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NATAL (DIÁRIO DE TI'ANTONHO)

Quarta-feira, 18.12.13

{#emotions_dlg.gift}Segunda-Feira, 2 de Setembro de 1946

Em Dezembro, logo a seguir à matança do porco chegava o Natal. Embora ainda estejamos muito longe da festa do Natal, deste ano de 1946, apeteceu-me, hoje, falar do meu Natal, do dia de Natal quando eu era criança e quando ainda não havia estas modernices de agora Já se passaram tantos e tantos anos… Ainda estávamos no século passado, no tempo dos reis. Nessa altura o Natal era diferente do de agora, porque a vida antigamente não era como a vida de hoje, com estas modernices todas como a de darem presentes às crianças e enganá-las, dizendo que é o Menino Jesus que os oferece. Quando eu era criança não havia nada disso. O que era mais importante naquela altura era irmos todos à meia-noite à missa do galo. Era uma noite da qual nunca mais me esqueci. A gente ceava mais tarde um bocadinho. Minha mãe pelo Natal matava sempre um galo bem gordo que guisava depois de lhe fazer avinha d’alhos, cozia um grande caldeirão de inhames e fritava torresmos e linguiça. O que a gente mais gostava era de se consolar nessa noite a comer todas estas iguarias, embora fosse minha mãe que fizesse o prato de cada um, deitando-lhe apenas um pedacinho de frango, outro de linguiça e um torresmo. Que fartura de comidinha boa havia naquela noite! Havia muitos inhames na mesa, naquela noite e agente comia todos os que quiséssemos e nos apetecesse. A seguir comiam-se laranjas e uma talhadinha de arroz doce. Era tão bom aquele arroz muito amarelo, muito doce e coberto com canela. Depois a gente ia deitar-se um instantinho até que a minha mãe nos acordava para irmos à missa. Eu acho que toda a gente da freguesia se levantava e acorria à igreja para a missa do galo, pois esta, naquela noite, encontrava-se normalmente cheia. Nessa altura o pároco desta freguesia era o senhor padre Mariano do Nascimento, natural de Santa Maria e que esteve pouco tempo aqui, nas Flores. Logo que ele aparecia, saindo da sacristia, a subir o altar vestido com paramentos brancos, o sacristão tocava uma enorme campainha. As pessoas, embora muito desafinadas cantavam cânticos próprios de Natal. Precisamente no momento em que um velho relógio colocado no cruzeiro da capela-mor dava as doze badaladas, o sacerdote, dirigindo-se para o meio do altar abria os braços e cantava em alta voz «Glória in excelsis Deo». Na sineira os sinos tocavam um longo repique. A igreja que até aí estava às escuras, ficava totalmente iluminada pois acendiam-se velas em todos os altares e subiam os pavios das lanternas de petróleo que as pessoas traziam de casa. Nessa altura umas cortinas pretas que vedavam o Presépio grande, abriam-se e aparecia a gruta ao lado da qual se perfilavam as casas, os montes e os vales, as pastagens e os lagos, com as figuras de pastores trazendo ovelhas e cordeiros ao Menino Jesus que permanecia reclinado nas palhas de uma manjedoira, ao lado de Nossa Senhora e São José. No final da missa seguia-se o “beija-pé” do Menino Jesus, apresentado pelo celebrante a todas as pessoas. Nesse momento principalmente as crianças corriam para junto do Presépio a ver o Menino Jesus, Sua Mãe e S. José, com o burrinho e a vaquinha ao lado. Para elas tudo era um encanto.

O resto do dia era passado normalmente como se de um domingo se tratasse. Ao almoço comia-se o que sobrava da noite. De tarde grupos de rapazes andavam pelas casas e, a propósito de desejar um bom natal, aproveitavam para provar o «chichi” do Menino. Finalmente, tudo terminava ao cair da noite, com o toque das Trindades, apenas ficava a recordação de um dia diferente dos outros em que, mesmo não sendo domingo, não se trabalhava e comia-se um pouquinho melhor.”

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publicado por picodavigia2 às 23:30

AS SOMBRINHAS

Quarta-feira, 18.12.13

Na Fajã, as senhoras importantes ou aquelas senhoras que queriam ou gostavam que os outros as considerassem importantes usavam sombrinhas, algumas simplesmente pretas, castanhas ou azuis, isto é, numa única cor, outras com o estilo e estampadas ou enfeitadas com rendas e babados, como sombrinhas antigas. Usavam-nas não apenas para se defenderem dos raios solares mas também porque tal hábito se consubstanciava com uma espécie de estatuto de certa importância e superioridade. A verdade é que as mulheres mais pobres ou que viviam com mais dificuldade defendiam-se do Sol simplesmente com um chapéu de palha ou, nos dias de festa, com um lenço de merino.

Eram sobretudo as mulheres da Ponta quando, nas tardes de Sol quente se deslocavam à Fajã, ou as da Assomada, Fontinha, Tronqueira e das outras ruas quando aos domingos à tarde saíam de casa para ir aos arraiais das festas, para participar nas procissões ou até para ir visitar uma amiga ou dar um passeio ao Porto que se muniam daquele estético artifício predestinado a evitar e prevenir as maleitas supostamente adjacentes a um excesso de captação solar, por parte do ser humano, nomeadamente no cocoruto..  

As sombrinhas para além de proporcionarem uma boa dose de vaidade a quem as usava enchiam as ruas e os caminhos de um colorido cristalino e diáfano que se misturava com o verde dos socalcos e ravinas circundantes, com o amarelado dos milhos a amadurecer nos serrados envolventes, com o azul do firmamento a reflectir-se na limpidez translúcida do oceano.

Diz-se que a sombrinha foi inventada nas épocas em que as rodas de carro eram de madeira, que por isso mesmo eram mais lentos no andar, com a finalidade de proteger aquelas madames frescas que utilizando aquele vagaroso e lento meio de transporte não queriam ficar expostas ao Sol. Algumas até se davam ao luxo de ter um escravo comprado ou um empregado contratado só para segurar a dita cuja e poupar a madame desse terrível esforço. É evidente que na Fajã nenhuma mulher se poderia dar a tal luxo e cada uma segurava a sua própria sombrinha como queria e podia.

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publicado por picodavigia2 às 19:45

AS AGUILHADAS

Quarta-feira, 18.12.13

As aguilhadas eram varas cortadas de qualquer tipo de árvore, direitas, compridas, esguias e com poucos nós que, depois de preparadas, serviam para tocar o gado, sobretudo quando trabalhava encangado, quer de junta quer de canguinha. As melhores e mais resistentes aguilhadas eram as feitas com varas retiradas da planta do araçá, embora se utilizassem bastante as de álamo, de loureiro e até as de pau branco.

Uma vez escolhida a varinha ideal, tarefa que não era fácil, a aguilhada era devidamente preparada. Com uma navalha bem afiada tiravam-se todos os ramos, aparavam-se muito bem aparadinhos os respectivos nós e geralmente depois de ficar a secar durante alguns dias, era-lhe tirada a casca, tarefa que se conseguia raspando-a com um pedaço de vidro quebrado. A parte superior era muito bem cortada, a fim de nela se fixar o aguilhão. Este era feito com um pequeno prego a que se cortava a cabeça ou com uma pomtinha de verga rija, muito bem limada nas duas extremidades: uma para se cravar e fixar na ponta da aquilhada, enquanto a outra servia para picar os animais, sobretudo quando estes não reagiam nem cumpriam as ordens dadas pelo dono ao serem simplesmente tocados com a aguilhada.

No extremo oposto à ponta e na parte mais grossa fazia-se  um  ”pé” ou “cepa”, semelhante ao dos bordões, destinado a cravar-se no chão, caso o utilizador quisesse apoiar-se com a aguilhada, ao andar. Era também neste “pé que se encravava uma éspécie de pequena pá, feita de lata, que se utilizava apenas quando se lavrava com o arado de ferro e servia para limpar as aivecas do arado.

Na Fajã Grande, na década de cinquenta, havia aguilhadas muito bonitas, elegantes e muito bem trabalhadas. Havia inclusivamente quem por elas tinha um fascínio, possuindo uma espécie de pequena e variada coleção, guardadas sobre os tirantes do palheiro e que iam sendo usadas de acordo com a sua mais perfeita e adequada funcionalidade.

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publicado por picodavigia2 às 19:16

JOSÉ DA COSTA

Quarta-feira, 18.12.13

José de Sousa da Costa nasceu em Ponta Garça, ilha de S. Miguel, em 1881 e faleceu Ponta Delgada, em 1963. Poeta e latinista, José da Costa fundou e dirigiu a revista angrense Arquipélago, surgida em 1931. Foi também professor da instrução primária e um dos intelectuais micaelenses mais eruditos do seu tempo. Venerou a língua pátria e o latim, ensinando-os aos estudantes liceais que o procuravam para explicações. Verteu para o português composições poéticas e hinos latinos, como o Stabat Mater e alguns originais de S. Bernardo. Além do que publicou em livro, há dele um número considerável de poemas e textos dispersos na imprensa açoriana. A poesia, que cultivou segundo os moldes clássicos da Arte Poética, está, maioritariamente voltada para assuntos elevados, patrióticos, metafísicos e religiosos, com predomínio da exaltação crística e mariana. Compôs hinos devotos, com música, entre outros, do maestro pe. Tomaz Borba, e exercitou ainda a poesia humorística, cujo exemplo está no poema heróico-cómico Saltapíada ou a Casula Negra .

Publicou: Flores de Alma, Insula Divina, Trabalho e Pão, Místicos, Lusitânia Nova, Epopeia da Paz, Gloriosa Pátria: Comemorações dos Centenários, Mãe de Deus e dos Homens, Saltapíada ou a Casula Negra, Ilha de Jesus: 1450-1950: No V Centenário do seu Povoamento, Tudo Verdades: Peça Popular de Costumes, Bom Humor, O Seráfico Patriarca de Assis, Acordes Místicos e Relicário Poético.

 

Dados retirados do CCA – Cultura Açores

 

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publicado por picodavigia2 às 15:06

ESPÓLIO DO PADRE FRAGA DOADO AO SEMINÁRIO DE ANGRA

Quarta-feira, 18.12.13

O Seminário Episcopal de Angra recebeu uma importante quantidade de livros relacionados com Teologia, Moral e outra temática religiosa, que faziam parte da vasta biblioteca particular do padre José Luís de Fraga.

O acervo foi doado àquela prestigiosa Instituição Açoriana de formação sacerdotal, por iniciativa da Dra Maria Antónia Fraga, sobrinha daquele que foi um dos mais ilustres filhos da Fajã Grande, e abarca uma vasta colecção de obras de consulta, de estudo e de formação que, decerto enriquecerão, o pecúlio da biblioteca daquele Seminário, actualmente renovada e direccionada no sentido de se actualizar, interligando-se, através de protocolos estabelecidos ou a estabelecer, com a Biblioteca Pública de Angra do Heroísmo. No total, o Seminário de Angra, na pessoa do actual reitor, Dr Helder Miranda Alexandre recebeu, 34 caixotes, contendo uma boa parte do espólio daquele que foi um dos grandes vultos do clero açoriano, distinguindo-se também nas letras, na poesia e, sobretudo, na pesquisa e recolha da música popular açoriana.

O Padre José Luís de Fraga, que para além de sacerdote e distinto orador também foi escritor, poeta e músico, tendo, na realidade, efectuado uma importante pesquisa e recolha da música popular açoriana, muita dela hoje cantada por músicos e grupos corais sediados nas ilhas, foi um dos mais ilustres e importantes filhos da Fajã Grande, assinando as suas obras literárias com o pseudónimo de Valério Florense.

José Luís de Fraga nasceu na Fajã Grande, a 6 de Outubro de 1902, e era filho de António Luís de Fraga, mais conhecido por Ti’Antonho do Alagoeiro e de sua mulher Maria de Jesus Fraga. Fez os estudos primários na sua freguesia natal, cumpriu o serviço militar em Angra, ingressando no Seminário da mesma cidade onde estudou Filosofia e Teologia, ordenando-se presbítero, no ano de 1927. Iniciou a sua actividade sacerdotal como professor de Música no Seminário de Angra e pároco em Santa Luzia, na mesma cidade, sendo, alguns anos mais tarde, transferido para a freguesia de Castelo Branco, na ilha do Faial. Entre 1929 e 1940 exerceu o cargo de vigário coadjutor na Matriz de Santa Cruz das Flores. Nesta data foi colocado como pároco da Ribeira Seca, na ilha de São Jorge e mais tarde na vila do Nordeste e em São Pedro, de Ponta Delgada, em São Miguel. Nos últimos anos da sua actividade sacerdotal paroquiou na Matriz de Vila Fraca do Campo, onde exerceu também o cargo de Ouvidor Eclesiástico. Faleceu em 1968, num acidente de viação, enquanto realizava uma visita aos Estados Unidos. Homem bom e íntegro, sacerdote exemplar e dedicado, pode dizer-se que o padre Fraga foi uma espécie de precursor dos padres operários que haviam de surgir em França nos anos 60, pois, segundo testemunhos de quem o conheceu, apesar de padre “ia lavrar com os lavradores, caiar a igreja com os caiadores e à pesca com os pescadores”, trabalhos que havia aprendido com o seu pai, durante a sua adolescência, na ilha das Flores. O padre Fraga distinguiu-se ainda como músico exímio e como homem de cultura e de grande saber e como poeta de sensibilidade requintada. Deixou um espólio notável, quer a nível musical quer literário, ficando ao cuidado da sobrinha que, em boa hora, doou uma boa parte do mesmo ao Seminário de Angra, a sua segunda casa, onde se notabilizou como aluno brilhante e como professor dedicado.

 

Texto publicado no Pico da Vigia, em 17/01/12

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publicado por picodavigia2 às 14:24

OS TIJOLOS DE COZER BOLO

Quarta-feira, 18.12.13

Na Fajã Grande chamava-se “tijolo” a um instrumento ou utensílio cuja principal e mais importante funcionalidade era a de cozer o bolo, mais conhecido por “bolo do tijolo”. Mas os tijolos de cozer bolo também serviam para torrar milho, favas ou até farinha, tendo, por isso grande importância nos hábitos alimentares e nos costumes caseiros da população daquela freguesia florense, pelo menos até ao final da primeira metade do século passado. Acredita-se que estes tijolos terão sido, a partir do início do século XIX, os sucessores das antigas, primitivas e míticas pedras ou lajes, utilizadas nos primórdios do povoamento das ilhas açorianas, para a cozedura do bolo.

Estes tijolos eram feitos de barro, o que os tornava mais leves e, além disso, aqueciam mais facilmente do que as lajes de pedra, consumiam menos lenha, podendo até serem aquecidos somente com lenha fina ou com garranchos, isto é, sem achas ou troncos grossos ou, simplesmente, com sabugos de milho e, mais importante do que tudo, coziam o bolo mais depressa, facilitando, assim o trabalho da mulher. Mas os tijolos também tinham algumas desvantagens relativamente às pedras ou lajes, pois rachavam e até quebravam mais facilmente e antes de serem usados, pela primeira vez, tinham que ser “destemperados” para não quebrarem logo de início. Para os “destemperar” deviam ser untados com graxa de porco, cheios de água a que se juntava, segundo testemunhos de pessoas mais antigas, uma folha de couve. De seguida era aceso o lume até a água ferver e se evaporar por completo. Só então o tijolo estava pronto a ser utilizado.

Na Fajã Grande e creio que em toda a ilha das Flores, estes tijolos eram de forma circular, embora uns tivessem o diâmetro maior do que outros e todos, geralmente, tinham um bordo lateral, relativamente baixo. Para cozer o bolo os tijolos eram colocados em sistemas estruturais diferentes. Uns, os mais pequenos eram postos em cima de três pedras outros, em casa das pessoas de mais posses, em cima de uma grelha de ferro, podendo, num caso e no outro, serem colocados ou retirados em qualquer altura. Porém a maioria dos tijolos, sobretudo os maiores, eram encastoados permanentemente numa espécie de fornalha, ou seja numa estrutura circular, feita com pedras de tufo e com uma boca de entrada na frente, por onde se metia a lenha e se afogueava o lume, e donde nunca eram retirados. Esta estrutura com o tijolo a tapar-lhe a parte superior, formava uma espécie de forno, em miniatura, mas que, com o brasido que ali ficava, terminada a cozedura do bolo, servia, perfeitamente, para assar maçarocas e batatas-doces, para aquecer um caneco de alumínio com o leite para as crianças ou um bule de café para os adultos.

Contrariamente às lajes, os tijolos tinham que ser construídos por oleiros, especialistas na matéria, e comprados pelos seus utentes. Na Fajã não há memória de terem existido oleiros, mas consta que os havia por ali bem perto, para os lados do Mosteiro e, sobretudo, do Lajedo, onde havia muito barro. Alguns tijolos, porém, eram importados de outras ilhas.

Para cozer o bolo, geralmente acendia-se o lume na fornalha do tijolo, antes de o amassar e tender, para que fosse aquecendo lentamente. Para testar o calor do tijolo, bastava atirar-lhe para cima um pouco de farinha. Se esta alourasse o forno estava no ponto de cozer o bolo, o qual a meio da cozedura, devia ser virado a fim de que cozesse, igualmente, de ambos os lados. O bolo embora tendido de forma redonda, formando um círculo bastante grande, quase mesmo com o diâmetro igual ao do tijolo, era partido em quatro partes, ou em quatro “quartos”, para mais fácil colocação no tijolo, uma vez que a mesma, assim como a viragem durante a cozedura, eram feitas com as mãos.

A partir da década de sessenta com o aparecimento e explosão do fogão “primus” e das chapas de ferro, a maioria dos tijolos de barro, assim como todas as outras ancestrais estruturas de cozinhar, na Fajã Grande, caíram em desuso e extinguiram-se quase por completo.

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publicado por picodavigia2 às 11:28

RODAS

Quarta-feira, 18.12.13

Um dos brinquedos mais utilizados pelas crianças do sexo masculino, na Fajã Grande, na década de cinquenta, eram as famosas “rodas” também conhecidas, simplesmente, por “rodinhas”.

Mesmo antes de se abrir e inaugurar a estrada que actualmente liga os Terreiros à Fajã Grande, quase todas as crianças da freguesia, numa ou outra ida às Lajes ou a Santa Cruz, tinham tido a oportunidade de ver um automóvel, uma moto ou, simplesmente, uma bicicleta e sabiam que os elementos mais importantes desses veículos eram por um lado a roda e, por outro, o guiador ou o volante, o qual permitia que fosse o ser humano a orientar ou a conduzir veiculo. Os que não sabiam, aprendiam-no com os outros. Assim, o sonho de todas as crianças da freguesia, na altura, era conduzirem ou serem os responsáveis pelo destino de qualquer coisa que rolasse.

Muito provavelmente terá sido neste contexto que terão tido origem as célebres “rodas”, muito utilizadas na Fajã Grande e, provavelmente, em muitas outras localidades, pela ganapada. Tratava-se de um brinquedo muito simples e que, anos mais tarde, começou a circular no mercado, mas fabricado de plástico. Na Fajã havia rodas de várias formas, tamanhos e feitios.

Basicamente, este brinquedo consistia numa roda de madeira, com um eixo ao centro que se prendia numa haste bifurcada, na qual o eixo era preso e à volta da qual a roda circulava com um empurrão ou, simplesmente, com uma leve pressão do corpo. Com a extremidade oposta à roda encostada ao ombro, a haste tinha mais ou menos ao meio uma tira de madeira, uma espécie de guiador, que permitia à criança, com as suas próprias mãos, decidir e orientar o percurso a percorrer pelo rolar da roda. As rodas, geralmente, eram de madeira e fabricadas por carpinteiros ou pelos próprios, se mais habilidosos. Havia-as de tamanhos muito diferentes e muitas delas eram protegidas no bordo exterior, por uma borracha, a fim de se conservarem por mais tempo. A haste, porém, nem sempre era de madeira, uma vez que esta era mais difícil de conseguir-se, por isso, regra geral recorria-se a uma cana do Outeiro, que por lá havia muitas, escolhendo-se as mais grossas e robustas. Depois era só fazer-lhe o encaixe, prender-lhe a roda e amarrar-lhe ao meio, com um simples fio de espadana, o guiador. Havia rodas que mesmo encostadas ao ombro não tinham guiador enquanto outras, mais simples e de menor raio, tinham a haste tão pequena que eram empurradas apenas pela mão e, muitas dessas, também tinham na extremidade da haste um guiador, que era conduzido com ambas as mãos. Muitas vezes adaptavam-se rodas velhas, já sem uso, de ferro, de latão ou de outra coisa qualquer e encontradas aqui ou além. Outras vezes adaptava-se a roda tudo e qualquer coisa que fosse redondo, como tampas velhas, rolhas grandes ou fundos de latas. Toda a velharia que já não tivesse uso e rolasse, servia, perfeitamente, para construir este interessante e muito apreciado brinquedo.

Com excepção da roda de madeira que deveria ser feita por um carpinteiro, tudo o resto, que constituía quer o essencial quer o acessório deste brinquedo, era construído pelo próprio utente, a não ser no caso dos mais pequeninos que geralmente tinham a ajuda do pai ou de outro familiar adulto.

Depois… Bem, depois era um regalo ver as ruas, apesar do seu piso sinuoso, apinhadas de miudagem a circular para cima e para baixo, a provocar autênticos engarrafamentos, conduzindo as “rodas” como se fossem autênticos e verdadeiros automóveis. E não é que a ganapada, de tão entusiasmada e convicta, até com as suas vozes imitava e fazia ouvir o frenético roncar dos motores e a singularidade específica das apitadelas!? “Brroomm, brroomm!” e logo a seguir “Pi, pi! Pó, pó”, em catadupa! Era o nunca mais acabar de barulho de motores, alternado com buzinadelas

Mas a vontade de conduzir um veículo, mesmo em pensamento, era tanto e tão grande, que muitas crianças, mesmo não possuindo a “roda”, punham-se a correr, para baixo e para cima, junto com os outros ou sozinhos, simulando com as mãos o acto de conduzir e imitando com os ruídos da voz o roncar dos motores e das apitadelas.

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publicado por picodavigia2 às 10:31

A LENDA DO PINHEIRO DO NATAL

Quarta-feira, 18.12.13

{#emotions_dlg.xmastree}Conta uma antiga lenda que quando o Menino Jesus nasceu, todas as pessoas e os animais e até as árvores sentiram uma imensa alegria. Do lado de fora do estábulo, onde o Menino nasceu e onde, nos dias seguintes, dormia sossegadinho, estavam três árvores: uma palmeira, uma oliveira, e um pequeno pinheirinho.

Todos os dias as pessoas dos arredores do estábulo passavam e deixavam os seus presentes ao Menino. Ao verem a generosidade daquelas pessoas, as três árvores disseram umas para as outras:

- Nós que vivemos aqui ao lado, também, Lhe devíamos dar prendas!

- Eu vou dar-Lhe a minha folha mais larga – disse, de imediato, a palmeira. - Quando vier o tempo do calor ele poderá abanar-se com ela e sentir-se mais fresco.

Por sua vez, a oliveira disse:

- E eu vou dar-Lhe o óleo que retiro dos meus frutos, para que ele seja ungido com ele e se torne forte e saudável.

- Mas que lhe poderei dar eu? – Perguntou, ansioso, o pequeno pinheiro.

- Tu? Tu não tens frutos oleosos e as tuas folhas são agudas e picam - disseram as outras duas árvores. - Tu não tens nada que Lhe possas dar!

O pequeno pinheiro ficou muito triste. Pensou muito, muito, em qualquer coisa que pudesse oferecer ao Menino que dormia ali ao lado, qualquer coisa de que o Menino pudesse gostar. Mas não tinha nada que Lhe pudesse dar e, por isso, continuava a chorar.

Um anjo, que tinha ouvido a conversa toda, vendo a tristeza da arvorezinha, sentiu muita pena dela, por sentir que nada tinha para dar ao Menino Jesus. Era noite e o céu estava pejado de estrelas a brilhar. Então o anjo, muito de mansinho, trouxe-as todas, uma a uma cá para baixo, desde a mais pequenina à mais brilhante e colocou-as nos ramos e nas folhas pontiagudas do pinheiro. Dentro do estábulo, o Menino acordou e olhou para as três árvores do lago ao lado do estábulo, contra a escuridão do céu. De repente as folhas escuras do pinheiro brilharam, resplandecentes, porque nelas as estrelas descansavam como se fossem elas as próprias folhas.

Que lindo estava o pequeno pinheiro, que pensava não nada tinha para oferecer ao Menino...

E o Menino Jesus levantou as mãozinhas, tal como fazem os bebés, e sorriu para as estrelas e para aquela árvore que lhe iluminara a escuridão da noite.

E desde então o pinheiro ficou a ser, para todo o sempre, a Árvore do Natal, onde se colocam as lâmpadas a luzir como as estrelas, naquela noite.

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publicado por picodavigia2 às 00:21





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