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MEIO DIA NA GRACIOSA

Sexta-feira, 13.12.13

Antigamente, na Fajã Grande, quando se ouvia um burro zurrar dizia-se que era “meio-dia” na Graciosa. A razão desta estranha e inédita metáfora era simples. É que na ilha Graciosa, ou ilha Branca como, por vezes, actualmente, é designada, existiam muitos burros, contrariamente à ilha das Flores e mais concretamente à Fajã Grande, onde, na altura, os asininos rareavam.

Na realidade, a ilha Graciosa era identificada, nesses tempos, como a ilha açoriana dos burros assim como Santa Maria era a ilha dos “cagarros”, enquanto São Miguel era a dos “coriscos mal amanhados” e a Terceira a dos “rabos tortos”. De facto aquela ilha ainda hoje reivindica para si, quer o título de “capital” açoriana dos asininos, quer o estatuto de possuir uma população de burros, para além de grande, única, invulgar e especial, pois o burro da ilha Graciosa apresenta como característica original a sua altura reduzida. São burros de pequena estatura mas, segundo rezam as crónicas, nem por isso mais frágeis ou menos fortes do que os das restantes ilhas, mais altos e mais corpulentos.

Curiosamente, o burro, assim como outros animais, nos Açores, sempre teve algumas superstições a si associadas. Antigamente contavam-se algumas “estórias” onde se desenrolavam acontecimentos mirabolantes relacionados com o burro, como, por exemplo, o do seu excremento se transformar, misteriosamente, em oiro. Também se contavam outras “estórias” em que intervinham feiticeiras e onde acontecia precisamente ao contrário, ou seja, eram os cereais ou outros produtos que se tornavam em excrementos de burro. Nalgumas ilhas acreditava-se que posta no alto de um pau, fora da porta de casa, a caveira de um burro afugentava os espíritos maus, enquanto noutras se cuidava que soprando com um canudo de cana no dito cujo de um burro morto, ele ressuscitava. Também era opinião generalizada de que o leite de burra dava muita força, sobretudo às parturientes. Alguns provérbios populares, embora não estritamente açorianos, também lembram estas superstições, como por exemplo: “A burro morto, cevada ao rabo.” ou “Vozes de burro não chegam ao céu.” Por isso não era de se estranhar que na Fajã Grande também houvesse este estranho hábito de se identificar o zurrar de um burro como o indicador do meio-dia na ilha Graciosa, enquanto em toda a ilha das Flores era assinalado com cinco badaladas no sino, sendo as três primeiras mais espaçadas e as duas últimas seguidas.

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publicado por picodavigia2 às 21:58

FLYING WEST

Sexta-feira, 13.12.13

Simplesmente espectacular! Verdadeiramente sublime! É o que se pode dizer de uma maravilhoso filme apresentado no Youtube, intitulado “Flying west”, que embora colocado há um ano, já conta com 3457 visualizações. Nele podem observar-se espantosas imagens da parte do território geográfico da ilha das Flores, pertencente à freguesia da Fajã Grande.

O filme começa por apresentar imagens da zona do mato, mais concretamente, da Burrinha, dos arredores do Morro Alto, Água Branca e das Lagoas. No início pode observar-se a Lagoa Funda, passando, de seguida, para a da Água Branca e, depois, para a Comprida, existindo também imagens que permitem ver lado a lado esta última e a Funda. É possível também apreciar uma magnífica vista aérea de toda a zona limítrofe das Lagoas, do Queiroal, dos arredores do Morro Alto e da Água Branca, passando pela estrada de Santa Cruz até à Cova da Pedra e, sobretudo, observar, lá do alto, o sinuoso percurso por onde serpenteia a Ribeira Grande até se atirar pela Rocha, vindo cair cá em baixo, correndo depois na direcção do mar, não sem formar, ao longo do seu percurso, inúmeros lagos e açudes, bem como os regos que dela emanam com a denodada intenção de alimentarem os moinhos da Fajãzinha. Sobrevoando a parte mais baixa da freguesia, ou seja, a “fajã” propriamente dita, é possível observar, primeiro a zona sul da freguesia, entre a Rocha e o mar, na zona circundante à estrada que conduz a Santa Cruz e às Lajes, nos do Lavadouros e do Vale Fundo e observar, também, lá do alto, maravilhoso Poço da Alagoinha com toda a vegetação luxuriante que o rodeia, as imensas grotas que caem pela Rocha e o alimentam, a sua proximidade da estrada e a sua ligação à Ribeira do Ferreiro, por onde se escoa uma boa parte que lhe cai das grotas da Rocha.

De seguida as filmagens fixam-se na zona circundante ao antigo caminho que ligava a Fontinha aos Lavadouros, podendo observar-se os lugares que se situam junto da Rocha, como a Figueira, a Silveirinha, a Escada-Mar, os Paus-Brancos, Mateus Pires e a Alagoinha, É possível também observar, a emergir desta enorme planície um pequeno monte, precisamente o Pico Agudo.

Finalmente o filme apresenta-nos a parte central da freguesia, mais concretamente a chamada zona das casas, desde oeste até ao leste, com toda a costa e, ainda, a Ponta bem lá ao fundo, com a capelinha da Senhora do Carmo a salientar-se e como que encravada na Rocha. O filme termina na zona do Areal, com imagens espectaculares de todo aquele local, das terras muito bem divididas e trabalhadas, da estrada que substituiu o antigo caminho e uma ou outra casa, recentemente por ali construídas. Por fim pode observar-se no Canto do Areal, toda a zona do baixio, com as suas poças, recortes e carneiros a misturarem-se com a braveza das ondas, mesmo ali, por fora da Poça das Salemas, precisamente no lugar onde a Bidart, há noventa e seis anos, naufragou.

O filme tem apenas a duração de 5,08 minutos e pode ver-se no seguinte URL:

http://www.youtube.com/watch?v=TpKWWvw5zBA  

Ainda no Youtube é possível visionar um outro filme também com belas imagens sobre a Fajã Grande, mas menos abrangente, com imagens intercaladas com outras de toda a costa oeste da ilha e intitulado “Part of the western coast, lakes and center mountains of Flores Island” e que pode ser visionado em:

http://www.youtube.com/watch?v=TpKWWvw5zBA

 

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publicado por picodavigia2 às 19:36

JOÃO E ANGELINA

Sexta-feira, 13.12.13

Tarde de Inverno! Na aba de uma parede da Silveirinha, a abrigaram-se da chuva e a protegeram-se das intempéries. Ela exausta de carregar um cesto de inhames da Alagoinha, ele vergado ao peso de um enorme molho de lenha do Pocestinho. A chuva, cada vez mais intensa, opunha-se ferozmente à pertinente resistência da aba e começava a penetrar-lhe nos corpos, misturando-se com suores e canseiras. Encolheram-se mais, aconchegaram-se em demasia junto à parede e os seus corpos, tolhidos pela chuva e encharcados de inocência, tocaram-se, ao de leve. Ela mais nova, mais tímida, mais triste, mais dolente, mais silenciosa, mais embaraçada e menos requintada de desejos. Ele mais velho, mais ousado, mais afoito, mais conversador, mais habituado a bailaricos e folias e menos comedido em ousadia. A chuva, agora, caía mais forte, em catadupa e, por mais que se encostassem à parede e por mais que os seus corpos se embrenhassem na aba, não podiam resistir nem à intempérie, nem à troca de afectos. Deram as mãos e estremeceram. Olharam-se de frente e enterneceram-se. E com o cair permanente e cada vez mais intenso da chuva e com um simples acenar de cabeça e com um sorriso do tamanho do mundo, perceberam que tudo começava ali.

Os pais dela rejeitaram, condenaram, intimidaram, proibiram e ameaçaram. As irmãs zombaram, chacotearam, escarneceram e ridicularizaram. Um badameco daqueles, que não tinha onde cair morto, um zé-ninguém com o pai a finar-se, a mãe acamada e com uma irmã tola, um simplório sem sonhos e sem futuro que nem à América aspirava. Que não lhes batesse à porta, o palerma, que havia ouvir das boas. Fosse procurar mulher para junto dos da sua laia. Ela triste, deprimida, magoada, chorosa, sentindo cada vez mais o aperto da sua mão, o calor do seu corpo e a grandiosidade do seu sorrisos. Ele insistiu, nas Águas, nos Lavadouros, na Cabaceira, onde quer que fosse, quer ao sabor refrescante da chuva quer ao calor angustiante das tardes solarengas.

Certo dia, ele, subjugado ao amor e enchendo-se de coragem, entrou-lhe pela porta dentro, disposto a pedi-la. Enxovalharam-no, tentaram afugentá-lo, pediram-lhe que desistisse, exigiram que a deixasse em paz. Ele emudeceu mas ela ressurgiu, revoltou-se, interpôs-se e declarou, sem rodeios, a sua vontade. Era ele o seu eleito e dele não havia de desistir. Que se não a deixassem concretizar os seus sonhos havia de fugir. Encolheram os ombros… Que fugisse! Era lá com ela.

Não fugiu ela mas fugiram eles! Uma boda sem bodo, um vestido branco sem folhos e um dia sem festa e sem folia! Apenas uma flor de laranjeira porque isso, sabiam que ela merecia. Mas ele que não lhes entrasse mais pela porta dentro.

João amou Angelina apenas durante catorze anos, porque quis o destino que ela partisse. E ele ficou à espera de também, em breve, ir ao seu encontro.

Destinos cruéis. Traços rasgados a sangue em horizontes perdidos. Sulcos de dor tracejados em sonhos desfeitos. Efémero amanhecer onde a certeza se confunde com a impertinência angustiante de um sofrimento perene.

João e Angelina escreveram, com pinceladas de sofrimento um amargo poema de amor que até as gotas da chuva caídas, naquela tarde de Inverno, sob a aba de uma parede da Silveirinha, não compreenderam ou não quiseram compreender.   

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publicado por picodavigia2 às 11:52

NA FLOR DAIDADE

Sexta-feira, 13.12.13

Na Fajã Grande, na década de cinquenta e nas anteriores, as condições de vida da população não eram as melhores.  Pelo contrário, eram bastante limitadas. Por um lado, uma alimentação desequilibrada, pouco variada e condicionado por aquilo que se possuía e pelo que as terras produziam e, por outro, pelo trabalho duro, cansativo, demolidor, excessivo e fatigante, agravado por limitadas condições de higiene e de saúde e pela falta, total e absoluta, de apoio e acompanhamento médico.

Embora não havendo nenhum estudo rigoroso feito sobre o tema, sabe-se que a taxa de mortalidade, naquela altura, era muito alta e atingia pessoas de todas as classes etárias: crianças, jovens, adultos e idosos.

Os idosos eram, obviamente, o grupo etário mais atingido, com a agravante de a esperança média de vida ser muito baixa, sobretudo no que aos homens dizia respeito. Na realidade, na década de cinquenta, o número de mulheres viúvas existente na Fajã Grande, era bastante elevado, tendo a viuvez feminina adquirido uma espécie de “estatuto” próprio e autónomo, conquistado pela mulher, o que se evidenciava pelo facto das viúvas serem tratadas, mesmo oficialmente, não pelo seu próprio nome, mas por “a viúva de fulano de tal”. Por sua vez, as crianças, sobretudo as recém-nascidas, eram outro grupo etário no qual a mortalidade também era bastante alta. Mas, lamentavelmente, também faleciam, inesperadamente, adultos e jovens, nomeadamente raparigas, embora em ambas estas faixas etárias a mortalidade, na Fajã Grande, fosse bastante mais reduzida.

Foi precisamente, na década de cinquenta, que se verificaram, na Fajã Grande, três mortes inesperadas que deixaram toda a freguesia numa trágica, medonha e hedionda dor: a Joana de Ti Britsa, a Lucília do António Maria e a Clara do Mateus Felizardo, sendo que as duas primeiras eram primas da minha mãe, enquanto o pai da Clara era um dos grandes amigos do meu.

A Joana, filha de Ti António Britsa, morava com os pais na penúltima casa da Fontinha, mesmo ali ao lado do segundo chafariz. Era uma menina duma ternura imensa, duma bondade imensurável e duma generosidade excessiva, creio mesmo que até se notabilizou pela sua actividade como catequista. Cabelos compridos e sedosos, óculos a ensombrar-lhe o rosto tristonho, muito de casa, muito frágil, muito educada e muito sorridente. Para além dos pais deixou imersos em dor e amarrados à saudade dois irmãos, quatro irmãs, muitos parentes e muitas amigas.

A Lucília, creio que era este o seu nome, filha de António Maria, pelo contrário, morava nas primeiras casas da Via de Água, mesmo ali à boca da Tronqueira, à esquerda de quem descia aquela artéria. Era uma menina muito alegre e generosa, dedicada a tudo e a todos, sempre disposta a participar em festas e jogos. Morena, cabelos muito negros, um sorriso contagiante a efluir-lhe permanentemente do rosto. Ficaram a chorá-la, a envolver-se na saudade e recordar, para sempre, a sua memória os seus pais, um irmão, os parentes e muitas jovens da sua idade.

A Clara do Mateus Felizardo que morava na rua Direita, numa casa mesmo em frente à igreja paroquial, era destas três desditosas jovens, aquela cuja idade se aproximava mais da minha e, consequentemente, a que melhor recordo. Muito branca de rosto, olhos claros, cabelos loiros e encaracolados, postava-se à janela da sua casa, sempre sorridente, sempre conversadora, sempre amiga e sempre generosa, num salutar contubérnio com todos os que por ali passavam. O seu rosto, meigo e sereno, emanava uma blandícia sublime, uma ternura indelével e uma meiguice inquestionável. Deixou na maior dor e sofrimento, para além dos seus pais, três irmãs e um irmão, muitos parentes e também muitas amigas.

Joana, Lucília e Clara três jovens alegres, generosas, a sonharem com o futuro, com a felicidade e que a morte, fatídica e cruel, inexplicavelmente, levou, como se dizia na altura, “na flor da idade”, deixando na maior dor e numa saudade eterna e infinita os seus familiares, os seus amigos e toda a população da Fajã Grande.

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publicado por picodavigia2 às 11:45

DOM PEDRO PEQUENINO

Sexta-feira, 13.12.13

“Dom Pedro Pequenino” é um rimance que faz parte do património cultural da Fajã Grande. Foi recolhido pelo poeta, crítico literário e investigador Pedro da Silveira, que o publicou no nº 7 da “Revista Lusitana” (Nova Série), em 1986. Este e outros poemas romanceados eram contados oralmente aos serões pelos nossos avós e por outras pessoas mais antigas que, assim os foram transmitindo de geração em geração, pelo menos até à década de cinquenta. Pedro da Silveira recolheu “Dom Pedro Pequenino” através da declamação do mesmo pelo jovem Francisco Maria Nóia, da Cuada, no longínquo Verão de 1942. Por sua vez. Francisco Maria Nóia, tê-lo-ia ouvido e aprendido com uma mulher da Fajãzinha, pese embora também fosse contado na Fajã Grande, pois eu próprio me lembro de o ouvir e recordo algumas partes. Nota-se, nos terceiro e no quarto verso deste rimance, uma interessante semelhança com a parte final de um outro muito conhecido em todo o país e recolhido por Almeida Garret, denominado “ Nau Catrineta”. Rezava assim o referido rimance:

 “O francês tinha três filhos, três filhos tinha o francês,

O rei os mandou chamar, cada um por sua vez:

O mais velho p’ra o vestir, o do meio p’ra o calçar,

Dom Pedro por ser mais mouço, p’ra rei barbear.

Passara-se poucos dias, ao rei foram acusar

Que tinham visto Dom Pedro c’a sua filha a namorar.

O rei que de tal soibe, mandara-o aprisionar

E avisou a sua mãe que amanhã vai-se enforcar.

Caminhara um passageiro, depressa não devagar:

«Novas vos venho trazer, que bem tristes são de dar

Que o vosso filho está preso e amanhã vai-se enforcar.»

A mãe que aquilo ouviu, tratara de caminhar,

Com seus vestidos nos braços, sem nos poder enfiar,

Suas aias e criadas, sem na poder acompanhar.

«Que fazes aqui meu filho, minha carne natural?»

«Estou preso por amores com a princesa real».

«Pega na tua viola e toca ua paixão».

Daquelas que teu pai tocava nas manhãs de São João.»

«Nunca ua mãe tã dura, tã cruel do coração.

Vê que o seu filho está preso e pede-le ua paixão.»

«Canta, meu filho, canta, tocada do coração.»

«Agora já são nove horas, às dez me vão degolar,

Mas ainda antes que eu morra, meu rouxinol vai cantar.

Nã sei quando nasce o dia, nã sei quando nasce o sol

Senão pelas avezinhas que me cantam ao redol.

Já o linho enfloresceu e o trigo está em pendão

Hoje é o dia em que os mancebos mais as suas damas vão

P’lo caminho da ribeira, festejar o São João.

Uns levam cravos e rosas, outros o verde limão.

Todos gozam seus amores, só eu stou nesta prisão.»

Stava o rei no seu passeio mais a princesa real,

Iscutara aquelas vozes, seu cavalo fez parar:

«Oh, que vozes serão estas que aqui oiço cantar?

Serão os anjos do céu ou as sereias do mar?»

«Nã são os anjos do céu, nim as sereias do mar,

É Dom Pedro Pequenino, que meu pai mandou matar

Eu queri-o pra marido, mas meu pai nã mo quis dar».

«Se o querias pra marido que Deus to deixe gozar,

Que eu matá-lo já nã mando, pelo seu lindo cantar,

Ordena ao carçareiro qu’el to vaia já soltar.»;

E fez-se o casamento com prazer e alegria

E se ainda não morrerem, ainda vivem hoje in dia.”

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publicado por picodavigia2 às 11:01

MESES E OSSOS

Sexta-feira, 13.12.13

Na escola primária, nos antigos e limitadíssimos tempos dos anos cinquenta, éramos obrigados a fazer o exame da quarta classe, o qual já exigia muito de nós. Mas a verdade é que, nessa altura, não dispúnhamos de computadores, nem de consolas, nem de iphones, nem sequer de uma simples enciclopédia juvenil que apoiasse os nossos estudos, nos ajudasse nas aprendizagens e, assim, superássemos as dificuldades. Mas o exame da quarta classe, naquela altura, era muito exigente e, para além de ler e escrever correctamente, tínhamos que saber tudo de cor, as preposições, os nomes dos reis, dos rios e das serras, os nomes dos ossos de cada um dos dedos das nossas mãos e até distinguir os meses do ano que tinham trinta dias dos que tinham trinta e um. Para conseguirmos memorizar toda esta panóplia de conhecimentos, tendo em conta o que tínhamos aprendido durante o ano, havia que recorrer de facto à nossa memória. Mas esta falhava, vezes sem conta, por isso havia que arranjar artifícios, construir subterfúgios, criar cábulas que nos pudessem ajudar, nos momentos de aflição e de angústia que eram os exames, quando éramos obrigados a deitar cá para fora tudo o que, supostamente, deveríamos ter aprendido.

Era o que acontecia com os meses do ano, que nos pareciam todos iguais. Era difícil a nós, criancinhas inexperientes, distinguir os meses que tinham trinta dias dos que tinham trinta e um. Para decifrar este enigma recorria-se ao metacarpo de uma das nossas mãos que contém, quando fechada em forma de soco, cinco ossos salientes separados por quatro espaços mais baixos, formando uma espécie de quatro vales intercalados com cinco montes. Estes correspondiam aos meses de trinta e um dias e os vales aos de trinta. Começávamos então a contar os meses do ano, assinalando um mês com um osso e o seguinte com um vale. Era certo e sabido... O primeiro era Janeiro com trinta e um e por aí adiante. Quando chegava ao quinto osso estávamos em Julho com trinta e um dias e, voltando ao início da mão, encontrávamos Agosto também com os seus trinta e um dias. A partir daí era só continuar até chegar a Dezembro que terminava num monte e tinha trinta e um dias.

Outro recurso que adoptávamos, neste caso ao contrário, isto é, nós servíamo-nos de algo para recordar nomes de ossos. Era o que acontecia quando, para trazermos à memória a difícil nomenclatura dos ossos dos dedos da mão, recorríamos aos nomes de três freguesias da costa oeste da ilha das Flores: Fajã, Fajãzinha e Lajedo. Assim, devido à semelhança fonética, recordávamos, facilmente, os nomes dos ossos: falange, falanginha e falangeta. Claro que ficava o Mosteiro de fora, mas… como era a freguesia mais pequena das Flores, talvez, por isso mesmo, era castigada.

Acresce dizer-se que, no caso dos dias dos meses, os nossos avoengos haviam-nos ensinado uma quadra com a qual também se distinguiam, facilmente, os meses com mais um dia e que rezava assim:

            «Trinta dias tem Novembro,

            Abril, Junho e Setembro.

            Só vinte e oito terá um,

            Os outros mais trinta e um.»

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publicado por picodavigia2 às 09:45

O CARRO DE BOIS

Sexta-feira, 13.12.13

Na Fajã Grande, nos anos cinquenta, o carro de bois era, a par do corsão, um dos mais importantes meios de transporte dos produtos agrícolas, da lenha e dos alimentos e cama para os animais. Além disso, o carro de bois também era utilizado nos transportes de mercadorias, uma vez que era o meio a que se recorria para fazer chegar à Fajã os produtos necessários, vindas das vilas, sempre que estes rareavam e quando não podiam ser transportados por mar, devido ao mau tempo. Por outro lado, o carro de bois, antes da abertura da estrada entre o Porto da Fajã e os Terreiros, também teve um importante papel, dado que, nos dias em que o Carvalho fazia serviço na Fajã Grande, eram monopolizados praticamente todos os caros de bois existentes na freguesia, para o transporte, pelo menos até à Ribeira Grande, de toda a carga chegada à ilha naquele paquete e que se destinava aos grandes comerciantes de Santa Cruz e das Lajes. O carro de bois também chegou a ser utilizado como meio de transporte de pessoas, sobretudo de doentes e as crianças, sempre que podiam, não perdiam a oportunidade de utilizar aquele aliciante meio de transporte, por vezes até alapadas lá no cimo dos carregamentos.

O carro de bois utilizado na Fajã Grande, na realidade, não só obedecia a um modelo próprio e específico, mas era também uma verdadeira obra de engenharia e, até, de arte. A maior parte dos carros existentes na Fajã eram construídos na própria freguesia, por carpinteiros locais, ajudados por outros homens e a matéria-prima para a sua construção era a madeira e duas tiras de ferro destinadas a serem pregadas na parte exterior das rodas, para as proteger. Apenas os parafusos para apertar os “queicões” eram comprados ou mandados vir de Santa Cruz.

O carro de bois era composto basicamente de três partes: as rodas, o eixo e o tampo. As rodas eram o mais difícil de construir e montar, uma vez que eram constituídas por seis partes: o meão, duas cambotas, duas arreias e o ferro exterior. O meão era a peça central da roda, constituindo a maior parte da mesma, no meio do qual se fazia um furo quadrado, onde era fixado o eixo. As cambotas eram duas espécies de meias-luas, fixadas ao meão por intermédio das arreias, duas tiras de madeira que se uniam, por intermédio de furos abertos no meão e nas meias-luas. No exterior de cada roda pregava-se, com cravos semelhantes aos das ferraduras dos cavalos, a tira de ferro não só para proteger a roda mas também par apertar melhor as suas partes. No sentido transversal, em linha recta ao centro do furo do eixo, nos encontros do meão e das cambotas, eram deixadas, em cada roda, duas perfurações, as quais, além de dar uma conformação mais estética às próprias rodas, serviam para difundir o som do chiar do carro, pelos ares, à semelhança das aberturas duma viola.

Por sua vez o eixo era constituído por uma única pau, bastante grosso e rijo, utilizando apenas duas chavetas em cada cabeça para fixa-lo nas rodas. Tratava-se de uma peça pesada e volumosa, de boa madeira e rija, em cujas extremidades se afinavam as ponteiras, de maneira que encaixassem perfeita e adequadamente nos furos do meão. Um pouco mais dentro e de ambos os lados do eixo, eram feitos dois recortes para o encaixe dos cocões e dos chumaços. Os cocões eram apertados ou alargados com os parafusos, permitindo assim travar ou aliviar o carro. Durante o circular do carro com os parafusos apertados este chiava, o que se devia em parte ao untar-se os recortes do eixo com sebo. O bem chiar era muito importante num carro de bois, conferia auto estima ao proprietário, dava-lhe um estatuto de grandiosidade e era uma espécie de prestígio pessoal.

Finalmente o tampo que era a parte mais complexa do carro de bois e talvez a que mais exigia em noções de engenharia e de simetria. O seu formato assemelha-se a uma pá do forno em ponto grande, mas com o cabo mais curto. Eram peças básicas do tampo: o cabeçalho, duas chedas, dois chumaços, quatro cocões, o recavém e a chavelha. O cabeçalho era a parte mais comprida do tampo e era formado por uma única peça de madeira, localizada ao meio, desde a parte dianteira onde se prendia a chavelha até ao recavém. A conformação do tampo era realizada mediante a junção das chedas, que eram construídas segundo técnicas especiais de recortes e fixadas na parte anterior ao cabeçalho e posteriormente a uma tira traseira. Na Fajã, os espaços entre o cabeçalho e as chedas eram forrados com tabuões de madeira. O cabeçalho era uma espécie de coluna vertebral do tampo, pois a ele se prendia e dele dependia toda a estrutura da mesma. As chedas, que constituem as partes laterais do tampo, recebiam as perfurações dos cocões, por baixo e as dos fueiros, na parte superior. Estes eram em número de quatro ou cinco de cada lado, Assim, os cocões, uma espécie de grandes pinos, destinavam-se a receber o eixo das rodas, de o fazer rolar e eram fixados dois em cada cheda. Por sua vez a sua fixação era feita mediante a aplicação de pinos ou tornos, na parte superior que evitavam que os mesmos caíssem. Entre os cocões e mediante fixação dos mesmos, eram encaixados os chumaços, uma espécie de amortecedores sob os quais rodava o eixo do carro. Estas peças, com o tempo, desgastavam-se e aqueciam muito, por isso, deviam ser lubrificadas constantemente, para evitarem que o carro se incendiasse. Por vezes, ao começar a ver-se o eixo a deitar fumo, era necessário atirar-lhe água para cima. Por sua vez, a lubrificação que era feita com sebo de boi e quando o não havia com sabão azul, também fazia com que o carro chiasse mais e melhor, “cantasse” mais afinado. A chavelha era uma peça de madeira que era colocada bem na ponta do cabeçalho, num furo construído perpendicularmente e servia para fixar o carro à canga através do tamoeiro.

Constituíam, ainda, acessórios do carro de bois a sebe, geralmente construída com vimes e servia para transporte de cereais, batatas, sargaço e estrume, a atiradeira que prendia e apertava os fueiros a meio da carga, quando esta era mais alta e o cabo que prendia a carga final, sendo apertado no cimo com dois arrochos, isto é, dois paus, um direito que se espetava na carga e outro curvilíneo que ia enrolando à volta do primeiro, a fim de arrochar ou apertar a carga. Para atrelar os bois ao carro utlizava.se a canga presa pelo tamoeiro ao cabeçalho, através da chavelha. Na Fajã Grande os carros eram, regra geral, puxados apenas por uma junta de bois. Apenas em situações muito especiais, para o transporte de algo excessivamente pesado, se juntava uma segunda junta, designada por “solas”. Essa a razão por que na Fajã era usada a expressão “deita-lhe as solas”, para gozar quem estava em dificuldade em transportar o que quer que fosse.

 Na Fajã Grande também existia uma outra espécie de carro de bois, era o de “canguinha” muito semelhante  ao de junta mas com duas diferenças. Por um lado era bem mais pequeno e o diâmetro das rodas menor e em vez de um, tinha dois cabeçalhos laterais, na continuação das chedas e no meio dos quais se atrelava o boi ou a vaca, através de uma canga de canguinha.

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publicado por picodavigia2 às 09:24

CINCO ESTRELAS

Sexta-feira, 13.12.13

Álvaro levantou-se cedo, muito cedo. Ainda a noite não se havia dissipado por entre as brisas matinais. Era dia de matança do porco!

O pai, nos dias anteriores, perante um chorrilho contínuo de pedidos e uma série infinita de promessas do petiz, acabara por ceder e havia-lhe jurado que “sim senhor!”. “Ele já era um homenzinho e, pela primeira vez, ia ajudar na matança como se fosse um homem.” Na véspera, custara-lhe a adormecer e já se via enterrado na lama do curral, a puxar a corda e a arrastar o suíno pelo portal, a empurrá-lo para cima da mesa e a segurar-lhe uma perna suja e fedorenta, enquanto o tio Luís lhe metia a faca, abrindo-lhe um enorme e profundo buraco no pescoço do qual jorrava grande quantidade de sangue, muito vermelho e fumegante. Depois era um mar de labaredas, atiçadas por ramos de queirós muito secas e estaladiças, a queimar o pelo asqueroso e áspero do cevado! Ondas de chamusco propagavam-se nos ares, desmudando e peçonhentando a pureza ingénua e fresca da brisa matinal.

Até então, para ele, ali debaixo daquelas rochas, isolado numa ilha e, somente, com o mar a indicar-lhe um horizonte deserto e indefinido, o dia da matança era de medo, de receio, de consumição e, até por vezes, de choro. Assustava-se com o grunhir do suíno, chorava quando lhe metiam a faca, tapava os ouvidos para não ouvir os seus gritos agonizantes e temia as enormes labaredas das queirós incendiadas com pingos de petróleo durante o chamusco. Mas este ano tudo havia de ser diferente, pois já sabia muito bem que para comer um pedaço de linguiça com uma fatia de pão de milho, para trincar um torresmo com uma talhada de inhame, ou simplesmente para se deliciar com uma “niquinha” de toucinho na sopa de agrião, era necessária a imolação do cevado.

Entrou na cozinha fria, esconsa, mal iluminada, a cheirar a rama de cebola, a temperos e a vinha-d’alhos, passou umas gotas de água salobra que restava no lava mãos pela cara e saiu a correr para junto do curral, onde o pai e os outros homens já se afanavam nos preparativos para uma caça rápida e eficiente do porco. O bicho era malino e se, eventualmente, se escondesse no chiqueiro, nem o diabo de lá o tirava. Os homens, porém, já o haviam enganado com comida, tapando a porta com uma prancha de madeira, atirada de cima do pátio. Decerto que o malvado não havia de refugiar-se ali durante a luta titânica que se adivinhava. Mas agarrá-lo, prendê-lo, definitivamente, com uma corda, assapá-lo sobre a mesa, lavar-lhe o pescoço e enfiar-lhe a faca no cachaço seria cabo dos trabalhos.

Quando Álvaro se aproximou da cerca os homens haviam suspendido as hostilidades, dando alguns momentos de tréguas ao inimigo, aproveitando-as para passar de mão em mão uma garrafa de Cinco Estrelas, que os ia tonificando, amaciando, deleitando e aquecendo do frio da madrugada.

Álvaro aproximou-se do tio Luís, escalonado para matador, e segredou-lhe com ar ingénuo, aureolado de simplicidade:

- Ó tio, este ano, eu vou ajudá-lo a amarrar o porco e a aguentá-lo, enquanto o tio lhe mete a faca.

- Ai vais! – Exclamou o tio com um misto de gozo e espanto. – Claro! Já és um homenzinho! Pois bem, para o fazeres terás que tomar isto. – E enchendo um cálice com o que sobrava da Cinco Estrelas, passou-lho para as mãos.

Perante a hesitação do garoto, enquanto os outros homens se imiscuíam na espinhosa azáfama de caçar o suíno, insistiu:

- Bebe, bebe. Se não beberes não podes sequer tocar no porco.

Álvaro não hesitou mais. O sacrifício que lhe era exigido até nem seria muito grande. Aguardente devia ser uma coisa boa, porque era muito cara e só se bebia naqueles dias. Por isso, de imediato, pegou no cálice e, de um fôlego, enfiou o precioso líquido pelas goelas abaixo.

Foi tiro e queda! As pernas começarem a tremer-lhe e, à sua volta, tudo circulava e se envolvia numa espécie de neblina cinzenta. Sem demoras, estatelou-se definitivamente no chão. Foi o tio Luís, perante os protestos de recriminações dos outros, especialmente das mulheres, que o levantou e levou em braços para a cama da sala, aconchegando-o entre cobertores e almofadas.

Quando acordou a caçoila já havia esfriado, as morcelas já ferviam no caldeirão, o porco, pendurado na loja, aguardava que o “picassem” e até o irmão mais velho já lhe havia rebentado a bexiga.

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publicado por picodavigia2 às 00:14





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