Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



QUEM ARREAVA À BALEIA, NA FAJÃ GRANDE, NA DÉCADA DE CINQUENTA

Quarta-feira, 28.08.13

É por demais sabido que a caça à baleia teve grande desenvolvimento e importância económica na ilha das Flores, nas décadas de 30, 40 e 50 do século passado, com destaque não apenasem Santa Cruze nas Lajes mas também na Fajã Grande, embora em menor escala do que nas duas vilas.

No início da década de cinquenta, época a que a minha memória se reporta, para além dum excelente Posto de Vigia, situada precisamente no alto do Pico a que deu o nome, Pico da Vigia, havia, na Fajã Grande, uma lancha, a Santa Teresinha, e dois botes exclusivamente dedicados à pesca ou caça da baleia.

Com a ajuda de algumas boas memórias ainda existentes foi possível elaborar o elenco, provavelmente um pouco incompleto ou com algumas omissões, do grupo de marítimos que constituía, na década de 50, as “companhas” quer da lancha quer dos botes da baleia. Aqui fica o seu registo:

Vigia - Manuel Manquinho.

Lancha – José Pereira, mestre, José Furtado, maquinista e Cristiano Fagundes, “lancetador” e proeiro.

Botes – Chico de José Luís, Francisco Inácio, “trancador”, João Caixeiro, João Fragueiro, João Lajone, José Candonga, José do Cristóvão, José Fagundes, José Garcia, José Luís, José Tavares, Laureano Alexandre, Luís Cardoso, Luís de Abraão, Luís do Raulino, Luís Furtado, Luís Pereira, Roberto do Cristóvão e Urbano Fagundes “trancador”, todos estes naturais da Fajã Grande.

No entanto e para além de Mestre Monteiro que veio do Pico, juntamente com dois filhos, para se dedicar exclusivamente à caça à baleia na Fajã, como responsável mor por um dos botes, do Ricardo e do Arnaldo (irmão do Semilhas que jogava futebol no Benfica) vindos do Faial, arrearam na Fajã alguns baleeiros naturais de outras localidades da ilha. Das Lajes veio Mestre Antonico, que chefiava o outro bote, o Fernando Armas e os irmãos José e Afonso Fraga. De Santa Cruz veio para a Fajã o José da Encarnação.

Obviamente que deverão faltar alguns nomes: uns naturalmente anteriores à década de 50, outros posteriores a esta, uma vez que nas anos seguintes ainda se baleou nas Flores. De qualquer maneira parece-me que haverá registo dos seus nomes de forma mais completa quer nos arquivos da Delegação Marítima da Ilha das Flores quer na documentação das antigas empresas baleeiras.

Sendo assim, penso que seria uma digna e justa homenagem registar em monumento a colocar no Porto da Fajã Grande, a exemplo do que se fez, por exemplo, na vila baleeira das Lajes do Pico, o nome de todos aqueles que dedicaram grande parte da sua vida a uma actividade que durante muitos anos dignificou não apenas os que nela se envolveram, arriscando a própria vida, mas também a própria freguesia, a própria ilha das Flores e as suas gentes.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por picodavigia2 às 21:29

VISITA ÀS FLORES

Quarta-feira, 28.08.13

(TEXTO DE VICTOR RUI DORES)

 

Visito as Flores como acho que devem ser visitadas todas as ilhas dos Açores: de barco, de carro, a pé, com tempo e disponibilidade…

Por ser varanda sobre o mar, os viajantes do século XIX deram a esta ilha denominações como “Jardim do Atlântico” ou “Suiça Açoriana” – muito por via da beleza estonteante das suas sete Lagoas: Rasa, Funda, Comprida, Negra, Seca, Lomba e Branca. No Verão de 1924 o escritor Raul Brandão, na visita que efetuou pelos Açores, permaneceu alguns dias nas Flores e deu-lhe o nome de “A Floresta Adormecida”, título de um dos melhores capítulos do seu livro As Ilhas Desconhecidas, publicado dois anos mais tarde.

Situada na denominada Placa Litosférica Americana, ilha agreste e selvagem, de extraordinários contrastes, uma paisagem irrepetível, uma Natureza intacta e em estado puro – Flores é, hoje, para mim, a mais espetacular e a mais fascinante das ilhas açorianas. Tudo nela é grandeza e assombro: baías profundamente recortadas, falésias cortadas a pique, relevos incríveis, colinas arredondadas, vales fundos e abruptos, crateras imensas, ilhéus pontiagudos, rochas colossais, lagoas de sonho… E tudo isto enquadrado por densa vegetação com todas as tonalidades de verde.

A expressão telúrica desta ilha está precisamente nestes declives e nestes planaltos íngremes e imprevisíveis. E não existem palavras que possam adjetivar as furnas, as grutas e as cavernas que apreciei a navegar ao largo dos Cedros, Ponta Delgada e Ponta Ruiva. E que dizer da imponente Rocha dos Bordões? E do imenso silêncio das fajãs? E do verde-claro dos pastos iluminados por uma luz fria e delicada?…

Por toda a parte irrompem sebes de hortênsias em flor (que dividem os campos) e o amarelo perfumado das rocas (noutras ilhas também conhecidas por rocas-de-velha, conteiras, ou palmitos). Acima de tudo, é impressionante a abundância de água na ilha das Flores, onde existem cerca de 400 ribeiras. Mais deslumbrante ainda é a água que se precipita lá de cima das encostas, e continuamente tomba em fios esbranquiçados de cascata, despenhando-se cá em baixo e desfazendo-se numa névoa de gotas líquidas…

Mas uma ilha é também feita de gente. E os florentinos têm a candura e a generosidade dos ilhéus acolhedores e hospitaleiros, que vivem, com persistência, numa relação única e harmoniosa com a Natureza.

A caminho da Fajã Grande, detenho-me junto de um ancestral moinho de água (datado de 1862) que ainda mói pelos meios mais rudimentares e artesanais. Meto conversa com Fátima, a moleira que me parece saída das páginas de um conto de Trindade Coelho. Ela não tira os olhos do grão, seguindo a moenda com toda a calma do mundo. O monótono barulho das mós transporta-me ao passado. Momentos antes eu já havia experimentado tal regresso ao passado ao visitar as casas de pedra da Aldeia da Cuada, onde tudo é rural e arcaico, incluindo o nome da co-proprietária daquele espaço rústico: Teotónia.

Vou captando sucessivas imagens fotográficas. De miradouro em miradouro, rendo-me por inteiro à beleza luxuriante desta ilha que é a mais cabalística dos Açores: tem 7 lagoas, 7 baías e 7 vales…

De Santa Cruz às Lajes, e daqui até ao Morro Alto, os meus olhos deslumbrados contemplam todas as espécies de árvores: incenso, faia, loureiro, acácia, giesta, pinheiro, criptoméria, araucária, metrosídero, plátano… E, pelos trilhos da ilha, vejo manchas de laurissilva e cedro do mato e, com menor expressão, outras endémicas: sanguinho, pau branco, vinhático e queiró. E as trufeiras possuem a macieza do veludo. E, no Poço da Alagoinha, percorro os 800 metros que me transportam às regiões mais fantásticas do paraíso terrestre! E a mesma sensação assalta-me ao visitar o Poço do Bacalhau. Grandeza tamanha para uma ilha tão pequena. Percebo agora melhor os versos de Roberto de Mesquita e de Pedro da Silveira.

O mar sempre à volta. A ilha do Corvo no horizonte. Vejo no monitor da máquina fotográfica as imagens que vou captando. No fundo do vale da Fazenda de Santa Cruz, a igreja de Nossa Senhora de Lourdes empresta uma nota poética e mística à paisagem. E como é belo o casario branco a despontar no verde bucólico do Mosteiro! Na Fajã Grande, olho o ilhéu de Monchique e sei que estou no ponto mais ocidental da Europa.

Coelhos furtivos atravessam-se à frente da viatura que aluguei para visitar a ilha durante uma semana. Conduzo pelo silêncio de caminhos desertos e sou surpreendido pelas turísticas quatro estações num só dia… Boa rede de estradas. Curvas e contracurvas até dizer chega. Está um calor abafadiço na Caveira. A paisagem é casta e melancólica no Lajedo. Ambiente pastoril e idílico na Fajãzinha. Vejo campos de milho na Lomba e inhameiros na Fazenda das Lajes. E, por todo o lado, ouço o canto dos pássaros e o som das ribeiras e das cascatas.

Em 2009 a UNESCO reconheceu a importância ambiental da ilha das Flores, integrando-a na Rede Mundial de Reserva da Biosfera.

E depois há o gado bovino. Deixadas ao frio e ao nevoeiro à beira da estrada ou nos morros mais inóspitos, as vacas (brancas, pretas, malhadas e vermelhas charolesas) olham-me com desprezo. A terra está empapada de humidade e paira no ar um cheiro a mentrasto e uma impressão de frescura, de calma, de volúpia. Serenidade e melancolia. E um verde que pacifica o meu espírito.

Venha o(a) leitor(a) ver tudo isto com os seus próprios olhos. Porque, garanto, nada do que aqui escrevi é literatura.

 

 Victor Rui Dores

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por picodavigia2 às 09:46

A FONTE

Quarta-feira, 28.08.13

Quando eu era criança, em minha casa não havia água, a não ser a da chuva, que penetrava por um ou outro buraco existente no telhado, ou pela janela da sala, quando, por esquecimento, a deixávamos aberta e o vento soprava de oeste. Para cozinhar, para lavar a roupa e a casa, para se passar um pingo de água nos olhos pela manhã e limpar as ramelas, para fazer o café da madrugada, para dar de beber às galinhas e ao porco e até para limpar as tetas das vacas antes da ordenha era preciso ir buscar água à fonte, tarefa de que, lá em casa, eu era incumbido vezes sem conta.

Mas eu adorava ir à fonte, pese embora muitas vezes tivesse que o fazer carregando, dois pesadíssimos baldes de madeira cheios de água. A minha sorte e fortuna era de que a fonte, para além de ficar perto da minha casa, nunca secava, tinha sempre água fresquinha, sempre a correr, sempre a jorrar, sempre a respingar sobre o pedestal onde se colocavam os baldes, sempre a perder-se por entre pedregulhos e esgotos, sempre disponível para que eu, quando ali fosse, enchesse os baldes e saciasse a minha sede.

Na realidade eu ia à fonte, muitas vezes. Umas, para encher, até transbordar, o vasilhame que transportava vazio e que, no regresso, teria que carregar bem cheio e pesado, outras apenas para locupletar-me naquele manancial de frescura voluptuosa, deslumbrante e infinita. O ir à fonte era um vai e vêm contínuo, frenético e fascinante, apesar de cansativo e perturbador. É que da fonte, para além do fiozinho que, permanentemente, corria ténue e transparente, emanavam eflúvios sibilantes, provinham súplicas desfeitas, exalavam sonhos de nostalgia e perfumes de transparência. Na verdade, eu sentia que a fonte, com o seu fiozinho cristalino e diáfano, também derramava murmúrios estranhos, ora perdidos entre os musgos esverdeados da peanha, ora suspensos das abóbadas de cimento esbranquiçado que a rodeavam e protegiam. A fonte, com o seu murmurar silencioso, contínuo e permanente, desfazia dissabores, solidificava vivências e permitia que as sombras enigmáticas e confusas do devir, se transformassem em sonhos de magia, em perplexidades inebriantes, em arrebatamentos sublimes e transcendentes.

Um dia a estrada passou por ali., no sítio onde existia a fonte. Nas casas, incluindo a minha, agora, já havia água em abundância, mesmo que as janelas estivessem fechadas e as telhas quebradas tivessem sido substituídas. Entenderam os arquitectos e construtores da nova e larga estrada, que a fonte estava a mais, já não era necessária ali, porque água, havia muita por todos os lados e até dentro das casas. Mudaram-lhe o destino, aqueles imbecis, insensatos e inconscientes. Estes arquitectos e os próprios construtores da estrada, afinal, não sabiam ou não queriam perceber ou entender, que para além daquele fiozinho de água, da fonte também corria um manancial de sublimidade, de ternura e de envolvimento de pessoas. Desconheciam que a fonte também era um lugar de encontros, de vivências, de suspiros e, por vezes, de tormentas, que a fonte era um sortilégio quase metafísico, um abrigo de tempestades e intempéries, um recurso permanente a encontros e fascinações.

A fonte desapareceu! Agora apenas ficou uma outra no cimo da Rocha, lá bem no alto, mas sempre com o seu fiozinho ténue, cristalino, diáfano e transparente. A fonte agora está embutida no alto de um monte, altivo e abrupto, difícil de escalar, perdida entre as brumas adormecidas, dispersa entre o emaranhado aflitivo das madrugadas, suspensa no espectro multicolor do arco-íris. A fonte que os imbecis arquitectos e estouvados construtores da estrada não puderam destruir!

Mas mesmo longe, distante, encastoada nos andurriais escarpados da Rocha, ainda vou à fonte, como ia tantas vezes outrora, quando a fonte ficava mesmo ali, ao lado da minha casa. É verdade que já não acarreto baldes e baldes à abarrotar de água para cozinhar, para lavar a roupa e a casa, para passar um pingo de água nos olhos pela manhã, para fazer o café da madrugada, para dar de beber às galinhas e ao porco e até para limpar as tetas das vacas antes da ordenha, nem sequer para matar a sede. Agora apenas vou à fonte saborear o perfume adocicado daquele fiozinho suave, cristalino, diáfano e transparente antes que ele, jorrando dia e noite, bem lá do interior da Rocha, se perca por completo, ao cair, solitário, entre os socalcos pedregosos.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por picodavigia2 às 08:29





mais sobre mim

foto do autor


pesquisar

Pesquisar no Blog  

VISITANTES

free web counter

calendário

Agosto 2013

D S T Q Q S S
123
45678910
11121314151617
18192021222324
25262728293031