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FIAMBRE DE PEITO DE PERU

Sábado, 04.01.14

Moçoila robusta, bem constituída fisicamente, a arfar estafamento e a verter suores, aparentemente mais talhada para o cabo da vassoura, para a pá do forno ou até para o da enxada do que, propriamente, para o serviço numa montra de supermercado, a abarrotar de carnes, enchidos e charcutaria diversa, mas tudo numa caldeação muito desorganizada e numa espécie confusão sofisticada e permanente.

 Não há muitos clientes, e os que se aproximam do balcão da montra vão solicitando produtos do mais trivial que ali se vende e de fácil identificação: febras de porco, carne de vaca, linguiça, torresmos, fiambre, etc. E a moçoila, embora pouco engenhosa e bastante lenta, lá vai escolhendo, seleccionando, cortando, pesando, embrulhando e fechando as embalagens na máquina adequada. Finalmente espeta-lhe uma etiqueta com o preço, que lhe havia saído da balança de pesar, como se de um ticket de portagens de auto-estrada se tratasse. Depois estende o braço rechonchudo sobre balcão da montra e entrega o embrulho ao cliente. Tudo extremamente simples e, aparentemente bastante fácil, mas muito lento e muito vagaroso… uma eternidade, que a moçoila, supostamente, não tem pressa.

 Chegou a minha vez. Aguardo que ela olhe para mim e me interrogue. Mas a rapariga não se apressa. Até parece que cuida que eu não sou cliente. Decide primeiro tirar os óculos e limpá-los, depois opta por enxaguar o suor que lhe corre pela testa e, de seguida, ainda resolve passar as mãos pela bata, não se percebe bem se a secá-las ou se a sacudir alguma sujidade porventura a manchar a brancura, já bastante esbatida, da dita cuja. Só então levanta os olhos na minha direcção, fixa-me com ar estranho e pergunta-me, pouco convencida:

 - O qui é que o sinhô qué?

 Como a desarrumação da montra me impede de saber se o produto que eu pretendo adquirir existe ou não, indago:

 - Tem fiambre de peito do peru?

 - Tem o quêêê? – Pergunta ela pasmada, com os olhos muito arregalados, enquanto com a mão direita ajusta o boné branco, com o logotipo da empresa, na frente. Tive a sensação que havia falado grego ou chinês.

 - Fiambre de peito de peru. Eu quero fiambre de peito de peru. – Repeti pausadamente, elevando o tom de voz.

 - Ah! Peite de peru! Pois olhe, o sinhô. De peite de frango há p´raí umas coisas, agora de peite de peru é qu’ei nam sei s’há ou senan há.

 Sem ela se preocupar, minimamente, com a minha situação de despojado, dei meia volta, afastei-me da montra e comentei, em voz baixa:

 - Pois agora vais-te amanhar sem ele!

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publicado por picodavigia2 às 23:33

RELANCE

Sábado, 04.01.14

(Pedro da Silveira)

 

O Mar. O rolo. A ribeira

e, além da ponte, os moinhos.

Relvas e terras de milho.

 

Sol a pino. Olhando em volta

não se vê ninguém lidando

nem indo no seu caminho.

Nenhuma nuvem no céu.

 

Sobre a folha azul do mar

vem um vapor e outro vai.

- Eu fico a vê-los passando.

 

VIII 1942

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publicado por picodavigia2 às 20:35

CASA COM JANELAS SEM CORTINAS

Sábado, 04.01.14

Tia Júlia chegou a casa muito tarde. Vinha da novena das almas. Não que a cerimónia litúrgica, realizada na igreja paroquial, demorasse muito, mas por começar, como era hábito, a horas bem tardias. Sim, porque às nove da noite, ali na Fajã Grande, em pleno mês de Novembro, há muito que era escuro, que o Sol desaparecera lá para bem longe, para o fim do mundo, para o infinito, onde tudo era um mistério escuro e desconhecido. Tia Júlia apenas sabia que era naquela direcção em que o Sol se punha, que ficava a América… A América dos seus sonhos, dos seus segredos, das suas mágoas, das suas tristezas, do seu sofrimento, da sua miséria, da sua solidão e, sobretudo, daquele enigmático luto que desde há mais de sessenta anos carregava sobre si.

Entrou pela porta da cozinha, que a da sala já não abria nem fechava. Emperrara por completo, a maldita, desde aquele dia em que, muito aflita, a fora destrancar para receber a visita do Senhor Espírito Santo, forçado a entrar pela porta da cozinha. Um crime! Um pecado que havia de envolvê-la, para sempre, numa recriminação sinistra, provocando um falatório medonho, na freguesia. De cansada por subir aquele martírio que era a Fontinha, sentou-se num banco, junto à velha e desconjuntada mesa, apoiando aí os dois braços, devidamente, cruzados e sobre eles o rosto quase tapado com um lenço em forma de bioco, a cair-lhe sobre os olhos. Para quê acender a candeia se o sono era tanto e já nada havia para fazer?

… Num de repente, começou a olhar para longe, para muito longe, para onde o Sol caminhava todos os dias… Era uma cidade enorme, com prédios altíssimos, ruas muito estreitas e apertadas a abarrotar de pessoas, a empurrarem-se umas às outras, na ânsia de fugirem da chuva que caía a cântaros sobre a cidade. Um vento fortíssimo soprava com rugidos roufenhos, ensurdecedores. Gotas gigantes caíam sobre os edifícios e muitos deles explodiam e desmoronavam-se. A cidade cobria-se de nuvens negras de pó e cinza e o céu transformava-se num tenebroso manto escuro, ora a clarear-se, repentinamente, com o faiscar impertinente dos relâmpagos ora a toldar-se, cada vez mais, com o ribombar aterrador dos trovões. A chuva caía forte, diluviana e destruidora. A enorme cidade, agora parecia quase vazia: as pessoas haviam-se escondido e abrigado em todos os resguardos mais recônditos, com medo da chuva, da explosão dos prédios e do desabar das nuvens. Um vento muito frio percorria tudo, entrava nas casas, levava as roupas penduradas nas varandas, formava rolos de espuma, sobre os quais voavam pássaros estranhos e agoirentos. A chuva caía em gotas gigantes, sobre a forma de pesados pedregulhos, destruindo os prédios, transformando-os numa poeira que se espalhava pelas ruas, transformando-as em reluzentes riachos, sem árvores nas margens. Já ninguém existia na cidade e os prédios haviam sido todos destruídos. As ruas desfeitas. Não ficara pedra sobre pedra. Apenas um enorme tapete preto, debruado a amarelo, com quatro gigantescos castiçais com velas a arder nas quatro extremidades. No meio, sobre o tapete, um gigantesco caixão, todo forrado de negro, com um pequeno cruxifixo em cima e uma faixa branca no lado com meia dúzia de palavras, com as letras tão trémulas, tão desfeitas e tão amareladas que nem se entendiam. Ao longe, um leve dobrar de sinos. Três fortes pancadas soaram na porta. Era a Olinda, a filha da comadre Inácia. Desde há muito que lhe prometera fazer umas cortinas para a janela da sala. Seriam de renda, com desenhos de flores e de frutos, com letras e palavras evocando a felicidade, a sorte e a fortuna. A tia Júlia havia de as colocar na janela da sala no dia em que o seu marido regressasse da América. Era a Olinda que lhe vinha trazer as cortinas para a janela da sala. Afinal o Senhor Espírito Santo não a castigara por lhe ter aberto a porta da cozinha…

Ao meio da tarde a vizinha Jacinta, que na noite anterior lhe fizera companhia desde a igreja até à porta de casa, perante o estranho e misterioso silêncio que emanava do pobre e humilde casebre, bateu-lhe à porta. Como ninguém respondesse, decidiu-se por abri-la.

Quando mais tarde a vestiam para lhe colocar o corpo inerte entre os velhos e rotos lençóis que a haviam de embrulhar na sua caminhada para o cemitério, encontraram num dos bolsos do velho avental que sempre trazia vestido, muito amachucado, muito amarelado, muito amarrotado, muito regado com lágrimas de dor, muito embalado em suor de sofrimento e angústia, aquilo que parecia ser uma carta, que a Tia Júlia nunca percebera e nunca mostrara a ninguém mas que marcara para sempre o seu mísero destino:

Mrs Júlia Silva:

We are sorry to inform you that your husband Joe Silva died in an unfortunate caught fire in the building where he lived in the suburbs of San Francisco, California. We further inform you that there was an accident at work and the building was insured, so therefore not entitled to any compensation.

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publicado por picodavigia2 às 17:41

O NAUFRÁGIO DA MODENA E A PEDRA DE LANG

Sábado, 04.01.14

Nos anos cinquenta, na Fajã Grande, ouvia-se contar, com alguma indefinição e muito vagamente, a história de uns náufragos que tinham sido abandonados na ilha das Flores, mais concretamente na Fajã do Conde, lá para os lados da Caveira e Santa Cruz. Mas muito pouco ou quase nada se sabia acerca do que teria acontecido nesse naufrágio, como e porque tinham sido ali abandonados os náufragos e o que lhes teria acontecido posteriormente.

Mais tarde veio a descobrir-se que, na realidade, naquele aprazível lugar da Fajã do Conde, junto à Ribeira da Cruz, entre uma densa e verdejante vegetação, existia um bloco de pedra, de forma mais ou menos cúbica, que há muitos anos ali havia sido colocado e que continha gravadas algumas informações importantes sobre o suposto naufrágio e os seus intervenientes. Descobertas e investigações posteriores, confirmaram que nessa pedra se podia observar a seguinte inscrição:

“CAPT. W. H. LANG / AND 11 MEN / LANDED MAY 5 73 / FROM BARK MODENA / OF BOSTON MASS. FOUNDERD / APRIL 22”

Hoje, sabe-se que esta enigmática inscrição se ficou a dever ao facto de a tripulação de uma embarcação americana – registada em Boston pelos proprietários J. Rideout e H. O. Roberts, com o nome Modena, de 206 toneladas – que, quando se viu em apuros enquanto navegava nos mares das Bermudas, foi socorrida por uma outra embarcação, cujo nome se desconhece. A Modena tinha saído da Serra Leoa e dirigia-se para Boston, na costa leste dos Estados Unidos da América. No dia 9 de Março de 1873 aportou na Bermuda, onde fez escala, permanecendo aí até ao dia 15 de Abril. Uma semana depois de ter levantado ferro, a 22 de Abril, a referida embarcação defrontou-se com alguns problemas de segurança e o seu comandante, o capitão W. H. Lang, ordenou o seu abandono, tendo-se a afundado, algum tempo depois, nas águas do Atlântico, entre as Bermudas e Boston. Depois de alguns dias à deriva, o capitão Lang e os restantes onze tripulantes foram encontrados e recolhidos, já perto dos Açores, por um navio que navegava entre a América e a Europa. Era necessário colocar os náufragos em sítio seguro e a primeira terra avistada foi a ilhas das Flores, no extremo ocidental do Arquipélago dos Açores, onde no dia 5 de Maio, foram “depositados”, os náufragos, precisamente, no local conhecido por Fajã do Conde.

 A barca Modena tinha sido construída em Duxbury, Massachusetts (EUA), no ano de 1851. Mas relativamente à presença dos náufragos na ilha das Flores, o único documento conhecido é, apenas esta interessante inscrição, registada numa pedra, actualmente conhecida como a “Pedra de Lang”, mas só descoberta por Celestino Flores em 1962 e decifrada, anos mais tarde, por Jacob Tomás. Até ao momento não se encontrou qualquer outro registo que permita identificar e conhecer melhor o destino destes homens, nem sequer a sua identidade e que devem ter permanecido na ilha durante algum tempo, aguardando transporte para as suas terras de origem.

A maçonaria tem divulgado este curioso acontecimento, porquanto considera o capitão W. H. Lang um maçon, o que se deduz pelo facto de, aparentemente, existir um esquadro e um compasso gravados na pedra, logo abaixo do nome de Lang. No entanto, cuida-se que estes símbolos não serão fidedignos, por quanto nunca foram reconhecidos nem pelos historiadores nem pelos curiosos que descreveram e opinaram sobre a inscrição registada na chamada “Pedra de Lang”, da Fajã do Conde.

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publicado por picodavigia2 às 16:22

A SALA DO SENHOR ERNESTO

Sábado, 04.01.14

A sala da casa de habitação do Senhor Ernesto, em Ponta Delgada, nos meus recuados tempos de criança, pese embora fosse típica da casa rural açoriana daquela altura, era dum tamanho descomunal, duma imponência impressionante e duma grandiosidade quase rara. Com uma porta de entrada, a comunicar com um enorme pátio, de pedra negra e carcomida pelo tempo e quatro janelas de guilhotina, com enormes vidros, separados uns dos outros por taliscas de madeira, pintadas de branco e fixados com massa de vidro esbranquiçada, tinha um ar soturno, emanava uma penumbra perturbante e exalava um cheiro bafiento e desconcertante. No interior, amplo e claro, a mobília tradicional: num canto, uma cómoda que continha, para além duma grande quantidade de fotos a antigas, um cadeeiro a petróleo e um oratório repleto de pequenas imagens de santos, com velas e luzinhas à volta e com pagelas nos bordos. Nas paredes, uma pintura do Sagrado Coração de Jesus e uma outra de Maria, um quadro de São Pedro a erguer as chaves do Céu e algumas fotos de homens de bigodes farfalhudos, trajes estranhos, com laços a apertar-lhe os pescoços e mulheres de mantinho na cabeça. Várias cadeiras ao redor da sala e num outro canto, um enorme cadeiral de vimes, no qual, habitualmente, estava sentado o dono da casa. Ao lado a esposa, a senhora Josefa, a dormitar, numa palidamente envernizada cadeira de balanço.

Embora, meu pai batesse de leve à porta, a senhora Josefa acordou. Um pouco espantada, chamou de imediato:

- Muda! Ó Muda! Parece que estão a bater à porta. Despacha-te mulher! Ai meu Sagrado Coração de Jesus! Esta Muda nunca me ouve.

- Ó mulher, como queres que ela te ouça se é surda? Vá lá tu abrir a porta… Anda lá.

Como meu pai continuasse a bater, embora levantando-se, a muito custo, a senhora Josefa veio abrir a porta, cramando impacientemente:

– Ai este meu reumatismo… Esperem que já lá vou!... E aquela Muda que está cada vez mais surda. E eu aqui já sem poder fazer nada e a ter que fazer tudo… O Sagrado Coração de Jesus tenha compaixão de mim. – E como meu pai continuasse a bater, ela caminhando na direcção da porta de entrada, lá ia suplicando: - Esperem!... Esperem! Jesus! Credo! Parece que querem rebentar a porta! Já lá vou. Louvado seja o Santíssimo Sacramento.

– Ó mulher, despacha-te e deixa-te de rezas… Só rezas e jaculatórias! Vá lá ver quem é.

Destrancando a porta e levantando-lhe o “picaporte”, dona Josefavoltou-se para o marido, admirada:

- Temos visitas! É gente da Fajã! É o teu amigo António, com um dos pequenos.

- Ó mulher, e tu de que estás à espera?! O meu amigo António!? Manda-o entrar imediatamente, que me custa levantar.

Meu pai entrou e eu, tímido e hesitante segui-o. Entrar ali, na sala do Senhor Ernesto, era como se entrasse uma igreja e o senhor Ernesto fosse Deus.

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publicado por picodavigia2 às 10:44

NO CENTENÁRIO DO NASCIMENTO DO PADRE FRANCISCO VITORINO VASCONCELOS

Sábado, 04.01.14

Hoje, dia 2 de Julho, faz cem anos que nasceu na freguesia da Lomba, concelho de Lajes, ilha das Flores, o Padre Francisco Vitorino Vasconcelos, professor do Seminário de Angra durante 21 anos e pároco de Santa Cruz das Flores cerca de duas décadas e meia. Fui seu aluno durante dois anos.

Vitorino Vasconcelos fez os seus estudos primários na escola da sua freguesia, sendo dos poucos alunos que, na altura, na ilha das Flores, teve o privilégio de fazer o exame final, na altura 3ª classe, tendo para tal, que se deslocar à vila de Santa Cruz. Esse exame, no entanto, era condição necessária para prosseguir os estudos, o que permitiu ao jovem Francisco, já com quinze anos, ingressar no Seminário de Angra do Heroísmo, onde, segundo rezam as crónicas, terá sido um aluno brilhante, sobretudo na área das ciências geográfico-naturais, pelas quais sempre manifestou grande paixão e interesse.

Ordenado sacerdote, em Junho de 1937, na Sé Catedral da Angra do Heroísmo, celebrou a Missa Nova na freguesia da Lomba, algum tempo depois, sendo, nesse mesmo ano, nomeado Prefeito dos “Miúdos”, no Seminário de Angra, passando a leccionar, no mesmo estabelecimento, as disciplinas de Físico-Química, Ciências Naturais e Latinidade. Durante alguns dos anos que viveu no Seminário exerceu, em simultâneo, o cargo de vigário cooperador da paróquia da Conceição, da mesma cidade.

No Seminário dedicou-se ao estudo, à investigação e ao ensino, sendo também o responsável pelo laboratório, cujas instalações funcionavam na sala oito, junto à Biblioteca. O padre Vitorino revelou-se, sempre como um estudioso e um investigador de grande capacidade e conhecimentos, dedicando a essas actividades um dinamismo invulgar, uma paixão contínua e uma entrega permanente. Pessoalmente, tive o privilégio de ser seu aluno e pude aperceber-me como ele se esforçava por, através do estudo, da observação e da experiência, melhorar os seus conhecimentos e a sua cultura, para assim melhor os transmitir aos alunos. Era também um apaixonado pela fotografia que guardava sob a forma de diapositivos, fruto da pesquisa e observação realizadas durante vários anos, como entretenimento nas suas horas vagas e com os quais enriquecia as próprias aulas

Apesar de ter voz monótona e ser pouco cativante na sua forma de expor, preparava muito bem as aulas, demonstrava os postulados com experiências diversas, dominando com profundidade a matéria que se propunha transmitir. Era também um bom orador, sendo muito solicitado pelos párocos das Flores, nas férias de Verão, para pregar nas várias paróquias da ilha, sobretudo por altura das festas. Preparava com cuidado e esmero os sermões que proferia, utilizando linguagem erudita e cuidada mas simples e adequada.

 Em Junho de 1962, depois de intensa e profícua actividade ligada ao ensino no Seminário Diocesano, foi colocado como pároco da Matriz de Santa Cruz das Flores onde, apesar de cansado e doente, assumiu ainda o serviço sacerdotal da paróquia da Caveira e do curato da Fazenda de Santa Cruz, exercendo durante alguns anos o cargo de Ouvidor Eclesiástico, passando também a leccionar no Externato da Vila as disciplinas de Físico-Químicas e Ciências Naturais.

Segundo o testemunho de alguém que, como eu, também lidou de perto com ele: “O padre Vitorino era obstinado, mas inteligente e comunicativo, mostrando-se sempre disposto ou mesmo entusiasmado nos ensinamentos que a sua elevada cultura lhe permitia transmitir. Fazia-o discreta e habilmente, mesmo nas ocasiões em que entendia serem esses ensinamentos úteis ou necessários, sem que tivessem de lhos pedir. Bastava-lhe compreender que o seu interlocutor os desejava receber ou que os desconhecia e que os mesmos lhe poderiam ser úteis.”(1)

Cansado, doente, envelhecido e amargurado, em Agosto de 1987, abandonou o pastoreio na paróquia de Santa Cruz e fixou-se em Angra do Heroísmo, passando a residir em casa de um sobrinho, onde veio a falecer com 79 anos de idade em 10 de Dezembro de 1991.

Tive oportunidade e o privilégio de, em jovem, conviver com ele, nas aulas, como seu aluno e fora das aulas, como amigo e conterrâneo, tendo inclusivamente estabelecido sempre com ele relações de amizade, de consideração e de estima recíproca. Disponibilizou-me sempre, tanto como professor, tanto como amigo, um carinho e uma atenção, muito especiais, talvez por sermos da mesma ilha. Nesses contactos, fui testemunho da sua jovialidade, do seu espírito jocoso e de fina piada, assim como duma elevada cultura de que era detentor. Como sacerdote viveu, essencialmente, para servir e ensinar, prestando assim relevantes serviços à Diocese de Angra e aos Açores.

Agora e por altura do centenário do seu nascimento, creio que lhe deva ser prestada, por quem de direito, a justa homenagem que merece, pese embora a Junta de Freguesia da Lomba, já tenha atribuído o seu nome ao largo fronteiriço à igreja.

(1)     – Testemunho de José Arlindo Armas Trigueiro in “Florentinos que se Distinguiram”.

Texto publicado no Pico da Vigia, em 02/07/12

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publicado por picodavigia2 às 00:23





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