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LAJES DO PICO – UMA VILA COM VARIADAS OFERTAS TURÍSTICAS E UMA INTENSA ACTIVIDADE CULTURAL

Segunda-feira, 30.09.13

Adoptando o Pico como “segunda pátria” a ele me fui afeiçoando aos poucos. Outrora voltava-me mais para a Madalena, porta de entrada e de saída da ilha. Hoje porém, começo a sentir um fascínio cada vez maior pelas Lajes, o primeiro local de povoamento do Pico, já lá vão mais de 500 anos. Foi lá que desembarcou o primeiro navegador português Fernando Evangelho. Depois dele, muitos outros navegadores demandaram aquela magnífica baía em busca de terra e se foram fixando por ali, nas encostas circundantes, desbravando ravinas e rochedos, arando planícies, enchendo os vales de árvores de fruta, construindo as suas casas e edificando a primeira igreja da ilha, a ermida de S. Pedro, ainda hoje existente. As Lajes foi também o primeiro concelho da ilha do Pico, a ele pertencendo, nos primórdios do povoamento, todas as povoações da ilha então existentes, incluindo as ainda freguesias da Madalena e de S. Roque. Assim, bafejada pelo destino e pela história, ao que se alia a beleza da paisagem que a envolve, balizando-a entre o negro da montanha e o azul do oceano, a vila das Lajes possui um rico património histórico, cultural e paisagístico que a tornam um dos locais de maior atracção e interesse turísticos da ilha do Pico.

Se não vejamos. A nível histórico-cultural destacam-se:

- O Castelo de Santo António/Forte de Santa Catarina - Trata-se de uma antiga fortificação do século XVIII e do qual restam algumas ruínas.

- A Ermida se São Pedro a mais antiga construção religiosa do concelho das Lajes e da ilha do Pico. Trata-se de um pequeno templo, de origem franciscana, construído onde, segundo a tradição popular, desembarcaram os primeiros povoadores. Esta ermida teve como primeiro sacerdote, não só da ermida, mas da própria ilha, Frei Pedro Gigante, que é considerado pelos historiadores como tendo sido o introdutor da casta Verdelho na ilha.

- A Ermida de Santa Catarina, cuja data de construção remonta ao século XVII.

- O Convento de São Francisco/Igreja de Nossa Senhora da Conceição - Antigo convento franciscano datado do século XVII.

- A Igreja Matriz – Datada do século XIX, com traços a fazer lembrar o gótico das catedrais medievais, situada no centro da vila.

- A Ermida de São Sebastião, templo muito antigo, situado na Ribeira do Meio. Segundo a tradição esta ermida teria sido construída, inicialmente, no cimo da Almagreira, perto do mato, em lugar que o povo ainda agora conhece pelo nome de São Sebastião. Sabe-se, porém, que, já em 1592, ela já existia neste local.

- O Passo da Procissão – Datado do século XVIII, situado na rua Padre Manuel José Lopes.

- O Museu dos Baleeiros – conjunto arquitectónico constituído pelas antigas casas dos botes e uma tenda de ferreiro anexa e que representa através de apetrechos próprios e de fotos a actividade baleeira a que durante muitos anos se dedicou a população da vila das Lajes, também denominada de “Vila baleeira”.

- A Biblioteca e Arquivo – anexos ao museu dos Baleeiros.

- O Centro de Artes e Ciência do Mar – instalado na antiga fábrica da baleia, este centro possui informação diversa, registo e exposições sobre biologia e ecologia dos cetáceos.

- Os Moinhos – da Ponta Rasa, do Mouricão e da Silveira.

- O Monumento ao povoamento da ilha do Pico – monumento em pedra erguido no centro da vila em homenagem aos 500 anos do povoamento da ilha. (1460-1960).

Por sua vez e sob o ponto de vista arquitectónico a vila possui um conjunto notável de habitações com traços arquitecturais de interesse.

No que concerne ao património paisagístico, a vila desfruta de vários miradouros de beleza ímpar como são os dos miradouros do Forte de Santa Catarina, do Cabeço do Geraldo, da Ponta dos Arrifes, da Terra Alta, do Mouricão e da Vigia da Baleia, e até da Almagreira, donde se obtêm uma excelente vista sobre a vila e a baía. Sublime é a montanha vista das Lajes.

Existem nesta vila vários locais de lazer, algumas praças, um ou outro largo, estabelecimentos comerciais e restaurantes de excelente qualidade.

Mensalmente, a Câmara Municipal apresenta um vasto programa de actividades culturais a realizar não apenas na vila mas em todo o concelho, desde exposições diversas, teatro, cinema, bem como actividades para idosos e celebração de algumas festividades. A vila possui ainda um grupo coral e uma banda filarmónica.

Lajes do Pico – uma vila que vale a pena visitar!  

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publicado por picodavigia2 às 19:32

O LUGAR DE VALE DO LINHO E O ANCESTRAL POSSÍVEL CULTIVO DO MESMO NA FAJÃ GRANDE

Segunda-feira, 30.09.13

Há quem diga que há muitos, muitos anos se cultivou o linho na Fajã Grande. É muito provável que tal tenha acontecido, mas na década de 50 tal já não verificava. A provar a o cultivo do linho na Fajã Grande, a constatação do topónimo “Vale do Linho”, ou seja, o nome de um lugar ainda hoje existente, situado entre os lugares da Ponta e da Fajã, mais precisamente, a seguir à Ribeira das Casas, entre as Covas e o Rolo, sendo, nos anos cinquenta, um local de terras de milho muito férteis e de relvas verdejantes. Ali também terá existido outrora uma fortim ou castelo onde a guarda marítima se aquartelava a fim de evitar as fugas clandestinas de muitos homens e rapazes, nas baleeiras americanas, para os Estados Unidos, atirando a torto e a direito sobre os que tentavam escapulir das fracas condições de vida que proliferavam pela freguesia e pela ilha. Há relatos de que muitos fugitivos se atiravam ao mar para se esquivarem às balas assassinas, conseguindo alguns atingir e embarcar nas baleeiras que os haviam de transportar ao El-dorado. Voltando ao lugar do Vale do Linho, ele é, incontestavelmente, um dos interessantíssimos topónimos da Fajã que designa um lugar, situado precisamente num dos lugares mais belos da freguesia, ou seja, na fronteira entre o lugar da Ponta e o lugar da Fajã. Talvez por essa razão as duríssimas batalhas de pedradas entre a garotada da Ponta e da Fajã, que ali se efectuaram, noutros tempos, claro.

Uma segunda prova de que se cultivou o linho na Fajã Grande, reside no facto de em muitas memórias, nos anos cinquenta, ainda ser presente, embora de forma rudimentar o ciclo do linho. Segundo os mais velhos, e ao contrário da lã que era retirada dos animais por altura do Fio, o linho, assim como o trigo, a cevada e outros cereais, era semeado nos campos. Depois de semeado e mal tivesse nascido, nunca a terra podia secar para que o linho se desenvolvesse, obrigando o cultivador a um serviço de rega constante. Essa terá sido a principal dificuldade em manter esta cultura. O linho tinha que ser mondado como o milho, serviço moroso e delicado, exigindo cuidadas especiais para que ao tirar-lhe as ervas daninhas não fosse pisado ou arrancado. Quando maduro era tirado da terra e atado em molhos para ser conduzido à eira. Aí era ripado em instrumentos próprios, onde lhe tiravam as cabeças, em que se alojavam as sementes, que depois serviriam para fazer novas sementeiras e também para aplicação medicinal, pois dessas sementes faziam-se as tais papas de linhaça que aplicavam no tratamento de certas doenças. Depois de separado da semente, o linho era novamente atado em molhos e lançado à água nos poços das ribeiras e nos regatos das lagoas, para apodrecimento da casca exterior.

Ao fim de três semanas de molho, o linho era retirado da água e posto a secar até ficar com uma cor esbranquiçada. Depois era novamente conduzido à eira, onde se procedia à maçagem, para libertar os fios internos da casca exterior à força de pancadas com uma maça.

Depois de maçado, o linho era tascado e sedado em instrumentos apropriados, a fim de separar o linho da estopa, trabalho feito normalmente pelas mulheres, durante o Inverno, em dias de soalheiro. Do linho propriamente dito, faziam-se as estrigas, fiadas depois no fuso que mãos hábeis manobravam, durante os serões nas noites de Inverno, formando assim as maçarocas. Nos fusos fiava-se também a estopa, tarefa mais difícil, por ser fibra mais grosseira. Acabada a fiação, procedia-se ao arranjo das meadas com o auxílio do sarilho, onde se enrolavam os fios das maçarocas, à medida que ele rodava, procedimentos em tudo muito semelhantes aos da lã.

Terminada esta tarefa, estendiam-se as meadas ao sol, a corar, mas de maneira a não ficarem queimadas. Por isso, exigia-se a presença permanente de uma pessoa, para as molhar de vezem quando. Maistarde metiam-se as meadas numa barrela e de seguida, eram lavadas e estendidas novamente a corar, até ficarem muito brancas. Depois iam à dobadoira, para serem transformadas em novelos para os teares. Nestes e graças às habilidosas mãos das tecedeiras, os fios cruzavam-se sucessivamente até se transformarem numa peça de pano que havia de voltar à barrela para o libertar de qualquer mácula que tivesse apanhado durante a tecelagem e, por fim, lavada na ribeira. Só depois da execução de todos estes trabalhos, é que o tecido de linho ficava pronto para a confecção de lençóis e toalhas bem como de roupas para a igreja.

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publicado por picodavigia2 às 19:19

REGRESSOS REENCONTROS

Segunda-feira, 30.09.13

(UM POEMA DE URBANO BETTENCOURT)

Ouves a voz dessa mulher

nos dias que sobram de Setembro:

um rumor solar de asas

vindo de longe

como quem atravessou a harmonia inteira

do mundo.

Ouves essa voz vibrando na manhã

e tudo em ti é regresso e onda:

os araçás da infância, os figos,

as sementes onde a vida espera a Primavera,

uma mulher cantando no balcão sobre o mar,

uma ilha defronte.

 

Onde for o lugar de tudo isto e a memória

desse lugar,

aí encontrarás a raiz exacta

das palavras,

a seiva

de que a vida se sustenta.

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publicado por picodavigia2 às 12:13

TRADUÇÕES

Segunda-feira, 30.09.13

Há uns meses, casualmente, encontrei, no porto de São Caetano, no Pico, duas jovens. Como desconheciam a ilha e tudo o que as rodeava, manifestaram vontade de entabular conversa. Fui-lhes explicando alguns pormenores sobre a ilha Montanha, os seus valores, a sua beleza, a sua cultura, as suas tradições, indicando-lhes o que poderiam visitar e apreciar, pois nela, permaneceriam durante uma semana, manifestando, inclusivamente, vontade em escalar a montanha. Instaladas na Madalena e viajavam em moto de aluguer. Eram naturais e residentes na Suíça. Uma enfermeira, outra a terminar o curso de Direito. Visitaram uma adega rural, provaram vinho de cheiro, angelica, queijo, bolo etc, revelando uma esmerada educação e uma extrema delicadeza de costumes e atitudes. Tinham Facebook e, obviamente, tornamo-nos amigos.

Agora, embora raramente, recebo, via facebook, fotos e textos ou pequenas frases colocadas por uma outra e, como é óbvio, recorro às traduções que a página disponibiliza. A última vez saiu-me esta beleza:

Frase Original:  Dä Baby Esel isch da.... : ) wer will cho cha sich bi mir amäldä.

Tradução para Português:  Bebê burro amäldä isch como...:) quem quer bi me cho cha.

Boa!

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publicado por picodavigia2 às 10:59

A ROCHA DA PONTA

Segunda-feira, 30.09.13

A rocha da Ponta era um alcantil escarpado, abrupto e a pique. A única e sinuosa via que possuía outrora era uma vereda, um aclive íngreme e sobranceiro ao mar. Sítios havia, em que pedregulho, objecto ou pessoa que caísse, ia direitinho parar às águas do Atlântico, a não ser que antes se desfizesse ou esborrachasse nas fragas e penhascos que nela proliferavam.

Descia-a uma vez, de noite, quando regressava de Ponta Delgada com meu pai. Ao chegar ao Risco vislumbrava-se um maravilhoso espectáculo, uma vista deslumbrante, iluminada por um luar encantador que opondo-se à escuridão que me envolvera toda a noite. O espectáculo que observava era deslumbrante e maravilhoso! O luar, projectando-se no mar, transformava-o num espelho prateado e cristalino. Lá longe já se vislumbrava o casario da Fajã e a tímida luzinha do farol da Ponta do Baixio. O Pico da Vigia, sobranceiro ao povoado, projectava, no mar, uma penumbra clarificante que se difluía, com lenidade no oceano. O silêncio da noite apenas era cortado pelo ritmado bater das ondas junto à costa. No Rolo, circundante à grande Baía, onde se vislumbravam os montículos arrumados do sargaço simulando aldeamentos escuros, perdiam-se ondas infinitas de prata e de espuma.

Um espectáculo deslumbrante!

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publicado por picodavigia2 às 10:27

PALAVRAS, DITOS E EXPRESSÕES UTILIZADOS NA FAJÃ GRANDE (II)

Segunda-feira, 30.09.13

Balaio – Grande úbere de vaca quando muito cheio.

Beltro – Cinto das calças.

Benza-te Deus obra – Elogio a algo que é muito bom.

Cade? – Onde está?

Cambado – Manco.

Casa de fora - Sala

Coirão – Insulto a uma mulher com comportamentos e atitudes consideradas pouco decentes.

Como-te vivo – Dou-te uma grande tareia.

Cramar – Lamentar.

Criqui – Pequena galinha também conhecida por “Galinha da madeira”.

Daipa – Fralda de bebé.

Daipinha – Leve peça de roupa.

Dedo degolado – Ferida na parte debaixo de um dedo do pé.

Escarnento – Que faz pouco dos outros.

Escoimada – Limpa.

Estar fatalinho – Estar melhor.

Estar sempre a fugir com cu à seringa – Não querer trabalhar nem fazer nada.

Estar xingado – Estar mal, ter algum problema difícil ou impossível de resolver.

Ficar com o cu às costas – Ficar zangado.

Malino – Mau

Mojo – Úbere de vaca, ovelha ou cabra.

Não poder com um gato pendurado pelo rabo – Ser muito fraco.

Não ver patavina – Não entender ou não compreender nada nem coisa nenhuma.

Peleijar – Revoltar-se veementemente, com palavras, contra alguém.

Piauzinho – Criança inocente e indefesa.

Quique – Ponta-pé

Rechonchudo – Gordo.

Sanababicha – Malvado. Pessoa má.

Sanabagana – Malvado. Pessoa má.

Sascar – Magoar uma parte do corpo, geralmente um dedo.

Ser com’á mão de Deus – Ser muito bom. muito eficiente.

Ser como o frade Petiça que tudo o que vê cobiça – Ser invejoso.

Ser da pele de Ti Lúcio – Ser muito mau.

Só fé – Muito pequeno.

Tá um frio de rachar – O tempo está muito frio.

Tar à mão de semear – Estar perto de.

Ter a pele embrulhada nos ossos – Ser muito magro.

Ter sarna para se coçar – Ter muito que fazer ou estar em grandes dificuldades.

Tirar um olho pelo buraco do outro. - Dar cabo de alguém.

Toitição – Pancada na cabeça.

Topada – Ferida na parte superior de um dedo do pé, abrangendo a zona da unha, resultante de embate numa pedra da calçada ou caída num caminho.

Uma niquinha - Muito pouco.

Vai berda-merda – Expressão para rejeitar ou afastar outrem.

Vê se t’avias – Anda depressa, despacha-te.

Vimcá – Forma de chamamento das galinhas.

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publicado por picodavigia2 às 09:34

AMANHECER EM SÃO CAETANO

Segunda-feira, 30.09.13

Em São Caetano, bem no coração do Pico, ao amanhecer, mal se abrem as janelas e se arredam as cortinas, logo se sente um perfume desenfreado a maresia e um sabor adocicado a frescura, vindo bem lá do alto, do cimo da montanha e vislumbra-se, de imediato e tanto ao longe como ao perto, um intrigante assédio de alvura derramado sobre o lusco-fusco do amanhecer, a desfazê-lo, a transformá-lo em claridade titubeante, idónea e, estranhamente, desejada.

Depois, muito lentamente vão-se desfazendo negrumes e encerrando-se nebulosidades, até que se desamarram por completo as apoitas sonolentas que prendiam uma agradável e consoladora sonolência. O ar, então, torna-se fresco como o murmúrio das fontes, suave como o silêncio das florestas e leve como a espuma branca que lá, ao longe, no meio do oceano, parece arremeter-se, indignada, contra ao vento, também ele ainda, parcialmente adormecido mas já quezilento e audaz.

A montanha começa a despir-se da escuridão e a vestir-se de um verde suculento e luminoso, indicando que Sol arribará, em breve, da sua quietude nocturna. Há gritos de estrelas a tremelicarem, entoando estertores agonizantes e o crepúsculo transforma-se num desperdício desinteressante e, inconscientemente, indesejado.

Do mar, chega, apressada, uma brisa irreverente e atrevida, esvaziam-se as marés, aquietam-se as ondas e a Lua, em acentuado vazante, é um novelo desfeito, um farrapo despedaçado e sem encanto, arrumada lá nos rebordos do horizonte.

Surgem os primeiros raios de Sol a desfazerem um relento desencorajado. A claridade é o estandarte da esperança e rolam sobre o chão, ainda borrifado de lava, chumaços entumecidos de negrume, sombras que a madrugada, lentamente, destruirá.

As plantas e os arbustos sacodem os respingos adocicados de salmoura e lançam aromas de fragrância aos quatro ventos, as árvores espreguiçam-se amotinadas como que em cardume, os pássaros saltitam de telhado em telhado e os galos ressuscitam um canto esganiçado e turbulento.

Até as pedras, torrões de lava seculares, que haviam passado a noite adormecidas parecem agora sorrir e erguerem-se, testemunhando em versos silenciosos, o inebriante contentamento de ver nascer um novo dia. É o Pico no seu inconfundível esplendor matinal.

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publicado por picodavigia2 às 00:22

O ECO DOS VULCÕES

Segunda-feira, 30.09.13

por mais que sopre

e se agigante,

a brisa matinal

nunca apaga,

desvanece,

ou sequer

alivia

os sulcos

e as rilheiras

gravadas

no chão lávico,

pelo eco,

estonteante,

dos vulcões.

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publicado por picodavigia2 às 00:11

REDE VIÁRIA OU OS CAMINHOS, AS CANADAS E OS ATALHOS DA FAJÃ GRANDE NO INÍCIO DA DÉCADA DE CINQUENTA

Domingo, 29.09.13

Até 1954 ano em que se deu por concluída a construção da estrada entre a Ladeira do Pessegueiro e o Porto, a rede viária da Fajã Grande, se assim se pode chamar aos caminhos, às canadas e aos atalhos que pela freguesia proliferavam, era limitadíssima não tanto no que concerne à quantidade mas sobretudo no que dizia respeito à qualidade dos mesmos. Para além de maus, apertados, sinuosos, íngremes e com pisos deploráveis, os caminhos da Fajã Grande resumiam-se praticamente a meia dúzia de caminhos de carro, quase todos eles com o piso do tipo “calçada romana”, alguns pequenos troços de terra ou pedregulho e a um conjunto enorme de canadas, de passagens e de atalhos. Além disso, exceptuando as sete ruas da parte da localidade onde se situavam as casas, na maioria dos casos, os caminhos eram bastante inclinados, cheios de pedregulhos e pedras soltas e de difíceis andanças, sobretudo para os meios de transportes então utilizados: o corsão e o carro de bois. Para quem andava descalço e era a maioria da população sobretudo a mais jovem, os caminhos de antanho eram um martírio e um tormento, dado que sendo geralmente feitos de pedras umas mais salientes do que outras ou os pedregulhos soltos, provocavam as terríveis e temíveis topadas nos dedos dos pés, para além de serem responsáveis por um ou outro trambolhão.

Os principais caminhos existentes, à altura, para além das ruas onde se situavam as casas, eram os seguintes: caminho da Beira-Mar (Areal, Furnas e Porto), caminho da Ribeira das Casas e das Covas e que seguia para a Ponta; caminho da Fontinha/Lavadouros, passando pelo Alagoeiro, Batel, Silveirinha, Escada Mar, Paus Brancos e Alagoinha; caminho da Bandeja e Queimadas; caminho da Assomada/Lavadouros passando pelo Delgado, Cabaceira, Cancelinha, Espigão, Lombega e Alagoinha; caminho da Cuada, que ligava Santo António à Cuada; caminho da Missa; caminho Cuada/Lavadouros; caminho Espigão/Vale Fundo; outros caminhos mais curtos: Porto, Furnas, Ribeira, Pocestinho, Ladeira do Covão e Curralinho.

Entre as várias canadas destacavam-se as seguintes: Águas, Areal/Canto do Areal, Assomada/Pico, Assomada/Outeiro, Assomada/Pedra d’Água, Assomada/Pico da Vigia, Batel/Bandeja, Cabaceira de Cima, Calhau das Feiticeiras/Pedra d’Água, Calhau Miúdo/Mimoio Fontinha, Canada da Fontecima (Alagoeiro/Batel de Baixo), Cancelinha/Cuada, Cilindro/Furnas/Canto do Areal, Covão/Calhau das Feiticeiras/Outeiro Grande, Curralinho/Portalinho/Poço, Delgado/Cuada, Delgado/Outeiro Grande, Descansadouro, Eira da Quada/Quada, Escada Mar Rocha, Espigão, Figueira, Fontinha/Bandeja, Fontinha/Outeiro, Largo da Cancelinha/Pocestinho, Lavadouros, Lombega, Mimoio/Cruzeiro, Moinhos/Poço do Bacalhau, Pico Agudo, Pocestinho, Ribeira das Casas/Ribeira, Ribeiras das Casas/Mimoio, Rocha, Rocha da Figueira, Rocha dos Paus Brancos, Silveirinha/Queimadas, Silveirinha/ Cabeço da Rocha, Tronqueira Fontinha, Tronqueira/Ladeira/Mimoio/Fontinha, Vale do Linho. Vinhacre, etc

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publicado por picodavigia2 às 15:39

PAISAGEM A OESTE

Domingo, 29.09.13

 

Na encosta soalheira,

um amontoado de casas,

desordenadas,

pobres,

humildes,

simples

mas branquinhas.

 

Casas

cheias de nada,

a abarrotar de desejos,

carentes de destino,

mas iluminadas

com o perfume

do poejo

e da cidreira.

 

Ao longe,

mas muito distante,

… a América.

 

 

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publicado por picodavigia2 às 15:05

A “INCLITA GERAÇÃO” DO SEMINÁRIO DE ANGRA NA DÉCADA DE SESSENTA

Domingo, 29.09.13

É incondicionalmente aceite, não apenas pelos que por lá passaram mas também pelos que a ele directa ou indirectamente estiveram ligados e ainda pelos que tentam fazer a sua história, que o Seminário Episcopal de Angra, única instituição de ensino post-secundário nos Açores até 1976, ano em que foi criada a Universidade, foi um notável e inexaurível alforge de ciência e de cultura onde se formou, para além do clero açoriano de onde emergiram muitas eminentes figuras da igreja católica, grande parte da classe dirigente, da intelectualidade e da cultura açorianas.

No entanto, foi sobretudo na década de sessenta que esta instituição atingiu o apogeu da sua notabilidade e da sua génese formadora. Por um lado o Seminário de Angra possuía, nessa época, um notável lote de professores, homens de letras, de ciência, de grande sabedoria, de profundos conhecimentos, de alta craveira intelectual e defensores dos mais nobres princípios de humanismo, formados na Pontifícia Universidade de Roma, aos quais se juntavam alguns padres que mais se distinguiam na diocese pelo seu conhecimento mais específico numa ou noutra disciplina. Por outro lado demandaram o Seminário, nessa altura, muitos jovens dotados de elevada capacidade intelectual, na maioria dos casos oriundos de famílias pobres e, por conseguinte, impedidos de frequentar as Universidades do Continente, mas referenciados pelos respectivos professores primários como de excelentes capacidades de aprendizagem e que “seria uma pena não continuarem os estudos”. Uns fizeram-no com enorme sacrifício dos pais, outros com algum mecenas protector que lhe surgiu miraculosamente no caminho e alguns, até, agregando-se à diocese de Timor, mas quase todos faziam parte duma como que notável espécie de banco de inteligências armazenadas no arquipélago e que urgia aproveitar.

Assim e durante doze anos, com um currículo exigente, completo, abrangente e rigoroso, complementado com actividades intelectuais e culturais diversíssimas, desde a música ao teatro passando pelo jornalismo, através de academias, congregações, sabatinas, jornais, palestras, reuniões, semanas culturais, os seminaristas foram adquirindo não só uma aprendizagem profunda, segura e diversificada mas também uma sólida formação humana, tornando-se assim como que uma espécie de “ínclita geração” das letras, da ciência e da cultura açorianas, ali gerada.

Uns saíram ao longo do sinuoso percurso de doze anos de estudo, outros porém chegaram ao fim e ordenaram-se atingindo o objectivo primordial pelo qual haviam lutado e que constituía o sonho de qualquer simples e humilde família açoriana. Muitos destes, no entanto, alguns anos mais tarde, por isto e por aquilo ou simplesmente porque quiseram, resolveram alterar o destino da sua vida. E fizeram-no com dignidade, com convicção, com nobreza de carácter e de acordo com os valores humanos e morais que ao longo dos anos da sua formação haviam adquirido. Mas dispersaram-se, uns pela América e pelo Canada, outros pela França, pelo Luxemburgo, alguns por Setúbal, muitos por Lisboa, e um ou outro por Aveiro, pelo Porto e até pela Madeira, enquanto alguns permaneciam nos Açores.

Emanados de nobres sentimentos de convívio, camaradagem e saudade, muitos deles, sentiram que era bom e salutar reunirem-se. Se bem o sentiram, melhor o fizeram graças ao esforço, boa vontade e hospitalidade do Agostinho Simas e da esposa. Inicialmente reuniam-se uma vez, depois duas e agora muitas. Ontem, mais uma vez, estiveram no Mucifal em mais um desses notáveis e inesquecíveis encontros, onde há sempre, pelo menos um, que vem pela primeira vez, Convive-se, canta-se, evoca-se o Seminário e os Açores, contam-se estórias e peripécias, narram-se partidas e pirraças, recordam-se brincadeiras e costumes, vivem-se momentos de ternura e de saudade e apreciam-se os excelentes dotes pantacruélicos da Aldina,. Infelizmente alguns já partiram e há outros que ainda não vieram. Mas muitos vêm sempre, por vezes até de muito longe, outros vêm quando podem e alguns até mandam mensagens ou telefonam, porque na realidade todos estão ali imbuídos de transcendentes e quase inexplicáveis sentimentos de afeição, carinho, estima e amizade.

 

Texto publicado, no “Pico da Vigia” em 25/10/10

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publicado por picodavigia2 às 14:44

O CASTANHEIRO DA CABACEIRA DO MEIO

Domingo, 29.09.13

Meu pai tinha uma terra de mato na Cabaceira, mais concretamente na Cabaceira do Meio. É que sendo a Cabaceira um lugar de notável e considerada extensão (começava no Delgado e estendia-se até à Cancelinha) havia sido dividida, em termos de nomenclatura e por comodidade identificativa e situacional, em três sub lugares: a Cabaceira de Baixo, a Cabaceira do Meio e a Cabaceira de Cima. Antes da construção da estrada que ligava o Porto da Fajã à Ribeira Grande, o acesso a esta terra fazia-se pelo antigo caminho entre a Assomada e os Lavadouros e o portal de entrada ficava logo acima da ladeira com o mesmo nome, um pouco antes do largo da Cancelinha, mesmo em frente à canada que dava para a Cabaceira de Cima.

A terra de meu pai da Cabaceira do Meio era na realidade uma terra de mato. No entanto, a pouco e pouco, meu pai, dando continuidade ao que já fizera meu avô e muito provavelmente o meu bisavô, foi desbravando algumas das belgas onde proliferavam os incensos, as faias, a cana roca, os fetos e um ou outro pau branco e substituindo toda esta floresta natural e espontânea mas de menor e pouco rentável utilidade, pelo cultivo programado e acompanhado de inhames e de algumas árvores de fruto, nomeadamente araçaleiros, macieiras, pereiras e uma ameixeira. Pois era precisamente nessa terra da Cabaceira do Meio, por entre os inhames e misturado com alguns incensos, que havia também, numa das belgas maiores, um enorme, curiosíssimo, vetusto e descomunal castanheiro, talvez o maior e mais antigo castanheiro da Fajã Grande e que bem podia ombrear com os notáveis e invulgares castanheiros da Guarda, considerados os maiores de Portugal e que são autênticos exemplares da espécie no nosso país, com idades e dimensões inacreditáveis, como o de Guilhafonso, com mais de 400 anos e uma altura de19 metrose o da Arrifana, que se julga ter cerca de dois mil anos. O meu castanheiro também era muito velho e altíssimo. Quanto à idade, sabia-se apenas… que era do tempo dos afonsinos. Mas o mais importante ainda era que o castanheiro da minha Cabaceira dava uma enorme quantidade de castanhas, saborosas, carnudas e adocicadas que nós íamos retirando de dento dos ouriços caídos no chão, depois de lhe abanarmos os ramos sem dó nem piedade ou de lhe darmos umas fortes varejadas com um pau de incenso. E depois de cozidas eram tão boas as castanhas que dava o meu velho castanheiro da terra que meu pai tinha na Cabaceira do Meio.

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publicado por picodavigia2 às 11:03

A PAZ E O SILÊNCIO

Domingo, 29.09.13

A Serra era um desterro inebriante de memórias e recordações. Recoberta de um verde desmazelado, sombrio e indigente, aureolada de um cinzento enevoado e constrangedor, consubstanciava na secura das encostas a ânsia de se encharcar no desassossego aguado das lagoas que povoavam o seu interior. Dominada por um marasmo instigador compelida por uma atonia provocante, a Serra, se não deserta, emaranhava-se num ermo povoado de nevoeiros, perplexidades e desencantos.

Certo dia, demandou a Serra uma donzela trazida pelo vento norte. Conduzia um rebanho, mas o que mais a notabilizava era o facto de empunhar a bandeira da paz. Desenvolta e bela, a moça transpôs precipícios e grotões, saltou penhascos e ravinas, emaranhou-se por caminhos desertos e chegou à Serra deixando-se ali ficar, com o seu rebanho e a sua bandeira, imersa naquela letargia contagiante, envolta naquela aridez desértica, comungando uma imperturbabilidade inconsequente, partilhando uma pulcritude, que aos poucos se ia diluindo na infecundidade perturbadora da Serra.

Passaram-se dias, meses e anos, durante os quais, a pastora viveu só, pastoreando o seu rebanho e empunhando, contra a aridez da Serra, a bandeira da paz. Finalmente, numa manhã de Sol e de intransigente quietude, chegou à serra um anjo – o anjo do silêncio. Trazia gravado no peito o estigma da taciturnidade, acolhia-se em enigmas misantropos e desfilava um triste rosário de memórias perdidas. Caminhava na senda de um destino atrofiado.

Maravilhou-se, o anjo do silêncio, ao ver a jovem pastora, mensageira da paz e cumprimentou-a ternamente:

- Quem sois, linda pastora? Apenas sei que carregas a bandeira da paz, desfraldada pela luz das estrelas, cujo brilho se reflecte na simbologia do teu olhar. Conjugas a aridez inebriante desta Serra com os aromas dos teus sonhos e desejos.

A jovem sorriu, envergonhada e respondeu com voz trémula:

- Sou uma simples e humilde pastora, a mensageira da paz. Vejo que tu também carregas um estigma - o silêncio de um desespero amortalhado, conjugado com a tristeza de esperanças perdidas.

Então, o anjo do silêncio aproximou-se e, dando-lhe a mão, conduziu a transportadora da bandeira da paz, ao cume da Serra, onde o silêncio era mais suave e menos perturbante. O anjo solicitou-lhe que cravasse para sempre, ali, bem no alto a bandeira de que ela intransigente nunca se havia separado. E a jovem pastora colocou, para sempre, sobre a montanha ornada de silêncio, a bandeira inebriante da paz

O anjo e a pastora, em silêncio e à sombra da bandeira da paz trocaram as suas juras, como se apenas aquela Serra fosse o mundo e eles, os dois únicos seres a povoá-lo.

Sabe-se que, algum tempo depois o anjo teve que partir e a pastora ficou só. Mas ficou muito triste e chorou tanto, tanto, que o caudal das suas lágrimas se transformou num rio que, descendo as encostas da Serra, as transformou, ornando-as com as mais belas quedas de água.

E, a partir daquele dia, a Serra da aridez e do silêncio perturbante transformou-se num oásis de sublimidade inebriante, de memórias e recordações e vestiu-se de um verde jubiloso, alegre e cativante, aureolou-se de uma claridade inebriante e sonhadora, consubstanciando-se na frescura das encostas, na ânsia de se encharcar na paz aguada das suas lagoas. Dominada por uma alegria entusiasta, compelida por uma serenidade provocante, a Serra transformou-se, para sempre, numa atractiva e atraente sublimidade.

 

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publicado por picodavigia2 às 10:22

MONCHIQUE

Domingo, 29.09.13

 

Lá longe…

O Monchique!

Negro, abrupto e a pique.

 

Um rochedo

Que arrepia,

Encravado na maresia.

 

Ao redor,

Rolos de espuma,

Fantasiam-no de bruma.

 

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publicado por picodavigia2 às 00:48

VANGLÓRIA

Sábado, 28.09.13

Quando terminei o longo e penoso estágio pedagógico de dois anos convenci-me de que se não era o melhor professor do mundo, pelo menos andaria lá por perto.

Agora é que ia ser! As aulas que eu preparava com um zelo desmesurado e com um cuidado meticuloso, iam decorrer com uma qualidade de se lhe tirar o chapéu e com uma performance de alto gabarito. Sonhava ainda que aquele verniz com que havia sido, pedagogicamente, borrifado durante o estágio, já mais havia de se diluir e eu continuaria assim, perpetuamente, uma espécie de professor embalsamado numa auréola de prestígio pessoal e de dignificação profissional da carreira docente.

Iniciava as aulas convencido de que tudo corria bem e de que motivava os alunos da melhor forma, a fim de que estivessem sempre atentos e fizessem com dignidade, interesse e proveito os trabalhos propostos, o que, inevitavelmente, se havia de reflectir, de forma muito positiva, nas suas aprendizagens. Além disso, cuidava eu que via e que dominava tudo o que acontecia dentro da aula, onde nada, mas mesmo nada, ali ocorreria sem ser do meu conhecimento e, caso se justificasse, ter a minha pronta, eficiente e, pedagogicamente, adequada intervenção.

Certo dia leccionando uma aula de Português que eu destinara a aperfeiçoamento e correcção de texto e que exigia da minha parte grande atenção para com o que se passava no quadro, lá ia, como de costume, olhando, com alguma frequência, para os alunos, na tentativa de que não acontecesse nada de anormal.

A aula decorreu bastante bem e, a muito custo, lá lhes consegui impingir os conteúdos que eu havia programado, cuidando que os objectivos propostos haviam sido atingidos em plenitude.

E eis se não quando, terminada aula, um garoto de palmo e meio, mas muito esperto e desembaraçado, postou-se frente à minha secretária e, ziguezagueando a mão esquerda em frente ao rosto, afirmou com um misto de gozo e regozijo:

- Eu comi um pão com queijo, inteirinho, durante a aula e o professor não viu nada!

Toda a turma confirmou a veracidade do que o fedelho afirmava com uma enorme gargalhada, enquanto eu ficava estarrecido e com cara de parvo a olhar para ele e a sentir o início do desmoronar daquela espécie de castelo de cartas que me haviam impingido durante os dois anos do tal longo e penoso estágio pedagógico.

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publicado por picodavigia2 às 21:29

SIMBAD

Sábado, 28.09.13

(INSPIRADO NUM CONTO TRADICIONAL ÁRABE)

 

Nos dias de Harun al-Rashid, califa de Bagdá, vivia nesta cidade um pobre carregador. Certo dia, o carregador decidiu fazer uma pausa no seu árduo trabalho para descansar, sentando-se junto à casa de um rico comerciante que havia na cidade. Começou, então, a barafustar, em voz alta contra a injustiça do mundo, que permitia que ele fosse um pobre miserável e que o dono daquela casa fosse tão rico. Ao escutar estes lamentos, o comerciante pediu aos criados que lhe trouxessem o pobre carregador para dentro de casa. Depois de se apresentarem um ao outro, descobriram que, por mera coincidência, ambos se chamavam-se Simbad. O Simbad rico contou, então, ao Simbad carregador que também já fora pobre como ele e que se tornou rico por "fortuna e destino", dispondo-se a contar-lhe a história das suas maravilhosas viagens, durante as quais adquiriu toda a sua fortuna.

Começou, então, por contar que, após dilapidar toda a riqueza que recebeu de herança de seu pai, a qual investiu comprando mercadorias, decidiu tentar a sua sorte como comerciante num navio que saiu do porto de al-Basra, com destino ao Oriente. Após uns dias de viagem, o navio aportou numa ilha, que na verdade se revelava ser uma gigantesca baleia adormecida, em cujo dorso cresciam árvores. Passado algum tempo depois de ali chegar, a baleia acordou, devido a uma fogueira acesa sobre ela pelos marinheiros, e, em seguida, mergulhou, desaparecendo nas profundezas do oceano. Na confusão, o navio em que viajava naufragou, deixando-o sozinho no mar, agarrado a uma tina de madeira. Após algum tempo à deriva no oceano, foi parar a uma ilha coberta de exuberante vegetação. Explorando-a, encontrou um serviçal do rei local e ajudou-o a salvar a égua do soberano, evitando que esta se afogasse e fosse levada por um cavalo misterioso que vivia debaixo d'água. Isto fez com que o rei daquela ilha se tornasse seu amigo e, assim, ele, Simbad, passou a ser um dos membros favoritos da corte real.

Um dia, chegou à ilha o navio no qual Simbad havia partido em viagem e ele recuperou sua mercadoria. Decidiu, então, abandonar a ilha, mas antes recebeu ricos presentes do rei. O navio viajou em direcção à Índia, onde Simbad desembarcou e onde fez grandes negócios, e ao retornar, de seguida, a Bagdá, conseguiu grande lucro ao negociar as mercadorias que trouxera do Oriente.

Ao terminar o relato da sua vida, Simbad deu ao carregador 100 moedas de ouro, e pediu-lhe que, no dia seguinte, voltasse a sua casa, a fim de escutar o resto da história da sua vida.

Assim fez o carregador e, no dia seguinte, o rico comerciante continuou a sua narrativa. Contou, então, que, apesar de ter juntado muita riqueza e de levar uma vida de diversão, ainda sentiu vontade de viajar, novamente, pelo mundo, por isso, embarcou noutra aventura comercial, e, acidentalmente, voltou a ser abandonado numa ilha pelos seus companheiros de viagem. Explorando a ilha, Simbad encontrou um enorme objecto, liso e arredondado, que descobriu ser um ovo de um pássaro fabuloso e gigantesco. Pouco depois, o pássaro retornou ao ninho mas não dando pela presença de Simbad, que usando o seu turbante, atou-se à pata do animal, na esperança de fugir daquela ilha deserta e ser levado para um lugar habitado. A ave levantou voo transportando o jovem aventureiro até um vale coberto de diamantes mas habitado por monstruosas serpentes que serviam de alimento aos pássaros. Simbad soltou-se e ficou sozinho no vale, no meio das serpentes, mas logo descobriu uma forma de escapar. É que para conseguir os diamantes que proliferavam naquele vale inacessível, os habitantes da ilha atiravam grandes pedaços de carne para o fundo do vale, a fim de que fossem agarrados pelas aves enormes que os levam aos seus ninhos. Assim, alguns diamantes ficavam agarrados aos pedaços de carne, o que permitia que fossem recuperados pelos homens. Ao ver isto, Simbad também amarrou um pedaço de carne ao seu corpo e, ao ser levado para fora do vale por uma das aves gigantes, trouxe consigo muitos diamantes. Resgatado do ninho por um mercador, voltou a Bagdá, desta feita possuindo uma fortuna em diamantes.

Mas a sua ânsia por novas aventuras, continuou Simbad, não ficou por aqui e, passado algum tempo, zarpou de Baçorá, numa nova expedição. Os ventos levaram o barco em que navegava a uma ilha habitada por homens peludos como macacos, que tomaram o barco e o abandonaram numa outra ilha. Colocados nessa ilha, Simbad e os outros marinheiros chegaram a um palácio habitado por um gigante com forma de homem, pele negra, olhos vermelhos como brasas, uma boca enorme como a de um camelo com longos dentes, orelhas como as de um elefante e longas garras como as das feras. O monstro começou a devorar a tripulação, começando pelo capitão, que era o mais gordo, assando-o na brasa. Simbad, juntamente com os companheiros, inventou nova estratégia para escapar à fúria daquele abutre. Para tal, construíram uma jangada e, quando o monstro dormia, furaram-lhe os olhos com os espetos que ele usava para assar sua comida. Cego e furioso, o gigante saiu do palácio, mas os homens fugiram a tempo, correndo para praia e fugiram na jangada que haviam construído. Após algum tempo de viagem, chegaram a outra ilha, na qual encontraram uma serpente gigante e feroz que comeu todos os companheiros de Simbad, deixando-o sozinho. Apesar de só, Simbab conseguiu ser resgatado pelo mesmo navio, que o havia abandonado na ilha, durante a segunda viagem. Assim conseguiu recuperar a sua mercadoria e voltar a Bagdá ainda mais rico.

Na sua quarta viagem, prosseguiu Simbab, impelido novamente pela sua ânsia de aventura, embarcou num navio que, pouco depois naufrago. Os náufragos foram parar a uma ilha, na qual se confrontaram com selvagens nus e canibais que lhes dão para comer ervas com o poder de enlouquecer os que as provassem, para que depois os comessem. O único que não comeu ervas foi Simbad, que assim conseguiu escapar, sendo transportado e salvo por um grupo de colectores de pimenta de uma ilha, vizinha. Ali, Simbad travou amizade com o rei local que lhe deu como esposa uma bela e rica mulher.

Permanecendo nessa ilha algum tempo, Simbad teve conhecimento de um peculiar costume local, segundo o qual, após a morte de um esposo, o viúvo ou viúva devia ser enterrado vivo com o companheiro ou companheira, sendo ambos vestidos com as melhores roupas e os mais ricos vestidos. A mulher de Simbad adoeceu e morreu, pouco depois, sendo ele Simbad, seu esposo, encerrado vivo numa enorme caverna subterrânea - uma tumba comunitária - com um jarro de água e sete pães. Na altura em que lhe faltou a comida, foi lançado na caverna um cadáver de homem e, juntamente com ele a respectiva viúva é jogada. Simbad pegou no fémur de um cadáver e com ele atacou a  viúva matando-a. De seguida e apoderou-se de sua água e da sua comida e assim sobreviveu mais alguns dias.

Ao longo do tempo, Simbad foi matando outros condenados e apoderando-se da água, do pão e das jóias que os corpos levavam, sem, no entanto, conseguir uma maneira de escapar. Mas um dia, apareceu por ali um animal não-identificado que o guiou até uma saída. Já no exterior, Simbad foi resgatado por um navio que passava por ali e que, após completar a viagem pelo Sudeste da Ásia, o levou até Bagdá, onde regressou riquíssimo.

Passado algum tempo, regressou ao mar. O navio em que viajava Simbad passou junto a uma ilha deserta, onde a tripulação encontrou um ovo gigantesco, que Simbad reconheceu ser de um roca. Os marinheiros, para examinar melhor o ovo, partem-no e comem o filhote que estava por nascer. Simbad, assustado pelo que fizéramos seus colegas, pede-lhes que voltem ao navio, mas as aves gigantes furiosas, apareceram e fizeram rolar enormes rochas sobre o navio, afundando-o. Simbad conseguiu escapar, sendo levado para uma ilha, onde encontro o Velho Homem do Mar, que o torna seu escravo. Uma criatura estranha aproximou-se de Simbad e, colocando-se sobre os seus ombros, aperta-lhe o pescoço com suas pernas, que assumem a forma de ramos secos e impedem Simbad de desvencilhar-se. Passados dias, Simbad, usando, mais uma vez a sua astúcia, preparou uma bebida com vinho e convenceu o Velho do Mar a bebê-la, o qual, logo a seguir, caiu bêbado, permitindo a Simbad matá-lo. Embarcando em outro navio, Simbad foi levado à cidade dos macacos, onde população passavs as noites em barcos no mar, com medo dos macacos que, todos os dias, invadiam a cidade após o pôr-do-sol, matando os homens que encontravam. Simbad recuperou as suas riquezas e, eventualmente, regressou a Bagdá.

Na sua sexta viagem, Simbad e os seus companheiros sofreram, de novo, um naufrágio, pois o navio em que navegavam esbarrou contra uma alta falésia. Assim Simbad e os outros marinheiros foram parar a uma terra onde não havia nenhum tipo de comida, por isso começaram a morrer de fome, uns atrás dos outros. Apenas Simbad sobreviveu. Nessa altura descobriu um rio que corria por dentro da falésia e construiu uma balsa, usando-a para navegar através do rio, salvando-se. Mas o rio, para além de estar coberto de pedras preciosas, levou Simbad até uma cidade do reino de Serendib, na qual os rios estavam cheios de diamantes e os vales de pérolas. O rei local impressionou-se com os relatos que Simbad faz de al-Rashid, e decidiu dar-lhe vários presentes, entre os quais uma taça esculpida numa única pedra de rubi, uma cama feita da pele de uma serpente que havia engolido um elefante, e uma linda e bela escrava. Simbad voltou para Badgá com os presentes, riquíssimo.

Simbad ainda fez mais uma viagem, mas o navio em que viajava navegando voltou a naufragar. Desta vez, foram três monstruosos peixes que atacaram e destruíram o navio. Simbad foi parar a uma numa ilha, onde travou amizade com o mais importante mercador dessa ilha. Travaram amizade e, passado algum tempo Simbad casou com a filha do mercador, que morreu pouco depois, tornando-se, assim, Simbad o seu herdeiro. Simbad viveu feliz, na ilha, com a esposa até que, um dia, descobriu que os homens daquele lugar passavam por uma estranha transformação, dado que, uma vez por mês lhes cresciam asas e voavam até o céu, retornando depois. Intrigado, Simbad convenceu um deles para que o carregasse no voo que fizesse e, no mês seguinte, Simbad é levado ao céu por um dos homens alados. Lá no alto, Simbad viu anjos que cantavam louvores a Alá. Emocionado, Simbad exclama "Glória a Deus!", o que irritou enormemente os homens alados, que, assim, conseguiram abandona o cimo da montanha, onde se encontrava. Deixado sozinho, Simbad encontrou dois adoradores do Senhor, que lhe entregam uma bengala de ouro a qual utilizou, no regresso, para libertar um homem que estava a ser atacado por uma serpente gigante. Após isto, Simbad conseguiu voltar à cidade, onde teve conhecimento, pela mulher, que os homens alados pertenciam a uma raça de demónios, mas que ela e seu falecido pai são pessoas normais. Simbad decide, então, abandonar a ilha, partindo com sua mulher numa longa viagem pelos portos da Ásia. Esta viagem, a última que Simbad realizou, durou vinte e sete anos, findos os quais, Simbad regressou a Bagdá. Desta vez, renunciou, definitivamente, às aventuras no mar, arrependido de tantas vezes ter desafiado a sorte e arriscado a vida.

No final de seu relato, Simbad, o comerciante rico, ordenou que dessem mil moedas de ouro a Simbad pobre, dizendo-lhe:

"Não vês que alguém que superou tantas provações merece agora uma vida despreocupada?",

Simbad o pobre respondeu:

"Certamente mereces o ócio e o bem-estar. Vive em paz, e que cada instante te traga a felicidade!".

Agradecendo o ouro que lhe fora dado, Simbad, o carregador, prometeu que havia de tornar-se, ele mesmo, um grandioso mercador.

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publicado por picodavigia2 às 16:49

“COMO-TE VIVO”

Sábado, 28.09.13

Meu pai era um homem pacífico, pacato, ordeiro e trabalhador. Nunca se metia na vida dos outros e raramente falava mal de alguém. Passava os dias a trabalhar, poucas vezes se sentava à Praça e, quando o fazia, era apenas para descansar, “falquejar” e, por vezes, até para dormitar. Apesar de pobre e humilde granjeava o respeito de todos e a amizade de muitos. Além disso, todas estas qualidades se acentuaram após a prematura morte da minha mãe, altura a partir da qual o meu progenitor, causticado pela sorte e estigmatizado pelo destino, se tornou ainda mais melancólico, nostálgico e taciturno.

Certo dia, ao amanhecer, antes de partirmos para o Pocestinho para cortar e acarretar para o caminho uma carrada de lenha, decidiu-se por ir buscar um molho de milheiros ao cerrado do Mimoio. O curral do porco estava a abarrotar de lama, sujidade e imundície e o tempo das matanças aproximava-se. Para que o carrego fosse maior decidiu-se a levar-nos com ele: eu e os meus dois irmãos mais velhos.

Carregados de luto, saímos de casa ao lusco-fusco, descemos a Assomada, passámos à Praça e transpusemos as primeiras casas da Fontinha, na demanda da Canada do Mimoio. À frente eu e o António, mais afoitos e desembaraçados. Atrás o José mais vagaroso e arrevesado. Meu pai seguia no meio.

No cimo da ladeira da Fonte Velha, deparámo-nos com o Coelho estancado ao portão de casa. Meu pai, seguindo o seu caminho, sem nem sequer olhar para ele, saudou-o delicadamente:

- Isso é que levantar cedo!

O Coelho, sem delongas, ripostou:

- Ó grande bandalho! O que é que tens a ver como a minha vida? Mete-te na tua que tens sarna para te coçar.

Meu pai parou uns segundos, hesitou, mas seguiu o seu caminho. O Coelho, porém, insistiu mais veementemente:

- És um sanabicha, um preguiçoso. Se não fosse as terras que teus irmãos te deixaram não tinhas onde cair morto!

Meu pai parou novamente e, desta feita, voltou-se e olhou-o em tom ameaçador, mas continuou a caminhada. Nós cheios de medo.

Mas o Coelho sem mais de longas, aumentando o tom de voz e a indignidade dos impropérios, disparou:

- És um grande sabagana e um grande preguiçoso. Passas os dias sentado à Praça, sem fazer nada.

Meu pai não se conteve. Voltou-se num de repente, aproximou-se do portão, pegou no Coelho pelos ombros, levantou-o e sacudiu no ar, empurrando-o, de seguida, para dentro do pátio. Depois, fechando o portão com ímpeto desusado, gritou-lhe de cima do muro, em alto e bom som, enquanto nós assustadíssimos nos escondíamos atrás da Casa do Candonga:

- Ó alma do diabo! Se ao passares por mim me diriges a palavra mais alguma vez eu como-te vivo.

E, incentivando-nos a continuar a caminhada, retomou a subida da Fontinha, enquanto a Coelha, lá ao fundo, levantando uma ponta da cortina, com ar amedrontado, espreitava por dentro da janela.

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publicado por picodavigia2 às 09:55

O CAMBULHÃO

Sábado, 28.09.13

O ano fora forte em milhos. Chuvas gratificantes em Agosto e um Setembro soalheiro haviam transformado o cerrado do Picanço, no Areal, numa safra de bonança. A apanha do milho, iniciada alta madrugada, prolongou-se por toda a manhã, terminando, apenas, ao meio dia. Carros e caros de bois, estacados à porta do Picanço, a abarrotar-lhe a cozinha de maçarocas graúdas, recheadas de grãos suculentos. Uma riqueza! Um pecúlio como há muito não havia memória!

De tarde era a hora de encambulhar. Sentados em pequenos bancos ou sobre cestos virados com o fundo para cima, formaram círculo ao redor daquela espécie de pirâmide de maçarocas, o Picanço, a mulher, os filhos, uns parentes mais próximos, alguns amigos e um ou outro vizinho. A Engrácia, a filha do Mendonça, é que também não quis faltar, aparecendo de surpresa. Vinha oferecer os seus fracos e míseros préstimos. Mas, até era muito bem-vinda. Por parte do velho Picanço que via nela mais uma ajuda benfazeja e primorosa, por parte do filho mais novo, o Chico, que desde há muito, à sorrelfa, lhe andava a catrapiscar o olho.

Mal entrou Engrácia, levantou-se o Chico, muito solícito e mais apaixonado do que interessado na ajuda que a moça consubstanciava. Trouxe-lhe um banquinho e sentou-a a seu lado, partilhando não apenas os baraços de espadana com que se haviam de amarrar os cambulhões, mas também atirando-lhe olhares comprometedores, sussurrando-lhe disfarçados galanteios e até, provocando, propositadamente, um ou outro roçar de joelhos, camuflado pelo permanente arrepanhar das cascas das maçarocas. Não era bonita a Engrácia, mas era bela e encantadora. Não era linda, mas era fascinante e atraente. O rosto salpicado, junto aos olhos, por aglomerados de sardas que se iam dispersando e diluindo ao longo das faces, não era angélico mas revelava-se encantador e, delirantemente, sublime, por quanto, estampado numa espécie de esquelética agressividade, consubstanciava um encanto impar e uma fascinação invulgar. E ele, com o cabelo levemente acastanhado a sombrear-lhe a profundeza do olhar, impunha-se com uma rigidez cativante, atlética e com uma magnanimidade, inebriantemente, sedutora. Amavam-se sem, no entanto, o confessarem.

A safra do encambulho não parava e o monte, inicialmente desenhado pirâmide transformara-se, a meio da tarde, numa espécie de mastaba e esta, algum tempo depois, em eira. Se os fios de espadana rareavam, o Chico, na mira de aumentar o pecúlio dos atilhos, levantava-se e a moça não tirava os olhos dele. Voltava a sentar-se e, ao puxar do monte uma maçaroca, descambava sobre os ombros da moçoila, já inclinada, como que a adivinhar-lhe o enlevo. Apenas a Josefina – uma alcoviteira assumida, que não tirava o olho deles – impedia que olhares, toques e gracejos desandassem e se transformassem em requebros mais íntimos e comprometedores.

A tarde chegava ao fim e o monte das maçarocas era agora um eirado, derramado sobre o velho e carcomido soalho da cozinha. O velho Picanço, apercebendo-se que se aproximava o princípio do fim de tão farta azáfama, deu ordens. Era o Chico que havia de ir pendurar os cambulhões no estaleiro. Mas que o fizesse com cuidado; maçarocas bem apinhadas e com a casca mais grossa bem veadinha para fora. Era necessário proteger os grãos indefesos da chuva e do gorgulho. Aos mais novos e afoitos competia ajudar no carrego e transporte dos cambulhões para junto do estaleiro. Alguém havia de os “alcançar” ao Chico, quando encavalitado nas ripas do estaleiro ou pendurado numa escada anexa.

Engrácia, vermelha que nem um pero, ofereceu-se, de imediato. Se era o Chico a pendurar os cambulhões havia de ser ela a ajudá-lo. E ao aproximar-se do estaleiro, já ao lusco-fusco, ao alcançar-lhe o primeiro cambulhão, despendeu-o das mãos, simuladamente desajeitadas, deixando que o dito cujo se estatelasse no chão. Sempre solícito e adivinhando-lhe o intento, o Chico baixou-se para ajudá-la. Ao erguerem-se, fizeram-no tão ajeitadamente, que os seus rostos emparelhados se colaram num sufoco terno e emocionante, selando uma indelével paixão.

Entre choros e soluços, meses depois, era o Chico a partir para a América e a Engrácia, aflita e conturbada, com o coração despedaçado. No primeiro ano não havia vapor que não trouxesse carta do Chico e não havia carta que não viesse carregada de promessas e juras amor. No segundo as cartas rareavam e as promessas e juras esquecidas e, ao fim de três anos, o Chico já nem lhe escrevia. A Engrácia, no entanto, só e amortalhada, retinha dele um enorme e indelével amor, consubstanciado na memória permanente daquele cambulhão, caído propositadamente do estaleiro do velho Picanço, no escuro da noite daquele dia em que fora ajudar a encambulhar o milho do Picanço.

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publicado por picodavigia2 às 09:47

A AURORA BOREAL

Sexta-feira, 27.09.13

Um dos fenómenos mais estranho e, ao mesmo tempo, terrivelmente assustador que aconteceu na Fajã Grande, aterrorizou toda a população e que durante anos e anos persistiu na memória de quantos a ele assistiram foi a Aurora Boreal. Segundo algumas memórias mais antigas, a Aurora Boreal terá aparecido nos finais dos anos trinta ou início dos anos quarenta e assustou de maneira assombrosa toda a população da freguesia que, à boa maneira dos povos primitivos, não sabendo explicar racionalmente tão estranho fenómeno atmosférico, considerou-o como um fenómeno sobrenatural, um sinal divino, mais concretamente como um anúncio claro e inflexível do fim do Mundo e do Juízo Final.

Segundo relatos de pessoas mais antigas que presenciaram tão invulgar fenómeno atmosférico, ao fim da tarde de um dia de Outono e antes do Sol se pôr o céu cobriu-se totalmente de um vermelho muito intenso, que se reflectia nas águas do oceano e se projectava sobre os montes e vales, sobre os campos, as casas e as rochas. Tudo se cobriu de um vermelho terrivelmente vermelho e parecia que do céu caíam postas de sangue sobre o mar e sobre a terra. O povo mergulhou num medo aterrador e num sobressalto medonho, as pessoas aos gritos, como loucas saíam das suas casas, ajoelhavam no caminho a implorar a misericórdia divina ou corriam para a igreja a fim de pedir perdão pelos seus pecados e morreremem graça. Ossinos tocaram a rebate como nunca, quem andava pelos campos fugiu para o povoado, chorava-se, gritava-se, berrava-se, implorava-se com impertinência o perdão dos pecados e a misericórdia divina.

Neste caos de terror e de temor apenas uma voz, uma única voz em que, pelos vistos, ninguém acreditou, se insurgiu contra a sobrenaturalidade de um fenómeno do qual tinha a certeza e sabia que era perfeitamente natural embora pouco vulgar naquelas paragens do globo terrestre e que não traria rigorosamente nenhum mal a quem quer que fosse, nem muito menos seria o fim do mundo ou o fim ou princípio de outra coisa qualquer, pois era simplesmente uma Aurora Boreal. Esse homem era Ti Malvina, irmão mais novo de meu avô Batelameiro. Embora não tendo estudado, Ti Malvina era, no entanto, um homem de muitos conhecimentos e grande sabedoria. Para além de uma inteligência invulgar, Francisco Malvina da Silveira havia nascido e crescido no Norte da Califórnia, em 1892, no condado de Siskiyou e lá viveu muitos anos onde comprara e lera muitos livros, tendo trazido alguns consigo e através dos quais obtinha muitos e variados conhecimentos. Apesar de tudo, a maioria das pessoas não acreditou nele e decidiu-se por continuar a atribuir, entre grande tribulação, à Aurora Boreal um carácter de fenómeno sobrenatural e anunciador do fim do Mundo e do Juízo Final. O povo rejeitou radicalmente as informações e os conhecimentos de Ti’Malvina que considerava a Aurora Boreal como um fenómeno natural, óptico que acontecia geralmente no Pólo Norte mas que podia acontecer esporadicamente noutras latitudes. São luzes coloridas – dizia ele - que aparecem no céu, durante a noite. O nome Aurora vem da deusa romana e Boreal do deus grego do vento forte Bóreas, nomes dados pelo astrónomo italiano Galileu Galilei a este tão antigo fenómeno.

 

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publicado por picodavigia2 às 19:53

DESCOBERTO NOVO PLANETA HABITÁVEL FORA DO SISTEMA SOLAR

Sexta-feira, 27.09.13

Foi divulgada, recentemente, uma surpreendente e extraordinária notícia, a da descoberta de um novo planeta com características de habitabilidade de seres com vida, semelhantes às que possui o planeta Terra e, consequentemente capaz de abrigar vida extraterrestre. Este planeta foi detectado pela primeira vez por uma equipe de astrónomos norte americanos e está situado num sistema planetário exta-solar.  Segundo os cientistas que fizeram esta importante descoberta, este exoplaneta, que gira em torno da estrela Gliese 581 (Gl 581), já há muito descoberta e que está localizada a 20,5 anos-luz do nosso planeta, é o primeiro dos cerca de 200 conhecidos até hoje, fora do Sistema Solar,  a "possuir ao mesmo tempo uma superfície sólida e líquida e uma temperatura próxima da encontrada na Terra". Segundo os mesmos cientistas, este planeta reúne as características necessárias e "que permitem imaginar a existência de uma eventual vida extraterrestre". A temperatura média desta "super Terra”, situa-se entre 0 e 40 graus Celsius, o que permite que haja a presença de água líquida na sua superfície”. Além disso, aqueles cientistas afirmam que o "seu raio seria 1,5 vezes o da Terra", o que indicaria "ou uma constituição rochosa (como na Terra), ou uma superfície coberta de oceanos". A gravidade na sua superfície é 2,2 vezes maior do que a da superfície da Terra, e sua massa muito fraca (5 vezes a da Terra), o que significa que um ser humano que na terra pesasse 50 quilos, pesaria 80 em Gliese 581. O movimento de rotação do novo planeta dura aproximadamente 37 dias e metade da sua superfície nunca recebe luz da estrela à volta da qual se movimenta, pelo que, nesta parte mantêm-se a noite permanente, o que provoca também uma acentuada diferença de temperaturas entre ambas as partes. O interesse e entusiasmo pela descoberta deste planeta advém do facto de ser o primeiro mundo encontrado num universo infinito, na zona habitável de uma estrela e que possui as características necessárias a um desenvolvimento da vida semelhantes ao do planeta Terra.

 

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publicado por picodavigia2 às 11:45

DA MIGRAÇÃO AO EXÍLIO NA POESIA DE PEDRO DA SILVEIRA

Sexta-feira, 27.09.13

(TEXTO DE FRANCISCO COTA FAGUNDES)

 

 

Convenhamos que os momentos dramáticos de que se reveste a experiência migratória

e exílica que aqui (na poesia de Pedro da Silveira) nos ocupou – começando com a(s) partida(s), repetidas veridicamente e poeticamente obsessivamente reiteradas – adquirem um grau de pungente drama que poderão surpreender, ou até atingir como pose meramente literária, quem alguma vez emigrou, como emigrante assalariado, para longes terras estrangeiras de língua e cultura diferentes da nossa, com poucas probabilidades de regresso senão a longuíssima distância, se de todo, e isto não só por consabidas razões económicas mas também para evitar o serviço militar. Pensemos nos

casos de muitos jovens emigrantes açorianos que partiram das Ilhas (por exemplo, para os Estados Unidos e Canadá, quer na vaga emigratória de 1871 a 1920 (EUA), quer na mais modesta onda de 1951 a 1960, quer ainda na maior vaga de todas de emigração açoriana para a América do Norte (EUA e Canadá) que foi iniciada em 1961 e se prolongou até 1990. Claro que ninguém, incluindo esses mesmos emigrantes, tem direito a questionar o facto de alguém poder sentir uma experiência migrante – ali para o Continente português, que fica a menos de mil milhas da mais distante das ilhas do Açores, onde se fala a mesma língua e se vive a mesma cultura, embora uma e outra com leves modulações – como se fosse uma emigração para longínquas terras estrangeiras; ou, inclusive, como constituindo um exílio equiparável ao de dezenas ou centenas de portugueses de todo o país que, mais ou menos voluntária, ou mais ao menos involuntariamente, por razões de consciência, ou por perseguição ou medo de perseguição política, se ausentaram do seu torrão natal.

É de todos sabido como o grau  de identificação com a freguesia, com a ilha se sobrepõe, no caso do açoriano comum (e Pedro da Silveira está longe de ser um açoriano comum), ao grau de associação e identificação com o país como todo colectivo. Para esse açoriano comum, migrar para o Continente constituiria uma experiência sósia da emigração para um país estrangeiro. E embora a sua experiência continental de Pedro da Silveira – iniciada em 1951, como já se indicou, e prolongada até à sua morte, em 2003, e profissionalmente adscrita às responsabilidades de funcionário da Biblioteca Nacional de Lisboa e a várias outras actividades relacionadas com a cultura, desde consultor literário a colaborador assíduo em revistas e jornais prestigiados – não pareça, à primeira vista, justificar, humana e existencialmente, o drama migratório e exílico representado na sua poesia, quem tem o direito de questionar, ou de pretender saber, o que terá sido, no mais íntimo da vida do homem e do poeta, essa experiência de açoriano ausente (Poemas Ausentes é, como vimos, precisamente o título de um dos seus livros de poesias)? E conquanto a poesia (ou qualquer outra documentação, por quanto eu sei) de Pedro da Silveira não patenteie uma perseguição política que o identifique como um exilado político interno – como o foi, por exemplo, um Torga – quem tem direito a questionar a sua sensação de exilado na sua própria terra – seja o Continente, sejam os Açores – numa época politicamente castrante, sobretudo no caso de um homem ideologicamente de esquerdas como Pedro da Silveira? E quem tem o direito de exigir que um homem tenha forçosamente de viver empiricamente as experiências e os sentimentos que poetiza ou a que dá vida numa obra literária, embora essa obra seja poesia e o “eu” da poesia lírica, como é sobejamente do conhecimento geral, e o “eu” empírico estejam (ou pareçam estar) mais próximos um do outro do que em outros géneros literários? Finalmente, quem poderá contestar que migrações, emigrações, imigrações, e exílios (externos ou internos) haverá de tantos tipos quantos indivíduos haja que os concebam, desfrutem, sofram

– ou poetizem?

 

FAGUNDES, FRANCISCO COTA. “DA MIGRAÇÃO E DO EXÍLIO NA POESIA DE PEDRO DA SILVEIRA”. – CONCLUSÃO - BOLETIM DO NÚCLEO CULTURAL DA HORTA 15 (2006)

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publicado por picodavigia2 às 11:43

O PÁSSARO DAS FLORES LILASES

Sexta-feira, 27.09.13

Era uma criança loira, de olhos azuis, cabelos ao vento, sorriso radiante e olhar sublime. Tinha um porte leve, digno e suave. Caminhava, como se voasse, sobre o aveludado das nuvens, sonhava com o brilho cativante das estrelas e sorria por entre o vidrado das madrugadas primaveris. A vida, o tempo e, talvez, até o destino, porém, haviam-na cravejado de terríveis e lúgubres dissabores. Vivia acorrentada entre os solavancos da inconstância, trilhava as mágoas das privações e caminhava por entre os estilhaços dos estigmas. Abria as janelas ao florir das madrugadas nuas, acomodava-se no sibilar incauto do vento e envolvia-se, ao relento, na obscuridade das tardes desertas. Colhia espigas em trigais putrificados, enfrentava o rigor de invernias tormentosas e atravessava, solitária, caminhos e veredas exsicados. Iluminava as noites com candeias trémulas e vacilantes, deitava-se, ao luar, sobre as lajes frias dos eirados e dormia embalada pelo cantar sussurrante de fontes estéreis. E quando o Sol se inquinava de luminosidade, trepava às árvores despejadas de frutos, subia as fragas irrigadas de regatos, saltava os barrancos apinhados de silvados mas sorria para as flores, mesmo que estivessem murchas. Alimentava-se de pão rijo, ressequido e o leite sabia-lhe a mel. Mas, apesar de todas as limitações e dissabores, surgia, em cada dia, em cada hora e em cada momento, radiante como a aurora, doce como a alegria, terna como a saudade, meiga como o perfume das flores e jovial como o canto das cotovias.

 De manhã, ao acordar, assomava às janelas e os raios volúveis da alvorada pareciam esboçar-lhe, no horizonte, um caminho sem luz e sem rumo. Mas levantava-se, vestia-se, penteava os seus cabelos de oiro e caminhava na procura do destino, transportando os encantos da infância, sulcando, à porfia, as intempéries da escuridão, demandando o rastro das aves sem ninhos. E quando, à tarde, o Sol desfazia a estranha fantasmagoria das nuvens, ela não mais regressava a casa. Corria sozinha, alegre e desinibida, carregando, por entre o encanto desregrado da beleza, a fascinação idílica do seu olhar azul, o brilho doirado dos seus cabelos loiros e a limpidez suave da sua virtude angélica. Mas encaminhava-se, fatal e impreterivelmente, para uma lúgubre e sinistra Floresta Oculta. Abria, com premeditado estrondo, o enorme e pesado portão daquele antro hierático, onde se aninhava, camuflada, a audácia heróica e valorosa da virtude. Depois, entrava, caminhava, seguia e penetrava, segura, destemida, serena e radiosa, deslizando sobre a candura infantil da sua beleza, rasteando a elegância do seu corpo humilde e pequenino mas nobre, esbelto, gracioso e atraente. Tudo lhe dava o ar soberbo, nobre e altivo duma deusa romana, em miniatura.

 

Um dia, a criança de cabelos loiros e olhos azuis, ao entrar na Floresta Oculta, olhou para o alto e viu, por entre o eirado aterrador dos abutres, empoleirado numa árvore de flores lilases, um pássaro, pequenino, inocente e encantador. Parou, estagnou e cantou-lhe uma canção. O pássaro das flores lilases ouviu-a e adornou-a da mais serena e emotiva fascinação. E, no dia seguinte, os raios da alvorada, doces e perfumados, pareciam vislumbrar, no horizonte, para aquela criança pura, inocente e bela, um caminho repleto de luz e com a esperança a assinalar-lhe o destino.

 Mas a esperança estava morta e o destino povoado de fantasmas porque os raios da alvorada, desenhados no horizonte, eram apenas sombras frias, incoerentes e enigmáticas de uma estagnada e inverosímil perplexidade.

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publicado por picodavigia2 às 09:18

SALMO 152

Quinta-feira, 26.09.13

(UM POEMA DE ARTUR GOULART)

 

O tempo que corre

é mar que se espraia.

 

As ondas são sonhos

perdidos por mim.

 

O vento é espuma

rendando desejos.

 

A rota é o longo

caminho da posse.

 

O amor é um barco

que eu fiz para ti.

 

A.Goulart no fio das palavras

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publicado por picodavigia2 às 21:05

O DIA EM QUE A TIA AUGUSTA PARTIU PARA A AMÉRICA

Quinta-feira, 26.09.13

O dia em que a tia Augusta partiu para a América foi o mais triste e desventurado da minha vida.

De todas as minhas tias, tanto paternas como maternas, a que eu mais gostava, diria mesmo, a que mais amava, era a tia Augusta, a mais nova irmã do meu progenitor. Para além, de elegante, bonita, esbelta e graciosa, a tia Augusta tinha um coração generoso e era meiga, benevolente, simpática e, mais do que isso, era minha amiga, muito minha amiga. Por isso desabei num choro imenso, num pranto desolado e num sufoco inconformado no dia em que ela partiu para a América.

Desde de pequenino que a tia Augusta me cobria de mimos, me doseava de desvelos e me atafulhava de carinhos. Como não era casada, nem tinha filhos, eu era o seu menino preferido. Em casa sentava-me no seu colo, aconchegava-me ao seu regaço, brincava e enleava-se comigo. Quando saía para trabalhar nos campos, para visitar uma amiga ou, simplesmente, para dar uma volta por aqui ou por ali, levava-me sempre consigo, nunca me largava a mãozinha e, muitas vezes, cuidando que eu havia de estar cansado com tão exaustas caminhadas, até me levava ao colo, e, pelo menos uma vez que me lembre, transportou-me às cavalitas. Um encanto e um enlevo, esta tia Augusta.

Ora certa tarde, em que eu em casa, triste e macambúzio, aguardava, ansiosamente, uma das habituais visitas da tia Augusta, para mais um momento de enlevo, talvez uma brincadeira, quiçá um passeio, fui abalroado por esta trágica, cruel e fatídica notícia: A tia Augusta tinha partido, definitivamente, para a América. Não me contive e desatei num berreiro inconsolável, dilacerante, angustioso e inaudito que me analgizou por completo do evento.

Só três dias depois, já exangue de lágrimas mas não conformado com a desdita, dei comigo a pensar no motivo que teria originado tão, aparentemente, abrupta, despropositada e incompreensível decisão da minha tia Augusta, tão querida, tão meiga, tão afável. As amigas mais chegadas, deprimidas com tão oculta e inesperada deliberação, cuidavam que fossem amores desconcertados. As vizinhas, mexeriqueiras de ofício, ciciavam que ali havia paixão proibida, pois sempre a viam - e se a não viam imaginavam vê-la – de conversas escondidas com o filho mais velho do Graveto, homem casado e pai de família. Minha avó, pasmada e sentida, cuidava que haviam sido intrigas da tia Joaquina, sempre quezilenta e alcoviteira. A Júlia do Moleiro, uma bendita que passava a vida a por famas e aleives a umas e a outras, teve a distinta lata de afirmar que a tia Augusta tinha fugido para se “desarranjar”. Eu, triste e desconsolado, cuidei que a tia Augusta tinha partido porque já não gostava de mim.

E só, alguns anos mais tarde, já feito homenzinho, eu entendi os motivos por que, afinal, a minha tia Augusta partira para a América naquele fatídico dia: É que a tia Augusta não queria continuar a trabalhar e a viver mais como uma escrava, a andar de gatas a esfregar a casa duma ponta a outra, a ir lavar cestos e cestos de roupa à Ribeira, a padejar a urina da poça do gado, a tirar o esterco da cerca do porco, a acarretar à cabeça molhos de lenha e cestos de batatas, a rapar inhames e ordenhar as vacas, a semear milhos e apanhar batatas, a ceifar feitos e a rachar lenha e, pior do que isso, a fazer todos estes e muitos outros árduos trabalhos sem ganhar um tostão que fosse, com que pudesse, ao menos, comprar um par de sapatos.

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publicado por picodavigia2 às 15:21

GRUPO FOLCLÓRICO DE SÃO CAETANO VISITOU O VALE DO SOUSA

Quinta-feira, 26.09.13

O Grupo Folclórico da Casa do Povo de São Caetano realizou, recentemente, um périplo pelo Norte do País, assentando arraiais na Região do Vale do Sousa, mais concretamente, na freguesia de Meinedo, concelho de Lousada, como convidado do Rancho Folclórico das Lavradeiras do Vale do Sousa, de Romariz, para um encontro, agendado há um ano atrás, no âmbito de um intercâmbio cultural, estabelecido entre as duas colectividades.

Partindo do aeroporto da Horta, no pretérito dia 16 de agosto, o Grupo Folclórico da mais jovem freguesia do concelho da Madalena, constituído cerca de quarenta elementos, rumou a Lisboa, onde fez uma escala rápida, Após uma longa viagem de autocarro, entre a capital e a vila duriense de Lousada, o Rancho Folclórico de São Caetano foi recebido, calorosamente, pela maioria dos elementos do grupo anfitrião, apesar do adiantado da noite. Em Lousada, os representantes da “ilha montanha” foram confrontados com calorosa e inédita recepção, onde não faltaram cantares, rufar de tambores, toque de concertinas e fogo-de-artifício. Após momentos de cativante convívio, apesar do cansaço excessivo, o grupo foi alojado nas modernas e magníficas instalações do Complexo Desportivo de Lousada, localizada nos arrabaldes da vila, na freguesia de Cristelo.

O acolhimento, por terras do Vale do Sousa, do Grupo Folclórico de São Caetano, por parte do Rancho Folclórico das Lavradeiras do Vale do Sousa, quer no que concerne a alojamento e alimentação, quer relativamente a passeios, diversões e lazer, foi excepcional, tendo aquela instituição disponibilizado à comitiva picoense a companhia, permanente e contínua, de três jovens elementos do rancho, a fim, não só de lhes prestar as informações necessárias, mas também de os acompanhar e apoiar no que necessitassem. De salientar que a atenção dispensada e os cuidados tidos por parte daquele rancho duriense, a fim de que nada faltasse e todos se sentissem bem, foram excelentes. O acolhimento oferecido foi considerado, por todos, “perfeito e exemplar”.

Em contrapartida, poderá dizer-se, em abono de verdade, que o Grupo Folclórico de São Caetano do Pico, também teve um comportamento e atitudes modelares, deixando por toda a parte um rastro de respeito, consideração, estima e simpatia. Além disso, nos espectáculos em que participou, o grupo picoense não só trouxe, como também expeliu e esparramou, nas noites escaldantes durienses, o furor lávico da sua música, do seu bailar e das suas coreografias - estonteante perfume da história, da cultura, das tradições, dos costumes e dos cantares duma ilha, que tenta, cada vez mais, em se espelhar na grandiosidade do seu passado e de se ostentar nas vivências do seu presente.

O Grupo Folclórico da Casa do Povo de São Caetano do Pico actuou em três festivais. Primeiro, na própria freguesia de Meinedo, uma das 25 do concelho de Lousada, ombreando com ranchos folclóricos de renome nacional, como o Rancho Folclórico Tá-Mar da Nazaré, o Rancho Folclórico os Camponeses da Beira-Rio, da Murtosa-Aveiro e com o rancho anfitrião. Um espectáculo de grande qualidade, balizado num espaço histórico, numa das freguesias mais populosas do concelho de Lousada, com cerca quatro mil habitantes, quase equivalente ao concelho da Madalena, tendo como ex-libris a igreja românica de Santa Maria Maior, cuja fundação remonta ao século XIII. Sabe-se que nos primórdios do cristianismo na Península, Meinedo, então designada por “Magneto”, terá sido a primeira sede da Diocese do Porto.

A segunda participação do Grupo Folclórico de São Caetano, teve lugar na não menos histórica freguesia de Cárquere, concelho de Resende, junto ao Mosteiro que na Idade Média foi, depois de Santiago de Compostela, um dos maiores centros de peregrinação da Península Ibérica, construído por Egas Moniz e sobre cujo altar – ainda hoje ali existente – se terá verificado “a cura milagrosa” do menino que viria a ser o primeiro rei de Portugal – Afonso Henriques. Nesta actuação o Grupo Folclórico de São Caetano actuou, entre outros, juntamente com ranchos de Aveiro, Paranhos (Porto), Paços de Ferreira e o de Cárquere.

Finalmente, num terceiro espectáculo, o grupo de São Caetano actuou em plena Vila de Lousada, perante numeroso público, no largo do Senhor dos Aflitos, por coincidência, frente à estátua de um dos mais ilustres lousadenses - Dom António Augusto de Castro Meireles, 34º bispo de Angra (1924-28) e, depois, bispo do Porto.

Os restantes dias e os tempos livres foram ocupados com um diversificado e cativante programa, com uma agenda muito bem elaborada, incluindo passeios e visitas de grande interesse histórico, cultural e paisagístico, acompanhados de uma gastronomia de excelente qualidade e, nalguns aspectos, muito semelhante à picoense. Afinal “é mais aquilo que nos une do que o que nos separa”.

Entre as localidades visitadas, para além duma ida a Espanha, destaque para Penafiel, Lousada, Régua, Pinhão, Braga, Porto, incluindo uma visita às Caves do Vinho do Porto em Vila Nova de Gaia e uma outra, à Quinta da Aveleda, nos arredores de Penafiel

O Grupo Folclórico de São Caetano, a convite do Rancho Folclórico de Pinheiros, que há três anos visitara a ilha do Pico, ainda se deslocou à vila de Monção, a que pertence aquela freguesia raiana, onde pernoitou, participando num magnífico arraial, nas margens do rio Minho, sendo, então, surpreendido com a presença do grupo da Lousada que percorreu grandes distâncias para estar presente e acompanhar os seus amigos picoenses. Em Monção o grupo açoriano foi recebido pela edilidade, numa cerimónia em que não faltou um “Alvarim de Honra”.

Segundo um dos elementos do grupo “Foi nosso intento através das nas nossas actuações promover a nossa terra e a nossa cultura, o que acreditamos ter sido bem concretizado pela reacção do público, em geral.” e acrescentou “De referir ainda a forma saudável vivida entre os dois grupos, a amizade, o companheirismo, a alegria, o convívio que marcaram não só as jornadas, com também os serões prolongados num misto de cordas e concertina, a par de cantigas ao desafio, Viras e Chamarritas que engrandeceram a sensibilidade estética e artística de ambos os grupos.”

Na realidade esta visita consubstanciou-se num misto de dias e noites fantásticas, de cor, de sons, de movimento e alegria, onde o Grupo Folclórico de São Caetano espalhou toda a sua classe, dignidade, singeleza e performance, deixando aos presentes uma deslumbrante e transcendente imagem, não apenas da freguesia de São Caetano, mas também da ilha do Pico, transformando-se, assim e de que maneira, num magnífico embaixador da sua cultura, dos seus costumes, dos seus valores, dos seus potenciais turísticos e, como não podia deixar de ser, dos seus bailados e da sua música, numa palavra espalhando, por terras durienses e pelo norte de Portugal o verdadeiro e inconfundível “furor da lava picoense”.

 

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publicado por picodavigia2 às 15:18

CONSEQUÊNCIA

Quinta-feira, 26.09.13

“Fiquei magoado, não por me teres mentido, mas por não poder voltar a acreditar-te.”

Friedrich Nietzsche

 

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publicado por picodavigia2 às 12:42

A PARÓQUIA DE SÃO JOSÉ DA FAJÃ GRANDE

Quinta-feira, 26.09.13

A erecção da nova paróquia, da Fajã Grande das Flores, por separação da de Nossa Senhora do Remédios de Fajãzinha, foi feita por alvará do bispo de Angra, D. Frei Estêvão de Jesus Maria, por sinal o único bispo da diocese angrense natural dos Açores até à nomeação do bispo actual, D. António de Sousa Braga e está datado de 20 de Junho de 1861. Foi pois, nessa data, que foi instituída de facto a paróquia de São José de Fajã Grande, incluindo nela as povoações da Ponta e da Cuada. A actual igreja paroquial de São José da Fajã Grande nasceu de uma pequena ermida da mesma invocação, ermida essa, cuja construção foi iniciada em 1755, sendo benzida a 24 de Maio de 1757. O primeiro enterro na ermida teve lugar em Janeiro de 1758. Contavam os antigos, entre os quais o notável historiador florense, o padre Joaquim Inácio de Freitas, pároco da Fajãzinha desde 1942, que esta ermida comunicava por uma ponte com o solar dos capitães Freitas Henriques e que pertencera a um sargento-mor que viera para ali deportado. A actual igreja, construída no sítio da antiga ermida, foi iniciada em 1847, ficando concluída em 1849. O templo foi benzido a 1 de Agosto de 1850. Por legado de um emigrante fajãgrandense na América, de seu nome José Luís da Silveira, e dado que a igreja estava bastante arruinada, o templo recebeu, anos depois, grandes melhoramentos. O primeiro pároco desta paróquia foi o padre António José de Freitas, natural da própria Fajã Grande. Por sua vez o primeiro padre a prestar serviço religioso na antiga ermida, foi o padre Francisco de Freitas Henriques, natural da Fajãzinha. Tendo-o feito entre os anos de 1757 e 1762.

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publicado por picodavigia2 às 09:19

A ÁGUIA E A CORUJA

Quarta-feira, 25.09.13

Uma coruja encontrou uma águia e disse-lhe:

-Ó águia, se vires uns passarinhos muito lindos, num ninho, com uns biquinhos muito bem feitos, olha lá não os comas que são os meus filhos.

A águia prometeu que os não comia; foi voando e encontrou numa árvore um ninho de coruja, e comeu as corujinhas. Quando a coruja chegou e viu que lhe tinham comido os filhos, foi ter com águia, muito aflita.

- Ó águia, tu foste falsa, prometeste que não me comias os meus filhinhos e mataste-os todos.

Respondeu a águia:

- Eu encontrei umas corujas pequenas, num ninho, todas depenadas, sem bico e com os olhos tapados, e comi-as todas; e como tu me disseste que os teus filhos eram muito lindos e tinham o biquinho bem feito, entendi que esses não eram os teus.

- Pois eram esses mesmos – disse a coruja.

- Pois então queixa-te de ti – tornou-lhe a águia – que me enganaste com a tua cegueira.

 

Conto popular, extraído do antigo livro de leitura da 4ª classe.

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publicado por picodavigia2 às 20:20

DUAS LUAS

Quarta-feira, 25.09.13

(TEXTO DE ANTÓNIO TORRADO)

 

O senhor Túlio foi ao Brasil de avião. Ele que nunca tinha saído lá da sua aldeia, aventurar-se a uma viagem tamanha era de espantar. Mas o senhor Túlio tinha uma filha no Rio de Janeiro, filha essa que lhe dera uma neta, neta essa que ia a baptizar, baptizado esse a que o senhor Túlio nem por nada podia faltar.

Na grande cidade do Rio de Janeiro, tudo o espantou: o tamanho dos prédios, a largueza das avenidas, a extensão das praias, a bicheza de gente.

– É tudo maior do que na minha terra – dizia ele, constantemente. – Até a Lua daqui é mais grada do que a nossa.

1A filha indignava-se:

– Ó pai, não ande sempre de boca aberta que parece mal e, por favor, não diga que esta Lua é maior do que a lá da aldeia, porque a Lua é só uma.

O senhor Túlio engolia e calava-se, mas, à cautela, pôs-se a medir aos palmos, de longe, a Lua Cheia sobre o Pão de Açúcar. "Um palmo bem medido", memorizou ele.

Quando, com muita pena, teve de voltar para Portugal e regressou à aldeia, não se esqueceu do que matutara. Numa noite de Lua bem redonda, estendeu a palma da mão para o céu e mediu:

– Um palmo e nem mais um niquito.

Ficou-se a pensar e concluiu:

– Ai que tu engordaste, magana, enquanto eu andei lá por fora!

 

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publicado por picodavigia2 às 15:42

A MONTANHA COBRIU-SE DE NUVENS

Quarta-feira, 25.09.13

Álvaro impulsionado pelo assombro de uma estranha crença, levantou-se de rompante e assomou à janela, há muito aberta e por onde, filtrados por uma leve cortina de tule esbranquiçado, entravam refulgentes, os primeiros raios matinais. O espectáculo que se apresentava era deslumbrante, maravilhoso e soberbo: totalmente descoberta, a montanha ostentava-se na sua beleza pura, original e genuína. O Pico retratado ali, na grandiosidade da sua montanha, era assim, belo, imponente, altivo e dominador. Álvaro conhecia por demais todas as outras ilhas. O que nelas, banhado por uma verde maresia, era beleza, simplicidade e doçura, no Pico, embrenhado na imponência e altivez daquela montanha, era um silêncio escuro mas deslumbrante e agreste, uma braveza destemida e contumaz, uma imponência rude e descomunal, uma escaleira de lava basáltica a tentar unir a terra ao céu.

Álvaro retirou-se por uns momentos como que a espicaçar uma sonolência de que ainda se não havia libertado por completo. Mas não se conteve e voltou à janela, atraído pela sublimidade do espectáculo que acabara de presenciar. A montanha continuava, ali, à sua frente, escancarada e nua, agora já aureolada com o dourado da claridade nascente, cada vez mais deslumbrante, mais emotiva e mais atraente. Com o Sol lá ao fundo, a impor-lhe um cerco de transparência, a aureolar-lhe o negro basáltico da lava, parecia que lhe escorriam, pelas encostas laminadas, refluxos de uma luz acariciadora e aconchegante.

Ali ficou mais uns momentos a cuidar que, dentro de momentos havia de agarrar-se aquela montanha, embrenhar-se nela como se fosse um rolo de neve, de a galgar até ao cume. É verdade que a subida do Pico armazenava relatos contraditórios, mas todos eram unânimes: a escalada consubstanciava-se sempre numa inesquecível noite, bem lá no alto, entre pedregulhos e fumarolas, com a Lua a impor-se teimosamente nos céus e a iluminar uma estranha e metafórica paisagem, espelhada num mar prateado quase infinito a prolongar-se até ao horizonte. Lá no alto, quase a beijar o céu, o silêncio sufocava os murmúrios e o sibilar acutilante do vento agreste salpicava desejos imperceptíveis. Depois era o florescer da madrugada, a apagar o rumo das estrelas e agigantar ainda mais a infinidade do oceano, agora ensopado com as manchas luxuriantes das ilhas que, lá em baixo se erguiam ao redor, como se fossem pérolas de um colar: o Faial aqui tão perto, mais além a Terceira, São Jorge do outro lado e, lá ao fundo, a Graciosa.

Álvaro, finalmente, despertou por completo, mas, quando de novo regressou à janela, a montanha, estranha e inexplicavelmente, era um enorme chumaço de neveiro acinzentado A montanha havia-se coberto de um denso manto que obstruía sonhos e obliterava desejos.

Ainda não seria naquela manhã que havia de escalar aquele alcantil imponente, altivo e sublime que ali estava a sua frente, agora, emerso no mais denso e incompreensível véu de nebulosidade.

De mansinho, fechou a janela e voltou a deitar-se. Talvez amanhã estivesse melhor. No folheto turístico colocado em cima da mesa-de-cabeceira, pode ler: Pico, a segunda maior ilha dos Açores, com uma superfície de cerca 447 quilómetros quadrados, possui uma altíssima montanha, ao redor da qual proliferam campos carregados de vinha…

Pouco depois, voltou a adormecer, enquanto a montanha, lá ao longe, anulando desejos, se cobria com um véu de nuvens, cada vez mais denso e escuro.

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