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PALAVRAS, EXPRESSÕES E DITOS UTILIZADOS NA FAJÃ GRANDE (I)

Domingo, 25.08.13

Anamudo – Aquele que não tem medo.

Andar ao deus-dará – Viver irresponsavelmente, sob as ordens de ninguém.

Apanhar sargos – Tontear ou dormitar sentado, deixando cair a cabeça de vez em quando.

Atira-te da roch’ábaixo – Desaparece da minha frente.

Barra – Cama.

Bicho da buraca – Pessoa muito envergonhada.

Bisca malina – Mulher muito má.

Bota sintide – Presta atenção.

Caninos da caixa – Pequena gaveta que existia num dos lados das caixas da roupa e servia para guardar linhas, agulhas, tesouras, dedais, etc.

Deitar as tripas p’la boca fora – Vomitar muito.

Entregar – Proferir o nome do Diabo.

Está muito somenos – Está muito mau tempo ou qualquer outro estado mal.

Estar à mão de semear – Estar a fazer algo que merece um castigo

Estar entre a cruz e a caldeirinha – Estar quase a morrer.

Estar no mato sem cordas – Ter um problema grande e não dispor de meios suficientes para o resolver.

Estar por de trás das raízes do Monchique – Estar perdido ou estar tão longe de algo que se torna impossível alcançar.

Eu me benzo do Coiso-Mau – Expressão de revolta contra algo que se julga errado.

Falquejar – Cortar um pau com uma navalha ou canivete.

Faz trás – Incentivo aos animais bovinos para voltarem no fim de um rego, quando se lavravam os campos, ou noutra situação.

In coire – Completamente nu.

Mulher escoimada – Mulher muito limpa.

Naitigão – Camisa de dormir.

Não parar em ramo verde – Não estar quieto.

Os diabes te levem – Expressão para recriminar  quem fez uma grande asneira.

Pagar com conchas de lapas – Não ter dinheiro para comprar algo.

Pronto pra ir ver os senhores de bengala – Animal bovino, suficientemente nutrido, para ser vendido e embarcado para Lisboa.

Repnicar – Comer pedacinhos de um alimento antes da refeição ser servida.

Ser como as terras do Areal que prometem muito e dão pouco – Prometer muito mas fazer pouco.

Ser da pele do Eira-má – Ser muito mau.

Tá mais à mão – Está mais perto ou está disponível para ser usado.

Ter o diabe no corpe –Ser muito mau.

Tirapuxas - Discussões.

Toca a baixe e/ou toca à riba – Saudação entre duas pessoas, quando passavam uma pela outra, um a descer e o outro a subir.

Toca a descansar – Saudação de alguém que passava por outro ou outros que estavam sentados.

Tremer como varas verdes – Ter muito medo.

Ua grandeza – Grande quantidade.

Ui monços piquenes – As crianças.

Valha-mo nam sei-que-diga. – Expressão usada para indicar grande atrapalhação.

Xisqueiro – Casota do porco, anexa ao curral.

Xou pa trás – Incentivo ao porco ou às galinhas para se afastarem a fim de se lhes poder dar a comida.

 

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publicado por picodavigia2 às 19:06

FAJÃ GRANDE - HISTORIAL

Domingo, 25.08.13

(TEXTO RETIRADO DO SITE DO MUNICÍPIO DAS LAJES DAS FLORES)

 

Fajã Grande, ocupando uma área de aproximadamente 12,55 quilómetros quadrados, é uma das freguesias mais povoadas do concelho de Lajes das Flores.

Localizada na costa oeste da Ilha, confronta com as freguesias de Ponta Delgada das Flores e Fajãzinha e representa o lugar mais ocidental de toda a Europa. Um pouco afastado da Ilha, encontra-se o ilhéu de Monchique, o último sinal físico que separa o Velho do Novo Mundo, assim descrito pelo Padre José António Camões, na sua obra Roteiro Exacto da Costa da Ilha : "Em distancia de uma legoa, pouco mais ou menos, a noroeste da ilha, está um alto ilheo de pedra chamado Monxique, que sendo bem alto ( nada menos de vinte braças de altura) há por vêzes mar tão bravo naquella Costa, que o cobre todo, saltando-lhe as ondas por cima".

Administrativamente, só na segunda metade do século XIX, a Fajã Grande obteve a sua autonomia política e religiosa. A freguesia de Nossa Senhora do Remédios de Fajãzinha, a que pertencia o lugar de Fajã Grande, havia sido instituída em 1676, englobando os lugares da Ponta, Fajã Grande, Caldeira e Mosteiro. Nesse ano, haviam sido desanexado os lugares da Ponta da Fajã, relativamente ao da Ponta Delgada, e do Mosteiro, relativamente ás Lajes. Ora, só passados duzentos anos, a provisão do Bispo de Angra, Frei Estevão, datada de 1861, institui a Paróquia de São José de Fajã Grande em conjunto com as povoações da Ponta e Cuada. O Padre Camões, relativamente a esta região, afirma o seguinte: "Continua baixio até uma pequena enseada a que chamam a baixa d'agoa. Continua baixio, baixio até chegar ao porto da Fajã Grande, que tem no meio um grande morro chamado o Calhau da Barra. Para dentro do dicto Calhau fica um grande poço de mar chamado o Poção, que dá refugio aos barcos que entrão com mar bravo".

Gaspar Frutuoso, por outro lado, oferece-nos uma descrição mais viva da região, na sua obra Saudades da Terra: "Dali a um quarto de légua está uma Fajã, chamada Grande, que dá pão e pastel, em terra rasa, com algumas engradas onde entram caravelas de até cinquenta moios de pão a tomar o pastel que nela se faz, onde também há marisco e pescado de toda a sorte, e no cabo dela está um areal, de meia légua de comprido, em que sempre, anda o mar muito bravo; e dali por diante, a outra meia légua, é tudo rocha talhada, onde se apanha muita urzela, e de muita penedia por baixo, em que se cria infinidade de marisco e grandes caranguejos e desta mesma maneira corre a rocha um tiro de bombarda até uma ponta, que sai ao mar um tiro de arcabuz, com um baixo de pedra, que tem lapas e búzios; e, logo adiante da ponta, se faz uma baía, onde com ventos levantes ancoram navios de toda a sorte e também naus da Índia. No meio deste ancoradouro cai da rocha no mar, a pique, uma grande ribeira".

Através desta colorida descrição, pode-se inferir que, na época a Fajã Grande era centro de grandes transações comerciais, chegando mesmo as caravelas da Índia a encontrar aqui um precioso desembarcadouro.

Por outro lado, o autor faz ainda uma clara referência á riqueza e variedade do pescado da região, ainda hoje preservado. Apesar de, actualmente, não registar tão grande azáfama a Fajã Grande continua a encantar quem a visita, pela amenidade do seu clima, pela transparência das suas águas ou pelas suas piscinas naturais, enfim, ela assume-se hoje como uma verdadeira estância de veraneio para todos os florentinos.

De todos os lugares que compõem esta pitoresca Freguesia, dois sobressaem pelas suas paisagens naturais:

 A Ponta da Fajã Grande é uma aldeia imaginária e de sonho, num mundo marcado pela solidão e pela falta de valores. Desde que serviu de fronteira entre as freguesias de Nossa Senhora do Remédios de Fajãzinha e de São Pedro da Ponta Delgada, o destino desta região ficou para sempre traçado.

Actualmente, com as suas cascatas de águas e escorrer pelas escarpas abaixo, a Ponta da Fajã Grande é um idílico lugar onde vivem menos de 20 almas. Com tradições profundamente rurais, aqui ainda se ouve o cantar dos pássaros, o murmurar das águas e o marulhar do mar, por vezes intempestivo.

A Quada, palavra que deriva de saracotear, ou seja, «andar de um lugar para o outro», foi uma povoação que, desde cedo, sentiu o fenómeno da desertificação. Este airoso terraço entre a Fajã Grande e a Fajãzinha, encontra-se assim associado, na mais pura tradição florentina do aldear, aos contrastes e dissabores que, com o tempo, foram surgindo na Fajã e que levaram algumas famílias a abandonarem a sua terra natal.

 

"A Fajã é uma vila,

 A Quada é um outeiro

 P'ra onde as aves do campo

 Vão fazer o seu linheiro.

 

As tecedeiras da Quada

 São todas muito apuradas,

 Tecem colchas cobertores,

 Cobertas e almofadas"

 

Hoje, quase todo o povoado foi recuperado para fins turísticos o que constitui sem dúvida um exemplo de Turismo Rural de sucesso. "Aldeia da Quada", assim baptizada pelo empresário Carlos Silva, seu proprietário e gerente é um sítio convidativo à Paz, e ao bucolismo que a Ilha inspira. Um contacto imprescindível com a Natureza que se recomenda.

Porque as pessoas são parte integrante da História de cada região, Fajã Grande orgulha-se de ter sido o berço de algumas personalidades que, no seu tempo e à sua maneira, contribuíram para o seu engrandecimento. De entre as várias individualidades florentinas, destacam-se o Padre José Luís de Fraga, pelo seus dons de orador, escritor e músico; e Pedro da Silveira, historiador e poeta, com vários trabalhos publicados.

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publicado por picodavigia2 às 17:48

SETE DE ABRIL DIA NACIONAL DO MOINHO

Domingo, 25.08.13

A “Rede Portuguesa de Moinhos”, com o apoio da “Sociedade Internacional de Molinologia” consagrou o dia 7 de Abril como o Dia Nacional do Moinho. Este ano, no entanto, porque esta data coincidiu com um dia de trabalho semanal, a RPM decidiu alterar esta comemoração, celebrando o Dia Nacional do Moinho, no fim-de-semana imediatamente posterior, ou seja, 10 e 11 de Abril, a fim de que possa haver uma maior participação por parte da população portuguesa nas actividades programadas, entre as quais se destacam visitas guiadas a diversos moinhos, uns recentemente recuperados e outros ainda a funcionar, bem como a observação, nos mesmos, de todas as operações ligadas à moagem dos cereais, nomeadamente do milho.

Embora decorrentes por quase todo o país, este ano as actividades programadas centralizaram-se especialmente no distrito de Aveiro, zona onde proliferam azenhas e moinhos de água e de vento, os quais estarão abertos e a funcionar durante todo o fim-de-semana. Assim foram programadas visitas guiadas aos seguintes moinhos daquele distrito: Aradas em Aveiro, Angeja em Albergaria-a-Velha, Pinheiro da Bemposta em Oliveira de Azeméis, Arões em Vale de Cambra, Real e Tilas em Castelo de Paiva, Pessegueiro em Sever do Vouga, Macieira de Alcôda em Águeda e S. Lourenço do Bairro em Anadia, para além de muitos outros.

Os Açores em geral e a ilha das Flores muito em particular com destaque para a zona da Fajã Grande e da Fajãzinha, são uma região onde outrora proliferavam moinhos. Hoje, com excepção de um na Fajãzinha, na Fajã Grande os moinhos estão completamente abandonados, por isso, urge perguntar, ao comemorar-se esta data, se não seria de se pensar nos moinhos da zona da Ribeira das Casas, nomeadamente dois que pertenceram a tio Manuel Luís, um outro pertencente ao Manuel Dawling e ainda o Moinho do Engenho? Não seria de se recuperar ou reconstruir pelo menos um destes moinhos, transformando-o em arquétipo turístico e referencial da cultura e da história duma freguesia que num passado recente, teve como actividade primordial a agricultura, com destaque para o cultivo do milho?

 

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publicado por picodavigia2 às 12:20

A LAVADEIRA

Domingo, 25.08.13

Todas as manhãs, quando ainda bem tisnadas de escuro, lá ia ela, Fontinha acima, cesto de vimes brancos a abarrotar de roupa à cabeça, braços em arco, as mãos amparadas nos quadris e o corpo num baloiço contínuo, inseguro, e desusado mas elegante, arrebatado e transcendentemente sublime. Vestia blusa de flanela branca e saia de chita avermelhada, lenço amarelado, de “clafate”, a deixar sair, na frente, duas madeixas de ouro encastoadas no mármore da testa. Meia de algodão níveo e galochas de madeira a batucar sobre a calçada – ploc, ploc, ploc, - despacha-te moçoila, não que seja tarde, mas é preciso chegar a tempo de me assenhorear do meu lavadouro – ploc, ploc, ploc – que se as outras chegam primeiro, lá fico eu “a ver navios”.

A tia Almerinda, postada à Fonte Velha, à espera de alcovitices e de que a bilha se enchesse de água, bem pedia conversa. Não senhora. Novidades?! Não as há, nem as sei! Era o que me havia de faltar, a esta hora da manhã, a dar conversa a umas e a outras. Sim, porque agora era a tia Almerinda, mas depois havia de ser a Ana Benta, a senhora Floripes, a Lídia do Caetano e todas as que havia de encontrar até à Ribeira, sempre ávidas de tudo querer saber, sempre desejosas de se meterem na vida de uns e outros – ploc, ploc, ploc - que não há tempo para conversas com ninguém. É preciso chegar cedo a casa. Depois da Ribeira, ainda há o pai na Cabaceira, a ceifar, a cavar, a sachar - todo o santo dia, meu Deus - à espera que ela lhe leve um bocado de pão, uma nica de queijo e um bule de café, a mãe doente, impedida de sair de casa e a avó acamada - ploc, ploc, ploc – depressa, mais depressa, rapariga. Que a vida não se compadece com demoras. E ele, o lavadouro da Ribeira, à espera.

Chegou ao Alagoeiro, já o Sol quase raiava por cima da Rocha. Tanto que lhe custava passar por ali. Se houvesse outro caminho para a Ribeira… Mesmo que fosse mais longe… Evitava, definitivamente, encontrar aqueles bisbórrias – uns bananas - sempre ali sentados à espera de nada, sempre a segui-la com olhares maliciosos, sempre a mandar-lhe bocas infames, sempre a verberar indignidade e malícia. Bem avolumava o batucar das galochas na calçada, a ver se abafava os grunhidos daquela corja - ploc, ploc, ploc – mas até parecia que o bater mais forte do sapateado lhes espevitava a concupiscência. Sempre uns mal-educados, uns canalhas, uns inconvenientes e a Ribeira ainda distante – ploc, ploc, ploc – que é tarde, muito tarde.

Depois de subir a Fontinha e ultrapassar aquele martírio do Alagoeiro, o caminho era mais fácil, ninguém lhe aparecia, ninguém a importunava, coisa nenhuma fazia com que se atrasasse, sempre com o cesto da roupa suja à cabeça, agora mais ligeira e expedita – ploc, ploc, ploc - que a Ribeira é já ali, a seguir àquela curva. Ela é a primeira a chegar e o seu lavadouro eleito, preferido e desejado, já ali está, postado entre as margens do açude, à espera dela. Felizmente, ninguém o ocupara.

A água caía da Rocha, em cascatas, sussurrante, transparente e cristalina, misturando-se com o verde dos socalcos e andurriais. Depois de cair no chão, deslizava suave e sibilante, na direcção do mar, por ténues e esguios veios, formando aqui e acolá pequenos lagos, onde cresciam agriões, prosperavam inhames e floresciam nenúfares e, depois, corria célere até se desfazer e transformar num enorme açude, ladeado de pedregulhos tingidos de limos esverdeados, e de pedras rectangulares, verticalmente encostadas às margens, umas a imitar represas outras a servirem de lavadouros, como se fosse um gigantesco e arquitectado tanque. Há muito que escolhera aquele lavadouro e o elegera como seu. Ao redor as relvas e campos separados por beirais de álamos, faeiras, vimes e salgueiros verdejantes, o tilintar solene das campainhas das vacas, o saltitar perplexo e atribulado da passarada dos salgueiros para os álamos, dos álamos para as faeiras, na mira de acasalamentos. E a roupa já toda encharcada na água fresca e transparente, a desfazer-se do vidrado matinal que a quietude da madrugada edificara.

E o seu lavadouro ali mesmo, à sua espera. Já se afeiçoara a ele, já o adoptara como seu, já se ajoelhara a seu lado e agora, ensaboando a roupa, ia esfregando na face áspera e rugosa daquele rígido pedaço de basalto, peça a peça, num frenético vaivém que lhe sacudia o corpo, lhe exercitava os braços e até deixava antever, por entre o desabotoar desalinhado da blusa, uma nesga marmórea do peito. Chegavam outras e depois outras e ainda mais algumas. Como ela, também despejavam, ali, no açude a sujidade inteira do dia anterior, de outros dias e de muitos dias. Mas nenhuma como ela tinha o seu lavadouro preferido, afeito, conquistado com o desvelo inebriante do despertar das madrugadas, ainda tingidas de negro e que lhe transformava a roupa, tornando-a mais limpa, mais branca e mais perfumada do que a de todas as outras lavadeiras.

Já é tarde, mas o cesto de vimes brancos enche-se, agora, de roupa lavada, fresca e perfumada! São horas de andar. O pai espera-a, cansado faminto, atulhado de canseiras e trabalhos na Cabaceira. E a mãe há-de achar que demorou uma eternidade – ploc, ploc, ploc – a descer a Fontinha.

E o ritual da lavadeira – ploc, ploc, ploc – há-de repetir-se no dia seguinte. Todas as outras manhãs, continuará a subir a Fontinha – ploc, ploc, ploc – cada vez mais rápida, cada dia mais veloz, na ânsia de chegar a tempo, para que ninguém lhe retire o seu lavadouro.

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publicado por picodavigia2 às 11:24





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