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SERNANCELHE E A LENDA DO SANTUÁRIO DA LAPA

Terça-feira, 26.11.13

Com uma área 222 Km2 e 16 freguesias, o concelho de Sernancelhe pertence ao Distrito de Viseu e fica encravado numa zona montanhosa situada entre o planalto da Nave, a ocidente, e a serra de S. Gens, a oriente, sendo atravessado, de sul a norte, pelo rio Távora, afluente do Douro. A vila e região de Sernancelhe têm as suas origens históricas no castro do Monte Castelo, sobranceiro ao rio Medreiro. Espalhados pelo concelho, existem inúmeros vestígios históricos e testemunhos vivos da época castreja, verificando-se, também, uma clara influência da dominação romana em pontes, estradas, cipós (marcos de divisão do território) marcos miliários (marcos de divisão das estradas), restos de cerâmica e muitos outros.

A fundação do município é anterior à Nacionalidade. O primeiro foral remonta a 1124, sendo assinado pelos ricos-homens D. Egas Gosendes e D. João Viegas. Sernancelhe também foi “Honra” de Egas Moniz. Mas foi sobretudo nos séculos XV e XVI que houve grande desenvolvimento da região, durante os quais se foram firmando, importantes locais de culto, dotados de notáveis obras de arte. O mais célebre foi o Santuário da Lapa, ao qual se associou mais tarde o célebre colégio dos jesuítas, onde estudou Aquilino Ribeiro, local de peregrinações a que os fiéis acorriam com ricas e generosas ofertas. Daí que um dos locais de interesse a visitar em Sernancelhe é, entre muitos outros, na freguesia de Quintela, o Santuário da Lapa que guarda, na capela-mor, o rochedo milagroso com a imagem da Senhora da Lapa, cujo altar foi construído precisamente no local onde, segundo a lenda, a pastora Joana encontrou a imagem escondida pelas religiosas, numa gruta ou lapa, no século X. Segundo reza a lenda, Joana era uma criança muda que andava pelos campos a cuidar do rebanho de seus pais. Ao chegar a casa mostrou a imagem à mãe. Esta porém não lhe deu importância e lançou-a à fogueira. Nessa altura a pastora recuperou a fala e a mãe, aflitíssima, atirou-se ao lume e conseguiu recuperar a imagem. A fama deste e doutros milagres espalhou-se por toda a Beira Alta, ganhando grande importância simbólica e religiosa. Dentro do Santuário ainda existe um rochedo com uma fresta bastante apertada, por onde os fiéis devem passar, só conseguindo fazê-lo quem estiver em estado de graça e ainda um enorme crocodilo, pintado de verde, actualmente guardado nas traseiras do templo.

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publicado por picodavigia2 às 20:45

CALMARIA

Terça-feira, 26.11.13

(UM POEMA DE PEDRO DA SILVEIRA)

 

Verão. Dois velhos

Sentados à Praça.

Lembram casos dos tempos das baleias

E vêem quem passa.

 

Um vapor que lá vai

Pela linha do pego, lado a lado.

E uma chuva de sol

No mar parado.

 

Dir-se-á que nada

Acaba ou começa.

Um relógio dá horas.

Devagar. Molemente. Não tem pressa.

 

Pedro da Silveira In “Primeira Voz”

 

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publicado por picodavigia2 às 19:31

O "BANHO" DA SENHORA DA SAÚDE

Terça-feira, 26.11.13

Desde há décadas, talvez mesmo séculos que a paróquia da Fajã Grande das Flores e as suas gentes prestam uma expressiva e glorificante homenagem à Virgem Nossa Senhora, sob a invocação de Senhora da Saúdem, consubstanciando-a numa das maiores e mais importantes festas da ilha. Outrora celebrada no dia oito de Setembro, dia em que a Igreja Católica comemora a festa litúrgica da Natividade ou do nascimento da Mãe de Deus, a festa passou a celebrar-se, desde há alguns anos, no segundo domingo de Setembro. A actual imagem, que se reporta parcialmente ao início da década de cinquenta, representa a Virgem com uma digna e virtuosa simplicidade: de mãos postas, vestida com uma túnica cor-de-rosa e um manto azul e com uma coroa dourada na cabeça.

A antiga imagem, no que respeita à sua forma, aspecto ou desenho, era rigorosamente igual à actual, sendo, no entanto, muitíssimo diferente no que à sua pintura diz respeito, Tratava-se de uma bela, artística e valiosíssima imagem, bastante semelhante à actual Senhora do Rosário, que ainda existe num dos altares laterais da igreja paroquial, mas sem rosário e sem o Menino, pintada a ouro em estilo barroco. Uma autêntica e verdadeira obra de arte, ou seja uma imagem com um notável valor histórico.

No início da década de cinquenta, por indicação de algumas pessoas mais importantes ou com maior influência na freguesia e mais afectas à igreja e com o apoio económico de um ou outro americano, o pároco da freguesia, na altura, entendeu que se tratava duma imagem “velha, estragada e sem graça nenhuma”. Muitos paroquianos partilhavam a mesma concepção e apoiaram a ideia do pároco. Havia pois que mudá-la, torná-la moderna e, sobretudo, mais bonita. Comprar uma nova não era fácil e o povo podia não gostar. Por isso a solução foi dar-lhe uma espécie de “banho” e reciclá-la ou seja mandar pintá-la com umas cores alegres, garridas que toda a gente gostasse, o azul celeste e o cor-de-rosa, o primeiro, simbolicamente, puro e o segundo, caracteristicamente, feminino. E lá seguiu Nossa Senhora da Saúde, muito bem embalada, dentro de um caixote, protegida com trapos velhos e papelões a bordo do Carvalho Araújo, com destino a Braga, para regressar uns meses depois, bonitinha, airosa, pintadinha de fresco, com as tais cores alegres, garridas, bonitas puras e femininas que ainda agora ostenta.

  A mim não me repugna imaginar que o pintor a quem foi destinado aquele trabalho de pintar a imagem com cores modernas, ou alguém por ele, tivesse a sensibilidade artística necessária e suficiente para entender o valor artístico daquela imagem e, em vez de a pintar ou melhor de destruir a pintura primitiva, a tivesse guardado nalgum museu de arte sacra ou vendido para algum coleccionador de arte antiga, limitando-se a fazer uma outra imagem “fac símile”, pintando-a com as cores desejadas e que remeteu para a Fajã Grande como se fosse, de facto, a verdadeira imagem da Senhora da Saúde.

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publicado por picodavigia2 às 16:25

HUMBERTO BETTENCOURT

Terça-feira, 26.11.13

Humberto de Bettencourt Medeiros e Câmara nasceu na cidade de Ponta Delgada, em 31 de Janeiro de 1875, tendo falecido na mesma cidade em 23 de Dezembro de 1963. Depois de adquirir o bacharelato em Direito pela Universidade de Coimbra, regressou à sua cidade natal, desistiu da advocacia, seguindo uma carreira de professor do ensino secundário no Liceu de Ponta Delgada e na Escola Normal. Jornalista, nos últimos anos da Monarquia, dirigiu o Correio Micaelense, órgão do Partido Progressista. Foi o primeiro presidente da direcção do Instituto Cultural de Ponta Delgada e seu fundador com outros.

Ainda estudante do liceu, em 1894, fundou com outros alunos a revista Exoterismos, órgão dos simbolistas e depois, em Coimbra, acamaradou com Afonso Lopes Vieira, Eugénio de Castro e Carlos Mesquita. Acabou por se afastar do simbolismo e, regressado a S. Miguel, converteu-se ao neogarretismo e, mais tarde, ao nacionalismo literário. A sua obra manteve-se dispersa por muitos anos, acabando o próprio autor por recolhê-la, numa antologia, em 1955 - A Ilha Nova e Outras Rimas Esparsas.

 

Dados retirados do CCA – Cultura Açores

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publicado por picodavigia2 às 14:55

FONTE VERMELHA

Terça-feira, 26.11.13

Encravada na rocha,

a abarrotar frescura,

vertendo,

sem cessar

um fio cristalino,

diáfano,

ornado

com o perfume

do poejo

e o sabor

da nêveda.

 

Encravada na rocha,

a ejacular

em bica

- um tufo negro

fofo e macio

onde os pássaros pousam

sem temor –

a essência doce

das flores selvagens

e dos bosques refrescantes.

 

Encravada na rocha

à espera

que cada caminhante,

cansado

e sequioso

a demandasse

e nela,

definitivamente,

saciasse a sua sede

 

Fonte Vermelha!

Um mito perdido no tempo.

 

 

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publicado por picodavigia2 às 11:19

OS TRABALHOS, AS CANSEIRAS E O FIM DA MINHA BENFEITA (DIÁRIO DE TI’ANTONHO)

Terça-feira, 26.11.13

13 de Novembro de 1946

“Que saudades eu tenho da minha Benfeita. Era o meu “ai Jesus”. Era uma vaca lavrada de preto e branco, com um pelo muito luzidio e um andar muito elegante. Boa de leite e sempre pronta a puxar o arado ou o corção.

Nasceu e foi criada no meu palheiro. A sua mãe era uma vaca toucada que tive durante muitos anos e o pai, um belo touro de meu compadre Mateus. Bem cedo percebi que daquela bezerra se havia fazer uma boa vaca de leite. Não me enganei. Apanhou cria muito nova e logo na primeira vez que pariu, deu-me a lata grande de 12 litros, a transbordar de leite.

Coitadinha! É que cedo, ainda era bezerrinha, meti-lhe a canga e habituei-a ao trabalho. A valente nunca me virou a cara às sementeiras, ao lavrar dos campos ou ao puxar o “corsão” de canguinha, bem carregado, umas vezes de lenha, outras de milho e outras de feitos e cana roca. Ainda nem tinha um ano e já calcorreara o cerrado do Areal três vezes. A primeira faina era a mais árdua e desgastante. A terra estava coberta duma camada de estrume que ela havia carreado, dias a fio. Tornava-se muito rija com os rigores climatéricos do Inverno, por isso tinha que ser lavrada com o arado de ferro, muito mais pesado e com umas aivecas gigantes que perfuravam a terra em grandes sulcos. Mas aquela valente tinha que o puxar de canguinha. Ela lá ia pacientemente, lutando contra a força opositora dos regos sulcados pelo arado e contra os impropérios, insultos, ameaças e, por vezes vergastadas que lhe dava. Pobre coitada! Agora bem me arrependo. Eram horas e horas de trabalho, de esforço e canseiras. No fim estava exausta. Da boca escumava-lhe uma baba esbranquiçada que lhe caía em fios sobre a terra fresca, o corpo cobria-se-lhe de suores, sentia vertigens, quase desfalecia. É verdade que no fim lhe passava a mão pelo lombo, lhe anafava os pelos, lhe fazia uns carinhos e lhe dava umas maçarocas de milho, o que servia de lenitivo para o enorme desgaste e sofrimento. Sim, porque os animais também sofrem e não se queixam. Depois seguia-se o puxar da grade, tarefa não menos árdua do que a anterior, embora bastante mais rápida. É que a terra não podia ficar assim cheia de leivas e torrões, a aquecer ao Sol. Amarrava-a então à uma grade, cravejada de enormes bicos de ferro de um dos lados. Do outro lado colocava-lhe enormes pedregulhos a fim de que os dentes de ferro penetrassem na terra e a alisassem. Passados dois ou três dias a Benfeita voltava ao serrado do Areal. Agora era encangada ao arado de madeira muito mais leve e com uma pequena aiveca de madeira com uma luzidia ponteira de ferro que ia abrindo pequenos regos destinados à sementeira do milho. Eu voltava a atrelá-la ao arado e ela, sozinha e sem ninguém diante, traçava regos paralelos e simétricos de uma extremidade à outra do serrado. A minha Maria seguia atrás de nós e, retirando punhados de milho de uma cesta que levava enfiada no braço, atirava os grãos com tanta agilidade e perícia que eles caiam direitinhos no rego, muito bem alinhados uns à frente dos outros. A Benfeita parava quando era preciso alisar algum torrão com a aguilhada e virava no fim de cada rego que se fechava com o abrir do seguinte, tapando assim os grãozinhos que ali ficavam a germinar durante alguns dias. No fim voltavam os mimos e as maçarocas de milho pois esperava-a, mais uma vez, a grade. A terra tinha que ser de novo gradeada e alisada para que os grãos ficassem todos muito bem escondidinhos e assim germinassem mais facilmente.

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publicado por picodavigia2 às 11:13

O MILAGRE DA CHUVA

Segunda-feira, 25.11.13

(Conto Tradicional)

Era uma vez uma aldeia sem pároco, porque os paroquianos exigiam que só viria para a sua paróquia um padre que fosse capaz de, com as suas orações, fazer um milagre: sempre que os seus campos estivessem ressequidos e necessitassem de chuva, o padre, com as suas preces e orações havia de fazer o milagre de chover, dando assim fertilidade aos seus campos a fim de produzirem boas colheitas.

Ora um dia apresentou-se na aldeia um sacerdote, jurando a pés juntos que seria capaz de fazer o milagre, pois, quando todos eles estivessem de acordo e necessitassem de chuva, a chuva havia de cair de imediato sobre os seus campos, por sua intersecção. O povo acreditou e aceitou-o na paróquia. Dias depois apareceram alguns paroquianos pedindo-lhe chuva pois os seus campos estavam secos e os seus animais morriam à sede. O padre aceitou o pedido mas disse-lhes que teria que reunir todos os paroquianos no dia seguinte, para ter a certeza de que estavam todos de acordo.

 Assim fez e, no dia seguinte, explicou perante todos o pedido daquele pequeno grupo de paroquianos. Depois perguntou-lhes se estavam todos de acordo, isto é, se todos queriam a chuva. Se caso estivessem ele ia fazer o milagre no dia seguinte.

Mas de acordo é que os paroquianos não estavam. Uns queriam a chuva uma semana mais tarde, outros, duas, alguns três e outros daí a meses.

O pároco então avisou-os:

- Ponham-se de acordo, pois só quando todos concordarem é que posso fazer o milagre.

 O mesmo aconteceu com o segundo pedido, com o terceiro e com muitos outros: os paroquianos afinal nunca estavam todos de acordo quanto ao tempo em que queriam ou não queriam a chuva e assim o pároco, para espanto dos seus colegas vizinhos, permaneceu muitos anos naquela aldeia.

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publicado por picodavigia2 às 21:48

PORCO E GENRO

Segunda-feira, 25.11.13

 “”Ao porco e ao genro só se mostra a casa uma vez.”

Adágio fajãgrandense a revelar o “mau relacionamento” por vezes existente, sobretudo, entre sogra e genro, tentando precaver-se contra o mesmo.

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publicado por picodavigia2 às 19:55

O DESCANSADOURO DO CIMO DA LADEIRA DO CALHAU MIÚDO

Segunda-feira, 25.11.13

Um dos mais importantes, talvez mesmo o mais útil dos descansadouro da Fajã Grande era incontestavelmente o que se situava no Cimo da Ladeira do Calhau Miúdo. Útil e importante porque era ali que descansavam todos os homens que vinham carregados com os pesadíssimos molhos de erva, ainda molhada e a pingar-lhes pelos ombros abaixo, que todas as madrugadas iam ceifar para as lagoas da Ribeira das Casas, dos Moinhos, do Rego do Burro, das Covas, da Rocha do Vime e até dos lados da Ponta. Eram grupos e grupos de homens que caminhavam em coluna pelo caminho e que depois de subir a íngreme e comprida ladeira do Calhau Miúdo, sentiam uma insaciável necessidade de poisarem os molhos sobre as paredes das terras da Cambada e se sentarem a descansar numas toscas banquetas ali construídas ou nuns calhaus soltos que por ali proliferavam, uns colocados ali de propósito outros caídos das altas paredes circundantes. Para além de útil e importante este descansadouro proporcionava aos que ali se sentavam, usufruir de duas belas vistas: uma a norte com a ampla planície da Ribeira das Casas, do rolo e do Vale do Linho a impor-se lado a lado com o oceano e o Monchique lá ao fundo e as casinhas da Ponta, acolhidas à volta da igreja e como que encastradas no sopé da Rocha; outra a Sul, com a Fajã a servir de cenário muito bem alinhadinha entre o Pico da Vigia e o Outeiro. Simplesmente maravilhoso!

A importância deste descansadouro advinha-lhe também e sobretudo pelo facto de ele se situar no cimo duma ladeira, enquanto quase todos os restantes descansadouros da Fajã se localizavam em terrenos planos ou então em ladeiras como as do Batel, da Silveirinha ou do Espigão mas que os homens, em vez de subir, desciam quando carregados com molhos, cestos ou outras cargas. Ali, no Calhau Miúdo era precisamente ao contrário, isto é, os homens subiam a ladeira carregando tudo o que as terras davam para aqueles lados, pois para além dos encharcados molhos de erva, ainda acarretavam às costas cestos de milho ou de inhames da Ribeira das Casas e do Rego do Burro, molhos de incensos ou de lenha das Covas, sacos de batatas daqui e de além e até as moendas que se iam levar moinho ti Manuel Luís. Além disso era também ali que parava, não apenas para descansar mas até para dar dois dedos de conversa e partilhar novidades e mexericos, muita gente da Ponta, nas suas vindas e idas à Fajã para tratar disto ou daquilo ou até no regresso das suas viagens provenientes de locais mais longínquos, como seja das Lages ou da Vila. O descansadouro do Cimo da Ladeira do Calhau Miúdo até servia às gentes da Ponta como local de espera dos passageiros vindos em dia de Carvalho Araújo.

 

Por estes dias procurei o descansadouro do Cimo da Ladeira do Calhau Miúdo, ali mesmo ao lado da casa do Manuel Branco. Procurei mas não o encontrei, por uma razão muito simples: porque ele simplesmente já não existe, nem sequer uma única pedra dele ali se pode ver, a não ser alguma que eventualmente esteja escondida debaixo dos muros de cimento que actualmente ladeiam grande parte da rua da Tronqueira, no local onde outrora existiu o mais importante e mais útil e um dos mais belos descansadouro da Fajã Grande.

O descansadouro do Cimo da Ladeira do Calhau Miúdo é hoje um mito perdido no tempo, talvez apenas guardado na memória de alguém que também por ali passou, outrora, carregado com um pequeno molho de erva a pingar-lhe por todo o corpo, cansado, desgastado, molhado e desfeito, ansioso por ali colocar o pesado fardo que trazia aos ombros e dele aliviar-se durante alguns minutos, sentando-se, de seguida, não apenas para descansar mas também para conversar com algum amigo

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publicado por picodavigia2 às 18:01

VACAS DE MADEIRA

Segunda-feira, 25.11.13

Quando eu era criança, a minha principal brincadeira eram as vacas. Tentando imitar a actividade quotidiana dos adultos, fazia-as com o material mais diversificado e de todos os tamanhos, formas, cores e feitios. Umas vezes construía-as com todo e qualquer objecto que se lhes assemelhasse, desde os sabugos de milho às vagens das favas, outras, simplesmente, imaginava-as. Mas foi precisamente quando o meu tio Luís reconstruiu e assoalhou a sua casa na Via d’Água, que o meu pueril e jocoso pecúlio, em termos de bovinos enriqueceu substancialmente e o meu currículo recreador se transformou, melhorando a olhos vistos.

Das pontas das tábuas que sobraram do soalho, havia eu de encontrar um pequeno rectângulo de madeira. Como tudo o que via se me assemelhava a vaca ou a algo que nela se transformasse, aquele minúsculo toro permitiu-me logo concluir que, depois de devidamente trabalhado, transformar-se-ia numa linda vaquinha e, assim, eu havia por termo definitivamente a sabugos, favas e a vacas virtuais. Para facilitar o meu trabalho, o pedacinho de madeira era de criptoméria e, consequentemente, muito mais dúctil e fácil de trabalhar com um pequeno e frágil canivete.

 Mal tinha começado a executar o plano arquitectado, quando meu tio se apercebeu das minhas intenções. Vendo que eu não atava nem desatava, aproximou-se de mim, olhou o pequeno paralelepípedo e perguntou-me:

- O que queres fazer com isto?

- Uma vaca. – Respondi, de imediato.

Então meu tio, sem dizer palavra e cheio de paciência, tirou-me das mãos aquele pedacinho de criptoméria e com uma navalha, bem melhor do que o meu canivete, e com outras ferramentas que o carpinteiro ali deixara, cortou, falquejou, aplainou, arredondou, raspou, alisou e em breve o transformou no corpo de um bovino com cabeça e tudo. Depois fez-lhe quatro buraquitos na barriga, espetou-lhes outros tantos pauzinhos a fazer de pés e pregou-lhe duas tachas na cabeça a simular os cornos com as respectivas cabeças a parecerem ponteiras. Para que a obra ainda ficasse mais perfeita, bela e completa pregou-lhe um pedacinho de corda fina, na parte de trás a fazer de rabo. Uma perfeição suprema! Uma obra de arte! Uma vaca como eu nunca imaginara possuir. Coloquei-a no chão. Só lhe faltava andar. Agora concluía que era realmente o fim da era dos sabugos, das favas e das vacas virtuais.

Regressei a casa feliz e guardei muito bem a minha “Formosa”, pois era assim que ela se havia de chamar. Fiz-lhe um palheiro, com manjedoura, rego, poça e tudo.

Mas uma vaca era pouco para as minhas brincadeiras quotidianas. Necessitava pelo menos de duas e um ou dois bezerros. É verdade que arranjei umas tiras de madeira, mas duras e pouco adequadas. É verdade que fiz dois ou três bezerros e uma vaca, mas esta saiu-me um autêntico “cramilhano”. Feia, magra, mal feita, quase não se aguentando em pé. Parecia realmente uma autêntica vaca velha, sobretudo porque ao lado da outra, da “Formosa” que era nova e bonita. Mas eram ambas as minhas vacas de madeira com as quais brinquei tantos anos e que hoje gostava muito de voltar a possuir

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publicado por picodavigia2 às 17:04

PELO SINAL

Segunda-feira, 25.11.13

Pelo sinal

Do pico real

Comi toucinho

Não me fez mal nenhum

Se mais tivesse

Mais comia

Adeus senhor padre

Até outro dia.

 

(Aravia popular fajãgrandense)

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publicado por picodavigia2 às 16:39

A ORIGEM DOS ERROS

Segunda-feira, 25.11.13

“Metade dos nossos erros, na vida, nascem do facto de sentirmos quando devíamos pensar e pensarmos quando devíamos sentir.”

(J. Collins)

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publicado por picodavigia2 às 16:06

HOJE

Segunda-feira, 25.11.13

Passaram-se anos, muitos e muitos anos. Mas enfim! Hoje foi possível regressar à Fajã e voltar a ver, lá bem no alto, o “Pico da Vigia”, dos meus tempos idos, mas ainda hoje a manter-se como que coroado com a pequenina vigia da baleia e observar o seu companheiro de sempre, paralelo na direcção do mar, o “Outeiro”, encimado com uma enorme e altiva cruz, cuja origem se desconhece porque perdida no tempo. Por entre um e outro continuam a desfilar, destemida e ousadamente, as pequenas mas sorridentes, casas da Assomada, umas brancas de neve outras velhas, escuras e abandonadas e até a esmoronarem-se de tão antigas e desertificadas. Mas muitas, mesmo muitas das que por ali proliferam são novas, estranhas, desconhecidas, a substituir os antigos milheiras das pequenas mas férteis terras circundantes. Outras, mas mesmo muitas outras, lá para baixo, a transformarem em bairros os amplos e produtivos cerrados do Porto, do Estaleiro, do Calhau Miúdo, das Furnas e até do Areal, ou simplesmente a entrelaçarem-se por entre as velhinhas moradias da Tronqueira e da Via de Água, muito bem demarcadas e delineadas mas a confundirem sentimentos e a desfazerem memórias. A Fajã das sete ruas com duas casas no Porto e uma no Alagoeiro, esfumou-se no tempo, desapareceu. E hoje, ao lado das vivendas de ontem, dos obsoletos e decrépitos palheiros, agora recuperados e transformados em cafés e restaurantes e das casas velhas ou de arrumos recicladas e a abarrotar de uma graciosidade estranha e de um tradicionalismo inexaurível, surge uma gama de novas e estranhas moradias. E lá ao fundo, o mar permanece azulado e roufenho e o baixio, outrora negro e empedernido a abarrotar de lapas e sargaços, agora surge mais calmo e tranquilo, com os seus caneiros, baías e portos transformados em piscinas naturais, quais redutos de água salgada, rodeada de muralhas de cimento que foram aniquilando a sua pertinente e intrínseca negrura e desfazendo o seu brilho lávico e bassáltico. Campos de milho a abarrotar de cizânias e junquilho, courelas de batata-doce atulhadas de feitos e heras, pastagens transformadas em campos de cana roca e incensos esguios. Canadas obstruídas por ervas e silvados, veredas desfeitas e a abarrotar de pedregulhos soltos, caminhos tapados com calhaus e penhascos e descansadouros perdidos na memória dos mortais. Até as altas, rústicas e estranhamente arquitectadas paredes da ladeira do Batel, a própria laje da Silveirinha e o Calhau das Feiticeiras se transformaram em mitos, desfeitos pelo tempo e calcificados pela memória de muitos mas que, apesar de tudo, ainda espreitam teimosamente um ténue regresso à memória dos vindouros. Já não se ouve o tilintar das campainhas das vacas, o chiar dos carros de bois ou o arrastar das alabaças dos corsões sobre as lajes calejadas dos caminhos, apesar de ainda haver cangas e tamoeiros a ornamentar as paredes dos snak-bares. Já não há vergas na rocha, nem moinhos impulsionados pela força jactante das águas, já não se pescam vejas, nem enchovas ou bicudas na ponta do Cais, mas no Porto Velho e na Coalheira ainda há respingos de salmouro e vagas revoltas com os ventos do oeste. Até na igreja paroquial, Santa Teresinha foi colocada no fundo do transepto, o Coração de Jesus mudou de altar e a Senhora do Carmo foi engavetada na sacristia. Nas ruas apenas um ou outro rosto de outrora. É uma Fajã, ora desfeita, ora alterada, ora teimando em manter-se nas roupagens e costumes de antanho mas a querer banhar-se nas exigências duma modernidade cerceada pelos imperativos do isolamento, da desertificação e do abandono.

Talvez por isso mesmo e juntamente com o Pico da Vigia e o com Outeiro, ainda lá, mais no alto, esteja a rocha, altiva e imponente, a ufanar-se com a Fonte Vermelha e a pavonear-se da Furna do Peito, com inúmeras quedas de água a banharem-lhe penhascos e ravinas e a irradiar uma beleza, uma imponência e uma sublimidade contagiantes. Também ainda lá está o mar com o Monchique bem escarrapachado no meio, com a Baixa-Rasa ao lado, a Poça das Salemas a abarrotar de lapas e caranguejos e o Rolo à espera da chegada do sargaço. Também ainda há torresmos, morcela, linguiça e inhames, mas confesso a minha tamanha estupefacção por estranhamente me ter banqueteado com eles, ali, no abandonado palheiro do João Fragueiro, em frente à Casa do Espírito Santo de Baixo, onde funcionava a escola primária e que servia de latrina a quantos a frequentaram na década de cinquenta.

 

Texto publicado no Pico da Vigia em 4/9/11

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publicado por picodavigia2 às 15:00

A ÚLTIMA GANHOA A PARTIR

Segunda-feira, 25.11.13

O mar mudou de cor

e  entristeceu-se.

Partiu mais uma ganhoa,

mascarada de vento,

na penumbra duma procela.

 

Apenas a imagem

- uma sombra trémula -

ficou desenhada no chão do cais,

pétreo e deserto!

 

Depois partiu outra

e mais uma outra…

Tantas…

 

O mar sempre a transtornar-se

e o cais pejado de sombras trémulas.

 

Partiu a última ganhoa!

Chegou o inverno

e tudo se vestiu

de ausência

 

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publicado por picodavigia2 às 11:59

A MINHA CASA

Segunda-feira, 25.11.13

A minha casa, ou melhor a casa onde eu nasci, era ali na Assomada, (na Fajã Grande) à beirinha do caminho, muito pobre e pequenina, mas desvanecedora e alegre, rodeada de minúsculos campos onde floresciam girassóis misturados com milheirais e de courelas onde cresciam batatais intercalados com couves e abóboras, circundada por muitas outras casas também pobres e pequeninas, semelhantes à minha e onde moravam as minhas vizinhas, agastadas por trabalhos e canseiras, com o xaile a cobrir-lhes o cocuruto, mas sempre prontas a ajudar, a aconselhar, a disponibilizar préstimos, a conceder favores e muito amigas da minha mãe. A casa onde eu nasci tinha as paredes carcomidas pelo tempo, soalho esburacado e telhas levantadas pelo vento, mas tinha as janelas voltadas para o mar e as portas abertas para a madrugada. A minha casa tinha um quarto onde, junto à cama de meus pais, balouçava um berço, atávico valhacouto da nossa meninice, que nos ia embalando para a vida, uns após os outros. E também tinha uma sala muito ampla, mas com cadeiras a desfazerem e caixas onde se guardavam as roupas que vinham da América e as colchas tecidas no tear, mas que era muito clara e arejada. A minha casa tinha uma cozinha, esconsa e de paredes tisnadas, a abarrotar de fumo e cheiro a leite e pão de milho. A minha casa tinha uma loja onde dormia a Benfeita, a Trigueira e os seus filhotes. A minha casa tinha um pátio onde eu brincava, onde minha mãe punha a roupa a “coarar” e onde ela assomava, vezes sem conta, para dar dois dedos de conversa às vizinha ou para lhes pedir umas folhinhas de salsa. A minha casa era a minha casa, mas muito minha, toda minha, pois foi nela que nasci, brinquei, cresci e entendi que mesmo sendo pobre e pequenina era a minha casa.

E quatro décadas de tempo desfizeram a minha casa toda, de uma ponta à outra e do alto a baixo! Lançaram sobre ela um temível vendaval que a transformou, que a desfez por completo, ocultando-a de meus olhos, destruindo sonhos, emoções e desejos. Mas, mesmo desfeita, transformada, a minha casa ainda lá está, no mesmo sítio, à beirinha do caminho. Mas na minha casa já não há berço, nem cadeiras velhas, nem claridade, nem portas abertas para as madrugadas, nem janelas a abrirem-se para receber refolgos de maresia. Na minha casa já não há paredes carcomidas, nem chão esburacado, nem cheiro a bolo quente e a queijo fresco. A minha casa já não tem pátio, nem loja, nem Benfeita, nem bafo dos animais ou o tilintar das suas campainhas. Ao redor da minha casa já não existem campos repletos de milheirais a sorrirem como os girassóis floridos, nem bardos de faias do norte a separar os campos e protegê-los do vento norte. Ao redor da minha casa já não há vizinhas, nem velhinhas a visitar a minha mãe e disponibilizar-lhe préstimos e ajuda. Pior do que isso: a minha casa tornou-se uma espécie de chão deserto, um catafalco vácuo, um mistério petrificado, um enigma indecifrável e, como se isso ainda não bastasse, a minha casa até deixou de ser a minha casa.

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publicado por picodavigia2 às 10:53

MARIANA ANDRADE

Domingo, 24.11.13

Mariana Belmira de Andrade nasceu nas Velas, ilha de S. Jorge, em 31 de Dezembro de 1844, tendo falecido naquela vila jorgense em 17 de Fevereiro de 1921. Mariana de Andrade é considerada uma poetisa da geração realista. Recebeu a educação própria de uma rapariga do seu tempo da média burguesia de província - instrução primária, línguas, uns rudimentos de música - e forrageou, por si mesma, o lastro literário que completou a sua formação intelectual. Possuía um carácter indómito e pouco sociável e assumia-se andrófoba e refractária ao casamento. Não deixou, porém, de casar, ainda que só aos 34 anos, suportando por muito pouco tempo o que ela chamava a «treva do himeneu». O seu génio insubmisso levou-a, com efeito, a separar-se do marido antes de concluído um ano de vida em comum, logo a seguir ao nascimento do primeiro filho. Uma vez liberta dos laços matrimoniais, habilitou-se então ao Magistério Primário e dedicou-se, daí em diante, ao ensino das primeiras letras. Sentiu «bafejar-lhe a fronte / o fogo da inspiração» sob o signo do Romantismo, mas rimou os primeiros «devaneios» poéticos já sem sacrificar a Eros, por o «orgulho de mulher» lhe tornar defeso o prazer do amor e não achar «o homem assunto digno de verso». Mais tarde encontraria melhor ou mais propícia inspiração, ao afinar a lira pelo diapasão da poesia de combate. Passou, então, a apostrofar o trono e o altar em alexandrinos acerbados de paixão iconoclasta e a exaltar, no mesmo tom, o proletariado, o «escravo do trabalho», que, sobre o ombro, qual «Atlas portentoso», erguia a «mole formidável» do futuro. Por fim, em consequência do atentado que vitimou o rei D. Carlos e o príncipe D. Luís Filipe, abjurou as suas ideias revolucionárias e reconciliou-se com a igreja católica. Publicou duas colectâneas poéticas: Fantasias e A Sibila e alguns extractos de um romance intitulado A Esfinge, espécie de autobiografia romanceada, no jornal A Ilha Graciosa.

 

Dados retirados do CCA – Cultura Açores

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publicado por picodavigia2 às 23:05

AOS SALTOS NAS ILHAS

Domingo, 24.11.13

Ontem, numa viagem entre o Pico e o Porto, andei aos saltos de ilha para ilha, fui forçado, a uma paragem, devidamente programada, na ilha de São Miguel, onde pernoitei.

Na realidade, quem visita os Açores, vindo da Europa ou da América, está forçado a esta espécie de “saltos” de ilha para ilha, a fim de chegar ao destino pretendido. Na vinda, do Porto para os Açores, há quinze dias, os “saltos” que tive de efectuar para chegar ao Pico, ainda foram mais numerosos, embora menos demorados. Saindo do Porto num Boing da SATA, que até confundira com o charter da mesma companhia que seguia para São Petersburgo com os jogadores do Futebol club do Porto, depressa se iniciaram os saltos - São Miguel, Terceira, Pico, este, com a especificidade de se efectuar por cima de São Jorge. Curiosamente esta ilha, juntamente com a Graciosa, não beneficiam de voos oriundos do Faial ou do Pico. Assim, quem viajar entre o Faial e uma ou outra destas ilhas terá que o fazer também aos “saltos” sobre outras ilhas, nomeadamente sobre a Terceira. Mas como, quer a Graciosa, quer São Jorge estão, geograficamente, mais perto do Faial, sendo a Terceira mais afasta, exigindo, por isso, um percurso aéreo mais longo, quem viaja do Faial para a Graciosa paga menos do que se viajar para a Terceira. Sendo assim há que aproveitar e pelos vistos já houve quem, pretendendo ir para a Terceira comprou bilhete para a Graciosa. Ao fazer a programada escala na Terceira, mandou às urtigas o seu estatuto de passageiro de trânsito, abandonou o aeroporto, pois apenas levava bagagem de mão e fixou-se na Terceira, durante o tempo que quis e entendeu..

No entanto, estes “saltos” entre as ilhas tem as suas vantagens. Primeiro em termos paisagísticos permitem aos passageiros observar paisagens de uma beleza rara e inconfundível, das quais ressalta o quadro natural e telúrico da imponente montanha do Pico, plantado sobre um almofadado tapete de nuvens. Lá do alto, muito acima das nuvens, na viagem de São Miguel para a Terceira, pouco depois de se abandonar a ilha do Arcanjo, vê-se com uma nitidez invejável, aquele triângulo de lava, lá bem espetado sobre o esbranquiçado das nuvens. Uma outra vantagem que este saltitar de ilha para ilha nos oferece é o de nos permitir ir saboreando, delirantemente, os perfumes e sobretudo os sabores que emanam e se evaporam de cada ilha, como o anás com a morcela ou os variados licores de São Miguel, o bolo lêvedo e a doçaria variada da mesma ilha, a alcatra e os torresmos da Terceira, a linguiça e os inhames do Faial, o feijão assado e as queijadas da Graciosa, o queijo de São Jorge, o caldo de peixe e a molha de carne do Pico, mesmo que não se chegue a sair do aeroporto. Depois há os recuerdos e as lembranças, os acepipes e as bugigangas, as bebidas e os doces que se vendem nos aeroportos, o encontro com um ou outro amigo e, sobretudo, a simpatia contagiante dos ilhéus.

Ontem, ao entrar no táxi, entre o aeroporto e o hotel, o taxista, imediatamente, após fechar a porta, deu o pontapé de saída a um diálogo amigo e simpático, indagando sobre a viagem, a origem do voo, o estado do tempo…

- Do Pico! – Exclamou, entusiasmadíssimo. – É a melhor e a mais bonita ilha dos Açores!

Claro! E esclareceu de imediato que era natural do Pico e, para cúmulo, com raízes profundas em São Caetano.

 

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publicado por picodavigia2 às 22:25

O VELHO AMBICIOSO

Domingo, 24.11.13

CONTO TRADICIONAL

 

Um Velho tinha um filho muito trabalhador. Não podendo ganhar a vida como desejava em sua terra, o rapaz despediu-se do pai e seguiu viagem para longe a fim de trabalhar.

A princípio mandava notícias e dinheiro mas depois deixou de escrever e o velho julgava-o morto.

Anos depois, numa tarde, chegou à casa do velho um homem e pediu abrigo por uma noite. Durante a ceia conversou pouco e deitou-se logo para dormir. O velho desconfiando que o desconhecido trazia muito dinheiro, dentro de uma mala, resolveu matá-lo.

Pensou muito mas acabou cedendo à ambição e à tentação, assassinando o hóspede. De seguida, para que ninguém descobrisse o seu crime, enterrou-o no quintal da sua casa. Voltou para a sala e abriu a mala do morto. Encontrou ali as provas de que se tratava do próprio filho, agora rico, e que vinha fazer-lhe uma surpresa.

Cheio de horror, foi entregar-se à justiça e morreu na prisão, carregado de remorsos.

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publicado por picodavigia2 às 21:13

NUNCA VOLTAM

Domingo, 24.11.13

"Há três coisas que nunca voltam atrás: a flecha lançada, a palavra pronunciada e a oportunidade perdida"

(Provérbio Chinês)

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publicado por picodavigia2 às 15:14

CORTEJO ETNOGRÁFICO NAS LAJES DO PICO

Domingo, 24.11.13

Embora escrito no final de Agosto do ano transacto e publicado mo meu blogue “Pico da Vigia, em 1 de Setembro, não resisto a divulgar aqui o seguinte texto:

Integrando o vasto, ambicioso e variado programa da Semana dos Baleeiros e da Festa da Senhora de Lurdes, realizou-se, no passado dia 27 de Agosto de 1011, nas Lajes do Pico, um aliciante e primoroso cortejo etnográfico.

Ao longo de quase duas horas, desfilaram pelas principais artérias daquela “Vila Baleeira” picoense, cerca de uma dezena de carros alegóricos, representando as seis freguesias do concelho e alguns lugares que integram as mesmas, cujos motivos ornamentais recordavam a vida, os costumes, os trabalhos e até alguns momentos de lazer das gentes do Pico, em tempos idos e que, apesar de não muito longínquos, começam a perder-se na memória das gerações actuais.

Os trabalhos agrícolas, nomeadamente o do cultivo do milho, da sua recolha e guarda nas “burras”, o debulhar das maçarocas, o levar a moenda ao moinho, a farinha moída e o bolo cozido no forno, foram temas de alguns dos carros, embora abordados de formas diferentes e sobre aspectos díspares. Outros carros preferiram tratar o trabalho de antanho relacionado com a criação de gado, o seu tratamento, a ordenha e o fabrico do queijo. Alguns carros, porém, ficaram-se pelas festas, como por exemplo a do casamento, enquanto outros recordaram os jogos de antanho, nos quais se incluíam os serões, durante os quais se jogava à sueca, se bailava a chamarrita, mas também durante os quis se trabalhava, quer na descasca do milho, quer no cardar e fiar da lã, ou até no fabrico de capachos com a própria folha do milho. Todos os carros, porém, estavam interessantemente ornamentados com produtos da ilha, nomeadamente com as belas flores de roca, revelando muita dedicação, apurada sensibilidade e acentuado bom gosto.

Um dos carros, precisamente o que abria o cortejo, no entanto, chamava mais a atenção, quer dos habitantes da vila, debruçados às varandas e janelas de suas casas, quer de muitos forasteiros perfilados pelos passeios e ruas da vila. Citando o blogue “Alto dos Cedros” do Emílio Porto “Com efeito, e logo no início, apareceu um dos quadros mais belos de quantos tem vindo às Lajes por estas festas, e este ano, verdade se diga, que foram todos bons”, tratava-se de um carro preparado e apresentado pela freguesia da Ribeirinha, que representava um quadro da vida daquele que foi um dos maiores vultos da cultura picoense e um dos mais altos dignitários da igreja açoriana – D. José Vieira Alvernaz, Arcebispo Metropolitano de Goa, Patriarca das Índias e Primaz do Oriente, recordando, assim, o 25º aniversário da sua morte. Natural da freguesia da Ribeirinha da ilha do Pico, formado na Escola Primária da Piedade, no Seminário de Angra e na Universidade Gregoriana de Roma, José Vieira Alvernaz, foi um dos grandes vultos da cultura açoriana, tornou-se num alto dignitário da igreja católica, recebendo a admiração das gentes da freguesia que o viu nascer, de quem se orgulham e que agora lhe prestou esta singela mas expressiva e digna homenagem.

Um facto a realçar neste cortejo e digno de nota foi a atitude do senhor presidente da Câmara das Lajes do Pico. É que normalmente, em ocasiões semelhantes, os presidentes de câmara e demais autoridades sentam-se num baldaquino simplesmente para “ver passar” o cortejo. Pois o edil lajense, dando um excelente exemplo de trabalho, dedicação e, até, de humildade, decidiu tirar a gravata, arregaçar as mangas e meter-se ao trabalho, andando por entre os carros, orientando, ajudando, apoiando a fim de que tudo corresse da melhor forma, como de facto aconteceu.

Outro aspecto muito interessante e algo inovador foi o do estabelecimento de comunicação entre os que desfilavam e público, criando-se ondas de empatia e comunicabilidade bem expressas na distribuição de pedacinhos de bolo e queijo e de outras vitualhas aos espectadores espalhados ao longo das ruas.

Pena que as freguesias dos outros dois concelhos da ilha não se tivessem associado a tão bela manifestação dos valores culturais, das tradições e costumes do Pico, o que, por certo, teria tornado este cortejo mais rico, mais belo e, quiçá, mais completo e abrangente.

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publicado por picodavigia2 às 15:06

ESMOLA MATEUS

Domingo, 24.11.13

“Esmola, Mateus,

Primeiro aos teus.”

 

Este era um adágio ou dito antigo muito utlizado outrora na Fajã Grande, com o qual se pretendia lembrar a quem quer que fosse que, nisto de fazer bem ou ajudar os outros, se deve sempre dar prioridade aos nossos familiares.

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publicado por picodavigia2 às 13:52

A POPULAÇÃODO PORTO

Domingo, 24.11.13

Finalmente, chegámos ao último grupo de casas, lá do fundo da Via dÁgua, ou seja, no Porto e já bem pertinho do mar. Antes, porém, impõem-se integrar neste último grupo, uma família que morava mais acima, junto à casa de João Inácio. Tratava-se também duma mãe solteira, a Luísa Vieira, que vivia juntamente com a filha, a Maria Fagundes e eram ambas excelentes pessoas e muito simpáticas.

As restantes famílias a integrar-se neste grupo eram as que moravam nas casas logo a seguir à última curva da Via d´Água. A primeira casa a referir pertencia a Tio Francisco Inácio, homem já de avançada idade mas sempre muito respeitado e tido em grande consideração por todos. Os filhos já haviam casado, excepto o António e o Luís, tendo alguns deles partido para a América. O António frequentara o Seminário de Angra, tendo-se ordenado presbítero em 1943, sendo na altura pároco da freguesia da Praia do Norte, na ilha do Faial. Destino semelhante teve o Luís, o mais novo, na altura, frequentando também o Seminário de Angra, vindo a ordenar-se alguns anos mais tarde, tendo, em seguida, partido para os Estados Unidos, onde se fixou definitivamente. Seguia-se uma casa desabitada, na qual, passados alguns anos, se fixou uma família vinda da Ponta.

Na última travessa da Via d’Água, do lado esquerdo de quem descia, moravam o Cardosinho, o Cristóvão e Tio Malvina.

O Cardosinho vivia numa pequena casa com a mulher e o filho. Era da idade de meu pai e um dos seus grandes amigos. Ajudavam-se bastante um ao outro, acompanhavam-se reciprocamente nas idas e vindas para os campos, dado que, por mera coincidência, tinham algumas terras muito próximas, nomeadamente nas Covas, onde também tinha uma “lagoa” mesmo ao lado da de meu pai e para onde iam ceifar erva, todos os dias, alta madrugada, carregando, depois às costas enormes molhos da dita cuja fresquinha, com muitos agriões à mistura e a escorrer água por todos os lados, que nem as sacas de serapilheira que traziam de capuz os impedia de chegarem a casa alagados que nem pintos. Certo dia meu pai levou-me para um terra de mato que também tinha nas Covas, mesmo bem junto à Rocha. Estávamos no cimo da terra, debaixo da Rocha a apanhar “erva-santa” e a cortar “cana-roca”. De repente, começaram a cair pedras enormes, autênticos calhaus por cima de nós. Assustamo-nos a valer, pensando que ficaríamos ali soterrados. Queríamos fugir, pois víamos a morte pintada de negro e a pairar por cima de nós. O Cardosinho estava cá em baixo na sua lagoa e começou a gritar e a pedir-nos que nos aproximássemos mais e mais da rocha. É que ele, de longe, percebeu que não era ribanceira que caía mas apenas pedras e assim quanto mais perto estivéssemos da rocha menos perigo corríamos. E lá nos safámos, com a orientação do Cardosinho!

Mais dentro ficava o Cristóvão que cedo emigrou juntamente com toda a família, sendo que um dos filhos, o Roberto também fez parte do primitivo elenco de músicos da Senhora da Saúde. Ao lado morava a viúva do Tio Malvina, irmão de meu avô materno e, segundo se dizia, um dos homens mais cultos e sabedores de toda a freguesia. Tio Malvina, dotado de uma inteligência prodigiosa e de uma memória invulgar, trouxera livros e conhecimentos da América, lia muito, pensava ainda mais e reflectia e interrogava-se filosófica e cientificamente muito e por isso falava sobre todos os assuntos cujos conhecimentos dominava. Contava-se que a quando da Aurora Boreal, em 1941, fenómeno celeste inesperado e repentino que criou pânico, terror e medo em toda a população da freguesia, que cuidava tratar-se do fim do mundo e ter chegado o dia do juízo final, Tio Malvina terá sido a única pessoa a sorrir de alegria por ter a possibilidade única de ver e observar tão raro e extraordinário fenómeno da natureza. Ninguém acreditou nele.

Finalmente, no termo da Via d’Água e fim da freguesia, já quase no Porto e bem pertinho do matadouro da Baía d’Água, onde se matava o gado pela festa do Espírito Santo, ficavam duas casas. Uma pertencia ao José de Lima, originário de Santa Maria mas que se fixara e casara na Fajã, vivendo ali com a esposa e dois filhos. Ao lado e na última casa morava o José Tomé, juntamente com a mulher e a filha, numa casa que fora da mãe, Tia Ana Tomé e que alguns anos depois a vendeu, vindo fixar-se na Rua Direita, numa casa geminada com a do Mancebo, ali quase à Praça.

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publicado por picodavigia2 às 10:29

DEPOIS DO CÂNTICO

Domingo, 24.11.13

Quando as nuvens rasgavam os seus véus

E derramavam o seu cântico,

Dolente, mas sublime,

Sobre a aridez

De desertos estéreis,

 

Nem todos batiam palmas…

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publicado por picodavigia2 às 00:04

ELE ELA E O PICO

Sábado, 23.11.13

Chegaram! E, à semelhança dos primeiros descobridores, saltaram de ilha para ilha, imersos na incerteza do destino, mas imbuídos de uma enorme ânsia de se emaranharem uma irrequieta e turbulenta aventura. Navegaram num mar repleto de veleiros, de brumas, sobrevoado por gaivotas, mas a abarrotar de tranquilidade, de calma, de confiança, de ternura e de mansidão. Um mar, onde o infinito era limitado e onde a noite teimava em ser dia e perdurava numa claridade acariciadora e permanente. Viajaram num barco repleto de ilusões, de sonhos e de esperanças, orvalhando o rosto com o perfume da maresia, saboreando os salpicos esbranquiçados da espuma, divertindo-se com o balancear cadenciado das ondas, soltando os cabelos à porfia com o vento.

E do mar pularam atrevidamente para terra, sem medos e sem receios. Desembarcaram num porto de pedra carcomida pelo tempo, com barcos a arrastarem-se sobre o pedregulho e com moitões já gastos pela pertinência contínua das amarras. E entraram pelo Pico dentro com a expectativa dos primeiros povoadores e abraçaram-se à enorme e imponente montanha como se ela tivesse sido sempre sua, como se fosse a principal herança dos seus antepassados.

Ela mais velha, mais ousada, mais desejosa de tudo ver e sentir. Ele mais novo, mais tímido e hesitante, mais ávido de tudo tactear e querer. O Pico muito alto e esguio, ora banhado de Sol e de vento, ora envolto em nuvens e chuviscos. Mas para os receber paramentou-se de lava e de fascinação, revestiu-se de faias e vinhedos e pediu à Lua que os acompanhasse, ao menos nas primeiras noites. E o silêncio misterioso da montanha e a imensidão inequívoca do mar, cedo, lhes fizeram esquecer os grunhidos roufenhos da cidade de cimento, o burburinho persistente das ruas apinhadas de carros e de gente, as prisões paralisantes do quinto andar, o emaranhado aterrador dos barulhos que desfazem o silêncio.

E o Pico tornou-se para ela e para ele o seu principal brinquedo. E logo descobriram que junto à ilha, a protege-la e a bafejá-la, estava o mar. Viram-no, sentiram-no, quiseram-no e agarraram-se a ele como se fosse o seu brinquedo de sempre. Banharam-se em águas cálidas, perfuraram ondas sibilantes, nadaram com peixes e gaivotas, banharam-se entre algas e caranguejos, saltaram do alto dos rochedos perfurando as profundezas do oceano e até pescaram. E o mar passou a fazer parte do seu quotidiano, transformando-se no epicentro dos seus folguedos e brincadeiras.

Depois descobriram a terra, feita de um chão de lava negra mas a abarrotar de vinhedos, de milheirais, de faias, de canas e de árvores de fruto. A terra que lhes dava o pão, o bolo, o leite, a carne, as batatas e os legumes para a sopa. E procuraram-na, tocaram-na cavaram-na e até a cobriram de mimos e afectos, acariciando-a com as próprias mãos. Semearam, plantaram, alisaram o chão de lava negra e dele extraíram batatas, inhames, cebolas e cenouras. Apanharam flores e colheram frutos. Deliciaram-se com o mosto adocicado das uvas e o sabor agridoce das amoras. Descobriram que este chão é um mar de lava negra e fria, plantado entre escarpas e veredas e que este mar é um chão de espuma dulcificada, imerso em neblinas e caligens. Perceberam que este chão é povoado por homens de chapéu de palha e de mãos calejadas que lavram os campos e sulcam o mar e de mulheres que calçam albarcas, moçoilas robustas que cozem o bolo e amassam o pão de milho, que atrelam os bois ao arado e que aos serões ainda dançam a “Chamarrita” e cantam o “São Macaio”

E à noitinha, quando ela e ele se sentavam sobre os rochedos enegrecidos e agrestes da beira-mar, aguardando, expectantes e ansiosos, o mítico canto das cagarras, ela e ele descobriram que aqui, no Pico, tudo é tão diferente e que até o céu tem mais estrelas

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publicado por picodavigia2 às 21:53

FRÁGIL IDADE

Sábado, 23.11.13

(POEMA DE JOSÉ FRANCISCO COSTA)

 

“Não é preciso dizer-te

Que a vida é mais do que um telhado.

Deixa que o tempo concerte

O que está desconcertado.

 

Vão-se as casas; e o passar

Da vida é tão de repente…

O gosto do céu e do mar

É o que resta da gente.

 

Compra telhas de alegria,

- Que a vida é coisa bem séria.-

E vai sorrindo, Maria,

Aos buracos da miséria.

 

José Francisco Costa

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publicado por picodavigia2 às 21:51

JOÃO LIZANDRO E ESTRADA DA PONTA DA FAJÃ

Sábado, 23.11.13

No lugar da Ponta da Fajã vivia antigamente um homem já de idade avançada, chamado João Lizandro. Casado e pai de um filho, apesar de constar pela freguesia de que teria muito dinheiro, vivia, no entanto com aspecto de pobre. Mas tinha bom coração o João Lizandro e era tão religioso que até mandou construir, a expensas suas, uma pequenina capela, em madeira, bem junto à Rocha e dedicada à Senhora de Fátima. Cuidava, o devoto senhor, que se os que subiam a Rocha invocassem a protecção da Virgem, haviam de ser livres de quedas, derrocadas e outros perigos, que ali eram frequentes.

O João Lizandro vestia sempre a mesma roupa, andava habitualmente descalço e com a barba por fazer, locomovendo-se amparado a um enorme e grosso bordão, apesar de o fazer ainda com bastante agilidade. Mas o que mais caracterizava esta enigmática figura era o interesse que colocava continuamente na defesa dos interesses da localidade onde vivia, ou seja, da Ponta. Esta enorme vontade de defender a sua terra de tudo e de todos, de lutar pelo seu progresso e pelo bem-estar da sua população, levou-o, segundo se dizia, a iniciar uma série de troca de correspondência com Salazar. Pelos vistos o Chefe do Governo Português da altura, possivelmente através de algum secretário, respondia-lhe sempre e João Lisandro foi adquirindo aos poucos, a fama e o estatuto de defensor-mor da dignidade, da verdade e da honestidade, junto do Presidente do Conselho de Portugal. Uma espécie de bastião na luta contra a corrupção, pois sempre que necessário, por este ou por aquele motivo, escrevia a Salazar.

Quando o Almirante Américo Tomás, no início da década de sessenta, visitou a ilha das Flores, deslocou-se também à Fajã Grande, acompanhado do ministro da Obras Públicas, engenheiro Arantes Oliveira, do Governador Civil da Horta, Freitas Pimentel e de todas as autoridades políticas, militares e religiosas da ilha. Acompanhado de toda esta comitiva, Sua Excelência apeou-se à Praça, onde o esperava muito povo. Desceu a rua Direita, toda engalanada e com os sinos a repicar, a Senhora da Saúde a tocar, abanando a uns e sorrindo a outros, terminando o percurso pedestre em frente ao portão do Gil, junto à Casa do Espírito Santo de Baixo. Foi então que João Lizandro, descalço e com a roupinha toda rota e remendada, de bordão na mão e casaco ao ombro, furou a segurança e aproximou-se do mais alto magistrado da nação. Alguns elementos da guarda-fiscal ainda tentaram impedi-lo, mas sem sucesso, dado que Américo Tomás, talvez impressionado pelo aspecto original e genuinamente popular daquele ancião, já o chamara para junto a si, cumprimentando-o. João Lizandro estendeu a mão suja e calejada ao presidente e, sem demoras, apontando para Rocha da Ponta, solicitou-lhe:

- O sinhô tá a vê aquela rocha. Pois eu e mais de cem pessoas moramos ali debaixo daquela desgraça e nam temos sequer ua estradinha pra lá chegar, temos que vir a pé prá qui pa depois apanhá um carre prá vila ou prás lajes. E os doentes tem que sê carregados às costas. O sinhô, por alma dos seus, mande fazer uma estradinha prá gente da Ponta.

Américo Tomás ouviu, atentamente, mantendo a mão do velho Lizandro apertada pela sua e, quando ele terminou, olhou de soslaio para o ministro Arantes Oliveira que logo fez um gesto assertivo com a cabeça, enquanto Freitas Pimentel, furioso, batia com o pé no chão, dizendo:

- Querem uma estrada?! Então já não têm aqui uma, bem nova e bem boa!?

O Presidente entrou para o automóvel e seguiu até ao Porto, onde parou, junto ao farol, para apreciar o mar, a rocha, as quedas de água e o verde dos socalcos e andurriais. De seguida partiu para as Lajes.

Passado algum tempo foi construída a estrada para a Ponta. Se foi ou não devido ao pedido do João Lizandro nunca se saberá. Mas o facto é que na altura, na freguesia, todos acreditavam que a estrada se construiu graças ao pedido que João Lizando fizera ao senhor Presidente da República, quando ele visitou a Fajã.

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publicado por picodavigia2 às 20:16

ENCONTRO

Sábado, 23.11.13

Vieram,

(A maioria, de longe)

Cavalgando sombras despedaçadas,

Atiçando labaredas incandescentes,

Na demanda, 

Dos ecos que nunca se perderam,

Dos fragmentos que nunca se estilhaçaram

Do perfume que nunca se evaporou

E da amizade que nunca feneceu.

 

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publicado por picodavigia2 às 20:11

RENASCER

Sábado, 23.11.13

Reformara-se novo porque começara a trabalhar ainda garoto. Passava parte das manhãs e as tardes arrastando-se pelos carcomidos bancos dos jardins e avenidas. Apenas entrava num ou noutro café, a seguir ao almoço e entretinha-se, durante algum tempo, a passar os olhos pelo jornal. Depois circulava pelas ruas apático e indiferente, abstraído de sentimentos e absorto em indignação. A vida era vazia de sentido e a cidade parecia-lhe um circo povoado de fantasmas, de arquétipos imbecis e de abantesmas que teimosamente tentavam sobrepor-se à aniquilante solidão que o dominava - um espaço abstruso, quase repugnante e até mesmo inútil, conjugado com um tempo infinito, indeterminado e inaudito. Por vezes, inconscientemente, seguia pela rua da Lapa, virava na do Salgueiros e, cortando à direita, entrava na do Monte Cativo. Estava, assim, vezes sem conta, quase sem se aperceber, em frente à porta de entrada da Semilhas L.da, onde encontrava o Almeida e outros antigos companheiros de trabalho, a quem, na hora do almoço, dava sempre dois dedos de conversa.

Pouco depois afastava-se e recomeçava a caminhar só. O burburinho da rua e o circular constante de transeuntes e veículos davam-lhe uma sensação de imobilidade inútil. Os olhos cravavam-se nos reclames florescentes que teimavam indefinidamente em propagar a sua luminosidade na enorme pertinácia da luz solar. Olhava para as janelas dos prédios onde um ou outro vulto de mulher jovem aparecia e, em sua imaginação, como que se demorava a contemplá-lo. Entrava em mais duas ou três ruas e regressava à Avenida, sentando-se num banco, onde se entretinha-se a atirar umas migalhas aos pombos, ensaiando intermináveis e frustradas tentativas de os contar.

À enigmática insignificância das manhãs e das tardes, misturava-se a pertinente solidão das noites e a tristeza das madrugadas que não floresciam. A viuvez antecipara-se à reforma e ambas se conjugavam, agora, numa conspiração destruidora de projectos e sonhos. Carregava sobre si o estigma duma sociedade cada vez mais industrializada, individualista e competitiva, preocupada, sobretudo, com o consumo e galvanizada pelo avanço tecnológico.

Numa tarde de verão, em que encontrou o Almeida na Baixa, depois de tomarem um café, o Abílio, na tímida tentativa de lhe revelar o tédio enfadonho que continuamente o assombrava, desabafou:

- Sinto-me um subproduto nesta sociedade miserável, caracterizada por uma complexidade evolutiva cada vez maior, onde reina a solidão, o anonimato e o carácter superficial das relações humanas e que rejeita os que já não constituem força de trabalho. Pertenço ingloriamente a uma civilização que transforma os seus membros em consumidores famintos e em abutres desenfreados.

O Almeida, apesar de não o entender muito bem, ouviu-o com atenção. Por fim atirou-lhe de chofre:

- Homem, isto não pode continuar assim! Ainda dás em doido. Tens que dar outro rumo à tua vida... A esperança nunca pode morrer. Não podemos ser nós a acabar com a nossa própria vida, a destruirmo-nos a nós próprios, a não a deixar que os outros nos aniquilem. No fim do mês parto de férias. Tu vens comigo. Isto não é um convite, é uma ordem. Tenho uma casa em Dardavaz perto de Tondela, lá para os lados de Viseu. É para lá que vamos!

A insistência do Almeida foi tanta que, passado algum tempo produziu efeitos.

Circulando pelo IP 5, o Porto, agora, diluía-se numa mais que fragilizada imaginação. À sua frente, bem real, a mais caracterizadamente lusitana das províncias portuguesas - a Beira Alta. Pararam, num miradouro. Para trás ficara Oliveira de Frades e Vouzela. A nascente já se avistava São Pedro do Sul, onde entre casas e arvoredos, proliferavam campos agrícolas e pastagens. Ao redor sobressaíam imponentes, altivas e escuras, um conjunto de montanhas que ora se afundavam ora se erguiam, até se diluírem em lombas de suaves declives ou degenerarem em pisos e fragas abruptas. Lá ao fundo, mais para sul, começavam a desenhar-se os contrafortes da Estrela, que, vista de longe, parecia um monstro baço e obscuro. Misturada com o horizonte, apenas se clarificava pelas suas formas fragosas, abstrusas e opacas. A poente, um maciço, menos agreste e de lombas menos declivosas ia, aos poucos, como que se desfazendo e transformando numa enorme planície interposta entre as montanhas e o mar.

- Ultimamente o concelho de São Pedro do Sul tem-se desenvolvido muito, graças à estância termal, já explorada pelos visigodos, pelos romanos e pelo próprio D. Afonso Henriques, que, segundo se diz, ali terá vindo refugiar-se para se curar duma ferida obtida em combate – explicava o Almeida, que se revelava cada vez mais um perito em questões beirãs.

Viseu surgiu pouco depois. A cidade impunha-se altiva e orgulhosa. Guardiã de testemunhos duma intensa vivência histórica e pré-histórica, Viseu estava ali, como cidade paradigma de um contraste entre o passado e o desenvolvimento moderno, fundamentado na riqueza agrícola, pecuária, vinícola, industrial, comercial e até turística, que toda a região beirã e muito especialmente a sub-região do Dão encerra. Uma visita, embora rápida, deu ao Abílio uma visão da magnífica cidade, com paragens obrigatórias na Sé, monumento dos tempos da nacionalidade. Um magnífico templo de três naves, com as duas imponentes torres românicas, ladeando um frontispício seiscentista, onde se acolhiam as imagens dos quatro evangelistas, de Santa Maria da Assunção e a de São Teotónio, padroeiro da cidade. Em frente, a igreja da Misericórdia e o lado o museu Grão Vasco. Apesar de fechado o Almeida bem explicou que ali, no que fora o antigo Paço Episcopal dos Bispos de Viseu, se encontrava agora um valioso acervo de pinturas, com destaque para alguns painéis quinhentistas, da autoria do patrono. Depois um périplo pela cidade, passando em frente à casa onde nasceu D. Duarte e pelas principais ruas e pelo recinto do Fontelo e da Feira de S. Mateus. O Almeida referiu ainda muitos outros locais de interesse, na cidade e arredores. Ficaria para uma próxima oportunidade. Pacientemente esclarecia o Abílio:

- Existem muitos vestígios históricos nesta região: as antas de Mamaltar do Vale das Fachas, em Rio de Loba e as da Lameira do Fojo, na freguesia do Couto de Cima, o pelourinho de Pevolide, a estrada romana ainda existente em Lordosa. O artesanato também é rico: são as flores de papel de Fragosela, os estanhos de Bodiosa, os linhos de Calde, as rendas de bilro de Torredeita e a latoaria, o ferro forjado e a cestaria de Viseu.

- E a gastronomia? – Interrogava o Abílio – Já ouvi dizer que é de se lhe tirar o chapéu.

- Sim, sim - acrescentava o Almeida – há por aqui umas coisitas jeitosas para acompanhar o Dão. O rancho à moda de Viseu, o arroz de carqueja e o de feijão, o entrecosto com grelos, trutas de escabeche, bacalhau na brasa, a vitela assada, o cabrito assado, os rojões com morcela e batata cozida, não esquecendo os doces como as castanhas de ovos de Viseu, pão-de-ló, arroz doce, leite creme, doces de ovos, enfim, é um nunca mais acabar.

- Isso apenas em Viseu ou em toda a região da Beira Alta? – Interrogava o Abílio.

- Estou a referir-me apenas a Viseu e aos arredores da cidade. Se passarmos a Mangualde, Nelas, Oliveira de Frades, Sátão, Penalva do Castelo, Aguiar da Beira, Castro Daire, tudo se diversifica e aumenta, quer no aspecto histórico, quer no artesanal e no gastronómico.

- Esqueceste Tondela – acrescentou o Abílio? – Será modéstia da tua parte?

- Não, não é modéstia. Tondela é mais do que todas as outras, Tondela é tudo para mim, mas quero que sejas tu a descobrir com os teus próprios olhos. É surpresa, por isso, nada te conto.

 

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publicado por picodavigia2 às 15:26

A POPULAÇÃO DA VIA D'ÁGUA

Sábado, 23.11.13

A Via d’Água era a rua da Fajã mais próxima do mar. Casas haviam, lá ao fundo, que ficavam paredes-meias com o Oceano Atlântico. Por outro lado, era através dela que circulavam todas as pessoas, corções, carros de bois e outras viaturas que se deslocavam para as terras do Porto, do Estaleiro e do Cantinho ou que tinham como destino a orla marítima desde do Respingadouro até ao Pesqueiro de Terra. Este facto, não apenas lhe dava o nome mas também e sobretudo fazia da rua da Via d’Água a única e exclusiva forma de acessibilidade ao mar.

A Via d’Água começava no fim da rua Direita e no cruzamento com a Tronqueira e iniciava-se com uma ladeira bastante íngreme e sinuosa, frente à casa de José Padre, mas que, sobretudo depois da construção da estrada, tinha todas as condições necessárias e ideais para nós miúdos ensaiarmos as corridas de toda a espécie de carripanas feitas de madeira, de canas ou até de milheiros, arquitectadas e construídas por nós próprios e muitas vezes a esquartejarem-se no meio de todas aqueles salientes pedregulhos de calçada romana, mas que nela deslizavam com uma velocidade estonteante. Muitos galos na cabeça, variadíssimos “mamulos” na testa, um sem fim de arranhões nos braços e nas pernas e muitas negras a cobrirem-nos o corpo todo… Tantas maleitas se conquistavam ali, quando uma ou outra das geringonças em que se descia, por vezes, a velocidade vertiginosa e estonteante, ou se desfazia ou, depois de se despistar na curva lá ao fundo, ia enfiar-se nos muros do Furtado ou emborcar-se nos pátios da Catrina.

No cimo da ladeira, à esquerda de quem descia, morava um irmão da minha avó, o António Maria, casado com uma irmã de José Inácio e Jorge e com uma filho e uma filha, tendo esta falecido, ainda muito jovem. Os pais partiram para América com o filho e venderam a casa ao Roberto, natural de Santa Cruz, casado na Ponta e que era responsável por uma loja que existia à Praça, pertença da firma Martins e Rebelo. Paredes-meias ficava a casa dos filhos de Mestre Mariano, os quais também partiram para a América.

Em frente e do outro lado da rua morava a viúva de José Padre, com duas filhas e dois filhos, o Albano e o José Santos, ambos tocadores na Filarmónica Senhora da Saúde. Uma das filhas, a Ana, estudou no Faial fez o Curso do Magistério e era professora do ensino primário, tendo dado aulas na já então escola mista da Fajã Grande, que funcionava no edifício da Casa de Espírito Santo de Baixo, precisamente no ano em que eu frequentei a primeira classe. Dela guardo as melhores recordações como excelente pessoa e óptima professora, tendo inclusivamente aceitado que eu entrasse para escola em Abril do ano anterior ao que devia entrar, precisamente na altura em que fiz sete anos, pese embora não estivesse matriculado.

Numa pequena casa logo a seguir e separada por uma canada que dava para a residência da Tia Xavier, ficava a moradia de João Inácio, um homem pobre mas bom e generoso. Era da idade de meu pai e muito amigo dele. João Inácio trabalhava muito, apesar de sofrer de uma enorme anomalia corporal que lhe dificultava o andar e que por vezes e juntamente com algumas contrariedades de ordem emocional eram objecto de uma injusta e ingrata chacota por parte de espíritos mais atrevidos e trocistas.  Era casado com uma senhora bastante mais nova do que ele e não tinham filhos. Por sua vez a Tia Xavier era oriunda da Quada, irmã do “Baigoret” e era, segundo se dizia, muito rica e dona de muitas terras. Foi ela que fez papel ao Arnaldo, o faroleiro, depois de a casa onde morou com a mãe ser destruída, a quando da abertura da estrada para o Porto.

Na primeira transversal da Via d’Água e do lado esquerdo de quem descia morava o José Pureza, casado com uma filha da irmã do Jos´Tia’Anina e mais um filho. Na mesma travessa e numa casa que pertencia ao farol, ainda viveu, algum tempo, o Arnaldo que era o faroleiro e consequentemente pessoa rica pois era das poucas que recebiam um ordenado. Casara em segundas núpcias com uma filha de tia Gonçalves. Mais tarde foi viver para a casa da Tia Xavier que lhe fez papel e da qual herdou a casa, as terras e o dinheiro.

Nessa mesma travessa ainda moravam os filhos da Genoveva. Eram um grupo de irmãos todos solteiros dos quais se destacava o Albino, notável pela sua capacidade de negociar, de ajudar em tudo e a todos e ser um dos grandes colaboradores em todas as festas e actividades realizadas na freguesia. Era pela festa da Senhora da Saúde que ele montava uma enorme barraca onde para além de vender bebidas, chocolates e “pinotes”, tinha dois jogos muito procurados por todos os forasteiros: o do “boneco” e o da “pesca à cerveja”. Quanto ao primeiro, tratava-se de um boneco de madeira suspenso num balouço a quem, por cinquenta centavos, se atiravam cinco bolas de pano com o objectivo de levar o boneco a dar uma cambalhota, obtendo nesse caso um prémio – um chocolate ou uma bebida. Por sua vez o da “pesca à cerveja” tinha como objectivo de entre seis jogadores a quem era entregue uma cana com um fio e uma argola na ponta, conseguir ser o primeiro a enfiar a argola no gargalo de uma cerveja. Nesse caso o prémio era a própria cerveja ou uma laranjada ou chocolate. O Albino que passava horas e horas a orientar e acompanhar estes jogos, no fim entregava rigorosamente todo o dinheiro à igreja, para as despesas da festa.

Finalmente numa enorme curva que havia ali a meio da Via d’Água e em frente ao fontanário, numa das melhores casas da Fajã morava a mãe do Arnaldo com a neta e filha do primeiro casamento do filho, até à altura em que foi construída a estrada. A casa teve então que ser demolida para desfazer a enorme curva que ali existia.

Antes da abertura do troço da estrada que ligava o Porto da Fajã à Ladeira do Pessegueiro, a meio da Via d’Água havia um chafariz que ficava numa curva junto à primitiva casa do Arnaldo e um pouco antes da do Chileno. Ao redor do chafariz situavam-se várias casas. Antes da curva e à direita de quem descia havia um prédio geminado onde moravam duas famílias: numa a Catrina com uma irmã e na outra um filho do Raulino Fragueiro, o João que ali vivia com a mulher e um filho, tendo os três, também, emigrado.

Mesmo ao lado do chafariz e no vértice da curva, com um pátio sempre a abarrotar de sécias, azáleas, cubres e  de outras flores a separá-la do caminho, ficava a casa de José Furtado, um homem muito inteligente, sabedor e sobretudo um artista de vários ofícios. Ali vivia com a esposa, uma filha e uma irmã, a Marquinhas Furtado, senhora de uma simpatia e ternura admiráveis. O Furtado, dizia-se, tinha “jeito para tudo”, embora nem sempre tivesse muita paciência para com os que o procuravam na demanda de favores. Uma vez fui pedir-lhe emprestada uma chave de fendas. Ele assomou à porta, com uma calma descomunal e um sorriso cínico e perguntou-me apenas: “Quem sabes se queres uma talhadinha de melão!” Chave!? Nem vê-la! Dei maia volta e regressei como chegara – sem nada. Mas foi ele quem, quando o padre Pimentel visitou à América e comprou um motor para a igreja, uma vez que ainda não havia electricidade na freguesia, montou não só o motor mas toda a instalação eléctrica dentro e fora da igreja, esta por altura das festas. Era ele ainda, sempre que necessário, quem punha o motor a trabalhar, lhe mudava o óleo e fazia a respectiva manutenção. Também “arreou” à baleia, sendo o maquinista da Santa Teresinha. Além disso era músico pois fez parte do primitivo elenco de músicos da senhora da Saúde, tocando saxofone, durante muitos anos. O Furtado, no entanto, aborrecia-se e zangava-se por tudo e por nada. Para o arreliar, e dado que se chamava apenas José Furtado, perguntavam-lhe, de vez em quando:

- O senhor só tem Furtado?

Furioso resmungava em voz baixa com um ou outro palavrão:

- Desculpe, - acrescentava o gozador – é que eu pensava que o Senhor só tinha Furtado.

 E ele que nem uma barata!

Do outro lado da Fonte morava o Roberto de José Padre, casado com uma filha da Maria da Ponta e com dois filhos, o Luís e o José. O José faleceu bastante jovem. Andava a pescar sozinho e sem saber nadar, na Poça das Salemas, caiu ao mar e morreu afogado. Contava-se que andando certo dia o Roberto a lavrar uma terra ali para os lados do Cimo da Assumada, como as vacas trabalhavam mal a mulher tinha que “andar à frente” a fim de as conduzir pelo sítio certo. A determinada altura a mulher perguntou-lhe para que lado queria que voltasse. Já muito aborrecido porque a lavra não lhe estaria a correr de feição, o Roberto parou, veio postar-se em frente à mulher de braços abertos, dizendo: “Por onde a minha menina quiser”. O Roberto foi a terceira vítima do acidente do Vale Fundo, embora sofrendo apenas ferimentos ligeiros.

Ao lado desta casa, e em frente à interessantíssima casa do Chileno, numa outra pequenina morava a Irene Cardoso, juntamente com a mãe, uma senhora já de avançada idade e que já não saía de casa. Por sua vez e do outro lado da rua, mas mesmo ali ao lado da casa do chileno, morava a Irene Sapateira, a única mulher da Fajã assumidamente mãe solteira, embora na altura tal estatuto não granjeasse grande respeito e admiração. A Irene tinha vários filhos e vivia na companhia do tio o “Lajone”, que se dedicava à pesca para ajudar a alimentar os sobrinhos, tendo também sido baleeiro, durante muitos anos. O epíteto de Lajone advinha-lhe do facto de alguém ao regressar da América se ter dirigido a ele e saudando-o por: “Olá, Jonh.”

Finalmente e para terminar o penúltimo grupo de famílias cujas almas dos defuntos seriam lembradas na novena das almas nos últimos dias de Novembro, falta acrescentar a Mariana Felizarda, que morava ali em frente à Irene Sapateira. Ficara viúva muito nova, granjeando assim mais notoriedade e vivia numa casa que foi parcialmente demolida para alargamento da estrada, ali mesmo já quase no Porto. O filho Rafael fez parte do elenco primitivo de músicos da Senhora da Saúde, tocando trombone.

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publicado por picodavigia2 às 09:16

A ANTIGA PARÓQUIA DAS FAJÃS (ILHA DAS FLORES)

Quinta-feira, 21.11.13

A zona das Fajãs, ou seja o espaço encastoado entre a rocha e o mar que vai da Portal ao Risco e que constitui a costa mais ocidental das Flores terá começado a ser desbravada em meados do século XVI, com os primeiros núcleos populacionais estáveis a surgirem pouco depois Já estruturado como povoado, o lugar da Fajãzinha foi em Julho de 1676, por provisão do bispo de Angra D. Frei Lourenço de Castro, desanexado da paróquia das Lajes das Flores, à qual pertencia apesar da grande distância e dos maus ou inexistentes caminhos, e erecto na paróquia de Nossa Senhora dos Remédios das Fajãs, então com sede na igreja de Nossa Senhora dos Remédios da Fajãzinha, mas com jurisdição que abrangia toda a costa oeste da ilha, desde a Ponta da Fajã até ao Mosteiro, englobando assim os lugares de Ponta, Fajã Grande, Caldeira e Mosteiro e alguns outros desabitados desde o fim do século XIX. A freguesia da Fajãzinha é assim a quarta mais antiga da ilha, precedida em idade apenas pelas duas vilas e por Ponta Delgada.

Para constituir a nova freguesia, o lugar da Ponta da Fajã foi desanexado da paróquia de São Pedro de Ponta Delgada, à qual pertencia desde a criação daquela freguesia, e integrado com o lugar da Fajã Grande na nova paróquia, cuja delimitação teve lugar nos dias 12 e 13 de Julho de 1676, na presença do ouvidor eclesiástico, padre Domingos Nunes Pereira, e do primeiro pároco da freguesia, padre André Alves de Mendonça. A freguesia das Fajãs estendia-se por mais de duas léguas ao longo da costa oeste da ilha, desde a Ribeirinha do Miradoiro, na Rocha do Risco da Ponta da Fajã, até à Ribeira da Lapa, no Mosteiro. Para além das actuais povoações, incluía ainda alguns lugares então habitados, como sejam a Fajã dos Valadões, a Ribeira da Lapa, o Pico Redondo e os Pentes, todos hoje abandonados.

A escolha do lugar da Fajãzinha para sede da nova paróquia deveu-se ao facto de já lá existir, desde o ano anterior (1675), uma pequena igreja localizada no chamado Adro Velho, nas imediações da actual igreja. Esta igreja ou ermida era muito pequenina e incompleta, apenas vindo ter uma torre sineira no ano de 1747, conforme consta de uma lápide ainda existente e colocada no actual templo. A igreja hoje existente começou a edificar-se a 7 de Abril de 1776, embora em 1771 já se partisse pedra para a obra. A sacristia norte apenas foi construída em 1787. A torre ficou por acabar durante muitos anos, já que apenas no verão de 1896 se deu início à obra para a sua conclusão. O último enterramento no interior da igreja ocorreu a 23 de Maio de 1834, ficando o cemitério concluído antes de 1868.

Assim, desde muito cedo a Fajãzinha desempenhou um papel administrativo muito importante de relevo no conjunto da ilha das Flores, já que ela foi, desde o longínquo ano de 1676 e até meados do século XIX, sede paroquial das Fajãs, englobando na sua jurisdição quase toda a costa ocidental da ilha. O Mosteiro só em 1850 ascendeu a freguesia, a que se seguiu, em 1861, a criação da freguesia da Fajã Grande, estabilizando a actual divisão administrativa da zona.

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