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QUANDO A TARDE DESCE

Sexta-feira, 17.01.14

Após um “jantar” frugal – batatas ou inhames com uma limitada porção de peixe, ou conduto de porco racionado ou uma torta de ovos, às vezes, simplesmente, batatas sem nada – impunha-se, novamente, um caminhar apressado e lesto para os campos, porque a tarde descia rápida, a fim de que se desse continuidade ou se terminassem as tarefas iniciadas de manhã. Muitas vezes havia que substituí-las por outras, impossíveis de adiar. No primeiro caso, por vezes, as mulheres, iam aos campos levar o jantar aos que ali trabalhavam. Poupava-se tempo e ganhava-se no avanço do trabalho. Havia no entanto, muitas tardes em que era imperioso homens e mulheres dedicarem-se a outras tarefas, como a apanha das batatas, o plantar e cortar das couves, acarretar esterco para os campos ou, na maioria das vezes, trabalhar as terras mais próximas de casa e as situadas à beira-mar. Nas tardes de Verão, no entanto, era quase impossível trabalhar nos campos da Fajã Grande. A razão era simples: a freguesia fica situada, como o nome indica, numa “fajã”, ou seja, num terreno baixo, por trás do qual existe uma rocha. Só que, neste caso, a rocha de tão alta e inclinada que era, fazia jus a que o Sol nela se reflectisse e retrocedesse sobre o povoado, como que redobrando a força, a intensidade e o calor. Por isso os homens passavam as tardes, sentados à sombra das casas, conversando e falquejando. No Inverno, ao invés, tardes havia em que era impossível trabalhar, neste caso devido à chuva e ao mau tempo.

Em contrapartida trabalhava-se à tardinha e durante uma boa parte da noite para compensar as “folgas” das tardes calorentas. Estes trabalhos relacionavam-se sobretudo com o tratamento e ordenha do gado e a limpeza dos palheiros, esta uma das tarefas mais degradante, asquerosa, conspurcas, imunda e enlameada que os homens eram forçados a executar. Munidos do “garfo de tirar esterco”, puxavam, rapavam, remexiam, amontoavam, espetavam toda aquela imundície acumulada nos palheiros e padejavam-na às garfadas para um monte de esterco que dia após dia ia crescendo e fermentando fora da porta do palheiro, levantando um cheiro horroroso, promíscuo, mefítico, aberrante que penetrava pelas frestas e paredes das casas contíguas e que se defluía, emanava e dispersava pelos arredores. Uma ou duas vezes por semana também era necessário despejar a poça, com odores e cheiros ainda mais mefíticos. O seu conteúdo era padejado com um caneco velho qualquer, para de dentro das “latas da urina” ou seja, uns enormes vasilhames de madeira, exclusivamente usados para este fim e que depois de cheios eram transportados aos ombro, presos num pau, um atrás das costas e outro à frente, para alimentar e fazer crescer as caseiras, as batatas-doces e as couves que floresciam nas terras do Porto, das Furnas e do Areal.

Trabalhos, cansativos e degradantes que custavam e doíam, enquanto, como Fernando Pessoa escreveu, a sombra da tarde descia, emersa nas canseiras do fim do dia.

“O sol às casas, como a montes,

Vagamente doura.

Na cidade sem horizontes

Uma tristeza loura.

 

Com a sombra da tarde desce

E um pouco dói

Porque quanto é tarde

Tudo quanto foi.

 

Nesta hora mais que em outra, choro

O que perdi.

Em cinza e ouro o rememoro

E nunca o vi.

 

Felicidade por nascer,

Mágoa a acabar,

Ânsia de só aquilo ser

Que há-de ficar.

Sussurro sem que se ouça, palma

Da isenção.

Ó tarde, fica noite, e alma

Tenha perdão.”

 

E nesta “cidade sem horizontes” (entenda-se: nesta freguesia sem horizontes) chegava uma tristeza loura, um suplício a que estiveram rigorosa e permanentemente condenados, em pleno século XX, os nossos avós, os nossos pais e os nossos irmãos. Talvez por estas e por outras razões e porque, voltando ao poema de Pessoa, havia uma felicidade por nascer, uma mágoa a acabar, e, por isso, com uma enorme ânsia de só aquilo ser, muitos escapuliram para a América e para o Canadá.

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publicado por picodavigia2 às 20:28

A MULHER COMILONA

Sexta-feira, 17.01.14

Na Fajã Grande, na década de cinquenta ainda se contavam muitas “estórias” de feiticeiras. Esta era uma das que, quando criança ouvia contar.

Antigamente, lá para os lados da Via d’Água, perto do mar, havia uma mulher que era casada com um pescador. Como o homem passava muito tempo no mar, a mulher ficava em casa, sozinha, à espera dele mas, como sentia muita fome.

Certo dia em que sentiu muita fome e o homem não aparecesse com peixe para a saciar, começou a cozinhar uns bons petiscos, que tinha guardados lá em casa. Como o homem demorasse cada vez mais, ela, cheia de fome, não esperou pelo marido, comendo tudo antes dele chegar a casa. De tal maneira se habitou que começou a proceder assim todos os dias, mesmo quando o homem pouco demorava. Assim , todos os dias, quando o marido regressava do mar, como já tinha comido tudo sozinha, dava-lhe pão sem nada.

Como isto acontecesse todos os dias, o pobre pescador começou a desconfiar da mulher, pensando que ela comia tudo entes dele chegar, deixando-lhe apenas umas côdeas de pão.

 Certo dia, em que não pode ir para o mar devido ao mau tempo, sentou-se, em cima de um penedo a lamentar a sua triste sorte. Aproximou-se dele uma velhinha que lhe disse:

-Não te apoquentes, bom homem. Amanhã, quando regressares do mar, tu já vais comer melhor.

O pescador ficou muito admirado por a velha saber a sua vida sem jamais lha ter contado. Então a velha dando-lhe um guarda-chuva preto disse-lhe:

- Amanhã quando saíres de casa para o mar, não arreies o teu barco. Volta para casa e esconde-te bem escondido, atrás deste guarda-chuva. Ela não te verá e, por isso começará a comer, cuidando que está sozinha. Quando ela começar a comer diz em voz muito alta, mas disfarçando a voz, para que ela não te reconheça: Aquela mulher vai comer tudo sem o marido estar em casa? É uma grande comilona que não espera pelo marido!

O homem assim fez e, quando a mulher, depois de cozinhar um belo petisco se sentou à mesa para o comer, gritou com voz rouca:

- Aquela mulher vai comer sem o marido estar em casa? É uma grande comilona que não espera pelo marido!

A mulher, assustada, olhou para todos os cantos mas não viu ninguém. Mais sobressaltada ficou, quando, ao recomeçar a comer, ouviu, outra vez, as mesmas palavras.

Então cheia de medo saiu porta fora. Demorou-se lá por fora algum tempo, mas quando sentiu fome, voltou para casa. Ia mais uma vez tentar comer, logo ouviu a mesma voz. Assustada e cheia de medo, resolveu então esperar pelo marido para comerem juntos. O pescador saiu do esconderijo sem ela ver e simulou regressar a casa, vindo do mar. Ao chegar a casa, ficou admirado com a mudança da mulher, mas não disse nada.

No dia seguinte, antes de sair para o mar, disse-lhe a mulher:

- Olha, vem cedo que eu tenho cá um bom jantarinho, para comermos juntos.

E assim foi. A partir daquele dia, nunca mais ela comeu sem o marido.

Algum tempo depois foi o pescador à procura da velhinha, mas nunca a encontrou por que ela era uma feiticeira e as feiticeiras quando fazem uma boa acção, não gostam que as vejam ou lhe agradeçam.

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publicado por picodavigia2 às 19:07

A QUEDA

Sexta-feira, 17.01.14

O padre Jaime era secretário do Seminário e professor de Música dos alunos mais novos. Como um e outro cargo não lhe chegassem para ocupar globalmente o seu horário de trabalho, fora nomeado, logo que assumira o secretariado da “Santa Casa”, como ecónomo da mesma.

Padre Jaime, que anteriormente fora prefeito dos “Miúdos”, exercia todos os seus cargos com competência, dignidade e esmero, pese embora, o último, o de ecónomo, lhe trouxesse um ou outro dissabor. Eram os alunos a reclamar que a “miragaia” era rija que nem sola, eram desenhos anónimos, no “Carpinteiro”, a representarem mergulhadores, equipados com escafandros, na procurar duma nica de linguiça no meio da feijoada, eram os mais novos a protestar contra a “bacalhoada” das sextas, os teólogos contra as travessas vazias e, até um outro professor a gracejar com frases evangélicas, adaptadas à carestia, “caro, autem, infirma est”. Por isso o ecónomo, embora condicionado pelo permanente e contínuo aperto dos cordões da bolsa diocesana, por parte do Prelado, via-se e desejava-se para tentar, geralmente sem sucesso, “melhorar o rancho”.

Cuidava ele, no entanto, que, se a variedade e a qualidade do cardápio eram metas obstaculizadas pela estranha e condenável sovinice do Senhor Bispo, pelo menos podia diligenciar-se a qualidade na cozedura e apresentação das travessas. Essa a razão, porque passava grande parte do dia, na cozinha, não fossem os cozinheiros descuidarem-se e agravar, com a falta de qualidade, o défice e a pobreza dos produtos cozinhados.

Assim todos os dias e, sobretudo antes das refeições, de manhã, ao meio dia e à noite, deslocava-se para a cozinha. Para o fazer, dado que nessas horas os alunos estavam a estudar ou em aulas, saía do largo de Santa Teresinha, onde tinha escritório, entrava nas camaratas dos médios e, antes da última, voltava à esquerda, pois esta ligava-se directamente à cozinha, através duma espécie de balcão. Era o caminho, mais curto, mais rápido e mais acessível.

Ora o padre Jaime tinha o hábito de ler, quer fosse a rezar o breviário quer a fazer a leitura matinal dos jornais, passeando de um lado para o outro ou até caminhando. Habitualmente, era de manhã, quando se deslocava à cozinha que lia “A União”. Todas as janelas das camaratas comunicavam com o pátio interior do Seminário, através de amplas janelas, sob a forma de portadas, mas não tinham varanda, grade ou sequer um simples varão.

Certa manhã em que padre Jaime mais concentradamente e totalmente absorto lia o jornal, ao atravessar as camaratas, cuidando instintivamente que já estava na última, na que dava acesso à cozinha, virou na anterior, seguindo sempre pela janela fora, como se o chão continuasse. Foi uma queda abruta, um tombo medonho, um estrondo assustador que pôs em polvorosa todo o Seminário, sobretudo os médios que, àquela hora, estavam sentados nas suas cadeiras, no piso inferior, em profundo e absoluto silêncio, pois estavam em hora de estudo. Prontamente socorrido por professores e alunos, padre Jaime ficou em estado de grande debilidade. Levado ao hospital, verificou-se que tinha várias fracturas, para além de muitas escoriações. Das segundas livrou-se facilmente, mas as primeiras causaram-lhe grandes males de que só com o passar do tempo e com o a ajuda do “endireita” de Santa Bárbara se foi lentamente aliviando. Nada mais de grave lhe aconteceu, o que na altura foi considerado um verdadeiro milagre.

Verdade se diga que algum tempo depois foram colocadas grades nas janelas das camaratas dos médios e o padre Jaime passou a circular, mas suas idas e vindas à cozinha, pela capela de baixo, seguindo depois por um corredor que também a ligava aos refeitórios e à cozinha. Além disso, a mãe e a irmã, passaram a residir com ele em Angra.

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publicado por picodavigia2 às 18:05

TRINTÕES

Sexta-feira, 17.01.14

“Quem trintou casou.”

Numa sociedade profundamente rural e agrícola, como era a que existia na Fajã Grande, na década de cinquenta, casar era um momento muito importante na vida de cada um dos seus habitantes, nomeadamente das mulheres, para quem, ficar solteira significava “ficar para tia” ou seja sentir afunilar-se o futuro ou perceber que havia de entrincheirar-se num um projecto de vida, de isolamento e solidão, sem filhos, sem sentido e com falta de protecção e apoio, sobretudo, quando chegasse a velhice. Por essa razão, especialmente, para as raparigas, era importante casar, fazendo-o cedo. Se tal não acontecesse e porque o tempo corria veloz, vinha o desânimo, a tristeza, o desgosto e, por vezes, até a chacota e o gozo, por parte dos outros habitantes. Daí a acuidade deste provérbio que era sempre utilizado no sentido real, com a intenção de alertar as meninas e de as incentivar a não retardarem o seu casamento, caso contrário corriam o risco de ficar para tias. Mas o provérbio também era aplicado num contexto de jocosidade ou até de gozo, depreciando as mulheres que, já tendo atingido os trinta anos, possivelmente já não casariam. Na Fajã Grande na década de cinquenta, os trintões, sobretudo em se tratando de mulheres, se quisessem casar, já tinham muita dificuldade em fazè-lo.

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publicado por picodavigia2 às 15:48

A ENXURRADA DA PONTA

Sexta-feira, 17.01.14

Situada a norte da Fajã Grande, o lugar da Ponta fica encastoado entre a rocha e o mar, numa faixa de terreno rectangular, uma espécie de belga gigante, balizada entre a Ribeira do Cão e a Rocha do Risco. A Rocha pétrea e abrupta protege e abriga aquele pequeno povoado, dos ventos fortes de leste e é sulcada por diversas ribeiras e grotas, muitas delas a ostentar, na descida, belas e maravilhosas quedas de água, concedendo ao lugar da Ponta uma beleza impar, uma frescura inebriante e uma sonoridade inigualável. Além disso, a Ponta beneficia da Rocha, não apenas porque nela se aninha e abriga, mas também porque dela recebe grande parte dos produtos necessários ao seu sustento e dos próprios animais. Mas por vezes a rocha também é madrasta, porquanto nela se reflectem, intensamente, os calores do Verão, que depois são rechaçados para cima dos casebres e, muito especialmente, porque, de em vez em quando irrompe torturante e ameaçadora, lançando sobre o povoado jactos de terra, pedras e lama. São as ribanceiras ou enxurradas que, por onde passam deixam o caos e a destruição.

Uma das maiores derrocadas de que a Ponta foi vítima, aconteceu na década de sessenta. Decorria o mês de Setembro. Na véspera da festa da Senhora da Saúde, chuvas torrenciais desabaram sem dó nem piedade sobre a orla oeste da ilha das Flores, atingindo sobretudo a zona das Fajãs. A penetração das águas torrenciais nos aclives e socalcos da rocha sobretudo nos terrenos circundantes às margens de grotas e ribeiras e, sobretudo, o grosso e volumoso caudal de que estas últimas foram vítimas, fez com que se enchessem de terra, pedras, lama e árvores, arrastando tudo isso na descida da rocha, precipitando-se avassaladoramente sobre os terrenos circundantes às casas. Na Ponta, uma das ribeiras que atravessava a localidade, excedeu-se, excessivamente, no seu caudal, provocando uma derrocada de pedras e lama que destruiu terrenos, caminho, atalhos veredas, casas velhas e atingiu algumas moradias.

Curiosamente era nos arrabaldes do leito dessa ribeira que existia o matadouro do gado, utilizado para abater as reses por altura das festas do Espírito Santo ou quando algum americano prometia um jantar em louvor da Terceira Pessoa da Trindade. Assim, naquele local, existia um nicho, em forma de pequena capelinha, que tinha gravado os símbolos do Paráclito e onde se colocava a coroa, enquanto se abatia o gado, trazido e levado em procissão e com o acompanhamento dos foliões.

Após a catástrofe e para espanto de todos, a derrocada destruiu tudo ao redor do nicho, não deixando pedra sobre pedra. Apenas este, mantendo a sua alvura e solidez, permanecia absolutamente intacto como se nada por ali tivesse passado. Por isso mesmo o povo cuidou que se tratava de um verdadeiro milagre do Senhor Espírito Santo.

Este não desmoronar-se do nicho onde se colocava a coroa do Senhor Espírito Santo tornou-se ainda mais simbólico e misterioso por quanto foi interpretativo do solidificar-se duma clara e notória oposição existente na altura em todas as ilhas, a determinações do bispo diocesano que culminaram na “Excomunhão” dos Impérios e na proibição dos símbolos do Espírito Santo entrarem nas igrejas paroquiais e serem colocados sobre os altares.

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publicado por picodavigia2 às 14:24

O CAMINHO DA BANDEJA-QUEIMADAS

Sexta-feira, 17.01.14

Um dos mais irregulares e sinuosos mas também um dos mais belos e espectaculares caminhos da Fajã Grande, na década de cinquenta, era o que ligava o Caminho da Fontinha/Alagoeiro à Bandeja e às Queimadas e que era geralmente conhecido apenas pelo “Caminho da Bandeja”.

Tratava-se de um dos últimos caminhos da freguesia a ser construído e que, muito provavelmente, teria sido precedido por uma sinuosa canada ou vereda que, com muitas limitações e insuficiências, havia servido as terras de cultivo e as relvas localizadas num e noutro daqueles lugares. Embora construído com a largura suficiente para nele transitar um carro de bois, estes, praticamente não passavam da Bandeja e mesmo os que ali chegavam, faziam-no com alguma dificuldade, devido à anfractuosidade do piso. É que, ficando aqueles dois lugares situados por uma das encostas do Outeiro – a Bandeja a meio e as Queimadas lá no alto – era tal a inclinação do piso, a partir da Bandeja, que se tornava quase impossível transitar por ali um carro puxado por bois. O próprio gado, desencangado e solto, tinha alguma dificuldade em circular por ali. Essa a razão por que os donos dos campos das Queimadas e que neles produziam milho, optavam por acarretá-lo em cestos, às costas, para a Silveirinha, trazendo-o depois em carros que desciam o Batel até à Fontinha.

O caminho da Bandeja/Queimadas iniciava-se no Cruzeiro, junto à fábrica da Manteiga. O troço inicial era constituído por uma enorme recta, sendo que aí atravessava ainda terras pertencentes ao Alagoeiro, à esquerda e ao Tanque, à direita. Após esta recta inicial, entrava-se no lugar da Bandeja, atravessado de norte para sul por este caminho. Aí o caminho, embora ainda de forma relativamente suave, iniciava-se uma ladeira, em forma de curva alongada, para de seguida se prolongar através de uma recta, cada vez mais íngreme, mais inclinada e de mais difícil subida. A meio da Bandeja o caminho bifurcava-se, uma vez que aí existia uma canada que o ligava às terras do Outeiro. Como no lugar da Bandeja havia muitas terras de milho, alguns carros e corsões transitavam por este caminho, precisamente até meio da subida, na própria Bandeja. A partir daí, em termos de escalada, tudo era mais difícil, pois o caminho continuava com o piso cada vez mais inclinado e com inúmeras curvas e contracurvas, que dificultavam e causavam graves problemas a quem o subia. Além disso e no cimo da encosta, junto ao cerrado do Luís Fraga, embora o piso já fosse plano, o caminho prolongava-se mas transformando-se numa estreita canada que, em ziguezague ia percorrendo toda a zona das Queimadas e arredores, impedindo de passar qualquer meio de transporte.

Dado que as terras de um e outro destes lugares eram de cultivo ou relvas e uma vez que nestas últimas o gado pastava solto, as propriedades tinham que ser separadas umas das outras por grossas e altas paredes, feitas de enormes pedregulhos, o mesmo acontecendo com as paredes que ladeavam o caminho, o que lhe dava um ar tosco, agreste e selvagem mas também belo, soberbo e imponente. Da parte mais alta, sobretudo a partir da Bandeja disfrutava-se também de belas vistas e miradouros sobre o mar, uma parte da Fajã e toda a zona desde a Ribeira das Casas até à Rocha da Ponta, com a Caldeirinha, lá bem no alto a coroá-la.

No sítio da Bandeja, no local em que o caminho se bifurcava havia um largo formando um pequeno descansadouro, onde os homens se sentavam sobretudo durante a época em que o gado estava amarrado à estaca, alimentando-se de forrageiras e trilhando os campos para as sementeiras. À tardinha, muitos homens se sentavam ali, aguardando a hora da ordenha.

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publicado por picodavigia2 às 11:50

DIOGO IVENS

Sexta-feira, 17.01.14

Diogo Ivens Tavares nasceu em Ponta Delgada, em 8 de Dezembro de 1903, tendo falecido na mesma cidade em 1950. Não tendo prosseguido estudos universitários, seguiu uma carreira de burocrata mas foi um autodidacta que desde cedo se interessou pela literatura e pelo ensaio crítico. Colaborou muito na imprensa micaelense e em várias revistas nacionais. Publicou pouco e quase tudo ensaios, mas deixou inéditos, no romance, na novela e no teatro. Nos seus ensaios abordou questões de literatura europeia, portuguesa e açoriana, sobre a obra de Florbela Espanca, Eça de Queirós, Dostoiewski e Oscar Wilde, e dos açorianos Roberto de Mesquita, Antero de Quental e Vasconcelos César.

As suas obras principais são: Hamlet e Antero, Um poeta das Ilhas, Gil Vicente e Apontamentos sobre a poesia de Vasconcelos César..

 

Dados retirados do CCA – Cultura Açores

 

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publicado por picodavigia2 às 10:54

O PORCO ROUBADO

Sexta-feira, 17.01.14

Há muitos, muitos anos, moravam, perto um do outro, dois compadres. Um era pobre e o outro rico, mas muito avarento, sem querer dar nada a ninguém. Era costume que todas as pessoas, quando matassem o porco, dessem um pedaço do lombo ao senhor padre. O compadre rico e avarento, que queria matar porco sem dar o lombo ao padre, chegou junto do compadre pobre e começou a dizer mal daquele costume e que não concordava com aquele hábito, pois nem por nada queria repartir um naco do lombo do seu porco, que tanto trabalho e despesa lhe dera a criar. Então o compadre pobre aconselhou-o a que quando matasse o seu porco, o dependurasse no quintal para que toda a gente o visse. Durante a noite, às escondidas guardava-o em casa, para depois, na manhã seguinte dizer que lho tinham roubado. Assim livrava-se de dar um pedaço de lombo ao padre.

O compadre rico ficou muito contente com aquela ideia e seguiu à risca o que o compadre pobre lhe tinha dito. Depois de pendurar o porco no quintal, deitou-se com a intenção de ir, de madrugada, ao quintal, buscá-lo. Mas o compadre pobre, que era espertalhote, foi de noite, ao quintal onde estava o porco e, antes do compadre rico se levantar, roubou-lhe o porco. No dia seguinte, quando o rico deu pela falta do porco, correu a casa do compadre pobre e, muito aflito, contou-lhe o acontecido. Este, fazendo-se desentendido, dizia-lhe:

- Boa, compadre! Bravo! Muito bem, muito bem! Assim é que o compadre há-de contar ao senhor padre e safar-se-á de lhe dar um pedaço de lombo!

Mas o compadre rico cada vez teimava mais que lhe tinham roubado o porco mesmo a sério, enquanto o outro cada vez o apoiava e incentivava para que contasse assim, tudo muito bem contadinho, ao senhor padre. Tor fim o compadre rico foi-se embora desesperado e o pobre ficou com o porco para si, sem que o compadre rico desconfiasse.

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publicado por picodavigia2 às 10:01





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