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CANTAR OS REIS

Domingo, 05.01.14

No chamado “Dia de Reis”, em que a Igreja liturgicamente comemora a Epifania, outrora celebrado a seis de Janeiro e na altura considerado “dia santo abolido”, mas que o povo na Fajã Grande, como em muitos outros locais, respeitava como se de “dia santo de guarda” se tratasse, a garotada percorria as casas da Fajã, de forma semelhante à que fizera no primeiro dia do ano ou dia de “Ano Bom”.

Os grupos eram os mesmos, o líder não mudava, os percursos também eram idênticos, assim como todos os procedimentos tidos no dia um. A única diferença estava na cantoria, que agora, em dia de Reis, continha temas relacionados não apenas com os três reis mas sobretudo com o atribulado percurso que fizeram, guiados por uma estrela, desde os seus países de origem, até encontrar o menino deitado em palhinhas, na gruta de Belém, oferecendo-lhe os seus melhores presentes: oiro, incenso e mirra.

Entre outros versos cantávamos os seguintes:

 

“Os três Reis do Oriente,

Sonharam, sonharam bem

Sonharam que era nado

 O Menino em Belém.

 

 Os três Reis que eram santos

Uma estrela os guiou

Do alto duma montanha

Brilhantes raios deitou.

 

 Herodes como malvado

Como perverso e malino

Aos três reis lhes ensinou

Às avessas o caminho.”

 

Mais tarde, surgiu na Fajã Grande, trazido da Lomba por pessoas que para ali vieram morar, o canto do “Rei Preto”, celebrado no fim-de-semana seguinte aos Reis. Os cantores eram adultos, percorriam todas as casas, mas à noite, acompanhados de alguém fantasiado de rei com a cara pintada de preto, cantando entre outras quadras a seguinte:

 

“Eram três raças diferentes

Cada um em seu falar

O que dava mais nas vistas

Era o Preto Baltazar.”

 

Assim como os das crianças, o grupo de adultos também percorria todas as casas, batia a todas as portas e muitas das quais se abriam para os brindar com aguardente, traçado, licores e figos passados.

 

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publicado por picodavigia2 às 23:58

A PRIMEIRA RÉPLICA DO GRANDE ENCONTRO

Domingo, 05.01.14

Era inequivocamente previsível e conjecturalmente provável que acontecesse. É que um “Encontro” de tamanha grandeza, como o que havíamos realizado em Angra, no passado mês de Julho, havia de perpetuar-se num rastilho de camaradagem e simpatia, um envolvimento de tão excelsa sublimidade havia de reiterar-se para sempre, um abalo de tão grande intensidade havia de ter as suas réplicas, um incêndio de tão intensiva vivência havia de propagar-se em outras envolvências. Na realidade, a partir de agora e depois de tão gigantesco, de tão sublime e tão envolvente “Encontro”, como aquele dos alunos das décadas de 50/60 do SEA, quem esteve nesse encontro e passar por Ponta Delgada arrisca-se, no mínimo, a ser abalroado com amizade de um punhado de residentes na ilha que não perdoa fugas, não aceita recusas, nem admite rejeições. São inflexíveis e retumbantes, estes “Senhores” de São Miguel, assim como as suas esposas! Envolvem-nos em laços incríveis de amizade pura e sincera, rodeiam-nos de afabilidades e carinhos, disponibilizam-nos uma camaradagem envolvente verdadeira, recheada de momentos de alegria e boa disposição e aureolada com um rosário de memórias e recordações. Como se isso não bastasse, ainda nos proporcionam e oferecem um excelente jantar. São desmesurados na sua amizade, desmedidos na sua camaradagem, inatingíveis no seu companheirismo. São estes “Senhores” – alguns até nem puderam ir ao Encontro - que, na realidade, provocam e continuam a acicatar as réplicas do grande “Encontro” e, estão permanentemente alerta para, logo que se lhes proporcione uma oportunidade, reacenderem o seu rescaldo.

 Pois a primeira gigantesca réplica do “Encontro” de Angra aconteceu precisamente ontem à noite, em Ponta Delgada. Chegara o entardecer e a cidade, vista lá do alto, cobria-se com um manto de púrpura acinzentada, escura, pouco clarificante. A manhã havia sido atormentada por chuvadas, ventanias e trovoadas. Agora a calma parecia querer voltar e a tranquilidade a querer impor-se.

 A SATA, oriunda do Pico, a aterrar no João Paulo II e o sorriso afável, meigo, ternurento, amigo e, diga-se de passagem, um bocadinho atrevidote, do João Carlos Carreiro, acompanhado pela esposa, a boicotar uma mera e simples escala técnica em São Miguel e a transformá-la num magnífico e mágico Encontro. Que não havia desculpas, que não existiam hipóteses de fuga. Vens connosco e pronto. Ora como a minha avó já dizia “Sempre que viajares e tiveres, em qualquer aeroporto, um amigo à tua espera não recuses o convite que te faz”. Aceitamos.

Com uma pequena visita ao Manuel Azevedo, sempre ávido de livros e notícias do Pico, fomos parar ao antigo Seminário Colégio, hoje hotel. Já lá estavam o Alberto Ponte, Alfredo Vieira, o Carlos Dias, o Humberto Clementino e o José Augusto Borges acompanhados das esposas e ainda o Adelino Moules, o Carlos Sousa e o Manuel Francisco.

 Todos tinham manifestado uma enorme vontade e uma grande alegria por ali estar, mas alguns não puderam, por compromissos assumidos ou outra impossibilidade, o Cipriano Franco, o Fernando Mota, o Gualter Dâmaso, o José Constância, o Manuel Azevedo, o Santos Narciso e o Urbano Bettencourt que enviaram mensagens carregadinhas de abraços. Era como se ali estivessem.

 E embarcámos num oásis da sublimidade, entre os sabores pantagruélicos da cozinha micaelense, recheados de graçolas, regados com boa disposição, interlaçados com uma amizade do tamanho do Oceano e um companheirismo que parece ser eterno..

 Porque será que estes açorianos em geral e os micaelenses em particular são assim tão empenhados em construir esta amizade que nunca se esmorra, tão balanceados em cultivar esta camaradagem adubada com a alegria e se imiscuem, de alma e coração, em espicaçar esta amizade que, apesar de anestesiada pelo tempo, nunca se dilui nem se desfaz? Não será tudo isto uma réplica do primeiro “Encontro” que todos recordam com saudade e elogiam com desvelo?

 

Setembro de 2012

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publicado por picodavigia2 às 22:49

A BALANÇA DE PESAR LÃ

Domingo, 05.01.14

Na Fajã Grande quase todos os lavradores criavam ovelhas no mato. O objectivo principal de uma pastorícia muito específica, em que não havia necessidade de acompanhar os rebanhos, una vez que estes pastavam soltos e em conjunto com os dos outros proprietários, nos matos, era, simplesmente o de fornecer lã. Na Fajã Grande, salvo uma outra excepção e sempre no caso de ovelhas criadas à porta, nunca se utilizou nem o leite das ovelhas para alimentação das pessoas, nem nunca com ele se fabricou queijo. Criavam-se as ovelhas apenas para dar lã, embora quando abatidas se utilizasse a carne na alimentação e também as peles, que depois de curtidas serviam para forrar os berços e as camas das crianças de tenra idade ou para agasalhos dos adultos. A lã, sim, ocupava um lugar de relevo e de grande importância na economia fajãgrandense, pois tinha um papel primordial na confecção não apenas de diversas e variadas peças de vestuário mas também na tecelagem de mantas e cobertores. As casas que, eventualmente, não tinham ovelhas compravam a lã, a quem tinha produção excedente. Porém, antes de ser preparada e trabalhada e, sobretudo antes de ser vendida, era necessário pesar a lã. No caso de ser vendida, para estabelecer e definir preços, no caso de a usar em proveito próprio, para saber a quantidade necessária para a confecção daquilo que se pretendia obter. Por essa razão em muitas casas existia a tradicional e típica “balança de pesar lã”. Quem não a tinha e dela precisasse, ia pedi-la emprestada aos vizinhos, sempre dispostos a oferecer e disponibilizar ajudas, préstimos e favores.

Estas balanças obedeciam a uma estrutura muito específica, porquanto sendo o objecto a pesar muito volumoso, os braços da balança não podiam ser iguais. Assim um deles, o dos pesos era muito pequeno e o contrário, ou seja aquele em que se pendurava a lã era muito comprido. As balanças de pesar a lã eram feitas geralmente de ferro mas também as havia de madeira e tinham uma haste vertical, com um gancho na parte superior, de forma a pendurá-las durante a pesagem, geralmente num tirante da cozinha e um eixo na inferior, na qual balanceava uma haste, numas horizontal noutras um pouco curva e que se equilibrava em função do princípio das alavancas, em que duas forças, neste caso duas forças suspensas, se equilibram quando o produto da força potente pelo seu braço é igual ao da força resistente também pelo seu braço. Por isso mesmo, o braço onde se pendurava a lã tinha que ser contrabalançado em peso, devido à pequenez daquele em que se pendurava o respectivo peso. Em cada um dos lados da alavanca, suspensos na parte de baixo, estavam encravados dois ganchos para nele se pendurarem os pesos, num lado e a lã no outro. Acresce dizer-se que os pesos eram pedras furadas, devidamente quantificadas em termos de peso, de forma a se poderem prender no gancho.

Toda esta geringonça estava de tal maneira bem construída e balança de tal modo afinada e aferida que nunca havia enganos na pesagem ou se os havia ninguém dava por eles.

As balanças são consideradas o mas antigo instrumento de avaliar e tiveram origem na antiga civilização egípcia, por volta do ano 5000 a.C. Por sua vez a chamada balança de braços desiguais terá sido inventada pelos romanos, Inicialmente as balanças destinavam-se a duas pessoas que quisessem trocar mercadorias. Colocavam-nas numa balança de braços iguais e mudavam as quantidades até que se conseguisse o equilíbrio.

Com o passar do tempo, a balança foi sendo aprimorada e modificada para melhor se adaptar as necessidades, mantendo-se, no entanto, nas comunidades rurais agrárias com as suas características primitivas, até às décadas de cinquenta e sessenta do século passado. Hoje, proliferando as balanças digitais, tornaram-se peças de adorno e de museu.

Balanças de pesar lã, um objecto que outrora teve grande importância na vida dos nossos passados, na própria história da freguesia e até na economia fajãgrandense. Naturalmente como tantos outros, ter-se-á perdido no tempo e nas memórias

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publicado por picodavigia2 às 15:28

O MITO DE ALVALADE OU A RAZÃO DE O RIO SADO CORRER DE SUL PARA NORTE

Domingo, 05.01.14

 Os romanos chamaram-lhe Calipus, os árabes Xâter e os portugueses Sado. Nasce na serra do Caldeirão, passa ao lado de Ourique, correndo para oeste, na direcção do mar. Ao chegar à vila de Alvalade, porém, muda o seu curso, isto, é, corre para norte, fenómeno inédito na orografia portuguesa, acabando por ir desaguar em Setúbal e não em Santiago do Cacém, como seria mais natural.

A explicação desta suposta irregularidade fluvial, poderá justificar-se assim. Segundo um mito pre-Abbevilense, Eros, filho de Erebo e da Noite, força suprema, invisível e omnipotente, elemento primordial do universo, ter-se-á, certo dia, envolvido de ternuras e amores com Afrodite, atraiçoando Caos, sua natural e originária companheira, dona e senhora do espaço sobrenatural e infinito. Desta adúltera relação nasceu Saláceo.

Para proteger o filho das iras de Caos, Eros e Afrodite esconderam Saláceo num bosque, situado numa pequena serra alentejana, precisamente naquela que hoje é denominada por serra do Caldeirão. Caos, no entanto, descobriu o embuste. Furiosa, quis vingar-se. Para isso procurou o ilegítimo rebento, escondido nos barrocais e contrafortes do Caldeirão, transformando-o num pequeno e ténue fiozinho de água, que, brotando daquela serra, começou a correr, lenta e vagarosamente, ao longo da enorme planície alentejana, dirigindo-se para o Oceano, onde seria totalmente destruído e desfeito, para desespero dos seus progenitores.

E o jovem Saláceo, alheado das intenções malévolas de Caos, iniciou, alegremente, o seu percurso a caminho do mar, descendo encostas e barrocais, perdendo-se entre florestas e barrancos, atravessando campinas e prados, seguindo o destino que, maquiavelicamente, lhe fora imposto: caminhar em direcção à sua própria destruição.

Porém., ao chegar à enorme planície que hoje abrange as terras de Alvalade, surgiu-lhe a caminho o jovem Aladde, filho do Oceano e duma Nuvem, disposto a salvá-lo, impedindo-o de continuar, o caminho para o Oceano e, consequentemente, para a sua própria destruição.

Os ódios de Caos, porém, voltaram a acender-se e a incendiar-se. Os dias tornaram-se escuros e as noites trevas contínuas e, sobre a face da terra começaram a cair, incessantemente, durante quarenta dias e quarenta noites, chuvas diluvianas, que encheram os lagos e fizeram transbordar os rios. As águas do Oceano também se revoltaram e, transformando-se em ondas gigantescas, mais altas do que árvores e maiores do que montanhas, ameaçavam, impiedosamente, galgar e destruir a Terra. Estas ondas, acompanhadas de tumultos estrondosos e do ribombar de trovões, invadiram a Terra, na ânsia de a engolir, desfazendo-se e misturando-se à restante água que cobria a outra parte da superfície terrestre, em horrível tremedal. O Oceano transformou-se, assim, num terror infinito e a terra foi condenada a uma destruição total.

Mas Eros não desistiu e voltou a tentar salvar Saláceo das iras ameaçadoras de Caos. Para isso, chamou Aladde, que vivia desesperado. Eros atribuiu-lhe a incumbência de ordenar, acalmar e a apaziguar todas as águas existentes sobre superfície da terra alentejana – dos lagos, dos rios e das fontes - permitindo assim que a calma e a tranquilidade voltassem à superfície da Terra e Saláceo fosse salvo.

Aladde bem tentava pôr termo a estes horrores e a estas ondas destruidoras, ignorando o destino da enorme planície, agora transformada em medonho escarcéu, quase condenada à destruição, mas sentia-se impotente para dominar aquelas forças que destruiriam tudo, incluindo o jovem Saláceo. Para o ajudar, Eros voltou, mais uma vez à Terra, trazendo-lhe Alba, a mais bela, a mais brilhante e a mais poderosa estrela do firmamento, por quem Aladde, de imediato, se apaixonou. Alba brilhava no universo infinito, com uma intensidade invulgar e um poder extraordinário, desafiando os próprios deuses, que temiam a sua luminosidade e grandeza. Quando se aproximou de Aladde este solicitou-lhe auxílio e socorro para quantos se viam vítimas daquelas catastróficas enxurradas.

A estrela condoeu-se de quantos sofriam as iras infinitas de Caos. E regressando ao firmamento, voltou, pouco depois, montada em nédia hacaneia, acompanhada de um enorme séquito, onde pontificavam carros de fogo, puxados por escorpiões e protegidos por gerifaltes, transportando miríades de gigantes. Lançando o seu brilhante e luminoso poder sobre todas as águas, tanto as que cobriam a superfície da Terra, como as que emergiam do Oceano, expulsou-as da extensa planície. Depois, fazendo descer os gigantes dos carros de fogo, construiu, para defesa e protecção da grande planície, um enorme e alto muro, que mais tarde se transformou em montanha, de que a actual serra do Cercal é um resíduo.

Mas o pobre e ainda frágil Saláceo, apesar de salvo das águas diluvianas e daquele medonho escarcéu, devido à construção de tão imponente montanha, ficou totalmente impedido de seguir o seu lento e vagaroso curso para o mar. Então Alba e Aladde, decidiram mudar-lhe o destino, fazendo-o deslizar para norte e fortaleceram o seu caudal, juntando-lhe as águas que, sobrando do dilúvio, escoriam ainda pelas encostas do Cercal, com outras que continuavam a brotar das cercanias e que hoje formam os rios de Campilhas, Alvalade e S. Domingos.

E Saláceo, ou melhor o rio Sado, seguiu, o seu rumo para norte, alimentando e dando vida a toda a planície alentejana, enquanto Alba e Aladde, verdadeiramente apaixonados, uniam os seus destinos e, para vigiar Saláceo, fixaram-se, mesmo ali, naquele campo cercado pelo enorme muro, no sítio onde hoje é a vila de Alvalade.

 

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publicado por picodavigia2 às 11:48

ÁFRICA FRENTE E VERSO DE URBANO BETTENCOURT

Domingo, 05.01.14

Integrada no programa do festival de verão “Caisagosto 2012”, organizado pela Câmara Municipal de São Roque do Pico, teve lugar, no passado dia 26 de Junho a apresentação do livro “África frente e verso” de Urbano Bettencourt. O evento ocorreu na Biblioteca Municipal e contou com a presença do autor, estando a apresentação da obra a cargo de Carlos Alberto Machado. Ao longo da sessão foram lidos alguns textos do referido livro por Susana Moura e pelo próprio autor que também explicou, aos presentes, o contexto em que a maioria dos textos foi escrita, tendo como pano de fundo o cenário da guerra colonial, em África.

Urbano Bettencourt, natural da freguesia da Piedade, concelho das Lajes, ilha do Pico, é professor de Literatura Portuguesa, Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa e de Literatura Açoriana na Universidade dos Açores, está representado em várias antologias nacionais e estrangeiras. É autor de vasta obra, onde predominam a poesia e o ensaio literário. Publicou o seu primeiro livro, “Raiz de Mágoa”, em 1972, em Setúbal, altura em que leccionava naquela cidade. Seguiram-se “Ilhas”, em 1976, “Marinheiro com Residência Fixa”, 1980, “Naufrágios Inscrições”, 1987, “Algumas das Cidades”, 1995, “Lugares sombras e afectos”, e “Santo Amaro sobre o Mar”, 2005, e “Que Paisagem Apagarás”, 2010, para além de vários ensaios, uns publicados em livro, outros dispersos por revistas da especialidade, dentro e fora do país

Segundo o próprio autor, o livro agora apresentado, “África frente e verso” e que contém uma primeira parte intitulada “Recuperar o Tempo”, constituída por (13+1) poemas e uma segunda onde predominam textos de prosa-poética, “recupera os textos que ao longo de vários anos foi deixando nos seus livros, acrescidos de alguns inéditos, e nos quais a experiência da guerra repercute, sucessivamente refeita e transfigurada, agora a uma luz crua, e cruel também”. Trata-se, pois, de uma colectânea de textos cuja temática integrou o quotidiano mavórcio do próprio autor, nos primeiros anos da década de setenta do século passado, em plena guerra colonial, em Bissorã, (Guiné-Bissau) e que, de algum modo, revelam “os fantasmas de uma geração aflita” atulhada com a permanente e contínua ameaça do recrutamento para a guerra do Ultramar. É pois um livro “contaminado pela guerra” e no qual, por isso mesmo, talvez nos traga mais luz sobre o “verso” do que propriamente sobre a “frente” de uma África, massacrada, consternada, sofredora, com os perfumes tropicais e das bolanhas a misturarem-se com cheiro mefítico do enxofre e da pólvora, com sons dos batuques a silenciarem-se com os rebentamentos estrambólicos dos obuses, com os tiros acutilantes das Kalashes e com o trepidar lento e moroso dos Unimogs, com os sabores das noites frescas e dos frutos adocicados a cruzarem-se com os dissabores da tragédia permanente, com o colorido do entardecer e o “lilás violado em cada noite pelas bombas”, onde até as “baga-baga” se erguiam majestosas, altivas e imponentes nas suas perspectivas de gigante, no meio da savana, secularmente construídas por colónias de formigas e se confundiam com os soldados – “estátuas de sombras, trémulas e cansadas”. O verso e talvez até o reverso de uma África onde até a especificidade linguística dos falares fulas, mandingas, balantas e bijagós e o “manga de ronco” se apagam e amarfanham pelo palavreado obsceno das patrulhas militares, e as aguarelas florescentes das madrugadas africanas se obstroem pela recolha permanente e continua dos mortos em combate e dos caixões de chumbo guardados nas sacristias das igrejas, à espera de transporte para a Metrópole.

Por tudo isso e por muito mais, ainda bem que o “meu amor não veio à guerra”, à guerra do “verso” duma África, reprimida, torcida, e dorida, porque e para além de não provar a “agonia dos rios moribundos, derramando tédio nas horas magoadas” ilibar-se-ia da morte numa emboscada “entre o Uenquem e o Imboé” ou, talvez pior, do rebentamento de uma mina e do sucessivo ataque ao longo do famigerado “carreiro da morte”, numa das colunas geralmente atacadas e que por ali eram forçadas a circular, entre Cutiá para Mansabá, com destino a Farim, ou, quem sabe, até do massacre duma qualquer tabanca de nativos.

Todos os que como Urbano Bettencourt viveram o terror, a angústia, o medo, a aflição permanente e a imposição da guerra que não era sua e na qual se viram envolvidos involuntariamente e para onde foram conduzidos à força e que, além disso, embora sem o poder manifestar, já se opunham e condenavam a ideologia que a defendia, mantinha e incentivava, armazenaram dentro de si sentimentos de revolta permanente, momentos de sofrimento angustiante, imagens de tragédias terríveis, resultantes de um envolvimento contínuo, premente e destruidor, em ataques massivos, emboscadas permanentes, massacres arrasadores, em que tombavam colegas e amigos de um lado, homens e irmãos de outro. Mas nem todos, talvez mesmo poucos ou apenas alguns, os prestigiados, os assinalados pelas musas, os dotados com a beleza e a sublimidade da poesia e da escrita o souberam traduzir em palavras, sob a forma de poemas, como o fez Urbano Bettencourt, no livro “Africa frente e verso”. Como diria um conceituado crítico literário “África Frente e Verso….despeja força e sangue, raiva e amor… Faz parte de uma literatura cuja arte maior tem sido sempre a coragem de desconstruir os meandros submersos da nossa sociedade…”

 

Texto publicado no Pico da Vigia, em 03/08/12

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publicado por picodavigia2 às 10:46

CRÓNICAS SANJOANINAS

Domingo, 05.01.14

Da autoria de Emílio Porto, publicado em “Alto dos Cedros”, 1 de Julho de 2011, aqui transcrevo na íntegra o texto com o título em epígrafe:

“Dois dedos de conversa aconteceram, numa noite de São João. Noite serena, à beira da tasca, bem surtida e bem apetitosa. Muita gente, por ali à volta, na conversa amena. Uns atentos, outros distraídos, e outros mirando.

Familiares e amigos ali se encontraram, fortuitamente. Logo surgiram, de imediato, dois dedos de conversa, enquanto a marcha se divertia e fazia divertir. Uma marcha feita de todas as idades. Porque assim é que deve ser: a comunidade inteira participa.

Enquanto as companheiras se divertiam com as suas novidades – sempre novas e sempre velhas – ficavam os companheiros a desbobinar também coisas velhas e novas, estas mais específicas e singulares, quase todas das áreas castrenses, e também, as muito específicas do reino dos castos.

Ninguém pode estranhar. Os percursos, embora diversos no tempo e no espaço, foram semelhantes – na freguesia, na guerra e na dispensa do santo ofício.

São poucos, mas ainda são alguns, os que, no fim da vida, se podem orgulhar de ter recebido os sete sacramentos da Santa Madre Igreja! Por isso, serão gloriosos, com direito ao melhor dos melhores tronos dos reinos celestiais, rodeados de anjos e arcanjos, querubins e serafins!

As histórias da guerra são sempre as mais marcantes, mais solidárias, e por isso, paradoxalmente, as mais humanas e cristãs. Foram “castigo” da mitra, exclusão forçada. Depressa se transformaram em humanidade salvadora, antítese do reino que ficou para trás, lugar de podridão e mentira. Que, como ontem, hoje e cada vez mais, parece continuar a sê-lo.

 Nada muda. Tudo parece ser igual. Mas as evidências ou consequências vêm sempre ao de cima. Já dizia o velho chanceler da cúria: “são poucos os que não molham o prego”.

É na dificuldade, na luta pela sobrevivência que os laços humanos mais se fazem sentir e deixam marcas para sempre. A solidariedade só aparece no meio da desgraça e do abandono; vem sempre de outros que andam longe, dos quais menos se espera; os mais próximos fogem, como Pedro. Quando todos estão bem, não se fala em solidariedade. Que se arranje e que passe bem!

Porém, passadas as horas difíceis, as guerras, os abandonos, e encontrados os tempos mansos e estáveis, geralmente vem a mesma tentação: que se arranjem os algozes de antanho, e que passem bem.

As histórias acabam por ser repetidas pela vida fora, perante os que passam e os que vem depois. Repetidas e aumentadas, porque os fregueses pouco mudam e passam de geração em geração o que sempre fizeram e dizem. E deixam sempre a sua marca. Quem conta um conto acrescenta um ponto. Os comportamentos não mudam facilmente.

Ficaram as histórias do professor Pisca-pisca, do Presidente Amaro, da tia Maria da Ribeira. E também – é bom não esquecer – as histórias do Reitor e do Monsenhor.

Do professor Pisca-pisca que vigiava o padre, e vigiava a mulher, quando esta ia para a igreja. Do Presidente Amaro que exigia ser consultado quanto à procissão do padroeiro. Da tia Maria da Ribeira, que exigia saber qual era a opinião do padre sobre os jarros das flores do altar. Do Reitor, que recebia mensagens diárias, de comportamentos desviantes, e de práticas antes nunca experimentadas. Do Monsenhor, que controlava a modernidade doutrinal. De ambos, trocando mensagens entre si, levadas e trazidas por informadoras piedosas e assíduas às novenas das almas.

Da guerra, ficaram os encontros com homens, carregados de problemas familiares, de bebedeiras frequentes, de ausências prolongadas, de doentes, mutilados, e mortos enviados em caixões de chumbo. Do Tenente-Coronel, Comandante, que todos os dias se embebedava e chorava pela mulher que lhe tinha falecido, vítima de cancro no seio, mais do filho, metido pela droga. Do Major, Segundo Comandante, que, com feridos à sua volta, aos berros, dizia: “lá por morrer uma andorinha não acaba a Primavera”; valendo-lhe, da reacção furiosa e imediata, correr depressa para o quarto!!! Das chuvas e da seca prolongada que condicionava o tempo de paz e o tempo de guerra, ficaram recordações, lembranças de solidariedade, nunca sentidas antes nos corredores dos paços, das cúrias e dos passais.

A noite sanjoanina já ia longa. Era tempo de dispersar. Outras ocasiões virão, e outras histórias se hão-de contar. E os blogs poderão registar.

Que belas estavam as iscas de atum e as lulas guisadas!...Até daqui a dias.”

 

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publicado por picodavigia2 às 09:28

RIO SECO

Domingo, 05.01.14

margens de sombras

leito de resteva,

caudal entontecido,

amarfanhado,

morto      como

um espelho estilhaçado,

que já não reflecte o brilho da aurora,

como

um campo ressequido,

que não se encharca com o alarido das chuvas.

 

rio inóspito,

esponjado,

que já não se abre às quilhas dos barcos,

nem amamenta o sorriso dos peixes.

 

rio seco,

derrelicto.

onde     navegam fantasmas

e onde nada o silêncio

 

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