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MORTE DO PRÍNCIPE AFONSO

Segunda-feira, 13.01.14

Morte do Príncipe Afonso” é um texto oral, que faz parte do património cultural da Fajã Grande. Foi recolhido pelo poeta, crítico literário e investigador quer a nível da escrita quer a nível da tradição oral, Pedro da Silveira, em 1941, junto de duas senhoras, uma chamada Maria da Natividade Rodrigues de 70 anos de idade e de uma outra de nome Maria do Rosário Jorge, dez anos mais nova, mas que apenas sabia o texto até ao 13º verso. Pedro da Silveira publicou-o na “Revista Lusitana” (Nova Série) nº 7 1986 página 106-107. Este e outros textos eram contados aos serões pelos nossos avós e por outras pessoas mais antigas e assim se foram transmitindo de geração em geração, pelo menos até à década de cinquenta.

“Casadinha de oito dias, à janela espairecida,

Viu vir um cavaleiro, que triste aspecto trazia.

«Que nova nos traz aqui, que nova para me dar?»

«Trago uma nova bem triste, maviosa de contar:

Que o vosso marido, senhora, é morto, está a acabar,

Caiu do cavalo abaixo, no meio de um areal,

Arrebentou-lhe o corpo, sem esperança d’escapar.»

Princesa que tal ouviu, tratara de caminhar.

Com seu capote nos braços, sem podê-lo enfiar,

Suas aias atrás dela, sem podê-la alcançar.

Chegando lá, adonde ele, tratara de o abraçar.

«Mulher minha, nã m’abraces, nã m’acabes de matar.

Ainda há homens no mundo para contigo casar.

«Esse conselho, marido, nunca o hei-de tomar;

Pegarei nas minhas contas, por ti hei-de as rezar.

Já nã me chamem senhora, senhora dona Maria,

Chamem-me a triste coitada, espedida de alegria,

Que lhe morreu o seu bem que era a flor da galhardia.»”

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publicado por picodavigia2 às 21:29

A ÙLTIMA BATALHA NAVAL DE CARVALHO ARAÚJO

Segunda-feira, 13.01.14

O navio São Miguel partiu da Madeira com destino aos Açores a 13 de Outubro de 1918. Transportava carga diversa e cerca de duzentos e seis passageiros. Estávamos em plena Guerra Mundial. Navios de guerra e submarinos alemães povoavam o mar dos Açores com frequência, por isso o comandante pediu apoio e protecção à Marinha Portuguesa, sendo-lhe enviado para escolta o navio patrulha Augusto Castilho, um antigo arrastão, transformado em navio de guerra, comandado pelo primeiro-tenente Carvalho Araújo, sendo uma parte da sua guarnição constituída por pessoal da Armada e por antigos tripulantes do antigo arrastão, menos experientes na arte bélica.

Ao amanhecer do dia 14 de Outubro encontravam-se os dois navios a cerca de duzentas milhas de Ponta Delgada, quando, subitamente, começaram a ver cair à sua volta granadas de grosso calibre que levantavam enormes colunas de água. Só então se aperceberam de que estavam a ser atacados a tiro de canhão por um submarino navegando à superfície. Aos gritos de «submarino!», «submarino!», o S. Miguel aumentou ao máximo a sua velocidade enquanto o Augusto Castilho passava a postos de combate, aumentava também a velocidade e começando a disparar contra o submarino e a lançar uma cortina de fumo para ocultar o São Miguel.

O submarino era alemão e estava armado com dois enormes canhões de grande calibre. O seu comandante era o experiente capitão-tenente Von Arnaul de La Periére. 

Iniciou-se então uma insólita batalha naval, com tiros de artilharia trocados entre a minúscula peça de ré do navio patrulha português e os dois monstros do submarino germânico. Graças à cortina de fumo lançada pelo Augusto Castilho e à pequena dimensão do alvo, os artilheiros alemães não conseguiam acertar com nenhum tiro no navio português, mas, por fim, as caixas de fumo acabaram-se, a visibilidade melhorou. O submarino aproximou-se e as granadas alemãs começaram, novamente, a cair muito perto das duas embarcações portuguesas.

Receando que o São Miguel fosse atingido, o comandante Carvalho Araújo inverteu o rumo do Augusto Castilho e avançou direito ao submarino, mas o navio patrulha português começava a ser atingido por estilhaços de granadas e a ter os primeiros mortos e feridos. Cerca de uma hora depois de ter começado o combate, o comandante Carvalho Araújo, vendo que o São Miguel já estava muito afastado, inverteu novamente o rumo e tomou o caminho do vapor, perseguido pelo submarino que continuava a bombardeá-lo intensamente. Nenhuma das granadas alemãs até então lhe tinha acertado em cheio, mas as que caiam mais perto produziam uma chuva de estilhaços que continuavam a fazer vítimas. Pelas oito da manhã acabaram-se as munições do navio patrulha português. Mais uma vez o comandante Carvalho Araújo inverteu o rumo e aproou ao submarino unicamente com a intenção de gastar todas as munições antes de se render. Quando estas se esgotaram mandou parar as máquinas e colocar a bandeira a meia adriça. Mas o fogo do submarino alemão continuava. O comandante português mandou içar a bandeira branca juntamente com a bandeira nacional, mas nem por isso o fogo do submarino abrandou. Nessa altura uma granada acertou em cheio no patrulha e uma onda de estilhaços varreu o navio. O comandante Carvalho Araújo caiu morto. O imediato e outros membros da tripulação ficaram feridos

Foi então que ocorreu um acidente grave a bordo do submarino. Uma das suas granadas explodiu prematuramente ao sair da boca da peça provocando avarias no seu casco exterior e em alguns tanques de combustível, sendo obrigado a suspender as hostilidades a fim de reparar as avarias, pelo que, o comandante do submarino deu ordens para cessar-fogo, pondo termo ao combate.

Ao ser içado o sinal de rendição, a guarnição do navio patrulha português colocou as embarcações na água, abandonando o navio. Mas uma das baleeiras estava muito danificada e foi ao fundo. A outra com vinte e nove homens a bordo, muitos deles feridos, seguiu à vela, sob o comando do aspirante Samuel Vieira, para a ilha de Santa Maria onde chegou dois dias depois, tendo morrido um dos feridos em combate durante a viagem. Os restantes doze homens, que tinham sido os últimos a deixar o navio, conseguiram, com um sobretudo dobrado, remendar o bote no qual, sob o comando do guarda-marinha Armando Ferraz, alcançaram a ilha de São Miguel após uma portentosa viagem de cerca de duzentas milhas a remos, sem comida e praticamente sem água.

O Augusto Castilho acabou por ser afundado com cargas explosivas colocadas a bordo.

 

(Fonte: Portal da Marinha)

 

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publicado por picodavigia2 às 18:21

PALAVRAS, DITOS E EXPRESSÕES UTILIZADOS NA FAJÃ GRANDE (VIII)

Segunda-feira, 13.01.14

Acartar – Acarretar.

Aleive – Acusação maligna, calúnia.

Amigar-se – Amancebar-se.

Andar a torrar favas – Não fazer nada, andar ao desvario.

Azeite-doce - Azeite normal, de oliveira que na ilha era usado quase somente como medicamento.

Banbalear – Andar abaixo e a acima, tremelicar.

Badameco - Pessoa a quem não se deve dar importância. Possivelmente de origem americana.

Belga   - Qualquer faixa de terreno agrícola, comprida e estreita e geralmente sobranceira a outra.

Bocadinho – Pequena quantidade, pouco

Bolacha no rabo – Palmada no rabo.

Caçoar – Fazer pouco, gozar.

Caganita - Pessoa muito fraca, que não pode com quase nada. É usado no sentido depreciativo.

Canteiro - Espaço destinado a criar a planta da batata-doce. Era sempre feito junto das casas, tinha forma quadrangular e era protegido por um bardo de milho. Cavado em grande profundidade era-lhe colocado bastante estrume e sobre este, uma camada de terra e as batatas, também cobertas co, terra. A rama nascida era cortada e plantada nos campos para dar a batata-doce, fundamental na alimentação dos humanos e na engorda dos porcos.

Catrapiscar o olho – Namorar.

Cão da Meia-noite – Um dos nomes porque era conhecido o diabo.

Dar oividos – Ouvir mexericos, ouvir o que outros dizem.

Destrocar – Trocar

Destróia - Pessoa, geralmente criança, que não se porta lá muito bem. Possivelmente tem a sua origem no verbo destruir.

Diabo-que-te-carregue – Expressão usada para indicar o desprezo que se tem por outra pessoa.– Expressão usada para indicar o desprezo que se tem por outra pessoa..

Encher o pandulho – Comer em demasia.

Esbagoar - Passar as contas do terço ou dizer muitas orações. Possivelmente por assimilação com o verdadeiro significado - tirar os bagos a.

Estar somenos ou estar mum somenos – Estar muito mal..

Enxógalhar – Agitar, mexer,

Ficar com as calças na mão – Ser apanhado desprevenido.

Fonte – Fontanário.

Grotão            - Grandes vales que existem nos matos..

Home - Homem

Lambão - Pessoa que come muito.

Mancheia - Pequeno monte de qualquer produto ceifado mais ou menos da espessura de uma mão e que o ceifeiro vai colocando atrás de si e que depois é amarrado para mais facilmente ser transportado.

Marmelo - Diz-se de algo grande ou descomunal, incluindo pessoas..

Mum perfeitinho – Criança bonita e saudável.

Não vais lá das canetas – Não consegues..

Pimpolho - Criança

Pinguinha - Uma pequena quantidade de qualquer coisa.

Ponteiras – Argolas de metal, com rosca interior, que se aparafusavam nas pontas dos cornos dos bovinos.

Para quieto – Acalma-te. Sossega um pouco.

Puxar pelo focinho – Desafiar, espicaçar alguém.

Puxar pela cabeça – Lembrar-se, esforçar-se por recordar algo.

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publicado por picodavigia2 às 16:01

O MANUEL MANQUINHO

Segunda-feira, 13.01.14

No início da década de cinquenta chegavam, habitualmente, à Fajã Grande muitos baleeiros vindos do Pico e um ou outro do Faial. Geralmente traziam as famílias, fixavam-se na freguesia, alugavam casas e ali permaneciam durante o verão, apenas regressando às suas terras quando a safra baleeira terminava. Alguns voltavam no ano seguinte e um ou outro fixou-se por ali durante anos e anos.

Entre estes experientes baleeiros picoenses que demandavam a freguesia mais ocidental da Europa, geralmente oficiais e trancadores, chegou um vigia. Chamava-se Manuel Caetano da Silva e vinha da Calheta de Nesquim, de onde era natural. Ali nascera em 1924, sendo mais tarde funcionário das Finanças nas Lajes do Pico, onde viveu durante alguns anos. Viveu na Fajã Grande, na companhia da família, alugando a casa que pertencia o José Tomé, paredes meias com a Praça

Na Fajã Grande, Manuel Caetano da Silva, coadjuvado durante muitos anos pelo António Machado, dedicou-se à vigia da baleia, de que era um exímio praticante. Tanto na Fajã, como noutros lugares das Flores e até no Corvo, onde também foi vigia de baleia durante alguns anos, assim como no Pico, Manuel Caetano da Silva era conhecido por “Manuel Manquinho”. A razão de ser deste epíteto devia-se a facto de desde de nascença ser dotado de um grande defeito físico, uma vez que não tinha a parte inferior da sua perna esquerda, a partir do joelho, nem o antebraço do mesmo lado.

Esta deficiência obrigava este homem a que, quando na posição de pé, parecesse que estava de joelhos, uma vez que fixando o coto da perna esquerda no chão, sempre protegido por uma bota adequada, era forçado a ter a perna direita flectida. Esta distorção, pouco funcional quando o homem se deslocava em terreno plano, era-lhe, no entanto, muito útil e prática quando ascendia escadas, degraus ou escaleiras. É que, ao subir, projectava a perna pequena sempre à frente, impulsionando-a com a direita, como se fosse uma mola. Assim subia os degraus da canada do Pico da Vigia com uma destreza e agilidade impressionantes.

Outra característica interessante deste homem que era bastante culto, lia muito, falava inglês correctamente e sabia música, era a agilidade que demonstrava a tocar trompete. Como tinha uma só mão, a direita, era com esta que segurava o instrumento, ao mesmo tempo que com uma agilidade notável dos dedos, accionava os pitões, para emitir os sons. Mesmo só com um braço e metade do outro, colocando o membro inferior diminuído em cima de um banco, o Mestre Manuel Manquinho conseguia reger a filarmónica Senhora da Saúde com mestria e excelência.

Manuel Manquinho, um bom homem, simpático, atencioso, educado, amigo de todos, bom conversador, um grande músico e, sobretudo, um excelente vigia de baleia, apesar da grande deficiência física com que nascera mas que ele sublimara de forma excepcional, transcendente e sublime, conferindo à sua vida, uma alegria contagiante e uma felicidade permanente.

Um grande exemplo de vida, de força, de coragem e de capacidade de ultrapassar os problemas e as deficiências, o deste grande pequeno homem!

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publicado por picodavigia2 às 14:16

A CHORA-SOPAS

Segunda-feira, 13.01.14

- Muda, ó muda, vai à porta ver quem está a bater. 

A Muda, lenta e vagarosamente, arrastando os velhos chinelos no chão, dirige-se para a porta e abre-a. Voltando-se para dentro faz sinais de chorar e comer.                                                                            

- Quem é, mulher? – Pergunta Dona Josefa. - Gente a chorar! Ai credo! Querem ver que morreu alguém!

A Muda abana a cabeça em sinal negativo, mas continua a fazer sinais de chorar e comer.

- Então? Será alguém que está a chorar porque levou uma sova?

A Muda, porém, continua a fazer sinais negativos. Depois, com maior insistência tenta imitar alguém que está a chorar.

- Ai mulher, credo! Nunca te explicas com jeito! É ou não é alguém que está a chorar? Já sei! É a Chora-Sopas. Deve andar a pedir pelas portas!

Perante os sinais afirmativos da Muda, comenta D. Josefa:

- Ora essa! Era só o que me faltava agora! É todos os dias isto… E às vezes mais do que uma vez por dia, aparece gente, à porta a pedir. Manda-a embora que não há nada.

O marido, intervém de imediato

  – Josefa! Isso é que caridade!? Isso é agir de acordo com a religião que tu praticas? Muda, diz-lhe para entrar que se lhe há-de dar uma côdea de pão e um pedaço de queijo. Não entendo a tua religião, mulher… É uma caridade, dar-lhe alguma coisa! Ela é uma desgraçada. Não tem nada nem ninguém e corre a ilha toda a pedir.

A Chora-Sopas a ultrapassar a porta de entrada, muito contente, lá ia gritando

– Poxo entá? Poxo entá? Xô Anxoninho, ua exoxuxinha pux xeux… Ui voxês nom xom da Faxã? Tanban andom a pedi. Xouxade xexa Deux. Uma exoxuxinha pux xeus. Uma exoxuxinha pu alma dox xeus.

- Muda, traz-lhe uma boa fatia de pão com doce e um pedaço de queijo. Queres um tijela de leite, Chora-Sopas?

- Xó xe fô café. Café. Nom góxo leixe, brr, brr. Leixe nom pexa.

- Olha a finória! Não gosta de leite! Anda a pedir e ainda há-de ser o que ela quer e pão com doce! Havia ser massa sovada… Muda leva-a para a cozinha… E ela que saia pela porta da cozinha. Sim senhor, ainda vem bater à porta da sala, como se fosse uma visita importante. É uma desavergonhada é o que ela é! E sabem onde fica de noite, quando vem para Ponta Delgada? Sabem? É em casa do Cacho Maduro e dizem que pelos vistos fica na mesma cama com ele e a mulher. Isto é o fim do mundo! – Benzendo-se. - Louvado seja o Sagrado Coração de Jesus. Para sempre seja louvado.

- Josefa! Tem tento na língua, olha o que dizes…

- Eu cá não minto, nem ponho aleives a ninguém. Só digo o que ouço. Lá isso digo porque não sou baú de ninguém! Era o que me faltava… Não poder dizer o que toda a gente diz pela freguesia…

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publicado por picodavigia2 às 11:37

AS SELHAS DE LAVAR ROUPA

Segunda-feira, 13.01.14

Antigamente, na Fajã Grande, como na maioria das freguesias rurais das Flores e de outras ilhas açorianas, não havia água canalizada, nem muito menos pias de lavar roupa, geralmente, feitas em cimento, nem sequer tanques públicos, construídos de pedra basáltica, para lavagem e branqueamento da dita cuja. Assim as mulheres e as raparigas, por vezes ainda muito novinhas, que aos homens essa tarefa era “proibida”, tinham que se deslocar às ribeiras para lavar, branquear e “coarar” os trapinhos que elas e os seus familiares iam usando e sujando, por vezes em demasia, ao longo da semana e a que se acrescentavam os lençóis das camas, por vezes as colchas e os cobertores e, uma vez ou outra, até os capachos da sala e da cozinha. As ribeiras mais procuradas, ou melhor, exclusivamente procuradas para a lavagem da roupa, na Fajã Grande, eram apenas duas: a Ribeira das Casas, junto à ponte do caminho da Ponta e a Ribeira de Cima, no local onde se situava o arame da Rocha, sendo esta, um afluente da primeira. Num e noutro destes locais, institucionalizados como espécie de “tanques naturais”, ou lavadouros comunitários, havia algumas estruturas de apoio à lavagem, nomeadamente pequenos açudes, construídos com grandes pedras formando grandes poços onde a água se tornava mais abundante, lavadouros de pedra, ao lado dos quais havia pedras para colocar a roupa que se ia lavando e lajes para as lavadeiras ajoelharem e executarem com maior eficiência e comodidade a sua tarefa. Ao lado da ribeira ou nas suas margens havia tapetes de relva destinados a por a roupa branca a “coarar”.

No entanto, a deslocação, sobretudo das donas de casa, a uma ou outra das ribeiras era longa e demorada, cerceando ou obstruindo por completo muitas outras tarefas quotidianas, caseiras e não só, que a mulher tinha que efectuar. Por isso, sempre que possível, evitava-se a deslocação à ribeira, limitando-a, geralmente, a uma vez por semana

Mas era imperioso lavar roupa com mais frequência, sobretudo a das crianças, nomeadamente, as fraldas. Era essa a razão por que em quase todas as casas existiam as chamadas “selhas de lavar roupa”. Eram grandes selhas de madeira, com a borda bem mais alta do que as outras e que tinham como anexo um lavadouro, também ele de madeira. Este era uma simples e grossa tábua de madeira, rectangular e com variadas ranhuras paralelas e simétricas num dos lados, que a tornava áspera, de modo a que nela se esfregasse a roupa como se um verdadeiro lavadouro de pedra se tratasse e que constituiu a antecessora dos lavadouros de cimento que surgiram, anos mais tarde, a quando do abastecimento de água à freguesia. A parte inferior destes lavadouros, ou seja aquela que se encastoava no fundo da selha quando cheia de água, era côncava, ou em bico nas extremidades, para que a mesma se fixasse melhor e não “zangaliasse” enquanto a lavadeira, num vaivém contínuo, permanente e, por vezes, violento, mesma esfregava a roupa contra a. 

As “selhas da roupa” um utensílio de grande utilidade, de uso quase diário na década de cinquenta. Hoje a perderem-se na memória do tempo e reduzidas à expressão mais simples, ou seja a pequenas miniaturas que os artesãos locais vão ostentando e guardando para que a sua memória não se perca.

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publicado por picodavigia2 às 10:12

HENRIQUE BRAZ

Segunda-feira, 13.01.14

Henrique Ferreira de Oliveira Braz nasceu em Angra do Heroísmo em 1884, tendo falecido nas Furnas, ilha de S. Miguel, em Agosto de 1947. Licenciou-se em Direito na Universidade de Coimbra, colaborou na Alma Académica e dirigiu a Revista Atlântida. Coimbra, onde desenvolveu o seu ideal republicano, marcou-o profundamente como político e como escritor. Foi nestas duas vertentes que se veio a destacar quando regressou a Angra do Heroísmo, onde seguiu uma carreira de advocacia e de notário, ocupando o lugar de director da Secretaria Notarial. Como político, foi o primeiro governador civil do distrito de Angra do Heroísmo, após a proclamação da República, foi deputado e senador. Presidiu à Junta Geral do distrito e à Câmara Municipal da sua cidade. Era um orador notável, quer como chefe político, quer como conferencista. Foi sócio fundador do Instituto Histórico da Ilha Terceira. Como escritor, dedicou-se, sem êxito, à poesia, que abandonou, e à literatura de viagens, relatando impressões das suas deambulações pela Europa. A sua obra fundamental, porém, é no campo da historiografia, essencialmente com estudos referentes às viagens de açorianos no Atlântico Norte e no descobrimento da América. Trata-se de um escritor exigente para com a sua prosa e grande cultivador da forma e frase burilada, ligado à escola ultra-romântica.

As suas obras principais são: Vagidos (primeiros versos), Longe do meu horizonte: Crónicas de viagens, A descoberta da Terra Nova do bacalhau, A propósito da descoberta pré-colombiana de terras da América, Ruas da Cidade (notas históricas e anedóticas. Subsídios para a toponímia da cidade de Angra) e Ruas da Cidade e outros escritos. Angra do Heroísmo, Instituto Histórico da Ilha Terceira,

 

Dados retirados do CCA – Cultura Açores

 

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publicado por picodavigia2 às 08:40

SONHO MEDIEVAL

Segunda-feira, 13.01.14

Quando terminei a leitura do “S. Banaboião, Anacoreta e Mártir” de Aquilino estava exausto. Recostei-me, no sofá e, de seguida, adormeci.

Pouco depois, deambulava, a custo e timidamente, por um caminho ermo e solitário, ladeado por árvores gigantescas e sombrias. Aqui e além, alguns transeuntes, mudos, de olhar esbugalhado e ansioso, embrulhados em farrapos acinzentados, amparando-se a grossos bordões, caminhavam vagarosamente. O caminho aos poucos ia-se tornando mais apertado e esconso, até que terminava. À minha frente uma enorme muralha. Trepei-a a custo. Lá dentro um povoado vetusto e escuro sob um céu pardacento e acinzentado. A toda a sua volta a alta e grossa muralha que eu acabava de transpor, como que protegendo e defendendo os pequenos e esconsos casebres. No centro e à volta da minúscula igreja também escura, umas casas maiores e esbranquiçadas. As ruas eram estreitas, enviesadas e estavam quase desertas.

Nesse preciso momento, do lado contrário ao que me encontrava, pela porta de armas, entrou uma mesnada de besteiros. Reconheci de imediato D. Paio de Farroncóbias, que regressava de Ourique, onde tinha combatido, ao lado de D. Afonso Henriques, ainda jovem e, embora contrariado, súbdito de Afonso VII de Leão. Desde há algum tempo que D. Paio de Farroncóbias lutava ao lado do príncipe, quer contra os infiéis sarracenos que teimavam em não o deixar alargar as fronteiras do seu condado para sul, quer contra o rei de Leão, na tentativa de obter definitivamente independência do Condado.

As hostes afonsinas regressavam apressadamente para norte. Vinham desfalcadas e a arfar de cansaço mas felizes. O príncipe, os fronteiros, os ricos-homens e senhores de pendão e caldeira, chefes de mesnadas, cavaleiros, peões e peonagem caminhavam exaustos mas plenos de regozijo e satisfação. Esmar, rei de Santarém, juntamente com outros quatro reis havia sido derrotado, no dia 25 de Julho, dia do glorioso mártir São Tiago, sem apelo nem agravo, em Ourique, numa memorável batalha, em que o inimigo incluía no seu ciclópico exército forças conjuntas das praças mouras de Sevilha, Badajoz, Évora e Beja, para além das de Santarém.

A viagem, de regresso, havia sido longa e o destino dos guerreiros, ao chegar a Coimbra, fora diferente. O príncipe D. Afonso Henriques encaminhava-se apressadamente para o Minho. Alguns tempos atrás havia como que sido obrigado a suspender a peleja contra Afonso VII e a curvar-se perante aquele monarca, assinando, com ele, um tratado de Paz, em Tui, desistindo, assim, das pretensões de se tornar rei independente, prestando vassalagem ao suserano de Leão. Fizera-o, no entanto, apenas por razões de ordem político-militar. Os mouros atacavam forte a sul. Daí a suspensão das hostilidades a norte e o empreendimento de Ourique do qual, agora, regressava vitorioso.

Como, no entanto, alguns barões da Galiza leonesa se tivessem sublevado contra o rei de Leão e demandassem o condado, o príncipe ordenou a D. Paio de Farroncóbias, por ser o seu homem de confiança, que se separasse da comitiva, a partir de Coimbra. O príncipe seguia pelo litoral, pelo Porto e Guimarães, com a maioria das tropas, enquanto ele, D. Paio de Farroncóbias, seguiria por Viseu, até Trancoso.

Encaminhava-se, pois, D. Paio de Farroncóbias, com a sua mesnada, para Trancoso. Aquela era uma das várias noites em que durou a longa viagem. Cansada da viagem e sobretudo da guerra, a comitiva bélica de D. Paio havia sido forçada a pernoitar em Lubisonda

 

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A LINGUIÇA E A GATA

Segunda-feira, 13.01.14

O teólogo Edmundo, assim como todos os outros teólogos, tinha o seu quarto lá bem no alto, no terceiro andar da ala central, por cima das camaratas dos “Médios” e que dividia o enorme edifício do Seminário em duas partes: os professores, as salas de aula, a capela de baixo, os refeitórios e a cozinha a sul, a Prefeitura dos “Miúdos”, com as suas camaratas, salão de estudo e capela da Natividade, a norte.

Apenas quando, de madrugada ou à tardinha, se deslocavam à capela, ou nos dias destinados a passeios e numa outra vinda casual à portaria, o teólogo Edmundo e os outros teólogos desciam a enorme escadaria, interior, paralela ao frontispício do edifício, que dava para o largo de Santa Teresinha e para o Salão dos “Médios”. De resto, nas suas descidas frequentes e contínuas, quer para as aulas, quer para os campos de futebol ou até para o refeitório. o teólogo Edmundo e os outros teólogos, desciam dos seus altos aposentos por umas escaleiras exteriores e de cimento, situadas nas traseiras do prédio, rés-mines com as paredes de outros prédios contíguos ao Seminário.

Nessas descidas e subidas, repetidas várias vezes ao longo do dia, o teólogo Edmundo passava ao lado da cozinha e, antes desta, da despensa, onde se guardavam batatas, cebolas, farinhas, açúcar, carne e muitos outros géneros necessários à alimentação de alunos e professores, incluindo uns bons pedaços de linguiça, ainda a cheirar a “fogueado”, enrolados e suspensos em barrotes de madeira. A dispensa tinha uma janela que dava para a escadaria por onde transitava, várias vezes ao dia, o teólogo Edmundo. A janela, porém, embora se encontrasse com uma pequena gateira, estava de tal modo trancada, que mais nada por ali cabia ou entrava, a não ser uma mão fechada, sendo impossível, por tanto, do exterior, agarrar o que quer que fosse que estivesse lá dentro, muito menos um pedaço da linguiça, ainda por cima, bem distante da janela e suspensa nos barrotes. Apenas o cheiro desta se evaporava pela gateira, permanentemente aberta, provocando nos transeuntes um apetite devorador, uma vontade indómita de a agarrar, trincar e degustar. Mas qualquer tentativa, relativamente à sua captura, era vã e improfícua, constituindo um desperdício de forças.

Mas o teólogo Edmundo, sem meias medidas, jurou que um dia ainda havia de lhe chegar e de se deliciar com um belo naco da dita cuja. Os outros teólogos riam e julgavam-no tresloucado.

Ora na vizinhança do Seminário havia sempre gatas que pariam, com alguma frequência, ninhadas de gatinhos. Aproveitou o teólogo Emundo para escolher um produto de uma última ninhada, uma bela gatinha, branca, pequenina e fofinha, alimentando-a e tornando-a sua protegida. A bicha cresceu, tornou-se uma bela gatarrona e afeiçoou-se em demasia ao seu protector.

Certo dia o teólogo Edmundo, deixou a bichana sem comida, muniu-se de um cordão, amarrou-o ao pescoço da gata e, ao passar em frente à janela da despensa, enfiou-a pela gateira da janela que permanecia aberta dia e noite. A gata, esfomeada que estava, encaminhou-se abruptamente na direcção da linguiça, atirando-se a ela de unhas e dentes, enquanto o teólogo Edmundo, de fora, lhe ia dando folga na corda. Assim que a gata capturou o primeiro troço de linguiça, puxou-a até junto da janela, retirou-lhe o naco e repetiu o cerimonial, a fim de que a felina lhe trouxesse outro e um outro e ainda mais um outro bocado de linguiça. Todos os que o teólogo Edmundo quis.

E a linguiça foi assada com álcool retirado da enfermaria, e comida pelo teólogo Edmundo e por muitos outros teólogos, expressamente convidados para o bródio. Apenas um ou outro teólogo mais íntimo do teólogo Edmundo, cúmplices indirectos na façanha, soube a verdadeira origem da linguiça, cuidando a maioria que a mesma lhe havia sido enviada da Ribeira Grande, pelos seus progenitores.

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UM BARCO ABANDONADO

Segunda-feira, 13.01.14

(PEDRO DA SILVEIRA)

 

Olhai o barco abandonado

junto do cais de outrora.

Dá-lhe o sol da saudade

de idas e vindas porque chora.

 

Dá-lhe o sol da saudade

dos portos d’Outra Costa. Além

o horizonte é baço, triste

d’alvos veleiros que não tem.

 

O horizonte é baço, triste,

o horizonte é baço, incerto…

Oh o barco velho que apodrece

junto do cais também deserto.

 

Pedro da Silveira

 

 

 

 

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