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A BORBOLETA AZUL

Quarta-feira, 07.08.13

Ela era rainha. O seu mundo era um jardim, o seu país um canteiro e o seu palácio uma flor de que se assenhoreara, transformando uma pétala em aposento real. As suas asas eram de tule transparente e azul. Mas era um azul tão azul que lembrava o céu, o mar, o anil e as safiras. O seu corpo era deliciosamente opaco e espesso e os olhitos, muito atentos e enigmáticos, eram dois pontinhos castanhos, brilhantes, afáveis e meigos, A flor-palácio era uma violeta roxa, muito aromática, mas modestíssima e simples. Pertencia ao canteiro dum jardim e, por capricho do jardineiro, vivia rodeada de dálias, petúnias, robínias e tulipas. Era um canteiro maravilhosamente belo. Habitavam-no também muitos outros animais: cigarras, formigas, abelhas, gafanhotos, joaninhas, lagartas e até um sapo. Mas nenhum possuía a beleza, a simplicidade e a ternura da Borboleta Azul.

 

Certa manhã enevoada e cinzenta, a Borboleta Azul levantou-se indecisa e confusa. Deitou os olhitos ao relento hesitou e resolveu voltar a deitar-se, ou seja, a poisar de novo na pétala aromática e roxa da violeta que lhe servia de abrigo e protecção. A manhã mantinha-se enevoada e tardava em clarificar. O Sol teimava em manter-se escondido. Mas a azáfama no reino era enorme e desusada: é que o jardineiro, aproveitando a bruma matinal, decidira revolver toda a terra, mondar ervas daninhas e, regando o canteiro, colocava em polvorosa toda a bicharada. A própria Borboleta Azul foi forçada a levantar-se. Voou, voou, até que poisou casualmente junto dum lago não muito distante dali. Era um lago pequeno, cristalino, trasbordante de água e de frescura e que um Peixinho Vermelho transformara no seu mítico falanstério. Comungando simultaneamente displicência e incredulidade, peixe e borboleta esperavam que o Sol clarificasse o dia e rompesse a penumbra enigmática e paradoxal que se espelhava nas águas transparentes do pequeno lago.

 

Um suave perfume trespassava o ar, leve e contagiante. Uma nuvem corria apressada e deixava transparecer um raio de sol, súbito e inopinado. Foi então que o Peixinho Vermelho deitou a cabecita fora da água e, num ápice, pode ver um ser tão estranho e tão diferente dos que com ele partilhavam as frias águas do lago. Mas, assim como o raio de sol, a visão desvaneceu-se... Voltou a sombra e o Peixinho Vermelho ficou só, confuso e perplexo.

 

Mas algum tempo depois a Borboleta Azul voltou ao lago. Um dia, dois dias, todos os dias, comungando alegrias e partilhando desventuras, contando histórias de flores e de jardins:

 

- Gostava tanto de ver uma flor - suplicava o Peixinho Vermelho.

 

Confusa, a Borboleta Azul não sabia o que lhe responder.

 

Certa tarde, ao regressar do lago, a Borboleta Azul voltou ao seu palácio, mas já não o encontrou. Momentos antes, passara por ali um casal de namorados. Pararam junto ao canteiro. Querendo demonstrar o amor que lhe transbordava do peito, o rapaz apanhou a violeta e ofereceu-a à namorada como prova indiscutível e indelével do seu amor. A rapariga apertou a flor ao peito, cheirou-a e, comungando o seu perfume, beijou apaixonadamente o rapaz. Foi então que a Borboleta Azul decidiu voltar ao lago. A mágoa e a dor dominavam-na. Dos seus olhitos rolaram duas lágrimas de desespero que, caindo no lago, se diluíram na água e se esvaneceram com a reconfortante compreensão do peixe:

 

- Não te preocupes, boa amiga! O teu destino é voar. Voarás sempre sobre flores, sobre jardins e sobre lagos. Conquistarás o perfume das madrugadas e o calor do Sol. Mas não deixes nunca que se evapore o enigma azul e transparente das tuas asas.

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publicado por picodavigia2 às 18:42





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