Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



O CAMINHO DO CIMO DA ASSOMADA/LAVADOUROS (DE SANTO ANTÓNIO AO ESPIGÃO)

Quinta-feira, 05.12.13

No Largo de Santo António, o Caminho da Assomada/Lavadouros, uma das vias mais percorridos diariamente pelos habitantes da Fajã na década de cinquenta, bifurcava-se. Se virássemos à direita seguíamos para a Cuada, mas se quiséssemos seguir na direcção das terras de mato da Cabaceira, da Cancelinha, do Espigão, do Moledo Grosso e da Lombega e das relvas da Alagoinha e dos Lavadouros, teríamos que voltar à esquerda. Se eventualmente seguíssemos nesta última direcção, continuaríamos a calcorrear calçada romana e circularíamos por um largo caminho, ladeado pelas grossas e altas paredes de algumas hortas e de várias terras de mato, muitas delas com belos portais ornados de ombreiras alisadas e portão de madeira a girar sobre cachimbos de ferro. Logo de imediato e, depois de subir uma pequena ladeira contígua ao Largo de Santo António, demandávamos o Delgado, o melhor lugar de hortas e quintas da Fajã. O caminho, porém, não atravessava o Delgado pelo meio, passava-lhe a nascente e tinha um minúsculo largo, precisamente no local, onde, à esquerda, havia uma canada que conduzia ao Outeiro Grande. Esse largo, embora não sendo descansadouro, era de grande importância, pois era precisamente aí que se estacionavam carros e corções, a fim de os carregar com tudo o que aquelas férteis e produtivas terras produziam: batata-doce, inhames, lenha, incensos, fruta e ainda o milho das terras do Outeiro Grande que era acarretado às costas, até ali.

Depois deste largo, seguindo-se na direcção do Sul, entrávamos na Cabaceira, um dos maiores locais de terras de mato da Fajã, embora muitas dessas terras, sobretudo as da parte mais a norte e a fazer fronteira com o Delgada, também tivessem algumas belgas transformadas em hortas, onde se cultivavam muitos inhames e algumas árvores de fruto, nomeadamente, nespereiras, araçazeiros, ameixeiras bravas e castanheiros. Aqui o caminho tinha as paredes laterais um pouco mais baixas mas era ladeado por árvores frondosas, sobretudo faias, incensos e paus brancos, muito altos e esguias a projectar uma sombra contínua e permanente no caminho que assim adquiria um aspecto fresco, sombrio, sorumbático e até um pouco assombroso e quase assustador. O caminho, ao longo da Cabaceira, continuava com piso do tipo calçada romana, embora com muitos pedregulhos soltos, caídos das paredes, por onde se iam alternando pequenos aclives, um deles até a descer muito suavemente, algumas rectas, mas sem largos e com uma ou outra canada, quer a poente quer a nascente, a ligar as terras e hortas mais interiores. De todas estas canadas sobressaía uma, do lado nascente, já no cimo da Cabaceira, que se distinguia pelas enormes, altas e bem arquitectadas paredes que a circundavam, formando, na entrada, uma espécie de portão de quinta, muito provavelmente resíduos de uma antiga entrada porque em tempos antigos, todas aquelas propriedades, agora de vários proprietários, teriam pertencido um único dono, sendo ali o portão de entrada.

Imediatamente a seguir e já no termo da Cabaceira, o enorme, fatídico e lendário Largo da Cancelinha. Era um dos maiores largos de quantos havia nos caminhos e ruas da Fajã e o mais mítico de todos, pois a ele estava ligada uma lenda segundo a qual aparecia ali, bem no meio, uma mesa posta e bem cheia de comida. Se os transeuntes dela se aproximassem, a mesa ia-se afastando, sem que alguém, alguma vez, pudesse apanhar ou agarrar qualquer migalha que fosse daquela deliciosa e mágica comida  

A seguir ao largo o caminho tomava a forma de uma curva, bifurcando-se, novamente, numa outra canada, esta bastante larga e acessível a carros de bois e que dava para as terras do Desarraçado. Foi esta canada, situada a sul da Cabaceira, que mais tarde serviu de ligação entre a nova estrada e o acesso aos Lavadouros. E o caminho continuava na sua trajectória curvilínea, até ao Descansadouro da ladeira do Espigão, ladeando as magníficas hortas da Cancelinha, onde se produziam as melhores laranjas da Fajã.

Mais adiante, um outro largo, mas este sim transformado em importante e muito utilizado descansadouro, um descansadouro com uma bifurcação do caminho, neste caso à direita com destino traçado ao Vale Fundo e Cuada e à esquerda, com destino aos Lavadouros, mas com passagem pelo Espigão Moledo Grosso, Lombega, Lameiro e Alagoinha. Era ali também que se iniciava a subida da Ladeira do Espigão, uma das maiores e mais íngremes de todas as que existiam na Fajã e não eram poucas.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por picodavigia2 às 21:29

O PESCADOR E A SEREIA

Quinta-feira, 05.12.13

(UM CONTO DE ÓSCAR WILDE)

 

Todas as noites um jovem Pescador saía para o mar e lançava as redes. Quando o vento soprava da terra, não apanhava nada, ou apanhava muito pouco, porque era um vento áspero, de asas negras, e altas vagas se levantavam para o defrontar; mas quando o vento soprava para a costa, o peixe subia das profundezas do mar, nadava para as malhas da sua rede e ele levava-o para o mercado e vendia-o. Todas as noites, saía para o mar e uma noite a rede estava tão pesada que ele mal podia içá-la para bordo. E, rindo, disse para consigo:– Por certo apanhei todo o peixe do mar ou algum monstro que maravilhará os homens, ou algum ente horrível que a grande Rainha há-de desejar. E puxou as cordas grosseiras com todas as suas forças, até as veias se lhe marcarem nos braços, como linhas de esmalte azul dum vaso de bronze. Puxou as cordas e cada vez se aproximava mais o círculo das pequenas bóias de cortiça, até que, por fim, a rede veio à tona de água. Não havia lá, porém, nenhum peixe, nem monstro, nem ente horrível, mas tão-somente uma pequena Sereia, adormecida. Os seus cabelos eram como um velo de ouro molhado e cada cabelo separado um fio de ouro numa taça de cristal. O corpo era branco como marfim e a cauda de prata e madrepérola. De prata e madrepérola era a sua cauda e as algas verdes do mar enrolavam-se em volta dela; como conchas do mar eram os seus ouvidos e os lábios como coral. As ondas frias batiam nos frios seios e o sal brilhava-lhe nas pálpebras. Tão formosa era ela que o jovem pescador ficou cheio de admiração quando a viu, puxou mais a rede e, debruçando-se na borda, tomou-a nos braços. E, quando lhe tocou, ela soltou um grito como de gaivota assustada, acordou, olhou-o com os olhos de ametista cheios de terror e lutou para se escapar. Ele, porém, apertou-a muito de encontro a si e não a deixou partir. E, quando ela viu que não podia fugir-lhe, começou a chorar e disse-lhe:

– Peço-te que me deixes partir, porque sou a única filha dum rei e o meu pai é velho e sozinho.

Mas o Pescador respondeu-lhe:

– Não te deixarei partir sem que me prometas vir cantar para mim sempre que eu te chame, porque os peixes adoram ouvir os vossos cantares e assim estarão sempre cheias as minhas redes.– E realmente deixar-me-ás partir, se eu to prometer? – Inquiriu a Sereia.

– Na verdade, deixar-te-ei partir – tornou o Pescador.

E ela fez-lhe a promessa que ele desejava: palavra de Sereia. Então o Pescador soltou-a dos braços e logo ela mergulhou na água, trémula de receio. Todas as noites saía o Pescador para o mar e chamava a Sereia e ela surgia das águas e cantava para ele.

 

Óscar Wilde, O Rouxinol e a Rosa

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por picodavigia2 às 19:00

JOGRAIS DE NATAL

Quinta-feira, 05.12.13

ELABORADO COM EXCERTOS DE POEMAS DE NATAL DE ALGUNS POETAS PORTUGUESES

 

(Grupo de vinte e quatro crianças.)

 

TODAS          - Natal, Natalinho, chega de pressa, traz-me um presentinho.

1ª METADE   - Nasce mais uma vez, menino Deus!

1.os SEIS        - Nasce mais uma vez,

UMA             - Neste Inverno gelado,

UMA             - Nasce nu e sagrado,

UMA             - Nasce e fica comigo.

TODAS          - Nasce e fica connosco.

2ª METADE   - Nasce mais uma vez, menino Deus.

TODAS          - Porque é Natal, é Natal, é Natal!

UMA             - Vamos por o sapatinho,

UMA             - Lá na chaminé

1ª METADE   - É a noite de Natal, no meu país, agora,

UMA              - Dois milhões de almas e outros tantos corações,

UMA             - Põem de parte ódios, torturas e aflições.

UMA              - Vejo a estrela que percorre a noite larga.

UMA              - Vejo a estrela que perturba fundos mares,

UMA             - Vejo a estrela que revela a eternidade.

UMA              - Mas para onde foi a estrela contemplada?

TODAS          - Estrela, estrelinha…

2ª METADE   - A noite já se avizinha.

1ª METADE   - As luzes já estão a cintilar.

UMA             - E os animais a descansar.

UMA             - Guardavam os pastores o rebanho,

UMA             - Nas vigílias da noite de Belém

UMA             - E a glória do Senhor resplandeceu,

UMA              - Para lhes anunciar supremo bem

1.as SEIS        - Ó pastores do monte e prado,

2.as SEIS        - Acordai por vosso bem,

1ª METADE   - Ide já guardar o gado,

2ª METADE   - P`ra ver Jesus em Belém.

TODAS          - Pastorinhos de Belém, é pois certo,

UMA              - Que na noite de Natal,

UMA             - Num curral,

1ª METADE   - Baixou o Filho de Deus, lá dos céus.

TODAS          - Sede bem vinda, noite sem par, trazes encanto a cada lar.

2.as SEIS        - Noite de paz.

3.as SEIS        - Noite de luz.

4.as SEIS        - Numa gruta de Belém,

1.as SEIS        - Nasceu o Menino Jesus.

UMA              - Eu hei-de dar ao menino uma fitinha pró chapéu;

UMA             - E ele também me há-de dar:

UMA             - Um lugarzinho no Céu.

TODAS          - É Natal! É Natal! É Natal!

1ª METADE   - Foi na noite de Natal,

2ª METADE   - Noite de santa alegria.

TODAS          - Em que o mundo parou e o menino nasceu.

1.as SEIS        - Nasceu num estábulo,

UMA             - Pequeno e singelo.

UMA             - Ao lado do menino,

UMA             - O homem e a mulher.

1ª METADE   - Uma tal Maria

2ª METADE   - Um José qualquer.

TODAS          - O mundo parou e o menino nasceu.

4.as SEIS        - Duas tábuas…

1.as SEIS        - Era um berço!

2.asSEIS         - Tudo escuro…

3.as SEIS        - E alumiava

UMA             - Estaria Deus lá dentro?

1ª METADE   - Estaria Deus lá dentro?

2ª METADE   - Estaria Deus lá dentro?

TODAS          - Lá estava!  Hossana nas alturas.

UMA             - Estava dormindo,

UMA             - Nas palhinhas despidinho.

TODAS          - Os anjos estão cantando

TODAS          - Glória a Deus nas alturas.

1ª METADE   - O menino está dormindo,

UMA             - Nos braços da virgem pura.

TODAS          - Os anjos estão cantando.

TODAS          - Glória a Deus nas alturas.

2ª METADE   - O menino está dormindo,

UMA             - Nos braços de S. José

1ª METADE   - Os anjos estão cantando.

UMA             - E havia, lá na Judeia, um rei,

1ª METADE   - Feio bicho, de resto.

UMA              - Um cara de burro, sem cabresto.

UMA              - E duas grandes tranças.

2ª METADE   - A gente olhava para ele, reparava e via

UMA             - Que naquela figura havia,

UMA              - Olhos de quem não gostava de crianças.

4.as SEIS        - E o malvado

1.as SEIS        - Mandou matar quantos eram pequenos.

TODAS          - Só porque não gostava de crianças.

1ª METADE   - Mas os anjos em coro no reino da luz.

2ª METADE   - Entoam hossanas a Cristo Jesus

1ª METADE   - O nosso Menino,

UMA             - Nasceu em Belém.

UMA             - Nasce tão somente.

TODAS          - Para nos querer bem.

1ª METADE   - Adoremos o menino,

2ª METADE   - Nascido em tanta pobreza

2.as SEIS        - E lhe oferecemos presentes

3.as SEIS        - Da nossa pobre riqueza.

UMA             - Jesus pequenino não quis ter um berço,

UMA              - Numa manjedoura ficou.

TODAS          - Hossana lá nas alturas. Adoramos o Menino.

2ª METADE   - Ofereçamos-lhe presentes:

TODAS          - A nossa manta de pele.

1ª METADE   - O nosso gorro de lã.

2ª METADE   - A nossa faquinha amolada.

UMA              - O nosso chá de hortelã.

1ª METADE   - Os anjos cantavam hinos,

UMA             - A alegria era tão grande

TODAS          - E nós cantamos também:

UMA             - Que noite bonita é esta,

UMA             - Em que a vida fica mansa.

UMA              - Em que tudo vira festa,

UMA             - E o mundo inteiro descansa:

TODAS          - Chove!

1ª METADE   - É dia de Natal.

UMA             - Na província neva.

UMA              - Lá para o Norte é bem melhor.

UMA              - Nos lares aconchegados.

UMA              - Um sentimento conserva os sentimentos passados.

TODAS          - É dia de Natal!

2ª METADE   - E toda a gente está contente,

4.as SEIS        - Porque é dia de o ficar.

UMA              - Chove no Natal presente.

UMA             - Antes isso que nevar.

TODAS          - É Natal! É Natal! É Natal.

UMA             - O jornal fala dos pobres,

UMA              - Em letras grandes e pretas,

UMA             - Traz versos e historietas,

UMA              - Desenhos bonitinhos.

1.as SEIS        - Traz bodos, bodos, bodos.

2.as SEIS        - Hoje é dia de Natal.

3.as SEIS        - Mas quando será de todos?

TODAS          - Hoje é dia de Natal!

UMA             - Natal de quem?

UMA             - Dos que trazem às costas as cinzas de milhões.

TODAS          - É Natal! É Natal! É Natal.

UMA             - Natal de paz nesta guerra de sangue?

TODAS          - É Natal! É Natal! É Natal.

UMA             - Natal de liberdade num mundo de oprimidos?

TODOS          - É Natal! É Natal! É Natal.

UMA             - Natal duma justiça roubada sempre a todos?

TODAS          - É Natal! É Natal! É Natal.

UMA             - Natal de ser-se igual mas ser-se esquecido?

TODAS          - É Natal! É Natal! É Natal.

UMA             - Natal de caridade quando a fome ainda mata?

TODAS          - É Natal! É Natal! É Natal.

UMA             - Natal de esperança, num mundo de bombas?

TODAS          - É Natal! É Natal! É Natal.

UMA             - Natal de honestidade num mundo de traição?

1ª METADE   - Natal de quê? De quem?

2ª METADE   - Daqueles que o não têm.

TODAS          - É Natal! É Natal! É Natal.

UMA             - Entremos,  apressados, friorentos,

UMA             - Numa gruta,

UMA             - No bojo de um navio,

UMA              - Num presépio,

UMA              - Num prédio,

UMA              - Num presídio

UMA             - No prédio que amanhã for demolido

1ª METADE   - Entremos e depressa em qualquer sítio.

TODAS          - Porque sofremos porque temos frio,

2ª METADE   - Entremos e cantemos:

TODAS          - “A Todos um bom Natal”.

 

(Excertos de poemas de alguns poetas portugueses.)

Autoria e outros dados (tags, etc)

tags:

publicado por picodavigia2 às 16:28

MONUMENTO AO EMIGRANTE

Quinta-feira, 05.12.13

Sobre uma nesga de basalto,

erguida à beira-mar,

(embora invisível)

uma estátua de pedra negra,

tosca e desornada,

mas robusta e destemida,

aponta o além,

 

Nas pontas dos seus dedos,

há um rumor

de saudades,

vindo de longe,

e que, trazido pelo vento,

atravessou a harmonia dos oceanos

No brilho fosco dos seus olhos

há um rastro

de dor,

camuflado de silêncio,

que, caído das nuvens,

se transformou em lágrimas ocultas.

 

Saudades que perduram

e nunca fizeram esquecer,

aos que partiram,

o sabor adocicado das laranjas sumarentas

que ficaram nas hortas a apodrecer

ou o perfume melificado das maças de polpa entumecida,

que rolaram pelo chão, sem proveito.

Lágrimas que crescem

ao relembrarem

os frescos murmúrios das ribeiras

ou o verde amarelado dos trigais em flor.

Saudades

que carregam

o mugido hesitante dos vitelos

e o som dolente das Trindades.

Lágrimas

que evaporam, pelos telhados esburacados,

os fumos tisnados das lareiras

e os vagidos do pão quente, a fumegar.

 

E onde for o lugar daquele além

quanta for a sua distância,

- porque são muitos os que o demandaram -

a estátua de pedra negra

do emigrante que nunca partiu,

(apesar de invisível)

permanecerá, ali,

presa para sempre,

com lágrimas nos olhos

e dedos apontados

ao Ocidente

como memória viva

de quantos partiram

e  nunca mais voltaram.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

tags:

publicado por picodavigia2 às 15:28

O HOMEM DAS COUVES

Quinta-feira, 05.12.13

Quando eu era criança, juntamente com amigos e colegas de escola, bem nos intrigávamos com aquelas estranhas manchas que se viam na Lua, sobretudo quando ela estava em fase de Lua Cheia.

A senhora professora, na escola, e um outro velhote mais erudito lá nos iam dizendo que a Lua era muito semelhante à Terra e que, como esta, estava dividida em continentes e oceanos e, por conseguinte, as manchas escuras que se viam eram os continentes enquanto as partes mais claras correspondiam aos oceanos.

Mas esta não era a opinião mais autorizada e convincente que circulava pela freguesia. Em casa os pais e os avós e na igreja as catequistas e as beatas afirmavam a pés juntos e até com fundamentos na Bíblia e na Doutrina Cristã, que não era assim e que essas malfadadas e desditosas opiniões rondavam a heresia e aproximavam-se da apostasia. Por isso convidavam-nos a um olhar mais cuidado, meticuloso e atento para o astro mais brilhante do firmamento depois do Sol. Se na realidade olhássemos a Lua com mais atenção, com mais cuidado e, sobretudo, com muita imaginação, veríamos lá um homem com um molho de couves às costas. Na realidade, assim era, pois, segundo esses acérrimos defensores da fé, dos bons costumes e da verdade, aquelas manchas eram, nada mais nem nada menos do que a imagem ou a figura de um homem com um molho de couves às costas. O desgraçado, em vida, tinha sido um descrente, um malvado, um ateu que não respeitara, nem a lei de Deus, nem os mandamentos da Santa Madre Igreja. Um homem sem escrúpulos, sem dignidade e sobretudo sem fé que nem ia à missa e, ainda pior, trabalhava aos domingos, nomeadamente acartando, às costas, molhos de couves.

Mas o energúmeno, após a sua morte, foi castigado por Deus, sendo colocado por Ele na Lua, carregando um molho de couves, ficando ali e para sempre com aquele enorme peso às costas, a fim de que todos o vissem, revissem e servisse como exemplo de que se não deve trabalhar ao domingo, dando cumprimento à lei de Deus e aos mandamentos da Santa Madre Igreja.

Autoria e outros dados (tags, etc)

tags:

publicado por picodavigia2 às 12:50

AÇORES AS 9 MARAVILHAS DO MUNDO

Quinta-feira, 05.12.13

Foi colocado, no dia 7 de Abril, no “You tube”.pelo canal “AndCura” um vídeo de excelente qualidade sobre as ilhas açorianas, com o título “Açores – As 9 Maravilhas do Mundo. Trata-se de trabalho muito interessante, com imagens de rara beleza e com a locução de um dos maiores actores portugueses de sempre, Ruy de Carvalho.

No vídeo podem observar-se imagens de todas as ilhas, das vilas e cidades mais importantes e ainda dos ilhéus das Formigas. Embora colocado apenas há seis meses o vídeo já conta com 3.369 visualizações.

Curiosamente e porque a ordem de apresentação das ilhas se inicia nas Flores, passando por Corvo, Faial, Pico, S. Jorge, Graciosa, Terceira, Santa Maria, Formigas e São Miguel, as primeiras imagens apresentadas no vídeo são precisamente da Fajã Grande, vista do mar, ou seja do ponto mais ocidental da Europa.

O vídeo pode ser observado no “You Tube” ou no próprio canal “AndCura”, nos seguintes endereços:

No You Tube:

http://www.youtube.com/watch?v=xSt5eGP4ofU

No AndCura:

http://www.youtube.com/user/AndCura#p/u/1/xSt5eGP4ofU

 

Este texto foi publicado no Pico da Vigia em 23/10/11

Autoria e outros dados (tags, etc)

tags:

publicado por picodavigia2 às 11:03

TOTAIS E MÉDIAS - 6 MESES

Quinta-feira, 05.12.13
  1. Visitas - 3.925
  2. Média diária de visitas - 22
  3. Visualizações - 5.730
  4. Média diária de Visualizações - 32

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

tags:

publicado por picodavigia2 às 10:30

A BATATA BRANCA

Quinta-feira, 05.12.13

A Fajã Grande era local de muito cultivo e produção de batata branca, de tal forma que esta, nos anos cinquenta, era considerada elemento essencial no cardápio diário de todas as famílias da freguesia. Crê-se, no entanto, que nem sempre terá sido assim, uma vez que, como reza a história açoriana, este tubérculo só deu entrada nas ilhas dos Açores no terceiro quartel do século dezoito, alguns anos depois da chegada da batata-doce e cerca de cem depois da introdução da cultura do milho.

A batata branca, na Fajã, era cultivada sobretudo nas terras mais próximas do mar, nomeadamente, nas Furnas, no Areal, no Porto e no Estaleiro, onde era semeada em alternância com o milho e tinha como objectivo principal alimentar não apenas as pessoas mas também os porcos. Mas a batata branca de melhor qualidade e de melhor produção era semeada e cultivada nas courelas e nos pequenos terrenos junto das habitações, onde era muito adubada, muito bem tratada, de maneira a crescer sempre viçosa e a estar sempre disponível para as primeiras necessidades alimentares de cada família.

Na realidade, a batata revelou-se sempre de grande importância na economia fajãgrandense pois, para além de ser consumida por pessoas e porcos, também se utilizava a sua rama, logo que cortada e ainda fresca, para alimento das vacas. Além disso, alguns dos maiores produtores vendiam a batata excedente das suas colheitas, não só na Fajã mas também noutras freguesias da ilha.

Diziam os antigos que até à década de cinquenta do século passado, a batata branca era cultivada, na Fajã, em menor quantidade do que a batata-doce, sendo essa cultura feita quase exclusivamente nas courelas, junto às habitações. Sabe-se também que esta fraca produção de batata branca na primeira metade do século passado se deveu, sobretudo, a uma doença ou maleita que atingiu este tubérculo e que o tornava incapaz de ser utilizado para consumo. A importação da batata branca para consumo, de outras ilhas, nomeadamente do Faial e São Miguel ficava muito cara, por isso a sua utilização, como alimento, nessa altura, decresceu bastante na Fajã, sendo substituída não apenas pela batata-doce mas também pelo inhame.

A partir de 1947, ano em que o governo português autorizou a importação da semente de batata, a junta começou a disponibilizar, por toda a ilha das Flores, semente de excelente qualidade. Essa a razão por que se verificou, a partir de então na Fajã Grande, um aumento substancial da sua produção e, consequentemente, do seu consumo. A partir de então o seu cultivo estendeu-se às terras do Areal, das Furnas e do Porto. A semente importada era de boa qualidade e vendida a um preço acessível. Tratava-se das célebres batatas Arran-Banner, Arran-Consul e Up to date, designadas popularmente por Arranbana, Arranconsul e Aptudeite, importadas da Europa. Foi então que se começaram a semear grandes extensões de terreno com as novas espécies que se reproduziam em larga escala, e que constituíam uma parte importante da alimentação das pessoas e dos animais.

Assim as batatas brancas, sobretudo cozidas, começaram a ser o acompanhamento mais frequente de qualquer conduto, sobretudo à refeição do meio-dia. Por vezes e nas casas mais pobres, até eram comidas sem nada ou com fatias de abóbora ou maçarocas de milho que eram cozidas juntamente com elas. Era sobretudo as batatas brancas que acompanhavam o peixe frito ou cozido, a molha de carne, as tortas, uma ou outra lata de conserva, a carne de porco e até a linguiça frita. Além disso eram elemento essencial, tanto na sopa de couve como na de agrião e ainda eram utilizadas, sobretudo à ceia, geralmente as que sobravam do jantar, para fazer o tradicional “mangão”.

Acrescente.se que a batata branca é originária dos Andes, no Peru, donde foi trazida, em 1570, para a Europa pelos conquistadores espanhóis, ao que parece, por mera curiosidade botânica. Porém, com o com o passar do tempo, a batata, um alimento muito rico em vitamina B e C e, sobretudo, em ferro e zinco, tornou-se num dos vegetais mais utilizados na alimentação humana, não apenas no velho continente, mas em todo o mundo. A Fajã Grande não foi excepção.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por picodavigia2 às 10:20

REPROVE-ME

Quinta-feira, 05.12.13

Educadíssimo, entrava na sala esquivando-se a atropelos e empurrões, não se emaranhava em confusões nem em barafundas, alienava-se a berreiros e algazarras e agarrava-se à delicadeza e às boas maneiras como se fossem apanágio das suas atitudes e do seu comportamento. Depois sentava-se como que amordaçado na sua cadeira, abria com acentuado esmero e desmedida pachorra a mochila que carregava a tiracolo e ia colocando, arrumadamente, sobre a mesa, à sua frente, livros, cadernos, canetas, enfim, tudo o que fosse indispensável ao trabalho de aluno aplicado.

Os outros num alvoroço excessivo, numa atribulação gritante e numa algazarra desmedida, embebidos na ânsia de que quanto mais curta fosse a aula melhor. Ele, o Bruno, a desejar lá bem no seu íntimo, que se calassem, que se sentassem, que ouvissem o mestre e os seus ensinamentos.

Por fim, açulados com os apelos do professor, os outros lá se iam calando, acomodando, deixando que a aula se iniciasse. E a aula começava, com os outros a perguntar, a questionar, a interromper e, por vezes, a alienarem-se e a distraírem-se. Ele, o Bruno, sempre calado, sempre atento, sempre a observar o que se passava dentro da sala, apenas a responder, adequada e correctamente, quando interrogado. Mas nas fichas e nos trabalhos de avaliação os outros a empenharem-se, a elaborar respostas correctas e a conseguir resultados positivos. Ele, o Bruno, a desmazelar-se, a elaborar, como que de propósito, respostas erradas e a obter resultados negativos.

Nas reuniões dos conselhos de turma os professores, admirados e pasmados, sem entender o que se passava, indignavam-se, constrangiam-se, interrogavam-se, elaboravam planos de recuperação e comprometiam-se a desvendar o enigma. A directora de turma já chamara a mãe à escola, mas a senhora ainda se admirara mais do que ela com o incompreensível e estranho comportamento do filho. Mas prometeu que ele havia de mudar. Mas não mudou. Pelo contrário, quanto mais revelava ser um aluno de comportamento exemplar e de uma boa capacidade de aprendizagem, menos se empenhava nos trabalhos de avaliação.

Tão estranho comportamento levou-me a pensar que ali havia embuste e eu, um dos professores, havia de o descobrir, custasse o que custasse.

 Certo dia, já perto do fim do ano, aproximei-me dele e de rompante, atirei-lhe:

- Sabes uma coisa? Mesmo com todas as negativas que tiveste nos testes, eu vou passar-te de ano.

Foi como se o céu lhe desabasse em cima. Voltou-se para mim com os olhos rasos de lágrimas e começou a implorar-me:

- Professor, não, não faça isso, reprove-me, reprove-me por favor.

Era o que faltava! Havia de passá-lo e até com um quatro ou com um cinco. E ele, o Bruno, cada vez mais lavado em lágrimas, mais indignado, mais revoltado, mais desesperado, a implorar com maior insistência;

- Reprove.me, professor. Reprove-me.

Coloquei-lhe o braço por cima do ombro, pedi-lhe que enxugasse as lágrimas e disse-lhe com alguma serenidade:

- Está bem. Vou fazer-te a vontade. Vou reprovar-te, mas com uma condição. Concordas?

- E qual é a condição, setor? – Perguntou apreensivo.

Respondi-lhe:

- Só te reprovo se tu me explicares porque é que queres que te reprove.

Calou-se por uns momentos e ficou pensativo por mais alguns. Depois olhou-me com uns olhos cheios de verdade e um rosto expectante de ternura e explicou. Explicou que os pais eram muito pobres e que precisavam dele para trabalhar. Explicou que se passasse de ano o pai não o deixava ir para o terceiro ciclo e havia de ir trabalhar… trabalhar que nem um escravo… Além disso, em casa passava fome e ali, na escola tinha almoço do bom e do melhor e com o pratinho sempre cheio. Que o deixasse ficar ali, na escola, pelo menos mais um ano, sem ir trabalhar e a ter comidinha boa e em quantidade

E como mais uma vez me pedisse que o reprovasse, reprovei-o mesmo, eu e alguns dos outros professores.

Acresce dizer-se, que no ano seguinte ele, o Bruno, foi um dos melhores alunos da turma

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por picodavigia2 às 09:43





mais sobre mim

foto do autor


pesquisar

Pesquisar no Blog  

VISITANTES

free web counter

calendário

Dezembro 2013

D S T Q Q S S
1234567
891011121314
15161718192021
22232425262728
293031