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A REVOLTA DOS INHAMES

Terça-feira, 21.01.14

O inhame chegou aos Açores no século XVII, protagonizando, algum tempo depois, uma das maiores e mais importantes revoltas internas açorianas, com o epicentro na ilha de São Jorge, onde cultivado junto de fontes e rochas, locais pouco propícios a outras culturas, passou, rapidamente, a ter um papel importantíssimo na alimentação e na economia jorgense. O mesmo aconteceu nas outras ilhas e, assim, a produção do inhame nos Açores despertou, de imediato, o interesse dos cobradores de impostos. Mas o povo não aceitou de bom grado o ter que pagar impostos sobre o cultivo dos inhames, com a agravante de os impostos serem, obrigatoriamente, cobrados na terra do cultivador, que assim ficava obrigado a transportá-los, sobretudo no caso de São Jorge, por veredas e rochas íngremes e inacessíveis, até ao local destinado à cobrança do imposto e a entrega aos cobradores.

Descontente, o povo, o povo daquela ilha, com apoio de algumas autoridades locais, manifestou-se revoltosamente, ficando esta rebelião conhecida pela “Revolta dos Inhames”. A sublevação, que teve lugar no largo da igreja do Norte Pequeno, e que está gravada com duas folhas de inhame no brasão da vila da Calheta, no entanto, nada trouxe de benéfico para o povo que acabou por ter que acatar, à força e contra a sua vontade, a imposição dos cobradores de impostos.

Portugal, no século XVII vivia os dissabores da guerra da Restauração, cujas despesas eram enormes e não podiam ser somente cobertas com a simples arrecadação dos impostos, até então, existentes, essencialmente centrados nos produtos de maior valor comercial, como os cereais e as carnes. Face ao aperto das finanças reais, foi preciso reforçar os mecanismos de geração de receita fiscal e taxar novas produções, alargando assim a base tributária. Estas medidas também chegaram à parcela mais ocidental do país. O inhame florescente e fortemente cultivado nos Açores e com grande peso económico das ilhas – São Jorge era o protótipo – manifestava-se como uma fonte de receita, aparentemente, proveitosa para o reino

Assim e com o nome de “dízimo das miunças e ervagens” foi criado um novo imposto sobre todas as produções de hortícolas, erva para os gados (incluindo neste caso o próprio gado) e outras pequenas produções agrícolas (daí a designação de miunças). Este dízimo, perdurou nos Açores até à implantação do regime liberal e a sua cobrança gerou profundo repúdio, tanto mais que os cobradores eram, em geral, capitalistas lisboetas que enviavam agentes às ilhas, os quais extorquiam, sem dó nem piedade, o que era devido e o mais que podiam, aos pobres habitantes das ilhas. A este descontentamento, somava-se o desfazer dos sonhos de uma vida melhor, prometida pela Restauração e, além disso, os antigos capitães-do-donatário de outrora haviam possuído, nas ilhas, grandes latifúndios, que agora estavam nas mãos da alta aristocracia de Lisboa, e reduziam a maioria dos lavradores açorianos à mísera condição de foreiros, sujeitos a pesadas rendas e impostos. Nalgumas freguesias de São Jorge, os poucos terrenos disponíveis para os seus naturais cultivarem eram apenas as rochas e as fajãs onde floresciam os inhames.

Tudo isto fez com que o descontentamento da população aumentasse e se criassem condições propícias para eclodirem vários movimentos de contestação.

A Revolta dos Inhames despoletou em 1694, quando foi solicitado o pagamento coercivo da dízimo, com a agravante de que deveriam ser os agricultores a proceder ao transporte dos inhames desde os campos até ao local de recolha. O descontentamento foi geral, sobretudo em São Jorge. Carregar às costas inhames, desde as Fajãs até ao povoado, ou arriscar a vida a transportar inhames ao longo de falésias, por carreiros mais adequados a cabras do que a pessoas, para depois os entregar como dízimo parecia desumano. Tanto mais que o dízimo do trigo era cobrado na eira, o do milho era cobrado ao portal da terra e o do vinho à bica do lagar. Pretendiam os revoltosos, sobretudo, que se cobrasse o imposto no local de cultivo e não tivessem que subir as encostas íngremes e abruptas com os inhames às costas, destinados aos cobradores. Para São Jorge foram enviados militares da Terceira sendo muitos habitantes da ilha sujeitos a interrogatórios, havendo também muitas prisões. Foi levado a cabo um rigoroso inquérito aos incidentes ocorridos, o qual culpabilizou os amotinados e ainda as autoridades da Calheta que os tinham apoiado e defendido. Igualmente foram julgados culpados os juízes e vereadores da Câmara da Calheta, que no entanto fugiram, escapulindo à prisão. No entanto, procedeu-se ao arresto dos seus bens e haveres, a fim de pagar os dízimos em atraso e os juros que eram acrescidas, as soldadas e demais despesas do corregedor, dos soldados, dos juízes, incluindo as viagens e a alimentação.

Muitos dos culpados ficaram, definitivamente, arruinados, tendo de vender tudo o que possuíam para pagar as quantias em que foram condenados. Outros foram conduzidos sob prisão ao Castelo de São João Baptista, à cadeia de Angra e ainda à cadeia da Horta. Sabe-se que muitos por lá morreram de doença, fome e desgosto. É verdade que a revolta dos inhames foi um ponto alto na vida comunitária da população de São Jorge e de união e luta das suas gentes, em prol dos seus interesses, mas muitos dos seus habitantes foram injustiçados e a ilha ficou mais pobre, porquanto muitos moradores arruinados pelas quantias a pagar mergulharam numa enorme miséria, que os forçou a sair da ilha e a emigrar para o Brasil e, mais tarde, para a América.

Curiosamente noutras ilhas tudo foi mais calmo, como no caso do Corvo e Flores, em que os habitantes, ardilosamente, construíram grutas e aproveitaram outras naturais, para esconder os inhames e fugir, assim, aos malditos impostos e à sádica ganância dos cobradores.

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publicado por picodavigia2 às 22:45

A ARCADA

Terça-feira, 21.01.14

Naquele ano, meu avô fora comprar um bacorinho ao Mosteiro. Raça boa, promessa de fartura em carnes e toucinho, o bicho, chegando à Fajã miúdo mas gordinho e rechonchudo, lá foi crescendo a olhos vistos, com baldes e baldes de lavagens enriquecidas com farelo, com cestos de batatas-doces e, de vez em quando, com umas maçarocas de milho. Enfim, um cardápio de se lhe tirar o chapéu. Deitou, pois, um corpanzil, o danado do porco e tornou-se num belo animal, admirado e louvado por quantos, passando ao lado da casa do meu avô, com laivos de inveja, metiam o nariz no curral, simplesmente para bisbilhotar.

Mas não se contentava o suíno com gamela farta e cheia. Passava os dias a roncar que parecia louco, a empinar-se contra as paredes da cerca, como se quisesse saltar cá para fora e, pior do que isso, havia de se atirar ao chão do curral, num contínuo e permanente fossar, revirando-o de uma ponta à outra. Parecia um cerrado de covas e regos abertos, à espera da sementeira para o batatal. Meu avô é que não se empolgou com o vício do porco e não lhe foi na cantiga. Ao princípio, ao ver aquela “porquinheira” abominável, desinteressante e incomodativa, apenas lhe dava uma paulada agora, outra logo, a ver se o bicho se acomodava. Mas o maldito é que não se corrigia, antes, de dia para dia, mais fossava, mais remexia, mais revirava e mais esburacava e destruía o curral. E tanto fossou e chafurdou, tanto esburacou e escavou, que meu avô não esteve com meias medidas, decidindo-se por espetar-lhe uma arcada no focinho.

Com a ajuda de meus tios e do vizinho Bizarro, meu avô armou-se de um bom bocado de arame, bem limado e afiado numa das pontas, duma turquesa, de um alicate e de uma valente corda. Quando o porco menos esperava, saltaram todos, de rompante, para a cerca, atirando-se ao bicho como Santiago aos Mouros. Antes porém taparam, com uma tábua, a porta do chiqueiro para que o malvado, adivinhando o ardil, lá não se escondesse, protegendo-se e, assim, conseguindo fugir à trágica e eminente “cravadela” que sobre si próprio se pairava abater.

O porco ao princípio estarreceu, parado que nem uma estátua, como se tivesse sido apanhado de surpresa. Mas como os homens se aproximassem dele, percebeu, de imediato, que havia de ser agarrado e amarrado o que, decerto, não seria para coisa boa. Por isso, começou aos saltos, a correr de um lado para o outro e a grunhir muito aflito e desconfiado. Preso por um pé, depois pelas orelhas, finalmente, os homens paralisaram-no por completo, amarrando-o e prendendo-lhe uma alça da corda, no queixo superior e de seguida, enrolando-a de modo a apertar-lhe a boca, de maneira que não pudesse morder. O porco em alta gritaria, grunhia, gingava e impulsionava o corpo, para trás, para diante e para os lados, em convulsões contínuas a fim de se libertar das garras dos domadores. Mas nada. Os homens, depois de o agarrarem, nunca mais o largaram, por mais que ele grunhisse, escorropichasse, esperneasse e tentasse a fuga. Após alguns minutos de luta renhida, o porco, percebendo que a força dos humanos o superava, acalmou-se, iniciando um grunhir mais grosso, mas pachorrento e sossegado, até que se aquietou por completo, cessando os seus movimentos de revolta e contestação. Não imaginava era o que havia de seguir-se… O vizinho João Bizarro, pegou no arame que meu avô lhe alcançara e enfiou-lhe, no focinho e de cima para baixo, a ponta afiada. O porco gritava como se estivessem a matá-lo, ao mesmo tempo que dava enormes solavancos iniciando um grunhir agudo e persistente que se prolongaria durante toda a operação. Meu avô e meus tios cada vez o agarravam com mais força, imobilizando-o por completo, de maneira a que o vizinho Bizarro, com toda a calma, depois de retorcer o arame, lho voltasse a enfiar no focinho, agora de baixo para cima. De seguida torceu-o e voltou a enfiá-lo mais duas/três vezes no focinho do porco, acabando por cortá-lo nas extremidades, enrolando as pontas, uma na outra com o alicate, fazendo assim uma espécie de argolas que, para sempre, presas no focinho do cevado, haviam de o impedir de fossar. Depois, retirando-lhe a corda da boca e do queixo, soltaram-no. O porco, porém, mais receoso do que dorido, apanhando-se solto, refugiou-se no chiqueiro, onde, desconfiado, permaneceu durante horas, a grunhir com voz lânguida e dolente.

É verdade que nos dias seguintes mal comia, pois a arcada, colocada de modo a lhe doer, ao mínimo contacto com uma superfície dura, impedia-o de enfiar o focinho na gamela, feita de pedra rija. Segunda a douta opinião da minha avó, o porco até emagreceu bastante e perdeu peso, chegando mesmo a definhar. Com o tempo, porém, mesmo com a arcada no focinho, cheio de apetite, recuperou o hábito de limpar a gamela por completo e, dentro em breve, adquiriu o peso desejado, mas nunca mais fossou no chão do curral.

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publicado por picodavigia2 às 21:20

A LENDA DAS AMENDOEIRAS EM FLOR

Terça-feira, 21.01.14

Conta-se que há muitos séculos, antes de Portugal ter nascido, no tempo em que o Al-Gharb (Algarve) ainda pertencia aos Árabes ou Mouros, reinava naquele território um jovem e audaz monarca de nome Ibne-Almundim, o famoso valido de Allah, porque nunca perdera uma batalha ou, sequer, sofrera uma derrota e era o mais temido dos reis mouros do seu tempo.

Ora num dia, após mais uma das suas retumbantes vitórias sobre os reis cristãos do norte da Península, aconteceu que o facínora vislumbrou uma linda princesa muito loura, de olhos azuis e de porte altivo, filha de um rei que havia sido derrotado por ele próprio. Gilda era o nome desta menina de rutilante beleza e que, de imediato, prendeu a atenção daquele rei árabe. Gilda era princesa num reino do Norte e filha de rei cristão. Após a batalha, Ibne-Almundim raptou-a, levando-a consigo para o seu longínquo reino do Al-Gharb. Não obstante, a sua beleza fulgurante, Gilda tinha uma personalidade forte e bem marcada e não se mostrava com medo e, por isso, procedeu, no seu relacionamento com ele, não como esposa mas sim com uma aguda consciência de que era sua prisioneira ou escrava, embora nunca se esquecendo da sua condição de princesa. Obedecia ao rei mouro, frisando sempre a relação de obediência e escravidão que a unia a ele, uma vez que ele próprio a raptara e fizera prisoneira.

Cansado de possuir a sua amada desta forma tão pouco natural e desejando-a, antes, como esposa de verdade, lbne-Almundim, finalmente, um dia, soltou-a e deu-lhe liberdade para ela ir onde quisesse e fazer tudo quanto lhe apetecesse. Um sorriso de gratidão, simpatia e confiança foi a resposta de Gilda, ao seu desejo mais íntimo. Todavia, a reacção da bela princesa a este acto inesperado, foi bem contrária à vontade e intenção do rei mouro que, de governante alegre, poderoso e invencível, passou a andar sombrio, sorumbático e com demoradas e excessivas crises de mau humor. Havia um sentimento que não só limitava a sua força e espírito de herói mas que também o sufocava e oprimia: era o desejo e a necessidade de voltar a ver Gilda, de lhe falar, de a ouvir, de a ter como verdadeira esposa. Deixando-se vencer pela paixão, Ibne-Almundim foi ter com Gilda e revelou-se-lhe como ninguém o conhecia, despido da fama, do dinheiro, do respeito, do espírito bélico e envolvido num tom de voz amiga, doce e meiga. Perante o pedido do rei árabe para ela ser sua mulher, Gilda rendeu-se às suas palavras e a festa da boda, de grande aparato e sumptuosidade, logo ocorreu, com gente de todos os reinos, carregados de preciosas oferendas, trovadores e músicos de terra distantes, bailarinas de corpos ondulantes que espalhavam magia pelo ar. No último dia da festa, lbne-Almuindim deu pela falta de Gilda e sem hesitar foi procurá-la, mas encontrou-a doente, quase morta, ainda mais branca do que habitualmente e inundada em lágrimas. Tentando responder às perguntas do seu amado e sossegar o seu espírito, Gilda não conseguiu levantar-se. Custava-lhe a falar, sentia que ia morrer e não percebia, agora que estava livre, por que ficara assim mergulhada numa prostração, deixando de ouvir as palavras, súplicas ou lágrimas de lbne-Almundim.

Em pânico e completamente desorientado, o jovem rei árabe reuniu no palácio todos os sábios e curandeiros do reino, mas nenhum lhe disse o que os seus ouvidos queriam ouvir. Vencido pela primeira vez na vida, e já sem esperança, o rei recebeu a visita de um velho prisioneiro também das terras do norte, antigo súbdito do pai de Gilda que lhe queria falar. Este homem velho não era um sábio, mas era um poeta e afirmou que lhe ia revelar a causa da doença da jovem e bela princesa, não porque ele merecesse, mas por causa de Gilda. Depois de ver o velho, os olhos de Gilda sorriram e ela voltou a falar. O velho animou-a e disse-lhe que se havia de curar. Ouvindo a conversa de ambos, Ibne-Almundim conduziu o velho até ao terraço e este confessou-lhe que a doença de Gilda era a nostalgia, ou seja, a bela princesa, simplesmente, tinha saudades da neve do seu país distante e longínquo e que naquela altura do ano se cobria de neve e enfeitava de branco os campos assim como as terras até onde os olhos conseguiam alcançar. Estupefacto, mas já alimentado de esperança, o rei sarraceno não hesitou quando o velho poeta lhe disse que ele só precisava de fazer uma coisa para curar Gilda: mandar plantar, em todo o seu reino, e muito especialmente ali diante do seu palácio muitas amendoeiras porque estas, ao florirem, com as suas belas flores brancas, dariam a ideia de neve, aos olhos saudosos da princesa e ela curar-se-ia. Assim foi feito e assim aconteceu, pelo que a alegria da princesa voltou a inundar o palácio e a beleza das amendoeiras começou a enfeitar as terras do Algarve.

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publicado por picodavigia2 às 17:24

A ÁGUA DA FAZENDA (DIÁRIO DE TI'ANTONHO)

Terça-feira, 21.01.14

“Meu pai contava que quando era pequeno ouvia contar que há muitos, muitos anos o povo da Fazenda Vila, andava muito entusiasmado porque estava finalmente a realizar um sonho já velho: construir a sua igreja, dedicada a Nossa Senhora de Lourdes. Tinham escolhido um lugar alto e vistoso, de onde se podia avistar não só quase todas as casas do lugar mas também os terrenos verdes salpicados do azul das hortênsias, na Primavera e Verão ou ainda de onde podiam ver e observar o mar até ao horizonte.

Aquela gente andava muito contente mas também muito cansada porque tinha de fazer os seus trabalhos nas terras e não eram poucos mas tinham também que ajudar nas obras da sua igreja. Mas o pior é que não havia água nas redondezas, tinham que a ir buscar muito longe, o que dificultava ainda mais os seus trabalhos. Enquanto os homens iam levantando as paredes com os mestres, as mulheres e as crianças caminhavam de latas e baldes de madeira à cabeça para a Ribeira de Além, buscar água. De lá traziam, com grande esforço sacrifício, a água que os homens precisavam para ir fazendo a argamassa. Várias vezes, durante a viagem, debaixo de um calor intenso, as mulheres pediram a Nossa Senhora de Lourdes que lhes deparasse uma coisinha de água, ali mais perto. E não +e que Nossa Senhora fez o milagre…

 Uma certa noite, enquanto todos dormiam profundamente e descansavam de um dia de muito trabalho, a água nasceu na rocha e começou a correr com abundância ao pé do lugar onde estavam a levantar as paredes da igreja. De manhã, ao chegarem, os trabalhadores ficaram muito admirados com toda aquela força de água. Então as pessoas da Fazenda, animados na sua fé, trabalharam ainda com mais vontade, até acabar a construção da sua igreja.

 Mas a água continuou a correr numa fonte debaixo da sacristia da igreja de Nossa Senhora de Lourdes. Os florenses, em geral e os fazendenses em particular,  começaram a sentir uma veneração muito especial por esta água fresca que, para além de os ajudar na construção da igreja, curou muitas doenças às pessoas, algumas vindas de freguesias distantes só para beber a milagrosa água de Nossa Senhora de Lourdes.

Passaram-se muitos anos. A igreja precisava de ser pintada. Pois o povo daquele lugar, ensaiou umas belas músicas e percorreu a ilha toda a pedir ajuda para conseguirem o dinheiro para comprar as tintas. Também vieram aqui à Fajã. Pernoitavam em casas de pessoas amigas e cantavam assim pelas portas de todas as casas:

Nossa Senhora de Lourdes,

É que vos há-de abençoar,

Se derdes a vossa esmola

P´ra pintar o seu altar.”

Correram a ilha inteira e pediram em todas as casas. Cada um dava como podia e, assim, conseguiram, restaurar a sua igreja,”

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publicado por picodavigia2 às 14:45

RABO-DE-PALHA

Terça-feira, 21.01.14

“Quem tem rabo-de-palha, julga que tudo o que vem atrás é lume.”

Este é, na realidade, um outro dos mais interessantes, sábios e doutos adágios, ainda, utilizado na Fajã Grande, na década de cinquenta. Usado sempre no sentido figurado, com ele pretendia-se alertar as outras pessoas para os riscos que correm os medrosos, os hesitantes e os pouco destemidos. Na realidade cuidava-se que teriam rabo-de-palha as pessoas fracas, indecisas, que vacilavam perante as soluções dos problemas, obstaculizadas em contornar as dificuldades e resolver as situações de embaraço em que muitas vezes, involuntariamente, se envolviam. Inerente a essas atitudes era o medo, de fracassar, de se auto destruir e de perder tudo. O medroso, outrora, como ainda hoje, cuidava que pouco poderia conseguir, ao indeciso tudo metia medo, o hesitante julgava que tudo o impedia de agir, o fraco pensava que em tudo havia de fracassar e os vacilantes cuidavam que não seriam capazes de se tornarem fortes. Por isso, tudo o que os rodeasse, rotulado de algum aventureirismo havia de os amedrontar e assustar ainda mais.

Este provérbio era uma forma de alertar, de incentivar e acicatar todos e cada um, para com força e dignidade resolver os seus problemas,

Cuida-se, no entanto, que o adágio teria também uma outra conotação. Já que ter rabo-de-palha significava ter cometido alguma coisa comprometedora ou menos conseguida ou digna. Assim por tudo e por nada cuidavam os prevaricadores que seriam descobertos, sentenciados e condenados. Tal assombro desembocava, necessariamente, num constante e premente medo de ser apanhado ou descoberto, por isso tudo o que fosse indício ou se assemelhasse a prova denunciadora parecia lume.

Quem de uma forma ou de outra estivesse comprometido, pela negativa, com algo ou com alguém, havia de viver sob o flagelo permanente do medo de ser descoberto e, consequentemente, condenado.

 

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publicado por picodavigia2 às 10:18





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