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ACHA E MARIA

Sexta-feira, 03.01.14

“A acha sai à facha e a Maria à sua tia.”

 

Este é um dos muitos interessantes adágios fajãgrandense, embora o seu conteúdo seja um pouco enigmático, sobretudo ao significado dado aqui à palavra “facha”, que neste caso creio que deve ser entendia como o pau ou a árvore de onde a “acha” é retirada ou cortada. Assim, parece plausível, concluir-se com este provérbio se queira significar que assim como um simples pedaço de madeira, mesmo depois de cortado, mantém as características da árvore que o originou, também as pessoas herdam as características dos seus familiares, incluindo os mais afastados, como é o caso dos tios. Creio que seria usado em casos de se querer justificar o comportamento de alguma rapariga, trazendo â memória o de alguma das suas tias.

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publicado por picodavigia2 às 20:02

UM SOLIPSISTA GIMNOSOFISTA

Sexta-feira, 03.01.14

Chegou numa manhã, cálida, fulva e etérea de Outono e era um viajante solipsista, misterioso e invulgar. Solipsista porque era filósofo e, vivendo em solidão absoluta, defendia o seguinte aforisma: “nada existe fora do pensamento individual, tudo aquilo que o ser humano julga perceber não passa de uma espécie de sonho que se tem transitoriamente”. Misterioso porque envolto em enigmas e incongruências transcendentes. Invulgar porque era, simplesmente um anão. Vinha de longe, de muito longe e cuidava que existia apenas um Eu que comanda o Mundo, que é controlado consciente ou inconscientemente pelo Ser. Devido a isso, a única certeza de existência que tinha era a de que o pensamento é instância psíquica que controla a vontade. O mundo ao redor é apenas um esboço virtual do que o Ser imagina. Além disso considerava que o corpo do próprio Ser era algo virtual, pois tudo é uma reprodução, uma vez que não se pode ter confiança nos sentidos mas apenas nos pensamentos, como fonte de certeza de existência.

Percorrera mares, andurriais e páramos, suportando tempestades e procelas, saltando montanhas de espuma e de submissão, sentando-se à sombra de árvores sem folhas e sem esperança, perdendo-se ininterruptamente em ilhas desertas e em oásis mistificados. Atravessara, com extenuante lucubração, um grande e tórrido deserto, com rios de fogo e pináculos de estranha adoração, onde se perdera e onde, simultaneamente, enlapara muitos dos seus sonhos e fantasias. Mas trazia consigo a experiência da liberdade, a fragrância da dignidade, a auréola da fraternidade, a estranheza da sublimidade e do amor, sobretudo do amor. Sonhava que as estrelas eram de prata, e que para além de cada oceano, havia sempre um outro mar. Ensinava que as nuvens quando se desfazem não pretendem apenas jorrar sobre os mortais a incomodidade da chuva, pelo contrário, solidificam o insustentável desmoronar da humanidade. Aprendera nos campos e nos bosques e estudara com as flores e os pássaros. Acolhia com sorriso as manhãs sombrias, escuras, enevoadas e chuvosas. Era amigo da esperança e das florestas. Pernoitava nos bosques, ao relento, dialogando com o destino e com a solidão. Alimentava-se do perfume das flores e dos frutos. Possuía um coração com aromas de alecrim e sabor a hortelã. Mas tinha um grande defeito: dependia total e exclusivamente do Sol, para quem olhava constantemente, sonhando poder, um dia, voar ao seu encontro.

Mais! Para além de solipsista também era gimnosofista, o anão. Pois vivia permanentemente nas florestas, abstraído das multidões, convivendo com a frescura e a mansidão dos bosques. Considerava a "noite" como a origem de todos os males e produtora de todas as limitações, e a "escuridão" a filha única da ignorância universal. Cuidava ele, solipsista e gimnosofista, que a fuga a estas maléficas divindades – noite e escuridão - se adquire através da sabedoria, filha da claridade, mas que permanece afastada do ser humano e quase inatingível pela sua mente, porque libertadora de sucessivas, contínuas e constantes migrações, e que consiste, apenas e simplesmente, na capacidade equívoca de fugir aos pesadelos escuros e tétricos da nossa existência atormentada. Isto apenas se consegue mediante um isolamento total e uma entrega às "hamadríades", ou seja, às ninfas dos bosques, que nascem simultaneamente com as árvores, nunca se desvinculando das mesmas, vivendo e morrendo com elas. A vida duma árvore ninfada ou duma ninfa arborizada é, no entanto, perene e infinita, porque umas e outras dependem da única fonte de vida do universo - o Sol. Por essa razão, o solipsista anão entendia, que as árvores nunca deviam ser destruídas, pois o aroma das suas folhas, o perfume das suas flores e o sumo dos seus frutos constituem o alimento primordial e único de todo a raça carracena, pelo que a vida depende, necessariamente e em último grau, da luz emanada pelo astro-rei. Este é um armazém infinito de poder e beleza, receptor tranquilizante de todas as inquietudes. Somente através dele é possível atingir a sublimação da beleza absoluta e, consequentemente, atingir a simplicidade. Assim toda e qualquer oposição à força e à beleza solar devia ser eliminada.

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publicado por picodavigia2 às 18:07

LOGRO OU MALÍCIA

Sexta-feira, 03.01.14

Texto publicado no Pico da Vigia, em 04/04/12, em virtude de fenómenos estranhos que aconteciam ao meu blogue anterior, com suporte noutra plataforma:

“Estranhamente o acesso a este blog “Pico da Vigia”, através do site de busca Google está rigorosamente ameaçador, com o seguinte aviso: “se visitar este Web site poderá danificar o computador!”, o que faz com que naturalmente dele se afaste qualquer dos seus frequentadores habituais ou quem a ele queira aceder pela primeira vez. Por isso mesmo o número de visitantes tem descido substancialmente.

Ora acontece que este aviso é uma verdadeira fraude, uma vez que blog não foi infectado por nenhum tipo de vírus malicioso, pelo que a entrada no blog se pode fazer à vontade, sem nenhum tipo de problema, quer através de outros sites de busca, como por exemplo o “altavista” http://www.altavista.com/ ou seguindo outra hiperligação disponível em que o URL http://picodavigia.blogs.iol.pt/ , esteja registado ou até nos favoritos de cada computador.

Desconhece-se a origem deste embuste e se se trata de facto de logro ou de malícia.

Já foi enviado um email à Google a saber o que se passava e a pedir para resolver o assunto. A resposta foi a seguinte: “Thank you for contacting us. This is an automated response confirming the receipt of your ticket. One of our agents will get back to you as soon as possible. For your records, the details of the ticket are listed below. When replying, please make sure that the ticket ID is kept in the subject line to ensure that your replies are tracked appropriately.” Só que após esta resposta, nenhum agente da Google enviou qualquer informação.

Estranho logro, perturbadora malícia, inquietante imbróglio.”

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publicado por picodavigia2 às 15:51

A VIZINHA GLÓRIA JACOB

Sexta-feira, 03.01.14

Para mim e para meus irmãos, que passávamos uma boa parte do dia na casa da minha avó materna, na Fontinha, os vizinhos dos meus avós também eram nossos vizinhos ou, pelo menos, assim os tratávamos. Curiosamente, eles também nos consideravam como tal. Não havia dúvida de que naqueles recuados tempos, o facto de as pessoas se tratarem por vizinhos, parecia que mais as agregava e mais as unia, conferindo-lhes uma maior disponibilidade para cultivarem mais acentuadamente uma boa dose de amizade recíproca.

Entre os vizinhos da minha avó, no entanto, havia uma senhora por quem eu tinha uma consideração, um respeito e uma amizade muito especial. Era a vizinha Glória Jacob. Este meu enlevo por ela, no entanto, não se devia, apenas, ao facto de ela ser minha vizinha, nem sequer por ela ser uma vizinha especial, ou seja, uma vizinha melhor do que as outras vizinhas, nada disso, mas simplesmente por que, segundo rezavam as crónicas da altura, fora ela que ajudara a minha mãe durante o meu nascimento, por outras palavras, fora a minha parteira.

Curiosamente eu decidi – se é que somos nós a deliberar estes momentos especiais da nossa vida – que havia de nascer no dia de Páscoa, altura em que a parteira “oficial” da freguesia, a senhora Mariquinhas do Carmo, se havia ausentado da Fajã Grande. Minha mãe, minha avó e minhas tias em grande aflição. Como havia eu de saltar cá para fora sem uma parteira experiente e credenciada, que ajudasse a minha mãe? Pois a vizinha Glória Jacob, destemida e valente que era, logo se prontificou para resolver o imbróglio, “assumindo o comando e chefia das operações”. Pelos vistos, fê-lo com mestria, competência e assinalável êxito, dado que dois dias depois, já passeava eu, na rua Direita, é verdade que ao colo da minha madrinha, na demanda do Baptismo. E assim a minha vizinha Glória Jacob granjeou fama e mereceu para sempre o reconhecimento da minha família e, mais tarde a minha consideração e amizade.

A minha vizinha Glória Jacob era, na realidade, uma mulher muito forte, trabalhadeira, possuidora de grande energia, executando todo o tipo de tarefas, não apenas as domésticas mas também as dos campos, acompanhando o marido, o senhor João Bizarro em todos os trabalhos agrícolas: cavar, lavrar, sachar, ceifar feitos e cortar lenha. Carregava molhos pesadíssimos às costas como se fosse um homem e era ela que muitas vezes tirava o esterco do palheiro do gado, também contíguo à casa da minha avó.

Teve quatro filhos, dois rapazes, o José e o João ambos eles, também, robustos, fortes e valentes, homens de muito trabalho, que mais tarde emigraram para o Canadá. As duas filhas, a Leonor e a Adelaide também sempre a ajudar a mãe nas lides do campo e sobretudo nos trabalhos domésticos.

Muitas vezes escapulia da casa da minha avó, descia a pequena ladeira que as separava e ia ter à casa da vizinha Glória Jacob, que sempre me recebia com muito carinho e amizade, outras vezes ficava sentado num pequeno pátio, altaneiro e voltado para o mar, sobranceiro à casa da minha vizinha e ficava a observá-la no seu vai e vem contínuo e permanente, de casa para a rua e da rua para casa, a lavar roupa, a secar milho, a varrer os pátios, a arrumar a casa, a tratar dos porcos ou, de latas em punho, a ir tirar o leite às vacas.

Creio mesmo que a minha vizinha Glória Jacob tinha um especial carinho por mim, uma vez que era eu que de alguma forma configurava toda aquela força, pujança, coragem e determinação que ela possuía e que havia demonstrado heroicamente a quando do meu nascimento.

Um pormenor muito interessante tinha a sua casa. A porta da cozinha era muito diferente das habituais portas das casas da Fajã Grande. Era uma porta de fero, pintada de cinzento, tendo apenas um pequeno vidro rectangular, na parte superior. Dizia-se que aquela porta tinha pertencido ao paquete inglês Slavónia, naufragado por fora da Costa do Lajedo, no dia 10 de Junho de 1909.

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publicado por picodavigia2 às 14:11

PAI CRISTIANO

Sexta-feira, 03.01.14

Todos os dias quando, no início do serão, terminava a reza do Terço e as invocações da Ladainha de Nossa Senhora, minha avó rezava um Padre-Nosso por alma de cada um dos nossos familiares falecidos, incluindo nessa lista, para além de meu avô, minha mãe, um irmão da minha mãe que havia falecido em criança e a que ela chamava José do Céu, seus pais e sogros, um tal Pai Cristiano, que considerava como seu pai adoptivo. Além disso, e para além desta oração diária, repetidas vezes, recordava com saudade, estima e muita consideração este quase mítico personagem, que aos poucos ia adquirindo forma e ocupando um lugar de destaque, relevo e de grande simpatia e consideração no nosso flutuante e imaginário universo de crianças ingénuas e inexperientes mas dóceis, inocentes e gratas.

A estória afinal era muito simples, idílica e enternecedora. Minha avó ficou órfã de mãe quando tinha apenas dois anos. Dispôs-se o pai, a criá-la, juntamente com os outros rebentos, no meio de grandes dificuldades e muitas limitações.

Certo dia, estava minha avó, na inocência e candura dos seus dois anos de idade, a brincar no pátio em frente à sua casa, no lugar da Cuada, onde nascera, quando passou por ali o senhor José Cristiano, pessoa bondosa e de grande reputação na freguesia. Conhecedor da situação do meu bisavô e das dificuldades que ele tinha, uma vez que era viúvo e vivia sozinho, em criar tantos filhos, propôs-lhe que lhe entregasse a menina a ele, que por sua vez, vivia só com a esposa Margarida, pois o seu único filho, falecera, recentemente, de uma queda que dera na rocha. Levá-la-ia para a sua casa, tratá-la-ia como se fosse sua filha e havia de lhe dar tudo o que ela necessitasse, incluindo uma boa formação humana e religiosa.

Meu bisavô hesitou. Nem por nada deste mundo se queria separar da pequena. Mas como o senhor Cristiano insistisse e lhe prometesse que havia de vê-la e tê-la consigo sempre que quisesse e entendesse, meu bisavô, a abarrotar de trabalhos, canseiras, de consumições e de pobreza, com falta de tempo e penúria de cuidados para dedicar aos filhos, anuiu de bom grado, pese embora tentasse disfarçar a dor de alma e as saudades que havia de sentir quando se separasse definitivamente da sua pequerrucha. E lá veio a Joaquinazinha, da Cuada para a Fajã, passando a viver, alegre e feliz, na casa de José Cristiano, na Fontinha, tratando-o, desde menina e durante toda a vida, por “Pai Cristiano”.

José Cristiano Ramos, filho de Manuel Cristiano Ramos e de Margarida de Jesus, nascera na Fajã Grande, na altura ainda um lugar da freguesia das Fajãs, em 1838, tendo casado, na igreja paroquial da Fajã Grande, localidade recentemente erecta paróquia, em 4 de Janeiro de 1968, com Margarida Jacinta, filha de João Jacinto Rodrigues e Catarina Maria. Consta que na realidade era um homem bom, trabalhador, sério e honesto, de muita fé e temente a Deus, frequentando a igreja e assistindo à missa diariamente, sempre disposto a partilhar os seus bens com os mais pobres e a disponibilizar ajuda aos mais necessitados.

Consta, também, que sempre tratou muito bem a minha avó, como se de uma filha se tratasse, fazendo dela, depois da sua morte, a herdeira de todos seus bens, a qual também sempre se referia a ele com muita estima e gratidão, considerando-como um pai de verdade

Pai Cristiano faleceu repentinamente quando se encontrava a trabalhar numa terra que possuía num local chamado Cabeço da Rocha, lá para os lados da Silveirinha. Terá sido vítima de um ataque fulminante. Foi Ti’Antonho do Alagoeiro que naquele momento, andava a sachar milho no seu cerrado das Queimadas, a uns bons metros dali, o foi socorrer, mas infelizmente quando se acercou dele já não o pode ajudar. Quando chegou ao Cabeço da Rocha, encontrou-o sentado sobre uma pedra, mas já morto. Essa pedra foi guardada ali, por meu avô e mais tarde por meus tios, como testemunho vivo de um nobre e digno cidadão. Nos meus tempos de criança, ainda lá existia. Ti’Antonho do Alagoeiro, apenas se limitou a transportá-lo às costas, através de veredas e canadas, até ao caminho da Silveirinha, trazendo-o para casa e entregando o cadáver à família. Foi tão grande o esforço despendido que, sofrendo de uma hérnia, esta lhe rebentou durante a caminhada, o que, apesar de tudo, não o impediu de carregar o cadáver aos ombros e o trazer até a casa.

Minha avó, após a morte de Pai Cristiano, manteve sempre dele uma lembrança bem viva, pois para além de tudo o que contava e recordava, atribuiu a dois dos seus filhos, nascidos depois da morte do seu pai adoptivo, os nomes dele e da esposa - Cristiano e Margarida.

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publicado por picodavigia2 às 09:50

DESFOLHAR RAMA (DIÁRIO DE TI’ANTONHO)

Sexta-feira, 03.01.14

Sábado, 14 de Setembro de 1946

“Esta noite deitei-me muito tarde, quase nem dormi, e também porque tive que me levantar muito cedo para ir ceifar e buscar um molho de erva à minha lagoa das Covas. As minhas vacas estavam sem comida… O tempo, ontem, esteve muito bom e a noite maravilhosa. Era noite de Lua cheia e era preciso aproveitá-la. Os trabalhos agrícolas devem ser realizados de acordo com as fases da Lua. Há umas luas boas para isto e outras para aquilo, por isso tinha que aproveitar esta Lua cheia para desfolhar o meu milho, além disso como a noite estava muito clara foi fácil fazer o trabalhinho. Felizmente, tive muitos amigos a ajudarem-me. Sozinho não conseguia fazer quase nada. Assim, juntamente com o meu compadre Joaquim e muitos outros amigos, aproveitei para, durante a noite, ir desfolhar a rama do milho do meu cerrado das Furnas. Quando as folhas e o caule do milho começam a alourar e quando as maçarocas principiam a ficar durinhas, resistentes à unha e com a casca amarelada é altura de quebrar as espigas. Mas isso, eu já tinha feito. Como precisava de comida para as vacas lá fui apanhando um molhinho de espigas hoje, outro amanhã e em poucos dias dei cabo delas todas. Mas quebrar a espiga também é uma arte, é preciso saber fazê-lo. Se se fizer bem feito é muito melhor para o milho, pois terá melhor qualidade. Primeiro não se deve quebrar espiga a eito, é preciso ir andando pelo terreno e descobrir quais os pés que já estão prontos para quebrar a espiga. Se não se quebrar a espiga na altura certa, podemos prejudicar ainda o crescimento e o amadurecimento da maçaroca e, consequentemente, dos grãos de milho. Além disso cada espiga ou pendão deve ser quebrada no nó certo e adequado, ou seja, pelo primeiro nó logo acima da maçaroca, devendo para tal obedecer a um toque ou movimento afoito, rápido, destemido e certeiro da mão. Hoje em dia, há muitos rapazes novos e modernos que têm a mania que sabem tudo, mas não sabem quebrar espiga. Se partirmos o milheiro por outro sítio, não o conseguimos quebrar à mão, é preciso usar uma navalha ou uma foice para o cortar. Há muitos rapazes novos que cortam a espiga com uma navalha. mas meu pai dizia que isso não era tão bom para o milho

Mas esta noite, aproveitando o luar, fui desfolhar o meu milho. Felizmente, tive muita ajuda e em poucas horas o milho do cerrado ficou todo desfolhado. Há dias atrás, tinha ido ali acima ao Outeiro, apanhar uma boa gavela de folhas de espadana. Pu-las ao Sol para secarem um pouco e depois cortei-as aos pedacinhos pequeninos, desfiei-os em tiras bem fininhas, amarrando-as em pequenos molhos, para que cada um os pudesse amarrar no suspensório ou a uma alheta das calças e assim dispor melhor das tiras para com as elas ir amarrando as pavias da rama. Depois de amarradas, as pavias são penduradas num ou noutro dos milheiros, junto à maçaroca, para que, sequem melhor. Com aquela gente toda aquilo foi rápido. Por volta da meia-noite o milho do cerrado estava todo desfolhado. Agora as pavias estão penduradas nos milheiros. É necessário esperar alguns dias, para que a rama seque. Daqui a dias com a ajuda da minha Maria hei-de recolhê-las. A minha Maria há-de as ir tirando dos milheiros e eu a fazer molhos que depois hei-de acarretar no corsão de canguinha puxado pela gueixa. Meu compadre Joaquim prometeu que o filho me havia de ajudar. Se assim for, tanto melhor. Como a carga, apesar de volumosa, é muito leve, não é necessário encangar uma junta e assim vou poupando as vacas leiteiras. Já se sabe que as vacas quanto mais trabalham menos leite dão. Mas hoje ainda vou voltar ao cerrado a fim de ver como é que aquilo ficou feito. Meu pai dizia que o que é feito de noite se vê de dia. É que desfolhar rama não é tarefa fácil, exigia-se que a folha seja arrancada do milheiro com a bainha, o que, sobretudo para os menos experientes é difícil e então de noite. Não me admiro até se um pé ou outro de milho não ficou por desfolhar… Mas eu tive bons desfolhadores e sei que fizeram o serviço bem feito. Alguns nem precisavam dos fios de espadana, conseguiam amarrar as pavias de folhas com uma outra folha.

A rama depois de seca e enxuta vai ser acarretada e guardada na minha casa velha, pois bem vou precisar dela para a alimentar o gado no Inverno, sobretudo nos dias de mau tempo durante os quais eu não puder ir buscar comida fresca às minhas terras.”

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publicado por picodavigia2 às 00:05





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