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LITANIA DE NATAL

Domingo, 22.12.13

(POEMA DE JOSÉ RÉGIO)

 

A noite fora longa, escura, fria.

 Ai noites de Natal que dáveis luz,

 Que sombra dessa luz nos alumia?

 Vim a mim dum mau sono, e disse: «Meu Jesus…»

 Sem bem saber, sequer, porque o dizia.

 

E o Anjo do Senhor: «Ave, Maria!»

 

 Na cama em que jazia,

 De joelhos me pus

 E as mãos erguia.

 Comigo repetia: «Meu Jesus…»

 Que então me recordei do santo dia.

 

E o Anjo do Senhor: «Ave, Maria!»

 

 Ai dias de Natal a transbordar de luz,

 Onde a vossa alegria?

 Todo o dia eu gemia: «Meu Jesus…»

 E a tarde descaiu, lenta e sombria.

 

E o Anjo do Senhor: «Ave, Maria!»

 

De novo a noite, longa, escura, fria,

 Sobre a terra caiu, como um capuz

 Que a engolia.

 Deitando-me de novo, eu disse: «Meu Jesus…»

 

E assim, mais uma vez, Jesus nascia.

 

José Régio

 

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publicado por picodavigia2 às 22:54

PELOS TRILHOS DA RIBEIRINHA NA DEMANDA DO ALTO DOS CEDROS

Domingo, 22.12.13

Integrando o Projecto “Freguesias CoMvida” organizado pelo pelouro da Cultura da Câmara Municipal das Lajes do Pico, a freguesia da Ribeirinha do Pico, a mais jovem do concelho lajense, organizou, entre os dias 27 de Fevereiro e 4 de Março, uma semana cultural e desportiva, durante a qual teve lugar um conjunto de actividades diversíssimas, das quais se destacaram workshops, tertúlias, feira do livro, música, teatro, literatura, programas educativos, trilhos, jogos de salão, jogos tradicionais, passeios, fotografia, etc.

Entre estas actividades que, segundo a opinião dos seus organizadores, tiveram uma adesão bastante significa por parte da população, teve lugar, na manhã do dia 4 uma interessantíssima caminhada pedestre por trilhos antigos, outrora calcorreados pelos homens e pelas mulheres da Ribeirinha, de pés descalços ou de albarcas, a labutar nas suas lides agrícolas diárias. Trata-se de caminhos outrora repletos de pessoas, de animais, de vida, de pujança e de animação, percorridos por carros de bois a sulcar-lhes as pedras, e a marcá-las para sempre com rilheiras, ainda bem visíveis, mas hoje abandonados e quase desertos, a abarrotar de árvores, de vegetação, de sombras, de ecos da chiadeira de carros e de murmúrios silenciosos, mas ainda detentores duma beleza sublime e de uma graciosidade inaudita.

O grupo, que se dispôs a percorrer estes eternos caminhos de um passado recente mas ainda bem presente nalgumas memórias, era constituído por vinte e três pessoas, sob a orientação do Sr Flávio, um ribeirense de gema, profundo conhecedor e amante da sua terra. Cada vereda, cada caminho, cada atalho, cada pedra, cada árvore, cada planta, cada erva, cada pássaro e até cada árvore derrubada, parecem estar-lhe no sangue e pertencerem ao seu quotidiano, ao mesmo tempo que, nos seus périplos pela natureza, estabelece com cada um dos seus elementos uma perfeita relação de estima, de respeito, de reconhecimento e de profunda amizade.

Saindo do Largo do Império, ali mesmo junto à Ribeira do Fundo, a receber lá em cima a confluência das ribeiras dos Valinhos e do Poço da Areia, atravessámos a Rua da Igreja e entrámos na Canada do Outeirão, com destino à parte mais interior da freguesia e da ilha. Depressa atingimos a Estrada Nacional, antes porém, examinámos aquilo que outrora foi uma eira de debulhar o trigo e o centeio, embora já sem moirão e bastante abandonada. De seguida iniciámos a subida do Caminho Novo, até à Travessa, sendo possível observar, à mistura com alguns terrenos de cultivo de inhames e pastagens, uma vegetação onde dominam os incensos e as faias, intercalados algumas acácias gigantescas, espécie importada da Austrália e que durante muitos anos abasteceram a pujante construção naval da vizinha freguesia de Santo Amaro. O caminho está pejado de erva néveda, de erva férrea, de erva branca, de salsa-parrilha, de junça brava e de mentrasto, a conferir-lhe um perfume adocicado e um sabor amarelecido. São os saborosos inhames destas paragens que outrora, juntamente com os “torresmos tolos”, guardados juntamente com pedacinhos de linguiça na “cabouca”, serviam de lauta refeição matinal, a revigorar, logo pela madrugada, os homens que cavavam estes campos e que carregavam molhos, cestos e sacos por estas íngremes e sinuosas veredas. Zona de densos arvoredos, de arbustos, de ervas, de flores e de frutos, é território privilegiado da “Forfalha” ou “Estrelinha”, um dos mais pequenos pássaros do Pico.

Terminado o Caminho Velho, entrámos na Travessa que nos conduziu à Ribeira do Poço da Areia, descendo, de seguida, até à estrada Nacional, ao longo da sua margem direita, povoada por um denso arvoredo, muito dele derrubado por fortes vendavais, onde pontificam muitas espécies endémicas como a Urze o Pau Branco, o Sanguinho, o Loureiro e o Vinhático.

Depois a Mata, outrora local da grande festa dos lavradores  a rivalizar com a da Baixa, celebrada junto ao mar, a Terra Alta e a descida do Caminho Velho, onde também são visíveis as rilheiras marcadas pelas rodas dos carros de bois a circular por ali abaixo anos a fio. Finalmente a descida da Ladeira, a meio da qual virámos para o Caminho da Rocha, na demanda do mais belo e mais emblemático miradouro da freguesia: o Alto dos Cedros. Dali, apesar do nevoeiro e da neblina reinantes, foi possível apreciar uma das mais belas paisagens da ilha do Pico, da sua costa norte, altiva e imponente, a abarrotar de verdura, com São Jorge lá ao fundo, separado da ilha montanha pela insustentável e perene braveza do oceano.

É verdade que por ali não há cedros, apenas zimbreiros. Perante a estranheza dos presentes, a explicação foi rápida e eficiente: que a origem daquele topónimo, nada tem a ver com a espécie vegetal sua homónima, mas sim com uma importante e ilustre família ribeirense, de apelido “Cedros”, que por ali abaixo, outrora, possuía terras, hortas, vinhas e adegas.

A Semana Cultural e Desportiva da Ribeirinha encerrou, à noite, com um sarau, durante o qual foi apresentado o livro de Guiomar de Lima, sobre Dom José Vieira Alvernaz, Patriarca das Índias e um dos mais ilustres filhos daquela freguesia picoense e em que actuou, sob a orientação do Maestro Emílio Porto, também ele natural da Ribeirinha, o Grupo Coral das Lajes do Pico, deliciando o público com uma soberba interpretação de alguns dos mais belos temas musicais do seu vasto repertório.

Texto publicado no Pico da Vigia, em 05/03/12

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publicado por picodavigia2 às 22:30

A PRAÇA (DIÁRIO DE TI'ANTONHO)

Domingo, 22.12.13

Domingo, 8 de Setembro de 1946

“Hoje é domingo e esteve um dia de muito bom tempo. Afinal ainda estamos no Verão, mas aqui nas Flores e na Fajã Grande, por vezes, em Setembro, chove como Deus a dá e o vento sopra com tanta força que quase nem se pode sair de casa. Mas hoje esteve um dia de muito bom tempo, por isso, de tarde, fui sentar-me à Praça, como é costume aqui na Fajã Grande. Lá estavam muitos homens da minha idade, os velhos de hoje, que foram as crianças de ontem. Mas também lá estavam alguns bem mais novos e até algumas crianças. Mas estas não paravam em ramo verde. Sempre a correr, a brincar e a saltar, Da minha idade, mais ano menos ano, estavam o João Barbeiro, o Mateus Felizardo, o José Batelameiro, o Manuel Dowling, o Caixeiro, o José Pureza, o João Augusto, o Antonho Joaquim, o José Eduardo, o Antonho do Alagoeiro, o José André, o António Maria e muitos outros. Ali passámos a tarde inteira, umas vezes a dormir, outras a conversar e a falquejar. Apenas, de vez em quando, umou outro se levantava para ir ao seu palheiro, deitar comida às vacas.

Mas a Praça hoje já não é o que era no meu tempo de criança e de rapaz, antes de eu ir para a América, embora ali ainda se juntem muitos homens, sobretudo aos Domingos e durante as tardes de muito calor. Mas antigamente aquilo é que era! A Praça era muito diferente do que é hoje, estava sempre cheia de homens, era um espécie de lugar mítico, bastante maior do que agora e rodeada de casas, sendo uma delas, aquela que hoje serve de arrumos ao Laureano Cardoso, a casa onde moravam os avós deste rapaz aqui da Fajã, que se tem revelado um grande poeta e escritor e também um opositor ao regime do Salazar, o Pedro das Mendonças. E sobre isto mais não digo, porque as paredes têm ouvidos. É que dizem que a guarda tem andado por aí, a pedir informações a uns e a outros sobre o que o rapaz diz e escreve contra o Governo de Salazar. Parece que o querem engaiolar. Por isso voltemos à nossa conversa sobre a Praça, um dos mais belos e emblemáticos lugares da Fajã Grande.

Era ali que, quando eu era pequeno se reuniam os homens mais velhos, alguns até tinham apelidos bastante interessantes: o Ti Capãozinho, o Antonho Anina, Ti Antonho Fanha, o tenente Rodrigues Freitas, o José Sailé, o Manuel Inácio Xibante, o senhor padre António José de Freitas, Ti Antonho Silveira, Ti Manuel Ferreiro, Ti João Aço, Ti Manuel Cavala, Ti António George e tantos outros. Ali ficavam tardes e tardes inteiras, a falar, a conversar, a contar estórias da América, coisas de outros tempos. Era também ali que decidiam quando seria o dia de Fio, quem iria juntar as ovelhas por este ou por aquele sítio, quem devia fazer as testadas, em que dia, cada um usava a água dos regos das lagoas da Figueira e das Covas e muitas outras coisas. Era também na Praça que se escolhia o gado para matar pelo Espírito Santo, os interesses e as necessidades da freguesia que tinha sido separada da Fajazinha há poucos anos, o que era preciso construir e quem havia de o fazer. Falava-se dos ataques dos piratas, de naufrágios, das embarcações que paravam nas ribeiras para se abastecer de água e dos que fugiam para a América a bordo delas e das baleeiras. Era ali também que se fazia justiça, se pregava a moral e os bons costumes, que se decidiam as partilhas dos que não se entendiam e se falava da religião. Era também ali que se previa o tempo, lendo nas nuvens como estaria o tempo no dia de amanhã, de que lado sopraria o vento e se iria ou não chover, no dia seguinte. A Praça ainda era uma espécie de tribunal, pois era lá que se julgavam e condenavam uns e outros por actos, gestos e falas menos correctas. Mas o melhor da Praça era que lá se descansava e, às vezes, até se dormia. Que saudades eu tenho da Praça dos meus tempos de criança”

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publicado por picodavigia2 às 15:47

AS FONTES

Domingo, 22.12.13

Na Fajã Grande, na década de cinquenta, havia muitas fontes, duas em cada uma das ruas maiores e uma nas mais pequenas. Assim a Assomada, a Fontinha, a Rua Direita e a Via d’Água tinham duas fontes cada, enquanto as restantes ruas tinham simplesmente uma, isto se não tivermos em conta os bebedouros do gado, na Fajã vulgarmente chamados “poços”, e que também tinham uma fonte, embora nalguns a água corresse continua e permanentemente, dado que não possuíam torneiras. Havia também algumas fontes fora do povoado, sendo as mais célebres a Fonte Vermelha e a do Delgado, mas dessas não reza esta crónica.

As fontes, na Fajã Grande, como naturalmente noutras terras, situavam-se em sítios mágicos, bucólicos, poéticos e míticos, transformando-os em verdadeiros locais de encontro, de descanso, de conversa, de amizade, de troca de afectos e, por vezes até, de namoricos.

Por outro lado, pode dizer-se, em boa verdade, que as fontes tinham um tríplice valor – funcional, simbólico e ornamental. Funcional, porque como a maioria das casas da Fajã Grande, na década de cinquenta, não possuía água, era preciso “ir à fonte”, buscar água. Na realidade eram elas que forneciam a água necessária para lavar as casas e a roupa, para a higiene pessoal, para cozinhar, para dar de beber aos animais e às vezes até para regar os pequenos jardins dos pátios em frente das casas. A água das fontes servia também para matar a sede dos que junto delas passavam ou se aproximavam. Muitas vezes, os que percorriam os caminhos nas suas lides quotidianas, paravam junto às fontes não só para beber água, mas também para descansar e conversar com quem ali estava. Algumas fontes também eram descansadouros, como uma que existia na empena Sul da Casa do Espírito Santo de Baixo. As fontes também tinham um valor simbólico porque eram autênticos sítios privilegiados e singulares, muito bem localizados na freguesia, de tal forma conhecidos por todos que serviam de referenciais para encontros, para conversas e para momentos de descanso. Por vezes, ia-se à fonte para dar dois dedos de conversa, para dar um recado ou até para namorar. Finalmente as fontes tinham um valor ornamental, pois normalmente estavam situadas em cruzamentos de ruas e nelas eram construídos nichos de cimento, com artefactos diversos para segurar o vasilhame e banquetas à volta para as pessoas descansarem, depois de saciarem a sua sede. As fontes até serviam como locais para brincadeira da garotada que ali enchia a boca para brincar à pesca à baleia, para bochechar ou até para molhar os outros, tapando a torneira com o dedo, de forma que a água respingasse para os lados e alagasse os comparsas de brincadeira ou quem por ali passasse descuidadamente.

Sob o ponto de vista arquitectónico, as fontes da Fajã eram edificações simples, geralmente em forma de nicho, construídas em cimento e caiadas de branco como as casas. Normalmente só tinham uma torneira, com excepção de uma, na Rua Direita, no cruzamento do Caminho de Baixo, que tinha duas torneiras e que, por isso mesmo, se chamava “Chafariz”, enquanto as outras eram simplesmente designadas por “Fontes”. A Fonte Velha, na Fontinha, as do meio da Assomada e da Via d’Água e a da Tronqueira eram belas e antigas construções, em forma de nicho gigante, que por vezes até serviam de abrigos quando chovia. Todas as fontes tinham uma peanha para se colocarem as vasilhas de encher a água, na qual havia também um esgoto. Contrariamente a muitos outros lugares do país, na Fajã as fontes não tinham tanque para lavar roupa, talvez porque ir lavar à roupa às ribeiras fosse um hábito ancestral, que devia manter-se pois era lá que as mulheres se juntavam em maior número e onde havia mais abundância de água.

Na Fajã Grande, na década de cinquenta havia ao todo onze fontes. Uma fonte no Cimo da Assomada, logo a seguir à casa do Corvelo e uma outra no largo da Canada, em frente à casa das senhoras Mendonças. Na Fontinha também havia duas fontes: uma, designada por Fonte Velha, num largo em frente à casa do “Arionó” e outra, lá mais para cima, ao lado da casa de tio Britsa. Nas Courelas havia apenas uma, também num cruzamento, em frente à Casa do João Cardoso e funcionava como descansadouro de quem vinha carregado do Areal. Na Rua direita o Chafariz e a fonte junto à Casa de Baixo e na Tronqueira, apenas uma, junto à casa do Roberto Belchior. Na Via d’Água também existiam duas fontes, uma, mais antiga, em frente à casa do José Furtado e outra, construída quando da abertura da estrada, também num largo, ao lado da casa do Serpa da Ponta. A Rua Nova, a mais pequena da Fajã, também tinha apenas uma fonte.

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publicado por picodavigia2 às 14:39

ESPÍRITO DE NATAL

Domingo, 22.12.13

(O texto que se segue foi escrito baseado num conto de Saviour Pirotta, que por sua vez se inspirou numa antiga lenda norte-americana.)

 

Era uma vez uma menina que vivia, com o pai, numa cidade, junto ao mar. O pai era pescador e a mãe já tinha falecido. O pai trabalhava muito mas ganhava pouco e, por isso, tinha muitas dificuldades em criar a filhinha.

Certo ano, ao aproximar-se o Inverno, o pai, muito triste, disse-lhe que tinha que se ausentar para os mares de longe, porque ali, no mar daquela cidade, não havia peixe, nem o tempo estava bom para pescar. A menina ficou muito triste e começou a chorar, lembrando-se logo do Natal, que estava a aproximar-se. Como seria difícil ficar sozinha e passar o Natal, separada do pai, de quem tanto gostava.

O pai acalmou-a dizendo-lhe que ela iria passar o Inverno e o Natal para a montanha, numa pequenina aldeia, onde vivia sua avó. Mas a menina não se conformava.

Foi então que o pai, tentando consolá-la e encorajá-la lhe disse uma frase que ela jamais esqueceu: “Por vezes temos que fazer coisas que achamos muito difíceis, mas temos mesmo que as fazer.”

E a menina lá se foi conformando e acabou por aceitar que iria passar o próximo Natal, longe do pai, com a avó, numa pequenina aldeia da montanha. Antes de partir, porém, foram às compras, a fim de levar algumas prendas, não só para a avó mas também para outros parentes que lá viviam. Mas o pai tinha pouco dinheiro e, por isso, não podiam comprar prendas caras nem a menina conseguia ir muito carregada. Compraram, simplesmente, um xaile para a avó e lenços para os primos.

O pai preparou tudo, comprou o bilhete para ela ir numa carroça e a menina partiu para a montanha.

A viagem foi muito longa e demorada. Depois de chegar a uma pequenina cidade longe do mar, a carroça já não conseguia seguir, e a menina tinha que subir a montanha a pé até chegar à pequenina aldeia onde morava a avó. Ao aproximar-se da montanha, no entanto, teve sorte porque o farmacêutico também ia para a mesma aldeia e levou-a em cima do seu cavalo. Já noite, chegou à aldeia. Junto de uma árvore estavam algumas pessoas com lanternas acesas à sua espera, pois não havia luz naquela aldeia. No meio das pessoas estava uma velhinha que assim que viu a menina veio a correr ter com ela, abraçou-a muito e disse-lhe que era sua avó, a qual, de imediato, lhe apresentou os seus parentes.

Depois foram para casa da avó onde estava uma mesa posta com muita comidinha à moda daquela terra e a menina distribuiu as prendas que levava pela avó e pelos primos. Ficaram todos muito contentes e agradecidos. A menina ficou então muito feliz e sentia-se ali muito bem pois toda a gente gostava muito dela.

No dia seguinte a avó mostrou-lhe a aldeia, as casas, as árvores, os animais e as montanhas cobertas de neve. Ao jantar explicou-lhe os costumes daquela terra, sobretudo, os daquele dia que era véspera de Natal. À noite todas as pessoas iam à igreja, ver o presépio e adorar o Menino Jesus e era costume cada pessoa levar uma prenda para oferecer ao Menino.

A menina ficou muito, muito aflita. É que ela não tinha nenhuma prenda para dar ao Menino, nem dinheiro para a comprar. A avó disse-lhe que não se preocupasse pois ela era um visitante e podia não levar prenda. Mas ela não concordou com a ideia da avó. Também queria levar uma prenda.

Então a avó disse-lhe que não se preocupasse mais, pois tinha um saquinho de amêndoas para oferecer, que o ia dividir a meio, cada uma levaria metade.

Novamente, a menina não aceitou a ideia da avó. Queria dar uma prenda sua. Então lembrou-se que a única coisa que podia oferecer ao Menino era um ramo de flores. Por isso foi para a montanha ver se encontrava flores bonitas. Andou, andou, procurou e nada. Era Inverno e as poucas flores que existiam tinham sido apanhadas no dia anterior para enfeitar a igreja e o altar do Menino. Desgostosa voltou para casa. Como ia ser. Tinha que levar um presente. Voltou à rua e pensou que a única coisa que podia oferecer era um raminho com aquelas ervas daninhas que abundavam por ali, que só fazem mal às outras e não as deixam crescer. Pensou que se levasse um ramo daqueles o Menino não se havia de aborrecer.

Voltou para casa e contou o seu segredo à sua avó que lhe embrulhou o ramo num véu para que ninguém visse o que era.

A igreja estava cheia de luzes, de cânticos e de alegria. Depois da missa as pessoas formaram uma fila para ir oferecer as suas prendas ao menino. Os ricos, prendas valiosas: ouro, e prata, perfumes, etc. Os pobres os produtos da sua terra: galinhas, coelhos, batatas, nozes, amêndoas, etc.

Chegou a sua vez e a menina seguia atrás da avó. Custava-lhe oferecer ao Menino Jesus aquela prenda tão má e tão pobre. Ele até poderia ficar zangado com ela.

Mas lá foi e quando chegou a sua vez depositou o embrulho com o ramo dentro, diante da imagem do Menino. Um senhor que estava ao lado pediu-lhe que abrisse o embrulho e ela disse simplesmente, “Não posso”. O senhor, pensando que ela não tinha força para abrir o embrulho, pegou nele e abriu-o. Toda a gente ficou espantada e admirada porque lá dentro estava um lindo ramo de rosas que o senhor lhe entregou para ela oferecer ao Menino Jesus.

A menina ficou emocionadíssima e sem saber o que se passava. Apenas a avó percebeu o milagre que o Menino Jesus fizera por que ela oferecera um presente verdadeiro, um presente de coração.

Mas guardaram aquele segredo para si. Como eram flores muito bonitas que não existiam naquela aldeia, algumas pessoas tiraram um raminho e levaram-no para as suas casas para plantar nos seus quintais. Algum tempo depois nasceram plantas belas e no Natal do ano seguinte flores muito bonitas que as pessoas não sabiam o nome e por isso chamaram “Espírito de Natal”.

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publicado por picodavigia2 às 12:00

A CASA DE BARBEARIAS

Domingo, 22.12.13

{#emotions_dlg.star}Na Fajã Grande, nos anos cinquenta, sobretudo nas casas onde havia crianças, faziam-se sempre presépios por altura do Natal. Grandes presépios, bonitos presépios! Presépios com uma gruta que abrigava a Virgem, o Menino e São José, com montes, com rios e lagos, com o palácio de Herodes e com casas, entre as quais havia uma muito especial, localizada num dos cantos do presépio. Era a casa de Barbearias, uma casa pobre, humilde, pequenina e a mais distante da gruta.

Segundo uma lenda muito antiga, que se contava na Fajã Grande, quando Jesus nasceu em Belém, as pessoas da cidade recusaram colaborar com os Seus pais, negando-lhes não só hospedagem mas tudo o mais de que necessitavam. Assim, Maria e José foram forçados a se recolherem e se acomodarem numa gruta que servia de estábulo a dois animais, tendo Jesus nascido precisamente aí. Como não havia berço, a Sua Mãe colocou-O sobre umas palhinhas que estavam na manjedoura e que serviriam para alimento dos animais. José e Maria pouco ou nada tinham para acomodar o Menino. Mas Este, acabadinho de nascer, como todos os recém-nascidos, necessitava de um banho, do seu primeiro banho. Como era Inverno a água estava muito fria, quase gelada e, por isso, São José tinha que fazer uma fogueira e aquecê-la. Simplesmente São José não tinha lume com que ateasse o fogo à lenha. Foi pedi-lo aos vizinhos, mas todos se recusaram a dar-lho. Deambulou de casa em casa, mas todos lhe negaram o lume. Já desanimado, ainda foi bater à porta da última e da mais pobre casa da cidade, onde morava um homem de nome Barbearias e a sua família, tendo sido este a dar-lhe não apenas o lume mas tudo o mais que São José precisava para dar o primeiro banhinho ao seu Filho.

Esta lenda, desconhecida nas outras ilhas e localidades açorianas, nem constando ao que parece nos evangelhos apócrifos, constitui, no entanto um interessante registo da tradição popular da Fajã Grande, onde lendas e mitos, tinham de facto um lugar de relevo constituindo uma cultura popular bastante ampla e deveras interessante. Essa a razão pela qual em todos os presépios construídos na Fajã Grande, se construía e colocava, lá bem escondidinha, num cantinho, uma pequena e humilde casa, a casa de Barbearias, a contrastar com o rico e sumptuoso palácio de Herodes, por tradição, localizado no lado oposto do presépio.

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publicado por picodavigia2 às 11:05

DIÁRIO PERDIDO

Domingo, 22.12.13

Jumbu Madé foi fuzilado em Gabu, Guiné-Bissau, no dia 28 de Setembro de 1974, depois de ter sido julgado militarmente e condenado por crime de traição à Pátria.

Quando, cravejado de balas, caiu por terra, de um bolso saiu-lhe um pequeno bloco de notas, que alguém timidamente recolheu, mantendo-o guardado durante muitos anos e cujo conteúdo a seguir se transcreve:

17 de Novembro de 1972

Hoje alistei-me no exército português. Foi uma decisão muito difícil, a minha. Aliás, bem vistas as coisas, nem fui eu que decidi. Meu pai há muito que reclamava sobre a pequenez da tabanca, o pouco arroz da bolanha... Sim, foi ele que decidiu por mim. Dizia-se por Guimansu e arredores que o exército português pagava bem... E creio que foi isso que levou meu pai a tomar tal decisão. Fui para guerra para ganhar dinheiro e ajudar meu pai a sustentar a sua numerosa família!

Alistei-me no quartel de Mansoa. Já tinha estado várias vezes em Mansoa e sabia onde era o quartel, mas nunca lá tinha entrado. Comigo, alistaram-se mais quarenta e quatro jovens, todos de raça negra. Alguns eram de Mansoa, outras de Bindoro, Jugudul, Encheia, Enquida, Cutiá, Mefregim e eu, só eu, de Guimansu.

Fui atendido por um oficial, um médico e dois soldados. Mandaram-me despir, pesaram-me, mediram-me, viram-me os dentes e ordenaram-me que fosse tomar banho. Depois deram-me roupa diferente da minha: uma farda, uma boina, uns calções e uma camisola. Entregaram-me ainda alguns papéis com o meu nome, riram-se de mim e mandaram-me para Nhacra, fazer a recruta.

17 de Fevereiro de 1973

A minha recruta em Nhacra chegou ao fim! Que alívio! Mas só após esta terminar, me apercebi verdadeiramente de que agora vou começar a guerra e, pior do que isso, de que vou fazer uma guerra fratricida.

Prepararam-me física e psicologicamente para a guerra. Matar, matar os meus irmãos de raça, de cor, de sangue, será agora o meu destino... E eu não quero!... Quero voltar atrás, abdicar da guerra e não posso. Agora sou forçado a seguir em frente, a fazer a guerra!...

25 de Fevereiro de 1973

Hoje iniciei-me, contra a minha vontade, na guerra. Deslocávamo-nos em coluna de Cutiá para Mansabá, no já denominado “carreiro da morte”. Uma emboscada!...

Uma mina explodiu, depois outra e ainda outra. Foi a confusão entre as dez viaturas que seguiam, ao longo da estrada. Preocupados em socorrer os feridos e juntar os mortos, não pensámos no que nos esperava, a seguir. Rajadas de metralhadora começaram a fazer-se ouvir de um e de outro lado da estrada em que circulávamos. Continuaram a cair corpos por terra. O apoio aéreo de Bissorã chegou tarde e gerou maior pânico. De Mansabá também vieram em nosso auxílio, mas chegaram tarde, muito tarde.

26 de Fevereiro de 1973

No ataque de ontem morreram nove soldados brancos e dois de cor. Os feridos foram mais de vinte. A sorte, porém, bafejou-me. Nada sofri, a não ser a dor e angústia de ver irmãos morrerem de maneira tão incrível e inaceitável.

15 de Março de 1973

Mudaram-me para Inghonhé. O comandante é uma pessoa despida de sentimentos. A mim e aos meus irmãos de cor trata-nos pior do que animais. O nosso abrigo é uma lura escavada na terra, sem condições. Dormimos no chão e, muitas vezes, comemos o que sobra dos soldados brancos. Por sermos de cor, somos desprezados e marginalizados. Para além de considerar estas e outras atitudes um atentado ao verdadeiro espírito militar, chego a pensar que são reveladoras duma clara manifestação de racismo.

Para além dos horrores da guerra, nós, os soldados negros, somos condenados a sofrer os vitupérios da discriminação e do racismo.

27 de Março de 1973

Hoje é dia de descanso. Apetece-me falar de mim e da minha pequena aldeia.

Eu nasci em Guimansu, um pequeno povoado guineense, perto da estrada que liga Mansoa a Nhacra.

Meu pai é um mandinga de língua Fu, do grupo dos filjincas. Tem quatro mulheres, a terceira das quais é minha mãe.

Cresci, pois, em Guimansu, junto com meus irmãos e irmãs, enquanto meu pai se ausentava para negociar e minha mãe e as outras mulheres se dedicavam ao cultivo dos campos, como é costume entre os mandingas, quer plantando o arroz nas bolanhas, junto ao rio Mansoa, quer semeando trigo e cultivando legumes nos campos circundantes à nossa tabanca. Embora sem passar fome, verdade é que nunca tivemos muita abundância. Comíamos sobretudo o arroz que a bolanha produzia.

Meu pai deixou-me frequentar a escola, onde, felizmente, aprendi a ler, a escrever português e a ver as coisas de outra forma. Gosto muito de escrever. Gostava de ser escritor, como os que escreveram alguns livros que li, quando andava na escola.

4 de Maio de 1973

Esta guerra cada vez me magoa e faz sofrer mais. O meu sofrimento, porém, não é por ter sido atingido por bala, mina, obus ou metralhadora. É sobretudo por ver meus irmãos a morrerem lutando por uma causa justa – a independência do meu país, da minha Guiné. Como eu gostaria que a guerra terminasse e lhes fosse dada a razão. É verdade que os meus antepassados mandingas tinham uma índole aguerrida, eram belicosos e guerreiros, mas tinham um espírito pacífico. Foi esse que eu herdei. Não quero a guerra, não gosto da guerra. Não faço esta guerra por minha vontade.

7 de Julho de 1973

A guerra é cada vez mais cruel. Ontem, o nosso quartel foi atacado mais uma vez. Foi a resposta ao assalto a uma povoação dos arredores, onde grande parte da população foi massacrada por soldados portugueses. Foi a vingança! Os mortos do lado das tropas portuguesas foram sete. Agora que sou obrigado a fazer esta guerra, sinto que preferia estar do outro lado. Confesso que (página rasgada).

18 de Setembro de 1973

Que alívio! Uma tabanca inteira foi poupada a um massacre. Todos fugiram a tempo. A quantas crianças, mulheres e velhos inocentes eu poupei a vida! Não posso explicar porquê...

23 de Setembro de 1973

Vou desertar! Vou fugir! Mas não posso revelá-lo a ninguém. Choro de dor e de raiva ao ver e, sobretudo, ao ser obrigado a colaborar em ataques fratricidas. Sinto um enorme peso na minha consciência. Resta-me a consolação de estar nesta guerra sem ser por vontade própria. Mas tenho que desertar, embora saiba que será muito difícil fazê-lo sem ser capturado e preso, como outros irmãos meus já foram.

19 de Outubro de 1973

Finalmente, amanhã vou tentar a fuga. Se tiver que continuar a guerra será do lado dos meus irmãos de raça. O meu desejo, porém, é acabar com esta guerra. Não quero combater, nem de um lado, nem do outro. Não quero ver mais mortos ou feridos. Quero a paz e acredito numa Guiné livre e independente. Quero a paz para o meu país e para todo o mundo. A guerra é o pior que pode acontecer a um povo ou a um país. Há muitos irmãos meus, brancos e de cor, que não querem esta guerra.

20 de Outubro de 19973

Tentei fugir, mas fracassei. Fui descoberto, julgado e condenado. Não vou poder escrever durante estes 60 dias de prisão.

21 de Dezembro de 1973

Finalmente voltei a ser livre. Terminou o meu cativeiro. Só eu sei o que sofri. Um quarto sem luz, com um pequeno orifício por onde apenas introduziam a alimentação. Alimentação? Não. Pão, água e restos de comida, de vez em quando. As fezes e a urina eram guardadas num balde, apenas despejado uma vez por semana. A cama era um colchão velho colocado no chão. Várias vezes tive que repartir este cubículo com outros prisioneiros! Foram 60 dias terríveis e amargos. Não posso (palavra imperceptível em fim de página).

23 de Dezembro de 1973

Como não bastassem os 60 dias de prisão, voltei a ser ainda mais castigado. Fui transferido para bem longe, para Cuntima, para lá de Farim, junto à fronteira com o Senegal. Agora é impossível fugir. Mas, em contrapartida, o comandante da companhia é um jovem, o capitão Alçada, muito humano e compreensivo, amigo igualmente de todos, independente da cor ou da raça. Creio que ele também é contra esta guerra!

15 de Fevereiro de 1994

Fui transferido para Mansoa, agora que já me habituara a Cuntia, onde tinha muitos amigos, entre os quais “o meu capitão” Alçada.. (Página rasgada).

17 de Março de 1974

Há rumores, muitos rumores de que alguma coisa vai mudar nesta guerra. Afinal não sou apenas eu que não concordo com ela. Há muitos soldados brancos e até alguns oficiais que, assim como “o meu capitão” Alçada, também não concordam com esta guerra. Mas dizem que de Lisboa vem ordens para continuar. Começo a pensar em fugir novamente. Mas sou totalmente impedido de o fazer.

5 de Abril de 1974

Apanhei vinte dias de prisão por supostamente ter dado informações a alguns civis.

25 de Abril de 1974

Fui posto em liberdade. Soube, também, que hoje foi dada a liberdade aos portugueses. Houve uma revolução em Portugal. O regime político, em Portugal, vai mudar. Todos acreditam que será o fim desta guerra. Eu porém estou muito apreensivo. Se for verdade, se Portugal ceder, se terminar a guerra e aceitar a independência à Guiné, o que será de nós, soldados nativos, que combatemos do lado dos portugueses, designados por colonialistas, contra os nossos irmãos de raça e de sangue, contra a independência do nosso país? Começo a ter medo, muito medo…

1 de Maio de 1974

A euforia é cada vez maior entre os soldados brancos. Terminou a guerra. Todos pensam que em breve regressarão ao seu país. Muitos dos negros que combateram ao lado dos portugueses fugiram outros começaram a ter problemas, a serem ameaçados de morte. Reina o temor, impera o medo e surgem, com frequência, ameaças terríveis. Aguardo com muita expectativa o meu futuro. Não sei o que me espera... Mas tenho medo, muito medo.

17 de Junho de 1974

Fui preso novamente, mas agora por adeptos do PAIGC.

25 de Setembro de 194

Depois de mais de três meses preso, em condições, piores do que os 60 dias de Inchalé, fui julgado por um grupo de militares do PAIGC, sem direito a defesa e fui condenado à morte por traição!

27 de Setembro de 1974

Vou ser fuzilado, amanhã,  (resto de página imperceptível).

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publicado por picodavigia2 às 10:43

O RELÓGIO DA ROCHA DAS ÁGUAS

Domingo, 22.12.13

Na Fajã Grande, na década de cinquenta, praticamente existiam, em todas as casas, relógios de parede. Muitos tinham vindo da América, fabricados numa das mais conceituadas e famosas empresas de fabrico de relógios do mundo, a “Ansonia Clok Company” que em meados do século XIX fora fundada em Connecticut, transitando no final do mesmo século para Nova York. A maioria deles, eram belos exemplares do tipo “Terry & Andrews”, geralmente adquiridos pelos emigrantes fajãgrandenses que haviam demandado a Califórnia e regressado aos Açores, nas primeiras décadas do século passado. Depois de um trabalho árduo e por vezes pouco lucrativo, naquele longínquo Estado da costa oeste dos Estados Unidos, regressavam à sua terra natal, geralmente trazendo na bagagem sonhos desfeitos e algumas bugigangas, umas mais outras menos valiosas. Atravessando o vasto continente da América de Norte, de lés-a-lés, paravam nas cidades da costa leste, onde adquiriam a maior parte de quanto traziam consigo, sobretudo, máquinas, relógios, utensílios agrícolas e domésticos, evitando assim carregar com tudo aquilo, durante a demorada e longa travessia do continente americano.

Portanto em suas casas, na década de cinquenta, a população da Fajã Grande tinha como orientar-se no tempo. Durante o dia, bastava olhar para os barulhentos exemplares da “Ansonia Clock”, colocados, geralmente, na sala, em lugar de destaque, quer em cima duma pequena peanha ou prateleira afixada na parede, como os santos na igreja, quer simplesmente colocado sobre uma cómoda, à volta do qual abundavam fotografias, um oratório e algumas frivolidades. Ao longo da noite, era aquele “tic-tac” persistente e continuo, por vezes irritante e a gerar insónias, intercalado com o “tau, tau, tau” solene e harmonioso do bater das horas. Por isso mesmo, assim como durante o dia, também de noite havia, dentro das próprias casas, uma informação horária, contínua, segura, permanente e sempre disponível, a não ser que o dono ou dona do dito cujo se esquecesse de lhe dar corda, uma vez por semana.

Mas longe de casa, quer de dia quer de noite, outro galo cantava. Relógios de pulso, havia muito poucos e eram praticamente um luxo, de uso exclusivo aos domingos e dias santos, incluindo os abolidos, que os já havia na altura. Relógios de bolso, existiam bastantes mais, mas constituíam uma espécie de “reserva hereditária” de cada família. A maioria deles, também havia sido trazida da América ou de lá tinham sido enviados por algum familiar. Estes relógios, diga-se em abono de verdade, muito bonitos e muito valiosos, eram geralmente encravados em estojos redondos galvanizados em ouro ou prata e presos com iguais correias ao cinto ou às alhetas das calças. Mas sendo “bens de família”, ainda por cima, banhados a ouro e prata, existiam mais para serem guardados nos caninos das caixas do que propriamente para andarem aos tropeções por entre rochas e calhaus, à chuva e à maresia, a roçar em pedregulhos, a encharcar-se de água ou de salmoura e correndo sérias possibilidades de se desprenderem das correntes e se perderem para sempre. Por isso, fora de casa, andava-se às aranhas, isto é, praticamente não havia forma de se saber as horas. A interrupção dos trabalhos nos campos, para o almoço ou para o que quer que fosse, os momentos combinados para isto ou para aquilo, o rigor dos compromissos assumidos, as horas marcadas para algum encontro, eram avaliados por estimativa, o que tornava tudo muito inseguro, pouco fidedigno e dotado de uma margem de erro bastante grande.

Mas havia, na Fajã Grande, uma forma certa, segura e rigorosa de, durante o dia, se saber as horas. Era a Rocha das Águas, um relógio natural, que embora sem os sons harmoniosas dos velhos “Ansonias”, dava as horas com um rigor ainda maior. Mas com duas limitações: apenas uma vez por dia e se houvesse Sol.

Assim quando o Sol, que na Fajã nascia lá para os lados de Santa Cruz, começava a despontar nos matos e, algum tempo depois, batia de chofre na Rocha das Águas, iluminando-a por completo, eram, sem sombra de dúvida, dez horas em ponto. A Rocha das Águas era pois um autêntico relógio, bem vivível e disponível para todos. Homens e mulheres, nas lides dos campos e no tratamento do gado, por ali se orientavam, delineando e planeando mais facilmente as várias tarefas que ao longo do dia tinha que realizar.

Pena realmente que o relógio da Rocha das Águas só indicasse as horas, apenas uma vez por dia e… nos dias em que havia Sol.  

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publicado por picodavigia2 às 09:54

HINO DO AMOR

Domingo, 22.12.13

(JOÃO DE DEUS)

 Andava um dia

 Em pequenino

 Nos arredores

 De Nazaré,

 Em companhia

 De São José,

 O bom Jesus,

 O Deus Menino.

 

 Eis senão quando

 Vê num silvado

 Andar piando

 Arrepiado

 E esvoaçando

 Um rouxinol,

 Que uma serpente

 De olhar de luz

 Resplandecente

 Como a do Sol,

 E penetrante

 Como diamante,

 Tinha atraído,

 Tinha encantado.

 Jesus, doído

 Do desgraçado

 Do passarinho,

 Sai do caminho,

 Corre apressado,

 Quebra o encanto,

 Foge a serpente,

 E de repente

 O pobrezinho,

 Salvo e contente,

 Rompe num canto

 Tão requebrado,

 Ou antes pranto

 Tão soluçado,

 Tão repassado

 De gratidão,

 De uma alegria,

 Uma expansão,

 Uma veemência,

 Uma expressão,

 Uma cadência,

 Que comovia

 O coração!

 Jesus caminha

 No seu passeio,

 E a avezinha

 Continuando

 No seu gorjeio

 Enquanto o via;

 De vez em quando

 Lá lhe passava

 A dianteira

 E mal poisava,

 Não afroixava

 Nem repetia,

 Que redobrava

 De melodia!

 

Assim foi indo

 E foi seguindo.

 De tal maneira,

 Que noite e dia

 Numa palmeira,

 Que havia perto

 Donde morava

 Nosso Senhor

 Em pequenino

 (Era já certo)

 Ela lá estava

 A pobre ave

 Cantando o hino

 Terno e suave

 Do seu amor

 Ao Salvador!

 

João de Deus

 

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publicado por picodavigia2 às 00:12





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