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MÃE CORAGEM

Sábado, 07.12.13

Meu avô era um pequeno médio lavrador. Tinha duas vacas leiteiras, um junta de gueixos para a canga, algumas terras de milho, outras tantas de mato e várias relvas. No Mato tinha a relva do Queiroal, onde, no Verão, soltava o gado alfeiro e, ali logo no cimo da Rocha, a terra do Bracéu. Bem precisava ele, pois, de braços fortes para o ajudar nas lides dos campos, nas tarefas agrícolas e no arranjo e trato do gado. Os primeiros rebentos nasceram meninas e os rapazes, na sua maioria, vieram mais tarde. Umas e outros, no entanto, iam-se escapulindo e zarpando para a América, para o convento e até, no caso dos rapazes, para a tropa. Para o ajudar no trabalho agrícola, ficou uma das primeiras filhas, Angelina de seu nome, que, mais tarde, foi minha mãe. Angelina nascera forte, robusta e saudável e logo se tornou jovem moçoila, valente, trabalhadeira e afoita. Depressa se havia de lhe traçar o destino. Assentava-lhe tão bem o trabalho árduo e duro dos campos, a ele se adaptando com mestria e dedicação. Enquanto o Sol lhe ia tornando trigueiro o rosto e o cabo da enxada lhe calejava as mãos, lá ia ela, dia após dia, à chuva, ao vento e às tempestades, pés descalços, foice ao ombro, rodilha à cabeça, aguilhada na mão, calcorreando atalhos e veredas, saltando grotas e tapumes, perfurando madrugadas cinzentas e nevoeiros obnubilados. Tanto sachava milho na Bandeja como ceifava erva na Figueira, tão facilmente carregava à cabeça cestos de batatas e de inhames, como se agarrava-se à rabiça do arado abrindo sulcos profundos, revirando e desfazendo as leivas enrijecidas, tão bem sachava, mondava e quebrava espiga, como rachava lenha e a empilhava ordenadamente debaixo do lar da cozinha. Subia a Rocha sem lhe contar as voltas e, ainda noite escura, e no regresso da ceifa da Alagoinha vergava-se sob os pesados molhos de lenha do Cabeço da Rocha. Soltava os bois da manjedoura e atrelava-lhes o corsão ou o arado, ordenhava as vacas, tirava-lhes o estrume e levava-as ao pasto. Desempenhava todas tarefas agrícolas com perfeição, sabedoria e nobreza, carregando, sem queixumes, sobre a rodilha ou sobre os ombros, o peso inequívoco dos produtos das colheitas agrícolas.

Trabalho digno, honrado, humilde, verdadeiro e empenhado o seu.

Conta-se que certa tarde foi com meu avô às batatas-doces para o cerrado das Furnas. Cortaram a rama, cavaram a terra, sacudiram as batatas e limparam-nas de forma a encher um grande cesto, que a família era muita. Voltaram: ele atrás com o molho da rama; ela à frente, descalça, formosa e segura, de tez morena e bochechas bem avermelhadas, a respingar suores e a arfar cansaço, com um enorme e pesadíssimo cesto à cabeça, bem acaculado e a abarrotar de batatas-doces. Subiu a rua Nova, atravessou as Courelas, entrou na rua Direita e aproximou-se da Praça, onde muitos homens ali se tinham sentado, passando a tarde inteira a descansar, a falquejar, a tagarelar, a comentar, a gozar e, pior ainda, a injuriar, a difamar e a meterem-se na vida alheia.

Ao vê-la com tal carrego à cabeça, logo se insurgiram com ditos e palavras que punham em causa a veracidade do que trazia no cesto. Que era bazófia! Que não podia com um gato pendurado pelo rabo, muito menos um cesto tão cheio de batatas-doces.

As insinuações transformaram-se em desconfiança e esta em descrédito. Que aquilo não era tudo batatas. Que para mostrar que era forte, de certo enchera o cesto, por baixo, com a rama leve e apenas lhe colocara duas dúzias de batatas no cimo, para disfarçar. Aldrabona! Trapaceira! Mentirosa! Bem enganava as mulheres, mas a eles, homens rijos e valentes, discretos e trabalhadores, é que não!

Angelina, indignada com tamanha injustiça e tão desmesurada aleivosia, não se conteve, nem esteve com meias medidas e vai disto: aproximou-se dos sacripantas e, perante o espanto e espasmo de todos, chapou-lhes com o cesto das batatas mesmo ali, no meio da Praça, em frente às ventas de tão injustos difamadores.

Ah! Grande mãe! Que coragem!

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publicado por picodavigia2 às 23:59

BOI EM TERRA ALHEIA

Sábado, 07.12.13

“Boi em terra alheia é vaca.”

Numa sociedade, em cuja economia, a criação de bovinos ocupa um lugar de relevo e que é fundamental para a sua sobrevivência, o boi e, sobretudo a vaca adquirem um estatuto de importância desmesurada e como que passam a integrar as conversas, os ditos, as tradições, os costumes e a própria cultura popular dessa sociedade. Na Fajã Grande a vaca tinha um papel de grande importância, pois dela se extraíam alguns dos alimentos mais utilizados na alimentação diária, como o leite o queijo, a manteiga e a própria carne. Além disso, eram as vacas em fim de vida ou as suas crias, já feitas gueixas que, vendidas para Lisboa, traziam algum dinheiro a cada casa ou a cada família. Por isso mesmo a vaca tinha uma importância primordial e muitíssimo superior à do boi.

Assim este douto e interessante adágio deve ser entendido, exclusivamente, no sentido figurado. Aqui não se refere nem à vaca nem ao boi, mas à pessoa humana, que, não é a mesma na sua terra natal, onde é conhecida de todos e noutros locais onde ninguém a conhece e onde pode parecer e até apresentar-se muito diferente do que é, sem ninguém dar por isso. Num sítio estanho onde ninguém nos conhece as nossas fraquezas, os nossos defeitos e as nossas vicissitudes, podemos muito bem disfarçar e fazermo-nos passar por aquilo que de facto não somos, isto é por uma pessoa bondosa, generosa e sem defeitos, porque ninguém o conhece. O adágio alertava também pra que os habitantes da Fajã não se deixassem enganar por aqueles que os visitavam, porque na realidade poderiam parecer uma coisa e serem outra bastante pior

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publicado por picodavigia2 às 23:22

TOSSE DE GUINCHO

Sábado, 07.12.13

Era um dos maiores flagelos que nos atingia na nossa infância. Uma maleita da qual quase ninguém se livrava e que nos deixava acabrunhados, melancólicos, combalidos alquebrados, raquíticos, quase desfeitos. E tocava a todos, tal era o seu carácter extremamente contagioso. Aquilo era como lume em palha. Dava num e… zás! Alastrava a todos! Pegava como tinha! Propagava-se a toda a garopada.

Na realidade, a Tosse Convulsa, ou a Coqueluche que grassava tão frequentemente na Fajã Grande, nos anos cinquenta, e atingia sem dó nem piedade, toda a ganapada miúda, era uma infecção muito contagiosa e provocava ataques de tosse, contínuos, permanentes, dolorosos e que, normalmente, acabavam numa inspiração prolongada, profunda que emitia um som agudo, esquisito, estranho, uma espécie de guincho e, por isso mesmo, era designada, popularmente, por Tosse de Guincho.

Esta epidemia surgia na Fajã Grande, com bastante frequência e para se transmitir bastava que estivéssemos em contacto com outra criança ou com outra pessoa que já a tivesse contraído. Mas a maldita, não atingia só as crianças, pois podia-se apanhar a Tosse de Guincho com qualquer idade e mais do que uma vez. Mas as crianças eram o alvo preferido da malévola, sendo que muitos dos casos ocorriam em crianças de tenra idade, algumas ainda de berço, havendo, na altura, relatos aterradores de crianças mortas à míngua, em tempos não muito recuados, devido esta epidemia. De facto quem contraía a Tosse Guincho uma vez, não se livrava dela para sempre, pois não era garantia de uma imunidade para toda a vida. No entanto, acreditava-se que o segundo ataque, quando ocorria, costumava ser mais ligeiro e menos penoso do que o primeiro.

Quem estava infectado propagava facilmente a doença aos outros, dado que, ao tossir, enviava, através do ar, gotas de humidade que continham as malfadadas bactérias ou micróbios e que, qualquer pessoa que se encontrasse, mais perto, poderia perfeitamente inalar e, consequentemente, ser infectada. Por isso, em tempos de crise epidémica, éramos isolados, trancados a sete chaves, fechados em casa e bem avisados para não tossirmos em frente às pessoas ou que nos afastássemos de quem tinha a dita cuja, o que não era fácil, tal a intensidade e a frequência deste flagelo.

E, para mal dos nossos pecados, a Tosse de Guincho, geralmente, não vinha, só. Trazia consigo outras complicações que nos afectavam, e de que maneira, os canais respiratórios. É que para além da tosse, as vias respiratórias permaneciam entupidas, dificultando a respiração. Dizíamos que ficávamos tapados, com muita dificuldade em respirar. Havia também a possibilidade de contrairmos pneumonia, o que poderia ser mortal.

E, pior que tudo, é que não havia nem médicos nem medicamentos que nos valessem. Eram uns xaropes caseiros, nomeadamente um que era feito com aguardente e açúcar. Uma vez misturados num prato, a mixórdia resultante era incendiada com uma mexa, formando uma chama azul e amarelada que, lentamente, ia queimando o álcool. No fundo do prato ficava um resíduo melaço, adocicado que se ia tomando em pequenas quantidades, porque quer o açúcar quer a água ardente rareavam e, além disso, eram muito caros.

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publicado por picodavigia2 às 22:08

JOÃO CARLOS MACEDO - A MINHA VIDA É UM POEMA

Sábado, 07.12.13

João Carlos do Couto Macedo,  funcionário público, político, poeta, reformado, natural da freguesia da Fajã de Baixo, ilha de S. Miguel, reside na terra natal, tendo trabalhado na cidade de Ponta Delgada. Fez parte da sua formação académica, no SEA.

 

 

A minha vida e um poema,

eu sou o tema

e a rima é o fragor dos vendavais,

soprando nos pinhais...

 

Foi numa Noite

em que os bosques levaram um açoite

do vento, que soprava...

 

Era uma Noite fanada!

 

A lua,

estranha fada

que palmilhava a rua,

veio beijá-los na frança enregelada

e, muito sua,

partiu à desfilada!

 

Viram-na pegar na pena,

para lá dos vidros da janela!

 

E que estranha cena

aquela

 

A lua fazia um poema

lá em cima!

─ Eu era o tema

E o vendaval a rima!

 

Nasci naquela Noite

em que os bosques levaram um acoite

do vento...

 

E é por isso que, após esse momento,

trago sempre comigo estes sinais:

─ no rosto, o luar do firmamento;

na alma, o fragor dos vendavais...

 

João Carlos,

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publicado por picodavigia2 às 21:08

O GRUPO CORAL DAS LAJES DO PICO

Sábado, 07.12.13

O Grupo Coral das Lajes do Pico, declarado em 2009 de interesse público, pelo Governo Regional dos Açores, foi criado em 1983, segundo os seus fundadores, apenas com o objectivo de colaborar e abrilhantar as comemorações do primeiro centenário da Festa de Nossa Senhora de Lurdes e da Actividade Baleeira nas Lajes do Pico. Nessa altura, o Grupo para além de abrilhantar as festas religiosas participou também na sessão solene de abertura da Semana dos Baleeiros, apresentando um reportório variado, executando temas populares açorianos. Na origem do seu aparecimento estão o seu actual maestro Manuel Emílio Porto e o Padre Dr. António Rogério Andrade Gomes, na altura pároco nas Lajes do Pico.

No entanto e por vontade manifesta de alguns dos seus elementos, o grupo continuou e manteve uma constante actividade, até que em 1996, lançou o seu primeiro CD subordinado ao tema “Música Popular Açoriana”. Nos últimos anos, tem desenvolvido diversas actividades, dentro e fora do Concelho das Lajes do Pico, tendo lançado mais dois CD’s: “Montanha do Meu Destino”, em 2000 e “Música em Tempo de Festa” em 2005. Recentemente e por altura da Semana dos Baleeiros, o Grupo Coral das Lajes do Pico apresentou o seu quarto trabalho intitulado “Espírito Santo”, tendo gravado assim um quarto CD que contém onze temas, relacionados com as festas açorianas em honra do Paráclito, nomeadamente, o chamado “terço” do Senhor Espírito Santo, ainda hoje cantado por populares nas novenas realizadas como preparação para a festa, na própria casa do Mordomo, onde os símbolos da Terceira Pessoa da Santíssima Trindade, ocupam lugar de relevo.

Segundo as palavras do seu maestro, Emílio Porto, o Grupo “ tem como objectivo principal a cultura da música vocal polifónica, com ou sem o apoio de instrumentos, formação técnica de voz e musical dos seus membros, promoção da música sacra e profana, em especial a música popular açoriana, podendo alargar a sua actividade a outras acções culturais e recreativas”.

Para atingir este objectivo, o Grupo Coral das Lajes do Pico desenvolve a sua actividade em diversas áreas, fazendo-se notar, nomeadamente, em aniversários de sociedades filarmónicas e desportivas, no lançamento de livros, nas semanas culturais e nos Encontros de Coros. Ao longo do seu percurso musical, o Grupo Coral das Lajes do Pico promoveu a união de vários grupos etários no ensino e divulgação do canto e levou o nome do Concelho das Lajes do Pico e da Região Autónoma dos Açores a diversos locais, nacionais e internacionais, para onde foi convidados a actuar – Angra, Ponta Delgada, Vila do Conde, Horta e Cedros, São Roque – em todas as freguesias; Madalena – em quase todas as freguesias; Lajes – em todas as freguesias; em 1997 participou na 1ª Semana cultural dos Açores em Toronto – Canadá; e nos Encontros de coros: em Cangas do Morrazo na Galiza; Santiago de Cacem, Santo André, Moita, Aljustrel, Sines, Mafra, Ericeira e Velas – São Jorge.

O Grupo, sob a competente e sábia orientação do seu maestro Emílio Porto, tem procurado manter-se fiel ao tipo de música que escolheu para cantar em 1983 – a música de raiz popular, açoriana e portuguesa, com alguma incursão na música dos novos compositores açorianos. Por isso, no seu reportório tem predominado a música popular açoriana, com temas como A Lira, Os Braços, A Tirana, O Tanchão, Olhos Negros, Saudade, Sapateia, Chamarrita e outros relativos ao Natal e ao Espírito Santo.

O Grupo é constituído, actualmente, pelos seguintes elementos:

Maestro – Manuel Emílio Porto.

Sopranos: Ana Maria Sequeira, Cleide Soares Pereira, Graça Machado Oliveira, Helena Maria Alves Barreto, Inês Maria Terra Brum, Janete Melo Lima, Lina Cristina Soares Azevedo, Lurdes da Conceição Soares Melo, Maria de Fátima Soares Betencourt, Maria Amélia Brum Pereira, Maria Adelina Machado Ávila, Maria da Graça Lopes Machado Ávila, Maria Goretti Alves Gonçalves, Maria de Jesus Maciel, Maria Norberta Maciel, Mercês Maria Mendonça Maciel, Mónica Patrícia de Melo Alves, Mónica Ávila, Márcia Machado e Márcia Isabel da Costa Machado.

Contraltos: Alda Maria Macedo Soares, Andreia Pereira, Celina Carmo Fontes, Esmeralda de Fátima Vargas, Eva Maria Vieira Goulart, Maria Ermelinda de Brum Bettencourt, Maria de Lurdes Bettencourt Oliveira, Maria Adosinda do Nascimento Ávila, Maria do Carmo Meireles Costa, Orlanda Maria Rodrigues Quaresma, Rosa Maria Soares da Costa, Teresa de Fátima Duarte Silva, Helena Maria Goulart Ávila, Sandra Catarina Duarte Ferreira e Josué B. Machado Vieira.

Baixos; António Pedro Garcia Alvernaz, João Simas Jorge, José António Bernardo Maciel, Manuel Alves Gonçalves, Manuel Pereira Bettencourt, Manuel Urbano Dutra, Roberto Madruga Soares e Rui Pedro Ávila.

Tenores: Francisco José Vieira Soares, Helder Manuel Gomes Fernandes, Jorge Alves Jorge, Leandro Macedo Soares, Manuel Paulino Goulart e padre João da Ponte,

Clarinete: Hildeberto Manuel Pereira Peixoto. Violas: Manuel Francisco Costa, Hugo dos Santos Cardoso, Manuel Paulino Soares da Costa. Violão: Fernando Santos Cardoso.

Solista: Lurdes Melo.

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publicado por picodavigia2 às 18:30

QUATRO MOTIVOS DA FAJÃ GRANDE – IV

Sábado, 07.12.13

Os arados sulcaram a terra

e das sementes brotaram plantas que foram esperança

nos dias do povo.

 

Na praça os homens falavam da beleza do tempo:

 

            Ano como este nunca se viu.

            Vai haver muito milho.

            Vai ser um ano grande,

 

(Há quase dois meses o estaleiro vazio

e não há quem venda um alqueire de grão.)

 

Na terra as plantas crescem.

Crescem promessas

nos olhos do povo.

 

…Então

o vento soprou rijo da banda do mar

e a salmoura caiu sobre a terra

como uma semente de maldição.

 

E onde houve searas viçosas

ficou mais um ano de fomes

e os nossos corações sangrando.

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publicado por picodavigia2 às 17:29

AS TÊMPORAS DE SETEMBRO E AS ROGAÇÔES

Sábado, 07.12.13

As Têmporas eram dias de penitência e oração estabelecidos pela Igreja Católica e que, outrora constavam no calendário litúrgico. Foram estabelecidas pelo papa Gregório VII, em 1078 e celebravam-se quatro vezes no ano, coincidindo, mais ou menos, com os equinócios e os solstícios. Assim tínhamos têmporas na 3ª semana do Advento (Dezembro), na 1ª semana da Quaresma (Março), na semana a seguir ao Pentecostes (Junho) e, finalmente, na 3ª semana de Setembro.

Os dias semanais dedicados às Têmporas eram a quarta, a sexta e o sábado, sendo a sexta o dia “mais forte” e que, como tal, tinha estatuto igual ou semelhante ao das sextas-feiras da Quaresma, incluindo a obrigação da abstinência, dado que a do jejum, nestes dias, era abolida com a compra das bulas e dos indultos papais. A cor litúrgica era o roxo, inclusive nas Têmporas do Pentecostes e nas de Setembro.

Crê-se que as Têmporas tenham tido a sua origem nos préstitos e sacrifícios que os pagãos costumavam fazer ao longo do ano e por altura do semear e do recolher dos produtos agrícolas, para, no primeiro caso, pedirem aos deuses boas colheitas e, no segundo, para lhes agradecer a eficiente recolha das mesmas. Daí que as Têmporas, nomeadamente as de Setembro, tenham estado, depois de cristianizadas, geralmente ligadas ao trabalho dos campos, incluindo procissões através dos campos, chamadas Rogações.

Na Fajã Grande e, provavelmente, em todas as freguesias açorianas, as Têmporas mais celebradas eram as de Setembro. As do Advento e as da Quaresma enquadravam-se em tempos litúrgicos já de si dedicados à oração e à penitência e onde predominava o roxo, como cor litúrgica. As do Pentecostes seriam naturalmente pouco notadas devido à grandiosidade e durabilidade que as festas de Espírito Santo tinham e têm, nos Açores. Daí que as de Setembro, agendadas num tempo litúrgico em que mais nada se celebrava, tivessem maior relevo e fossem mais solenizadas. Acrescente-se ainda o facto de se realizarem por altura das colheitas, no fim do Verão, quando geralmente se verificavam dias e dias sem chover, o que obviamente prejudicava a produção agrícola. Daí as Rogações, realizadas todos os anos por esta altura e que eram vestígios claros dos préstitos pagãos acima referidos, nos quais tiveram, obviamente, origem.

Assim, nos dias de Têmporas de Setembro, de manhãzinha, muito cedo, após a missa, que tinha uma afluência muito semelhante à dos Domingos, organizavam-se as “Rogações”. Eram procissões de penitência e oração, sem Santos e sem andores, onde apenas seguia a cruz paroquial, revestida de manga roxa. Depois os homens, a maior parte de opas, as mulheres de cabeça coberta e no fim o pároco, revestido de pluvial roxo e de hissope em riste, que ia, sucessivamente, molhando na caldeirinha que o sacristão segurava e com o qual aspergia e benzia os campos por onde a procissão passava, ao mesmo tempo que entoava, em latim e enquanto os sinos dobravam, a ladainha de todos os santos. Entre muitas outras invocações o pároco cantava:

- “Ut fructus terrae dare et conservare digneris.”. (Que Vos digneis dar-nos e conservar os frutos da terra).

- “Te rogamus audi nós.” (Nós Vos rogamos, ouvi-nos) – implorava o povo.

Por vezes, noutras alturas do ano e sempre que faltava chuva, originando períodos de seca prolongada que prejudicavam seriamente a produção agrícola e, indirectamente, a pecuária, também havia Rogações mas com pequenas diferenças das realizadas nas Têmporas: eram pedidas pelo povo e o pároco levava uma pequenina e velha imagem de Sant’Ana, (substituída mais tarde por uma nova, tendo a primitiva desaparecido misteriosamente), à qual se dirigiam vários cânticos e preces, seguidas das ladainhas.

As procissões das Rogações normalmente percorriam as Courelas, Rua Nova, a Via d´Agua e a Tronqueira, ou seja as zonas onde as terras eram mais próximas do mar, atingidas pela salmoira, mais secas e onde a recolha dos produtos agrícolas se verificava mais cedo.

Para gáudio de todos e para fortalecimento e solidificação da fé, geralmente chovia, alguns dias após as Rogações. Não estivéssemos em Setembro e nos Açores!

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publicado por picodavigia2 às 00:15





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