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PÔR-DO-SOL

Domingo, 11.08.13

Era um velho marinheiro de longas barbas brancas salpicadas de sinuosidade, cabelos soltos e grisalhos a arfarem desejos entontecidos e um rosto petrificado de caligens e nostalgias. O peito, um deserto sulcado de penumbras e enigmas Sentava-se, sem hesitações e devaneios, todos os dias, à janela da sua velha casa, no cimo duma pequena colina, tão distante daquele mar que outrora calcorreara de lés-a-lés, simplesmente a ver o Pôr-do-Sol. A janela ficava voltada para o mar e a casa virada a Oeste. Sentado num enorme cadeiral, ali permanecia horas e horas à espera que o astro rei traçasse a sua trajectória sobre a pequena aldeia, sobranceira à colina e se perdesse no horizonte.

Mas não era apenas o Pôr-do-Sol que cativava a estima, a admiração e a curiosidade do velho marinheiro. Alta madrugada, também se levantava para poder observar os primeiros raios de claridade que rompiam a noite e a iam transformando em madrugada. Mesmo sem ver o Sol, mas sentia a presença inequívoca dos seus raios que se espelhavam lá por trás dos montes e que davam à madrugada um ar clarificante, risonho e prazenteiro. Depois aguardava com um sorriso ostentoso e confiante o seu aparecimento e o milagre da transformação das madrugadas em manhãs. E à tardinha, o velho marinheiro, regressando à sua janela voltada para o mar, observando mais uma vez o ocaso do astro rei, sentia-se feliz e contente na certeza expectante de que ele viria a nascer no dia seguinte. Então as manhãs eram virtuais, límpidas, perfumadas e com sabor a madressilva e a rosmaninho.

E o velho marinheiro, deleitava-se em dolente nostalgia como que hibernando numa comunhão profunda com aquela suprema potência da natureza.

E, no dia seguinte, à tardinha lá estava ele, outra vez, com um fulvo brilho nos olhos, à espera de mais uma espera.

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publicado por picodavigia2 às 21:20

A MATRACA

Domingo, 11.08.13

Nos antigos rituais litúrgicos de Sexta-Feira Santa, anteriores às reformas conciliares da década de sessenta, o toque de sinos e campainhas era totalmente interdito nas igrejas, desde a noite de Quinta-Feira Santa, logo após a celebração da missa in “Cena Domini” até à meia noite de Sábado de Aleluia. Durante esse tempo, todo e qualquer toque de índole litúrgica, necessário a chamar a atenção e concentração dos fiéis num momento mais solene de qualquer celebração litúrgica ou destinado a despertá-los e chamá-los para qualquer acto religiosa, era substituído pelo toque da matraca.

A matraca era um instrumento construído em madeira, formado por três tábuas pregadas umas nas outras e com um suporte manual na parte superior, como se de uma pequena caixa se tratasse. Na parte exterior das tábuas estavam cravadas várias argolas de ferro que se soltavam batendo em conjunto e de forma violenta e agressiva na madeira, logo que a dita cuja fosse abanada com alguma força e agilidade, produzindo assim um som barulhento, matracado, estranho e esquisito.

Na Fajã, atrás do altar mor e pendurada num prego da parede, havia uma matraca que era utilizada na Sexta Feira Santa, na procissão do Senhor Morto, única cerimónia realizada na freguesia naquele dia, uma vez que as “endoenças” eram celebradas às três horas da tarde, na igreja Matriz da Fajãzinha, às quais, no entanto, assistiam muitas pessoas da Fajã, que para aquela freguesia vizinha se deslocavam com tal intuito. As cerimónias das “endoenças”, na Fajãzinha, eram muito concorridas, exigiam três padres, alfaias litúrgicas adequadas e paramentos que a igreja da Fajã não possuía. Daí que a matraca da Fajã fosse utilizada apenas na Sexta-Feira Santa, à noite, na procissão do Enterro ou do Senhor Morto, assim como no toque das Trindades dos três dias que constituíam o chamado Tríduo Pascal.

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publicado por picodavigia2 às 21:17





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