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MARAVILHAS DO MEU VELHO

Sexta-feira, 10.01.14

Poema oral recolhido na freguesia da Fajãzinha, ilha das Flores, por Pedro da Silveira, junto de Manuel Mariano e publicado na Revista Lusitana, Nova Série, em 1986 e que também era declamado e cantado na Fajã Grande mas numa versão com algumas variantes:

“Maravilhas do meu velho, tenho eu para contar:

Dava-me real e meio par’ eu vestir e calçar

E o resto que me ficasse que lo havia de dar

P’ra se comprar de toucinho para ajuda do jantar.

Tenho o meu linho no lago e o meu velho a morrer;

Entes o meu velho mora que o linho se perder.

Ergui-me de manhã cedo para d‘ir fazer a barrela

Achei o meu velho morto entre as pedras da janela.

Entre as pedras da janela, encostado ao poial,

Que ele gostava d’ir de noite comer peras p’ra o quintal.

Fui chamar as choradeiras, que mo viessem chorar;

Bem chorado, mal chorado, vai-se o velho enterrar.

A perca do meu marido é perca de um alguidar:

Quebra-se um e merca-se outro, fica no mesmo lugar.

Mandei ter c’o carpinteiro, fizesse-le um caixão de pinho,

Que le ficasse à medida, dos artelhos ao focinho.

Mandei ter com o sineiro, que o sinal fosse tocar,

Bem tocado, mal tocado, nin que fosse a repicar.

Mandei ter com o coveiro, que a cova le fosse abrir,

Sete varas de fundura, nã possa de lá fugir.

Mandei avisar o padre, para bem de o encomendar,

Que o encomendasse a preceito, meio a rir, meio a cantar

E lá se vai o meu velho, lá se vai deixem no d’ir,

Que ele era amante do vinho e das monças de servir.

Ó homens de misericórdia, que o meu marido levais,

Desencostai-o das paredes, na no encosteis aos postais

Desencostai-o das paredes, desarredai-mo das portas.

Que ele era pior que os gatos, de noite nessas hortas.

Vinha já fora do adro, vinha já de o enterrar,

P’lo caminho me diziam: “Viúva torna a casar.”

Eu cá casar casaria, se nã fosse os maldezentes:

“Olha a patifa da velha, ainda quer a cama quente.”

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publicado por picodavigia2 às 21:54

MORRA SANSÃO E TODOS OS QUE AQUI ESTÃO

Sexta-feira, 10.01.14

Sansão é um personagem bíblica, do Antigo Testamento, cujo nome significava "homem do sol" e era, segunda a Bíblia Sagrada, dotado de extraordinária força. Era um dos juízes bíblicos cuja história está descrita no Livro dos Juízes (13-16).

Antigamente na Fajã Grande, entre muitas outras estórias também se contava a de Sanção, um homem que fora chamado por Deus para libertar o povo de Israel que vivia debaixo do domínio dos Filisteus. Estes, temiam a extraordinária força de Sanção e, por isso, tentavam, sem sucesso, prendê-lo. Ora os chefes dos Filisteus, sabendo que Sansão estava apaixonado por Dalila, uma filisteia muito bela e bonita, aliciaram a jovem, com ouro e prata, a fim de que ela descobrisse a origem e o segredo daquela tremenda força de Sansão. Dalila amava Sansão, mas este amor era inferior ao que sentia pelo seu povo. Por isso, com o seu grande poder de sedução, tentou não só desvendar o segredo da força de Sanção mas também arranjar uma forma para que ele fosse dominado pelos filisteus.

Primeiro, Sansão disse-lhe que ficaria vulnerável como qualquer outro homem, se o amarrassem com sete fibras novas de arco que não tivessem sido secas. Dalila atou Sansão com as sete fibras, durante o sono mas, mas quando os Filisteus chegaram para o levar, ele arrancou as fibras sem dificuldade. À segunda tentativa de Dalila, Sansão disse-lhe que seria, facilmente, dominado se fosse amarrado por cordas novas, mas também destas se libertou, sem custo, quando chegaram os Filisteus. A terceira versão de Sansão foi tão falsa como as duas anteriores, pois quando Dalila teceu as sete madeixas do cabelo de Sansão com uma rede e as apertou com um gancho, durante o sono de Sansão, este voltou a libertar-se facilmente. Foi então que Dalila (não se sabe através de que artes) conseguiu saber o segredo da força de Sansão. Este disse-lhe que, se os seus cabelos fossem cortados, a sua força abandoná-lo-ia e ficaria fraco como uma criança. Sansão adormeceu no colo de Dalila e esta, suavemente, cortou-lhe os caracóis dos cabelos. Acordado pela chegada dos Filisteus, Sansão acreditava ainda ter força, mas foi, rapidamente, dominado pelos soldados filisteus, que lhe perfuraram os olhos e o prenderam com algemas de bronze.

Sansão foi exposto e humilhado, publicamente, no caminho do templo de Dagôn, onde foi amarrado aos dois pilares que sustentavam o enorme edifício. A população juntou-se aos milhares para ver a derrota e o fim de Sansão mas este, num último esforço, pediu a Deus que lhe devolvesse a força, por instantes. Foi, então, com um esforço gigantesco e heróico, fez ruir os pilares do grandioso, causando a destruição a sua destruição e, consequentemente, a morte dos Filisteus, de Dalila e a sua. Antes, porém, exclamou em altos gritos:

- Morra Sansão e todos os que aqui estão!

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publicado por picodavigia2 às 21:03

AUGUSTO CÉSAR LOUREIRO

Sexta-feira, 10.01.14

O poeta e contista Augusto César de Sampaio Loureiro nasceu em Ponta Delgada, a 2 de Janeiro de 1839 e faleceu na mesma cidade, em Setembro 1906. Como poeta, deixou algumas líricas que o têm colocado entre os seus pares açorianos da última geração romântica. Como contista, foi o primeiro, nos Açores, a retratar ambientes e personagens predominantemente rústicos. Em Lisboa, foi jornalista proprietário dos jornais Gazetilha, Jornal de Notícias e Revista universal e, em Ponta Delgada, do Açores e do Heraldo.

Entre as obras publicadas ressaltam: Chegada do Exmo. actor Francisco Alves da Silva Taborda, Adeus a Taborda, Justiça de Deus, À Beira-Mar: contos, Á Mme. Marie Pavoni Moretti dans as fête: au theatro micaelense - contos, Biografia do Dr. Caetano de Andrade, Conselheiro Ernesto Rodolfo Hintze Ribeiro: memória da sua visita à ilha de S. Miguel, Perfil de Maurício Bensaúde, A Bruxa e A Vapor de Ferreira.

 

Dados retirados do CCA – Cultura Açores

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publicado por picodavigia2 às 18:31

OS CESTOS DE VIME

Sexta-feira, 10.01.14

A intensa e diária actividade agrícola que se verificava na Fajã Grande, nos anos cinquenta, implicava o uso de recipientes necessários e adequados à recolha e transporte das batatas, dos inhames e dos cereais, nomeadamente do milho, que ocupava o primeiro e mais importante lugar em toda a actividade agrícola produtiva da freguesia. Na altura, o plástico ainda era desconhecido, os utensílios de lata rareavam, os de madeira eram caros e as sacas de sarapilheira pouco funcionais. Daí que se recorresse, habitualmente, ao uso dos cestos, fabricados na própria freguesia, com os vimes que por ali cresciam abundantemente, feitos, muitas vezes, pela própria pessoa que deles necessitava e, consequentemente, de fácil e barata aquisição.

Assim, todas as casas tinham grandes quantidades de cestos, de formas, feitios e tamanhos diferentes e com usos diferenciados. Quando, em alturas de maior necessidade, se os cestos rareavam ou os que se possuía em casa não chegavam, pediam-se emprestados aos vizinhos que sempre os disponibilizavam.

Os cestos eram feitos com vimes. Uns, com vimes descascados entrelaçados com outros mais finos, geralmente, elaborados com requintada qualidade, com formas mais redondinhas e acabamentos mais cuidados, destinavam-se a transportar os alimentos, sobretudo para os homens que trabalhavam nos campos, impedindo-os de vir a casa e interromper os trabalhos. Quando se ia levar o jantar a quem trabalhava nos campos, quando se carregava a comida para o mato em dia de Fio, os alimentos eram colocados à cabeça da mulher, dentro destes cestos. Uma vez que exigiam rigorosa higiene, deviam ser mantidos limpos, conservados e bem guardados em casa, não lhes sendo dado nenhum outro uso, a não ser para guardar o pão acabado de cozer. Outros cestos, semelhantes a estes, também feitos de vimes descascados e que os tornava totalmente brancos, eram os cestos da roupa. O seu fim era o de ir guardando a roupa suja, transportá-los à cabeça, cheios de roupa, a fim de ser lavada na ribeira. Depois de lavada a roupa era dobrada, transportada para casa nos cestos e estendida nas linhas. Na Fajã Grande ainda havia os cestos normais, ou seja, aqueles que eram usados para quase tudo o que não fosse roupa, alimentos ou estrume. Eram feitos de vimes normais, com a casca, tinham uma forma mais grosseira, abrupta e menos cuidada, por vezes até um pouco toscos, mal feitos, mal acabados e bastante maiores do que os outros, embora os houvesse de vários tamanhos. Serviam para tudo, estes cestos, nomeadamente para acarretar o milho quando as maçarocas eram apanhadas dos milheiros, para o transportar para os carros ou até para casa, para encher as maçarocas descascadas ou até para as debulhar e guardar os grãos. Era também com estes cestos que se transportavam os inhames, as batatas, doces e brancas, as abóboras, os “bogangos” as favas, os tremoços, os bites, a beterraba e até as couves, a casca do milho e a rama da batata. Quando a erva ceifada para o gado, se mais miúda, também era acarretada em cestos, dadas as dificuldades que era prendê-la com cordas, formando molhos. Finalmente, existiam os cestos destinados, exclusivamente, para acarretar o esterco e que resultavam do envelhecimento dos outros, embora, por vezes, fossem também construídos de raiz, sendo, neste caso ainda mais toscos, mais mal feitos e mais abrutalhados do que os anteriores. Estes eram cestos negros, sujos, mal cheirosos, cuja única utilidade era, exclusivamente, a de transportar o esterco dos palheiros para os campos, servindo também de elo de ligação entre os carros e os campos, quando as vias de acesso às propriedades não eram adequadas â passagem do carro de bois ou do corsão.

Os cestos, no entanto, ainda tinham muitos outros usos paralelos, pois serviam como escada de acesso a um lugar onde, de pé, não se chegava, para transportar fruta quando apanhada em grande quantidade, para acarretar as achas da lenha depois de serrada e fendida, para tapar um galinha que estava choca ou um galo à espera de ser degolado e de ir para o caldeirão, para substituir a joeira e avantajar o trigo ou outro cereal, para substituir o camaroeiro na captura do sargaço, para colocar um de cada lado das selas dos burros e até para as crianças se entreterem a apanhar pombas. Além disso os cestos ainda eram fundamentais na extracção do sargaço que saía no Rolo e que dali era extraído para estrume dos campos. Retirado do mar com garfos, o sargaço era acarretado para os lagos em cestos. No entanto, como o sargaço era um produto, limpo e até continha algum cheiro a maresia, a marisco e a algas, utilizavam-se todos os cestos disponíveis, excepto os da comida, que nesse dia também eram necessários para ir levar o almoço e à noite o jantar, aos que trabalhavam todo o dia na extracção de tão precioso e gratuito adubo.

Os cestos, na Fajã Grande, eram, geralmente, fabricados por quem deles necessitava, embora houvesse alguns cesteiros famosos, na freguesia, com destaque para meu tio José e o para o Guilherme. É que fazer um cesto não era fácil. Para além de exigir sabedoria e prática, o cesteiro trabalha com materiais rijos e fibrosos e como não usava luvas, as mãos ficavam-lhe gretadas e cheias de cortes. Para aliviar esse martírio e para tornar os vimes mais maleáveis, estes eram mergulhados em água, durante um ou dois dias.

Os cesteiros mais habilidosos, no entanto, não se limitavam apenas a construir cestos. Dado que tinham engenho, arte e criatividade e como os vimes abundavam, na freguesia, também construíam cestas de asa de vários tamanhos, cabazes, bandejas, travessas, cadeiras e até mobílias de sala. As cadeiras de vimes, do tipo poltrona eram muito vulgares nas salas de todas as casas da Fajã, naquela altura e hoje serão, muito provavelmente, autênticas relíquias históricas.

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publicado por picodavigia2 às 16:54

A LENDA DA LAGOA SECA (DIÁRIO DE TI’ANTONHO)

Sexta-feira, 10.01.14

Domingo, 21 de Setembro de 1946

“Esta nossa ilha das Flores está repleta de ribeiras, lagoas, poços muito fundos, grotas e regos de água por toda a parte. É uma ilha repleta de sombras, esconderijos e mistérios a que se associam muitas estórias e lendas. Além disso é um lugar onde chove muito o seu solo é muito húmido e o subsolo repleto de água, donde brotam muitas nascentes, algumas com água bem fresquinha e saborosa, como é a Fonte Vermelha, aqui na rocha da Fajã ou o Rossio ali no centro da Fajãzinha. Mas existem muitas outras nascentes, algumas delas pequeninas como uma que tenho na minha lagoa das Covas, outras bem maiores e muitas delas a brotarem tanta água que se transformaram em ribeiras, grotas e lagoas de todos os tamanhos, formas e feitios, a abarrotar de água e de frescura por toda a ilha e por todo o território geográfico da freguesia da Fajã Grande, entre o mar e os elevados montes do Queiroal, da Água Branca e Rochão do Junco, desde da Caldeirinha e do Risco até à Ribeira Grande. São locais muito bonitos, espaços paradisíacos, pedaços do céu que remendam a terra e dão a esta freguesia uma áurea de sublimidade, de encantamento e de graciosidade. No entanto e no meio de toda este conjunto de belezas aquáticas e paisagens naturais, existe uma, mas uma apenas que a natureza encravou no subsolo, tão profunda, tão aberta, tão redonda e tão bem edificada nos contrafortes das rochas e montes circundantes, que pura e simplesmente não tem nascente, nem tem água. Está seca e ninguém se lembra de alguma vez ter armazenado no seu seio qualquer quantidade de água. Um fenómeno natural muito difícil de explicar. Como é que numa terra onde chove tanto e onde existe tanta água no subsolo existe uma lagoa seca, sem água? Até porque é em tudo igual às outras lagoas, simplesmente não tem água e, por isso, lhe puseram o nome de Lagoa Seca.

Situada nas proximidades das restantes lagoas que ocupam o território da Fajã Grande, já na fronteira com Santa Cruz, a Lagoa Seca, precisamente por ser seca, ainda hoje constitui um enigma difícil de decifrar. Porquê seca se sobre ela cai tanta chuva como nas restantes? Porquê seca se o subsolo ao seu redor parece ter as mesmas nascentes que as outras têm, uma vez que se situam ali perto? Pois meu pai, quando eu era criança, contava-me uma estória bem antiga, uma lenda conhecida como a “Lenda da Caldeira Seca” e que era mais ou menos assim:

Contava ele que há muitos, muitos anos, havia ali, naquele lugar, um pequeno povoado. Um certo dia, em que todos os habitantes daquele lugar estavam em festa e se divertiam a bailar e a cantar, uma mulher velha, doente e sem poder sequer socorrer-se a si própria, estando às portas da morte, mandou pedir aos seus conterrâneos que lhe fossem buscar um pouquinho de água, pois morria de sede e dentro do povoado não havia uma única fonte. Mas ninguém daquele lugar, se predispôs a ajudá-la, pois estavam a divertir-se e por nada deste mundo iam deixar aqueles folguedos, muito menos para ir ajudar uma velha tonta e já decrépita, quase a morrer. Era o que lhes havia de faltar: parar o bailarico para ir buscar água para a velha! E ninguém foi ajudar a velhinha, tendo esta, algum tempo depois morrido de fraqueza, de fome e, sobretudo, de sede.

Foi então que depois da sua morte caíram grandes tempestades e fortes cataclismos sobre aquela localidade, a terra abriu-se e dela saiam labaredas. Como não havia uma única gota de água para abrandar aquele fogo infernal, em pouco tempo, tudo foi consumido e desapareceu: pessoas, animais, casas, campos e utensílios. Só quando tudo aquilo acalmou se viu que aquele lugar tinha sido todo queimado, destruído e transformado naquela cova ou buraco que se tornou numa lagoa, bela, frondosa, rodeava de flores e de verdura, em tudo semelhante às outras, mas, simplesmente, sem água - seca.” 

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publicado por picodavigia2 às 15:06

O COVEIRO

Sexta-feira, 10.01.14

Nos anos cinquenta, a Fajã Grande era terra pequena, teria cerca de oitocentas habitantes, incluindo neste número, também, os moradores dos lugares da Ponta e da Cuada. Isto significa que, naquela altura, morreriam, em média, cerca de seis a dez pessoas por ano. A freguesia, possuía um cemitério, relativamente extenso para tão reduzida população e que estava divido em duas partes: o cemitério de baixo e o de cima. Nos anos cinquenta era neste último que estavam a ser abertas as sepulturas para enterrar os que iam falecendo. Na década seguinte seria o cemitério de baixo a ser utilizado com o mesmo fim.

Como todo e qualquer cemitério, o da Fajã também precisava de um coveiro, tarefa, na altura pouco desejada, porquanto aquele lugar, apesar de sagrado, impunha um certo respeito e metia algum medo, em função de infundadas crenças, mitos e superstições existentes na freguesia, ou até de “estórias” e lendas que se contavam, na altura, sobre a morte e a vida para além desta. Mas a função do coveiro, não se limitava ao abrir e fechar das sepulturas quando falecia alguém. Implicava também o arranjo, a limpeza, a conservação, o asseio e até o embelezamento daquele campo santo e sagrado, onde jaziam os nossos antepassados.

Na Fajã Grande, nos anos cinquenta, o coveiro era o João Augusto, um homem baixo, forte, a rondar os sessenta anos, bondoso, destemido, corajoso, sem medo de nada ou de coisa nenhuma, mas muito simples, bem-intencionado, um pouco inocente no relacionamento com os outros e até nas graçolas que lhe diziam, no gozo que simulavam fazer-lhe ou nas partidas que tentavam pregar-lhe. Como era um homem inocente e sem maldade, por vezes, era vítima da bazófia de alguns mais atrevidotes e malévolos.

O João Augusto morava nas Courelas, logo no início da rua, numa casa a seguir à da senhora Alvina e era pela idade de meu pai de quem também era amigo, porquanto se assemelhavam nos seus feitios e hábitos.

Mas o João Augusto não se dedicava ao ofício de coveiro em termos de exclusividade. Também trabalhava nos campos e criava gado como todos os outros habitantes da freguesia, incluindo aqueles, que desempenhavam outras funções ou disponibilizavam serviços na freguesia, as quais, por si só e com excepção do comércio, não garantiam a sobrevivência de quem a elas se dedicava.

Casou com uma senhora da Ponta e teve quatro filhos; o Ângelo, o Armando, a Maria e a Aldina. As filhas cedo abandonaram a ilha: a Maria para um convento e a Aldina para estudar no Colégio de Santo António, na cidade da Horta. Apenas os filhos ficaram na Fajã trabalhando e ajudando o pai no cultivo dos campos e na criação do gado. Mais tarde contraíram matrimónio. O Ângelo, mais alegre e folgazão, casou com a minha prima Maria do Céu e o Armando, mais pacato e prudente, com uma filha do Francisquinho da Cuada, acabando ambos por emigrar para os Estados Unidos em busca de maior sorte e melhor fortuna.

João Augusto, o coveiro da Fajã, uma figura inesquecível, inquestionável, quase histórica, porque desempenhou aquele importante e significativo cargo na freguesia, durante muitos anos e foi talvez o mais emblemático representante dos coveiros fajãgrandenses de sempre.

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publicado por picodavigia2 às 11:19

A CASA DE TI JOSÉ LUÍIS

Sexta-feira, 10.01.14

A casa onde na década de cinquenta, morava a viúva de Ti José Luís, juntamente com algumas filhas e filhos ainda solteiros, constituía, na verdade, talvez o mais emblemático edifício habitacional da Fajã Grande, sob o ponto de vista arquitectónico e, sobretudo, histórico. Na realidade, hoje é por de mais confirmado que aquele edifício terá sido mandado construir, muito antes da construção da actual igreja, e, muito provavelmente, pertenceu e foi residência de António Freitas Henriques, um dos mais ilustres fajangrandenses de todos os tempos, nascido no lugar que naquela altura ainda pertencia à freguesia das Fajãs, a 30 de Março de 1721, onde foi capitão, entre 1751 e 1770, ano em que faleceu. Era filho do capitão Gaspar Henriques Coelho e de Francisca Rodrigues e foi também vereador municipal, juiz do ordinário e comandante, com patente real, da companhia de ordenanças das Lajes. Era irmão do padre Francisco de Freitas Henriques, o primeiro sacerdote que, pese embora a Fajã ainda não fosse paróquia, prestou serviço religioso na antiga ermida de São José, anterior à actual igreja. Sabe-se também que esta residência, mais concretamente do lado Sul, onde na altura vivia o José Natal, estava ligada com a respectiva ermida, através de uma ponte, a fim de que os “senhores” para ela se dirigissem sem ter que passar pela rua, evitando, à boa maneira aristocrática, misturar-se ou envolver-se com o povo. Não se conhecem, no entanto, os residentes intermediários, na posse e usufruto do imóvel, se os houve entre os descendentes da família Freitas Henriques e os moradores na década de cinquenta, embora muito provavelmente Ti José Luís, pertencesse àqueles descendentes, uma vez que tinha o mesmo apelido “Freitas”.

Tratava-se de um belo edifício, com aspecto exterior monumental, uma verdadeira casa solarenga, de planta rectangular, com dois pisos mais sótão, estando, na década de cinquenta dividida em duas habitações, uma ocupada pela família de Ti José Luís, outra pelo José Natal.

A fachada principal do edifício, voltada para a Rua Direita, é emoldurada, na parte inferior, contigua ao chão, por uma base ou soco invulgarmente alto e saliente e por uma cimalha com faixa, ornada com friso e cornija onde apoia o beiral, requintes arquitectónicos raramente encontrados na Fajã Grande. A mesma fachada ainda apresenta três portas alternadas com quatro frestas, e por cima de cada uma das portas e no enquadramento das mesmas, rasgam-se igual número de janelas de peito cujos aventais estão ligados às cornijas das portas que ficam por baixo. Quer as portas quer as janelas são encimadas por uma verga, com uma pequena cornija, semelhante à do telhado. A porta sul era a única que pertencia à residência de Ti José Luís e dava entrada para uma sala, através da qual, por uma escada se subia ao piso superior. A porta do central havia sido, na década de cinquenta ou antes, transformada em janela da referida sala e a do Sul era independente e dava acesso à loja do José Natal e mais tarde da Senhora Bernadete. Por sua vez na empena da direita, ou voltada a sul e na qual é visível o aproveitamento do sótão, havia uma porta ao nível do piso térreo também encimada por uma janela. Do lado direito da janela há uma outra porta mais pequena, a que se tinha acesso por uma escada com balcão e que dava para a cozinha. A cimalha da fachada principal prolonga-se pela empena direita formando a base de um frontão cujo remate superior é feito por uma faixa e uma cornija que acompanham a inclinação das águas da cobertura.

O edifício é construído em alvenaria de pedra rebocada e caiada, excepto os beirais das portas e janelas, a base ou soco e as cimalhas, que são em cantaria, pintada de cor cinza como a maioria das casas da freguesia.

Era na rua Direita, ao lado desta casa solarenga que se situavam os mais belos e imponentes edifícios da Fajã Grande, incluindo um outro, localizado mesmo em frente e também dividido por dois proprietários e formando dois fogos, um onde moravam três irmãos, filhos de Joãozinho e um outro onde morava o Francisco da Cuada.  

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publicado por picodavigia2 às 08:48

MUDANÇAS

Sexta-feira, 10.01.14

"Para fazer mudanças não é preciso buscar novas paisagens basta apenas olhar com novos olhos."

 

 (Marcel Proust)

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publicado por picodavigia2 às 00:38





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