Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



ECO

Terça-feira, 12.11.13

No eco da vergasta

A memória não se perde,

Apenas se agasta…

Autoria e outros dados (tags, etc)

tags:

publicado por picodavigia2 às 23:36

O LUGAR DO MIMOIO

Terça-feira, 12.11.13

O Mimoio era, sob o ponto de vista agrícola, um dos maiores e mais importantes de todos os lugares não povoados da Fajã, uma espécie de celeiro da freguesia, dado que ali se situavam muitas das melhores e mais produtivas terras de milho, depois dos inconfundíveis e super produtivos cerrados e courelas da beira-mar, nomeadamente os do Areal, das Furnas e do Porto. É verdade que na Fajã, nos anos cinquenta, havia vários lugares com terrenos de produção agrícola com excelente qualidade, mas a maioria deles eram bem mais pequenos em tamanho do que o Mimoio. Na realidade o lugar do Mimóio tinha uma enorme extensão, espalhando-se sobre um amplo planalto, que ia desde a Fontinha até à Ribeira das Casas. Daí que as suas fronteiras fossem a norte precisamente a Ribeira das Casas e o Calhau Miúdo, a sul a Fontinha e o Cruzeiro, a leste a Ribeira e o Alagoeiro e a oeste a Ladeira. Para além das terras de cultivo, onde se semeava o milho e pelo meio deste, se espalhava a erva da casta ou trevo para se amarrar o gado à estaca, lá para mais tarde, nos meses de Abril e Maio, o Mimoio ainda tinha muitas belgas de excelente qualidade para o cultivo de batata-doce, abóboras, feijão e favas, tendo também, sobretudo na zona da Ribeira das Casas, algumas pastagens, também estas de muito boa qualidade. O grande problema do Mimoio era a falta de um caminho largo e acessível por onde pudessem circular carros de bois ou corsões, a fim de se transportarem, mais fácil e suavemente, todos os produtos agrícolas que aquelas produziam. E não eram poucos! Tudo o que trouxesse ou levasse das ou para as terras do Mimoio tinha que ser acarretado às costas. Nem sequer os burros podiam transitar por ali, sobretudo se carregados. É que o acesso às terras do Mimóio fazia-se apenas por três canadas, todas elas de muito estreitas e de má qualidade. A mais importante, porque a mais utilizada era a que partia da Fontinha, junto à casa de Tio José Teodósio e depois seguia até ao centro do Mimóio bifurcando-se, aqui e além, por outras pequenas e ainda mais estreitas canadas ou veredas bem mais apertadas e mais sinuosas, sendo muitas vezes utilizado, como caminho de acesso, o cimo das paredes, onde se haviam guardado as pedras retiradas, em tempos idos, a quando do desbravar dos campos. Desta canada, porém, a partir da altura em que se ela se sobrepunha à Ladeira, desfrutava-se de uma excelente vista sobre uma grande parte da Fajã, uma vez que o Mimoio se situava precisamente num planalto sobranceiro à Tronqueira e à Ladeira. Esta zona era porém muito perigosa, ladeada por uma alta ravina do lado da Tronqueira  e por ela não podia passar gado. Outra canada era a que partia da Ribeira das Casas e dava acesso sobretudo às pastagens, chegando também ao centro do Mimoio onde confluía com a canada vinda da Fontinha e com uma terceira que partia do Calhau Miúdo, mas muito pouco utilizada, uma vez que, dado o desnível de ambos os lugares, era quase toda em degraus e de impossível acesso para o gado, que circulava sempre pelo lado da Ribeira das Casas. Era nesta confluência das três canadas, junto ao portal de um cerrado que meu pai ali tinha, que havia um pequeno descansadouro, onde os homens se sentavam à espera da ordenha, na altura em que o gado por ali estava amarrado à estaca, no “oitono”.

Crê-se que o nome Mimóio se teria originado a partir das palavras “meio” e “moio”, evoluindo para “Mimóio”. Esta hipótese, no entanto, parece-me pouco plausível, uma vez que sendo aquelas terras tão produtivos, nunca alguém se teria referido a elas simplesmente por “terras do meio moio”. Assim, uma outra hipótese, jamais apresentada algures, é a de que “Mimóio”  também poderia ter tido origem a partir de “mimo” e “moio”. Parece pois mais razoável, sob o ponto de vista fonético e também lógico, uma vez que sendo as terras daquele lugar tão férteis, não dariam apenas meio moio de milho, de trigo, de feijão ou favas, mas muitos, bons e fabulosos moios. Neste caso o topónimo poderia muito bem ter evoluído de “moio mimo”, ou “mimo moio”, ou seja um bom moio, originando o actual “Mimóio”.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

tags:

publicado por picodavigia2 às 23:35

TI'ANA TENENTA

Terça-feira, 12.11.13

Ana de seu nome e Tenenta de apelido, Ti’Ana Tenenta vivia numa casa situada numa das canadas da Fontinha, naquela que ficava logo a seguir à Fonte Velha, casa que mais tarde serviu de palheiro para o gado do António Vieira. De avançada idade, portadora de algumas doenças crónicas e outras tantas fortuitas e com uma lucidez bastante limitada, Ti’Ana Tenenta morava sozinha, numa casa muito velha, com escassos meios de vida e, como se isso não bastasse, em condições de extrema pobreza e acentuada precariedade. Também não se lhe conheciam parentes, não tinha amigos e apenas um outro vizinho mais benevolente e compreensivo, lhe abonava uma demão a cortar os garranchos de lenha para acender o lume, lhe oferecia uma cesta de batatas, uma pinguita de leite ou um quarto de bolo. Além disso, quer porque a vida já não lho permitisse, quer porque granjeava poucas simpatias por parte dos vizinhos e porque nem sequer tivesse amigos ou parentes chegados, Ti’Ana Tenenta pouco saía de casa e menos ainda convivia com quem quer que fosse, sendo o seu dia a dia quase ignorado e desconhecido por parte de quantos passavam à sua porta. Se a velha não aparecia a espreitar por dentro da janela, onde já havia mais vidros partidos do que inteiros, era porque estava deitada na enxerga ou sentada numa cadeira a dormitar. Assim a sua ausência de casa nunca era notada por quem quer que fosse.

Certo dia, ao anoitecer, sem que ninguém se apercebesse, Ti’Ana Tenenta saiu de casa, subiu a Fontinha até ao Alagoeiro, tomando rumo na direcção da Ribeira com a denodada intenção de subir a Rocha, com destino a Santa Cruz. Andou, andou, subiu degraus e sentou-se a descansar em todos os apeadeiros e furnas. Bebeu água fresquinha na Fonte Vermelha e chegou ao cimo da Rocha ainda a noite era escura como breu. Voltou a sentar-se e, pouco depois, tomou o rumo do Curral das Ovelhas e da Burrinha, sem nunca se perder. Nem alma viva encontrara ao longo de todo este longo percurso que lhe tolhesse os passos ou a impedisse de percorrer tão cansativa caminhada àquela hora da noite. Já ia a subir o Rochão do Junco quando começou a amanhecer e o dia, lá por trás do Queiroal, começou a clarear, permanecendo, no entanto, no ar uma densa neblina matinal. Pouco depois iniciou a descida da Burrinha, na direcção da caldeira da Água Branca. Já por ali passara muitas vezes, atravessando a caldeira sobre paus de cedro a fim de descansar da longa caminhada e encurtar caminho para a Vila. Naquela manhã porém como não encontrasse por ali perto tronco de cedro ou de outra árvore qualquer que lhe servisse de jangada, decidiu-se por atravessar a pé a caldeira. Já ia a uns bons metros da margem, com a água a dar-lhe pelo peito quando foi avistada por dois homens da Lomba que andavam por ali a juntar gado alfeiro que havia saltado os tapumes e fugido das relvas. Bem chamaram, bem gritaram e ainda melhor berraram mas a velha cada vez mais se enterrava na caldeira, cheia de lodo e de ervas e com a água já a dar-lhe pelo pescoço. Numa correria louca com o intuito de salvar a pobrezinha, os homens dirigiram-se na direcção da caldeira. No entanto e quando se aproximaram da borda da mesma já nenhum vestígio da velhota conseguiram lobrigar. Aflitos, atónitos, sem saber que fazer e cuidando que atirarem-se à caldeira era suicidar-se, pois nunca mais encontrariam a pobre velha e corriam sérios riscos de se afogar pois nenhum deles sabia nadar. Iniciaram então uma desusada correria na direcção da Fajã, com o intuito de chamar alguém que os ajudasse. Passadas algumas horas de descidas e subidas, chegaram à caldeia os primeiros homens da Fajã… mas da velha nem vestígios. Além disso, mesmo que a encontrassem, aquela hora já estaria morta. Esperaram um dia, dois dias três dias, procuram e voltaram a procurar mas o cadáver da velha nunca veio à superfície e nunca foi encontrado, encerrando-se, finalmente, as buscas. Mas os da Fajãzinha é que jamais se calaram. Que não podia ficar ali um cadáver, pois era a água daquela caldeira que alimentava as nascentes da Fajãzinha, nomeadamente as fontes do Rossio, onde todos bebiam e ninguém estava disposto a beber água que viesse de onde estava o cadáver de um ser humano a apodrecer. Tirassem o cavalinho da chuva, os da Fajã: se a velha era deles, eram eles que tinham que a tirar da caldeira! Olaré se tinham! De contrário a questão seria resolvida no tribunal de Santa Cruz. E os da Fajã tiveram mesmo que ir tirar Ti’Ana Tenenta da caldeira da Água Branca. Um grupo de homens equipou-se com garfos de tirar esterco, ancinhos, paus, cabos, cordas e até um caixão e dirigiram-se para a Água Branca. Construíram jangadas, sob as quais percorreram toda a caldeira, pesquisando o fundo com paus, fueiros e aguilhadas, durante dias e dias. Mas nada. Cansados, desanimados, esfomeados e desmotivados, devido ao mais que evidente insucesso da tarefa, decidiram terminar as buscas. Mas os da Fajãzinha? Como se acalmariam e aquietariam? Foi então que resolveram simular o aparecimento do cadáver com grande efusão e naturalidade. Enchendo o caixão com paus e pedras mais ou menos do peso do corpo da velha, conduziram-no aos ombros até ao povoado, simularam um funeral e convenceram os da Fajãzinha de que podiam beber à vontade as águas das suas nascentes, pois o corpo de Ti’Ana Tenenta finalmente tinha sido retirado da caldeira da Água Branca e sepultado com exéquias, missa do terceiro dia, responsos e tudo.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por picodavigia2 às 00:38

A POPULAÇÃO DA FONTINHA

Terça-feira, 12.11.13

Década de cinquenta! No alto da Fontinha, a primeira moradia pertencia a Tio José Teodósio, lavrador um pouco mais abastado, homem generoso e muito solidário com o seu semelhante que emprestava as alfaias agrícolas a quem delas necessitasse, sendo que nem era preciso pedir-lhas, pois o palheiro onde as guardava estava sempre de portas escancaradas. Vivia com a esposa e três filhas, pois os restantes já haviam casado ou abandonado a ilha. Tio José Teodósio também era um bom cantador e fazia parte do grupo de homens que nas terças e sextas da Quaresma iam cantar para o Outeiro.

Um pouco mais abaixo vivia, com a mulher e três filhos, o Tio Britsa, uma irmão da minha avó, pessoa muito simples, inocente e sem maldade. A mulher era irmã das senhoras Mendonças. Tio Britsa, apesar de avançada idade e de ser magro, fraco e doente, trabalhava muito e acarretava enormes molhos às costas. Como a subida da Fontinha era muito íngreme, dizia-se que ele ao subi-la “dava um paço para a frente e dois para trás” e, por isso, demorava uma eternidade a chegar a casa. Mesmo em frente morava um filho de Tio José Teodósio e genro de Tio Britsa, casal jovem e com cinco crianças. Chamava-se Teodósio, acompanhava o pai no cantar no Outeiro, era um exímio tocador de tambor e folião do Espírito Santo e, para além do trabalho nas terras, ia ao Mato duas vezes por dia, ordenhar as vacas, subindo a Rocha, alta madrugada e ao entardecer, carregando, na descida, as latas a abarrotar de leite. Consta que foi o único fajãgrandense a cultivar milho no Mato.

Ao lado vivia, com o pai, já de avançada idade, o José do Pico, que casou com a Leonor do João Bizarro e que logo após a morte de seu pai, o velho Tio José do Pico, partiu com a família para o Canadá.

Ali perto e numa das casas com melhor vista sobre a Fajã, sobre o Porto e sobre o oceano, morava tia Manceba juntamente com uma filha, a Maria do Céu e uma neta, a Maria Antónia. Tia Manceba era de avançada idade pelo que já nem se ausentava de casa. Caracterizavam-na, no entanto, dois interessantes pormenores: utilizava uns óculos com uma lente branca e outra escura, dado ser cega de um dos olhos e possuía um óculo bastante potente, com o qual sentada à janela, apreciava não apenas o que se ia passando pelo parte mais baixa da Fajã mas também observava todos os navios que diariamente por ali passavam, ligando a Europa e os Estados Unidos. Era dali também que em dias de baleia, muitas pessoas assomavam, na tentativa de ver melhor a acção em mar alto dos botes na tentativa de caçar as baleias.

Neste grupo ainda se incluía, por ter casa na mesma recta onde ficava a da tia Manceba e junto a uma outra de tia Gonçalves mas onde na altura não morava ninguém, o António Dias, conhecido por o “Parente”, casado com uma filha do Manuel Dawling e com o filho José, que também partiram para a América.

Um pouco acima da chamada Fonte Velha e numa curva que a rua da Fontinha fazia antes de chegar à recta da casa de tia Manceba, existiam três casas, formando uma espécie de triângulo. No vértice do lado de terra, havia uma muito alta, revelando uma simulada e fingida imponência até porque construída em pedra e não caiada. Mas era muito pobre, como pobres eram os seus moradores, dois irmãos, ambos solteiros e já de avançada idade: José Eduardo e Maria Eduarda. José Eduardo era diabético, já não podia trabalhar, ficando as tarefas da casa e dos poucos e pequenos campos que tinham confiadas exclusivamente à irmã. José Eduardo era dos poucos homens que, na Fajã, naquela altura, ainda “mascava” tabaco em vez de fumar.

Por sua vez, no vértice do lado da Ponta viviam outros dois irmãos, também muito pobres mas pouco considerados na freguesia, denominados por o “Coelho e a Coelha”. A Coelha praticamente não saía de casa, apenas aparecia de vez em quando ou à janela, para peleijar com algum vizinho, ou ao portão, para insultar um ou outro transeunte. O Coelho trabalhava os poucos campos que possuía, tinha ovelhas em vez de vacas, nunca descansava no Alagoeiro nem se sentava à Praça a conviver com outros homens e, vezes sem conta, desafiava este e aquele, mandando-lhes “bocas” pouco simpáticas. Meu pai, que sempre se deu bem conta a gente da freguesia, não falava com ele, por ofensas verbais que, sem razão aparente que o justificasse, lhe havia feito.

No último vértice e ainda na curva vivia o Candonga com a mulher Anina, irmã de João Inácio e dois filhos: o José e a Maria Silvina. Como tinha poucas terras, o Candonga dava dias para fora, era pescador e um dos mais bravos baleeiros da Fajã, mas adoecia com alguma frequência. Certa vez caiu na Rocha, do cimo de uma altíssima verga de pedra, ao lado da Fonte Vermelha e lá ficou uma noite e quase dois dias, sem se alimentar, ao relento, bastante ferido e com uma perna partida. Só no dia seguinte foi encontrado e retirado com enorme dificuldade, dado que o lugar era de difícil acesso. Foi, então, transportado em ombros, numa maca e levado para o hospital de Santa Cruz.

Logo abaixo e na primeira transversal da Fontinha, do lado direito de quem a subia, entrelaçadas com alguns palheiros, existiam duas casas. Uma era a do Vieira, que vivia sozinho, na casa que havia sido do meu bisavô. A outra era a do José Malvina, filho de tio Malvina, que vivia com a esposa, um filho e o sogro, após a morte do qual partiu para o Canadá.

No largo da Fonte Velha e precisamente em frente ao fontanário ficava a casa do “Arionó”, assim chamado porque ao regressar da América usava constantemente a expressão “Are you now”, num inglês extremamente mal pronunciado. O Augusto Arionó vivia com a esposa, a Mariana, filha de um terceiro casamento do meu bisavô, com os filhos: José, Maria, Elisa, Guilherme e Deolinda. Apenas a Maria partiu para a América, após casar com o Ângelo de João Augusto. Os outros irmãos foram dos poucos que sempre por ali ficaram e ainda residem na Fajã, precisamente na mesma casa.

Ao lado da Fonte Velha, ficava uma casa alta, de dois andares, onde morava um outro filho de Tio José Teodósio, o António, casado com uma filha de José Pureza e com alguns filhos. Cedo, porem, abandonou a freguesia, emigrando para os Estados Unidos.

Finalmente a casa de meu avô materno, conhecido por José Batelameiro (uma deturpação de Bartolomeu, nome que herdara do seu avô) e que faleceu ainda na minha infância. Ficou minha avó com sete dos seus treze filhos e que ainda não haviam casado. Era a mordoma das almas e quase todos os dias, sobretudo durante o Verão, à tardinha, sentava-se à janela da sala, virada para o mar, a observar o momento do pôr-do-sol, lá ao longe, no horizonte, não com intuitos de apreciar tão belo espectáculo, mas para acertar o relógio de parede, recorrendo a uma tabela manual que possuía. Mas como estávamos no extremo do fuso horário açoriano, o relógio dela andava sempre atrasado. Os meus tios Luís e o Chico, este era o sacristão, trabalhavam no campo e as minhas tias faziam as lides caseiras, bordavam e teciam, dado que meu avô havia montado numa casa velha que existia em frente daquela onde moravam, conhecida pela “Casa de Tia Fraga”, um dos poucos teares existentes na Fajã. Todos partiram ou para a América ou para o convento.

Junto à casa da minha avó, na Fontinha, do lado esquerdo de quem subia, havia uma pequena transversal em forma de ladeira ou aclive, onde existiam apenas duas casas de habitação. A primeira pertencia ao João Bizarro, um homem muito alto e esguio, óptimo conversador e com um excelente timbre de voz. Era um lavrador abastado, um bom cortador de carnes nas festas de Espírito Santo, participava habitualmente nos cargos de cabeças das festas e do Fio e era casado com a Glória Jacob, tendo os filhos todos casado e partido para a América, excepto a Adelaide que por ali ficou, com os pais. Mais dentro e no termo da pequena travessa morava o Ângelo do Tesoureiro com a irmã Elvira. Apesar de já ter alguns anos, casou com uma rapariga bastante mais nova a Lídia e teve três filhos. O Ângelo era um bom pescador, tinha um barco de pesca, abastecendo de peixe uma boa parte da freguesia. Contava-se que estando certo dia na loja do senhor Rodrigues, ao chegar à Fajã um novo pároco, que obviamente não conhecia as pessoas, nem muito menos o parentesco entre elas, como o filho estivesse a fazer algumas diabruras, pois era bastante irrequieto, o reverendo, dirigindo-se à criança, aconselhou:

- Senta-te aqui, quietinho, junto ao teu avô.

O Ângelo enfurecido ter-se-á levantado e emendado imediatamente:

- Avô não! Pai sim!

Saindo da travessa em frente à casa da minha avó e voltando novamente à rua da Fontinha, do outro lado, numa casa lá bem no alto, muito desnivelada do caminho, e com umas grandes escadarias de pedra, mesmo junto à Ladeira da Fontinha, vivia o José Gonçalves, com a mulher, filha da minha vizinha Lucinda e três filhas, consideradas das mais bonitas moças da freguesia: a Mariazinha, a Laurinda e a Fernanda, que algum tempo depois casaram e partiram todas para o Canadá. Por baixo das escadas ficava a entrada de acesso a uma loja de arrumos e palheiro, uma espécie de túnel, escuro e estranho, com um portão de entrada em arco de volta inteira. Como ficava num sítio um pouco ermo era com esta entrada que se amedrontavam e ameaçavam as crianças que se portavam menos bem quando por ali passavam e que também servia de esconderijo para muitas brincadeiras e “partidas”, cujo objectivo era amedrontar ou assustar os transeuntes. Ao lado vivia o José Fragueiro com a mulher, filha do Cabral e sem filhos, paredes-meias com a Senhora Fragueira que, algum tempo depois ingressou partiu para o Continente, na demanda de convento. O Fragueiro fez parte do primeiro grupo de músicos da Senhora da Saúde, onde tocava trompa. Mais tarde partiu com a mulher para o Canadá.

Do outro lado da rua e numa casa bastante desnivelada relativamente ao caminho, morava o Tavares, com a mulher e vários filhos. Alguns foram para a guarda, outros para a América. Mais tarde mudou-se para uma outra casa ali ao lado, encravada nos contrafortes do Outeiro. Era a casa mais alta da Fajã, depois da do Chileno e a única com três andares visíveis a partir do caminho. A entrada para o prédio era efectuado por um atalho que dava para a Cruz do Outeiro. Ao lado ficava uma pequenina e pobre casita onde morava um João Raimundo, oriundo das Lajes, com duas filhas e dois netos

Finalmente e já quase à praça, morava o Laureano Cardoso, viúvo e com quatro filhos, tendo, mais tarde, todos partido para a América, excepto a Deolinda que casou com o Abraão, cabo do mar na Horta, trabalhando e fixando residência mais tarde em Angra. O João pertencia ao grupo de homens que iam ao leito ao Mato e tocou clarinete na filarmónica a Senhora da Saúde.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por picodavigia2 às 00:35

MÃO MORTA

Terça-feira, 12.11.13

Mão morta, mão morta

Mão morta, mão morta

Esta é a minha porta

Mão morta, mão morta

Mão morta, mão morta

Vai bater a outra porta.

 

(Aravia popular fajãgrandense, usada pelas crianças para justificarem dar uma bofetada noutro)

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

tags:

publicado por picodavigia2 às 00:34





mais sobre mim

foto do autor


pesquisar

Pesquisar no Blog  

calendário

Novembro 2013

D S T Q Q S S
12
3456789
10111213141516
17181920212223
24252627282930