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VELHINHOS – UM POEMA DE BERNARDOMACIEL

Domingo, 12.01.14

– José! Que mar feio e escuro!

Serão sinais de tufão?

E o céu, como está triste

Que faz mal ao coração...

 

São céus de inverno, Maria,

Imagem da nossa idade.

Vieram as nuvens e sombras,

Foise o sol da mocidade...

 

Quanto ao mar... não é bom

Estar a adivinhar mágoas...

Rezemos antes a Deus

Pelos que andam nessas águas.

 

Temos por lá nossos filhos

E esse mundo é como o mar...

Peçamos a Deus por eles.

Só Ele os pode guiar.

 

Ajoelharam lado a lado,

Rezando ambos baixinho.

Os seus corpos já não podem,

Mas a alma sabe o Caminho...

 

Casal velhinho e cansado,

Bendita a Fé e a Esperança!

Consoladoras divinas

Em que o mar da alma se amansa...

 

“Senhor! Fazei bons, felizes,

A todos e aos nossos filhos!”

E nos seus olhos as lágrimas

São astros cheios de brilhos...

 

Após a sua oração

Como eles crente e singela,

O velhinho, pela mão

Levoua junto à janela.

 

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publicado por picodavigia2 às 23:13

A RAZÃO DE SER

Domingo, 12.01.14

O Aires entrou no “Margem Direita” e sentou-se sozinho. O empregado demorou a trazer-lhe o café e isso obrigou-o a acender um cigarro. Finalmente, o moço, meio a olhar para a televisão, meio a olhar para a rua, dirigiu-se, lentamente, para a mesa, poisando-lhe em cima a chávena, assinalada pelo “Sical”. Contrariado, esmagou o cigarro quase inteiro, desfazendo-o na borda amarelada do cinzeiro. O café esfriara, mas tomou-o assim e sem açúcar. Por fim afastou a chávena a pingar de borra e acendeu outro cigarro, enquanto aguardava, pacientemente, uma vaga para o jornal. Todos os dias a mesma encenação!

Olhou ao redor. Um tipo, já de idade avançada apoderara-se do jornal, açambarcava-o como se fosse seu, usufruindo, regaladamente, toda a informação ali contida. Pairava agora, no ar, um silêncio enigmático, entrecortado apenas pelo som da televisão e pelo roncar dos carros que transitavam na rua. O empregado estagnara, de há muito, junto ao balcão, à espera de clientes. Entravam espaçados. Um agora, depois outro e finalmente um terceiro. Tomavam um café ao balcão, acendiam um cigarro e saíam. E o Aires acabou por ficar outra vez, sozinho, com o empregado e o homem que se assenhoreara do jornal e nunca mais o largava. Hesitou entre ir-se embora ou esperar. Aparentemente a leitura aproximava-se do fim; o tipo já ia nas páginas dos anúncios. O empregado continuava estagnado e indeciso, junto ao balcão De vez em quando, pegava no comando da televisão e ia mudando de canal. Depois vinha à porta e voltava para junto do balcão, num redemoinho lento e indeciso.

Finalmente, o homem desembaraçou-se do jornal. O Aires levantou-se, de rompante, na tentativa de o capturar. Porém o empregado, adivinhando-lhe a intenção, antecipou-se e colocou-lho, prazenteiramente, sobre a mesa, num gesto já estudado e com o qual denunciava uma vontade mal ensaiada de agradar aos clientes.

Agora era o Aires o dono e senhor de toda aquela informação, o detentor do que se passara no país e no mundo. Folheou páginas a fio. Leu tudo e não leu coisa nenhuma. A maioria das manchetes e dos títulos revoltavam-no: “Criança recém-nascida abandonada em contentor”, “Senhora assaltada em plena rua”, “Idosa violada e roubada”, “Escola sem pavilhão”, “Falta de chuva preocupa os agricultores do Alentejo”, “Mais de cem trabalhadores da Pedauto despedidos”, “Governo de costas viradas para os Sindicatos”, “Tiroteios aumentam na Tchechenia”, “ Liberdade para Pinochet”... Cansou-se depressa... Suspendeu a leitura... Olhou, através da montra enevoada e sentiu uma enorme revolta...

Voltou ao jornal. Saltou colunas, desfolhou páginas e nem olhou para os anúncios. Por fim optou pelas notícias regionais, “De Norte a Sul”, naquelas páginas onde se percorre o país de lés-a-lés, onde se relata o mais ínfimo pormenor do que se passa na mais pequena e recôndita aldeia do país. Saltava de título em título, de coluna em coluna e de página em página, como se, numa viagem fantástica, percorresse todas as vilas e aldeias de Portugal. Eram notícias sucintas, mas algumas prenderam a sua atenção. Curiosamente sentiu que havia um tema que se repetia página após página, coluna após coluna e fixou-se aí, sem saber porquê... Talvez porque andasse com a ideia de escrever uma história para os Jogos Florais de Ílhavo, cujo regulamento recebera dias antes. Agarrou-se mais firmemente ao jornal e fixou-se mais na leitura dos pequenos títulos que curiosamente se repetiam quase sem cessar: “Banda prepara procissão da festa da Sra da Ventura, em Ciradela”... Mais abaixo: “Procissão do Sr da Graça não sai por falta de Banda”, e logo a seguir: “Banda dos Bombeiros de Viatodos acompanha procissão dos Capuchos” e ainda: “Pároco contra Banda, por causa da procissão da Fradela”. Na página seguinte voltava ao tema: “Em Vila Gariz, o povo revolta-se contra procissão sem Banda”; mais abaixo: “Banda de Tabuado na procissão dos Passos”; e, no canto inferior esquerdo, em espaço ainda mais reduzido: “Em Juncal, povo revoltado! Sem Banda não há procissão”. Finalmente a última página das regiões referia: “Procissão da Ventura, pela primeira vez sem Banda”, e, por fim, “Banda de Ferraz na procissão do Terço”...

Saltou para a página de “Opinião”. Novamente um título lhe chamou a atenção: “Bandas Musicais, um património a defender”. Interessou-se e começou a ler aqui e além, o que mais lhe prendia a atenção: “...Desde os tempos mais remotos que a música andou associada a todas as manifestações festivas do homem, quer no aspecto religioso, quer no profano... A música está pois inerente a toda a vida humana, quer no seu aspecto lúdico, quer no religioso, quer até no social, cultural e, porque não, no laboral. Por isso mesmo, ela não pode ser apenas património de artistas e intelectuais ou de grandes cidades ou centros populacionais onde a vida cultural é mais intensa. Ela também pertence ao povo humilde, talvez mesmo analfabeto, das pequenas aldeias e dos lugares mais recônditos, mas que têm uma sensibilidade e um gosto musical, como os grandes génios da música, embora se manifeste de forma muito diferente e atinja outros objectivos... As Bandas de Música, em muitas localidades também chamadas Filarmónicas, são uma das formas de preservar esta riqueza cultural do nosso povo. A sua criação resulta, geralmente, dum conjunto de esforços comuns, dum trabalho de grupo, por isso mesmo elas têm também uma componente social muito grande, pois congregam esforços e sacrifícios, para que representem dignamente a comunidade em que estão inseridas. É sobretudo nas pequenas aldeias, onde infelizmente rareiam os espectáculos e as realizações culturais e entre povo simples e humilde, mas dotado de grande sensibilidade e riqueza musical, que as Bandas Musicais são a expressão mais pura duma verdadeira cultura musical. Elas permitem, também, uma aproximação das pessoas, uma conjugação harmónica de valores e interesses, indiciam uma notável forma de cultura popular e permitem uma procura acentuada de padrões de interesse comum...” Saltou mais umas linhas... Mais adiante: “...É sobretudo nas festas e arraiais populares que esta riqueza cultural se manifesta, mas é nas fervorosas procissões de cada festa religiosa que ela tem o seu epicentro...” Por fim, concluía o articulista: ”Banda e procissão, um binómio que a cultura popular enraizou e desenvolveu, que agregam e conjugam um sensibilidade artística, uma criatividade espontânea e uma fé inaudita.”

- Bom – respirou o Aires, fechando e dobrando pausadamente o jornal – e eu a cismar que o tema escolhido para os Jogos Florais de Ílhavo não tinha razão de ser!...

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publicado por picodavigia2 às 22:40

OVELHA QUE BERRA

Domingo, 12.01.14

“Ovelha que berra dentada que perde.”

Os ovinos sempre tiveram um lugar de destaque e de grande importância em toda a cultura literária oral fajãgrandense, assim como estão presentes em muitos dos costumes, ditos e até em algumas tradições da freguesia, ocupando, inclusivamente, um lugar de relevo na gastronomia e, sobretudo, de grande influência na economia da freguesia mais ocidental da Europa. A razão é simples. Nos primórdios do povoamento não apenas no lugar das Fajãs mas também em toda a ilha das Flores, predominava a criação de ovelhas e carneiros. Nesses tempos ancestrais, o gado vacum era de mais difícil aquisição e a riqueza da ilha, em termos de pastagens e verdura, não se contemplava com a simples criação de caprinos, menos exigentes nos seus cardápios herbívoros e, consequentemente, sempre de reduzida dimensão na ilha das Flores. Era pois a criação de ovelhas e carneiros que imperava nos primórdios do povoamento da Fajã Grande, facto que se traduziu, naturalmente, em que se mantivessem, através dos tempos, muitos costumes, tradições e ditos relacionados com aqueles animais. Quanto aos primeiros, alguns mantiveram-se até à década de cinquenta do século passado, como era o caso da festa do dia de “Fio”. No que às tradições diz respeito, recorde-se por exemplo o facto de na mesma década ainda, com alguma frequência, se verem os chifres dos carneiros às portas das casas com a intenção de evitar o mau-olhado e outras maleitas. Finalmente muitos dos provérbios recolhidos na freguesia e utilizados no dia-a-dia, assim como muitos dos seus falares e dizeres, têm como referencial o gado ovino.

É o caso deste interessante e profundo adágio. Recordando o exemplo da ovelha que, se ocupar o seu tempo simplesmente a berrar, naturalmente que irá perdendo um tempo precioso que deveria ocupar para se alimentar, também os humanos não devem perder o seu tempo a palrar ou simplesmente a falar porque assim o desperdiçam. Devem sim, ocupar-se a trabalhar mais do que a dar à trela. Trata-se de um conselho muito oportuno e de grande acuidade, numa pequena localidade em que as pessoas, por vezes, ocupam grande parte do seu tempo a falar “na vida dos outros”, com a agravante de muitas vezes fazer com prejuízos de terceiros.

Segundo este útil e douto provérbio, as pessoas deveriam, pois, seguir o exemplo das ovelhas, ou seja, aproveitar o seu tempo em proveito de si próprios, isto é, trabalhando. A ovelha impõe-se, pois, como uma espécie de arquétipo ou modelo, cujo exemplo deve ser seguido,

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publicado por picodavigia2 às 17:28

E A MONTANHA COBRIU-SE COM UM MANTO DE ESPLENDOR

Domingo, 12.01.14

O Pico, talvez sem o saber ou até sem o querer ou sequer o desejar, envolveu-se, novamente, durante uns dias, em mais uma roda-viva contínua, num rodopio permanente e num reboliço desmesurado.

O Pico recebeu uma visita inédita, inesquecível, inebriante, ternurenta e benfazeja. Um jacto de ternura e simplicidade a irrigar a ilha e a alcantilar a lava enrijecida pelo tempo e decalcada, outrora, pelo trilhar permanente de pés descalços ou de albarcas frágeis e sibilantes. Uma golfada de espuma e graciosidade, a abrir-se em cachão e a tingir o oceano com o perfume inebriante da cana roca e da madre silva. Uma auréola de luminosidade e alegria, a explodir espontânea e doce e a cobrir a montanha com um manto de safiras e diademas.

Ela chegou! Inicialmente tímida e hesitante porque a montanha ainda estava imersa numa letargia irreconhecível e num sono de profundo recolhimento. Mas o Pico despertou, de imediato, com a sua chegada e logo avisou a montanha, implorando-lhe que se cobrisse de luz, de alegria, de graça, de esperança, de sumptuosidade e de nobreza. E foi então que ela, aos poucos, foi perdendo a timidez, desfazendo a hesitação e eis que despertou por completo, agarrando-se ao ciciar sibilante do vento, apegando-se ao fluxo perene das marés, soltando o seu destino sobre cada amanhecer, despejando um rio de sorrisos sobre os resíduos do enxofre da lava basáltica, transformando o Pico num rio onde despejava os seus desejos inocentes, num mar onde imperava a ternura, a inocência e a graciosidade.

Havia morangos dispersos por quintais e jardins, à espera que se abrissem os umbrais das portas e ela saísse em pesquisa e os agarrasse como se fossem troféus guardados, religiosamente, pelos seus antepassados. Nos campos floresciam physalis amarelados, protegidos em capotes aveludados, à espera que um sorriso incandescente os desfizesse em enlevos fascinantes. Nos beirais das casas pendiam, suspensas em ramos ressequidos, bagos esverdeados, gotas coloridas, aspergindo o perfume adocicado das uvas. Por entre bardos de hortênsias multicolores intercaladas com ramos de urze e troncos de cedro carcomidos pelo tempo, em pastagens incrivelmente verdejantes, manadas de “mumus” fixavam, com determinação e fascínio, o vibrar ecoante da sua passagem. O chão cobria-se de passadeiras verdes e aveludadas que, soltando um sorriso inebriante e permanente, convocavam destinos de sonho e edificavam romagens de encanto. As tardes eram sonolentas e as noites silenciosas incrivelmente mágicas. Adormecia sob as lajes negras e rijas, que o mar beijava sem jeito e sem pressa, mas, de manhã e à tardinha, a água era a rainha que impunha, dominava e alterava os destinos. E no silêncio nocturno, iluminado pelo tremelicar de estrelas e constelações, esvoaçavam, a caminho do oceano, cagarras, enchendo o céu com cantares aparentemente agonizantes, mas sublimes, misteriosos e originais.

E o Pico, de repente, transformou-se num jardim, numa espécie de éden primitivo,
onde se soltavam desejos, se encobriam desassossegos, se mistificavam vontades, se geriam sonhos, porque até a montanha, com a sua chegada, se cobrira, inequivocamente, com um manto de esplendor suave, vivificante e redentor.

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publicado por picodavigia2 às 16:59

A FORMIGA E A NEVE

Domingo, 12.01.14

Uma formiga prendeu o pé na neve e perguntou:
“Ó neve, tu és tão forte que o meu pé prende?”
Responde a neve:

“Tão forte sou que o Sol me derrete.”

A formiga foi ter com o Sol e perguntou-lhe:
“Ó Sol, tu és tão forte que derretes a neve que o meu pé prende?”
Responde o Sol:

“Tão forte sou eu que a parede me tapa.”

A formiga foi ter com a parede e perguntou-lhe:
“Ó parede, tu és tão forte que tapas o Sol, que derrete a neve, que o meu pé prende?”
Responde a parede:

“Tão forte sou eu que o rato me fura.”

A formiga foi ter com o rato e perguntou-lhe:
“Ó rato, tu és tão forte que furas a parede que tapa o Sol, que derrete a neve, que o meu pé prende?”
Responde o rato:

“Tão forte sou eu que o gato me come.”

A formiga foi ter com o gato e perguntou-lhe:
 “Ó gato, tu és tão forte que comes o rato que fura a parede, que tapa o Sol, que derrete a neve que o meu pé prende?”
Responde o gato:

“Tão forte sou eu que o cão me morde.”

A formiga foi ter com o cão e perguntou-lhe:
“Ó cão, tu és tão forte que mordes o gato, que come o rato, que fura a parede, que tapa o Sol, que derrete a neve que o meu pé prende?”
Responde o cão:

 “Tão forte sou eu que o pau me bate.”

A formiga foi ter com o pau e perguntou-lhe:
“Ó pau, tu és tão forte que bates no cão, que morde o gato, que come o rato, que fura a parede, que tapa o Sol, que derrete a neve que o meu pé prende?”
Responde o pau:

“Tão forte sou eu que o lume me queima.”

A formiga foi ter com o lume e perguntou-lhe:
“Ó lume, tu és tão forte que queimas o pau, que bate no cão, que morde o gato, que come o rato, que fura a parede, que tapa o Sol, que derrete a neve que o meu pé prende?”
Responde o lume:

“Tão forte sou eu que a água me apaga.”

A formiga foi ter com a água e perguntou-lhe:
“Ó água, tu és tão forte que apagas o lume, que queima o pau, que bate no cão, que morde o gato, que come o rato, que fura a parede, que tapa o Sol, que derrete a neve que o meu pé prende?”
Responde a água:

“Tão forte sou eu que o boi me bebe.

A formiga foi ter com o boi e perguntou-lhe:
 “Ó boi, tu és tão forte que bebes a água, que apaga o lume, que queima o pau, que bate no cão, que morde o gato, que come o rato, que fura a parede, que tapa o Sol, que derrete a neve que o meu pé prende?”
Responde o boi:

Eu sou tão forte que bebo a água, que apaga o fogo, que queima o pau, que bate o cão, que morde o gato que come o rato que fura a parede que tapa o Sol, que derrete a neve que prende o pé da formiga.

Responde o boi:

“Tão forte sou eu que o carniceiro me mata.”

Pergunta a formiga:
“Ó carniceiro, tu és tão forte que matas o boi, que bebe a água, que apaga o lume, que queima o pau, que bate no cão, que morde o gato, que come o rato, que fura a parede, que impede o Sol, que derrete a neve que o meu pé prende?”
Responde o carniceiro: “Tão forte sou eu que a morte me leva.”

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publicado por picodavigia2 às 15:59

SORRIDENTE

Domingo, 12.01.14

MENU 23 – “SORRIDENTE

 

ENTRADA

 

Rodelas de queijo fresco acamadas sobre rodelas de batata-doce, com creme de iogurte de morango.

Salada de pimentos, com cebola, alho, passas e bolacha, regada com mel.

 

PRATO

 

Bifinhos de peito de peru, grelhados em azeite e alho, regados com sumo de limão, creme de queijo e ervas aromáticas.

Puré de talos de brócolos e batata-doce e damascos grelhados, acompanhados de cubinhos de queijo de cabra.

 

SOBREMESA

 

Pera e geleia de morango.

 

Preparação da Entrada: refogar a cebola, o alho e os pimentos, finamente picados, em azeite. Juntar a bolacha de água e sal desfeita. Colocar no prato e cobrir com mel, ornando o prato. Grelhar rodelas de batata-doce cozida e colocar-lhe as rodelas de queijo, ladeados por cubinhos de queijo de cabra

 

Preparação do Prato: Temperar e grelhar os bifinhos de peru, regando-os com sumo de limão. Cozer os talos e as folhas dos brócolos, retirando-lhes a casca exterior. Reduzir a ou bater no liquidificador. Reservar. Juntar as batatas, uma colher de creme de queijo fresca e as ervas aromáticas. Misturar, formando o puré. Grelhar os damascos, partindo-os ao meio. Dispor no prato.

 

Preparação da sobremesa – Processo tradicional.

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publicado por picodavigia2 às 14:18

A VACA LOUCA (DIÁRIO DE TI’ANTONHO)

Domingo, 12.01.14

“Hoje vou contar mais uma “estória” muito antiga que meu pai me contava quando eu era bem pequeno.

Há muitos, muitos anos - contava ele - na Cuada, vivia um homem que passava todo o seu santo dia a tratar das duas vaquinhas leiteiras que tinha e que eram o seu sustento e da sua família. Tratava-as com tanto cuidado e carinho que elas, para ele, eram quase como se fossem pessoas da sua família. Eram as meninas dos seus olhos. Ai tal amor, aquele homem tinha às suas vacas! No Inverno levava-as aos pastos, durante o dia e à noite recolhia-as ao palheiro, protegendo-as dos temporais e do frio e alimentando-as com maçarocas de milho e erva bem verde e fresquinha que ele próprio acarretava às costas, das lagoas do Curralinho. No Verão, para que elas não sofressem o calor do dia, guardava-as no estábulo e levava-as a pastar aos campos pela frescura da noite.

Ora aconteceu que um certo dia, um das vacas, quando ele as ia levar a um pasto que tinha nos Lavadouros, ao passar pelo Calhau do Tufo, junto à canada que dá para a Fajã das Faias, assustou-se por qualquer razão e desata a correr a toda a velocidade por aquela canada a baixo, na direcção da Ribeira Grande. Parecia que estava louca, a “cramilhana”. Tinha o diabo no corpo, a maldita. O lavrador ficou preocupado, pois não tinha pastos para aquelas bandas e a vaca nunca tinha passado naquela canada. Por isso começou a chamar por ela:

 — Formosa! Formosa! Ó Formosa? Que diabo terá acontecido a esta vaca?

Prendeu a outra vaca à beira do caminho, num galho duma faeira e desata a correr tanto quanto podia, pela canada abaixo, atrás da rês, até que conseguiu agarrar-lhe o rabo, lá em baixo, já quase junto à Ribeira Grande. Mas não foi capaz de aguentá-la, nem impedi-la de continuar a correr como louca, a fugir, a caminhar desnorteada e a entrar por uma grandessíssima furna dentro, arrastando o domo atrás de si.

 Correu, correu sem parar, pela furna dentro e o dono sempre atrás a puxar por ela, até que chegou a um lugar nunca imaginado pelo homem. Lá muito para dentro, bem no interior da furna corriam, saltavam, andavam de um lado para o outro muitos homens, mas eram muito pequeninos e tinham muitas vacas, umas com galhos enormes, outras “moichas”. Havia também muita roupa estendida ao sol nas beiras dos caminhos e muitos galos também a correr de um lado para o outro e a cantar.

 O animal entretanto tinha parado. O homem, pasmado, desprendeu-se do rabo da vaca, a qual desapareceu no meio da multidão que andava misturada com os animais domésticos. O homem nunca mais a viu, por isso, cada vez mais admirado, nem sabia como sair dali.

 Enquanto andava por ali, à deriva e sem saber o que fazer, viu pelas beiras do caminho umas plantas muito estranhas que nunca tinha visto na Cuada.

 Agarrou numa, puxou com toda a força e por fim arrancou-a. Vendo que não encontrava a vaca que o tinha arrastado até ali, resolveu voltar ao sítio onde deixara a outra, pelo mesmo lugar por onde tinha ido, trazendo na mão uma planta muito estranha, mas que seria a prova de que tinha ido aquele lugar misterioso.

 Os vizinhos do lavrador não queriam acreditar naquela história, mas ele mostrava a planta que tinha trazido consigo e que as pessoas nunca tinham visto igual. A furna, por onde o lavrador entrou, já lá não está visível mas a planta que o lavrador trouxe passou a crescer na Cuada e só desapareceu, misteriosamente, depois da morte do lavrador.

Se esta estória é verdadeira ou falsa, não sei, mas era assim que meu avô a contava.

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publicado por picodavigia2 às 11:05

O SENHOR ANTÓNIO BARBEIRO

Domingo, 12.01.14

O senhor António Barbeiro morava na Assomada, uns escassos metros a seguir à minha casa, mesmo ali na entrada da Canada do Pico, numa casa de dois andares. O piso superior era destinado à habitação, sendo que no rés-do-chão ou primeiro andar se situava o palheiro das vacas, como era hábito na maioria das casa da Fajã, e, na parte virada a sul, a oficina, de carpinteiro, de relojoeiro, de faz-de-tudo.

Na realidade, o senhor António Barbeiro, no seu tempo, era o que na realidade se poderia considerar um verdadeiro “self-made man”. Tudo o que sabia e conhecia, quer na teoria quer na prática, apreendera-o por si próprio, graças à sua grande inteligência, à sua habilidade natural e à sua capacidade de aprender quer através da sua própria experiência e de muitas leituras que fazia. Por isso mesmo era, incontestavelmente, o homem mais habilidoso e talvez mesmo o mais inteligente e o mais culto da freguesia. Um autêntico prodígio, este senhor.

Para além de também se dedicar à agricultura e de criar uma vaca, a sua ocupação principal era a de relojoeiro, consertando, com uma eficácia desmedida e sabedoria natural, quantos relógios lhe apareciam na oficina. No entanto e porque ao tempo os relógios ainda nem eram muitos, também se dedicava à carpintaria, construindo sobretudo mobílias de sala e de cozinha, à reparação de todo o tipo de máquinas, desde os fogões primus aos moinhos de café e ainda a pintar interiores de casas, colocar vidros nas janelas e agravos em loiça partida, executando todas estas actividades com notável perfeição e competência desmesurada. Também se dedicava à apicultura, possuindo uma boa quantidade de colmeias, num prédio que possuía em frente à sua casa, produzindo mel de excelente qualidade. Para além disso, era uma pessoa extremamente culta, com quem se podia estabelecer um diálogo interessante, sério e enriquecedor sobre qualquer assunto. De tudo falava, tudo conhecia, dominando alguns pormenores do conhecimento científico, dando opiniões, comentando, com humildade e sabedoria, os temas da actualidade que na altura eram conhecidos na Fajã Grande. Para além de ser um grande pensador, lia muito, o que de facto enriquecia a sua cultura.

Enviuvou ainda bastante novo, vivendo na década de cinquenta com os dois filhos mais novos, a Alda e o Orlando, que algum tempo depois partiram para a ilha Terceira e mais tarde para o Canadá. Por essa altura passou a viver na companhia da senhora Ester, com quem casou alguns anos mais tarde, sendo, no entanto, durante muito tempo o pioneiro, na Fajã Grande, das actuais “uniões de facto”.

Também se dedicava ao fabrico de miniaturas de utensílios de uso tradicional, tendo feito, a meu pedido belo tear.

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publicado por picodavigia2 às 09:19

BALCÃO DE LAVA

Domingo, 12.01.14

Balcão de lava,

negra,

basáltica.

 

Lagar de murmúrios,

miradouro de tormentos!

 

Era ali,

sobre uma seira

enviesada

que te sentavas,

(avó)

todas as tardes.

 

Com a mão direita,

em aba, sobre os olhos

(para te aliviar a cegueira)

observavas,

uns após os outros,

todos os navios

que vinham e iam,

que nasciam

ou morriam,

no horizonte.

 

Queria eu

comungar

os sonhos em que mergulhavas,

os desejos que te enchiam o peito,

desenhados,

nas lágrimas ocultas,

dos teus olhos cansados.

Mas os amargos sorrisos,

que com elas intercalavas,

para as disfarçar,

impediam-me de adivinhar.

 

E tu sabias…

 

Por isso me chamavas,

me envolvias no teu regaço

e aconchegavas,

como se eu fosse

um pássaro sem ninho,

abandonado,

naquele balcão de lava negra.

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publicado por picodavigia2 às 00:50

QUEIXA SEM REPRIMENDA

Domingo, 12.01.14

Eu não ainda não tinha chegado a casa. Fora, como habitualmente, levar as vacas ao Outeiro Grande e, no regresso, desci pela canada que dava para Cabaceira, escapulindo pelo Delgado. Abdicava do habitual e já fastidioso trajecto do Covão e ia saciar-me nas maças da horta da minha avó, mesmo ali, a seguir ao largo de Santo António, com portão de entrada, precisamente no enfiamento daquela canada.

A Rosa Maiata, ou porque não contivesse as suas emoções por mais tempo ou porque adivinhasse a minha ausência, não esteve com meias medidas e toca a batucar à porta da cozinha da minha casa, com meu pai e meus irmãos já abancados à mesa.

Meu pai, que se sentava à mesa da cozinha sempre de costas para a porta da frente, voltou-se e dando de caras com a estranha e indesejável intrusa que de tão excitada que estava quase nem o ouviu, exclamou:

- Ah! És tu, Rosa! Entra, entra.

Como a Rosa permanecesse queda e muda, o meu progenitor repetiu:

- Entra, mulher. Já te disse que entres.

- Nem é preciso entrar que não tenho tempo. – Exclamou a Maiata e, voltando-se para minha irmã que se levantara para lhe abrir a porta, segurando-a, semiaberta, acrescentou: - Não me vou demorar. É só uma palavrinha com teu pai.

Que me queres, Rosa? - Perguntou o meu progenitor e repetiu – O que me queres?

Continuando estancada à porta, como se tivesse algum receio de entrar, a Rosa Maiata, numa espécie de aflição exagerada, tentava explicar: – Antonho, passaste há pouco tempo na minha do Pico? Junto à ramada das Faias do Norte tinha um eito com uma grandeza de morangos. Não sei se chegaste a vê-los? Era uma lindeza! Sabes o que aconteceu?

Meu pai retorquiu:

- Não sei, Rosa, não sei. Nem percebo o que tenho a ver com isso.

De repente, sem que ninguém contasse com isso, a Rosa explodiu, numa exaltada indignação:

- Ai não tens, não! Vamos ver, vamos ver! Pois olha, foi a Maria Fangueiro que me veio contar tim-tim-por-tim, que o teu Álvaro fez. Aquele “malcriadão” vinha com a ovelha do Canto do Areal. A maldita fugiu-lhe, foi para cima dos morangos e deu-me cabo deles todos. E agora? Quem mos paga? E tu dizes que não tens nada a ver com isto!

Minha irmã tentando por água na fervura e alhear à contestação, lá ia interpondo.

- Mas a senhora Rosa sabe bem como é a Maria Fangueiro… Uma grande mexeriqueira e, além disso, inventa muitas coisas…

Meu pai, mantendo a calma inicial, perguntava:

- Rosa. Viste alguma coisa? Viste lá, alguém meu? Não viste, pois não? – E perante o silêncio comprometedor da queixosa concluía: - Então não podes acreditar no que se diz. Diz-se tanta mentira nesta freguesia…

- Ah! É assim. É isso que pensas? Pois vou fazer queixa ao regedor.- E saiu porta fora como se um rastilho lhe pegasse, proferindo imprecações, enquanto meu pai levantando-se e vindo fechar a porta, lhe atirava sem que ela já o ouvisse: - Vai-te queixar ao diabo-que-te-carregue.

Quando cheguei a casa e entrei na cozinha, ainda todos estavam sentados à mesa, envolvidos numa acesa discussão. Minha irmã queixando-se da “mingueza” de leite que ficava em casa, que nem chegava para fazer um queijo, meu pai a consumir-se com a Cooperativa que há três meses não pagava e meu irmão Justino a propor que, por isso mesmo, o melhor era deixarmos a Cooperativa e mudarmo-nos para a Máquina de Cima. E concluía:

- O Martins e Rebelo paga todos os meses e paga mais cinco centavos por litro do que a Máquina de Baixo. Muitos já se passaram para a de Cima

Meu pai decidido retorquia;

- Isso é que nunca!... Sempre estive na Cooperativa e dela nunca hei-de sair. O Martins e Rebelo o que quer, é destruir a Cooperativa. Paga mais agora e depois quando a Cooperativa for abaixo, vai pagar o leite ao preço que quiser. Os que mudam estão a vender-se, estão a destruir a Cooperativa por cinco ou dez centavos. E o trabalho e sacrifício que foi para criá-la!... Eu fui um dos fundadores e de lá nunca hei-de sair. Para esse ladrão do Martins & Rebelo é que nunca vou. Prefiro fazer queijos em casa ou dar o leite inteiro aos bezerros e ao porco.

E foi esta bendita, acesa e emotiva discussão sobre as debilidades, fraquezas e vicissitudes dos lacticínios na ilha das Flores que, fazendo meu pai esquecer a queixa da Rosa Maiato, me livrou duma boa reprimenda.

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