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A GROTA DE TAÍCA

Sábado, 17.08.13

Uma das mais pequeninas, insignificantes e desconhecidas grotas, de quantas caíam em catadupa pelos andurriais escabrosos da rocha, despejando as suas águas frescas e cristalinas sobre as relvas e campos circundantes àquele alcantil escarpado e abrupto, tingindo-os de verde, de galantaria e de abundância, era a grota de Taíca.

A origem deste topónimo, segundo a opinião mais comum e mais generalizada, deverá, naturalmente, procurar-se na sua nomenclatura primitiva, o que, provavelmente, muito terá a ver com o nome “Tia Anica”, personagem mítica e lendária que naquele recanto terá vivido ou, pelo menos, com ele terá estado intimamente relacionada, tal qual como uma outra Ti’Anica, a de Loulé. O povo, no entanto, com a sua original e espontânea capacidade de simplificar e abreviar os nomes, depressa transformou a grota de “Tia Anica” em grota de “Tanica”. Daí a grota de “Taíca”, foi um ápice. Uma evolução fonética popular e simples que não desdiz em nada a essência, não belisca a beleza, nem contraria as virtualidades da referida grota.

A grota de Taíca, apesar de pequena, encoberta e pouco conhecida, era de uma beleza rara, duma excelência assinalável e duma singularidade sem par. As suas águas eram límpidas e transparentes, o seu deslizar suave e ameno e o seu percurso sombrio e enigmático, porque envolto nas copas dos arvoredos e nos mistérios dos rochedos que a rodeavam. Ao longo do seu exíguo trajecto, havia lagos pequenos, mas claros e brilhantes, a reflectirem o espectro das encostas sobranceiras, o verde das folhas das árvores e, por vezes, a bifurcarem-se em minúsculos regatos, cujas águas se perdiam por entre veredas e atalhos. Nas suas margens floresciam arvoredos a abarrotar de copas e folhas, verdes, amarelas, lilases, carregados de murmúrios e de perfumes de outonos, que conferiam à sua água uma frescura leve e adocicada, uma transparência simples e acolhedora. Mas também havia rochedos negros, caiados de musgos, frios, húmidos e latejantes, a abarrotar de silêncios e mistérios.

A meio do seu percurso, porém, a grota de Taíca, alterava o seu deslizar, embrenhando-se entre penhascos, altivos e grotescos que confundiam as suas águas, alienavam a suavidade do seu percurso e lhe transmitiam um desassossego desconfortante e uma ingenuidade desabrida. Mas logo a seguir serenava e, voltava ao seu deslizar de sonho e de magia, serpenteando por entre as sombras das árvores e murmúrios do silêncio, até desfazer-se, junto à foz, em estranhas e múltiplas ramificações que irrigavam campos, alimentavam pequenos arroios, regavam florestas, acabando por perder-se, despejando as suas águas numa enorme ribeira de que a grota de Taíca era um dos mais importantes afluentes.

A grota de Taíca, um fascínio de singularidade a emergir da rocha, um pedaço de transcendências a reflectir o céu, um cordão cristalino e prateado a ornar a terra. A grota da Taíca, um raio aureolado, um fio ténue e cristalino, a irradiar um espontâneo deslizar de águas puras, frescas, inconfundíveis e singulares. A grota da Taíca, um fiozinho de água tímido, hesitante e inibido, a perder-se no ritmo apressado e tempestuoso dos rochedos e matagais, que agitados por ventos, tempestades e intempéries borboletavam ao seu redor, agitando as suas águas puras e cristalinas, desfazendo os seus murmúrios e os seus silêncios, numa persistente tentativa de aniquilar o doce azulado das suas águas e o silêncio sombrio das suas margens.

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publicado por picodavigia2 às 15:34

PROJECTO VERTICAL

Sábado, 17.08.13

(PEDRO DA SILVEIRA POR ÁLAMO OLIVEIRA)

 

Pedro Laureano de Mendonça da Silveira (Fajã Grande, 5.9.1922 - Lisboa, 13.4.2003), nascido na freguesia florentina menos distante do continente americano, foi apelidado, com propriedade "o mais ocidental poeta europeu". Afirmou-se, politicamente, anarquista dada a admiração nutrida pelos anarco-sindicalistas terceirenses Jaime Brasil e Aurélio Quintanilha. Toda a vida cultivou estreita relação com a escrita, o que fez dele poeta, investigador histórico e crítico literário, realizando também trabalho sobre a etnografia da ilha das Flores, onde recolheu romances, provérbios, contos e adivinhas, o que lhe permitiu transpor a fala do povo para alguns dos poemas que compôs.

Dispersou o seu labor incessante por diversas áreas (P. da S. foi um das formas como assinou), desde logo colaborando na imprensa escrita (insular, continental e estrangeira) entre outras na Seara Nova (a cujo conselho de redacção pertenceu até 1974), na Colóquio-Letras (1973-1991) e na Vértice.

Foi no jornal micaelense A Ilha que a partir de 1945, deu a conhecer uma das expressões da cabo-verdianidade (revista Claridade (1936) movimento literário cuja divulgação, em Portugal, muito lhe deve.

Entre as décadas de 50 e de 80 do século XX, pelo menos, dedicou-se a traduzir textos de várias áreas temáticas que, por vezes também adaptou, como foi o caso de D. Quixote de la Mancha, da «Biblioteca dos Rapazes».

A poesia, contudo, corria-lhe nas veias e, além da obra que legou à posteridade, abalançou-se a verter de várias línguas, tarefa que lhe ocupou perto de três décadas, um total de cerca de 200 poemas de 60 poetas, oriundos de vários países e de diversas épocas, compilados na soberba colectânea Mesa de Amigos que conheceu, até agora, duas edições.

O seu "exílio" na capital, teve início, em 1951, mas a ilha e o arquipélago natal eram-lhe inseparáveis e proclamava-o à saciedade. No prefácio à primeira antologia de poetas açorianos que elaborou, com a lucidez que o caracterizava, autonomizava a literatura açorense das restantes literaturas de expressão portuguesa.

O rigor e a perfeição eram suas preocupações dominantes tendo sido um dos inspiradores da «Enciclopédia Açoriana», pese embora não ter vivido para a ver concretizada. A generosidade com que partilhava informações e a disponibilidade para encontrar o que parecia inexistente tornou-o inesquecível a quantos o conheceram na Biblioteca Nacional, de onde se reformou em 1992 e à qual doou o seu espólio que ali se encontra ao dispor dos investigadores.

Pedro da Silveira, que cursou a Universidade da vida, permanecerá como "um exemplo, sadio e forte, do que é ser-se açoriano no Mundo".

Obras de Poesia: A Ilha e o Mundo, 1952; Sinais de Oeste, 1962; Corografias, [1985]; Poemas Ausentes, 1999; Fui ao Mar Buscar Laranjas I, Angra do Heroísmo, 1999 (único volume da sua obra completa publicado)

Obras Diversas: Mesa de Amigos, 2.ª edição, 2002 (selecção e tradução); 43 Médicos Poetas (antologia) 1999; Mais alguns romances da Ilha das Flores, 1986; Os últimos luso-brasileiros: sobre a participação de brasileiros nos movimentos literários portugueses do Realismo à dissolução do Simbolismo, 1981; Antologia de poesia açoriana: do século XVIII a 1975, 1977; "Açores", Grande Dicionário de Literatura Portuguesa e de Teoria Literária (coord. João José Cochofel), 1977, 1.º vol.; Miguel de Cervantes Saavedra, D. Quixote de la Mancha, 1966; "Para a história do povoamento das Ilhas das Flores e do Corvo: com três documentos inéditos", Boletim do Núcleo Cultural da Horta, Faial, 2, 1960, pp. 175-198.

 

Biografias: Álamo Oliveira, "Pedro da Silveira (1922-2003) - Um breve perfil", Boletim do Núcleo Cultural da Horta, Faial, 13, 2004, pp. 75-80; Boletim do Núcleo Cultural da Horta, Faial, 15, 2006, pp. 9-116 (toda a Secção Temática

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publicado por picodavigia2 às 14:50

A BIDARTA

Sábado, 17.08.13

Ainda o velho exemplar da “Ansónia Clok” de Nova Iorque, pendurado na parede da sala, não tinha dado as quatro da madrugada e o Manuel Foinha já se rebolara vezes sem conta no bolorento e carunchoso colchão de palha com travesseiro de casca. Acordara esbaforido com a persistente convicção de que ouvira o ribombar de um foguete misturado com um silvar de navio. Ao lado a mulher, interrompendo muito a custo um roncar estrepitoso e agudíssimo, contrariava

- Credo, home! Nan vês que tás a sonhá! Deita-te p’ra aí e dorme com Deus! – E virava-se para o outro lado, sem preocupação nenhuma, regressando brevemente aos braços de Morféu.

Mas dormir é que o Foinha não conseguia. Aquilo não fora sonho, não e a prova tinha-a agora. É que por entre os rugidos roufenhos do mar chegava-lhe aos ouvidos uma algazarra longínqua de vozes, misturada com um reboliço inquietante de pessoas.

Levantou-se à pressa, vestiu-se e passou pela cara um resto de água salobra que ficara da véspera na bacia do lava mãos da cozinha. O barulho das vozes era cada vez maior e o movimento de pessoas aumentava significativamente. Eram gritos inexoráveis, uma vozearia esganiçada, acompanhada por correrias estonteantes. Um alvoroço matutino como há muito se não ouvira. Trémulo, riscou uma, duas, três mechas, mas só à quarta conseguiu acender a besuntada lanterna de petróleo. Luz, quase nenhuma. É que, como no dia anterior chovera torrencialmente, tinha chegado muito tarde do Mato e usara-a enquanto tirava o esterco. Acendera-a à pressa e, como o palheiro estivesse a abarrotar de escuridão e de estrume, torceu e subiu o pavio tão exageradamente que o vidro ficou naquele estado.

- Raios ta partam! Estapor de mulhê, que nunca alimpa nada – protestava exasperadamente, saindo em correria pela porta da cozinha.

Até à Praça nem vivalma! Das Courelas, a rua mais próxima do Areal, no entanto, já caminhavam em grande correria o Brito, o Pedro d’Ana, o Zé Pinguelho, o Xibante, o Gregório e muitos outros, acompanhados pelas mulheres de xaile a cobrir-lhes o corpo e o cocaruto.

- Sacorro! Acuidam! – Ouvia-se de todos os lados.

- Cordas, cordas, cordas e cabos – gritava o Baganha.

- Ei mulhés que fassum café e tragan lanternas – solicitava, em altos gritos, o Zé Ledesma.

Não foi preciso perguntar nada. Tanta gente a gritar e a correr para as bandas do Areal àquela hora da manhã era sinal claro de que algo de muito grave acontecera. Além disso, agora ouvia-se mais nitidamente um sibilar acutilante de navio. Havia mouro na costa, sim senhor. Havia borrasca e da grande. Olaré se havia! É que já não eram só os das Courelas, eram alguns da Fontinha, muitos da Assomada, a Rua Direita e a Tronqueira em peso, enfim, mais de meia freguesia corria aos magotes na direcção do Areal.

- É na Ponta do Baixio?

- Nan! É prui lades do Canto do Arial, pu fora da Poça dei Salemas – esclareceu o Pineira.

- Dizim que é uma imbarcação mum grande. Ua barca ou um lugre, ao que parece e traz munta gente a borde – acrescentava o Bindouro.

Quando o Manuel Foinha chegou ao Canto do Areal ainda a madrugada permanecia escura e envoltaem bruma. DeOeste, soprava um vento fortíssimo e o mar sussurrava roufenho e assustador, projectando ondas altivas contra os laredos do baixio. O nevoeiro apesar de intenso, no entanto, deixava vislumbrar, na imensidade do oceano, umas formas enigmáticas, sombrias e indefinidas. A orla marítima do vasto Areal enchia-se, aos poucos, de vultos espavoridos e alvoroçados, transportando lanternas ou empunhando archotes, que se interrogavam reciprocamente. Certeza apenas uma: estava ali uma embarcação encalhada. A agitação do mar e a distância do Porto Velho, onde estavam as ramadas com a meia dúzia de frágeis barquitos de pesca que a Fajã dispunha, impediam toda e qualquer ajuda ou auxílio.

A manhã ia clareando muito lentamente embora persistisse uma fresca neblina e o vento soprasse cada vez com maior intensidade, atiçando ondas gigantescas contra escolhos e baixios. A mole humana que demandara o Areal aumentava, enchendo-o de gente, de angústia e de preocupações. Homens e mulheres impotentes e incapazes, olhando o oceano repleto de sombras, de nevoeiros, de medos e de incertezas, gesticulavam, berravam, clamavam, vociferavam e gritavam uns para os outros, culpando-se reciprocamente como se todos tivessem a obrigação de fazer alguma coisa e ninguém conseguisse fazer coisa nenhuma. Os mais destemidos e afeitos ao mar bem tentavam arrojar-se à água, ensaiando gestos de ousadia e bravura, linearmente boicotados pela oposição altiva das ondas e pelos gritos de repúdio das mulheres.

Por entre a bruma e a braveza do oceano começava, no entanto, a lobrigar-se, balouçando na penumbra, um enorme casco de aço negro, sobre o qual se fixavam três mastros: um à ré, outro muito mais alto ao centro, onde meio descido meio içado permanecia um pano branco e redondo e um terceiro à proa onde se via pendurada uma vela latina quadrangular. O mastro do centro e o mezena tinham dois mastaréus enquanto que o da ré tinha apenas um. A tripulação aglomerava-se a estibordo e à proa, gesticulava e lançava gritos angustiantes em língua muito diferente da portuguesa.

- Nam tem o mastre de mezena entre o gurupés e o mastre grande, mas tem gave-tope no da ré, por isse nam ié um lugre, é ua barca – esclarecia o Manuel Rodrigues, mais conhecido pelo “Articoichan”, epíteto que granjeara por ter andado alguns anos nos mares do Norte, à pesca da baleia e que se auto proclamava especialista na qualificação e caracterização das embarcações que quase diariamente rumavam ao largo da ilha das Flores.

- Caluda! Escutim! Ouvim-se vozes! Mas p’lo falá nan são americanes – concluía o Silveira recentemente regressado da Califórnia, pese embora a maioria não ouvisse coisa nenhuma.

- Agora não interessa saber se são americanos ou chineses, homens de Deus. O que importa é salvá-los. Não vêem que a embarcação se está a afundar. Não há salvação possível para estes homens!? Façam alguma coisa por eles! – Gritava aflito padre Tamujo, agarrando com ambas as mãos o barrete de três quinas que o vento teimava em levar-lhe.

- Eles puquié que nan lancim os salva-vidas ao mar? – Perguntava o Pedro d’Ana.

- Qual salva-vidas, qual carapuça, home! Achas que com este mar há algum salva- vidas que resista?! Nam vês quem’ás ondas rebentim ali à volta daquel’imbarcação – esclarecia o Baganha. E acrescentava: - O mar está cada vez pió! Razão tinhim os antigues quande diziim que sempe cá um naufrage o mar fica mun brave. A prova tá aqui.

De facto as ondas pareciam tornar-se cada vez mais altivas e temerosas. Porém, à medida que o dia clareava e o nevoeiro se ia desanuviando, a embarcação visionava-se por completo e podia concluir-se que o “Articoichan”, tinha razão. Era de facto uma barca semelhante a tantas e tantas outras que por ali passavam quase todos os dias, vindas das Américas do Norte e do Sul, da África, da Ásia e da Oceânia e que, depois de rumarem à ilha das Flores, nos Açores, tendo a Ponta do Baixio, ali na Fajã Grande, como referência obrigatória, se dirigiam ou para o Mediterrâneo ou para os países do Norte da Europa. Por vezes, quando o tempo e o mar o permitiam, algumas paravam, junto à Ribeira das Casas a fim de se abastecerem de água e de víveres. Aquela, porém, tivera um destino dramático: encalhara nas baixas e laredos exteriores da Poça das Salemas, a uns poucos metros do baixio. Os marinheiros continuavam em grande aflição à proa, à ré, a bombordo, a estibordo, enfim, em tudo o que era sítio, contrariando o baloiçar constante e temeroso da embarcação que de um momento para outro ameaçava deixar-se engolir pelas ondas.

E os de terra sem nada poderem fazer, pese embora a chusma se tornasse maior, de instante para instante.

De repente por todo o Areal ouviu-se em uníssono um “Aaaaah!”

A embarcação que até então permanecia encalhada, acabava de naufragar por completo, partindo-se em duas metades e a pouco e pouco começava a afundar-se, até ao castelo da popa, ao mesmo tempo que também tombava e caía na água o mastro do traquete. De bordo chegavam gritos agonizantes, intercalados com enormes e assustadores momentos de silêncio que pareciam anos. De repente e sem que ninguém previsse ou sequer adivinhasse, três marinheiros, munidos de coletes de salvação amarelados, atiraram-se à água, perdendo-se por completo entre as vagas altivas e temerosas. Seguiu-se um outro e depois outro e outros que lentamente se iam misturando com as ondas e com o abismo.

A população em terra aumentava cada vez mais em número e sobretudo em angústia e aflição. Como salvar aqueles homens que ali tão perto se atiravam para aquele pélago?

Era Tamujo quem mais ordenava:

- Vão às casas e aos palheiros mais pertos e tragam tudo, tudo o que encontrarem: cordas, cabos, tiradeiras, fueiros dos corsões, paus, portas velhas, tábuas de matar porcos ou de curar queijos, pás do forno, bordões, bengalas, grades, se for preciso, tragam até os andores dos santos. Tragam tudo o que encontrarem, tudo o que se aguente sobre a água e tragam também cordas, muitas cordas.

Pouco tempo depois começaram a chegar homens, uns armados de machados, foicinhos, enxós e até de navalhas, outros carregando paus e tábuas nas quais começaram a atalhar moças e a abrir buracos enormes a que amarravam as cordas e os cabos, que também haviam trazido em grande quantidade. Alguns amarravam os paus uns aos outros, com grande perícia, como que a fazer pequenas jangadas e atavam-lhes cabos nos nós das extremidades. Em seguida e com grande determinação e audácia, atiravam tábuas e jangadas ao mar, num esforço gigantesco a fim de que se aproximassem o mais possível da tripulação que a cada momento se arrojava à água. À proa da embarcação, um homem, que todos julgavam ser o comandante, olhava o mar e gesticulava na direcção da ilha, como que a indicar aos náufragos as frágeis jangadas e as inseguras tábuas, os únicos meios de salvação que a população dispunha mas que empenhadamente lhes proporcionava.

A primeira tábua a recolher a terra com um náufrago foi a do Manuel Foinha. Calças arregaçadas até ao joelho, todo molhado, lutando com a maresia e com a correnteza da maré, o homem que às quatro ouvira o foguete de alarme conseguira agora lançar um tábua com tal força e intensidade que esta se afastara a tão grande distância, permitindo a salvação de um náufrago, que era recebido em terra com grande alarido. Este agarrara-se à prancha com unhas e dentes à tábua e salvara-se. Ao chegar a terra tremia de frio e de susto, enquanto o Foinha nem tempo tinha para se ufanar de contentamento e satisfação pela proeza cometida. Atirava novamente a tábua milagrosa, juntando-se a muitos outros que não cessavam de inventar, descobrir e até improvisar novas tentativas de salvamento daqueles desgraçados perdidos entre as ondas e os laredos. As mulheres, umas haviam trazido roupas e cobertores, outras lenha com que faziam fogueiras para ferver água, fazer café e aquecer os náufragos. O náufrago salvo pelo Foinha foi rapidamente assistido. Mudaram-lhe a roupa, aqueceram-lhe o corpo e reconfortaram-no com uma tigela de café negro e fumegante. O homem tremia e chorava e não tirava os olhos do mar onde cuidava que os outros permaneciam numa luta gigantesca contra a bravura excessiva do oceano e a força demolidora das ondas. A medo, proferiu algumas palavras, mas os que o rodeavam não as compreenderam.

- Nan fala inglês – esclareceu o Silveira, que ansiosamente esperava a possibilidade de mostrar os seus dotes de poliglota.

Foi o padre Tamujo quem entendeu o homem. Eram franceses, vinham de muito longe, da Nova Caledónia, lá para as bandas da Oceânia. Há cinco meses e meio que tinham saído da cidade de Thio e seguiam com destino ao porto de Glasgow, na Escócia. Tinha sido uma viagem longa e horrível, com fomes, doenças, morte de um companheiro e, finalmente, aquele terrível naufrágio. Eram todos franceses. O seu nome era Pierre Louis e era o piloto da Bidart. Bidart, assim se chamava a barca que previsivelmente ali acabaria os seus dias. Atirara-se à água juntamente com o cozinheiro Charles, o imediato Pedrou Eugene e o contramestre Lhotes no intuito de se dirigirem até à costa e pedirem ajuda para os colegas, que estavam enfermos e não teriam a resistência suficiente para enfrentar a fúria do mar. Quando abandonaram a embarcação tinham ficado vinte homens a bordo. Alguns estavam doentes, outros enfraquecidos. Agora, decerto, muitos deles já se teriam atirado também ao mar.

Por isso a confusão aumentava de forma galopante no Canto do Areal. Sabia-se que no mar estavam mais náufragos, muitos náufragos, todos os restantes que constituíam a tripulação da Bidart. Era imperioso procurá-los e salvá-los, talvez não apenas ali mas também noutros sítios, para onde poderiam ter sido levados pela correnteza do mar ou pela enorme agitação das ondas. Alguns homens dirigiram-se para a Coalheira, outros para o Redondo e para a Retorta. Tudo devia ser coscuvilhado, desde o Canto do Areal até á Ponta do Baixio. O mar agora estava repleto de tábuas, paus e pequenas jangadas de madeira. Alguns amarravam às tábuas e às jangadas peças de roupa esbranquiçadas a fim de que os náufragos as vissem mais facilmente. Tudo o que flutuasse ou que se julgasse manter à tona da água era devidamente amarrado e atirado ao sabor das ondas, com a denodada intenção de salvar aqueles infelizes. Algum tempo depois surgiu um segundo náufrago, depois um terceiro, um quarto e mais outros dois. Já estavam salvos seis e todos eram recebidos com aplausos, tratados com solicitação e carinho, mudados de roupa, reconfortados com café bem quente e embrulhados em grossos cobertores. Falavam uma língua que só Tamujo entendia.

Por volta do meio-dia já eram treze os náufragos que tinham sido salvos. Finalmente numa jangada puxada pelo Gregório e o Pedro d’Ana chegou a terra o homem que instantes antes se atirara ao mar. Fora o último a fazê-lo. Era Jacques Blondel, o comandante.

Jacques Blondel era a imagem personificada do sofrimento, da dor e da angústia. Saltando com enorme perícia da frágil jangada que o recolhera para as rochas do baixio, quase nu, correu em direcção à ramada construída à pressa com troncos de cedro, ramos de faia, galhos de incenso e coberta com restolho, onde permaneciam os treze náufragos até então recolhidos. Contou-os ansiosamente, recontou-os desesperadamente e voltou a contá-los com um misto de dor e raiva. Depois olhando o mar cada vez mais altivo exclamou com dolência e revolta:

- Il manque huit: Lhostes… Lagany… Le Caudrec… Pierve Hermé… Charles Tertes… Pedrou Eugene…Boutieu… et…

- Le Breton – acrescentou o homem que havia sido recolhido pelo Manuel Foinha.

Depois sentou-se num canto da ramada recusando comida, roupa e conforto. Foi Tamujo que dirigindo-se a ele num francês quase perfeito o acalmou. O homem falava, gesticulava, chorava e apontava o mar como que a indicar os nomes dos que lá ainda estavam. Finalmente aceitou vestir-se, mas com um saiote de mulher que as roupas de homem se haviam esgotado.

De seguida, Tamujo, deixando o homem imerso numa mágoa da qual era impossível retirá-lo, deu ordens a algumas mulheres para que recolhessem a suas casas e preparassem alimentos para aqueles homens. Ele e o cura da Ponta, António Enes, que acabara de chegar, iam prestando os primeiros socorros a alguns que se encontravam feridos, enquanto não chegasse o apoio médico solicitado ao hospital de Santa Cruz.

- Caminhem, saltem, corram, desenrasquem-se, cozinhem panelas de sopa, matem galinhas e façam canja, cozam bolo no tijolo, tragam comida quente para esta gente, por amor de Deus! – Solicitava, exasperadamente, o padre que, na ausência das autoridades, assumira o comando de todas as operações.

 

A vila de Santa Cruz dista uns bons vinte quilómetros da Fajã Grande, numa travessia da ilha de lés a lés, recheada de ribeiras, grotões, ladeiras e veredas escabrosas. A orografia exageradamente acidentada da ilha, o intenso caudal das ribeiras, a sinuosidade dos atalhos e a dificuldade em ultrapassar escarpas e ravinas tornavam o percurso árduo e moroso, excedendo, em dias de nevoeiro e temporal, mais de quatro horas de viagem a pé.

O Xibante, o Chico Fraga e o Corvelo foram os homens intimados pelo Regedor da Fajã para se deslocarem a Santa Cruz a fim de darem parte às autoridades do naufrágio e solicitar ao hospital o apoio médico, dado que na opinião de Tamujo alguns homens padeciam de enfermidades cuja cura ele próprio não possuía os recursos necessários. Os três homens partiram do Areal já a amanhã ia a meio e, pese embora se tenham empenhado de esforços para chegarem à vila o mais cedo possível, demoraram mais do que o previsto. É que o tempo não ajudava nada. Depois de sair do Areal, em grande precipitação, rumaram às suas casas a fim de se prevenirem de roupas e mantimentos. Juntaram-se à Praça e, subindo a Assomada, seguiram pelo Caminho da Missa até à Eira da Quada, num trajecto paralelo ao mar e de caminhada fácil e acessível. Porém, ao descerem a ladeira do Biscoito, um vento fortíssimo havia de lhes tolher as passadas e um aguaceiro diluviano forçou-os a procurar abrigo numa furna, nas fragas sobranceiras ao mar. Dali podiam observar lá ao longe a enorme baía do Canto do Areal onde a altivez das ondas lhes permitia concluir que a embarcação naufragada muito provavelmente já se havia afundado de todo e nunca mais sairia dali.              

 Amainada a chuva, retomaram a viagem, encontrando, logo a seguir, um novo e ameaçador obstáculo - a travessia da Ribeira Grande. Apesar de povoada de passadeiras, trazia um caudal tremendo, misturado com troncos e raízes de árvores e algumas ovelhas mortas. Devido às chuvas torrenciais do dia anterior a água precipitava-se com tal força e intensidade como há anos se não vira. Felizmente que do lado da Fajazinha, onde a notícia já havia chegado, um grupo de homens, prevendo a necessidade urgente daquela quase intransponível travessia, haviam-se prevenido. Munidos de grossos cabos, atiraram-nos com tamanha força e tão grande artimanha, fazendo-os chegar à outra margem. O Fraga, o Corvelo e o Xibante amarraram-se e, num esforço gigantesco e numa bravura desmesurada, saltaram habilmente de alpondra em alpondra, atingindo, não sem umas valentes escorregadelas, a margem esquerda. O Corvelo, mais frágil e de perna mais curta, caiu a água por duas vezes, alagando-se por completo e correndo sérios riscos de ser levado pela força do caudal. Bem cuidava ele que ao longo da viagem enxugaria a roupa no corpo. Mas nisso é que não consentiu o Manuel Pastor da Fajazinha que os levou para sua casa, lhes deu café bem quente e obrigou o Corvelo a mudar de roupa.

Retemperadas as forças os homens retomaram a caminhada e, subindo a Rocha dos Bredos, entraram definitivamente nos matos da ilha, repleto de relvas onde aqui e além pastavam vacas, umas alfeiras outras a pojar e onde contavam ter o percurso facilitado. Mas não. A verdade é que ali à sinuosidade das veredas e à íngreme natureza dos aclives contrapunha-se a fresca alfombra dos prados, divididos por pequenos carreiros sulcados pelo peregrinar diário dos caminhantes. Mas surgiu, de repente, um novo e inopinado revés. O nevoeiro era de tal forma intenso e fechado que não se via um palmo à frente do nariz. Sorte é que o Corvelo conhecia melhor do que ninguém aqueles andurriais. Passara ali vezes sem conta de noite e de dia, com nevoeiros e brumas, mas isso, no entanto, não impediu que à Cova da Pedra se perdessem por completo Quando se aperceberam do equívoco já era tarde e tinham perdido muito tempo. Só ao chegar à borda da caldeira da Água Branca, onde o nevoeiro era menos intenso, avistando lá ao longe da ladeira da Burrinha, tiveram a certeza de se terem enganado. À pressa, voltaram para trás e retomaram o caminho que os levaria a Santa Cruz. Felizmente, na parte leste da ilha o tempo estava melhor. Uma chuva miudinha acalmara o vento e o nevoeiro era cada vez menos intenso, acabando por se desfazer por completo antes da chegada à vila.

A vila de Santa Cruz amanhecera calma e serena. A notícia do naufrágio Nos baixios da Fajã Grande era de tal forma desconhecia que ninguém se abeirou dos três homens para recolher quaisquer informações. Como eles, chegavam ali diariamente mais de uma dezena de camponeses de toda a ilha que vinham às Finanças, aos Correios, à Delegação Marítima, à Câmara, ao Tribunal, ao Hospital e até à Ouvidoria. Situada na costa Este das Flores, a vila estendia-se por uma pequena plataforma entre o mar e o Monte das Cruzes, onde uma dezena de ruelas se entrelaçavam com quatro ruas maiores que partindo da Praça se orientavam decididamente para o mar. O Corvelo, o Xibante e o Chico Fraga entraram na rua da Aresta e dirigiram-se para a Delegação Marítima que ficava junto ao porto do Boqueirão. O Padre e o Regedor haviam dado ordens para que, visto tratar-se dum acidente no mar, se dirigissem em primeiro lugar às autoridades marítimas, a fim de que estas tomassem as devidas e necessárias providencias, avisassem as restantes e não esquecessem nunca o pedido de apoio médico urgente porque havia feridos graves.

Depressa se organizaram os responsáveis marítimos e a notícia, pese embora a escassez de meios de comunicação, divulgou-se rapidamente pela ilha. As autoridades municipais encarregaram-se de avisar, o guarda-mor de saúde e o Administrador do Concelho das Lajes. De imediato pôs-se a caminho da Fajã uma comitiva. Uns viajavam a cavalo, alguns de mula e outros a pé.

 

No entanto, no Canto do Areal, Jaques Blondel, impaciente e sem perceber ainda o precário auxílio que a ilha lhe dispunha, a limitação de meios disponíveis e as dificuldades de transportes e de comunicações, solicitava que procurassem os outros homens. Ele próprio, que por escassez de roupa de homem até vestira um saiote de mulher, aproximava-se da borda-d’água com intenções nítidas de se atirar novamente contra força das ondas a fim de resgatar os restantes náufragos. Os outros impediam-no e ele, envolto em lágrimas e em consumição, voltava à ramada. Depois choroso e entristecido esclarecia Tamujo que quando se apercebeu, por entre a névoa matinal, de que a barca se aproximava de uma zona de rebentação, já era tarde, muito tarde e nada pudera fazer. É verdade que ainda tentara rapidamente voltar a embarcação para o alto mar, mas fora de todo impossível. A bravura crescente das ondas e vento fortíssimo a bater-lhe no velame, não lhe haviam permitido salvar a sua Bidart que acabaria por descair e encalhar naqueles malditos rochedos.

Enquanto contava a sua odisseia, soluçava, parava vezes sem conta e depois voltava a contar tudo como se iniciasse novamente a narração. Blondel ainda lamentava a insuficiência de meios disponíveis: eram os salva-vidas avariados, era o velame molhado, era a escassez de tripulantes válidos. Com efeito, apesar de já se estar século XX, inadmissivelmente, tinha-lhe morrido, na véspera, um marinheiro com escorbuto. Outros encontravam-se doentes e alguns enfraquecidos pela má alimentação e agruras de tão demorada viagem, praticamente sem escalas. Eram sobretudo os doentes e enfraquecidos que ele temia que não se salvassem, que não tivessem a força necessária e a agilidade capaz de enfrentar a força das ondas ou resistência suficiente para permanecer na água tanto tempo. É que o escorbuto, na opinião de Jacques Blondel, era causador de perturbações ósseas e de dores musculares e provocava também o aparecimento de fadiga e de depressões, deixando as suas vítimas muito frágeis e vulneráveis. Havia homens há uma semana de cama. Eram esses que não apareciam… E Blondel temia o pior.

Mas o causador principal daquele terrível naufrágio, continuava a explicar, atormentado e dolente o comandante da Bidart, fora o intenso e persistente nevoeiro. Após alguns dias de tempo encoberto e com caligens contínuas, não fora possível posicionar a barca pelo Sol. Sentiu, então, que estava irremediavelmente perdido, sem rumo e sem saber a latitude certa da embarcação. Para piorar ainda mais as coisas, durante aquela noite morrera o marinheiro Letloc, cujo cadáver se afundava agora, juntamente, com a Bidart.

As lágrimas corriam dos olhos de Blondel. Tamujo, no seu francês fluente, tentava acalmar o homem, embora muitas vezes lhe faltassem as palavras. Porém, a preocupação principal eram os oito que não haviam aparecido. Alguns homens haviam voltado ao Redondo e à Coalheira e não tinham visto vivalma no mar. Ali em frente não se via ninguém. Temia-se o pior.

Entretanto os náufragos, por proposta de Tamujo foram conduzidos, uns a pé outros de corsão, para as Courelas, para a casa do Lourenço onde continuaram a ser tratados pelo próprio Tamujo e alimentados com comida que lhes chegava de quase todas as casas da freguesia. Mas só por volta das dez da noite chegaram de Santa Cruz, os três homens que regedor intimidara, as autoridades marítimas, o Administrador do concelho das Lajes, o apoio médico e um magote de gente, constituído por um grupo de curiosos da Fajãzinha e do Mosteiro. As buscas, no entanto haviam terminado com o anoitecer, sem que nenhum dos outros marinheiros aparecesse. A esperança de os encontrar com vida desvanecera por completo. Restava agora apenas esperar que o mar amainasse durante a noite e que os corpos viessem dar à costa ou fossem encontrados entre os rochedos do baixio, nos dias seguintes.

O Doutor Fraga Constantino, o único médico existente na ilha e que chefiava a equipa que saíra de Santa Cruz e se deslocara à Fajã, ordenou que alguns dos náufragos, em estado mais critico deviam ser conduzidos, no dia seguinte, para o hospital da Vila, a fim de lhe prestar tratamento mais adequado. Alguns homens trouxeram cabeçalhos de corsões de bois, aos quais amarraram grossos cobertores, formando espécies de redes. Depois deitaram nelas os feridos que o médico diagnosticou de maior gravidade. Ainda madrugada, grupos de homens, pegando nos catres e colocando-os aos ombros, iniciaram uma nova e árdua viagem com destino ao hospital de Santa Cruz, enquanto Fraga Constantino e outras autoridades os acompanhavam a cavalo.

 

Quando o Manuel Foinha entrou na cozinha juntamente com dois náufragos que lhe haviam sido entregues, a fim de os hospedar, exalava um cheiro a galinha estufada, cominhos, noz-moscada e canela. A mulher mal soubera que iam ficar dois franceses em sua casa, apressara-se a arranjar e a preparar uma ceia como se de dia de festa se tratasse. Cozeu um caldeirão de inhames, amassou e meteu bolo no forno, matou uma galinha, fez-lhe vinha-de-alhos e guisou-a, fritou torresmos e linguiça e fez sopas fritas cobertas com canela e açúcar, esmerando-se em tudo o que preparava como se verdadeiramente esperasse um parente americano.

- Antão? Admiras-te? – Interrogava-se perante o espanto da Júlia Silveira que lhe entrara pela porta dentro só para bisbilhotar. – O senhô pade Tamuje disse c’ui shômes san da terra dum tal Naplião, qué assim a modes cum rei que fez muintas guerras!... E ainda pu cima parece que há más dum mês que não vêim adiante de si nada que sparessa cum cumida, mulhé.

Era a Júlia a sair e os náufragos a entrarem na esconsa cozinha, onde de uma candeia alimentada a enxúndia de galinha efluía uma luz baça e pardacenta. A medo, os dois homens sentaram-se à mesa, perante os pratos fumegantes. Mas comer é que nada. A Mariana bem se indignava, mas o Foinha lá a ia contrariando:

- Antão, mulhé! Achas que depois de passá o questes hômes passarim, depois de sofrê todas estas disgracias que esta gente sofreu, achas cá alguma vontad de comê? Deixa lá que eles precisim é de descansá. Amanhã, se Deus quisé, já van comê milhó.

O dia seguinte foi de procura dos outros náufragos, pese embora todos soubessem que já os não encontrariam com vida.

- Só um milague da Sinhora da Saúde! – Profetizavam os mais crentes.

Felizmente que o vento rodara para sudoeste durante a noite e o mar acalmara significativamente, tornando-se mais bonançoso. É que as águas da baía do Canto do Areal eram, agora protegidas pelo alcantil pétreo que era a rocha da Eira-da-Quada, sobranceira ao mar. As buscas foram iniciadas alta madrugada e a elas se associou o Foinha que para o Areal se dirigiu bem cedo acompanhado pelos dois náufragos a quem tinha dado abrigo. Sabia-se, no entanto, que era impossível encontrar com vida os oito homens que faltavam. Decerto que não permaneceriam vivos na água durante todo aquele tempo. Além disso, homens atormentados pelo escorbuto, doentes, cheios de perturbações ósseas, de dores musculares, de fadiga e de depressões… Enfim, homens que antes do naufrágio, segundo a opinião de Blondel, já se encontravam muito vulneráveis e num estado de fraqueza e debilidade muito grande. Mas era imperioso procurá-los, agora que era dia e que o mar calmara. Além disso havia o cadáver de Letloc, que morrera na véspera e que podia muito provavelmente ter sido atirado ao oceano pela correnteza das ondas. Todos, mas mesmo todos, tinham que ser retirados do mar vivos ou mortos para que, neste caso, ao menos tivessem funerais dignos.

O primeiro cadáver apareceu por fora do Respingadouro, entre uns penedos de difícil acesso. Um segundo foi encontrado na Ribeira das Casas, enrolado entre o sargaço que, com a braveza do mar dos dias anteriores, havia sido arrojado para o Rolo. Os cadáveres de Le Breton e Pierre Hermé foram encontrados fora da Retorta, enquanto o de Lhostes só à noitinha deu à costa, na Baía d’Água. Os restantes foram recolhidos, na manhã seguinte, por fora da Fajãzinha. O corpo de Letloc nunca apareceu.

Toda a população da Fajã, da Ponta e da Fajãzinha se empenhou na realização dos funerais. Os cinco cadáveres encontrados nos mares da Fajã, foram colocados em câmara ardente, na Casa de Espírito Santo de Baixo, até à manhã do dia seguinte.

À noite toda a freguesia se uniu, entre lamúrias e lamentações, para velar os náufragos falecidos.

- Foi ua desgraça mun grande de más pra uma terra mum piquena! – Ouvia-se de boca em boca.

- Nunca se nan viu ua coisa igual a isto! Cinco funerais num só dia! – Exclamavam outros, enquanto os mais antigos, contrariavam.

- Mei avô cuntava que aqui há uns cinquenta ianos atrás hoive muintes naufráges nesta terra, im que morrerim muitas pessoas. Hoive um ali por fora da Baía d’Água in que morreu toda a gente que viajava a borde. Ou milhó: dizi im que só se salvou um marinheire – esclarecia o Zé do Alagoeiro.

- Tas bem inganade! Nam foi há cinquenta anos, home, foi há munte menos – corrigia Ti Manuel do Areal. – Lembro-me ben. Se nam me falha a mimória ei tinha vint’anos. Ora ei nasci em milhe oitocentes e cinquenta e dois… Deve da ter side em oitocentos e setenta e dois, a nove de Janeire de milhe oitocentes e setenta e dois. Lembro-me mum bem cma se fosse hoje. Ora agente istá em milhe novecentos e quinze… É só fazê as contas.

- Antão foi… ora foi… foi… - e ninguém atinava com a subtracção.

- Ora essa, home! Foi há quarenta e três anes – esclareceu definitivamente o Ledesma. – Foi no ano que mei pai se casou.

- Sim! Foi há quarenta e três anes! Tamém me lembre mun bem. Chamava-se Alixis e vinha carregade de coires, lã e até cornes. – Acrescentava Ti António Balaio. – Mas por essa altura naufragarim muntes outres. Olhim! Lembro-me tamém duma barca francesa, como esta, chamada Repubique ou lá o quê, que naufragou na Barra, no dia de Natal de sessenta e nove. Essa vinha carregada de açúcre e aguardente!

-  Ó Ti Antonho! Então e nam aproveitarim o açúcre ia agardente? – Interrogou o Foinha.

- Ò saproveitarim! Sobratude o açúcre. A carga foi arrematada, mas coma estava encostada a terra… Durante a noite… nem vos conte… muite açúcre se comeu… e muite se alevou p’ra casa… até timperarim as batatas e as coivas cumaçucre

- Foi como os do Lajedo, há seis anos, quando o Salavónia encalhou por fora da Rocha Alta. Muito coisinha boa algumas pessoas meteram em casa, antes das autoridades chegarem… Oh se meteram!

- Nam forim só os do Lajedo. Foram também muntes das Lajes e de toda a ilha. Munta coisa também chegou aqui, à Fajã…

- Há por aí muitas loiças e candeeiros…

- E até camas e portas…

- Esta Bidarta é que foi uma pena ter-se interrada toda de baixe de água. Mas a gente ainda vai lá lá marguelhar, quando a maré sstivé seca – propunha o Xibante.

- Deve ter ficade lá muinta coisinha boa. Parece que até dinheire… Os homes não traziam um tostão nuis bolses – acrescentava o Ledesma.

- Hum! Trazê, traziim… - contrariava o Xibante. – Nam derim foi um tostão a ninguém.

- Também dinheire francês?! Pa quié quserve?! A não sê que fossim dolas! – Acrescentava do lado o Arioche.

- Respeitem a memória dos mortos! – Impunha autoritariamente Tamujo que acabava de entrar revestido de sobrepeliz e estola preta para rezar os responsos. – Passa fora! Vocês não têm mesmo uma pinga de vergonha. Os mortos aqui por enterrar, um homem sepultado dentro da embarcação e vocês a pensarem no espólio da Bidart!

Depois molhando o hissope na caldeirinha que o sacristão lhe apresentava atirava água benta em forma de cruzes para cima dos cadáveres e entoava:

- Misere mei, Domine, secundam magnam misericordiam tuam!

No dia seguinte toda a população se juntou para os funerais. Tamujo, acolitado pelo Cura da Ponta e por padre Mesquita, que permanecia na freguesia com o estatuto de manente, vestiu-se de pluvial preto e presidiu às cerimónias fúnebres, celebrando os ritos solenes, de acordo com o ritual romano e com os melhores paramentos. Nunca a Fajã presenciara cinco funerais ao mesmo dia! Daí que algumas limitações estruturais, no entanto, se fizessem sentir: os corpos foram embrulhados em lençóis e colocados no chão da igreja porque a madeira existente na freguesia era pouca e só havia uma essa.

 

Algum tempo depois, todos os náufragos sobreviventes do grave acidente seguiram para Santa Cruz e, juntando-se aos feridos que os aguardavam no hospital daVila, passados alguns dias, embarcaram para Lisboa, a bordo do paquete Funchal, deixando definitivamente a pequena e isolada ilha das Flores, nos Açores, que lhes havia marcado tragicamente o destino, enquanto a Bidart ficava ali, para sempre, no Canto do Areal, no fundo do mar, carregada de níquel e os seus tripulantes falecidos jaziam eternamente nos cemitérios da Fajã Grande e da Fajãzinha.

Durante os dias e meses seguintes, dizia-se pela Fajã que na parte submersa da embarcação, a alguns palmos abaixo da linha d’agua, estaria uma boa parte da carga assim como muitos dos objectos de bordo e ainda algum dinheiro. Mas nunca ninguém se atreveu a nela entrar, ou sequer por ali mergulhar, porque, e disso não havia dúvidas, lá ficou também sepultado o cadáver de Letloc, o marinheiro que, vítima de escorbuto, morrera algumas horas antes da tragédia. Por ironia ou capricho do destino, o mar naquele sítio, durante dias e dias, ficou com uma cor avermelhada, talvez devido à fuga do níquel. Mas o povo inocente e crédulo cuidou ser um sinal divino e sobrenatural, impeditivo de ultrajar a memória dos marinheiros falecidos, muito especialmente daquele cujo cadáver nunca apareceu e a quem, consequentemente, não fora dada a devida sepultura. Por isso a barca naufragada e o seu presumível espólio ali ficaram submersos para sempre no lugar que ainda hoje se chama “o lugar da Barca Bidarta” ou, simplesmente,  “A Bidarta”.

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publicado por picodavigia2 às 14:19





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