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OS DESCANSADOUROS DA ROCHA

Quarta-feira, 15.01.14

A subida da Rocha da Fajã Grande era árdua, difícil, cansativa e desgastante. Até os mais novos, mais fortes e mais aguerridos e mesmo os que por ali transitavam quase diariamente necessitavam de momentos de descanso, de pausa e de repouso, durante a subida daquele alcantil pétreo, abrupto, íngreme e quase intransponível mas único acesso ao Mato. Quem transitava por ali com alguma raridade, ainda mais se sentia obstaculizado pela irregularidade da subida, só a podendo ultrapassar beneficiando de momentos e locais, onde pudesse descansar, embora sem nenhum conforto. Essa a razão por que ao longo da íngreme e meandrosa subida se haviam institucionalizado alguns descansadouros.

O primeiro era o da Furna do Peito. Situava-se nos arrabaldes daquela enorme gruta, semelhante a um templo, ornada com cruzes nas paredes e enriquecida com bancadas de pedra solta, umas naturais outras feitas por mãos humanas, onde os transeuntes, cansados, logo após o início da subida, podiam, calmamente, descansar. Era lá, também, que se abrigavam os pastores nos dias de chuva.

O segundo descansadouro, situado a meio da Rocha, era verdadeiramente considerado a pérola dos descansadouros. Devido à sua notoriedade e importância e à obrigatoriedade de todos ali descansarem, chamava-se simplesmente “Descansadouro”. Situava-se ao fundo da enorme volta onde ficava a curiosa furna da Caixa, que quase nada tinha de furna e de pouco mais servia do que para abrigar, parcialmente, uma ou duas pessoas, em simultâneo. O que mais caracterizava este descansadouro, para além da sua enorme utilidade como local de descanso e resfôlego, era o facto de dali se disfrutar de uma bela vista sobre uma boa parte da Fajã Grande e sobre o mar. Um espectáculo de sublimidade, uma devaneação de deslumbramento, um oásis de fascinação, um desfilar de encantamento e beleza. Na enorme curva onde se situava haviam-se construído banquetas de pedra ao redor das quais havia muros e paredes adequadas a que os transeuntes que transportassem cargas, ali as depositassem, durante o descanso.

Já mais perto do Cimo da Rocha, o descansadouro da Fonte Vermelha, o único que ao longo da subida disponibilizava água aos caminhantes. Por isso este era o descansadouro mais desejado. Da fonte, chamada de Vermelha, por se situar numa zona de barro avermelhado, jorrava, incessantemente, de uma pequena e tosca bica, encravada num tufo da Rocha, onde cada transeunte sequioso colocava uma folha de incenso ou sanguinho, uma água fresquíssima, cristalina e saborosa, que parecia que quanto mais se bebia mais água brotava do tufo. Todos os que por ali passavam dela bebiam, todos os dias e todas as vezes e, não raramente, depois de beber e de descansar, voltavam a beber muitas outras vezes, quer quando subiam quer quando desciam e o mais curioso é que a fonte nunca secava. Corria sempre, dia e noite, jorrando um frágil mas contínuo veio, lá bem do interior da terra. Ao redor da fonte, o descansadouro com banquetas e paredes adequadas ao descanso de pessoas e carregos.

Ainda no cimo da Rocha, logo a seguir à Cancela, junto ao sítio do Arame, um outro descansadouro, com uma enorme banqueta rectilínea e geometricamente perfeita, situada junto a uma encosta a proteger dos fortes ventos do Norte que ali, muito frequentemente se faziam sentir. Este descansadouro era muito utilizado, sobretudo na descida, porquanto era ali que os homens que vinham dos lados do Queiroal e os que regressavam da Água Branca e da Burrinha combinavam esperar uns pelos outros, a fim de trocarem lume e cigarros e descerem a rocha juntos.

Finalmente e já em pleno Mato havia, por aqui ou por ali um ou outro descansadouro mas menores e de pouca importância, apenas ocasionalmente utilizados, como eram os do Caldeirão da Ribeira das Casas, do Curral das Ovelhas ou até o da Burrinha.

No entanto, como a rocha era de difícil e cansativo acesso quem a subia, parava por descansar aqui ou ali, onde muito bem quisesse ou necessitasse, porque afinal “os descansadouros na Fajã Grande como o Natal, eram em qualquer sítio e sempre que um homem quisesse”.

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publicado por picodavigia2 às 21:56

O SAPATEIRO BANDARRA

Quarta-feira, 15.01.14

Quando eu era miúdo, em casa da minha avó havia apenas um livro e dois textos manuscritos. O livro era a “Histórias da Bíblia Resumida” e os manuscritos consistiam em dois conjuntos de folhas soltas, ambos em verso. Um narrava, em quadras, a morte de El-Rei Dom Carlos e outro, também em quadras, apresentava as profecias do Sapateiro Bandarra, ou seja o anúncio profético de um conjunto de fenómenos, quase todos desgraças, que haviam de acontecer sobre o orbe terrestre. Eu deliciava-me com as maravilhosas histórias da Bíblia, como a de José do Egipto, sentia pesar ao ler a forma como um rei e um príncipe haviam sido barbaramente assassinados e assustava-me de sobremaneira com os horrores previstos pelo sapateiro Bandarra.

Pouco se sabia deste suposto adivinho. Apenas que se chamava Gonçalo Eanes Bandarra e era natural de Trancoso, terra que eu desconhecia por completo.

Passaram-se muitos anos e concretizei o meu sonho de ir a Trancoso, conhecer a pátria de tão ilustre sapateiro. Trancoso é uma pequena cidade do interior, pertencente ao Distrito da Guarda, com cerca de 10.000 habitantes e sede de um concelho com 29 freguesias. Trata-se duma bela cidade, com uma história riquíssima e com um notável património arquitectónico, encontrando-se rodeada de muralhas, da época dionisiana, com um belo castelo, também medieval, a coroar um majestoso conjunto fortificado. Os seus vários monumentos arquitectónicos constituem um dos mais expressivos e belos centros históricos do país, destacando-se, as igrejas de Santa Maria, da Misericórdia e de São Pedro, a Casa dos Arcos e o Pelourinho, bela peça do mais puro estilo manuelino. Reza a história que aqui se travaram importantes batalhas, entre as quais a de Trancoso, em 1385, num planalto a poucos quilómetros do centro histórico, que impôs pesada derrota às tropas invasoras.

Foi nesta maravilhosa cidade beirã que nasceu e viveu Gonçalo Eanes de Bandarra sapateiro de profissão que se dedicou à escrita em verso de profecias de cariz messiânico. Os seus escritos revelam um bom conhecimento das Escrituras do Antigo Testamento, do qual fazia as suas próprias interpretações, tendo composto uma série de "Trovas" sobre a vinda do “Encoberto” e o futuro de Portugal, como reino. Bandarra foi acusado pela Inquisição de Judaísmo e as suas trovas foram incluídas, posteriormente, no catálogo de livros proibidos, já que suscitaram interesse sobretudo entre cristãos-novos. Foi inquirido perante este tribunal e foi obrigado a participar numa procissão do auto-de-fé, sendo-lhe ainda imposta a obrigação de nunca mais interpretar a Bíblia ou escrever sobre temas da Teologia. Após o julgamento voltou para Trancoso, onde viria a morrer, em 1556. A sua cidade natal prestou-lhe homenagem, construindo numa das suas praças uma estátua, perpetuando assim a sua memória.

No entanto e apesar de julgado e condenado e da interdição do Santo Ofício, as suas trovas circularam por todo o país em diversas cópias manuscritas. Chegaram também à freguesia mais ocidental da Europa, à Fajã Grande.

As Trovas de Bandarra foram interpretadas como uma profecia ao regresso do Rei D. Sebastião após o seu desaparecimento na Batalha de Alcácer-Quibir em Agosto de 1578.

Mesmo com todas as censuras e proibições, as Trovas continuaram circulando tendo sido impressas várias edições. Segundo alguns críticos, as Trovas do Bandarra terão influenciado o pensamento sebastianista e messiânico de D. João de Castro, do Padre António Vieira e de Fernando Pessoa.

Alguns exemplos das “Trovas” do Sapateiro Bandarra

“Eu componho, mas não ponho

as letrinhas no papel,

que o devoto Gabriel

vai riscando quanto eu sonho.

 

Com o troquês puxo o coiro,

com a cera encero a linha.

Gasta-se todo o tisouro

para abrir novo caminho.

 

Mas, ai! que já vejo vir

o Presbítero Maior

a riscar todo o primor,

que outra vez há-de surgir.

 

Este sonho que sonhei

é verdade muito certa,

que lá da Ilha Encoberta

vos há-de chegar um Rei.

 

Põe um A pernas acima,

tira-lhe a risca do meio,

e por detrás lha arrima!

Saberás quem te nomeio.”

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publicado por picodavigia2 às 20:47

A LUZ DA LUA

Quarta-feira, 15.01.14

A luz da Lua é bela, sublime e grande em proveito e fama

Mas, afinal, não é mais do que a luz do Sol, vestida de pijama.

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publicado por picodavigia2 às 17:29

CAETANO VALADÃO SERPA

Quarta-feira, 15.01.14

O Doutor Caetano Valadão Serpa é uma das mais importantes e prestigiadas figuras fajãgrandenses da actualidade. Nasceu, em 24 de Janeiro de 1936, no lugar da Ponta, sendo seus pais António Serpa e Virgínia Valadão. Fez a escola primária, na altura ainda no Posto Escolar da Ponta e cedo se manifestou um jovem sóbrio, educado, cativante, de grande inteligência e com uma enorme vontade de aprender, pelo que, ainda muito novo, abandonou a ilha das Flores com destino à Terceira, entrando para o Seminário de Angra, em Setembro de 1949, onde estudou durante toda a década de cinquenta e onde foi um aluno exemplar e aplicado, manifestando grande apetência pelo estudo e pela aprendizagem. Terminado o curso de Teologia no início da década de sessenta, mais concretamente, em 1961, a excelência do seu currículo como aluno, no Seminário, fez com que fosse enviado para Roma, pela diocese de Angra, com o objectivo de se formar em História da Igreja, disciplina integrante do currículo disciplinar do Curso de Teologia do Seminário, nessa altura, no entanto sem professor especializado. Enquanto estudante, passava as férias de Verão na Ponta, deslocando-se, com muita frequência à Fajã, onde, irradiando ternura, simpatia e simplicidade, era muito querido, estimado e respeitado por todos.

Assim e em Roma, nos primeiros anos da década de sessenta estudou e licenciou-se em História do Cristianismo e Ética na Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma e em Teologia na Pontifícia Universidade Lateranense. Depois de visitar muitas outras cidades europeias, abandonou Roma e regressou aos Açores e ao Seminário de Angra, como professor de Teologia e História da Igreja e prefeito dos Teólogos, onde permaneceu apenas durante um ano. Com a sua inesperada e abruta saída, a disciplina de História da Igreja voltava a ser entregue a professores não especializados. Nos anos seguintes leccionou no Seminário Colégio de Ponta Delgada as disciplinas de Língua Portuguesa, Francês e História. Quer em Angra quer em Ponta Delgada, cativou os seus alunos com a sua sabedoria, competência e sobretudo com a sua amizade e simpatia e ainda, porque, no caso do Seminário de Angra trouxe, juntamente com outros professores, uma lufada de “ar fresco” ao ensino tradicionalista da Teologia, da Moral e da História assim como aos métodos pedagógicos que ainda eram utilizados. Em meados dos anos setenta emigrou para os Estados Unidos da América, doutorando-se, anos mais tarde, em Modern European History. Investigador, professor e escritor, especializou-se em Psicologia do Aconselhamento na Lesley  University e em Técnicas de Mediação e de Conflitos na Haward University, Cambridge, MA. É autor de várias obras literárias, entre as quais Gente dos Açores, livro escolhido pelo Congresso Norte Americano para ser um dos primeiros livros editados em braile, Guiomar, obra já traduzida em inglês, Gente sem nome e, mais recentemente, Uma Pessoa só é Pouca Gente, obra “em moldes de ficção literária de perfil biográfico”, “com o objectivo de salientar as limitações e contradições do celibato eclesiástico imposto como condição absoluta para a ordenação sacerdotal”, na Igreja Católica Romana. É colaborador de vários jornais e revistas, orador e conferencista. Actualmente é Presidente da L. & V. Associates, director do “Projecto Família-Educação”, Membro da International  Network of Scholars e foi Presidente da Comissão Organizadora do Primeiro Congresso dos Portugueses na América. Depois da curta experiência como professor nos Açores, continuou a dedicar-se ao ensino nos Estados Unidos, leccionando no Cambridge Rindge & Latin School, Cambridge, MA e no Harrington School. Actualmente é professor de Língua e Cultura Portuguesa na Universidade de Massachusetts e dedica grande parte do seu tempo ao estudo dos problemas relacionados com a emigração. Reside actualmente na cidade americana de Arlington, perto de Boston, no estado de Massachusetts.

Tem visitado com alguma frequência a ilha das Flores e a Fajã Grane e esteve presente no primeiro Encontro de Antigos alunos das décadas 50/60, que teve lugar em Angra no passado mês de Julho, trazendo consigo uma serenidade invulgar, uma excelência de atitudes e uma enorme capacidade de dialogar e de ouvir, agraciando todos com a sua simpatia e amizade, enriquecendo aquele Encontro, de sobremaneira, com a sua presença.

Em texto por ele escrito e publicado recentemente no “Mundo Açoriano”, considerou aquele encontro como um “filme das memórias do passado agora, de certo modo presentes, na companhia de muitos dos seus protagonistas” e ainda “um encontro de pessoas com rica experiência humana e sólida preparação intelectual…” que desde o início, primou pela “alegria do reencontro que transparecia no rosto de todos, vinda bem de dentro proclamando, sinceramente, sentimentos genuínos que o tempo e a distância não tinham conseguido olvidar…” um “mundo de recordações e momentos marcantes, horas de diversos sabores e inolvidáveis experiências que, agora, brotando em catadupa espontânea, tornaram o acontecimento num dos mais felizes de sempre”.

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publicado por picodavigia2 às 16:58

A ORIGEM DA CRICRI

Quarta-feira, 15.01.14

Conta uma lenda muito antiga, que há muitos, muitos anos, no lugar da Cuada, na ilha das Flores, vivia um homem que passava todo o seu santo dia a tratar de duas vaquinhas leiteiras que possuía e que eram o seu sustento e da sua família. Tratava-as com tanto cuidado e carinho como se fossem pessoas. O homem tinha, realmente, um grande amor pelas suas vacas. No Inverno levava-as aos pastos, durante o dia e à noite recolhia-as ao palheiro, protegendo-as dos temporais e do frio e alimentando-as com maçarocas de milho e incensos, que ele próprio acarretava às costas das terras para o palheiro. No Verão, para que elas não sofressem o calor do dia, guardava-as no estábulo e levava-as a pastar aos campos pela frescura da noite.

Ora aconteceu que um certo dia, uma das vacas, ao passar pelo Calhau do Tufo, junto à canada que dá para a Fajã das Faias, assustou-se de tal modo que se lançou a correr a toda a velocidade por aquela canada abaixo, na direcção da Ribeira Grande. O lavrador ficou preocupado, pois não tinha pastos para aquelas bandas e a vaca nunca tinha passado naquela canada. Por isso começou a chamar por ela:

 - Formosa! Formosa! Ó Formosa?

Mas a vaca nada. Depois cogitava para consigo: - Que diabo terá acontecido a esta vaca?

Prendeu a outra à beira do caminho, num galho de faeira e correu tanto quanto pôde, pela canada abaixo, atrás da rês, até que conseguiu agarrar-lhe o rabo, lá em baixo, já quase junto à Ribeira Grande. Mas não conseguiu aguentá-la, impedindo-a de continuar a correr como louca e a fugir desnorteada, reparando, de seguida, que a vaca entrara por uma grandessíssima furna, arrastando-o atrás dela.

 A vaca continuou a correr, a correr sem parar, por aquele covil dentro, até que chegou a um lugar nunca imaginado pelo homem, lá bem no interior da furna. Lá dentro corriam, saltavam, andavam de um lado para o outro muitos homens, mas eram muito pequeninos e tinham muitas vacas, também pequeninas e havia também muitas casas minúsculas que pareciam de anões e muitos galos também minúsculos, a correrem de um lado para o outro e a cantar.

 O animal, entretanto, tinha parado. O homem, pasmado, desprendeu-se do rabo da vaca, a qual desapareceu no meio da multidão de pessoas e bicharada anã que fervilhava, misturadas, pelas ruas. Cada vez mais admirado, o homem pensou para consigo: “Quando voltar à Cuada e contar isto que me aconteceu, ninguém vai acreditar. Vão dizer que eu estou doido.”

 Enquanto cismava, sem saber como havia de contar aos amigos o que lhe acontecera, resolveu pegar numa galinha daquelas pequeninas para levar consigo, já que não regressava com a vaca.

Agarrou numa e, escondendo-a debaixo do casaco, resolveu voltar para trás, seguindo pelo mesmo lugar por onde a vaca o tinha arrastado, trazendo na mão a galinha anã, que seria a prova do que lhe tinha acontecido.

 Os vizinhos do lavrador não queriam acreditar naquela história, mas ele mostrava a todos a galinha que tinha trazido consigo. Os outros nunca tinham visto ou ouvido coisa igual.

A gruta nunca ninguém a viu, mas a galinha era bem real e pôs ovos que depois de chocados por ela própria deram belos pintos, também anões.

Os seus amigos ao verem aquele estranho galináceo, pasmados mas acreditando no que viam, bem exclamavam em uníssono: - Cri, cri. – Queriam dizer com isto: Acreditei, acreditei na história que contaste.

Essa a razão pela qual àquela raça de galináceos garnizé, também conhecida por “galinhos da madeira”, muitas pessoas na Fajã Grande e, sobretudo na Cuada, ainda hoje lhe chamam “Cricri”.  

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publicado por picodavigia2 às 16:17

PELA MANHÃ FORA

Quarta-feira, 15.01.14

Após o almoço da manhã, na Fajã Grande, na década de cinquenta, seguia-se a parte mais tormentosa e cansativa do dia, em termos de trabalhos agrícolas. Era por volta das nove horas que se iniciava esta segunda etapa de trabalho intenso e extenuante, a qual terminava ao início da tarde. Na Primavera era o tempo de preparar os campos e semear os milhos, tarefa demorada, porquanto as terras tinham que ser adubadas, com esterco ou sargaço, muitas vezes acarretado, durante uma boa parte do percurso, em cestos, às costas. Depois era o lavrar com o arado de ferro, desfazer leivas e torrões com a grade, atalhar e, finalmente, semear o milho com o arado de pau. Já crescido, o milho tinha que ser mondado, sachado e corrido e quando espigado, era necessário espalhar e semear as forrageiras – trevo ou erva-da-casta – pelo meio. No Verão as manhãs eram ocupadas com a ceifa dos feitos nas relvas e terras de mato e o desbravar da cana-roca, um flagelo que infectava o crescimento das árvores e dos inhames. Era, também, necessário dar continuidade aos trabalhos agrícolas. Além disso, como o gado, nesta estação do ano, devido ao excessivo calor, ficava fechado nos palheiros, era imperioso acarretar os alimentos que necessitavam. No Outono era a apanha dos milhos e o seu arrumo nos estaleiros, tarefa que ocupava não apenas as manhãs mas o dia todo. Além disso havia muitas outras colheitas a serem recolhidas, nomeadamente batatas, cebolas, etc. No Inverno eram as terras de mato o destino de homens e mulheres. Havia que cortar e recolher os incensos, alimento fundamental e quase único, para os bovinos, naquela estação do ano. Era também nesta altura que se sachavam os inhames e se cortava e serrava a lenha. O Inverno, porém, na Fajã Grande era bastante intempestivo e chuvoso, pelo que, durante muitos dias, os homens, impedidos totalmente de ir para os campos, a não ser para cumprir os serviços mínimos obrigatórios, aproveitavam para um merecido descanso, juntando-se à Praça, numa emblemática casa velha que ali existia. Conversavam, fumavam, discutiam, faziam negócios e jogavam às cartas, tendo como mesa, um cesto com o fundo virado para cima. Bem pior era a situação das mulheres nesses dias, porquanto aproveitavam, para remendar, costurar, fiar e efectuar outras tarefas domésticas.

Era pois, pela manhã fora, toque, toque, que o povo caminhava com destino aos campos, a fim de realizar estes e muitos outros trabalhos, calcorreando caminhos sinuosos a abarrotar de pedregulhos, ladeiras íngremes, atalhos e veredas, por vezes carregando pesadíssimos sacos, cestos ou molhos, os homens às costas, com um bordão a servir de alavanca e contrapeso e as mulheres à cabeça, com uma rodilha de pano a proteger-lhe o cocuruto.

“Pela estrada plana, toque, toque, toque,

Guia o jumentinho uma velhinha errante.

Como vão ligeiros, ambos a reboque,

Antes que anoiteça, toque, toque, toque,

A velhinha atrás, o jumentito adiante!...

 

Toque, toque, a velha vai para o moinho,

Tem oitenta anos, bem bonito rol!...

E contudo alegre como um passarinho,

Toque, toque, e fresca como o branco linho,

De manhã nas relvas a corar ao sol.

 

Vai sem cabeçada, em liberdade franca,

O jerico ruço duma linda cor;

Nunca foi ferrado, nunca usou retranca,

Tange-o, toque, toque, a moleirinha branca,

Com o galho verde duma giesta em flor.

 

Vendo esta velhita, encarquilhada e benta,

Toque, toque, toque, que recordação!

Minha avó ceguinha se me representa...

Tinha eu seis anos, tinha ela oitenta,

Quem me fez o berço fez-lhe o seu caixão!...

 

Toque, toque, toque, como se espaneja,

Lindo o jumentinho pela estrada chã!

Tão ingénuo e humilde, dá-me, salvo seja,

Dá-me até vontade de o levar à igreja,

Baptizar-lhe a alma, p’ra a fazer cristã!

 

Toque, toque, toque, e a moleirinha antiga,

Toda, toda branca, vai numa frescata...

Foi enfarinhada, sorridente amiga,

Pela mó da azenha com farinha triga,

Pelos anjos loiros com luar de prata!...

 

Toque, toque, como o burriquito avança!

Que prazer d’outrora para os olhos meus!

Minha avó contou-me quando fui criança,

Que era assim tal qual a jumentinha mansa

Que adorou nas palhas o menino Deus.”

 

Mas na Fajã Grande, freguesia com grande parte do território encastoado entre colinas e outeiros, os caminhos não eram nada planos e o jumento, na década de cinquenta, ainda era um animal raro naquela freguesia. Para além de se ir levar a “moenda” ao moinho, com alguma frequência, havia muitas outras tarefas a realizar, mas, à boa maneira da moleirinha de Guerra Junqueiro, homens, mulheres, velhos e crianças, caminhavam, todos os dias, manhã fora, toque, toque, a trabalhar árdua e penosamente, a fim de, ao início da tarde, ao chegar a casa, dispor, apenas e tão só, de um simples e parco almoço.

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publicado por picodavigia2 às 09:50

AO ROMPER DA BELA AURORA

Quarta-feira, 15.01.14

Na década de cinquenta, na Fajã Grande, dava-se, inequivocamente, cumprimento ao estabelecido no velho adágio “Deitar cedo e cedo erguer…”, ou então cirandava-se, isto é, caminhava-se e trabalhava-se, de acordo com a popular modinha beirã “Ao romper da bela aurora, vai o pastorzinho…”

Na realidade, naqueles longínquos anos, todos os dias, incluindo, domingos, dias santos, feriados e dias santos abolidos, o dia de trabalho iniciava-se altas horas da madrugada. No Inverno, saía-se de casa com destino aos campos, ainda noite escura. Havia tarefas que eram absolutamente necessárias serem feitas alta madrugada. A mais cansativa, para quem tinha gado vacum, era a de ir ceifar um ou dois molhos de erva às lagoas – terrenos onde a erva crescia no meio de água – acarretando-a, de seguida, às costas, para os palheiros, onde o gado a aguardava como alimento preferido. A erva, para manter a qualidade e a frescura de bom alimento herbívoro, devia ser ceifada e guardada antes do Sol nascer. Era uma tarefa cansativa e desgastante, não apenas no ceifar mas sobretudo no carregar com os molhos às costas. Para além de serem muito pesados, pingavam enorme quantidade de água que escorria pelos ombros e costas dos que os carregavam, encharcando-os, por vezes, da cabeça aos pés. Outra tarefa, embora mais leve e menos cansativa e, por isso mesmo, atribuída, geralmente, às mulheres e às crianças era a de ir buscar ou levar o gado às relvas, o que também convinha que fosse feito pela matina. O gado devia o calor do dia ou o frio da noite e ser ordenhado a tempo de o leite ser entregue nas máquinas, que abriam bastante cedo. Assim, para além destas, uma outra tarefa que se impunha era a da ordenha e do transporte do leite para os sítios onde era desnatado. Só depois, por vezes já bastante tarde, as mulheres faziam o café, misturando alguns grãos do dito cujo com chicória, cevada e, por vezes até favas ou milho torrado, tudo devidamente moído, em água a ferver. Despejado em grandes tigelas misturava-se um pouco de leite e nada mais. O almoço, como então se chamava a primeira refeição do dia, para além do café bem quentinho, aromático e fumegante, incluía pão de milho ou bolo, geralmente acompanhado com queijo caseiro ou doce. O pão de trigo era apanágio dos dias de festa e, quando o de milho escasseava, recorria-se a bolo do tijolo ou a papas fritas, quando estas sobravam da véspera. Por vezes quer o pão de milho ou o bolo eram mais envelhecidos e rijos ou já roçavam o gosto azedo do bolor, fritavam-se em banha de porco, sendo que, muitas vezes, as fatias, antes de fritas, eram passadas por ovo batido. Nesses dias considerava-se o almoço um luxo. Só então se partia para os campos para as tarefas da manhã.

“Ao romper da bela aurora,

Sai o pastor da choupana.

Vem gritando em altas vozes:

- Muito padece quem ama

 

Muito padece quem ama,

Mais padece quem namora.

Sai o pastor da choupana,

Ao romper da bela aurora

 

Não empobrece ninguém.

Assim como não enrica.

Não empobrece ninguém

Assim como não enrica.”

 

Se na bela e popular canção beirã, substituíssemos a palavra “ama” por “trabalha”, embora perdendo a rima e desajustando a métrica, ganharíamos um interessante e significativo hino ao árduo labor que, quer nas frescas madrugadas de Verão, quer nas tempestuosas e escuras manhãs de Inverno, homens, mulheres e crianças realizavam na Fajã Grande, na década de cinquenta, do século passado.

 

 

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publicado por picodavigia2 às 09:37

O ARADO DE FERRO

Quarta-feira, 15.01.14

Na Fajã Grande, na década de cinquenta eram usados dois tipos de arados: o arado de pau e o arado de ferro. O primeiro tinha duas importantes funções. Por um lado servia para atalhar a terra depois de lavrada e antes das semeaduras e, por outro, era utilizado para abrir os regos para semear o milho, sendo a terra sempre alisada com a grade, antes e depois de cada uma destas operações. Por sua vez, o arado de ferro, apesar de mais robusto, pesado e potente e de a sua aquisição ser bem mais dispendiosa, tinha, praticamente, uma função: lavrar a terra pela primeira vez, ou seja rasgá-la o mais profundamente possível, revirando as leivas, provocando o seu afofamento ou, como se dizia na Fajã, servia para “abrir” a terra. Mas além deste objectivo primacial, o arado de fero, com a sua poderosa e gigantesca aiveca, cavava um rego no tereno, de tal maneira profundo, que permitia um maior arejamento do solo bem como a sua oxigenação, o que possibilitava um acentuado desenvolvimento de organismos benéficos, provocando a mistura da terra ou com o tremoço cortado e picado ou com o estrume, quer fosse esterco, sargaço ou simplesmente a terra trilhada pela presença do gado.

O arado de ferro, como o nome muito bem indica, era em grande parte construído em fero, tinha uma ponta rija e muito bem afiada e uma enorme aiveca lateral, presa ao timão por um gancho que revirava, ora para um lado ora para o outro, permitindo assim que lavrador a voltasse sempre para o lado do terreno que já estava lavrado. O timão era de madeira, embora, geralmente, emoldurado em ferro, mas muito curto e terminava com uma roda, também de madeira, mas com aro de ferro e que era colocada à altura da aiveca quando esta se enterrava na terra, durante o acto de lavrar. Esta roda tinha como objectivo aliviar o peso do arado quando sulcava a terra e deslocá-lo quando fora do seu uso. Para remover o arado levantava-se-lhe a rabiça, de maneira que a aiveca não roçasse o chão, e abanava-se, operação que exigia força e era obrigatória sempre que se virava de direcção, no fim de um rego. Por sua vez a rabiça, também contrariamente à do arado de pau, era de duas hastes e tinha um suporte manual duplo a fim de que o lavrador efectuasse mais força e a ponta da aiveca entrasse mais profundamente na terra. O timão era preso à canga dos bois por uma corrente de ferro ou um valente cabo, sendo o arado de ferro sempre puxado por duas reses.

O arado de ferro, embora mais sofisticado do que o de pau, era, no entanto um instrumento rudimentar, distinguindo-se, sobretudo pela sua enorme aiveca, maleável e fortíssima e pelos dois cabos verticais da rabiça unidos por uma travessa de madeira fixa. Como em qualquer arado, o de ferro tinha a relha ou ponta, geralmente em forma de V, cuja finalidade era perfurar a terra, por vezes rija e dura e, ao mesmo tempo que o arado se deslocava, perfurando-a. Outra peça importante era a aiveca. Tratava-se de uma enorme e espalmada placa de ferro que tinha como finalidade abrir a terra, formando os regos, ao mesmo tempo que a revirava e misturava. A aiveca prendia no rasto ou rabela, por uma espécie de dobradiça que permitia coloca-la do lado direito ou do esquerdo, tendo em conta o modo como se pretendia virar a terra. Por sua vez, nestes arados, o teiró não era maleável, pois não era necessário fechar ou abrir este arado, como acontecia no de pau. A posição da roda da frente, aliada à força de braços do lavrador, é que decidia a altura ou profundidade de o rego. A Aiveca, por sua vez, possuía um mecanismo que permitia definir a largura do rego e como era um pouco côncava, fixava por vezes, leivas de terra, sobretudo quando esta era mais barrenta. Neste caso era a aguilhada do lavrador que na parte inferior possuía encravada uma lâmina com a qual, no fim de cada rego e sempre que necessário se procedia a essa limpeza.

Na Fajã Grande e creio que em nenhum outra localidade da ilha das Flores se fabricavam estes arados. Eram importados, sendo por vezes adaptados ou alterados parcialmente devido ao tipo de terreno a que se destinavam.

O arado, símbolo de fertilização e produtividade entre muitos povos foi sempre considerado como uma das três maiores invenções da humanidade. Foi após a sua invenção, que se atribui aos egípcios, que a humanidade, embora muito lentamente, transitou do nomadismo ao sedentarismo, provocando, assim, o aparecimento das grandes civilizações agrárias da Antiguidade, nas quais se incluem, para além do Egipto, a Mesopotâmia, a Caldeia, a Assíria e todo o “Crescente Fértil”.

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publicado por picodavigia2 às 09:23





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