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APAGARAM-SE TODAS AS LUZES

Quinta-feira, 02.01.14

Apagaram-se todas as luzes…

     as do céu

     e as da terra!

 

E agora?

 

A festa acabou,

a noite arrefeceu,

a mesa desfez-se.

 

Há crianças sem balões,

jovens sem alvoroços,

homens sem delineações,

velhos sem júbilo

 

Os sinos já não tocam,

os sorrisos não alegram

e a música não contagia.

 

o pão envolveu-se na cinza,

o vinho no engaço

e a fome na nudez.

 

As palavras são enganos,

os desejos utopias

e os encontros mitos.

 

E agora?

Que se apagaram todas as luzes

e a festa acabou?

 

Valerá a pena

gritar,

berrar,

chorar,

combater

protestar

gemer,

barafustar

insurgir-se

agastar-se

amotinar-se?

 

Talvez,

um dia,

todas as luzes voltem a acender-se…

mas… uma a uma…

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publicado por picodavigia2 às 18:22

UM OVNI NA TERCEIRA

Quinta-feira, 02.01.14

No final da década de sessenta do século passado, mais concretamente no Inverno de1968, o guarda Serafim Sebastião, encontrava-se de vigia às instalações militares "Azores Air Station", no lugar do Cabrito, Cinco Picos, na ilha da Terceira. Como o trabalho não era muito, Serafim entretinha-se, tranquilamente, a ouvir, na rádio, o relato de futebol entre o Setúbal e o Sporting, quando, de repente, deixou de ouvir o transístor. Serafim tentou sintonizar, de novo o pequeno aparelho, mas foram vãos os seus esforços: "não ouvia nem aquela nem nenhuma outra estação de rádio”, pelo que desligou o aparelho. Eram nove horas da noite.

De repente, Serafim, que se encontrava ali sozinho, sentiu um "zumbido" estranho. Saiu para fora do paiol e viu, do lado esquerdo do posto onde se encontrava, um objecto estranho a aproximar-se. Regressou ao interior das instalações e, via telefone, comunicou, aos seus superiores, o que acabava de presenciar. Pediram-lhe que confirmasse a informação e ele voltou a sair, informando, novamente, que uma “grandessíssima claridade entrou pela janela dentro; claridade, essa, que era muito forte, de uma luz clara e, então, pedi que viessem quanto antes para cima”. Desligou o telefone, voltou a sair e pode, então, ver que aquela estranha claridade e o objecto donde emanava estavam parados sobre o posto de munições à face do paiol. Observando melhor, verificou que a claridade saía de um objecto oval, de aspecto metálico, com uma torre de vidro, a que estavam encostados dois seres. Pode confirmar também que não se tratava nem de um avião, ou balão ou helicóptero, mas sim de um objecto não identificado, fora do qual viu dois outros seres, que apesar de parecerem comunicar um com o outro, Serafim não os ouvia nem lhe via os rostos. Aproximou-se mais e viu que aquela espécie de homens tinham uma viseira de vidro a cobrir-lhes os rostos. Acendeu um o foco e apontou-o na direcção deles que ripostaram, de imediato, projectando sobre Serafim um foco de luz tão forte que este não podia olhar, caindo de imediato no chão, sem se lembrar do que aconteceu a seguir.

Serafim Sebastião foi encontrado inanimado no local. Conduzido hospital regional de Angra, ali foi observado. Encontrava-se em estado de choque de origem psicossomática; não falava, e ouvia muito mal. Às três da madrugada começou a balbuciar algumas palavras; às dez da manhã foi-lhe dada alta no Hospital Regional de Angra, seguindo para o aeroporto das Lajes, escoltado pela Polícia a fim de ser submetido a um inquérito oficial, efectuado pelas entidades aeronáuticas de Portugal e dos Estados Unidos, que não tardaram em informar a população, que se alarmara com a divulgação da notícia, que o que Serafim Sebastião tinha visto era apenas: um "balão-sonda”, que ao encontrar um campo eléctrico de alta tensão teria provocado determinado fenómeno que teria assombrado o guarda. Esqueceram-se, porém, as autoridades, de informar, que, naquele local, não passavam cabos de alta tensão, mas sim cabos telefónicos e que os serviços de radiossonda tinham lançado um único balão nesse dia, mas às 22 horas e que a subida fora perfeitamente controlada, a fim de transmitir a temperatura, ventos e humidade em altitude, tendo-se desintegrado a 126.000 pés, 1 hora e 50 minutos após o lançamento, nunca tendo perdido altitude, ou desviado anormalmente a sua trajectória, pelo que nunca poderia ter sido observado por Serafim Sebastião do local onde se encontrava.

Apesar da convicção das suas declarações, de ase ter deslocado aos Estados Unidos para depor, até hoje nunca se soube que objecto luminoso Serafim Sebastião observou, se falou verdade e, caso ter visto um objecto estranho, se realmente se tratava de um OVNI – Objecto Voador Não Identificado. Ficou célebre a sua frase, com o intuito de convencer do que vira, a sua declaração à Rádio Clube de Angra:

- “Eu vi visivelmente visto…”

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publicado por picodavigia2 às 14:46

O SALGUEIRO DA RUA DIREITA

Quinta-feira, 02.01.14

O mais típico e o mais emblemático de todos os salgueiros que existiam, por aqui e por acolá, sobretudo nas margens das ribeiras e das grotas, juntamente com álamos e vimes, na Fajã Grande, nos anos cinquenta, era um que se podia observar na rua Direita, no interior da entrada do pátio da casa de José de Joãozinho.

Tratava-se de uma árvore aparentemente secular, com uma copa farta, robusta e muito verdejante, com uma parte dos ramos a se estenderem e prolongarem pela rua e uma outra para cima dum muro que ali existia, ao lado, a separar o pátio da casa do João Fragueiro da rua Direita. Essa generosidade do velho e causticado salgueiro, de partilhar uma boa parte da sua copa com a rua Direita e com o muro, tornava-o ainda mais mítico e mais emblemático e fazia com que a zona do muro bafejada pela sua sombra, uma vez que todo ele se destinava a bancada de descanso, se tornasse bastante cobiçada, muito desejada e frequentemente procurada por quantos pretendiam ali sentar-se, para descansar e para conversar. É que para além de poderem desfrutar duma bela e agradável sombra, usufruíam de toda a mística e simbolismo que aquela árvore misteriosamente encerrava.

Na realidade, desde os tempos mais remotos que as mais diversas civilizações e culturas atribuíram ao salgueiro, um potencial mágico e simbólico muito importante. Na China, por exemplo, o salgueiro era símbolo da imortalidade e decoravam-se as portas das casas com folhas de salgueiro, durante o solstício de Verão. Para que alcançassem a imortalidade os chineses cobriam os caixões dos seus mortos com folhas de salgueiro e ainda hoje, nas cerimónias fúnebres, o ataúde vai acompanhado de um ramo de salgueiro com bandeirinhas penduradas. Os próprios imperadores chineses ofereciam, aos seus cortesãos ramos de salgueiro para evitar os miasmas envenenados ou as pestilências, porque atribuíam ao salgueiro o poder de curar as chagas. Na mitologia romana, o salgueiro era uma árvore consagrada à deusa Juno e tinha a propriedade de deter qualquer hemorragia e evitar o aborto. Os índios consideravam o salgueiro uma árvore sagrada e na Grécia era símbolo de esterilidade, porquanto as mulheres gregas, para engravidarem mais facilmente, colocavam ramos de salgueiro em cima da cama antes de terem relações sexuais. Por sua vez a Bíblia revela-nos que o salgueiro, apresentado sobretudo no livro dos Salmos, tinha grande importância nos rituais e festas dos judeus, De acordo com a lei bíblica (Lev. 23:40), cada judeu tinha que juntar quatro espécies de árvores, amarrá-las juntas e abençoá-las. O salgueiro era uma delas. De acordo com a lei oral do judaísmo, o salgueiro não tem nem cheiro nem gosto e simboliza as pessoas ignorantes e pecadoras do povo de Israel. Na mitologia europeia o salgueiro está ligado às bruxas e, ainda hoje, na Europa existem muitas lendas onde se conta que as bruxas têm preferência para se ocultarem sob a forma de formosas raparigas nos ramos dos salgueiros. Além disso, também na Europa o salgueiro está relacionado com o luto, com a morte e com a melancolia. No norte da Europa e também nalgumas localidades dos Açores, no Domingo de Ramos usam-se ramos de salgueiro em vez de palmas e de ramos de oliveira. Na Inglaterra colocar um ramo de salgueiro no chapéu significa amor não correspondido. Naquele país também se atribui ao salgueiro grande valor medicinal, pois a casca do seu tronco pode ser usada para produção da aspirina; é aliás do nome latino do salgueiro, “Salix”, que deriva o nome do ácido acetilsalicílico, utilizado na produção daquele medicamento. Já na antiguidade Hipócrates, o pai da Medicina, utilizava as folhas de salgueiro para curar as dores de cabeça e a febre. Muitos outros povos fizeram o mesmo ao longo dos séculos. O salgueiro também é considerado como símbolo da pureza, talvez por ser um tipo de árvore que, absorvendo muita água da terra, permite aos solos respirarem melhor e muitos povos utilizaram o salgueiro para recuperar águas poluídas, devido à sua capacidade para absorver e transformar poluentes em matéria orgânica.

Naturalmente que os pacatos cidadãos da Fajã Grande e nossos antepassados, quando se sentavam à sombra do salgueiro do pátio de José de Joãozinho, na rua Direita, decerto que não tinham conhecimento, nem sonhavam com todo o potencial mágico e a gigantesca força mítica daquele salgueiro, talvez e apenas o procurassem para suspender na agradável sombra que pendia dos seus ramos, o peso das suas canseiras e trabalhos, para, sentados debaixo da sua frondosa copa, recordar sonhos e aliviar mágoas de outrora, como o fizeram os escravos hebreus, retratados na ópera Nabucodonosor de Giuseppe Verdi, quando, junto às margens do rio Eufrates, descansando dos seus trabalhos de escravos, recordando a sua pátria, tão bela e perdida e as suas cidades na dor sepultadas, cantavam: “Harpa de ouro dos fatídicos vates! Porque estás suspensa dos salgueiros? Reacende no peito a memória, recorda os tempos de outrora”

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publicado por picodavigia2 às 11:13

FRANCISCO CARREIRO DA COSTA

Quinta-feira, 02.01.14

Francisco Carreiro da Costa nasceu na vila da Lagoa, ilha de S. Miguel, a 6 de Março de 1913, tendo falecido em Ponta Delgada, em 1981. Estudou na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa onde concluiu a licenciatura em Ciências Histórico-Filosóficas, após o que regressou aos Açores para desenvolver intensa actividade político-administrativa, científica e educativa.

Presidiu à direcção da Acção Católica de Ponta Delgada e pertenceu à Comissão de Distrito da União Nacional, foi vogal da Comissão Administrativa da Junta Geral do Distrito Autónomo de Ponta Delgada, Presidente da Câmara Municipal da Lagoa e Procurador eleito da Comissão Administrativa da Junta Geral do Distrito Autónomo de Ponta Delgada. Mas foi à etnologia dos Açores que se dedicou apaixonadamente. Os vários cargos que ocupou permitiram que realizasse uma obra exaustiva de descoberta, recolha e coordenação dos valores da tradição regional que elaborou com método e pertinácia e que divulgou largamente. Foi também co-director e editor do semanário A Ilha e director do Correio dos Açores. Era Comendador da Ordem do Infante D. Henrique.

Obras principais: Os Açores e o problema cerealífero português do século XV, Terminologia agrícola micaelense, Esboço histórico dos Açores e Etnologia dos Açores.

 

Dados retirados do CCA – Cultura Açores

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publicado por picodavigia2 às 10:14

O PADRE CAMÕES

Quinta-feira, 02.01.14

José António Camões nasceu na freguesia das Fajãs, na ilha das Flores em 13 de Dezembro de 1777, tendo falecido em Ponta Delgada, na mesma ilha, em 18 de Janeiro de 1827. Para além de sacerdote foi examinador eclesiástico, professor régio, poeta e historiógrafo, sendo autor de várias obras de cariz satírico, muitas delas em verso: O Testamento de D. Burro, Pai dos Asnos, Os Sete Pecados Mortais e Relatório das Cousas mais Notáveis que Havião nas Flores e no Corvo.

Filho de pai incógnito e de mãe de ascendência corvina, foi enjeitado, isto é exposto e abandonado à caridade pública, sendo registado simplesmente com o nome de José. Passou parte da sua difícil infância no Corvo, chegando a passar fome. Aquando de uma visita de frei Manuel de São Domingos ao Corvo, seu pai putativo, fez-se encontradiço com ele, tendo-o acompanhado, como estudante, para o convento de São Boaventura, em Santa Cruz das Flores, onde estudou. Mais tarde, abandonou o convento e foi servir para casa de lavradores na Fajãzinha. Em 1797, regressou a Santa Cruz, já como professor particular de latim em Santa Cruz. Algum tempo depois, partiu para Angra, para estudar, albergando-se no convento de S. Francisco daquela cidade. Sendo enjeitado, como não tinha nome de família, adoptou o sobrenome “Camões”, passando a chamar-se José António de Camões. A escolha do nome foi certamente inspirada pela sua admiração pelo poeta. Dispensado do “defectum natálium”, foi ordenado sacerdote a 20 de Outubro de 1804, tendo sido nomeado professor régio de gramática latina na ilha das Flores. Assim fixou-se, novamente, em Santa Cruz, ensinando e exercendo o sacerdócio, tendo grande sucesso no ensino do latim, atraindo às Flores estudantes do Corvo e do Faial. Contudo, em 1807 é nomeado vigário de Ponta Delgada das Flores, onde passa a residir, mantendo, no entanto, a docência como professor particular.

O brilhantismo de José António Camões e o seu domínio da escrita, numa ilha onde a maioria do clero era quase iletrada, criaram condições para uma rápida ascensão na carreira eclesiástica. Tal ascensão, no entanto, não foi bem aceite na ilha, em particular pelo clero, face ao grave defeito de nascimento que representava a sua condição de enjeitado. Por isso e pela contestação de que era vítima e face à inveja do clero, escreveu, em 1812 ou 1813, uma sátira, em prosa e verso, intitulada os Sete Pecados Mortais, onde desanca forte e feio no clero das Flores e do Corvo, que o haviam rejeitado como ouvidor eclesiástico d'estas duas ilhas.

Em data anterior, escreveu também o Testamento de D. Burro, Pai dos Asnos, um escrito de carácter aparentemente autobiográfico, onde ajusta contas com os que o discriminaram e maltrataram quando criança e jovem "enjeitado". Aparentemente descrevendo eventos da sua infância e juventude, enxovalha alguns dos nomes mais sonantes da sociedade florense, de então, com particular relevo para o clero. Os seus escritos são enviados ao cabido de Angra, uma vez que a sede da diocese estava vacante já que o bispo, D. José Pegado de Azevedo, falecera a 19 de Junho de 1812. O cabido diocesano angrense exonera-o do cargo de ouvidor e suspende-o da vigariaria de Ponta Delgada. Chamado a Angra, foi pronunciado e acusado de injuriar a Mesa Capitular, sendo, contudo, absolvido, depois de ter passado por um humilhante julgamento.

Apesar da absolvição, a mandado do cabido, teve de responder perante os qualificadores do Santo Ofício, por se afirmar que nos seus escritos havia matéria de censura contra a disciplina e dogma da Igreja. A acusação foi julgada também improcedente, mas, no entanto, o cabido recusou-se a permitir a sua reintegração nos cargos de que fora suspenso.

Depois de muitas infrutíferas tentativas a fim de obter a reintegração na vigariaria de Ponta Delgada, abandonado por quase todos e odiado pela classe dominante das Flores, acaba por solicitar ao Capitão General a sua nomeação como professor régio da cadeira de gramática latina de Santa Cruz das Flores. Em 1815 regressa ao ensino da gramática latina em Santa Cruz, permanecendo nessa função, apesar da oposição do cabido de Angra, da Câmara de Santa Cruz e das forças vivas da ilha, até pelo menos 1822, cinco anos antes do seu falecimento.

Caído em desgraça, sem amigos e com escassos alunos, vivendo da esmola da missa e de algum sermão que escrevia para os colegas, atravessou grandes dificuldades, nos últimos cinco anos de vida, chegando, novamente, a passar fome. Faleceu em Ponta Delgada das Flores, com apenas 49 anos de idade, a 18 de Janeiro de 1827.

As suas obras apenas foram impressas postumamente: o Testamento de D. Burro, Pai dos Asnos, em 1865, em Boston, e os Pecados Mortais em 1883, em Lisboa. Alguns sonetos apareceram no Jorgense e noutra imprensa, mas anos mais tarde

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publicado por picodavigia2 às 09:21

PONTEIRAS E CAMPAINHAS

Quinta-feira, 02.01.14

Na década de cinquenta, as vacas tinham um papel fundamental na economia fajãgrandense, dado que era exclusivamente da sua venda e, sobretudo, do leite que forneciam, que a maioria dos lavradores da Fajã Grande conseguia sobreviver e obter o dinheiro necessário para enfrentar as pequenas despesas que, dia a dia, era obrigado a fazer.

Essa a razão por que as vacas, na Fajã Grande, eram extremamente bem tratadas. Boa comida, resguardo nos palheiros, evitando que ficassem expostas quer ao rigor dos temporais quer ao calor excessivo dos dias de Verão e muitas outras atenções e cuidados.

No entanto e para além destes desvelos, muitos criadores de vacas ainda se preocupavam com a sua apresentação e com a sua beleza. Ter uma vaca bonita era uma espécie de objectivo fundamental, um desiderato a que ninguém se esquivava. Essa a razão por que quase todas as vacas na Fajã Grande usavam ponteiras e campainhas. Havia mesmo quem muito se preocupasse com a qualidade de um e outro destes apetrechos.

As ponteiras eram uma espécie de grossos anéis de metal amarelo, com rosca na parte interior e um bojo no exterior, que eram aparafusadas nas pontas dos chifres. Meter uma ponteira era fácil. Arredondava-se com uma navalha a ponta do dito cujo, enroscava-se com uma tarraxa a ponteira, cortando-se, finalmente a ponta excedente do chifre, para que ficasse remines com a ponteira. Para além de ornamento, as ponteiras também serviam para prender a atraca, quando os animais estavam encangados, e para não se feriram uns aos outros com as pontas agudas dos chifres.

As campainhas, por sua vez, eram objecto de grande atenção e de cuidados excessivos. Não eram chocalhos ou guizos, mas sim campainhas de metal amarelo, com sons extraordinariamente belos, harmoniosos, sonantes e muito agradáveis ao ouvido humano. As campainhas normalmente formavam pares, sendo uma com um som grave e outra com um som alto, formando um acorde perfeito. Havia campainhas de sino e de meia laranja. As primeiras eram poucas e chamavam-se assim porque o seu formato era igual ao dos sinos. As melhores e mais belas campainhas de sino da Fajã eram as do Gil e as de meu avô materno, umas e outras tinham sido trazidas da América. Mas a maioria das campainhas, porém, tinham a forma de meia laranja, eram compradas nas Lajes, havendo-as de tamanhos e de sons diferentes. Havia-as também em alumínio, mas com um som muito esquisito, usadas no gado alfeiro e muito raras. Os sons das campainhas eram tão específicos e diferentes uns dos outros de tal modo que se identificava o dono das vacas apenas pelos sons das campainhas. Regra geral a campainha com o som mais alto era colocada no animal mais lesto e que puxava a canga pelo lado direito e a de som mais grave no animal que trabalhava pela esquerda, mais lento e vais vagaroso.

As campainhas eram presas ao pescoço das vacas com uma fita de couro, uma espécie de cinto, chamado “estrape”. Relativamente perto da fivela, fazia-se um orifício no “estrape”, onde era introduzida a saliência superior da campainha, com um buraquinho, prendendo-a com um pedacinho de arame dobrado. A fivela, por razões mais estéticas do que funcionais, devia ficar, no pescoço do animal, sempre do lado de fora, relativamente    ao que ele trabalhava, isto é, o animal que trabalhava à direita devia ter a fivela do seu lado direito e o outro do lado esquerdo.

Os animais, com alguma frequência, ou porque o “estrape” rebentasse, ou o arame se desprendesse, perdiam as campainhas. Outras vezes, simplesmente, caía-lhes o badalo. Essa a razão por que quando iam para as relvas do mato elas lhes eram retiradas, sendo, geralmente, substituídas por grandes e barulhentos chocalhos, que permitiam identificar o paradeiro de cada rês, sobretudo em dias de nevoeiro.

Confesso que sempre tive um fascínio por estas campainhas. Assim como eu, muitas outras crianças, nas suas brincadeiras, construíam-nas utilizando as tampas de laranjadas, depois de furadas e de lhes amarrar um fiozinho com um pequeno prego a servir de badalo. Hoje pergunto-me: onde estarão todas essas dezenas, diria mesmo centenas de campainhas de vaca existentes na Fajã Grande na década de cinquenta? Decerto que encheriam a sala de um museu, a que muito bem se poderia chamar “O museu das campainhas de vaca”.

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publicado por picodavigia2 às 00:03





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