vinham à vez, chegando carregadíssimas, a abarrotar de pessoas e bagagens. Encostavam-se às escadas de acesso ao porto e dois marinheiros, de calças arregaçadas pelo joelhos e descalços, uma à proa e outra à ré, atiravam as cordas que traziam amarradas nas bordas da embarcação para cima do cais a fim de que as alças das pontas fossem presas nos moitões de ferro cravados no cais, permitindo aos passageiros saltar para terra com maior segurança. Só depois lhes era retirada a bagagem, que, a conta gotas, ia sendo atirada pelos marinheiros para cima do cais onde estavam os bagageiros que a apanhavam com mestria e a seguravam com perícia de forma a que nenhuma mala ou caixote caísse no chão ou escapulisse para o fundo mar. Assim que as lanchas ficavam livres das pessoas e das malas que traziam de bordo, seguia-se uma lufa-lufa medonha, por parte dos que estavam em terra e pretendiam embarcar. Acompanhados da respectiva bagagem, todos queriam ser os primeiros a entrar e a ocupar os melhores assentos nos pequenos batéis, enquanto as malas iam sendo arrumadas à proa e à ré das embarcações.

Mais fora, mas antes do molhe, dois botes maiores do que as lanchas e com motores mais potentes, carregados com sacos de farinha, de açúcar, de adubo, de cimento, caixotes de sabão e de bebidas, bidões de cal ou de petróleo, grades com garrafas de cerveja e de pirolitos e muita outra carga, também se iam, à vez, encostando ao cais. Em terra, um pequeno e desengonçado guindaste levantava, muito lentamente, toda aquela carga e colocava-a, desordenadamente, em cima do cais. Depois alguns homens entretinham-se a arrumá-la e ordená-la de acordo com os comerciantes da vila a quem se destinava e dos quais se destacavam: o Germano e a Firma.

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publicado por picodavigia2 às 08:18

O CORSÃO DE BOIS

Quinta-feira, 11.07.13

O corsão de bois constituiu talvez o mais antigo e o mais tradicional veículo de transporte de produtos agrícolas utilizado na Fajã Grande. Foi também incontestavelmente o mais utilizado e o mais importante, pelo menos até à abertura e construção da nova estrada, uma vez que nessa altura foi interdita, por razões lógicas, a sua circulação naquela via, sendo então quase definitivamente substituído pelo carro de bois, pelo carro de mão e pelos triciclos.

Na Fajã existiam dois tipos de corsões: os de “junta” e os de “canguinha”. Os primeiros eram maiores e puxados por duas reses, enquanto aos segundos, um pouco mais pequenos, atrelava-se apenas um animal, embora por vezes, o mesmo corsão fosse utilizado e puxado, em tempos diferentes, por uma junta de bovinos ou por um só. Neste caso alterava-se apenas o respectivo cabeçalho. Havia ainda uns corsões mais pequenitos que eram puxados por bezerros. Uns e outros quando se deslocavam sem carga eram a alegria da garotada que de pé ou sentados e bem agarrados aos fueiros viajavam sobre eles em alegres passeatas.

O corsão era quase todo construído em madeira e puxado por bois ou vacas que o faziam deslizar ou arrastar sobre as pedras da calçada, por vezes extremamente irregular, ao longo dos vários caminhos da Fajã que, eventualmente tinham a largura suficiente para passar um junta de bois. A sua estrutura assentava fundamentalmente em dois grossos paus de incenso, devidamente cortados, endireitados e aplainados, com a parte da frente em forma de proa de navio, que se uniam por meio de cinco ou seis travessas de cedro, um pouco arcadas na parte superior e que eram neles encravadas de modo a formar uma espécie de grade rectangular. A seguir à primeira travessa da frente os paus eram furados e nos furos era enfiada uma cavilha de ferro a que se prendiam os cabeçalhos. Os corções de “junta” tinham apenas um cabeçalho que se prendia na cavilha com uma armação em forma de triângulo, denominada “cangalha” e que se destinava a fixar o cabeçalho precisamente a meio do corsão, para que a junta das reses o puxasse da forma mais equilibrada possível. Quando os paus laterais que rastejavam sobre as pedras da calçada se iam gastando em demasia, pregavam-se por baixo uns outros mais espalmados, chamados “alabaças”, que impediam que os originais se corroessem totalmente e o corção se desfizesse por completo. A fim de se arrumarem da melhor forma e segurarem bem os produtos que se pretendiam transportar, como lenha, incensos, milheiros, rama seca, fetos, cana roca, etc, os paus laterais tinham quatro ou cinco furos cada um, onde se espetavam os fueiros feitos de incenso ou oraçã e que eram maiores ou menores consoante se pretendia trazer menos ou mais carga. Para transporte de carregamentos mais leves e volumosos, como fetos e rama seca, os fueiros, para além de muito altos, eram tornados pontiagudos, a fim de que os produtos neles fossem espetados e se segurassem melhor tão volumosa carrada. Quando a carga ia a meio passava-se pelos fueiros a “travadura”, ou seja, uma corda delgada com uma arça na ponta e que se prendia num dos fueiros da frente e que depois se ia cruzando, fueiro a fueiro, até se amarrar a extremidade no último de trás a fim de segurar bem o fardo. Por fim toda a carga era amarrada com um cabo ou corda maior e mais grossa do que a “travadura”, também com arça na ponta e que era amarrado num dos lados, na travessa do meio, e vinha prender na mesma travessa do outro lado. Com os arrochos, formados por dois paus, um direito, espetado na carga e outro torto para torcer o cabo em volta do primeiro pau, apertava-se muito bem a carga de modo a que esta não desfizesse ou caísse. Se a carga era milho, batatas, inhames ou esterco era colocada sob o corsão e presa nos fueiros uma sebe feita de vimes, sendo as travessas cobertas com tábuas e a sebe fechada a trás com uma porta.

Por sua vez o cabeçalho ou cabeçalhos, uma vez enfiados na cavilha, eram presos â canga com um tamoeiro feito de couro que dobrava sobre a canga e se prendia ao cabeçalho com uma chavelha. No corsões de “canguinha”, a canga tinha a forma de um v invertido e cada lado tinha o seu pequeno tamoeiro também preso com uma chavelha ao respectivo cabeçalho. A canga de junta tinha a forma de um M com o tamoeiro preso a meio e assentava no pescoço dos animais com dois “canzilhes”, presos por baixo do pescoço do animal com uma brocha feita de couro, sendo a cabeça dos bovinos amarradas uma à outra ou simplesmente presos pelas ponteiras dos chifres, caso as tivessem.

O grande problema dos corsões era o de que sendo o piso dos caminhos muito irregular, estes, vezes sem conta, sobretudo quando excessivamente carregados, empeçavam nas pedras e calhaus mais salientes do caminho. Para os desempeçar era o cabo dos trabalhos, sendo necessários dois ou três homens ou, por vezes, retirar-lhe uma boa parte da carga.

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publicado por picodavigia2 às 13:05

AS DUAS IRMÃS

Quinta-feira, 11.07.13

(CONTO TRADICIONAL)

 

Era uma vez uma viúva que tinha duas filhas. A mais velha parecia-se tanto com ela, que a confundiam com a própria mãe. Mas a mãe e a filha eram tão desagradáveis e orgulhosas que ninguém as suportava. Por sua vez, a filha mais nova, para além de boa e educada, era muito bonita.

A mãe adorava a filha mais velha, mas tinha uma tremenda antipatia pela mais nova, que comia na cozinha e trabalhava sem como se fosse uma criada, pois tinha, a pobrezinha, entre outras coisas, de ir, duas vezes por dia, buscar água a uma fonte que ficava longe de casa, com uma enorme e pesado balde, que trazia sempre bem cheio.

Um dia, enquanto ela estava junto à fonte a encher o balde, apareceu uma pobre velhinha, pedindo-lhe de beber:

- Pois não, boa senhora - disse a linda moça e, pegando no balde, tirou água, dando-lhe de beber com as suas próprias mãos, para auxiliá-la.

A boa velhinha bebeu e disse:

- Tu és tão bonita, minha filha, e tão boa e tão educada, que não posso deixar de te dar um dom. – É que aquela velhinha era uma fada, que tinha tomado a forma de uma pobre camponesa para ver até onde ia a educação daquela menina.

- Quando falares, a cada palavra que proferires - continuou a fada disfarçada de velhinha - da tua boca sairá ou uma flor ou uma pedra preciosa.

Quando a filha chegou a casa, a mãe recriminou-a pela demora.

- Peço-lhe perdão, minha mãe - disse a pobrezinha -, por ter demorado tanto. - E, dizendo estas palavras, saíram-lhe da boca duas rosas, duas pérolas e dois enormes diamantes.

- O que é isso? - Disse a mãe espantada - Acho que estou a ver pérolas e diamantes saindo da tua boca. Como é que conseguiste isso, filha? - Era a primeira vez que lhe chamava de filha.

A pobre menina contou-lhe, então, o que tinha acontecido junto da fonte, saindo-lhe da boca flores e pérolas.

- Meu deus! - Disse a mãe. - Tenho de mandar a minha filha mais velha à fonte.

De seguida chamando a filha mais velha, disse-lhe;

- Filha, vem cá. Vê o que sai da boca da tua irmã, quando ela fala. Quero que tenhas o mesmo dom. Vai à fonte e, quando uma pobre mulher te pedir água, dá-lhe de beber.

- Só me faltava essa! - Respondeu a filha. - Ter de ir até à fonte!

- Estou a mandar-te, filha, - retorquiu a mãe -, e vai já, antes que a mulher desapareça.

Embora contrariada, a rapariga lá foi, levando o mais bonito jarro de prata que havia em casa.

Mal chegou à fonte, viu sair do bosque uma princesa, ricamente vestida, que lhe pedia água. Era a mesma fada que tinha aparecido à irmã, mas que agora se disfara de princesa, para ver até onde ia a educação daquela moça.

- Será que foi para te dar de beber que eu vim aqui? – Respondeu a rapariga – Tens aqui um jarro de prata cheio! Tome e bebe do jarro, se quiseres, pois eu não sou tua criada.

- És muito mal-educada - disse a fada. - Pois muito bem! Já que és tão pouco cortês, a cada palavra que proferires, sair-te-á, da boca, uma cobra ou um sapo.

Quando a mãe a viu chegar, perguntou-lhe:

- E então, filha? Encontraste a mulher e deste-lhe de beber.

- Sim, mãe! Encontrei-a e dei-lhe água do meu jarro. - Respondeu a mal-educada, soltando-lhe, de imediato, pela boca duas cobras e dois sapos.

- Meu Deus! - Gritou a mãe, horrorizada. - O que é isso? A culpa é da tua irmã. Ela me paga. E imediatamente foi procurar a filha mais nova. Depois de a espancar, expulsou-a de casa. Sem ter para onde ir, a menina, lavada em lágrimas, foi-se esconder na floresta.

O filho do rei, que voltava da caça, encontrou-a e, vendo como era linda, perguntou-lhe o que fazia ali sozinha e por que estava a chorar.

- Ai de mim, senhor, foi minha mãe que me expulsou de casa.

O filho do rei, vendo sair de sua boca cinco flores e outros tantos diamantes, pediu-lhe que lhe dissesse de onde vinha aquilo.

Ela contou-lhe toda a sua aventura. O filho do rei apaixonou-se por ela e, considerando que tal dom valia mais do que qualquer dote, levou-a para o palácio real. Algum tempo depois casaram e viveram felizes para sempre.

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publicado por picodavigia2 às 12:55


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