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WALKING TO PEDRA D´ÁGUA

Quinta-feira, 29.08.13

Caminhavam num silêncio contínuo, persistente e inquietante. Era como se a manhã ainda permanecesse uma madrugada escura, sem o canto dos pássaros e sem o desabrochar perfumado e colorido das flores. O destino não estava linearmente bem definido mas a vontade de encontrar e desfazer sombras perdidas e enigmas mistificados era segura, confiante e destemida. O trajecto, quer fosse por ali, quer fosse por outro sítio qualquer, era o menos importante.

A Pedra d’Água era um bom justificativo, a marca significante duma perplexidade confusa, um miradouro aureolado de mistério, onde a simples esperança do abraço final, infinito e ajustado, se confundia com a vontade escondida de encontrar um destino nascente, vivificante, mas magoado, e, aparentemente, para sempre perdido. Além disso, chegar à Pedra d’Água era demasiado fácil para ele, habituado deste pequeno à sinuosidade inóspita daqueles andurriais e ao descalabro inexaurível daquelas veredas. Havia de ajudá-la quando ela languidescesse entre os canaviais amarelados que atabafavam a rudeza rebelde dos campos circundantes. Havia de ampará-la se ela resvalasse nos seixos que, soltos, engrandeciam a irregularidade sinuosa e áspera das veredas. Haviam de comungar, na subida daquele emaranhado de degraus e na irreverência desoladora dos atalhos, suspiros de perplexidade, gestos de encorajamento recíproco, palavras destruidoras da indiferença a gerarem alento, sonho e magia e talvez trocassem até um leve, simples e intencional roçar de ombros. Na complexa arduidade da subida haviam de encontrar o bálsamo purificante da ajuda mútua, no incómodo dorido do rastejar, sentiriam o bafo perfumado da tolerância há tanto desmistificada e no arrastar cansativo das passadas, haviam de pressagiar uma pequena nica, que fosse, do manto ternurento e sedutor que já haviam tecido, com as malhas condicionantes da sua imaginação.

O Calhau das Feiticeiras, encastoado a meio do percurso, consubstanciava mitos, perplexidades e inquietudes, mas convidava, no sopé, a um repouso gratificante e auspicioso a que se seguiria uma enigmática e perturbante explicação: elas, as demoníacas feiticeiras escalonavam o arrogante e temeroso tufo, dia e noite, para cima e para baixo, para baixo e para cima, carregando os facínoras, os déspotas, os traidores e atirando-os por ali a baixo, a eles e a todos aqueles que, em vida, haviam praticado o mal como alternativa ao bem. As marcas dos pés das malditas, estampadas ao longo de todo o enorme calhau, eram a prova de que elas não se aquietavam. Tanto subiam, tanto desciam e tanto carregavam, que o tufo, apesar de pétreo, fora cravejado de estigmas que anunciavam a contumácia de tão inebriantes personagens… tão dolentes e tão sofridas, como que a profetizarem o descalabro desagregado de toda aquela subida.

E a Pedra d’Água ainda não era ali. Mas agora eclipsara-se o desaguisado tormento da subida e a perturbante inquietude da sinuosidade. A vereda seguia rectilínea e sagaz por entre o emaranhado de paredes construídas com pedregulhos ásperos, aqui e além forrados de musgo aveludado, sobre um chão tisnado com uma passadeira verdejante, perfumado de funcho, rosmaninho e madressilva, numa audaz e sublime glorificação das glórias imaginadas e dos triunfos que não se conjugam com a indiferença.

Finalmente a chegada triunfante ao pináculo da sublimidade! Uma vista a prolongar-se por horizontes infinitos, insondáveis e indefinidos e o cume envolto num nevoeiro, branco mas aureolado de sombras cinzentas, confusas e ligeiramente sinistras. Depois a descida, emersa num entardecer, demorado, lento e teimosamente agarrado a uma enorme segurança de que tudo havia de renascer e repetir-se.

 

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publicado por picodavigia2 às 21:29

BRINCANDO À “CAÇA À BALEIA”

Quinta-feira, 29.08.13

Uma das mais interessantes brincadeiras dos meus tempos de criança era a “Caça à Baleia”.

Nas tardes quentes e tórridas de Verão, juntava-se à Praça toda ou quase toda a pequenada da freguesia, desde a Assomada até à Via d’Água (quantos mais melhor) e iniciava-se uma brincadeira tão original e criativa quanto o que víamos quotidianamente praticado pelos adultos, Verão após Verão e que tanto nos fascinava e deslumbrava: a caça ou “pesca” à baleia.

Seleccionados os interessados, a brincadeira iniciava-se com a construção dos botes e da lancha, tudo semelhante aos dos adultos, mas feito de cana. Estas eram apanhadas no Outeiro, junto à Cruz, ali bem perto ou na ladeira do Fernando. Num ápice a frota estava pronta. Duas canas amarradas em ambas as extremidades com fios de espadana, três ou quatro canas mais pequenas mas com tamanhos diferentes e cortadas em bico nas extremidades eram encaixadas nas duas canas iniciais, a maior ao centro e as outras a decrescerem para a ponta e para a ré, dando-lhes forma de um bote. Seleccionada a companha, o mestre aplicava na ré uma cana a fazer de esparrel enquanto o trancador desfiava uma espadana e, amarrando os fios uns nos outros, fazia um cordão ao qual amarrava o arpão, ou seja, uma outra cana de ponta bem afiada e presa, na parte posterior, à proa do bote. Os restantes encadeavam canas de um e outro lado do bote a simular os remos. A lancha, a que era dado o nome de “Leta” ou “Maria Palmira” ou “Santa Teresinha” era em tudo semelhante aos botes mas sem esparrel. Tinha uma lança em vez do arpão e era quadrada à ré, tendo como tripulação, se a miudagem fosse pouca, apenas um tripulante que fazia simultaneamente de mestre maquinista e proeiro. Os que não tinham lugar nas embarcações, geralmente os mais pequenos ou os menos creditados na arte, estavam condenados a fazer de baleias. Destes havia um que no início desempenhava o papel de vigia. Como ficava sem fazer nada, logo após o atirar do foguete transformava-seem baleia. Omar era a Rua Direita, junto ao chafariz de duas bicas, e o porto, onde a frota estava parada e donde partia logo que o foguete rebentasse, era o pátio da Casa de Espírito Santo de Cima.

As baleias percorriam a rua de cócoras, depois de encherem a boca com água nas bicas do chafariz. Logo que a primeira baleia se pusesse em pé, isto é, viesse à tona de água e bufasse o jacto de água, o vigia encavalitado em cima do chafariz atirava o foguete, lançando para o ar uma pequena cana ou uma vara ou, por vezes, até um jacinto arrancado num quintal qualquer ali perto, acompanhado de um enorme e estrondoso “fsset pum, prá, prá, prá”. De imediato toda a companha corria para os seus botes a gritar “Baleia à vista! Baleia à vista!”. Entravam nos botes, ocupavam os seus postes e lá seguiam atrelados à lancha ou a remar sozinhos para o alto mar, ou seja. Para o sítio onde estavam as baleias. Estas andando de cócoras, a simbolizar que estavam debaixo de água, com a boca cheia de água lá se iam levantando e bufando de vez em quando mas deviam fazê-lo com tal agilidade, rapidez e performance que dificultasse ao máximo a acção do trancador, evitando que este lhes acertasse. É que o trancador só podia atirar o arpão às baleias que estivessem em pé e a bufar. As regras no entanto exigiam que estas o fizessem frequentemente e corressem para o chafariz, voltando a encher a boca de água, logo que a esvaziassem.

Quando o trancador acertava numa baleia em pé ela era morta e ficava a aguardar o reboque da lancha. O jogo terminava quando todas as baleias eram mortas o que muito raramente acontecia.

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publicado por picodavigia2 às 19:08





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