Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



VINDIMAS NO DOURO

Sábado, 24.08.13

Em casa dos pais de Mariana, a vindima era feita no mês de Outubro. É verdade que não era uma folia tão animada e divertida como a desfolhada. As uvas não eram muitas mas o trabalho era árduo e pesado. O pai de Mariana passara meses e meses a podar os bacelos e a enxertar e a amarrar as videiras a estacas de pedra granítica e aos amieiros e carvalhos das beiradas que circundavam o campo onde o milho crescia a olhos vistos. Quando as vides já cobriam os bardos de um verde muito escuro e os cachos começavam a desabrochar, suspendendo-se graciosamente das latadas ou pendurando-se desordenadamente nas beiradas, o pai passava horas e horas de máquina a tiracolo a sulfatá-las uma a uma. Depois, já amadurecidas e muito apetitosas, as uvas eram colhidas e levadas em cestos para o lagar, onde eram esmagadas. Durante os dias seguintes exalava do mosto um cheiro perfumado, acre e doce que se propagava por toda a casa.

Para além destes dias verdadeiramente diferentes para Mariana, os restantes dias do ano eram de uma verdadeira monotonia. Levantava-se cedo e seguia para a escola, onde fazia ditados, resolvia problemas, estudava os rios e as serras, os reis e as batalhas, os vertebrados e invertebrados. Na hora de leitura a senhora professora juntava todas as meninas à volta da secretária, por trás da qual ficavam, ladeando um crucifixo pendurado na parede, as fotografias de Craveiro Lopes e Salazar, para lerem à vez e contarem histórias. Terminadas as aulas regressava a casa, ajudava os pais, tomava conta do Zezito e fazia as cópias e as contas que a Dona Ermelinda mandava. Apenas os domingos e os dias de festa em que os pais não trabalhavam no campo eram diferentes.

A festa que Mariana mais adorava era o Natal. Todos os anos faziam, na sala, um enorme presépio com as figurinhas de barro que a mãe trouxera das Caldas: o Menino Jesus, Maria, José, os três Reis Magos, os anjos, os pastorinhos e muitos aldeões que circulavam à volta da gruta, por caminhos cobertos com serrim de madeira e ladeados por casinhas também de barro e por leivas de musgo a imitar os campos onde pastavam as ovelhitas. Mas o que Mariana mais ansiava era a noite de Natal. Nessa noite a ceia era na sala e a mãe enchia a mesa de iguarias deliciosas que aprendera a fazer com a avó da Trofa: rabanadas, formigos, aletria e sopas secas que enchiam a casa de um agradável cheirinho a canela. Terminada a ceia partiam, às vezes com o Zezito já a dormir, para a missa do galo.

O pai ficava cá fora com os homens, enquanto ela e a mãe entravam na igreja, sentavam-se e esperavam em silêncio ou rezavam baixinho, até que o sacristão, viesse tocar uma campainha, anunciando que a missa ia começar. Os homens que aguardavam lá fora entravam para o coro e para os lugares do fundo, enchendo a igreja por completo. Toda a gente se levantava e fazia-se um enorme silêncio. O pároco saia da sacristia todo vestido de branco e, segurando na mão o cálice devidamente coberto com um véu esbranquiçado, dirigia-se para o altar-mor, fazia uma enorme genuflexão e bichanava as primeiras orações em latim, às quais apenas o sacristão respondia. O povo, de joelhos batia com a mão direita no peito e inclinava a cabeça. Pouco depois, o padre aproximava-se do centro do altar, voltava-se para o sacrário e erguendo os braços, entoava o “Glória”, ao mesmo tempo que o sacristão voltava a badalar prolongadamente a campainha enquanto os sinos repicavam e a igreja se enchia de luz, de cor e de alegria. Terminada a missa, entoavam-se cânticos de Natal e o pároco dirigia-se para o presépio que ficava do lado direito da capela-mor. Recebendo o turíbulo fumegante, balouçava-o diante das enormes figuras de Maria, José e do Menino, enchendo o templo de fumo e de cheiro a incenso. De seguida tomava o Menino nas mãos e colocando-se junto à grade que separava a capela-mor do cruzeiro, dava-o a beijar aos fiéis. Mariana, juntamente com as outras crianças, incorporava-se nos primeiros lugares da longa fila que se formava à espera de vez para beijar o Menino Jesus e para depositar, na cestinha que o sacristão mantinha na mão, os vinte centavos que a mãe lhe dera na véspera.

Autoria e outros dados (tags, etc)

tags:

publicado por picodavigia2 às 18:06

A SENHORA D’ALVA

Sábado, 24.08.13

Todas as manhãs a “Senhora d’Alva” aproava ao velho cais, um tapete agreste, rústico e crispado, feito de cimento amassado com areia e misturado com pedregulhos, atirados e colados sobre as pedras negras e virgens do baixio, bem visíveis nos buracos que se haviam aberto com o passar dos anos, com o cirandar das pessoas e com o rolar de pipas e mercadorias. Depois o mar, ali ao lado, com o constante marulhar das suas ondas, umas vezes revolto, agressivo e destruidor, outras meigo e pacato, mas sempre a agastar, sempre a desfazer, sempre a destruir, numa erosão contínua, permanente e afanosa. 

Alheia às asperezas e desgastes do cais, a “Senhora d’Alva” cruzava o oceano, sulcando as suas águas, umas vezes bravas e altivas, outras mansas e suaves, mas sempre tingidas de um azulado enternecedor, a embalá-la com um misto de afeição e suavidade. Carregava sobre si homens, mulheres, velhos e crianças, uns emaranhados nas tarefas do seu labutar quotidiano, outros encastoados nos caprichos de devaneios e lazeres, mas todos a alcandorarem-se num enlevo maravilhoso, num encanto sublime, num êxtase transcendente. A “Senhora d’Alva”, ao rasgar as águas azuladas do oceano, carregava consigo, à mistura com o feitiço das madrugadas, a magia sublime de um navegar mavioso, deslumbrante e enternecedor. 

Depois e já encostada ao cais, prendia-se a ele como se não tivesse medo. Os velhos e enferrujados moitões, ali plantados há séculos, abraçavam-se a ela, seguravam-na nos seus grossos cabos, roçando-os nos beirais agrestes e nas escadas desgastadas, num vaivém embalador, contínuo e mavioso. Homens, mulheres, velhos, jovens, crianças e até alguns doentes, viajando em macas ou em cadeiras de rodas, evaporavam-se pelo portaló fora, como se o entardecer do mundo inteiro os estivesse a perseguir. Depois era um evadir-se de malas, caixotes, sacos, encomendas e mercadoria diversa. Uma miscelânea de recursos! Uma enchente perplexa que urgia esvaziar. A “Senhora d’Alva”, só, vácua, triste e plangente, emitia sons de sirene, magoados, esbaforidos, que se prolongavam como que em eco e se perdiam sobre o cais, mas logo, sedenta, querençosa e desdenhada, abria-se a abrigar, em nova enchente, os que até então, ali se a haviam postado, à espera de um novo lamento de partida.

E lá ia, noutro recortar de águas, noutro embalar de sonhos, noutra aurora de encantos, noutro desgaste de trabalhos e canseiras. E o mar sempre ali, a seu lado, a bafejá-la com o seu sopro, a acariciá-la com a simulada agressividade das suas ondas e, sobretudo, a encorajá-la com a extravagante força de segurar e prender o seu destino, muitas vezes, cerceado pelas nuvens ou desfeito pelo vento.

Um dia, porém, os homens decidiram que o destino da “Senhora d’Alva” havia de se alterar. Agora atirada, dias e dias a fio, para terras distantes, para mares longínquos, esquecia o velho cais, só o demandando, quando a abarrotar de pescado, sob as ordens de uns marinheiros desconhecidos e estranhos, de calças de cotim arregaçadas pelo joelho, chapéus de palha a contrariar o vento, Urgia aliviar-se e, por isso mesmo, agarrava-se a um cais deserto e abandonado, sem homens, sem mulheres, sem velhos e, sobretudo, sem crianças. Era apenas um patamar seco e árido, sem vida, sem emoção e sem deslumbramento.

Não durou muito este martírio doloroso, apesar de decalcado de esperança inútil. A “Senhora d’Alva”, hoje, jaz em terra, distante do cais, do seu fadário quotidiano, separada daquele mar de ondas bravias mas azuladas, de espuma enfadonha mas adocicada que durante anos a fio lhe traçou as rotas e lhe norteou um destino gratificante, complacente, mavioso e sublime.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por picodavigia2 às 17:57

BIBLIOTECA ESCOLAR RECURSO EDUCATIVO

Sábado, 24.08.13

Com este pequeno trabalho, integrado em termos de avaliação, na acção de formação em que participei, denominada “A Interacção dos Domínios do Ouvir/Falar/Ler/Escrever na disciplina de Português do Ensino Básico e Secundário”, organizada pelo Centro de Formação de Professores de Paredes, sob a orientação da Drª Luísa Alvarenga, pretendo fundamentalmente, por um lado, colaborar, embora modestamente, na sensibilização dos participantes para a necessidade de criação da biblioteca escolar, como “catedral da leitura”, nas nossas escolas, ou da sua organização, estruturação e possível transformação em mediateca ou centro de recursos; e por outro, através da programação de uma aula de iniciação à biblioteca, demonstrar quão importante é, nas nossas aulas de Língua Portuguesa, sensibilizar os alunos para o contacto com o livro e para a leitura.

A Lei de Bases do Sistema Educativo, no artº 7º, estabelece que o Ensino Básico tem como objectivo prioritário “assegurar uma formação geral comum a todos os portugueses”. Isto implica: um assédio permanente a uma informação global e universal e um “apoderar-se” do património cultural da humanidade.

Um e outro destes pressupostos atingem-se mediante o contacto com o livro. Na realidade, os livros são uma espécie de “reserva cultural”,  “acumuladores” da  cultura e do saber universal, a herança cultural da humanidade.

Assim, a leitura permite ao indivíduo conhecer a experiência dos povos de todos os tempos e de espaços diferentes, partilhando as suas vivências e a sua cultura. O afastamento dos livros ou a não leitura leva a uma “castração intelectual”, a situações de individualismo, à indiferença perante o mundo e perante os valores universais, ao atrofiar do pensamento, à estagnação da capacidade de agir e pensar, ao niilismo intelectual e ao afastamento dos padrões de cultura.

A institucionalização da ignorância e do analfabetismo como “bem necessário” só é provocada por regimes totalitários e por detentores de verdades absolutas. A censura e o índex são a prova histórica disso.

A leitura é, pois, inerente à formação e à educação Não se pode ensinar sem formar e informar e o livro tem essa dupla função. Ler é formar-se e educar-se, é receber cultura, é combater a ignorância e o analfabetismo. Por isso, deve ser um processo dinâmico, gerador de sentidos, provocador de atitudes, que comprometa o indivíduo a nível cognitivo, psicológico e motor. Deve ser um estabelecer de relações com outras formas de comunicação e expressão e alterar a forma de ser e de estar na vida, isto é, provocar marcas humanizadas nos indivíduos e nas sociedades.

O livro é imprescindível à humanidade e inerente ao homem porque, como escreveu Monteiro Lobato, “um país constrói-se com homens e com livros.”

Actualmente, nas escolas, lê-se pouco. Além disso, fomenta-se, sobretudo, a leitura obrigação, isto é, uma leitura imposta, pelos programas ou pelo professor. Esta leitura é, necessariamente, desinteressante, desmotivadora, improdutiva e obstaculiza a “leitura prazer”. Manda-se ler para fazer um resumo ou uma síntese, para preencher uma ficha de leitura, para ter uma nota.

Esta metodologia é desmotivante e desmotivadora, pelo que deverá ser abolida e substituída por um empenhar do aluno, tornando-o, inclusive, co-responsável do processo de escolha. Há que privilegiar a leitura prazer. A biblioteca escolar tem aqui um papel fundamental.

Estudos feitos revelam que a maioria das nossas escolas ou não tem bibliotecas ou têm-nas desorganizadas, pouco funcionais e consequentemente incapazes de atingirem os objectivos que, por natureza, se propõem. Por vezes destinam-se a tudo, excepto à leitura e  a uma cada vez maior aproximação dos alunos dos livros. Criadas em Portugal em 1951, verifica-se que, actualmente, apenas 59.4% das antigas Escolas Preparatórias têm bibliotecas, as C+S 56% e as Secundárias 76%. Nas escolas do Primeiro Ciclo este número é muitíssimo mais baixo. Além disso a maioria destas bibliotecas ou não estão devidamente equipadas e apetrechadas ou são meros “cemitérios de livros”, isto é espaços amorfos, sem vida.

Não se pode ficar à espera de que a biblioteca da nossa escola nos apareça, de repente, organizada e repleta de livros. Nada nasce feito, nem nada nasce grande. Uma biblioteca escolar poderá nascer numa prateleira de um armário, com apenas um livro. Não pode é parar, isto é, tem que crescer lenta e continuamente. A cada livro adquirido tem que se juntar outro e depois um outro e assim sucessivamente. O processo de aquisição de livros é moroso e lento, mas não pode nunca ser interrompido. Existem diversas formas de o conseguir. Através de ofertas de entidades, empresas, livrarias, instituições, outras bibliotecas, ofertas de pessoas ligadas à escola, pais, professores, associação de pais, iniciativas do tipo liga dos “Amigos da Biblioteca” que pode abranger alunos, professores pais, etc.. Muito importante é a recolha e guarda de tudo o que é enviado para a escola, quer da parte do Ministério, quer de publicidade de livrarias, etc. O que é importante neste projecto é não parar. Temos que adquirir sempre algo, mesmo que seja um pequeno livro ou uma revista ou jornal. É importante que todo o material adquirido seja registado e devidamente catalogado e colocado no espaço disponível.

Existem livros de registo próprios, sendo fácil fazer uma adaptação. Da mesma forma existem fichas adequadas. Devemos, de início, seguir as normas reguladoras de preenchimento dessas fichas e a organização dos respectivos ficheiros, que são de três tipos: obra, autor e assunto. O recurso a um programa de informática é, actualmente, bastante acessível.

As bibliotecas escolares têm ou devem ter objectivos pedagógicos específicos, que se devem definir a dois níveis: ao nível da promoção e do desenvolvimento da leitura entre os alunos e a nível do apoio e suporte a uma actualização pedagógica permanente.

Para que as bibliotecas escolares sejam um verdadeiro espaço de leitura, exigem-se vários requisitos, dos quais urge salientar: ter uma gama variada de livros que respondam aos interesses e necessidades dos alunos, ter condições de agradabilidade e bem-estar para os seus frequentadores e, sobretudo, para atrair os não-frequentadores, criar espaços e tempos diferentes para diferentes tipos de leitura e de actividades tendo em conta a forma de estar dos seus utentes, ter horários adequados, ter professores e sobretudo funcionários verdadeiramente dinâmicos e responsáveis e com formação adequada, ser divulgada e publicitada em toda a escola e aberta a visitas organizadas das diversas turmas, estar modernizada, isto é, adaptada às novas necessidades educativas, tendo em conta as novas tecnologias, ter material diversificado e adequado a todos os gostos, interesses e exigências e, por fim, dinamizar diversas actividades que fundamentalmente desenvolvam o gosto e a apetência pela leitura.

Para que atinjam os objectivos propostos, exige-se das bibliotecas escolares que tenham em conta o espaço, a organização e o apetrechamento. Quanto ao espaço, exige-se que seja amplo e proporcional ao potencial número de utilizadores, possuindo, dentro do possível, características arquitectónicas adequadas. A biblioteca escolar deve: ser colocada num ponto estratégico da escola e estar perto dos locais onde normalmente circula a maior parte dos seus utilizadores. Além disso deve situar-se longe dos locais mais barulhentos ou incomodativos, ficar próxima de outros sectores de apoio  e outros serviços e ser um espaço acessível a todos, incluindo mecanismos de resposta às necessidades dos alunos com deficiências.

É importante também seleccionar o tipo de material e o equipamento de que devem ser dotadas as bibliotecas escolares, bem como a forma como deve estar disposto e organizado. Na maior parte delas (bibliotecas escolares) o equipamento não foi pensado para esse fim: a maioria só tem estantes para livros com armários fechados, sem equipamento específico para arrumar e dispor publicações periódicas, nem para material audiovisual ou outro. Normalmente também não têm previstos espaços especiais para ter documentação, enquanto ela é trabalhada, nem para a divulgação de novidades entradas.

A disposição do equipamento também deve ser cuidada, obedecendo a algumas normas das quais se destacam: privilegiar a área de leitura, sobretudo, em termos de espaço, utilizar cores de preferências claras, os documentos devem ser colocados em prateleiras com0,60 a1.80 metrosdo chão deverão existir zonas de exposições e de leitura de periódicos, separadas das restantes. As diversas zonas ou secções devem estar devidamente sinalizadas, assim como toda a informação. O mobiliário deve estar disposto sempre em função e de forma adequada aos interesses dos utilizadores. Deverá ter aspecto ou forma convidativa, agradável e atraente, embora simples. Ninguém gosta de ler em condições incómodas. A falta de condições pode afastar leitores da biblioteca.

O material deverá ainda ser diversificado, isto é, mesas que contemplem a leitura individual ou a pesquisaem grupo. Aexistência de almofadas, para encosto no chão pode ser uma boa alternativa. Há quem goste de ler recostado. Para os periódicos, nos quais as nossas bibliotecas ainda não apostam muito, existem expositores próprios e estantes adequadas.

Para além de livros uma biblioteca deve possuir: folhetos, publicações periódicas, postais ilustrados, diapositivos, cassetes, vídeos, disquetes, CDs, recortes de jornais, ficheiros de notícias, trabalhos de alunos, etc. Tal equipamento permite desenvolver processos de ensino-aprendizagem em que os alunos não são meros consumidores de informação, mas aprendem investigando, pesquisando, seleccionando e classificando. O ficheiro de notícias, por exemplo, possibilita uma aprendizagem mais motivadora e pode ser um precioso complemento, ou até, nalguns casos, uma real actualização do Manual Escolar e constitui necessariamente mais uma fonte de informação.

Hoje é opinião generalizada de que a Biblioteca Escolar não pode continuar a conter apenas livros. Ela deve modernizar-se utilizando todo o tipo de audiovisuais e material informático de que actualmente dispõem. Esta mudança transforma as Bibliotecas em Mediatecas ou Centros de Recursos.

Na lei de Bases do Sistema Educativo, paralelamente ao Manual Escolar as Bibliotecas Escolares são consideradas como recurso educativo. Ora o livro deixou de ser o único meio de divulgação do saber. O vídeo, o computador, o som e a imagem assumem-se cada vez mais como alternativa utilizada, com efeitos pedagógicos notáveis, no processo de ensino-aprendizagem. Assim os espaços e equipamentos utilizados nas bibliotecas tradicionais não se adaptam nem satisfazem as necessidades actuais, a este nível. Devem surgir, assim, bibliotecas modernas, actualizadas ou Mediatecas que contêm, para além do livro, revistas, jornais, boletins, inclusive os produzidos pelos alunos, audiovisuais, diapositivos, vídeos, cassetes, computadores, disquetes, registos sonoros, etc., e baseiam a sua actividade em pressupostos pedagogicamente essenciais e que são: conhecer e estar atento a toda a informação, os livros continuam a ter importância relevante, criar nos alunos um dinamismo pedagógico activo que permita o manuseamento de todo este material e o acesso ao conhecimento da informação e organizar este material de forma a difundi-lo na escola, assumindo-se como polo mediador de informação.

A Mediateca é pois uma forma organizada do espaço educativo que acolhe professores, alunos e funcionários, podendo inclusive alargar os seus serviços à comunidade envolvente da escola. Assume-se, na realidade como poderoso e forte instrumento de apoio à inovação pedagógica.

A transição da biblioteca para a Mediateca, obviamente, não é fácil. Deve fazer parte dum projecto pedagógico inovador, que estabeleça novas e eficientes formas de relação com o saber e a informação, novas formas de organização do espaço, novas metodologias de aprendizagem e novas estratégias de ensino e “deve ser feita por etapas. Primeiro procurar um local acessível e agradável, escolher mobiliário que permita ao utilizador um fácil acesso aos materiais que deseja para leitura, informação ou pesquisa e introduzir normas e sistemas de classificação e indexação utilizadas internacionalmente. Depois acrescentar aos documentos (tudo o que serve para informar, estudar ou servir de prova) e audiovisuais, dotando as estruturas dos meios necessários à sua utilização. Finalmente e em terceiro lugar, permitir actividades de produção e reprodução de novos documentos. (5)

As Mediatecas deverão ser “um espaço polivalente que englobe um auditório, uma sala de reuniões, uma zona de oficinas, um estúdio, um espaço insonorizado especialmente destinado a trabalhos que envolvam equipamento audio, um espaço dedicado a computadores, um laboratório fotográfico e outro de vídeo, um espaço de consulta de documentos, zonas destinadas a trabalho individual e de grupo e espaços utilizados para consultas e produção de documentos”.(6)

A mediateca deve ser um espaço aberto a todas as disciplinas ou área disciplinares e a todas as actividades curriculares e extra-curriculares. Poderá abrir-se à comunidade envolvente, devendo esta colaborar na sua edificação e beneficiar da sua utilização estabelecendo-se protocolos de cooperação com entidades, autarquias, associações, clubes, empresas e outras escolas. A mediateca deve, assim, ser como que um motor de animação pedagógica, um polo de ligação escola-meio, desempenhando um papel imprescindível em toda a vida e funcionamento da escola.

Em 1990 o PRODEP  previa que as escolas se candidatassem ao financiamento a projectos de criação de Mediatecas. O projecto não teve grande eficácia, devido às dificuldades que acarreta a transição. Assim continuamos, numas escolas com bibliotecas tradicionais, estáticas, com pouca vida e dinamismo, ou, noutras, o que é bem pior, sem nada.

A UNESCO aprovou, em Outubro de 1978, um manifesto sobre Mediatecas Escolares, onde se confirma o princípio de que são “essenciais” à educação. O Manifesto define também como objectivos gerais fornecer aos estudantes as capacidades básicas para obter uma vasta gama de recursos e serviços e conduzir os estudantes ao seu uso constante para “divertimento, informação e educação contínua”.

Para atingir estes objectivos, o Manifesto pressupõe alguns recursos: dispor de pessoal qualificado em educação e biblioteconomia, assistido por um número suficiente de pessoal de apoio; possuir uma colecção adequada de materiais impressos e audiovisuais, componente essencial do sistema educativo; dispor de espaço físico para receber os recursos e assegurar o acesso aos mesmos e garantir os serviços.

Os alunos que chegam, pela primeira vez ao ciclo, desconhecem quase por completo, uma biblioteca e não têm poucos contactos com o livro. Assim, caso a escola possua biblioteca, urge logo nos primeiros dias de aulas, programar uma visita à biblioteca, durante uma aula.

Em primeiro lugar o professor deverá contactar o funcionário da biblioteca, informando-o do dia e da hora em que a aula se vai efectuar, a fim de que tudo esteja preparado e a biblioteca se destine apenas aquela turma, durante a referida hora. Depois há que definir os objectivos, preparar o material e programar as actividades. Quanto aos objectivos poderão referir-se, entre outros, os seguintes: reconhecer a necessidade da leitura; conhecer a biblioteca da escola e considerá-la como recurso que deverá usufruir ao longo do ano para estudo, pesquisa e prazer; identificar aspectos para textuais do livro – capa, título, autor, etc.; reconhecer a necessidade de organização, numa biblioteca; despertar para a leitura a diversos níveis; sentir a necessidade de colaborar na construção da biblioteca, aderindo à liga de “Amigos do Livro”. Ente o material seleccionado, pode utilizar-se um texto de António Torrado sobre o interesse do livro, uma ficha de “Visita a Biblioteca e ainda uma ficha de Inscrição de “Amigo do Livro”. A aula deverá constar de diálogo horizontal, no sentido de diagnosticar se os alunos têm ou não hábitos de leitura; diálogo vertical, em ordem a sensibilizar os alunos para a necessidade do contacto com o livro e a leitura; leitura do texto de António Torrado, “Eu sou o livro”; diálogo horizontal sobre o texto lido: o que contêm os livros e a necessidade de contactar com eles – registar a frase “VAMOS LER”. É imperioso levar os alunos a identificar, na escola, o local onde há livros e onde podemos lê-los – Propor uma visita à Biblioteca da Escola. Na biblioteca, explicar a divisão do espaço, a distribuição dos livros, as várias secções, dar algum tempo para os alunos tocarem, verem e folhearem alguns livros, informá-los do horário de funcionamento e apresentar-lhes  o funcionário que lhes dará algumas indicações sobre as regras de funcionamento da biblioteca; sensibilizar os alunos para aderirem à Liga de “Amigos do Livro”; preencher a ficha caso alguns manifestem interesse. Como avaliação, na aula seguinte ouvir as impressões dos alunos sobre a biblioteca e o interesse que a visita provocou nos mesmos.

 

BIBLIOGRAFIA

 

Abrantes, José Carlos - A Outra Face da Escola - Ministério da Educação, 1ª ed., Quatropontoquatro, Lisboa 1994.

 

Alvarenga, Maria Luísa - Documentação de apoio à Acção “A Interacção dos Domínios do Ouvir/Falar/Ler/Escrever na disciplina de Português do Ensino Básico e Secundário”, Centro de Formação de Professores de Paredes.

 

Carvalho, Rosa Maria e Rolo, Maria da Conceição - Materiais de Apoio à Reforma Curricular-Técnicas de Comunicação, Direcção Geral dos Ensinos Básico e Secundário, Lisboa, 1993, vol.s I, III e IV.

 

Magalhães, Ana Maria e Alçada, Isabel – Os Jovens e a Leitura no Início do Sec. XXI, Caminho, Lisboa 1993.

 

Pessoa, Ana Maria – A Biblioteca Escolar, Campo das Letras Editores, 1ª ed., Porto, 1994.

 

Programa de Língua Portuguesa, Ensino Básico, 2º ciclo, DGEBS.

 

Silva, Ezequiel Theodoro da – Leitura na Escola e na Biblioteca, Papirus Editora, 1ª ed., Campinas, 1991.

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

tags:

publicado por picodavigia2 às 14:40





mais sobre mim

foto do autor


pesquisar

Pesquisar no Blog  

VISITANTES

free web counter

calendário

Agosto 2013

D S T Q Q S S
123
45678910
11121314151617
18192021222324
25262728293031