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AS ANTIGAS DANÇAS DE CARNAVAL NA FAJÃ GRANDE

Segunda-feira, 26.08.13

Durante toda a década de cinquenta e a prolongar-se mais tarde na de sessenta, o Carnaval, na Fajã Grande, caracterizava-se, para além de diversas tradições, brincadeiras e até comezainas, com a realização das chamadas “Danças do Carnaval”, que constituíam de facto como que o epicentro de toda a folia carnavalesca.

Sobre a sua origem pouco se sabe. Apenas que eram muito antigas e, obviamente, anteriores aos anos cinquenta, julgando-se que, assim como as da ilha Terceira, deviam remontar aos séculos XVI e XVII, dado que as suas características nomeadamente no que concerne aos textos e roupas, se inseriam numa temática de mar, navegação, batalhas e aventura, muito semelhante à daquela ilha. Por isso é muito provável até que tenham sido introduzidas nas Flores, por alguns terceirenses que ali foram fixando residência ao longo dos tempos. Na Fajã, por exemplo, nos anos sessenta, quando pareciam já estar esquecidas, um dos grandes impulsionadores e responsáveis pelo seu reaparecimento foi o terceirense Manuel Linhares, que ali havia fixado residência.

As “Danças do Carnaval” da Fajã Grande eram interessantíssimas e, para além da dança e da música, tinham uma coreografia própria, uma autêntica teia teatral, num emaranhado de arcos, cores, espadas, movimentos e sons, misturados com o dançar ou marchar dos pares constituintes do elenco e que ao longo da actuação iam trocando de posições, cruzando espadas ou passando por baixo dos arcos uns dos outros, sempre sobre as ordens do mestre e os olhares do contra mestre. Eram constituídas por duas alas onde participavam exclusivamente homens, numa das alas uns com trajes masculinos e e na outra com femininos, comandados pelo um mestre com apito e espada. O textos eram declamados ou cantados e acompanhados por um grupo de tocadores de instrumentos de corda e tinham como conteúdo uma espécie de enredo que abordava os mais diversos assuntos, indo do dramático ao cómico e jocoso, ou a lutas e batalhas e até amores infiéis, de que são exemplo os seguintes versos cantados numa das últimas marchas realizadas na Fajã Grande, já na década de sessenta, em que o Mestre e ensaiador era o terceirense Manuel Linhares e o contra mestre o Ângelo de João Augusto:

Mestre: “Sou mestre desta dança,/Tenho licença pra falar/Minha espada triunfante/Tem direito a dominar.” Ao que o contra mestre respondia: “Se o domínio fosse teu,/Dominavas à vontade,/Como é teu também é meu./Ambos temos liberdade.” O Mestre prosseguia: “Liberdade, liberdade,/Quem na tem chama-lhe sua,/Tu só tens a liberdade/De ver o Sol e ver a Lua.” Contra mestre: “Vejo o Sol e vejo a Lua,/Parentes que os não há iguais./Vejo a linda esposa tua,/Que me agrada muito mais.”

As danças de Entrudo eram geralmente executadas ao ar livre. Exigiam, da parte dos participantes e seus familiares um longo trabalho de preparação, não só de ensaio mas também de arranjo e elaboração das roupas e dos adereços usados, que incluíam lantejoulas, missangas, plumas, fitas prateados ou douradas e tecidos brilhantes, vindos em encomendas da América. Os textos eram geralmente arranjados pelo próprio mestre que tinha também a responsabilidade de orientar os ensaios e durante a actuação fazer a abertura e o final e ser o “puxador do enredo”.

Tudo começava com o formar do grupo constituído pelo ensaiador que geralmente ocupava o lugar de mestre, pelo contramestre e por um bom número variável de pares. As roupas ou fardamentos deviam ser todas a condizer umas com as outras, assim como os arcos que cada par utilizava durante a dança. Um dos primeiros ensaiadores no início dos anos cinquenta foi o Cabral. Seguiu-se o Tobias, entre outros e, bastante mais tarde, o terceirense Manuel Linhares.

As danças, na Fajã, tinham geralmente um casal de “velhos”, devidamente mascarados que enquanto se efectuava a dança, faziam palhaçadas junto dos espectadores, metiam-se com as raparigas e os rapazes e assustavam os mais pequenos.

Para além das danças ensaiadas na própria freguesia, por vezes vinham visitar e actuar na Fajã Grande muitas outras danças, oriundas da Fajãzinha, da Lomba e até de Santa Cruz.

 

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publicado por picodavigia2 às 18:08

ANCORADO NAS VELAS

Segunda-feira, 26.08.13

Debruçado sobre a amurada do convés da primeira classe do Carvalho Araújo, Gonçalo observava distraidamente a vila das Velas, um aglomerado de casas muito branquinhas, umas dispostas em anfiteatro junto ao cais, outras, mais ao longe, plantadas na encosta que, a pouco e pouco se ia galvanizando de verde e se prolongava até ao cume da ilha. Suavemente impulsionado por uma leve ondulação das águas da baía, o paquete voltara a popa a Sul, obrigando-o a mudar-se para estibordo, a fim de continuar a deleitar-se, como muitos outros passageiros, com a contemplação da vila, das casas espelhadas nas águas azuladas do Oceano e a observar o frenético vaivém das pequenas embarcações que ligavam a ilha ao navio, numa árdua e contínua lufa-lufa de transporte de pessoas, animais e mercadorias.

A sirene, no entanto, soou rouca e estrepitosa por três vezes. Era o prenúncio de que em breve o navio levantaria ferro e, ladeando a ilha até à Ponta dos Rosais, rumaria à Graciosa. Simultaneamente, anunciava-se que aquela seria a última barcaça vinda de terra, a demandar o navio. O Carvalho demoraraem São Jorgeum bom par de horas, proporcionando aos passageiros em trânsito a oportunidade de realizar um pequeno périplo pela ilha, admirando e apreciando a beleza das fajãs, a frescura verde das pastagens, a amálgama arborizada das montanhas, o sussurrar diáfano das águas das ribeiras, a tranquilidade das freguesias e a tímida altivez das duas vilas – as Velas e a Calheta.

Gonçalo ainda pensara ir a terra. À sua vontade, porém, atravancara-se a escassez de escudos que os pais lhe haviam colocado nos bolsos, quando, dois dias antes, partira das Flores, com destino a Angra, onde ia continuar os estudos. Poupar era a regra número um. Além disso, já conhecia a ilha. Uns dias de verão na Caldeira de Santo Cristo, em casa de um colega. Um calvário, aquela subida!

Foi na última lancha que ela regressou a bordo! Vira-a pela primeira vez quando supostamente embarcara nas Lajes. Um enorme e estrondoso baque no coração. Depois… depois nunca mais se cruzara com ela. Provavelmente nem saíra no Faial, onde o Carvalho encostara, ali, bem juntinho à doca, proporcionando aos passageiros dirigirem-se para terra sem ter que pagar bilhete. Armazenavam-se assim uns troquitos que chegavam e sobravam para uma feijoada no “Graciosa”, a fim de ressarcir a fome de dias e dias passados bordo, a jejuar mais do que nas Sextas-feiras da Quaresma. Vasculhara o navio de lés-a-lés e nada. No Cais do Pico pusera-se de vigia rigorosa, durante o desembarque e embarque dos passageiros, mas não a vira sair ou entrar. O mar entre as Flores e o Faial não estivera para brincadeiras… Possivelmente teria enjoado, como tantos outros passageiros. Ele também se vira em apuros. É que para além do marulhar constante do oceano provocando um contínuo e interminável baquear do velho paquete sobre as ondas, viajava sem direito a beliche e em terceira classe, onde proliferava um pestilento e emético cheiro a vomitado, a latrinas nauseabundas, a comida enjoosa, ao bafio dos beliches e a bosta de vaca. Também não pregara olho toda a noite e, por isso se encostara de tarde, no convés da segunda, numa cadeira que apanhara desocupada, mas dura que nem pedra. Adormecera entre o Cais e as Velas e não se apercebera da chegada a S. Jorge.

Agora sim. Ali estava ela e parecia-lhe ainda mais bonita do que quando a vira, pela primeira vez, nas Flores. Desceu rapidamente ao portaló, antes que ela subisse as escadas de acesso ao navio e se eclipsasse novamente. Ia segui-la de perto, mas discretamente, muito discretamente para não ser notado. Bafejou-o a sorte. Mal entrou no convés da primeira, sentou-se numa cadeira de descanso, enquanto o casal que a acompanhava e que supostamente seriam os pais, rumou na direcção dos camarotes.

Nervoso, indeciso, quase denunciador, Gonçalo vagueou, simuladamente, para trás e para diante, em frente à cadeira onde ela se sentara, ora voltando à direita, debruçando-se sobre a borda do convés, ora encaminhando-se pela esquerda na direcção da sala de estar. Passado algum tempo decidiu sentar-se numa cadeira, ao lado. Fez-se um silêncio enigmático e profundo, entrecortado por um ou outro olhar de soslaio, durante o qual foi ensaiando, sem sucesso, inúmeras tentativas para a formular a pergunta que havia de fazer, a fim de iniciar conversa.

Pode então, pelo canto do olho, contemplá-la melhor. Era duma beleza extraordinária, deslumbrante e encantadora. Do seu rosto emergia uma simplicidade calma e serena, misturada com uma doçura inefável e sublime. Os cabelos despegavam-se em madeixas onduladas sobre os ombros, cobrindo ao de leve as faces. Dos olhos verdes fluía um brilho cristalino e diamantífero. Os lábios delicados e voluptuosos pareciam ter conquistado um sorriso contínuo, permanente, quase sobrenatural, que se e prolongava, levemente, pelas maçãs do rosto.

De repente, e quase irreflectidamente, quebrando um silêncio gélido, angustiante e emergindo de tão idílica contemplação, voltou-se e disparou, desajeitadamente:

- É das Flores, não é? – E perante a admiração dela prosseguiu. – Desculpe-me, mas acho que a sua cara não me é estranha.

Ela, apercebendo-se da enorme atrapalhação anexada à pergunta, sorriu docemente e retorquiu com um simultâneo abanar de cabeça:

- Não, não sou! Não sou das ilhas… Sou do Continente.

- Tenho a impressão de que a vi embarcar ontem, nas Lajes das Flores!

Que sim. Que tinha vindo com os pais visitar a Madeira e os Açores. Que já estava saturada da viagem, dos enjoos, das pessoas, das ilhas, do navio e, sobretudo, do mar. Desde as Flores que não saíra do camarote, sempre a enjoar, a enjoar. Apenas se levantara para acompanhar os pais que pretenderam agora, conhecer a única ilha que na vinda não conseguiram visitar – S. Jorge.

Gonçalo ia ouvindo com uma inexcedível atenção, ao mesmo tempo que desvendava o mistério do seu desaparecimento, depois do embarque nas Flores. E na esperança de prolongar, indefinidamente, aquele indelével contubérnio, ia retorquir-lhe, contrapondo a beleza das ilhas ao tormentoso suplício da viagem, quando o homem que antes a acompanhara, surgindo à porta da sala de estar, chamou com ar severo e grotesco:

- Elvira!

- Elvira!... – Repetiu Gonçalo inadvertidamente e quase a comprometer-se. E, depois, baixinho, muito baixinho, como se fosse em eco: - “Elvira…” “Elvira, ela chama-se Elvira.”

Até à Terceira não mais lhe pôs a vista em cima, pese embora percorresse, vezes sem conta, o navio da proa à ré, vasculhasse todas as salas e cubículos, vagueasse pela maioria dos corredores e até entrasse em muitos camarotes, simulando enganos e pedindo desculpas. Mas vê-la, nunca mais…

Uma angústia enorme trespassou-o, atirando-o para uma dolente nostalgia que nem a noite entre a Graciosa e a Terceira estagnou.

Na manhã seguinte, o Carvalho, circulando o Monte Brasil, fundeou na baía de Angra… mas ela nunca mais apareceu!

Apenas quando o batelão carregado de malas e passageiros se afastava do velho paquete, com destino ao Cais da Alfândega, Gonçalo pode vê-la, de longe, debruçada sobre a amurada do convés, precisamente naquele sítio onde, na véspera, ficara horas e horas, frente às Velas, à espera que ela surgisse miraculosamente.

E teve a sensação de que ela olhava para ele…

Trémulo, inseguro e langoroso, enquanto o batelão, a arfar de malas e passageiros e a enterrar-se entre as ondas altivas e buliçosas provocadas por um forte vento de sudoeste, se aproximava de terra, foi repetindo baixinho, num misto de dor, de paixão e de raiva:

- Elvira!... Elvira!.. Elvira!...

E o pequeno batel afastou-se, definitivamente, do Carvalho!

Alta noite quando, já quase adormecido, se enlevava com a esfíngica imagem que lhe havia de ficar para sempre gravada no peito, ouviu chamar muito ao longe: “Elvira! Elvira! Elvira!” Eram os três apitos roucos e estrépitos do Carvalho a anunciar que, dentro em breve partia, com destino a S. Miguel.

 

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publicado por picodavigia2 às 00:02





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