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O SEGREDO DA PRINCESA

Domingo, 27.10.13

Era uma vez um rei que tinha uma filha, muito bonita e elegante mas cuja vida estava envolta num grande mistério. Passava os seus dias no palácio, na companhia de damas e pajens, mas à noite, a regressar ao palácio, recolhia-se, apressadamente, solitária, aos seus aposentos. Mais estranho e enigmático ainda, era o facto de que, todas as manhãs, os seus sapatos e roupas apareciam usados, como se tivesse estado a dançar a noite inteira. Ninguém conseguia perceber o que se passava.

Preocupado, o pai fez saber por todo o reino que se alguém descobrisse o mistério casaria com a princesa e herdar-lhe-ia o trono, após a sua morte. Mas aqueles que tentassem e, ao fim de três dias, não o conseguissem, seriam decapitados.

Apareceram príncipes de reinos vizinhos, apareceram jovens, filhos dos mais nobres dignitários da corte, apareceram ilustres varões do reino, jovens valorosos e destemidos, mas nenhum conseguiu descobrir o enigma, apesar de pernoitarem num quarto próximo daquele onde a princesa dormia, deixando a porta aberta, por isso, todos tiveram a mesma sorte, perdendo a vida da mesma forma.

Um rapazito que vivia no reino, perto do palácio, também resolveu tentar a sua sorte. No entanto, quando seguia, a caminho do palácio real, encontrou uma velhota, que lhe perguntou onde ia, ao que ele respondeu:

- Não sei onde vou, ou o que devo fazer, mas o que gostava de saber era onde a filha do rei vai durante a noite e, assim, talvez pudesse chegar um dia a desposá-la e a ser rei.

- Bem, - disse a velha - isso é uma tarefa muito difícil. Simplesmente, tens que ter cuidado e não beber do vinho que a princesa te dará, antes de te deitares. Depois finge que adormeces, mas mantém-te bem acordado.

De seguida deu-lhe uma capa e disse-lhe:

- Mal vistas esta capa, tornar-te-ás invisível, e poderás, então, seguir a princesa para onde ela quer que for.

Quando o rapaz ouviu estes conselhos, ficou ainda mais determinado a tentar a sua sorte e, por isso, foi ter com o rei, dizendo-lhe que estava disposto a desempenhar a tarefa de descobrir o segredo da princesa.

O rei aceitou e, ao anoitecer, o rapaz foi levado ao quarto da princesa. Quando se estava a deitar-se, ela entrou e, amavelmente, ofereceu-lhe um copo de vinho, mas o rapaz, habilmente, deitou-o fora sem que disso ela se apercebesse. Depois, deitou-se na cama e passado um pouco, começou, simuladamente, a ressonar alto, como se estivesse a dormir em sono profundo.

Quando a princesa percebeu que ele estava a dormir, riu-se, cuidando que o desgraçado havia de ter o destino de todos os outros. Assim, levantou-se, de imediato, abriu gavetas e caixas, tirou as suas melhores roupas, vestiu-se ao espelho e começou a saltitar como se estivesse ansiosa por começar a dançar.

Depois de pronta e arranjada, a princesa olhou para o rapaz que continuava a ressonar como se estivesse a dormir. De seguida bateu palmas e logo se abriu um buraco no chão, no qual a cama se afundou. O rapaz viu-a descer pelo buraco e pensando que não tinha tempo a perder, saltou da cama, vestiu a capa que a velhota lhe tinha dado, e saltou para o buraco, seguindo-a.

A meio das escadas, porém, descuidou-se e, com a preocupação de não perder a princesa de vista, pisou-lhe o vestido como pé. Como se voltasse e não visse ninguém, a princesa continuou a descer, até que chegou a uma encantadora clareira de árvores, cujas folhas eram de prata e brilhavam belissimamente. O rapaz partiu uma folha e guardou-a no bolso. Pouco depois, chegaram a outra clareira, onde todas as folhas das árvores eram de ouro e ainda a uma terceira, onde as folhas eram de diamantes. Em ambas o rapaz quebrou uma folha que guardou no bolso. Continuaram a andar até que chegaram a um grande lago, junto ao qual estava um pequeno barco com um príncipe, que parecia estar à espera da princesa. Esta entrou no barco e o rapaz voltou a segui-la entrando, também, para o bordo.

O príncipe começou a remar, mas o barco, praticamente, não andava:

- Não sei porquê, mas apesar de estar a remar com todas as minhas forças, parece que o barco, hoje, não anda tão rápido como habitualmente. O barco parece muito pesado – queixava-se o príncipe

- Deve ser do calor que está, - disse a princesa. - Eu também me sinto muito quente.

Embora lentamente, acabaram por chegar à margem oposta do lago, onde se erguia um belo castelo muito iluminado, de onde vinha música alegre e maviosa. Ao chegar a terra dirigiram-se para o castelo, dando-se início a um baile, em que a princesa e o príncipe foram os protagonistas.

Dançaram até de madrugada, deixando, a princesa, os sapatos tão gastos tão gastos que foi obrigada a abandonar o baile e ir-se embora. O príncipe conduziu a princesa e o rapaz, sempre invisível, até à outra margem do lago e regressaram ao palácio real. Quando subiam as escadas, o rapaz correu à frente e deitou-se sem que a princesa disso se apercebesse. Esta, ao entrar no quarto e, certificando-se de que o rapaz continuava a dormir, deitou-se e adormeceu tranquilamente.

De manhã, o rapaz não disse nada sobre o que tinha acontecido, decidindo proceder de forma idêntica mais duas noites. Tudo aconteceu da mesma forma: a princesa dançava sempre até não poder mais e depois voltava a casa. Na terceira noite o rapaz, cuidando que não voltaria ali, trouxe consigo um dos copos de ouro onde era servido o vinho, durante o baile.

No dia seguinte, decidiu contar o segredo da princesa, ao rei. Foi conduzido à presença do monarca e da princesa, levando as três folhas e o copo de ouro.

O rei perguntou-lhe:

- Onde é que dança a minha filha, durante toda a noite, até romper os sapatos?

O rapaz, sem demoras respondeu:

- Com um príncipe, num castelo subterrâneo, onde todas as noites se realizam grandes festas. – E, de seguida contou ao rei tudo o que tinha acontecido naquelas noites e, como prova, mostrou-lhe as três folhas e o copo de ouro que tinha trazido consigo.

A princesa, ao ver-se descoberta, percebeu que não mais poderia ocultar o seu segredo e, por isso, confessou ao pai toda a verdade.

Nem foi preciso que o pai lhe ordenasse. A princesa prostrou-se diante do rapaz e, admirada com a sua perspicácia, pediu perdão a ele e ao pai. O rapaz ergueu-a e, beijando-a, prometeu amá-la e fazê-la mais feliz mais do que nenhum príncipe, alguma vez, a faria. Passado algum tempo casaram, mas esta história não esclarece, como as outras, se, afinal, foram ou não foram felizes para sempre.

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publicado por picodavigia2 às 16:47

CASAMENTOS REALIZADOS NA PARÓQUIA DE SÃO JOSÉ DA FAJÃ GRANDE NO INÍCIO DO SÉCULO XX (ANOS DE 1903 a 1904)

Domingo, 27.10.13

No início do século XX, nos anos de 1903 e 1904, realizaram-se, na paróquia de São José da Fajã Grande os seguintes casamentos:

 

1903

A 12 de Fevereiro – António Luís de Freitas, de 34 anos de idade, filho de José Caetano de Freitas e de Mariana Luisa de Freitas, casou com Maria Leopoldina Luisa de Freitas, de 21anos, filha de Manuel José de Freitas e de Maria Leopoldina de Freitas.

A 23 de Abril – António Joaquim Morais, de 28 anos, natural da Matriz de Vila do Porto, ilha de Santa Maria, filho de José António Morais de Ana Jacinta de Braga, casou com Maria Luisa de Freitas Morais, de 22 anos, filha de Manuel de Freitas da Silveira e de Isabel Luisa da Silveira. 

A 30 de Abril – Manuel Joaquim Morais, de 32 anos de idade, natural da Matriz de Vila do Porto, ilha de Santa Maria, filho de José António de Morais e de Ana Jacinta de Braga, casou com Maria Pureza Ramos, de 18 anos, filha de João Pureza Ramos e de Maria Jacinta pureza do Coração de Jesus.

A 21 de Junho – Mateus Lourenço de Fraga, de 33 anos, filho natural de José Joaquim de Fraga e de Maria Emília da Glória, casou com Isabel de Freitas Branco de Fraga, de 16 anos de idade, filha de Francisco da Rosa, natural da freguesia da Candelária, ilha do Pico e de Isabel de Freitas Branco, natural da Fajã Grande.

A 8 de Outubro – João Lourenço da Silveira Flores, de 27 anos, sargento do regimento 18, filho natural de Joaquina de Jesus Carneiro, casou com Margarida de Freitas Eduardo Flores, de 28 anos, filha de José Caetano de Freitas e de Mariana Luisa de Freitas.

1904:

A 11 de Abril – Francisco Joaquim Fagundes, de 35 anos, filho de António Joaquim Fagundes e de Policena de Jesus, casou com Maria Cardoso Fagundes, de 22 anos, filha de Francisco Inácio Cardoso e de Maria Lourenço Fagundes.

A 14 de Abril – Guilherme Vitorino da Silveira, de 28 anos, filho de José António Lourenço da Silveira e de Maria Claudina da Silveira, casou com Maria José Fagundes da Silveira, de 17 anos, filha de José Fagundes da Silveira e de Maria Fagundes da Conceição.

A 29 de Abril – José de Freitas Dias, de 48 anos, filho de José de Freitas Dias e de Eugénia Dias, casou com Maria Tomásia da Silva, de 17 anos, filha de Manuel Tomás da Silva, natural do Topo, ilha de São Jorge e de Maria Isabel do Coração de Jesus.

A 5 de Maio – José Luís Furtado, de 36 anos, filho de Manuel Furtado e de Maria de São João, casou com Virgínia Luisa Furtado, de 37 anos, filha de Manuel Inácio de Freitas e de Isabel Perpétua.

A 24 de Outubro – António José Belo, de 20 anos, natural da freguesia da Lomba, filho de António José Belo e Maria da Trindade Vieira, casou com Maria Inácia de Freitas, de 18 anos, filha natural de Maria José da Glória.

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publicado por picodavigia2 às 15:53

O DESCANSADOURO DO VALE DA VACA OU SIMPLESMENTE O DESCANSADOURO

Domingo, 27.10.13

O Descansadouro do Vale da Vaca era o mais emblemático descansadouro da Fajã Grande, pois era o único da freguesia que era conhecido simplesmente por “Descansadouro”, dando, também, nome ao lugar onde se situava. Todos os outros descansadouros recebiam o nome do lugar em que se localizavam, neste caso, era o descansadouro, situado no cimo do Vale da Vaca que dava nome ao lugar que realmente se chamava “lugar do Descansadouro”. Apenas num outro caso isto acontecia: era o descansadouro que se situava a meio da rocha, junto à Furna da Caixa, que também era conhecido simplesmente por “Descansadouro” , ou “Descansadouro da Rocha”.

O descansadouro do lugar do Descansadouro ficava situado no antigo caminho entre a Volta do Delgado e entrada para a Ladeira do Covão, precisamente no lugar do Descansadouro. Este lugar confrontava a Norte com o Vale da Vaca, a Sul com o Delgado, a Este com o Outeiro Grande e a Oeste com o Pico e o Caminho da Missa. Era um pequeno local, com duas zonas agrícolas distintas: uma zona de cerrados e terras muito férteis que produziam, milho, trevo e erva da casta e beneficiavam das enxurradas e lamas do caminho que eram encaminhadas para os campos através de bueiros localizados na parte baixa das suas paredes e uma outra, situada nos contrafortes do Outeiro, com terrenos mais pequenos em forma de belgas, menos férteis e mais propícios ao cultivo da batata-doce ou de milho para o gado.

O descansadouro propriamente dito situava-se num pequeno largo, junto a uns degraus que davam acesso a algumas das belgas, os quais, simultaneamente, serviam de bancada para o descanso. Os molhos e cestos eram colocados nas paredes das belgas circundantes a esses degraus, todas do lado Este, ou seja do lado do Outeiro Grande. O que mais identificava este descansadouro e o distinguia de todos os outros, era que, sendo o último antes da Assomada, era muito utilizado. Paravam, sentavam-se e descansam ali muitos homens. Embora não tivesse água, possuía boas bancadas e servia quem vinha de todos os caminhos do Sul, excepto do Caminho da Missa, ou seja, quem carregava todos os produtos oriundos das terras do Delgado aos Lavadouros e da Cuada ao Vale Fundo. Depois do Alagoeiro era incontestavelmente, o maior e o mais utilizado descansadouro da Fajã.

Lamentavelmente este descansadouro desapareceu por completo com a construção da Estrada Porto-Ribeira Grande, cujo traçado passou precisamente no local onde se situava o mais emblemático, o mais representativo e o mais genuíno descansadouro da Fajã.

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publicado por picodavigia2 às 15:51

MÁQUINAS DE BATATA BRANCA

Domingo, 27.10.13

A produção de leite e a sua venda era a principal actividade económica da Fajã Grande e dela dependia a sobrevivência da maioria das famílias. Havia produtos necessários ao quotidiano de toda e qualquer família que apenas se podiam adquirir comprando-os nas lojas. Para tal era absolutamente necessário dinheiro e a única forma de o obter era vender algum leite, ou ao Martins e Rebelo ou à Cooperativa. Ora isto significava uma relação muito íntima com os dois postos de desnatação, então existentes na Fajã: a máquina de baixo e a máquina de cima. Todos os dias, de manhã e à tardinha alguém teria que ir levar o leite a uma ou outra das máquinas, trazendo-o de regresso, mas já desnatado, para consumo de porcos e bezerros. Esta azáfama quotidiana dos adultos reflectia-se, e de que maneira, nas brincadeiras das crianças que necessariamente construíam as suas máquinas para desnatar o seu leite.

Para a construção de uma máquina de desnatar o leite bastavam apenas três tubos de cana e duas batatas brancas. Um dos tubos de cana tinha que ser grosso e alto. Os outros dois deveriam ser pequeninos e muito delgadinhos, sendo um deles necessariamente mais delgado do que o outro. Uma das batatas era cortada a meio e na metade seleccionada que fazia de base da máquina era espetado o tubo de cana. À outra batata que devia ser muito redondinha era lhe retirada a parte superior e o conteúdo interior de modo a que se transformasse numa espécie de tigela. Esta seria o caldeirão da máquina, o qual seria encravado na parte do tubo oposta à base já construída. No fundo do caldeirão espetavam-se os dois tubinhos de cana, de modo que a extremidade de cada um entrasse na parte côncava da batata: o mais grosso, mais alto, para o leite desnatado e o mais delgadinho, logo a baixo para o fiozinho da nata. Depois era só deitar o leite no caldeirão e vê-lo sair pelos dois tubinhos. E o leite? Como o conseguíamos? Assim como Jesus, nas bodas de Caná, transformou a água em vinho, nós, com a nossa imaginação e poder criativo, também transformávamos a água em leite. Então era um regalo ficar ali a ver o caldeirão da máquina cheinho de leite a sair já desnatado por um dos tubos e a nata pelo outro.

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OS NOMES DOS NOSSOS AVÔS E BISAVÔS

Domingo, 27.10.13

Já aqui foi referido o livro da autoria de Francisco António Nunes Pimentel Gomes, “Casais das Flores e do Corvo”. Trata-se duma interessante e útil compilação dos casamentos realizados nas paróquias das ilhas do grupo ocidental açoriano, entre os anos de 1675 e 1911. No que à paróquia de São José da Fajã Grande diz respeito, este livro refere os matrimónios realizados a partir da data da criação da paróquia até à proclamação da república, ou seja, entre os anos de 1861 e 1911, sendo o seu número de cerca de trezentos casamentos. Os nubentes cujos nomes que figuram nestes registos foram os nossos avós bisavós. Já aqui registei os nomes dos nubentes do sexo feminino, fazendo agora o mesmo relativamente aos do sexo masculino. Ficaremos assim com a generalidade dos nomes então usados, de um e doutro sexo, referindo-se neste caso os nomes próprios dos pais e avós das nossas mães e dos nossos pais. São os seguintes esses nones sendo que os números à frente de cada nome indicam o número de indivíduos com o mesmo nome:

José (26), João (24), António (21), Manuel (21), Francisco (20), José António (14), António José (12), José Inácio (8), Manuel Inácio (8), José Caetano (7), José Joaquim (7), Laureano (7); Manuel José (7), Manuel Francisco (6), João António (5), Manuel Caetano (5), Manuel Joaquim (5), Mateus (5), António Inácio (4), António Joaquim (4), António Caetano (3), António Francisco (3);Francisco José (3); Inácio José (3); João Joaquim (3), José Francisco (3), José Jacinto (3), José Maria (3), Manuel Luís (3), Manuel Maria (3), António Bernardo (2), António Jacinto (2), António Luís (2), Bartolomeu (2). Francisco Caetano (2), Inocêncio José (2), João Bernardo (2), João Caetano (2), João Francisco (2), João Jacinto (2), João José (2), Joaquim (2), José Lucindo (2), Luciano (2), Raulino Inácio (2), Vitorino José (2), Abraão (1) Anastásio (1), António Augusto (1), António Maria (1), António Vitorino (1) Bernardo (1), Caetano José (1),Caetano Inácio (1), Clarimundo (1) Eduardo (1) Estulano (1), Fernando (1), Francisco Inácio (1), Francisco Joaquim (1), Frederico Augusto (1), Frederico José (1), Geraldo Filipe (1), Geraldo Lucindo (1), Guilherme Vitorino (1), Henrique (1), Inácio Gabriel (1), Inácio (1), Jacinto António (1) Jacinto Manuel (1), João Bernardo (1), João Cândido (1), João Lucindo (1), João Luís (1), João Pedro (1), José Cristiano (1), José Laureano (1), José Lisandro (1), Laurindo (1), Leónis (1), Lisandro (1), Luís (1), Manuel António (1)Un Mariano (1) Mariano Luís (1)Mateus Luís (1), Narciso (1), Pedro (1), Raulino Augusto (1) e Raulino José (1).

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publicado por picodavigia2 às 09:16

A FACE DO SENHOR

Domingo, 27.10.13

O Caixeiro chegou a casa exausto, esfomeado e, sobretudo, consumido, rabugento e furioso, como nunca. Enquanto fora apanhar uns incensos à Horta das Abóboras, a maldita da Lavrada, à cordada na belga do Batel, havia arrancado a estaca, saltado a parede, enfiando-se pela ribeira abaixo até aos quintos dos infernos. Foi o cabo dos trabalhos para a apanhar, amarrar e trazê-la de novo para o Batel. Parecia que tinha o diabo no corpo! Além disso, a maldita entrou numa terra do José Pureza, desfazendo-lhe uma boa parte do milho e da batata-doce. Parecia que estava doida, aquele estafermo!

Entrou, pois, pela porta dentro, a bradar, a praguejar, a blasfemar e a resmungar consigo mesmo e com quem o quisesse ouvir. “Alma do diabo” para baixo, “raios-te-partam” para cima, “sanababicha” para um lado, “mas o diabo não te comesse viva” para o outro, enfim um interminável rol de impropérios e insultos que nunca mais acabava.  

A Rosária, a tia com quem vivia desde miúdo, atarefada nas lides domésticas e afeita a tamanha impertinência e a tão habitual desrespeito, não tugiu nem mugiu e o sobrinho, pouco depois calou-se, emudecendo por completo. Mudos sentaram-se à mesa para a ceia, já lusco-fusco. A Rosária pôs-lhe na frente a tigela do leite e atirou-lhe para cima da mesa um quarto de bolo, acabadinho de cozer no tijolo, ainda a fumegar. Mas no ar pairava um cheiro a queimado, a que o Caixeiro não se alheou, pese embora a face do bolo voltada para cima estivesse perfeitamente cozida. Nem muito clara, nem muito escura.

Mas o Caixeiro desconfiou do embuste e, antes de migar o bolo na tigela do leite, voltou-lhe a face oculta para cima. Horror dos horrores! O Bolo estava negro como a ferrugem! Preto que nem carvão! O bolo, na realidade, estava totalmente queimado.

O Caixeiro, mais furioso do que quando entrara em casa, não tanto pelo excesso de cozedura do bolo mas sobretudo pela atitude simuladora da tia, levantou-se de rompante, gritou, berrou, praguejou e, pegando no bolo, atirou-o com tanta força e tamanho desespero pela porta fora que o dito cujo se foi estampar na parede da casa que ficava em frente, do outro lado da rua, onde morava o Cabral, pois nessa altura o Caixeiro e a tia Rosária moravam na Assomada, num casa muito velha, que mais tarde foi palheiro do Trancão.

A Rosária aflita e de mãos postas, vendo o seu trabalho, cujo produto final ela considerava quase sagrado, tratado tão vil e covardemente, exasperou o sobrinho, gritando:

- Pedaço de malcriado! Atiraste a “Face do Senhor” às empenas de Cabral.

E não lhe cozeu mais bolo, naquele dia, nem nos seguintes.

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publicado por picodavigia2 às 08:57

O ANTÓNIO

Domingo, 27.10.13

Altaneiro nos seus desejos, insofismável nas suas aspirações, audacioso nas suas atitudes e galhofeiro nas suas palavras, o António entrava-me pela sala dentro, conversava e participava nas aulas com um invejável à vontade, com uma matreira sagacidade e com um aleatório discernimento. Folgazão, galhofeiro e hiperactivo, interrompia, frequentemente, a aula, umas vezes, com a perspicácia e a dignidade de quem queria aprender ou esclarecer uma dúvida, outras, porém, com a subtileza e a argúcia de quem pretendia, apenas e, tão-somente, interromper e boicotar, por uns minutos, uma docência que lhe havia de acarretar mais trabalhos, obrigar a mais estudos, enfim, a reduzir-lhe o tempo de lazer e ociosidade e a cercear-lhe folguedos, flostrias e brincadeiras. Num e noutro caso, porém, interrompia-me com perspicácia, descrição, delicadeza e até com alguma jocosidade, pelo que o ouvia sempre com respeito e estima, respondendo-lhe de acordo com o tipo e acuidade da questão formulada. Ele ouvia-me atentamente e, se a questão fosse relacionada com o tema da aula, orgulhava-se e ufanava-se de ter contribuído para esclarecer, não tanto a si próprio mas, sobretudo os outros que, na opinião dele, “andavam a dormir”. Se, por outro lado, a pergunta era de galhofa ou de alheamento do tema tratado, logo pedia desculpa e prometia emendar-se. Muitas vezes, porém, no meio dessas interrupções, falava de si próprio, dos seus anseios e preocupações, das suas brincadeiras e consumições, das suas travessuras e delineações. Falava sobretudo e frequentemente do seu sonho, do seu grande sonho: adorava a velocidade e, por isso, um dia havia de ser piloto de aviões. Eu bem o aconselhava que era uma profissão difícil de se conseguir, que só com muito esforço, muito estudo, muito trabalho, muita seriedade. Que sim senhor! Que eu havia de ver um dia

E no fim do ano, mesmo sem estudar muito, as notas do António foram excelentes. Logo que me encontrou, com a pauta recheada de quatros e cincos, aproximou-se e segredou-me:

- Está a ver, professor?! Está a ver como eu vou conseguir! Vou ser piloto de aviões. Ai vou, vou!

Orgulhei-me e encorajei-o.

O António terminou o sexto ano, saiu do Ciclo e matriculou-se no Liceu. Nunca mais nos cruzámos, mas, como quase todos os que tinham lidado de perto com ele, nunca o esqueci, porque a sua presença nas minhas aulas durante dois anos, fora contagiante, geradora duma amizade sincera, promotora de um convívio íntegro e porque os seus sonhos eram delirantes e o seu empenhamento na vida incondicional

Passaram 4 anos. Deparei que um canto da penúltima página do “Progresso de Paredes” registava esta trágica notícia: “Jovem de dezasseis anos perde a vida em Duas Igrejas, ao embater violentamente contra um poste de electricidade, com a mota em que seguia. Teve morte instantânea.”

Era o António!...

 

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publicado por picodavigia2 às 00:51

BALÃO

Domingo, 27.10.13

o balão

baloiça

e    com o vento

até retoiça

 

mas não entende

como eu

o estranho escarcéu

da voz do silêncio.

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publicado por picodavigia2 às 00:15

NATÁLIA CORREIA

Sábado, 26.10.13

Natália Correia, uma das maiores escritoras e poetas dos Açores, nasceu a 13 de Setembro de 1923 em Fajã de Baixo, concelho de Ponta Delgada, Ilha de São Miguel, e morreu em Lisboa na madrugada de 16 de Março de 1993. Nascida no seio de uma família da pequena-média burguesia, permaneceu até aos onze anos na ilha, aí se deixando impregnar de vivências e imagens que viriam a constituir um dos mais sólidos e recorrentes motivos de toda a sua produção artístico-literária. Depois, acompanhada da mãe e da irmã, partiu para a capital, onde se radicou e viria a destacar-se como uma das mais influentes figuras intelectuais da segunda metade do século.

É autora de uma obra extensa e multifacetada, que integra a poesia, a prosa de ficção, o teatro, o ensaio, a diarística, a tradução e a organização de antologias. Colaborou assiduamente na imprensa, impôs-se na televisão, realizou numerosas conferências e está traduzida em várias línguas. Tomou posições de grande coragem, quer antes, quer depois do 25 de Abril e foi deputada à Assembleia da República.

Dotada de um espírito desassombrado e de um forte sentido da convivialidade, desde cedo, a escritora assumiu-se como herdeira espiritual de um Ocidente que via assolado por graves dissensões — um Ocidente que reduzira a moderna emancipação do homem ao fanatismo do progresso. Senhora de uma vasta cultura, deveu-a essencialmente ao convívio com intelectuais e à sua incansável actividade de leitora, tendo em sua casa uma das melhores bibliotecas de Lisboa.

Aos 20 anos era jornalista no Rádio Clube Português. Foi amiga de António Sérgio, frequentadora do Chiado e das livrarias onde se reuniam os escritores e os políticos. Ensaísta, cronista, teatróloga, romancista é, no entanto, na poesia que Natália Correia se revela completamente, nela projectando erotismo, ânsia libertária, desafio iconoclástico, sentido do fantástico, tudo isto com alguns ecos românticos e acentuadas marcas surrealistas. Entre a sua variada e diversíssima sobressaem: Poemas, Dimensão Encontrada, Passaporte, A Pécora, O Dilúvio e A Pomba, Erros Meus, Má Fortuna Amor Ardente, Sonetos Românticos, Comunicação, Cântico do País Emerso, O Vinho e a Lira, Mátria, A Mosca Iluminada, O Anjo do Ocidente à Entrada do Ferro, Epístola aos Iamitas, etc, etc

 

Dados retirados do CCA – Cultura Açores

 

 

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publicado por picodavigia2 às 21:57

O CAMINHO DE BAIXO

Sábado, 26.10.13

O Caminho de Baixo era uma das ruas da Fajã, a que ligava a Fontinha à Rua Direita. Era a rua mais curta, mais estreita e a que tinha menos população, dado que moravam nela apenas doze pessoas, constituindo quatro agregados familiares: o Caixeiro, o José Munes, o Manuel Dawling e a Glória Fagundes. O Caminho de Baixo era também a única via existente na freguesia que recebia o nome de “Caminho” e, no entanto, não possuía todos os parâmetros pelos quais se definia um caminho. O Caminho de Baixo era tão apertado que não tinha a largura suficiente para que nele passasse uma junta de bois e, por isso, era indevidamente designado por “caminho”, quando o devia ser por “canada”. A ausência deste critério, na teoria, impedi-lo-ia, também, de ser designado por rua, passando, no entanto, sempre a designar-se, simplesmente, por “Caminho de Baixo”, privilégio que lhe advinha talvez por ser calcetado. Na realidade uma boa parte desta via de comunicação, apesar de ser calcetada, com piso igual ao das outras ruas e ao dos caminhos, era realmente muito estreita. Desde a casa do Caixeiro, logo no seu início, até à casa do Manuel Dawling era uma autêntica canada. A parte final era já bem mais larga, embora poucos carros ou “corsões” por ali passassem.

O Caminho de Baixo começava na Fontinha, à qual se ligava por três ou quatro toscos degraus, situados atrás da cozinha do Caixeiro, precisamente onde ficava o “célebre rego” da Rosária Sapateira. Depois seguia, rectilíneo, mas muito estreito, até ao termo do pátio do José Nunes. Aí havia uma curva e depois seguia paralelo a umas relvas que serviam de “estendal de corar roupa”. Junto à casa do Dawling alargava-se e tomava a forma de caminho, passava paralelo à Casa do Espírito Santo de Cima e vinha terminar no largo do Chafariz, já na rua Direita. Era pois uma alternativa ao circular pela Fontinha e pela Praça, com a vantagem de encurtar caminho e tornar o percurso mais rápido. Além disso muitas mulheres preferiam circular por ali, uma vez que evitavam ter que desfilar pela Praça, onde havia sempre homens predispostos a mirá-las de cima abaixo, a fazer comentários pouco agradáveis ou até a mandar piropos.

O Caminho de Baixo houve jus ao seu nome por se situar abaixo de uma parte da Fontinha e a sua importância advinha-lhe não só de o projectar na rua Direita, mas também de, no seu termo, confinar com o pátio e entrada da Casa de Espírito Santo de Cima.

 Para além de curto e estreito o Caminho de Baixo disponibilizava aos seus utentes apenas uma saída, através de um atalho, junto à casa do José Nunes, o qual encurtava caminho para a casa do João Bizarro, para a do Ângelo do Tesoureiro e para a da minha avó.

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publicado por picodavigia2 às 20:50

NAUFRAGAR NA RAMADA

Sábado, 26.10.13

O José Pereira era um exímio, dinâmico e competente pescador. Talvez mesmo o melhor pescador da Fajã Grande, de todos os tempos. Começou muito novo nas lides do mar, iniciando a faina marítima num pequeno e frágil batel. No entanto, com o tempo, o negócio da apanha e venda de peixe foi vigorando, fortalecendo e crescendo, até porque a concorrência, na freguesia, era quase nula. Muniu-se de lanchas maiores e com motores mais potentes, modernizou os apetrechos de pesca e de navegação e adquiriu, até partir para o Canadá, o estatuto de grande e excelente pescador.

Para além duma desmesurada eficiência na arte da pesca e duma inquestionável competência no desempenho da actividade marítima, uma outra qualidade enriquecia e dignificava o currículo piscatório do Pereira - a segurança no mar. Nunca teve um acidente, nunca virou a lancha, nunca bateu com ela em laredos ou baixios, agindo quotidianamente com uma destreza invejável e com uma segurança extraordinária. Um modelo para todos os que na Fajã, eventualmente, quisessem dedicar-se à faina marítima.

Mas as desgraças acontecem a todos e o José Pereira, também, havia, uma vez, uma única vez, de denegrir e ensombrar o seu distinto e respeitável percurso marítimo.

Certo dia ao regressar com a lancha bem carregadinha de peixe, com o mar muito manso e o tempo muito calmo, entrou no Calhau da Barra, atravessou o Boqueirão e encostou a embarcação a uma banqueta que existia no varadouro do Porto Velho e que servia para os pescadores se apoiarem e saltarem para terra, sem se molharem ou sequer apanharem uns respingos de água salgada, antes de vararem as embarcações, para as arrumarem nas ramadas, depois de retirar, escolher e dividir o peixe. O mar não mexia e, por isso, o Pereira saltou para terra muito descontraído e a pensar no peixe que havia engodado e perdido. Só que ao fazê-lo, o cuidado foi tão pouco e a atenção tão descuidada que pôs o pé em falso. A lancha deu um grande solavanco e virou de quilha para o ar, enquanto o Pereira caía ao mar, juntamente com o peixe, perdendo-se todo este por completo.

A notícia correu célere pela freguesia. Um escândalo para uns, uma pena para outros e um espanto para todos! Como é que um homem tão experiente nas lides marítimas foi naufragar, mesmo ali, no porto, com o tempo tão bom e o mar tão manso? Não corria uma aragem e o mar parecia um espelho… Mas… havia de ter paciência. No melhor pano cai a nódoa.

Passado algum tempo o António Machado decidiu tirar a carta de mestre. Quem passava as cédulas marítimas e as cartas de mestre, na Fajã, era o senhor Arnaldo que, conjuntamente com as funções de faroleiro exercia também as de cabo do mar.

Dirigiu-se pois o Machado ao senhor Arnaldo a pedir que lhe passasse a carta. Resposta pronta do “Senhor de Matosinhos”:

- Passar-te a carta!? Nem pensar. Se o José Pereira naufragou no porto, tu naufragas mesmo na ramada.

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publicado por picodavigia2 às 20:38

PALAVRAS,EXPRESSÕES E DITOS UTILIZADOS NA FAJÃ GRANDE (IV)

Sábado, 26.10.13

Amanha-te – Arranja-te como puderes.

Amassaria – Móvel da cozinha sobre o qual se amassava e tendia o pão.

Angrim – Ganga.

Apanhar frio – Constipar-se.

Arreganhar a venta – Fazer pouco, rir-se de alguém.

Badameco – Pessoa sem importância.

Bargas – Curcas, ceroulas.

Bexogas – Borbulhas na cara ou no corpo.

Botar – Pôr, colocar.

Cagão da Visita – Criança medrosa

Caldeação – Mistura.

Chove como Deus a dá – Chove muito

Coberta – Manta, cobertor.

Consumição – Grande preocupação.

Cortar-lhe a brocha – Expressão de gozo e de um animal de outra pessoa que é fraco.

De mãos a abanar – Preguiçar, andar sem fazer nada.

Derrama – Peditório feito na freguesia em benefício da igreja ou de algum projecto com ela relacionado.

Engadanhado – Desajeitado, pouco hábil para o desempenho de tarefas.

Enrilhado – Cheio de frio.

Espadas – Costas.

Espinha – Coluna vertebral.

Estar consumido – Estar muito preocupado.

Estrape – Fita de couro que prende a campainha ao pescoço da vaca.

Ficar xingado – Ficar sem meios ou sem possibilidades de resolver um problema grave.

Figo – Banana

Fino – Esperto.

Juntas – Articulações dos joelhos ou outras.

Laias – Fios de lã.

Lenço de calafate – Lenço colocado na cabeça e amarrado atrás, sobre o pescoço.

Louvado e louvedo o que a velha fez com o dedo – Admiração.

Malhões – Pedras encravadas no solo para dividir uma propriedade agrícola pertencente a donos diferentes.

Massa de ovos – Pão doce, com açúcar e ovos.

Morganho – Rato bebé.

Murrinha – Preguiça.

Não ver um palmo à frente do nariz – Não ver nada, ou ter dificuldade em ver.

Nariz empinado – Pessoa vaidosa ou julgada importante.

Pulo – Susto.

Sapato de queda alta – Sapato de salto alto.

Trilhar – Preparar os campos para a sementeiras com os próprios animais amarrados a uma estaca, alimentando-se de forrageira (trevo ou erva-da-casta).

Vou ir – Eu vou.

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publicado por picodavigia2 às 16:32

CLÁSSICO

Sábado, 26.10.13

MENU 13 – “CLÁSSICO”

 

ENTRADA

Salada Mista:

 Alface, pimento vermelho e pimento verde, cebola, feijão-verde e pepino,

com nozes e passas, temperada com azeite e borrifada com doce de uva

 

PRATO

Lasanha de carne e legumes com creme de queijo e

Rodelas de pepino grelhadas.

 

SOBREMESA

Doce de pêssego com bolacha e creme

 

Preparação da Entrada – Preparar todos os ingredientes e lavá-los. De seguida picá-los miudinhos, misturá-los e juntar as nozes e as passas. Temperar com azeite e barrar com doce de uva.

Preparação do Prato – Cozer legumes diversos (cenoura, feijão verde, repolho, brócolos, etc) finamente picados e escorrer bem a água. Refogar uma cebola picada e pedacinhos de pimento verde, vermelho e amarelo. Juntar os legumes. Picar sobras de carne de porco, retirando-lhe a gordura. Misturar. Cozer três folhas de massa para lasanha e forrar o fundo duma pequena travessa com ela. Barrar com creme de queijo e rechear com o preparado de legumes e carne. Colocar nova folha de massa e rechear de novo, colocando por cima a terceira folha. Grelhar rodelas de pepino, coloca-las sobre a massa da lasanha, barrando-as com um pouco de creme de queijo.

Sobremesa – Levar ao lume um pouco de calda de pêssego. Juntar a mesma medida de água. Misturar uma colher de açúcar com um pudim Mandarim e juntar também. Mexer até engrossar. Esmagar um pêssego de lata em pedaços pequenos e junte ao preparado que está ao lume. Deixar engrossar, em lume brando e mexendo sempre, até obter um aspecto vidrado. Retirar do lume, deitar para uma taça e deixar arrefecer. Bater o creme do queijo co um pouco de açúcar e uma colher de vinho do porto, até obter uma espécie de chantilly e desfazer seis bolachas maria. Cobrir o preparado anterior com uma camada de bolacha já desfeitas e de seguida com o chantilly. Pode-se decorar ou com a bolacha desfeita ou com canela. Servir frio.

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publicado por picodavigia2 às 14:56

PAISAGEM – FAJÃ GRANDE DAS FLORES

Sábado, 26.10.13

(UM POEMA DE PEDRO DA SILVEIRA)

 

Passam navios, mas vão-se embora.

Na loja deserta o dono parece sonhar.

Sentada na rua, uma criança chora.

E chora também na praia a voz do mar.

 

Voga na baía um destroço perdido

Com uma aguarela pousada, navegando à sorte.

- Pelas ruas vai um alarido,

Que o vigia avistou uma baleia a norte.

 

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publicado por picodavigia2 às 13:47

OS NOMES DAS NOSSAS AVÓS E BISAVÓS

Sábado, 26.10.13

Da autoria de Francisco António Nunes Pimentel Gomes, o livro “Casais das Flores e do Corvo” publicado em 2006 e já aqui referido, revela os extractos dos assentos de casamento realizados nas doze paróquias daquelas duas ilhas, entre os anos de 1675 e 1911. No que à paróquia de São José da Fajã Grande diz respeito, os extractos referenciados no livro mencionam apenas os matrimónios realizados a partir da data da criação da paróquia, ou seja a partir de 1861 pelo que enumeram apenas os cerca de trezentos casamentos realizados entre os anos de 1861 e 1911, na paróquia de São José da Fajã Grande. Sendo assim os nubentes que figuram nestes registos foram os avós e os bisavós da geração nada e criada, na Fajã Grande ou a ela ligada, nas décadas de quarenta, cinquenta e sessenta. Interessante pois, é verificar quais os nomes das  nubentes, ficando-se assim com a generalidade dos nomes femininos então usados, uma vez que a lista de casamentos celebrados entre 1861 e 1910 abrange um total de 121 nomes. São os seguintes esses nones sendo que os números à frente de cada nome indicam a quantidade de noivas, que usavam esse mesmo apelido:

Maria (30), Maria José (23), Ana (17), Maria de Jesus (14), Maria Luísa (12), Maria do Céu (11). Maria da Conceição (10), Ana Luísa (8), Maria da Glória (7), Maria Inácia (7), Mariana (7), Maria Isabel (6), Ana de Jesus (5), Luísa (5), Maria Emília (5), Maria Leopoldina (5), Mariana de Jesus (5), Policena Luísa (5), Maria Lucinda (5), Ana Margarida (4), Ana Rosa (4), Maria Margarida (4), Ana Emília (3), Ana Isabel (3), Filomena (3), Isabel Luísa (3), Leopoldina (3), Maria Amélia (3), Maria Claudina (3), Maria da Trindade (3), Maria Joaquina (3), Maria Rosa (3), Maria Tomásia (3), Mariana Joaquina (3), Mariana Luísa (3), Ana Inácia (2), Ana José (2), Ana Tomásia (2), Deolinda Luísa (2), Filomena José (2), Filomena Luísa (2), Floripes Joaquina (2), Isabel (2), Isabel da Conceição (2), Isabel de Jesus (2), Isabel Tomásia (2), Joaquina Emília (2), Josefina Luísa (2), Luciana Tomásia (2), Maria Catarina (2), Maria dos Santos (2), Maria Júlia (2), Maria Laureana (2), Mariana Isabel (2), Mariana Margarida (2), Virgínia Luísa (2), Ana Bernarda (1), Ana Clara (1), Ana da Conceição (1), Ana de Jesus Maria (1), Ana Joaquina (1), Ana Júlia (1), Ana Laureana (1), Catarina Joaquina (1), Catarina Margarida (1), Clara Emília (1), Conceição Filipe (1), Emília José (1), Ermelinda (1), Filomena Dionísio (1), Filomena do Coração de Jesus (1), Floripes Adelaide (1), Floripes de Jesus (1), Floripes Inácia (1), Iria (1), Isabel da Glória (1), Isabel Inácia (1), Isabel Laureano (1), Isabel Leopoldina (1), Isabel Perpétua (1), Joaquina (1), Joaquina Augusta (1), Joaquina de Jesus (1), Laureana Margarida (1), Leopoldina da Conceição (1), Leopoldina Laureano (1), Luciana Emília (1), Lucrécia de Jesus (1), Luísa de São João (1), Luísa do Coração de Jesus (1), Luísa Jacinta (1), Mafalda Luísa (1), Margarida (1), Margarida Jacinta (1), Margarida Rosa (1), Maria Augusta (1), Maria da Ascensão (1), Maria da Encarnação (1), Maria da Luz (1), Maria Dionísia (1), Maria do Carmo (1), Maria Eugénia (1), Maria Felizardo (1), Maria Filomena (1), Maria Florinda (1), Maria Jacob (1), Maria Malvina (1), Maria Policena (1), Maria Teodora (1), Mariana Adelaide (1), Mariana Emília (1), Mariana Floripes (1), Mariana José (1), Mariana Júlia (1), Policena Emília (1), Policena Laureana (1), Policena Margarida (1), Rita Luísa (1), Rosa de Santa Maria (1), Rosa Emília (1) e Rosa Francisca (1).

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publicado por picodavigia2 às 13:45

LAPAS E COUVES

Sábado, 26.10.13

“Quem quiser o marido morto, dê-lhe lapas em Maio e couves em Agosto.”

Aparentemente muito estranho e esquisito este provérbio fajãgrandense, comum também a outras freguesias das Flores e a algumas ilhas açorianas. Trata-se de uma afirmação drástica, agressiva, rude, dura e dramática. No entanto, analisando melhor o seu conteúdo. Percebe-se que com ele apenas se quer significar que no mês de Maio as lapas não são tão saborosas nem tão boas para comer como nos restantes meses do ano, o mesmo acontecendo com as couves, mas estas, no mês de Agosto. Na realidade a sabedoria popular tinha a capacidade de muito bem seleccionar as alturas do ano em que este ou aquele alimento deveria ser evitado nos cardápios diários, por não ter tão boa qualidade e não ser tão agradável ao paladar. Recorde-se por exemplo o caso da abrótea, que por indicação da sabedoria popular, não é boa nos meses que não possuem a letra “r”.

Sendo assim, com este adágio não se pretendia matar o marido, nem com lapas, nem com couves, nem com outra coisa nenhuma, mas simplesmente avisar os menos cautos de que havia alturas do ano em que os alimentos eram, eventualmente, menos saborosos e consequentemente deviam ser evitados. Além disso, não era de estranhar que a primeira pessoa a ser poupada quer às, possivelmente, indigestas lapas de Maio ou às menos gostosas couves de Agosto fosse o próprio esposo.

Douta sabedoria popular que utilizava uma imagem tão forte – a da morte do marido – apenas para avisar de um pequeno pormenor pantagruélico: evitar comer lapas em Maio e couves em Agosto.

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publicado por picodavigia2 às 10:31

AS ÁRDUAS E DESGASTANTES TAREFAS DA MULHER NA DÈCADA DE CINQUENTA

Sábado, 26.10.13

Na Fajã Grande, na década de cinquenta e nas anteriores, os homens tinham um trabalho, árduo, difícil, cansativo, obnóxio e nefasto: cavar e lavrar a terra, acarretar às costas os produtos agrícolas, os dejectos dos animais, ceifar, mondar, limpar palheiros, enfim uma infinidade de tarefas, estercorosas e desgastantes. Mas se os homens tinham um trabalho quase a rondar a escravatura, as mulheres não lhes ficavam atrás. É que para além de fazerem ou acompanharem os homens em quase todos os trabalhos agrícolas e as actividades a eles inerentes, ainda tinham que realizar todas as tarefas domésticas e não eram poucas, executando-as, a maioria das vezes, depois de regressar dos campos, enquanto os homens se vinham escarrapachar à Praça, em amena cavaqueira, a falquejar, a descansar e, por vezes, a roer na vida de uns e outros.

Ora uma dessas nefastas tarefas, talvez amais cruel e cansativa, atribuída, exclusivamente à mulher, era a de lavar a casa. Toda a mulher que se prezasse de ser “escoimada” deveria lavar a sua casa de uma ponta a outra, pelo menos uma vez por semana, preferencialmente aos sábados, tarefa realizada por ela própria ou por uma filha, caso a tivesse.

Lavar a casa não era tarefa fácil. Primeiro porque tinha que ser feita de joelhos ou melhor de gatas e, em segundo lugar, obrigava a lavadora a um esforço múltiplo, gigantesco e extremamente cansativo: acarretar a água da fonte, esfregar o soalho, com uma escova manual, arrastar a celha pesadíssima, espremer o pano, lavar e voltar a espremer e secar. Assim, e uma vez disponível a água, esta era lançada para a “celha de lavar o chão”, feita de madeira e que uma vez cheia de água se tornava ainda mais pesada, sendo muito difícil arrastá-la de um lado para outro. De gatas no chão, com um pano de baixo dos joelhos, lenço de calafate na cabeça, a mulher, primeiro e depois de molhar o pano na água, encharcava o chão em toda a área onde os seus braços chegavam. De seguida massajava sabão azul nas barbas de piaçaba duma escova oval com a qual esfregava no chão, puxando-a para trás e para diante, em movimentos convulsivos e rápidos, até a sujidade se despegar por completo. Muitas vezes tinha mesmo que ir com as unhas às manchas de maior e mais rija imundície. Depois limpava tudo com o pano enxaguado, de seguida espremia-o e voltava a passa-lo no chão, a espremê-lo novamente passando-o no chão para que este secasse mais depressa. Só depois da área inicialmente delineada estar bem lavadinha, voltando a ajoelhar-se, repetia todas estas operações numa área nova e depois noutra e noutra até que cada uma e todas as divisões da casa ficassem bem lavadas. A cozinha, para além de ser a maior, era sempre a mais suja e, consequentemente, a que exigia mais esforços e provocava mais cansaço e fadiga. E se algum borra-botas entrasse em casa, após a lavagem, era uma guerra pela certa. E o curioso é que, apesar de tão degradante e cansativa tarefa, a maioria das mulheres cantava durante a sua execução… Talvez lhe anestesiasse, parcialmente, o cansaço.

Tarefa, árdua, cansativa e degradante! E não é que, para cúmulo, de vez em quando, um ou outro atrevidote, caso uma porta estivesse aberta durante a lavagem, parava, estacava e pasmava a olhar maliciosamente, na tentativa de descobrir uma nesga duma ou outra perna que surgisse mais ousadamente à mostra, devido à posição dolente da mulher que lavava a casa. Alguns chegaram a ter boa recompensa pois, se a lavadora se apercebesse de tal descaramento e fosse matreira, levavam com a água celha, bem sujinha, pelo lombo abaixo.

Mas não ficavam por aqui as tarefas domésticas, extremamente cansativas e quase degradantes, a que a mulher, na Fajã Grande e, provavelmente em muitas outras localidades açorianas, estava submissa. O amanho das refeições diárias era uma tarefa da total responsabilidade da mulher e, por vezes, extremamente cansativa. Primeiro havia que rachar e fender a lenha, acender o lume com garranchos verdes, afoguear, soprar pelo tradicional “canudo” de cana para espevitar o lume, refogar, mexer, fritar e, uma vez por semana, acender o forno, amassar, varrer, padejar, etc. etc. Era ainda à mulher que competia lavar a e “coarar” a roupa, arrumar e varrer toda a casa, tratar dos porcos, das galinhas, levar o leite à máquina, a moenda ao moinho, despejar as “canecas” das retretes, etc, etc.

Se a tudo isto juntarmos a ajuda que lhe era exigida em muitas tarefas agrícolas, como a de semear o milho, sachar, apanhar o trevo, o milho, as couves, o feijão, as batatas e carregar com tudo isto em cestos pesadíssimos, transportados à cabeça, sobre uma rodilha, e de que ao serão, ainda tinham que cardar, fiar, remendar, coser e até descascar o milho, podemos concluir que de facto a vida das nossas mães e avós, nas primeiras décadas do século passado era de autênticas escravas. Talvez por tudo isto, é que aos cinquenta anos, pareciam envelhecidas, como se tivessem oitenta.

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publicado por picodavigia2 às 10:29

O OUTEIRO

Sábado, 26.10.13

Estava-lhe no sangue. Era como se fosse uma parte de si própria. Estampado, ali mesmo ao lado da casa onde nascera, onde crescera e onde sempre viveu, o Outeiro, sobranceiro ao povoado, fazia parte do seu quotidiano, da sua vida, tal como um amigo fiel, confidencioso e inseparável.

Desde pequenina que Carla se habituara a procurar, ali, bem no alto, entre pequenas árvores e grosseiros pedregulhos, o palco apetecido e inócuo das suas brincadeiras e folguedos. Os incensos, os sanguinhos, os folhados e uma ou outra babosa, a crescerem à porfia, forrados de um verde apetecível, deslumbrante e suculento, pareciam-lhe fantasmas encantadores e mirabolantes que povoavam o seu universo sonhador e lhe transmitiam uma alegria e uma felicidade inaudíveis e os enormes calhaus basálticos, soltos e crespidos, caiados de musgos e limos, eram monstros arrebatadores e provocantes, a embalá-la numa fantasia perfumada e deliciosamente infinita. Até a enorme cruz, branca, ingente e altiva, plantada ali sobre o povoado, como que a abençoá-lo e a protegê-lo, parecia-lhe um castelo gigante, morada de príncipes encantados, ornado de vitrais coloridos e em cuja torre de menagem repicavam, festivamente, sininhos de tamanhos diferentes e de sons diversos.

Depois viera a juventude e o Outeiro, outrora oráculo de inocência e fantasia, ora se transformava num companheiro e amigo com quem partilhava sonhos e anseios, ora se metamorfoseava num covil, esmorecido e sombrio, onde desabrochavam desejos e ambições, ou num tugúrio de soturnidade e desencantos, onde despejava o desassossego das suas goradas e desgostosas inebriações. Os fantasmas da fascinação transvertiam-se em horóscopos de deslumbramentos atrofiados e os monstros empolgantes, outrora construídos sob os penhascos, soltavam-se trôpegos, como se fossem gaivotas em voos entontecidas   

Agora, com trinta anos, Carla ainda procurava o Outeiro, mas sentia-o diferente, embora o amimasse com o mesmo carinho da infância, o amasse com o mesmo ardor da juventude e o demandasse numa paixão incontida. Era uma espécie de prodígio petrificado, agreste e desértico, onde o perfume bravio dos incensos e dos sanguinhos, a salubridade telúrica dos rochedos, o sabor dulcificado do alecrim e do poejo se confundiam com uma estranha, indolente e inconstante nostalgia. Ainda se sentia jovem, embora displicente no corpo e selvagem na alma, e continuava a sonhar, ali, embrenhada naquele andurrial, cujo silêncio e o remanso lhe transmitiam uma paz inconfundível e uma tranquilidade abundante. Agora era a vista que dali desfrutava sobre o povoado, que mais a encantava, enternecia e a forçava a galgar horizontes perdidos e intransponíveis. Ao perto, os telhados e frontispícios do casario, mais ao longe os campos verdes e amarelados de couves e milho e, mais além, separado pela mancha negra do baixio, o oceano azulado e infinito, contrastando com a tímida pequenez da ilha. Encravada, quase no cimo do Outeiro, a cruz continuava branca, ingente, altiva e teúrgica, como se fosse um santuário de sacrifícios, preces e oferendas. Era junto a ela que, nas terças e sextas-feiras quaresmais, um grupo de homens, quer chovesse, quer ventasse, ajoelhava, entoando cânticos e impropérios diversos e prolongados e, por isso mesmo, continuava a impor-se como símbolo duma sacralidade dolente, taciturna e humanizada. Parecia-lhe ouvir, mesmo em pleno dia, as vozes dos cantores ecoando nas encostas dos montes, ressoando e repercutindo-se sobre os velhos telhados dos casebres. Nesses momentos, como em todas as outras casas, ela ajoelhava também e, em simples mas sincera oração, unia-se às preces dos cantores e de todos os habitantes da freguesia e suplicava perdão para os delituosos e pecadores e beneficência para os infelizes e sofredores. Por isso mesmo agora, mais do que na infância ou na juventude, tentava encontrar naquele cerro os ecos dos cânticos e das súplicas que lhe incendiassem o corpo e purificassem a alma. Procurava ali, no remanso da taciturnidade, o enigma do seu próprio destino. Mas a resposta vinha-lhe tão vaga, tão vazia, e tão desnudada, cerceada pelo sopro acutilante do vento norte. E os campos, lá em baixo, cobriam-se de um nevoeiro amarelado, ocultando-se num silêncio abrupto e profundo, misturado com os ecos roufenhos do estonteante estrebuchar das ondas contra escolhos e baixios e com os gritos agonizantes das gaivotas perdidas nos remoinhos do vento norte. Lá em baixo, no povoado, velhos, novos, homens, mulheres e crianças fervilhavam num desassossego perturbador, entre vagas de murmúrios, num labirinto de mexericos, num turbilhão de comentários, de interrogações, de ódios e enganos, entre suplícios e tormentas que ela joeirava, purificando-os e retirando-lhes o doloroso amargo dos espinhos.

E no sempre persistente remanso do Outeiro, Carla escrevia com o fumo emaranhado das fogueiras que nunca acendera, o restolho dos sonhos que ali sempre embalara e que, agora, se perdiam em projectos cheios de um rumor alvoroçado.

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publicado por picodavigia2 às 00:40

JOÃO ANGLIN

Sábado, 26.10.13

João Hickling Anglin nasceu em Ponta Delgada, S. Miguel, Açores, a 17 de  Abril de 1894. Filho de pai inglês, tornou-se cidadão norte-americano e foi o primeiro Cônsul dos Estados Unidos da América nos Açores, sendo, mais tarde, também cônsul da Rússia e um dos maiores exportadores de laranja açoriana para os mercados inglês e russo. João Hickling Anglin estudou no Liceu da Graça, onde conheceu Leonilde Rego Costa, aquela com quem mais tarde se consorciaria. Acabados os estudos liceais, foi estudar para o continente, onde se licenciou em Germânicas pela Universidade de Coimbra. Antes de formar família, João Hickling Anglin passou pela dura prova de exercer as funções de oficial miliciano, comandando soldados portugueses em África, entre os atribulados anos de 1914-1918. Esta vivência nas colónias portuguesas levou a que, mais tarde, já exercendo as funções de professor, fundasse a Secção de Estudos Coloniais no Liceu de Ponta Delgada. Para além de distinto professor neste estabelecimento, João Anglin assumiu-se, na sociedade açoriana, como um importante agente cultural, participando em inúmeras iniciativas e instituições locais. Foi Comendador da Ordem de Instrução Pública, Reitor do Liceu Nacional de Ponta Delgada, Director da Escola do Magistério Primário da mesma cidade, Presidente da Junta Geral de Ponta Delgada e, por fim, corrector das provas do jornal “Correio dos Açores”.

Poeta e prosador distinto e reconhecido entre os seus pares, João Hickling Anglin deixou-nos uma importante bibliografia. Foi autor de obras como Padre Sena Freitas : antologia, Alocuções Escolares e Outros Escritos, Notas de um Professor Liceal, Trinta anos de Reitorado, Flores com Fruto, O Historiador Joaquim Bensaúde, A Educação nos Açores, entre outras. Traduziu, também, alguns importantes textos literários para língua portuguesa, nomeadamente, poemas de Shelley e Alfred Lord Tennyson, Um inverno nos Açores e um veräo no Vale das Furnas de Joseph e Henry Bullar, cujo prólogo é da autoria do reconhecido escritor micaelense e seu amigo, Armando Côrtes-Rodrigues.

Faleceu no dia 28 de Dezembro de 1975, com oitenta e um anos de idade, no Hospital velho de Ponta Delgada, deixando muitas saudades junto de todos os que tiveram o prazer de privar com ele.

 

Dados retirados do CCA – Cultura Açores

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publicado por picodavigia2 às 00:36

A IMPORTÃNCIA DA LEITURA E AS FEIRAS DOS LIVROS

Sexta-feira, 25.10.13

Parece não haver dúvida, embora muitas vezes o esqueçamos, de que a leitura é inerente à formação e à educação do ser humano. Não se pode ensinar sem formar e informar e o livro, obviamente, tem essa dupla função.

Ler é formar-se e educar-se, é receber cultura, é combater a ignorância e o analfabetismo. Por isso, deve ser um processo dinâmico, gerador de sentidos, provocador de atitudes, que comprometa o indivíduo a nível cognitivo, psicológico e motor. Deve ser um estabelecer de relações com outras formas de comunicação e expressão que permita alterar a nossa forma de ser e de estar na vida, isto é, provocar marcas humanizadas nos indivíduos e nas sociedades.

O livro é imprescindível à humanidade e inerente ao ser humano porque, como escreveu Monteiro Lobato, “um país constrói-se com homens e com livros.”

Embora ultimamente a leitura tenha aumentado nas escolas, especialmente após a implementação nas mesmas do Plano Nacional de Leitura, actualmente ainda se lê pouco. Além disso, fomenta-se, sobretudo, a leitura obrigação, isto é, uma leitura imposta, pelos programas ou pelo professor. Esta leitura é, necessariamente, desinteressante, desmotivadora, improdutiva e, até, embarga a “leitura prazer”. Manda-se ler para fazer um resumo ou uma síntese, para preencher uma ficha de leitura, para ter uma nota.

Esta metodologia é desmotivante e desmotivadora e deveria, eventualmente, ser substituída por um motivar constante e continuo do aluno de modo a que este mude comportamentos e comece a empenhar-se mais e melhor, tornando-se, inclusive, co-responsável do processo de escolha e selecção daquilo que quer, que precisa e que há-de gostar de ler. Há que privilegiar a leitura prazer.

Por outro lado é imperioso motivar os alunos e as crianças e jovens em geral, para um assédio constante e permanente a uma informação global e universal, permitindo-lhe aceder e até mesmo “apoderar-se” do património cultural da humanidade.

No entanto, urge não esquecer que os livros não os únicos nem os exclusivos instrumentos de leitura. Existem muitos outros, mais interessantes e apelativos. Mas o contacto com os livros é fundamental, pois estes são na realidade uma espécie de “reserva cultural”, ou “acumuladores” da cultura e do saber universal. Os livros são a herança cultural da humanidade, por isso é que a leitura permite ao indivíduo conhecer a experiência dos povos de todos os tempos e de espaços diferentes, partilhando as suas vivências e a sua cultura.

Daí o interesse de tantas e tantas feiras do livro que se anunciam por toda a parte, sobretudo, na quadra natalícia que se avizinha.

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publicado por picodavigia2 às 23:17

SOPA DE AGRIÃO

Sexta-feira, 25.10.13

Quase todos os dias, a maioria dos homens que possuíam vacas leiteiras, na Fajã Grande, deslocavam-se às lagoas, a maioria delas situadas nas Covas, na Ribeira das Casas, na Figueira, nos Paus Brancos e na Lagoinha, a fim de ceifarem um molho de erva fresquinha e tenra, que eles próprios traziam aos ombros, muitas vezes encharcados com a água que escorria da erva e que era fundamental no cardápio diário das vacas leiteiras. Em quase todas estas lagoas, regadas por uma ou mais nascentes de água e, junto destas, para além de bons inhames, floresciam verdejantes e macios agriões. Muitos homens, sobretudo os mais pachorrentos, geralmente por solicitação das suas consortes, que se viam e desejavam para arranjar matéria-prima para as refeições, apanhavam um ou dois punhados deles, amarravam-nos com um fio de espadana e prendiam-nos na extremidade do bordão que os ajudava a contrabalançar o peso do molho da erva e a facilitar o seu transporte.

Pois esses agriões destinavam-se a confeccionar a saborosa sopa de agrião, na altura muito utilizada como ceia, na ilha das Flores.

Para a confecção da saborosíssima sopa de agrião à moda das Flores, para molho de agriões, exigia uma colher ou duas de banha de porco, uma fatia grossa de toucinho retirado da salgadeira, cerca de meio quilo  de batatas descascadas e cortadas em pedacinhos, uma cebola picada e um ou dois dentes de alho picados

A sua confecção era muito simples e fácil. Aquecia-se a banha, num caldeirão de ferro, até derreter. Juntava-se, de imediato, a cebola e os alhos picados. Refogava-se até a cebola começar a ficar tenra. Nessa altura juntava-se a água, e adicionavam-se os cubos de batata e a talhada de toucinho. Tudo devia ser, então fervido até as batatas se apresentarem cozidas.

Entretanto, arranjavam-se os agriões, removendo apenas os caules mais rijos, as folhas amareladas e alguma erva que estivesse junta. Lavavam muito bem e deixar escorrer. Temperava-se a sopa com sal e pimenta. Depois retirar a panela do lume e deixava-se amornar um pouco, a fim de se retirar a fatia de toucinho que era cortado aos pedacinhos de forma a que desse um para cada comensal.

Finalmente juntavam-se os agriões, deixar retomar fervura. Por fim retirava-se a sopa do lume e servia-se quentinha, com um quarto de bolo, uma fatia de pão de milho, por vezes até acompanhava a tigelinha de sopas de leite. E era tão bom!

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publicado por picodavigia2 às 15:22

LISTAGEM DOS DESCANSADOUROS EXISTENTES NA FAJÃ GRANDE, NOS ANOS CINQUENTA

Sexta-feira, 25.10.13

Os “Descansadouros” eram lugares situados em espaços mais largos dos caminhos, geralmente rodeados de paredes altas e bancadas naturais ou construídas mas de forma muito rústica e rudimentar, para os homens descansarem dos pesados carregamentos que traziam aos ombros, para conversarem, pedirem lume uns aos outros, fumarem e, nalguns casos, beberem água. Os “Descansadouros” existentes na Fajã Grande, na década de cinquenta, eram os seguintes, situados nos caminhos que se indicam a negrito:

Caminho do Cimo da Assomada/Lavadouros: - Descansadouro (Vale da Vaca); Volta do Delgado; Santo António; Cabaceira; Cancelinha/Ladeira do Espigão; Espigão; Lagoinha.

Caminho da Missa: - Eira da Cuada.

Caminho da Cuada e Vale Fundo: - Centro da Cuada; Tufo da Fajã das Faias.

Caminho da Fontinha/Lavadouros: - Alagoeiro; Ribeira; Batel; Silveirinha/Batel de Cima; Laje da Silveirinha; Escada Mar; Pico Agudo.

Caminho da Tronqueira: - Cimo da Ladeira do Calhau Miúdo. 

Caminho da Ponta: - Ladeira das Covas; Ribeira das Casas.

Caminho do Porto: - Matadouro; Eira; Porto.

Caminho das Furnas e Areal: - Areal; Furnas.

Caminho da Rocha e Mato: - Furna do Peito; Descansadouro (Meio da Rocha); Fonte Vermelha; Cimo da Rocha; Ribeira das Casas.

Outros: - Cimo da Ladeira do Covão; Bandeja; Praça; Casa de Baixo.

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UM PARAÍSO TERREAL

Sexta-feira, 25.10.13

Um dos mais ecléticos, em termos produtivos, lugares da Fajã Grande era o Outeiro Grande, por quanto nele existiam os três tipos de propriedade mais frequentes na freguesia: terras de mato, relvas e terras de cultivo. Além disso era um lugar de singela beleza e singular ruralidade, por que situava num planalto, sobre um monte ou outeiro paralelo ao Pico da Vigia, no meio dos quais se situava o Vale da Vaca. Do lado Sul e Oeste o Outeiro Grande misturava-se, confundia-se, prolongava-se e como que quase se perdia nos contrafortes da Cabaceira e com o Pocestinho, enquanto que do lado Norte se personificava, transformava e estendia com a vizinha Pedra d’Água, prolongando-se pelo Outeiro, como que terminando e caindo assim abruptamente sobre o casario da Assomada, desfigurando-se e perdendo-se por completo na sinuosidade da Fontinha. O Outeiro Grande ainda confrontava a Este com as Queimadas, a Horta das Abóboras e a Escada Mar e a Oeste com o Descansadouro, Santo António e o Delgado. Situado num planalto da parte superior de uma espécie de trapézio que o outeiro formava e no interior duma levemente acentuada cratera, o Outeiro Grande, totalmente isolado do povoado, pela íngreme ladeira do Covão e pela canada do Calhau das Feiticeiras, possuía toda uma espécie de cores, aromas e sabores a que a natureza na sua pureza original proporciona ao ser humano. Ali o ar era perfumado a erva, trevo e a madressilva e dos incensos caía sobre nós uma mistura de sabores acres e adocicados. Numa palavra o Outeiro Grande era uma espécie de Éden ou Paraíso Térreas da Fajã Grande.

Tinha relvas de óptima qualidade, cujo terreno era tão bom e fértil que os seus donos alternavam, normalmente de sete em sete anos, a erva para pastagem com o cultivo do milho, transformando-as em terras de cultivo. Tinham relvas no Outeiro Grande, entre outros, o Antonino, José Padre, Ti Francisco Inácio, o Francisco Gonçalves, o Urbano e meu pai. As Terras de Mato pertenciam ao José Jorge, João Fagundes, José Nascimento, José Fragueiro, Francisco Inácio José Gonçalves e Guardo Furtado. Tinham Terras de Cultivo o Joãozinho (trabalhada pelo António Teodósio) Augusto Arinó,  Luís Fraga, José Fragueiro, Francisco Inácio, Francisco Gonçalves, Guardo Furtado e José Gonçalves.

Em criança, durante anos e anos, ia e vinha ao Outeiro Grande de manhã e à tardinha, levar, umas vezes, a vaca do Antonino de Francisco Inácio, outras as de meu pai. Subia pelo Covão ou pela Bandeja ou pela Cabaceira, num pé e descia-o no outro, fugindo ao Calhau das Feiticeiras, atirando tiros de sabugueiro aos pássaros, comendo bagas faia, chupando flores de cana roca ou trincando ramos de funcho, enchendo os bolsos de maças, que apanhava das beiras do caminho do Delgado da minha avó, ouvindo a doce sinfonia do cantar dos pássaros, do sibilar do vento, sentindo a frescura das brisas matinais, observando a variedade das cores que o envolviam e até saboreando os seus sabores diversificados.

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publicado por picodavigia2 às 10:16

O PICO

Sexta-feira, 25.10.13

(POEMA DE MANUEL ALEGRE)

 “Sílaba a sílaba até ao poema que está escrito

Lá em cima no Pico sobre a ilha.

(…)

E

(…) um verso a pulsar que de repente

Se descobre no Pico e é o deus da ilha.

(…)

E uma ilha a nascer dentro de mim,

(Porque)

(…) Haverá sempre um mais além

Mas hoje é aqui.”

 

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publicado por picodavigia2 às 10:15

PODER DO LIMITE

Sexta-feira, 25.10.13

Não se pode mudar o rumo ao vento,

Com o brando acordar de um sentimento;

 

Os murmúrios das fontes não se apagam

Com ondas das marés que nos afagam;

 

E a brancura dos lírios não descora

Com o romper melífluo da aurora…

 

Mas para povoar o céu de estrelas,

Basta apenas o sonho de não tê-las.

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publicado por picodavigia2 às 00:26

O PRANTO

Quinta-feira, 24.10.13

Já tinham batido as três da madrugada. Na sala mantinha-se uma escuridão suavemente desfeita por um rastilho de luz emanado de um pequeno e velho candeeiro a petróleo, de vidro tisnado, com o pavio muito baixo, colocado em cima da cómoda. Ao lado um crucifixo e uma pagela da Senhora do Carmo. Num dos cantos, muitas fotos e, no outro, alguns santos. Numa cama, paralela à cómoda, o velho Gomes finava-se.

Paira um silêncio medonho, entrecortado, de vez em quando, muito levemente, pelos soluços e orações dos assistentes, pelo pranto da candidata a viúva e pelos estertores do moribundo. A mulher do Gomes está à cabeceira da cama, vestida de escuro e ao redor da sala amontoam-se bancos e cadeiras, onde as filhas, alguns parentes e muitos vizinhos estão sentados. Uns dormitam, outros rezam e alguns soluçam, enquanto o Gomes agoniza. Está prestes a entregar a alma ao criador! A Lisandra, dos presentes, a mais experiente em rezas adequadas a estas circunstâncias, pontifica:

- Glória ao Pai ao Filho e ao Espírito Santo.

Os que ainda se mantêm acordados lá vão murmurando desajeitadamente:

- Assim como era no princípio agora e sempre e por todos os séculos dos séculos. Ámen.

A Lisandra prossegue, pese embora o número de sonâmbulos aumente:

- Ó meu Jesus, perdoai-o e livrai-o do fogo do inferno… - E as rezas vão continuando cada vez mais indecifráveis até se esfumarem e perderem por completo.

Perante o silêncio dos circundantes, é a Lisandra que remata a sua própria invocação:

- E levai para o Céu as almas mais abandonadas. – Depois continua, na esperança de um ou outro mais desperto responder:

- Amado Jesus, José e Maria.

- Assisti-me na última agonia.

- Amado Jesus, José e Maria.

- Expire em paz e entre Vós a alma minha.

- Ò Virgem Santíssima, não permitais tal: Que eu não viva nem morra em pecado mortal.

- Em pecado mortal não hei-de morrer, porque a Virgem Maria me há-de valer.

- Que a sua alma descanse em paz.

Volta-se ao silêncio. O número dos que dormem parece aumentar. O Gomes lança o último estertor... Pouco depois parece expirar. Os amigos soluçam, os parentes choram e as filhas, desvairadas e em altos berros, gritam pelo pai. É então que a viúva inicia pranto:

- Jesuíno! Ò Jesuíno do meu coração! Ainda me ouves? Aperta pelo menos a minha mão, se me estás a ouvir…Não filha, não senti nada. Ai que desgraça a nossa! O que nos havia de acontecer! De repente, sem ninguém fazer conta… E eu que tinha tanta fé. Pus-lhe o escapulário do Carmo. Nossa Senhora do Carmo há dar-lhe um lugarzinho no Céu. Ele está nas últimas?! Está… Está. O meu coração diz-me que sim. O que vai ser de mim e dos meus filhos?… Ele era a luz desta casa… Nunca nos faltou com nada… Era das terras para casa e de casa para as terras. Sempre o primeiro a se levantar… Sempre o primeiro a chegar a tudo… Caminhava para as terras ainda de noite… Voltava depois das Trindades. Nunca fugiu ao trabalho… Nunca parava… Só se fosse p’ra falar com um amigo. Mas mesmo para isso nunca tinha tempo… Nunca faltou com nada aos pequenos… Ai meu querido marido! Ai meu rico Jesuino! As nossas terras sempre mondadas… Trazia tudo num mimo: as relvas, as terras de mato, as terras de milho… Toda a gente o gabava… Em casa sempre pronto a deitar mão a tudo… Era a lenha sempre no cepo… Era debulhar o milho… Era fazer os “cambulhões”… Ele é que tratava do porco e das galinhas… Nunca estava parado… Sempre a trabalhar… Sempre com o juízo nisto e naquilo, para que nada nos faltasse…O pobrezinho sentiu-se mal depois do jantar. De manhã, ainda foi à nossa terra da Grota, apanhar um cesto de inhames… E o desgraçado ainda trouxe o cesto às costas… Veio carregadíssimo, coitadinho…Sabem como ele era... Era sempre a trabalhar, a trabalhar. Mas ele já não podia… Chegou a casa, por volta do meio-dia…Sentou-se à mesa e não comeu quase nada: “e não tenho fome, e não tenho fome, não me apetece comer, e não sei o que tenho e dói-me aqui, tenho uma dor muito grande na barriga…” E nós numa aflição... Sem saber o que fazer… Fez-se um chá de erva-néveda, mas nada... Fez chá de poejo e nada. Fez-se chá de “mastrunços” e ele nada. Não havia maneira de ficar bom. Fizemos chás de tudo: de poejo, de cidreira, de macela, de funcho e nada... Ele deitou-se e nós numa aflição cada vez maior, sem poder fazer nada. E agora partiu para sempre. O meu Jesuíno foi juntar-se ao coro dos anjos e dos santos. O senhor padre já cá veio, mas só lhe deu a Santa Unção. Ele já nem falava, nem ouvia. Já não pode confessar-se, o pobrezinho, nem receber o Sagrado Viático. Mas Deus há-de recebê-lo na sua Santa Glória. Isto foi uma grande desgraça. Um homem que, desde que o conheci, nunca teve nenhuma doença, nunca tomou sequer um comprimido, nem uma injecção, nunca teve uma dor de dentes, nunca teve uma gripe, nunca teve nada... E de repente foi isto... Apagou-se…Foi como uma luz que se fosse apagando aos poucos.

Regresso ao silêncio e pouco depois a Lizandra, agora com todos acordados, inicia o terço, anunciando-o por alma do falecido: - Pai Nosso que estais no céu…

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publicado por picodavigia2 às 20:32

SOPA DE FEIJÃO

Quinta-feira, 24.10.13

Um dos pratos mais comuns nas casas fajãgrandenses, na década cinquenta, era a sopa de feijão. Servia-se, geralmente, ao jantar, ou seja à refeição do meio-dia e, embora sendo habitualmente designado por sopa, era, no entanto, um prato tão substancial que só por si só, juntamente com o pão, constituía uma refeição completa.

O feijão foi sempre um produto muito cultivado na Fajã pois “dava-se” bem em todos os terrenos e tinha boas condições de produção, tanto nas terras junto do mar como nas mais interiores. Além disso, o cultivo do feijão não exigia a exclusividade de um campo, isto é, não precisava de um terreno só para si, dado que crescia, florescia e frutificava muito bem em simultâneo com outros produtos agrícolas, nomeadamente com o milho. Neste caso com uma dupla vantagem: não era preciso trabalhar os terrenos de propósito para semear o feijão, pois aproveitava-se os que estavam preparados para o cultivo daquele cereal e nem era necessário espetar na terra estacas de cana ou de vimes para os feijoeiros subirem, uma vez que o faziam enroscando-se no próprio milheiro e ainda por cima enrolavam-se de maneira tão graciosa, admirável e de tal modo funcional que parecia que as vagens eram fruto do próprio pé de milho. Uma vez apanhadas as maçarocas, as vagens do feijão ficavam ali, penduradas nos milheirais, a amadurecer e a secar. Mais tarde, o feijão era apanhado, descascado, posto a secar nos pátios e estava pronto a guardar para com ele se confeccionar a tal sopa.

Havia muito feijão na Fajã! E havia-o de várias cores e raças. Mas o encarnado e o raiado eram os mais usados para a sopa. Uma vez demolhado de um dia para o outro, era posto a cozer em bastante água, com cebola, tomate e alho picados e outros temperos, nunca esquecendo uma boa colher de “graxa” de porco, preferencialmente da que cobria a linguiça. Quem tinha possibilidades juntava uma ou duas talhadas de toucinho ou um pedaço de osso da cabeça do porco. Em muitas casas mais pobres cozinhava-se simplesmente sem nada, ou melhor, apenas com colher de banha. Uma vez bem cozida em caldeirão de ferro, esta espécie de sopa era retirada do dito cujo, ainda a fumegar, com uma conha, sendo baldeada para uma terrina onde haviam sido colocadas fatias de pão de trigo. Nas casas com menos posses, nas quais a minha se incluía, colocavam-se fatias de pão de milho em vez do pão de trigo. E não é que a sopa de feijão parecia ainda ficar melhor… e então se levasse a talhadinha de toucinho… Era um verdadeiro manjar dos deuses!

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publicado por picodavigia2 às 17:41

A GALINHA PARVALHONA

Quinta-feira, 24.10.13

(Conto Tradicional)

 

Era uma vez uma galinha que estava debaixo duma pereira. De repente despenhou-se lá do alto uma pêra e caiu-lhe precisamente em cima da crista. Não percebendo o que se passava e muito assustada, a galinha foi, de imediato, prevenir o galo:

- Sai daí, galo, porque o mundo está a cair aos pedaços!

- Quem te disse? – Perguntou o galo.

- Ninguém – disse a galinha. – Fui eu que vi e senti cair-me um pedaço do mundo em cima da minha crista.

De seguida, um por um, foi avisar todos os outros animais.

O último animal que avisou foi a raposa. Aproximou-se da matreira e disse-lhe que ela também deveria ter muito cuidado por que o mundo estava a desfazer-se aos pedaços e poder-lhe-ia cair algum em cima.

- Ai! – Exclamou a raposa. – Se o mundo está a cair aos pedaços é porque vai acabar e vamos todos morrer. Pois eu quero morrer bem farta.

E atirando-se à galinha comeu-a num abrir e fechar de olhos.  

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publicado por picodavigia2 às 16:35

CASAMENTOS REALIZADOS NA PARÓQUIA DE SÃO JOSÉ DA FAJÃ GRANDE NO INÍCIO DO SÉCULO XX (ANOS DE 1905 a 1907)

Quinta-feira, 24.10.13

No início do século XX, entre os anos de 1905 e 1907, realizaram-se, na paróquia de São José da Fajã Grande os seguintes casamentos:

1905:  

A 30 de Janeiro - José Luís da Silveira, de 44 anos, filho de José Luís da Silveira e Maria Claudina da Silveira, casou com Maria Amélia de Freitas da Silveira, de 21 anos, filha de Raulino Inácio da Silveira e Maria Amélia de Freitas da Silveira.

A 23 de Fevereiro - José de Freitas Dionísio Júnior, de 35 anos, filho João José de Freitas e Maria Emília do Coração de Jesus, casou com Maria Dionísia de Freitas Branco, de 23 anos, filha de João Jacinto Branco (natural da freguesia de São José de Ponta Delgada) e de Maria Catarina (natural da Fajã Grande).

A 16 de Setembro - Frederico José Henriques, de 78 anos, filho de Manuel Caetano Rodrigues e de Maria de Jesus e já viúvo de Mariana Apolónio Gonçalves, casou com Maria da Conceição Henriques, de 71 anos, filha de António de Freitas Pimentel e de Ana da Conceição, sendo viúva de António Pimentel Brás.

1906:  

A 7 de Janeiro - António de Bettencourt Vasconcelos, de 27 anos, natural da Praia de São Mateus da Graciosa, filho de Estanislau de Quadros Bettencourt e de Maria Isabel de Bettencourt, casou com Maria do Céu Fragueiro de Bettencourt, de 33 anos, filha de Manuel de Freitas Fragueiro e de Mariana Margarida do Coração de Jesus.

A 26 de Abril - João Francisco Furtado, de 27 anos, filho de Manuel Francisco Gervásio e de Isabel de Jesus, casou com Maria do Céu Furtado, de 16 anos, natural das Lajes das Flores, filha natural de Emília de Jesus Vieira.

A 21 de Julho - José Caetano Teodósio, de 20 anos, filho de António Caetano Teodósio e de Floripes Garcia de Mendonça, casou com Maria da Glória de Freitas Teodósio, de 17 anos, filha de José de Freitas Fragueiro e de Maria José da Silveira.

1907:  

A 15 de Abril - Francisco José de Almeida, de 26 anos, natural de Santa Cruz, filho de Manuel José de Almeida, natural de Santa Cruz e de Maria Cândida, natural da Feteira, Faial, casou com Maria do Céu da Silva, de 16 anos, filha de Manuel Pereira da Silva e de Maria Trindade, ambos naturais dos Altares, Terceira.

A 22 de Abril - António Rodrigues de Freitas, de 23 anos, filho de António Rodrigues e de Maria Inácia de Jesus, casou com Maria de Jesus de Freitas, de 26 nos, filha de Manuel José Valadão e de Maria Inácia de Jesus.

A 25 de Abril - Laureano Inácio Mateus, de 23 anos, filho de José Inácio Mateus e de Maria Lucinda, casou com Maria Luísa Mateus, de 22 anos, filha de João Inácio Mateus e Isabel Floripes da Silveira.

A 24 de Junho - Manuel Luís de Fraga, de 22 anos, filho de Manuel Luís de Fraga e de Maria Luísa da Assunção, casou com Maria Dias Avelar, de 21 anos, filha de Francisco Dias Avelar e de Maria de Jesus Dias, natural do Lajedo.

A 1 de Julho - José Caetano de Fraga, de 42 anos, filho de José Caetano de Fraga e de Rosa de Jesus, casou com Maria de Freitas Fraga, de 37 anos, filha de João de Freitas Silveira e de Mariana de Jesus.

A 6 de Julho - José Fagundes da Silveira, de 52 anos, filho de Bartolomeu Lourenço Fagundes e de Maria Laureana da Silveira e já viúvo da 1ª vez de Maria Fagundes da Conceição e da 2ª vez de Maria Rosa Fagundes, casou com Maria Luísa Fagundes, de 40 anos, filha de Manuel de Freitas Cardoso e de Maria Luísa.

Fonte: - Gomes, Francisco António Nunes Pimentel, Casais das Flores e do Corvo, 2006.

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publicado por picodavigia2 às 15:06

A CANADA DAS ÁGUAS

Quinta-feira, 24.10.13

O acesso ao sinistro e perigoso lugar das Águas, na Fajã Grande, era feito por uma estreita e sinuosa canada que se iniciava na Ribeira e terminava bem pertinho da Rocha, precisamente numa relva que meu pai ali possuía, que era a última daquele lugar e, consequentemente, o fim da vereda. A seguir um enorme e inacessível alcantil que fazia de margem esquerda da Ribeira das Casas e que, junto à Rocha, desembocava no mítico Poço do Bacalhau. Mais a baixo, o Moinho do Engenho.

Subindo a Fontinha e chegando ao Alagoeiro, voltava-se na direcção do lugar da Ribeira, precisamente ao sítio onde este era atravessado por uma ribeira que lhe deu nome e que, vinda dos Paus Brancos desaguava na Ribeira das Casas, como seu principal afluente, ia aumentando o seu caudal com todas as “grotas”, regos e regatos que se iam despegando da Rocha, desde da Alagoinha até à Figueira. E não eram poucos. Por isso, mesmo nos meses de maior seca, era quase impossível, atravessar a Ribeira e entrar logo abaixo, na Canada das Águas sem molhar os pés e uma parte das calças ou as botas, caso se andasse calçado, o que era raro. Os animais, esses sim, aproveitavam sempre aquela corrente de água, ora para saciar a sua sede, ora para se refrescarem e até se lavarem dos hediondos excrementos que tanto se lhes apegavam ao traseiro e se prolongavam pelos quartos, pela barriga e que, por vezes, se prolongavam quase até ao lombo. As vacas vindas das Águas chegavam aos palheiros, geralmente, um pouco mais limpinhas do que as oriundas doutras paragens.

Depois de se atravessar a Ribeira da margem esquerda para a direita e de a percorrer, uns escassos metros, na direcção da foz, virava-se na margem direita. Aí se iniciava a canada que conduzia ao lugar das Águas, lugar fajãgrandense situado praticamente, junto à Rocha com o mesmo nome. O primeiro troço daquela via, circundando terras de cultivo de milho e trevo, apesar de apertado e com piso em pedregulho, era rectilíneo e de acesso mais ou menos acessível. Mas a partir da relva de Ti Manuel Rosa a coisa fiava mais fino. Era o cabo dos trabalhos! É que devido à sinuosidade e inclinação do terreno e aos inúmeros e irremovíveis calhaus vindos da Rocha, o caminho era péssimo. O piso era curvilíneo, repleto de enormes pedras e grossos pedregulhos que rolavam de baixo dos pés e onde pessoas e animais tropeçavam com frequência e, pior do que isso, na curva que o tornava paralelo à rocha havia uns degraus toscos, desajeitados, com algumas pedras soltas e outras já caídas. Um martírio para quem ali passava! Para os homens quando carregando molhos de erva, de lenha, de fetos secos ou cestos de inhames. Para as vacas, sobretudo para as leiteiras ou pejadas, que ali se sacudiam e balançavam de tal forma que quase punham em risco a sua sobrevivência. Apenas a ganapada, quando passava por ali de mãos a abanar e o gado alfeiro, mais “triqueiro” e afoito, os subia ou descia com desenvoltura e facilidade.

Depois dessa curva, a canada seguia o seu caminhar, paralela à Rocha, com um piso feito de pedras soltas, umas caídas outras por cair e com grande risco para os que por ali passavam, não fosse mais algum calhau desprender-se da Rocha, como todos aqueles que ali jaziam no solo e que dela se haviam despendido ao longo dos tempos.

A canada das Águas era pois um tormento e uma amargura para quase todos os que por ela tinham que passar, incluindo os próprios animais.

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