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ESTRANHA DECISÃO

Terça-feira, 07.01.14

Desde há muito que o Libório não se conformava com a sua sorte. Viver ali, naquela terra pobre e sem futuro, agarrado à rabiça do arado, de enxada em punho, ou a acarretar molhos e cestos às costas, não era para ele. Por isso é que não se conformava e não lhe saía da cabeça a ideia de que um dia havia de mudar de vida. Esse dia não tardou.

Na feira de um de Março, a que deslocara para vender dois bácoros, encontrou um amigalhaço do tempo da tropa que havia emigrado para a França e agora estava em Portugal a passar uns dias. Conversa daqui, conversa dacolá e o sonho de abandonar a vida agrícola, para o Libório, tornou-se mais real do que nunca. A vida em Portugal não melhorava, o país não progredia e a agravar a situação o regime de então acabara de iniciar uma guerra em Angola. Dizia-se que também seriam mobilizados os que tinham feito tropa nos últimos anos, mesmo já tendo passado à disponibilidade. Como se encontrava nessa situação, temia que o azar lhe batesse à porta e ainda fosse bater com os costados em Angola. Assim, emigrar para França transformou-se numa decisão irreversível.

A mulher nem queria acreditar e atirava-lhe à cara com inúmeras dificuldades, repetindo constantemente:

- Tu endoideceste por completo, homem de Deus!

Não, não endoidecera. Afinal já estava tudo planeado. É verdade que não tinha quem lhe fizesse carta chamada, mas iria como muitos outros tinham ido – clandestino. A diferença é que ela e os pequenos também iam, apesar dos passadores não quererem levar mulheres, nem muito menos crianças. É que a fuga era muito perigosa.

Foi um tipo de Macedo de Cavaleiros que o contactou através de um primo de Senande, para acertar tudo. Era preciso que ninguém soubesse ou desconfiasse de nada. E foi lá, em Senande, em casa do primo, que encontrou o homem. Álvaro Ramalho, assim se chamava o contrabandista, no início recusou levar a mulher e as crianças. Aos poucos foi cedendo. Era uma questão de preço. Mas garantiu-lhe que era sério e honrava os compromissos. O que se combinasse ali seria escrupulosamente cumprido. Oitenta contos: trinta por cada um dos adultos e vinte pelas crianças mas estas, sempre que seguissem de carro ou camioneta, seriam levadas ao colo. Claro que tudo o que lhes acontecesse era da responsabilidade dos pais.

O Libório regressou sem firmar contrato. O preço era altíssimo. Era-lhe de todo impossível arranjar aquele dinheiro. Um segundo encontro e o Ramalho cedeu:

- Vinte mil em notas e quarenta em bens. Aceitamos casas, terras… Mas temos que ser nós a avaliar os bens – sentenciou o homem, apertando-lhe a mão – e tens emprego garantido em Clermont-Ferrand. Ao chegares lá um tipo chamado Cardoso vai procurar-te, vai arranjar-te trabalho e dizer-te como deves pagar o restante. Não devem levar muita bagagem. Para além de ser comprometedor é impossível transportá-la. Levem apenas o indispensável.

A mulher, ocultou a decisão às crianças, mas teve muitas dificuldades em aceitar.

- Vais vender a casa e o campo!? E se temos que voltar para trás? O que vai ser de nós e dos pequenos? Nem ao menos posso avisar meus pais? – Perguntava ansiosa.

- De forma nenhuma. Ninguém, absolutamente ninguém pode saber, a não ser o primo de Senande. E não te esqueças que aos pequenos e a quem te preguntar para onde vais, deves dizer que vamos às Caldas, a casa dos teus pais.

- E o Lavrado? E a cabra? E as galinhas e o porco?

- O boi já está vendido. A casa e o campo ficam ao cuidado de meu primo. Só depois de receber a notícia de que já estamos seguros e em França ele venderá o que puder e fará a entrega da casa e do campo ao passador.

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publicado por picodavigia2 às 23:23

QUADRAGÉSIMO ANIVERSÁRIO DA CASA DO POVO DE SÃO CAETANO DO PICO

Terça-feira, 07.01.14

Decorriam os primeiros meses do longínquo ano de 1972, vivia-se o conturbado terceiro quartel do século XX, quando o responsável da Segurança Social no, então, Distrito da Horta, demandou a freguesia de São Caetano, depois de antes ter parado na de São Mateus. De seguida, havia de procurar paragens em muitas outras freguesias e lugares da ilha do Pico.

O objectivo da sua visita era claro e preciso: o Governo Português da altura, liderado pelo professor Marcelo Caetano, pretendia criar algumas Casas do Povo na ilha do Pico, de forma a se abrangerem-se todas as freguesias, a fim de que toda a população rural passasse a usufruir de alguns benefícios e regalias, até essa altura, apenas atribuídos aos trabalhadores do comércio e serviços. Para a parte sul da ilha, localizada entre a Candelária e o Mistério de São João, seria criada uma Casa do Povo, com sede na freguesia de São Mateus, abrangendo esta freguesia e a de São Caetano. Tudo estava decidido, delineado e definido, superiormente, incluindo os membros da direcção, da assembleia geral e do conselho fiscal, pese embora alguns deles, nomeadamente os pertencentes à freguesia de São Caetano e ao lugar da Terra do Pão, disso não tivessem nenhum conhecimento.

Algumas das pessoas contactadas, no entanto, recusaram, de imediato, fazer parte desses órgãos, enquanto outras desistiram, acabando o projecto por abortar, alguns dias depois. Distúrbios verificados noutras paragens, haviam criado alguma apreensão e até medo, nos espíritos menos aventureiros e audazes.

Mas a ideia de se criar uma Casa do Povo em São Caetano não feneceu. Pelo contrário foi criando raízes, crescendo, tornando-se objecto de conversas entre um grupo restrito de habitantes da freguesia que, aos poucos, foi divulgando os seus intentos, realizando reuniões de esclarecimento no Salão da Casa do Espírito Santo e até na igreja paroquial. Aos poucos a maioria da população foi aderindo à ideia. A Casa do Povo iria, por um lado, solucionar um dos problemas mais graves da população: a falta de assistência médica e medicamentosa e, por outro, proporcionaria aos mais pobres e a os mais desamparados e, por conseguinte, à maioria da população, que beneficiasse de reformas, abonos de família, subsídios de nascimento, casamento e até de morte. 

Como os estatutos das Casas do Povo, em alternativa a imposição governativa inicialmente proposta, previam que o povo de uma localidade pudesse democraticamente, solicitar a respectiva criação, um grupo, constituído por Manuel Goulart, Manuel Celestino, Fernando Marques, Manuel de Tialuzia, Manuel Azevedo, João Melo, Manuel Ferreira e outros decidiram solicitar, directamente, ao Governo a criação da Casa do Povo, integrando a maioria deles a comissão instaladora. Toda a documentação necessária foi devidamente preparada e enviada para o governo central.

O processo, sobretudo devido aos obstáculos criados noutras freguesias da ilha, foi célere, sendo a criação da Casa de Povo de São Caetano, anunciada por o telegrama enviado pelo Ministério da Segurança Social, recebido com enorme regozijo e incontida alegria, em São Caetano, no dia 7 de Agosto de 1972, precisamente no dia liturgicamente dedicado a São Caetano, embora nesse tempo a festa em louvor do mesmo fosse celebrada a 15 de Agosto, conjuntamente com a da Senhora da Assunção.

Uma vez criada e aprovados os estatutos e os corpos directivos, a Casa do Povo de São Caetano, começou a funcionar de imediato, no edifício que o Manuel Celestino construíra após regressar como emigrante da França e cujo processo de construção foi acelerado, propositadamente, a fim de que esta prestimosa instituição que tanto beneficiou a freguesia, funcionasse de imediato.

Inicialmente a Casa do Povo de São Caetano deveria abranger a vizinha freguesia de São Mateus. No entanto como os seus habitantes manifestaram acentuada oposição, foi criada, algum tempo depois, uma Casa do Povo naquela freguesia.

Passaram-se quarenta anos. A Casa do Povo de São Caetano, cresceu, fortaleceu e solidificou-se. Actualmente possui sede própria, dotada de variadíssimas estruturas de apoio á população, de ajuda, de serviços, de cultura e lazer, com destaque para o Grupo Coral de São Caetano, que tem divulgado não apenas a música mas também a história, a cultura e os costumes de uma das mais belas freguesias do Pico.

No passado dia um de Setembro aquela instituição comemorou o seu quadragésimo aniversário com um jantar seguido de um sarau cultural em que participaram o grupo de cantares de idosos da freguesia, o rancho folclórico das Lavradeiras do Vale do Sousa – Meinedo e o rancho folclórico local.

 

Texto publicado no Pico da Vigia, em 2/09/12

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publicado por picodavigia2 às 19:55

FREDERICO LOPES (JOÃO ILHÉU)

Terça-feira, 07.01.14

Frederico Augusto Lopes da Silva, que, geralmente, utilizou o pseudónimo literário de “João Ilhéu”, nasceu na Praia da Vitória, ilha Terceira, em 31 de Maio de 1896 e faleceu em Angra do Heroísmo, em 6 de Fevereiro 1979. Estudou nos liceus de Angra do Heroísmo e Ponta Delgada, frequentou o Instituto Superior de Agronomia e a Escola de Guerra, onde terminou o curso de Infantaria. Foi sucessivamente promovido a alferes, 1918; tenente, em 1922; capitão, em 1938; major, em 1946; tenente-coronel, em 1952. Passou à reserva em 1954, e à reforma em 1966. Foi comandante do Batalhão I.I. 17, aquartelado no Castelo de S. João Baptista, onde aliás passou a maior parte da sua carreira militar. Na reserva serviu na Base Aérea 4, como presidente do Conselho Administrativo. Ocupou o cargo de presidente da Câmara de Angra do Heroísmo em 1933, provedor da Santa Casa da Misericórdia da Praia da Vitória, 1941, e de Angra do Heroísmo, 1949, presidente da Direcção do Montepio Terceirense, 1960, e vários outros cargos de índole social.

Distinguiu-se essencialmente como poeta, contista, autor teatral, etnógrafo e jornalista. Toda a sua obra é de índole regionalista e etnográfica e interligada por uma ideia base da identidade açoriana e da força criadora da cultura popular. Os seus versos, os seus contos, as suas peças teatrais, todas elas estão marcadas por essa opção de ir beber à fonte popular a inspiração e os ensinamentos, ainda que muitas vezes idealizando o povo, dando dele uma imagem romântica e desfasada da realidade.

Obteve sempre grandes êxitos literários, principalmente com as suas obras para o teatro musicado, no género opereta, em colaboração com músicos da sua geração. Foi sócio fundador do Instituto Histórico da Ilha Terceira, onde desenvolveu um aturado e continuado trabalho de investigação e teorização sobre etnografia. A sua obra etnográfica é considerada fundamental para se entender o regionalismo açoriano da primeira metade do século XX. Foi, também um estudioso da história açoriana, sob um prisma da história biográfica de enaltecimento dos heróis insulares no seu contributo para o engrandecimento da pátria comum.

Como jornalista, fundou o Jornal de Angra, em 1933, que marca pelo seu programa renovador na imprensa local e pela qualidade técnica e artística das suas edições. Além disso foi colaborador assíduo de A União, com rubricas de crítica social e política.

Por último é de destacar a sua faceta de animador cultural incansável, através de palestras e montagem de espectáculos, sendo dos primeiros nos Açores a usar a rádio como veículo de comunicação cultural.

Da sua variada obra literária destacam-se: Tipos da minha terra, Touradas e romarias, Gente do Monte, Á boquinha da noite, Discretear (palestras e discursos), Sol das romarias, Alma Perdida, Gente do monte. II série, Do povo e de mim, Da Praça às Covas, Memórias de uma velha rua, Notas de Etnografia e Algumas achegas para o conhecimento da história, da linguagem, dos costumes, da vida e do folclore do povo da Ilha Terceira dos Açores.

 

Dados retirados do CCA – Cultura Açores

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publicado por picodavigia2 às 15:41

O ILHÉU DO CONSTANTINO

Terça-feira, 07.01.14

O sargaço, ali, no Ilhéu do Constantino, era bem mais negro, avermelhado e abundante do que em todas as outras zonas do Rolo, desde o Pesqueiro de Terra até à foz da Ribeira das Casas. Por isso, nos dias em que as fertilizantes, fertilizadoras e tão desejadas algas, arrancadas das profundezas do oceano pela brabeza das águas e trazidas, até à costa, pelo vaivém altivo e envolvente das ondas e pelo deslumbramento ousado e ritmado das marés, vinham emaranhar-se nos pedregulhos arredondados do rolo, os primeiros que demandavam aquelas paragens, a fim de recolher o precioso estrume - uma espécie de dádiva divina para os campos - bem lutavam, bem se esforçavam, bem aceleravam, bem corriam e bem se esganavam para chegar cedo e em primeiro lugar àquele recanto, assentando arraiais no melhor e mais fértil local de extracção de sargaço: frente a um pequeno ilhéu que ali existia, denominado de “Ilhéu do Constantino”. Ali o sargaço, afluindo em maiores fluxos, como que se amontoava, armazenava e excedia, facilitando a tarefa de quantos pretendiam retirar do mar aquele adubo para o milho semeado nos seus serrados, para as couves plantadas nos seus campos e para a batata-doce cultivada nas belgas mais soalheiras.

O Ilhéu do Constantino, uma espécie de talismã sargaceiro, era um enorme calhau, fixado no fundo do mar, a emergir com uma graciosidade intrigante na quase personificação de uma grande massa basáltica, erecta e projectada para fora da superfície da água, abrigada dos ventos e a enlevar-se com a suave e meiga erosão das ondas. Situava-se a uns bons metros de terra, sendo que do lado do Rolo, em hora de maré seca, era possível atingi-lo e saltar-lhe para cima, a pé. Com a maré cheia, porém e do lado do Pesqueiro de Terra, mesmo com a maré seca, era impossível demandá-lo, a não ser a nado.

Era a esta posição estratégica de uma espécie de calhau mítico, encafuado quase na esquina do Pesqueiro de Terra com o Rolo que o tornava fértil em sargaço. Este, trazido pelo “salseilhar” constante das ondas e pelo rodopiar permanentemente das águas, era como que empurrado para aquele recanto, prendendo-se, encafuando-se e arrecadando-se ali, como se ficasse preso por uma rede enorme ou fosse capturado por um camaroeiro gigante. Por isso mesmo, era fácil e rentável retirá-lo dali, tornando, assim, por quantos demandavam o Rolo em dias de saída de sargaço, aquele lugar o mais desejado e apetitoso de toda a faixa costeiro onde se podia extrair o sargaço.

O Ilhéu do Constantino ainda tinha uma outra vantagem, embora menor e menos explorada. Integrado na orla do baixio, desde o Rolo até às ruínas do presumível Forte do Estaleiro, já quase no Varadouro, era um excelente pesqueiro, ou seja, um bom lugar para pesca, sobretudo de moreias, polvos, sargos, vejas e castanhetas.

Naturalmente que a origem onomástica do Ilhéu do Constantino se prendia com um tal Constantino que nem a história nem ninguém sabia quem era. Perde-se pois no tempo o Constantino, quer fosse um experiente e assíduo pescador daquelas paragens, quer alguém que apenas demandasse, de vez em quando, aqueles baixios e escombros para apanha de lapas ou extracção de sargaço e ali se estatelasse, talvez mesmo falecendo naquele sítio.

Por todas estas razões o Ilhéu do Costantino poderia muito bem ser considerado uma espécie de “ex-libris”, se não da Fajã Grande, pelo menos da enorme baía que ia da Ponta dos Pargos até à Rocha da Ponta.

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publicado por picodavigia2 às 14:43

A NAMORADA FEITICEIRA

Terça-feira, 07.01.14

Conta-se que há muitos anos que, na Fajã Grande, na ilha das Flores, havia um rapaz que namorava com uma rapariga órfã de pai e que vivia só com a mãe. Ele, todos os dias, depois de acabar o trabalho, lavava-se, mudava-se de roupa, ceava e ia fazer serão para casa da namorada. Falavam de tudo, do que ia ser a sua vida, de como seria a sua casa e outras vezes contavam histórias. Um dia, começaram a falar de feiticeiras. O rapaz ria e brincava:

 — Feiticeiras!? Agora cá... Não acredito. Quem me dera ver uma!

 — Não digas que não há feiticeiras, olha que te enganas! — Insistia a rapariga.

 — Sim, sim… tu é que és a minha feiticeira! — Acrescentava o rapaz para não discutirem.

No entretanto o tempo ia passando. Chegada a hora, o rapaz despediu-se e saiu para o escuro da noite. Quando já tinha andado um bocado de caminho e estava quase a chegar a casa, duas cabras saíram dum pátio e deram um salto para a frente dele.

 — Ó diabos, pois eu fui, esta tarde, deitar-vos na rocha, vocês até agora nunca saíram de lá e como é que estão aqui?! — Disse o rapaz, julgando, devido ao escuro, que eram as suas duas cabrinhas.

 Tentou apanhá-las para as amarrar, mas, os animais, que eram habitualmente mansos, davam um salto e ficavam adiante e ele não conseguia pôr-lhes a mão. Já estava a ficar aborrecido e, como estava ao pé do portão de casa, pegou num fueiro que era do corsão e estava ali ao pé da parede. Atirou uma paulada numa das cabras, fincou-lhe a ponta do fueiro na pele, fez-lhe sangue e logo ela, misteriosamente, se transformou na sua namorada. O rapaz não podia acreditar no que via e disse:

 — Oh! Vai-te com o diabo!... E olha que é verdade que há mesmo feiticeiras. E logo quem... Vai-te embora que não quero mais saber de ti!

 — Não, não é assim, tu tens que me ir pôr em casa! — Respondeu a rapariga.

 O rapaz teimou que não ia, que o que queria era vê-la longe, que nunca mais punha os pés em casa dela. Mas, por fim, não teve remédio senão concordar, aceitando ir levá-la a casa. Ela então disse-lhe:

 — Vira-te para trás!

 Ele virou-se e ficou logo à porta da casa da rapariga. Voltou para sua casa e todo o caminho veio maldizendo a sua sorte e o que lhe tinha acontecido. Nunca mais quis saber de tal mulher, mas ela perseguiu-o sempre, durante toda a vida.

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publicado por picodavigia2 às 11:14

O ALFERES ANDRÉ FRAGA MENDONÇA (1677-1750)

Terça-feira, 07.01.14

O Alferes André Fraga nasceu no lugar da Fajazinha, na freguesia das Fajãs em 1677, ou seja precisamente um ano depois de aquela freguesia ter sido criada e faleceu com 73 anos, em 12 de Fevereiro de 1750. Foi casado com Bárbara de Freitas e era sobrinho do padre André Álvares de Mendonça que foi o primeiro pároco da paróquia de Nossa Senhora dos Remédios das Fajãs, com sede na igreja paroquial na Fajazinha.

Na sua qualidade de alferes, muito provavelmente terá comandado algum dos vários fortes existentes na costa Oeste da ilha das Flores, nomeadamente nalgum dos sediados nas orlas costeiras da Fajã Grande e da Fajãzinha, entre os quais o Castelo da Ponta, o Vale do Linho, a Castelhana, o Estaleiro ou o Portal da Rocha, já na Fajãzinha. Este alferes terá sido uma personagem muito importante e bastante respeitada no seu tempo, una vez que, com apenas vinte e nove anos, foi uma das personalidades escolhidas, juntamente com a esposa, para integrar o grupo de “fregueses” que acompanhados pelo seu tio e vigário da paróquia das Fajãs, André Alves de Mendonça, em 1705, solicitaram ao bispo diocesano, D. António Vieira Leitão, autorização para colocar o sacrário para guardar o Santíssimo, na primitiva igreja da paróquia construída havia já trinta anos. Foi ele e os restantes elementos da comitiva que se prontificaram para oferecer anualmente o dote necessário para a aquisição doo azeite da lâmpada, para as velas e outros acessórios indispensáveis à manutenção do Santíssimo Sacramento na primitiva igreja da paróquia das Fajãs.

Na orla costeira da ilha das Flores, nos seculos XVII, XVIII e XIX existiram sempre vários fortes, ocupados por militares, à frente dos quais estavam oficiais de patente superior ou seja capitães, tenentes ou alferes. Estes fortes e as companhias que os ocupavam tinham como missão principal defender a ilha dos ataques e assaltos de piratas e corsários, muito frequentes nessa altura.

O Alferes André Fraga era pai de Maria de Freitas, primeira mulher de Manuel Lourenço, casados na igreja da Fajãzinha, em 8 de Setembro de 1723, falecida bastante nova. Era pai, também, de Isabel de Freitas casada com um irmão deste, de nome Bartolomeu Lourenço, ambos filhos de António Lourenço e de Maria de Freitas. Foi bisavô do tenente Bartolomeu Lourenço Fagundes que também comandou alguns dos fortes que existiam na Fajã Grande.

Imitando, anacronicamente, a narração da genealogia de Jesus Cristo, por São Mateus e que vem transcrita no primeiro capítulo do seu evangelho, poder-se-á ter a quase blasfema ousadia de dizer que André casado com Bárbara gerou Isabel, Isabel casada com Bartolomeu gerou Catarina, Catarina casada com António gerou Bartolomeu, Bartolomeu casado com Ana gerou Manuel, Manuel casado com Clara gerou Bartolomeu, Bartolomeu casado com Maria gerou José, José casado com Maria da Conceição gerou José, José casado com Joaquina gerou Angelina que casou com João e teve seis filhos, dos quais um é o autor destas linhas.

 

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publicado por picodavigia2 às 10:37

A CANADA DA FONTECIMA

Terça-feira, 07.01.14

De todas as canadas da Fajã Grande, e não eram poucas, a única que tinha o piso igual ao dos caminhos, isto é, do tipo calçada romana, era a Canada da Fontecima. Situada no lugar com o mesmo nome, que atravessava de Norte a Sul, a Canada da Fontecima ligava o Alagoeiro ao Batel, num trajecto curto, apertado, de bom piso, de fácil e agradável trajecto e, sobretudo, bem mais rápido do que o do caminho que ligava a Fontinha aos Lavadouros. É que este caminho que também ligava o Alagoeiro ao Batel e através do qual se tinha acesso a todos os outros lugares do Sul e Leste da Fajã, incluindo a Rocha, no seu normal trajecto, ia dar uma grande volta pela Ribeira, passando junto ao Arame, o que significava um percurso bastante mais longo, obrigando, consequentemente, os transeuntes a uma demora excessiva relativamente ao trajecto da Canada da Fontecima. Em suma, para quem queria seguir para o Batel e para as outras localidades do Sul, até aos Lavadouros, se fosse pela Canada da Fontecima realizava um trajecto bem mais curto e mais rápido. Era pois, objectivo prioritário desta canada, não apenas dar acesso às propriedades que a ladeavam e a outras circundantes, mas também e sobretudo ligar de uma forma mais rápida e eficaz, sobretudo para quem carregava molhos ou cestos às costas, o Batel com o Alagoeiro e vice-versa. Encurtavam-se distâncias, reduzia-se o trajecto, poupavam-se energias e aliviavam-se as costas de quem vinha carregado com molhos ou cestos.

No entanto, o facto de ser uma canada e, consequentemente, uma via de circulação muito estreita, a Canada da Fontecima não permitia a circulação de gado, nem muito menos dos carros ou corsões. É que de tão estreita e apertada que era, não tinha a largura necessária para que circulassem duas rezes, ao lado uma da outra. Como, por vezes, havia gado a caminhar para baixo e para cima, o que ali não poderia acontecer, estava praticamente vedada a circulação de bovinos naquela canada.

O trajecto da Canada da Fontecima era simples e de razoável qualidade. Partindo-se do Alagoeiro, junto a um poço que ali havia para o gado beber água, voltava-se à direita, evitando o caminho da Ribeira. Subia-se uma pequena ladeira, esta sim bastante larga, paralela à casa do Luís Fraga, ao cimo da qual ficava a Casa da Água, precisamente no sítio onde se situava uma nascente ou fonte que dava nome ao local e cuja água abastecia toda a rede da Fajã, cujas obras se iniciaram em Outubro de 1948, concluindo-se quatro anos mais tarde. A partir da Casa da Água, entrava-se na canada propriamente dita, iniciando-se o seu trajecto com uma pequena curva ao lado daquela casa. Depois uma recta, ladeando pequenos serrados, dela separados por altas e grossas paredes de pedra dupla. No fim da recta uma curva acentuada à esquerda e logo a seguir uma mais suave à direita. Aí havia uma pequena ladeira e as paredes circundantes eram bem mais altas e imponentes. Após o cimo da pequena ladeira, precisamente no sítio onde meu avô materno tinha uma pequena terra de milho e batata-doce, entravámos em nova recta, paralela ao caminho da Bandeja, que ficava mesmo ali ao lado. Daí, por ser lugar mais alto, já era permitido aos transeuntes descortinar ao longe uma parte do casario da Fajã, do mar e a Ponta. Esta vista, no entanto era, vezes sem conta, obstruída, porque aqui as paredes já eram bem mais altas e grossas, impedindo quem por ali passasse de avistar o que quer que fosse, a não ser uma pequena nesga do céu. De seguida uma nova curva à esquerda, seguida duma recta ladeada a Sul, por uma parede altíssima e estávamos no fim da canada, a desembocar no caminho dos Lavadouros, precisamente no cimo da ladeira da Ribeira e quase no início da do Batel.

A Canada da Fontecima, como outros imponentes caminhos da Fajã Grande, uma interessante construção a marcar um espaço e um tempo, mediante o esforço, a bravura e o empenhamento dos nossos antepassados.

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publicado por picodavigia2 às 00:33





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