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O MITO DO RIO SADO

Sábado, 11.01.14

Há milhares e milhares de anos, povos de características semelhantes ou iguais aos conhecidos como pre-Abbevilenses, terão sido os ocupantes e povoadores de toda a zona litoral alentejana. De condição primitiva e rude, estes homens teriam que procurar por si próprios os seus meios de subsistência, desenvolvendo, para isso, técnicas primitivas e rudimentares, em ordem a tentar ultrapassar ou até sobrepor-se às temíveis dificuldades que, na luta pela sobrevivência,  as forças da natureza lhes opunha. E uma das grandes forças foi, incontestavelmente, a das águas.

Ao longo dos tempos, muitos povos que ocuparam e viveram no Alentejo interrogaram-se e  ainda hoje, talvez, alguns se interroguem, sobre a razão pela qual o rio Sado,  Calipus segundo os romanos e Xâter segundo os árabes, nascendo na serra do Caldeirão, passando ao lado de Ourique, correndo para o mar, na direcção de noroeste, ao chegar a Alvalade, muda o seu curso, isto, é, corre para norte, fenómeno inédito na orografia portuguesa, acabando por ir desaguar  em Setúbal e não em Santiago do Cacém, como seria mais natural.

A explicação fácil e simplista de que hoje somos detentores, centrada na morfologia do solo e personificada na serra do Cercal, não era plausível nos tempos dos pre-Abbevilenses, simplesmente porque, por um lado, desconheciam a lógica e, por outro,  a morfologia do solo lusitano, de épocas tão remotas, era substancialmente diferente da actual.

E o homem pre-abbevilense, que viveu na região onde hoje se situa  Alvalade, assim como os seus congéneres, quer de outros  tempos, quer de outros espaços, pura e simplesmente ultrapassou   os limites da sua incompreensão,  recorrendo ao sobrenatural, atribuindo a origem de tão aparentemente irregular e inexplicável fenómeno, como a de tantos outros, a  poderes, vontades e forças superiores, estranhas e sobrenaturais.

Surgiu assim uma explicação teogónica e mitológica, um mito, perdido na história e até, talvez, no paralelismo de tantos outros,

 

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publicado por picodavigia2 às 22:10

CONVERTIDO

Sábado, 11.01.14

MENU 22 – “CONVERTIDO”

 

ENTRADA

 

Caneloni recortados, recheados com creme de queijo fresco, salsa, alface e bolacha moída, com azeite, acamados sobre rodelas de pepino grelhado.

Nozes regadas com mel e ladeadas com cubinhos de queijo de cabra.

 

PRATO

 

Paté de cavala assada, creme de queijo de salmão e pimentos, acamado em alface e vinagre balsâmico.

Esmagado de batata-doce e pera, com ervas aromáticas e crene de queijo fresco

 

SOBREMESA

 

Mil folhas, suspiro e gelatina de morango

 

 

********

 

Preparação da Entrada:Cozer um caneloni e cortá-lo em quatro. Grelhar quatro rodelas finas de pepino e coloca-las no fundo do prato, sobrepondo-lhes, ao alto, os pedacinhos  dos canelóni. Encher estes com queijo creme, bolacha moída, salsa, alface picada e regar com azeite. Colocar as nozes descascadas, regá-las com o mel e ladrar com os cubinhos de queijo.

 

Preparação do Prato: Desfiar as sobras de cavala grelhada na véspera, retirar a pele, as pinhas e a parte negra. Juntar um pouco de salsa, cebola, pimentos, alho e ervas aromáticas. Fazer uma açorda com cubos de miolo de pão, desfazer e misturar o creme de queijo. Juntar ao preparado anterior e misturar bem. Colocar em cima de uma folha de alface borrifada com vinagre balsâmico. Cozer a bata doce e a pera, juntar creme de queijo fresco e reduzir a puré. Misturar e juntar no prato

                                                                                                               

Preparação das sobremesas: Adquirir e dispor em prato.

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publicado por picodavigia2 às 18:49

A CRUZ AZUL

Sábado, 11.01.14

O Prelado Diocesano era muito solícito nas suas visitas ao Seminário. Para ele, aquela instituição quase centenária era uma espécie de jardim onde floresciam e se formavam aqueles que um dia havia de ordenar e que seriam os seus colaboradores directos no pastoreio da diocese açoriana, onde se havia fixado há mais de uma dezena de anos. Queria os seus seminaristas dóceis, puros, submissos e obedientes, mas também cultos, eruditos e letrados. A sua presença na "santa casa mimosa de Deus", era mensal, solene e devidamente preparada. Sabia-se o dia e a hora em que sua Excelência Reverendíssima, escolhendo a capela como local privilegiado das suas práticas, visitava o Seminário e falava aos jovens qua ali se formavam, fortalecendo-os na fé, incentivando-os a uma vida de práticas evangélicas, exortando-os aos bons costumes.

 Vestiam-se os seminaristas a rigor, entravam em fila no pequeno templo, metiam a mão na pia da água benta, persignavam-se e aguardavam, nos seus lugares a chegada do Prelado Guilherme, sempre pontual, sempre solícito em disponibilizar bênçãos e sempre acompanhado do prefeito Jeremias, do senhor Reitor e outros professores.

 Era o mês de Janeiro e o frio reinante havia de obrigar a que todos, incluindo o senhor bispo, um a um, encharcassem, apenas e ao de leve, a ponta do polegar na água benta, a fim de que com ela assinalassem, na sua testa, o sinal da cruz redentora.

 No silêncio da descrição, um mais audaz e atrevido, antecipadamente e às escondidas, despejara na pia da água lustral um tinteiro de tinta azul. No meio de tão grande enlevo com que era aguardada a chegado do Senhor Bispo, ninguém se havia de se cuidar com o conteúdo da pia, além disso, com a abertura parcialmente tapada.

 E lá foram, um a um, seminaristas, professores, prefeito Jeremias e bispo, entrando no templo, não sem antes celebrar o exotérico rito de purificação inicial. Sentou-se o prelado na sua cátedra voltada para a assembleia ouvinte. Sentaram-se os seminaristas frente ao sucessor dos Apóstolos, aguardando as suas sábias e doutas palavras. Mas falar é que D. Guilherme não conseguia, estupefacto e abismado, com o espectáculo que se deparava à sua frente: todos e cada um dos membros da assembleia, incluindo os professores e o prefeito Jeremias estavam indelevelmente assinalados na testa com uma cruz azul.

 Cada vez mais deslumbrantemente embasbacado, D. Guilherme chama junto de si o prefeito Jeremias, interrogando-o da razão de tão estranha e misteriosa assombração. Este aproximou-se e, muito atrapalhado, segredou-lhe ao ouvido:

 - Eu não sei! O Senhor Bispo é que deve saber, porque também tem na testa uma cruz da mesma cor. – E afastando-se comentava, em voz baixa: - Não será isto um desígnio de Deus?

Rezam as crónicas, que nunca se soube quem foi o autor de tão nobre e ousada façanha.

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publicado por picodavigia2 às 16:28

O LAVRADOR DA ARADA

Sábado, 11.01.14

Numa das últimas aulas de um dos meus primeiros anos, como aluno, no Seminário de Angra, o Dr Edmundo de Oliveira, professor de Música, com o objectivo de sensibilizar os alunos para a pesquisa e defesa do património cultural açoriano, no que à música dizia respeito, encomendou à turma um pequenino trabalho para férias – cada um de nós devia procurar uma música popular na sua freguesia ou na sua ilha, registar a letra e a música e aprendê-la. Havia de cantá-la nas primeiras aulas, no início do ano lectivo seguinte.

Arrepiei-me. Na realidade a Música não era o meu forte. Mas lá fui para férias sensibilizado para executar a tarefa.

Ora, na Fajã Grande, os foliões do Senhor Espírito Santo, cantavam, entre outras, “O Lavrador da Arada”, uma música cuja letra era muito conhecida e apreciada. Ouvira-a, muitas vezes. Como meu pai, em tempos fora folião do Senhor Espírito Santo, cantava-a muitas vezes. Eu, habitado a ouvi-la já conseguia traulitá-la. O pior era arranjar a música. Tanto procurei, tanto labutei e tanto coscuvilhei que fui dar com ela num livro antigo que havia nos arrumos da igreja paroquial. Todo contente por ver que havia de sair airosamente daquele imbróglio e fazer um figurão na aula do Dr Edmundo, arranjei uma folha de papel com pautas e zás! Numa tarde passei a música e a letra para a pauta com a clave de sol, muito bem desenhada. Regressei ao Seminário e lá me encaminhei para a aula de música, todo contente, cuidando que, pela primeira vez, havia de fazer boa figura e ter um êxito musical de se lhe tirar o chapéu. Chegou a minha vez de apresentar o trabalho, entreguei a partitura ao mestre e comecei, com a outra cópia, a cantar, cuidando eu, de acordo com as notas que ali estavam escritas: “O la-vra-do-or d’a-a-a-ra-da, aien-com-trou-ou um-um po-o-bre-zin-in-nho eo po-bre-zin-in-nho lhe di-i-sse, ó, le-va-me no-o teu-eu car-rin-in-nho…”

Olhei para o Dr Edmundo de soslaio. Ele ria perdidamente. Quando terminei, com um suave e doce sorriso, disse-me:

- Até cantaste muito bem, sim senhor! Mas a música que cantaste não é a que está aqui!

Foi a risota geral, um gozo acentuado e eu, cheio de vergonha e vermelho que nem um pero!

O Dr Edmundo, vendo a minha atrapalhação e o meu desalento elogiou mais uma vez o meu desempenho musical, explicando que nos Açores, algumas canções, embora tendo a mesma letra, nalgumas ilhas, eram cantadas com música diferente nas outras.

Mas durante muito tempo, pelos corredores e recreios do Seminário, não se cantava outra coisa que não fosse  “O Lavrador da Arada.”, à moda das Flores.

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publicado por picodavigia2 às 15:35

PEDRO CLAUDINO DA SILVEIRA

Sábado, 11.01.14

Pedro Laureano Claudino Mendonça da Silveira nasceu Fajã Grande das Flores, em 7 de Dezembro, de 1870. Era filho de José Laureano da Silveira e de Maria Claudina da Silveira e tio doutro ilustre fajãngrandense o poeta e escritor Pedro da Silveira, notabilizando-se, sobretudo, como jornalista, editor e empresário, na Califórnia.

Pedro Claudino viveu a sua infância na Fajã Grande, onde frequentou o ensino primário, fazendo, em Santa Cruz, o exame final com a elevada classificação de “distinto”. Assim como muitos jovens do seu tempo, zarpou da ilha, na procura do “El Dorado”, da Califórnia, para onde o pai já havia, também, emigrado, na mira de encontrar o poderoso metal – o ouro.

Chegou à Califórnia, com 15 anos de idade, começando a trabalhar em San Francisco, ocupando as horas vagas no estudo da língua inglesa. Alguns anos mais tarde, foi ter com o pai que trabalhava nas minas de ouro no Estado de Oregon e no Norte da Califórnia, nos condados de Siskyou, Del Norte, Humbolt, Trinity e Shasta, entre outros. Como estes condados eram rurais e ainda pouco desenvolvidos, Pedro Laureano, sentindo que ali lhe faltavam os meios para se instruir e por não gostar do trabalho de mineiro, voltou a San Francisco, onde trabalhou em diversos serviços e continuou os estudos nas horas vagas. Aí tirou alguns cursos de ciências e artes, adquirindo os conhecimentos necessários à sua futura vida profissional.

Visitava com frequência diversas empresas jornalísticas californianas, para nelas ler jornais e revistas portuguesas e americanas, chegando mesmo a trabalhar nessas empresas, nelas obtendo bastantes conhecimentos da arte tipográfica. Foi no semanário “A Liberdade” que Pedro Laureano Claudino da Silveira obteve emprego como tipógrafo e colaborador, começando a redigir alguns editoriais e artigos que não só mereceram a aprovação e o elogio do director mas também o bom acolhimento dos leitores do jornal, o que contribuiu, de forma significativa, para aumentar e fortalecer a situação económica desafogada daquele jornal.

Em 1902, Pedro fixou-se na cidade no Fresno, casando em 1903, com Maria V. Nunes, Em 1905, fez a sua primeira tentativa, como proprietário e editor, na fundação de uma revista – “Portugal-América” – que, por falta de recursos, teve vida efémera. Depois desse fracasso, o jovem casal fixou-se em Sacramento, voltando a desempenhar as antigas funções no jornal “A Liberdade”.

 Em 1907, mudou-se para Oakland e passou a trabalhar no jornal “A União Portuguesa”. Para além de um emprego mais seguro e com maiores garantias de acesso, este trabalho exigia, a Pedro Claudino, maiores desafios e responsabilidades. Passados dez anos, com a prática entretanto obtida, resolveu estabelecer-se por sua conta. Assim, adquiriu, em Janeiro de 1917, o “Arauto”, de Oakland e fundou, em San Francisco, o jornal – o “Jornal de Notícias”. Para além de ficar como proprietário, editor e redactor, a sua esposa assumiu a administração daquele jornal. Com imaginação e experiência, o jornal crescia de dia para dia, atingindo um dos pontos mais altos da sua existência quando o mesmo abriu um “Concurso de Beleza das Crianças Portuguesas da Califórnia”. O referido Concurso teve um sucesso excepcional, principalmente devido à vigilância, zelo e organização da esposa. Esta e outras publicações, haviam de fundir-se, mais tarde, no “Jornal Português” que se assumiu como a sua grande obra, já que atingiu uma invulgar expansão junto das comunidades portuguesas espalhadas pelos EUA.

Pedro Claudino faleceu em 28 de Dezembro de 1944, tendo sido um dos últimos grandes obreiros da fundação da imprensa de língua portuguesa na Califórnia. Era admirado, elogiado e distinguido pelo seu carácter exemplar, pela sua honradez e pela sua sinceridade para com todos e por represento a comunidade portuguesa da Califórnia, em comissões de grande responsabilidade

O “Jornal Português”, que ele, habilmente, projectou, não obstante ter passado por um curto período de interrupção, há pouco anos, continuava a ser publicado na Califórnia, em San Pablo, mantendo o nome que o notabilizou.

Pedro Claudino da Silveira entrou na história, não só pelos êxitos da sua persistente luta pela vida e pela cultura, mas também pelo valor literário dos seus escritos e, sobretudo, pela projecção que conseguiu dar à imprensa portuguesa na Califórnia.

 

Fonte - Trigueiro, José Arlindo Armas Trigueiros in “Florentinos que se Distinguiram”, (2004), pp. 119-124, ed. da Câmara Municipal das Lajes das Flores. 

 

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publicado por picodavigia2 às 12:36

A GROTA DO VIME

Sábado, 11.01.14

A Grota do Vime, situava-se na Rocha com o mesmo nome. Uma e outra houve jus àquela nomenclatura pelo facto da rocha, ali, ser sulcada por vários pequenos veios de água, a maior parte deles afluentes da grota e que faziam com que por ali nascessem, crescessem e se desenvolvessem muitas e variadas colónias de vimes.

A Rocha do Vime situava-se a noroeste da Rocha das Covas, para os lados da Ponta, em sítio onde a maior parte dos terrenos pertencia a proprietários, quase todos eles, com residência naquele lugar. Naturalmente que a grota herdou o seu nome da própria rocha e o nome desta, provavelmente, terá a sua origem no facto de o vime ter ali um habitat muito propício ao seu desenvolvimento, ou seja, terrenos muito molhados e alagadiços. Na realidade aquela rocha é quase toda ela sulcada por pequenos veios de água, uns a enriquecerem o caudal da grota, outros a escorrerem até ao sopé da rocha, perfurando chão, a perderem-se nas suas entranhas, para mais a baixo, já em terreno plano, reaparecem sob a forma de nascentes, projectando um água límpida e fresca que transformava as pastagens ali existentes em lagoas, onde juntamente com a erva, cresciam inhames e floresciam agriões.

Era assim a Grota do Vime, a conferir à rocha sua homóloga uma beleza extraordinária, uma frescura paradisíaca e uma riqueza prosperante. Era a erva, de excelente qualidade, a alimentar as vacas leiteiras e os inhames e os agriões a engrandecerem o cardápio dos humanos. Para além da quantidade, a qualidade, porque os inhames daquelas paragens eram dos mais saborosos da freguesia e até da ilha.

Mas a grande riqueza da grota e da rocha estava também na produção do vime. Na realidade o trabalho em vime era muito frequente e importante na Fajã Grande, nos anos cinquenta. A rocha do vime era local que fornecia uma boa parte da matéria-prima utilizada não apenas no fabrico de cestos, mas também de cestas, cabazes e até de cadeiras e outra mobília, nomeadamente berços de crianças.

Na realidade o vime foi um material utilizado desde tempos primitivos, pelo homem, sobretudo entre as populações ligadas ao cultivo dos cereais, para o fabrico de utensílios de transporte dos mesmos. Sabe-se hoje que já na Antiguidade o homem utilizava o vime para fabrico de utensílios de uso doméstico e que algumas civilizações colocaram nos escudos dos seus exércitos, este material, como por exemplo os persas. Referências documentais também nos dão conta da existência e da utilização do vime no Antigo Egipto. O seu uso ter-se-á expandido de forma notória na Idade do Ferro, com grande influência no desenvolvimento cultural de alguns povos, nomeadamente, nos celtas, nossos antepassados. O vime também esteve presente nos primeiros protótipos de balões e aviões, por ter um peso muito leve e oferecer boa resistência. Actualmente os balões de recreio, ainda usam o vime como um dos materiais com os quais são confeccionados, nomeadamente os cestos em que se alojam os passageiros.

Mas é sobretudo nos meios rurais que os objectos construídos com o vime tiveram e ainda hoje têm grande utilidade e importância, embora, actualmente, os objectos feitos com vime sejam apenas objectos de adorno, peças de museu ou elementos integrantes de colecções.

Por tudo isso a Grota do Vime, situada na Rocha com o mesmo nome, permanece hoje como um dos cursos de água mais importante, mais histórico e mais emblemático da Fajã Grande.

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publicado por picodavigia2 às 10:00

AS FESTAS SÃO SINAIS QUE FALAM

Sábado, 11.01.14

Aqui transcrevo na íntegra, mais um texto de Emílio Porto, publicado em Agosto passado, no seu blog “Alto dos Cedros”.

“E ocasiões para revelar o que somos e temos.

Uma festa das nossas aldeias – seja ela qual for – revela sempre alguma coisa das pessoas, das suas capacidades, dos seus sonhos satisfeitos. Por estes dias – no Bodo de Leite, no São João Pequenino, na Feteira, na Baixa, na Liga dos Amigos, na Mãe de Deus, e talvez ainda mais – somos confrontados com imagens de piedade e devoção, de trabalho e canseira em terra e no mar, de cor e luz, de arte e beleza.

Os palcos movem-se, e quando é preciso constroem-se com meia dúzia de paus de faia ou de incenso, como se fazia antigamente, e sobre eles desfilam os mais diversos artistas, talvez os menos cotados, que não conseguem lugar nos grandes aglomerados.

Também neste campo da arte, nem todos conseguem ir aos melhores palcos. É como no futebol: nem todos sabem jogar como o Falcão ou o Nuno Gomes.

Mas têm lugar e têm espectadores que os admiram e lhe batem palmas. Quem passou por esses lugares de festa popular deu por isso. E, se calhar, alguns deles agradaram mais do que outros que tiveram a sorte de pisar os palcos das maiores festas. Vimos isso com uma dança da Terceira, na tarde de domingo passado, sobre um palco improvisado no poço da Telha. A festa do Chicharro era naquele sítio.

E nas Ermidas e Paroquiais, quando é o caso, o religioso tem o seu lugar. É bom lembrar que a festa tradicional, geralmente, começa por aí. Mas, cuidado: já não é assim em todos os lugares. As festas ficam-se apenas pela presença secular e laica. Uma atitude que importa respeitar, pois está em conformidade com as vontades das comunidades. E ninguém se admire se a tendência aumentar e se transformar em costume. Nos dias que correm, mais se acentuam as distâncias entre as cúpulas do poder e os povos.

Todavia, a ideia do poder absoluto já não consegue impor-se. Cada vez mais há pessoas que aceitam partilhar. O poder e os povos juntam-se, dão as mãos e fazem. Foi o que vimos no porto da Baixa – todos se juntaram, todos andavam satisfeitos, não faltou nada sobre a mesa posta em cima do cais.

Os produtos do mar abundaram e a crise andou longe, ninguém deu por falta dela. Tudo isto é o resultado de livre aceitação, de crença. Quem acredita faz o seu caminho. Os povos na concretização dos seus objectivos juntam-se, e fazem.

Ali recordei o Padre João Domingos – com quermesse instalada a favor da homenagem a ser-lhe prestada no aniversário dos seus 100 anos no ano de 2012. Foi ele que apontou o rumo certo – os melhoramentos do caminho da Baixa, a central comunitária, as canseiras burocráticas para a Ribeirinha ser freguesia; e nunca deixou de sentar-se diante das crianças a ensinar o Pai Nosso e a Ave Maria. Muito do seu exemplo foi determinante no ambiente urbano da freguesia. Era teimoso, diz-se, mas nunca foi absoluto, e deixou trabalho feito.

Outra lembrança de acontecimento importante foi o ramal que dá acesso àquele porto, antes por entre falésias íngremes de estafar quem subia ou descia. Foi obra das gentes da terra, sem projectos, nem adjudicações, nem concursos, obra do 25 de Abril, logo inaugurada pelo Comandante Sá Vaz, que veio da Horta, propositadamente para aquele efeito. Aquele Ramal continuará a ser popularmente chamado de Ramal do Porto da Baixa. No meu pensamento será o Ramal “Comandante Sá Vaz”. Foi eu próprio, que o fui buscar à Madalena para esse efeito, e depois voltar a colocá-lo no cais de regresso à Horta.

Todas estas imagens me ocorreram durante a tarde de domingo passado, no arraial da festa do Chicharro, bem saboroso para quantos o provaram. Ainda recebi um convite para ir ao São Caetano, lá no porto do Galeão. Coitado deste santo que nunca teve nada por causa da proximidade do Bom Jesus! Talvez por essa razão, recordando fracassos antigos, optei por ali continuar, com o canal em frente e São Jorge, invejoso, a olhar para esta rampa, toda colorida, pequena, mas cheia, muito cheia a transbordar

 Importa, sim, olhar para as capacidades e os contributos que as comunidades põem em marcha na concretização dos seus momentos escolhidos, para celebrar o que lhes vai na alma, seja de fé seja de cidadania. Importa muito ir por onde indicam e gostam. Não gostam mesmo nada é de quem lhes imponha, seja lá o que for.

Este mês tem sido pródigo. Nas esplanadas e comércios abundam os programas. São sinais positivos que importa realçar.”

       

   Texto publicado no Pico da Vigia, em 25/04/12

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publicado por picodavigia2 às 09:38

LEITE AO MATO

Sábado, 11.01.14

Hoje, a subida da Rocha da Fajã é um passeio turístico. Passeio difícil, é verdade, mas engrandecido e glorificado com a tão propalada exaltação dos antigos trilhos pedestres, a ressuscitarem, por toda a parte. São os caminhos, atalhos e veredas antigas, íngremes e sinuosas por onde outrora caminhavam diariamente os nossos antepassados nas lides dos campos e no tratamento do gado, muitas das vezes vergados ao peso de pesados molhes de lenha, de erva ou de fetos ou carregados com cestos bem acuculados de batatas, cebolas, milho ou inhames,

Por isso mesmo, em tempos idos, mas não muito distantes, era uma obrigação para muitos dos habitantes da Fajã Grande, talvez mesmo uma exigência diária para alguns, subir e descer aquele alcantil, descampado, abrupto e pétreo que era a Rocha, na sua intrínseca sinuosidade, onde o caminho, volta a volta, se havia cravejado de degraus toscos e escabrosos e de pedregulhos soltos e escorregadios.

As voltas da Rocha eram trinta e duas, As primeiras cinco, logo no início, onde o terreno não era muito acidentado, eram as mais suaves, mais fáceis e mais acessíveis, sem grandes obstáculos a transpor. Mas a partir da sexta, até à Furna do Peito, tudo se complicava. Eram degraus atrás de degraus, numa subida penosa, angustiante e aflitiva, com escorregões e sobressaltos à mistura, sempre a alertar para se prevenirem os transeuntes, não fosse cair algum pedregulho, lá do alto. Felizmente a Furna do Peito, encastoada bem lá no interior da rocha, uma catedral de lava, a convidar ao descanso, por vezes até à oração, servia de lenitivo, alento e repouso, tanto dos que subiam como dos que desciam. Uma cruz feita com dois paus toscos amarrados com um cordel, no seu interior bem se apresentava como símbolo de um calvário que era aquela subida e alertava para o perigo a que estavam sujeitos os que por ali transitavam. A seguir à enorme furna, mais três ou quatro voltas ingremes e escarpadas, com piso escorregadio, mas a aproximarem-se das voltas do Descansadouro, estas inquestionavelmente mais mansas e tranquilizantes, a permitiram, com as suas saliências excrescentes, que se começasse a visionar, lá em baixo, o mar, o Monchique, o baixio e as casas da Via d’Água. A seguir a volta do Descansadouro, enorme, rectilínea, ladeada pela Furna da Caixa, paralela à Rocha, a flutuar sobre uma enorme verga e a permitir que mesmo a andar fosse permitido descansar. No seu termo e a Sul, um enorme e enigmático Descansadouro de onde se desfrutava de uma magnífica vista sobre a Fajã, desde o Oceano até ao Curralinho, com excepção da Assomada, entrincheirada e escondida entre os contrafortes do Pico da Vigia e do Outeiro. Através dos tempos ali se haviam construído muros circundantes para repor as cargas e prevenir das quedas, ladeados por assentos destinados ao descanso dos transeuntes, uma vez que constituía, depois da Furna do Peito, o segundo lugar de descanso obrigatório na subida e na descida da Rocha. Nas voltas seguintes, regressava-se às subidas íngremes, aos degraus encastoados uns sobre os outros, aos pedregulhos soltos, ao perigo, à dificuldade e ao cansaço. Até à Fonte Vermelha era um verdadeiro martírio, acentuado e acrescido na famigerada volta que a antecedia, a mais dura, a mais difícil e a mais escarpada de toda a Rocha. Mas na Fonte Vermelha, para além de se poder saciar a sede, descansar o corpo e aliviar a tormenta, na que se dizia ser a melhor água da ilha das Flores, era a certeza de faltarem poucas voltas para o cimo da Rocha. A fonte era formada por uma pequena e tosca bica, encravada num tufo da Rocha, onde cada transeunte sequioso colocava uma folha de incenso ou de sanguinho, para ter acesso mais higiénico e eficiente à água que dela emanava continuamente. Todos os que por ali passavam dela bebiam, todos os dias e todas as vezes e, não raramente, depois de beber, voltavam a beber muitas outras vezes, quer quando subiam quer quando desciam. A seguir à Fonte Vermelha faltavam dez voltas para se atingir o cimo da Rocha, as primeiras, até à Furna dos Dez Reis, eram bastante acessíveis e de piso melhorado, mas a partir da pequenina furna, onde se depositavam sonhos e desejos, na esperança de testar a sua virtualidade, voltava-se ao íngreme, ao escabroso, ao difícil. Chegar à trigésima segunda volta era uma vitória inquestionável, uma certeza glorificante, um feito radioso.

Mas nos anos cinquenta e nos anteriores, havia muitos rapazes e muitos homens da Fajã que subiam diariamente aquele gigantesco penhasco para ir tirar leite ao gado, regressando na descida com as latas a abarrotar do precioso líquido, geralmente em palanca, presas num pau, uma à frente mais pequena e outra, maior, atrás. No caso de necessitar de três, as duas mais pequenas prendiam-se atrás, uma ao lado da outra, através de um gancho enfiado no pau. Acrescente-se que muitos destes homens subiam e desciam a Rocha duas vezes, uma pela manhã e outra à tarde.

Aqui ficam os nomes de alguns deles, talvez dos que, na década de cinquenta, o fizeram com mais frequência e que lhe deram mais continuidade: André, Antonino do André, Ângelo Câmara, Ângelo de João Augusto, Ângelo Mancebo, Antonho Dias, Antonino de José Luís, António de José Cardoso, António Teodósio, Armando de João Augusto, Elviro, Filhos do Raulino Fragueiro, Francisco Facha, Francisco Flores, Guilherme Pimentel, João de Freitas, João Facha, João Luís, José António Macela, José de Lima, José do Augusto, José do Laureano, José do Lucindo, José Fagundes, José Felizardo, José Francisco, José Lourenço, José Felizardo, José Pureza, José Rodrigues, José Trancão, Luís do Laureano, Luís Fagundes, Manuel Cardoso, Mateus Felizardo< Teodósio, entre muitos outros, que talvez o fizeram mais esporadicamente .

 

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publicado por picodavigia2 às 09:23

A PESCA À BALEIA NA FAJÃ GRANDE

Sábado, 11.01.14

Todos os anos, ainda em plena Primavera, logo a seguir à Páscoa, chegavam à Fajã Grande, vindos da ilha do Pico, da vila de Santa Cruz e, sobretudo, das Lajes, homens cuja actividade principal era a baleação. Eram geralmente os oficiais e os arpoadores, mas também alguns marinheiros e, até, o vigia. Muitos deles traziam a família, alugavam casa e viviam na Fajã durante todo o Verão. A maior parte voltava na época seguinte e alguns fizeram-no anos a fio. A estes homens, profissionais experientes da caça à baleia, juntavam-se muitos outros baleeiros, bem menos experientes e pouco sabedores, naturais e residentes na Fajã, que eram agricultores e criadores de gado, mas com uma vontade gigantesca de também se dedicarem à baleação, reforçando, assim com os ganhos obtidos, o seu parco e débil orçamento familiar. Muitos destes homens, arreavam pela primeira, sem conhecimentos e sem prática, mas, no entanto e aos poucos, iam aprendendo, ganhando experiência, adquirindo sabedoria tornando-se baleiros competentes e, sobretudo, capazes de conciliar as suas actividades agrícolas e pecuárias com a pesca à baleia, que afinal só acontecia nos meses de Verão e nos dias em que, por indicação do vigia, se avistava baleia. Assim nos restantes dias podiam dedicar-se à sua actividade agrícola, trabalhando os seus campos e cuidando do seu gado.

Tudo começava com o vigia que, todos os dias, ainda noite escura, se deslocava para a Casa da Vigia, situado a bem lá no alto do Pico da Vigia e que, munido de uns binóculos potentíssimos, vigiava, com muita atenção e esmero, todo o oceano desde a Rocha do Risco, quase abrangendo os mares de Ponta Delgada e do Corvo até à rocha dos Bredos, na Fajãzinha.

Mal avistava uma baleia o vigia atirava uma bomba, se um fosse cardume, um foguete. De imediato um magote de homens, muitos deles abandonando os trabalhos dos campos, desatavam a correr, em direcção ao Porto Velho, onde estavam varados os botes e ancorada a Santa Teresinha, numa correria louca, espavorida e atropelada. Não havia contemplação, nem tolerância! Quem estivesse a ordenhar as vacas, a tirar o esterco ao palheiro, a ceifar erva numa lagoa ou fetos no Pocestinho, a sachar milho nas Furnas ou plantar inhames no Delgado, teria que deixar a meio o que estava a fazer e se trouxesse às costas um molho de lenha ou um cesto de inhames teria que o largar sobre a parede do descansadouro mais próximo e desandar, o mais rápido possível, na direcção do mar. Algum familiar mais chegado ou amigo mais próximo havia de lhe terminar a tarefa. Os velhos da freguesia, que já não podiam arrear e as crianças, se não houvesse escola, também se encaminhavam para o Porto, é verdade que numa correria menos comprometida, com o objectivo de se postarem à Eira, em cima do Cais, no Farol ou no Matadouro, a vê-los partir, os velhos a recordar os tempos de outrora, as crianças a sonhar que um dia ainda haviam de ser baleiros. A baleação, na Fajã Grande, como que estava no sangue de todos. As mulheres também não se haviam aquietado com o foguete. Antes, rápidas e céleres, tentavam chegar a tempo de lançar de terra para dentro dos botes já na água, os agasalhos e as sacas ou cestas cheias de pão, de bolo, de queijo, de linguiça e de torresmos, uma garrafa de vinho ou café, porque o dia poderia ser muito longo e a noite prolongar-se pela madrugada. Depois todos regressavam a casa, encaminhando-se, de seguida, para os campos para finalizarem as tarefas inacabadas ou para iniciarem outras.

Se o gasolina ainda não estava pronto, os botes partiam, à vela ou a remos se não soprasse aragem favorável, na procura do cetáceo, de acordo com a indicação do vigia. Em breve a Santa Teresinha apanhava-os, rebocando-os em alta velocidade. Era imperioso não perder tempo e chegar o mais rápido possível perto da baleia. Uma bandeira hasteada lá no alto do Pico e um pano da mesma cor, colocado nas encostas do Canto do Areal, indicavam a localização das baleias e a direcção que as embarcações deviam seguir.

Finalmente os botes aproximavam-se das baleias, enquanto o gasolina se afastava para que os barulhos do motor não as assustasse, pois qualquer ruído estranho podia amedrontá-las, fazendo com que se fugissem. Sobre as ordens do mestre que orientava a direcção e o movimento do bote com remo “esparrel”, o trancador, um dos homens mais valentes da companha, colocava-se, com os pés bem firmes na proa do bote, de arpão em riste, à espera de que a baleia voltasse à tona para lhe atirar em cheio.

Depois era o inferno! Uma vez ferido o cetáceo ora se lançava numa louca correria ora mergulhava nas profundezas do oceano, com o risco de arrastar bote e marinheiros que deixavam correr a corda do arpão, guardada numa selha e bem ensebada para que deslizasse menos perigosamente pela borda fora. O bote seguia o cetáceo numa correria cada vez mais alucinante, com um marinheiro de facalhão em riste para cortar a corda, caso o animal não parasse ou se enfiasse pelos fundos do oceano. A maioria das vezes a baleia, exausta e com necessidade de respirar, voltava à tona e reaparecia. Era então a vez da Santa Teresinha tomar parte na batalha e, aproximando-se com uma lança lhe atirar golpes sucessivos até, para gáudio de todos, matar por completo o cetáceo.

Finalmente o reboque até à fábrica do Boqueirão em Santa Cruz, tarefa que geralmente era realizada pelo gasolina, enquanto os botes, agora a remos e muito lentamente navegavam na direcção ao Porto Velho, onde eram aguardados e saudados, já noite escura, por uma pequena multidão, iluminando o porto com lanternas de petróleo.

 

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publicado por picodavigia2 às 07:45





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