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A MINHA BENFEITA (DIÁRIO DE TI’ANTONHO)

Sexta-feira, 24.01.14

17 de Janeiro de 1947

 

“Tenho tantas saudades da minha Benfeita… Ela era o meu “ai Jesus”. Era uma vaca lavrada de preto e branco, com um pelo muito luzidio e um andar muito elegante. Boa de leite e sempre pronta a puxar o arado ou o corção.

Nasceu e foi criada no meu palheiro. A sua mãe era uma vaca toucada que tive durante anos e o pai, um belo touro de meu compadre Mateus. Bem cedo percebi que daquela bezerra se havia fazer uma boa vaca de leite. Não me enganei. Apanhou cria muito nova e logo na primeira vez que pariu, deu-me a lata grande de 12 litros, a transbordar de leite.

Coitadinha da minha Benfeita! É que cedo, ainda era uma bezerrinha, meti-lhe a canga e habituei-a ao trabalho. A valente nunca me virou a cara às sementeiras, ao lavrar dos campos ou ao puxar o “corsão” de canguinha, bem carregado, umas vezes de lenha, outras de milho e outras de feitos e cana roca. Ainda nem tinha um ano e já lavrava o meu cerrado do Areal três vezes. A primeira faina era a mais árdua e desgastante. A terra estava coberta duma camada de estrume que ela havia carreado, dias a fio, tornava-se muito rija com os rigores do Inverno, por isso tinha que ser lavrada com o arado de ferro, muito mais pesado e com umas aivecas gigantes que perfuravam a terra em grandes sulcos. Mas tinha que o puxar de canguinha, pois eu não tinha mais nenhuma rês. Ela porém lá ia pacientemente, lutando contra a força opositora dos regos sulcados pelo arado e contra os impropérios, insultos, ameaças e, por vezes vergastadas que lhe dava. Pobre coitada! Agora bem me arrependo. Eram horas e horas de trabalho, de esforço e canseiras. No fim estava exausta. Da boca escumava-lhe uma baba esbranquiçada que lhe caía em fios sobre a terra fresca, o corpo cobria-se-lhe de suores, sentia vertigens, quase desfalecia. É verdade que no fim lhe passava a mão pelo lombo, lhe anafava os pelos lhe fazia uns carinhos e lhe dava umas maçarocas de milho, o que servia de lenitivo para o enorme desgaste. Seguia-se o puxar da grade, tarefa não menos árdua do que a anterior, embora bastante mais rápida. É que a terra não podia ficar assim cheia de leivas e torrões, a aquecer ao Sol. Amarrava-a então à grade, cravejada de enormes bicos de ferro de um dos lados. Do outro lado colocava-lhe enormes pedregulhos a fim de que os dentes de ferro penetrassem na terra e a alisassem. Passados dois ou três dias a Benfeita voltava ao cerrado do Areal. Agora era encangada ao arado de madeira muito mais leve e com uma pequena aiveca de madeira com uma luzidia ponteira de ferro que ia abrindo pequenos regos destinados à sementeira do milho. Atrelava-a ao arado e ela traçava regos paralelos e simétricos de uma extremidade à outra do terreno. A minha Maria seguia atrás de nós e, retirando punhados de milho de uma cesta que levava enfiada no braço, atirava os grãos com tanta agilidade e perícia que eles caiam direitinhos no rego, muito bem alinhados uns à frente dos outros. A Benfeita seguia sozinha, sem ninguém diante. Parava quando era preciso alisar algum torrão e virava, no fim de cada rego que se fechava com o abrir do seguinte, tapando assim os grãozinhos que ali ficavam a germinar durante alguns dias. Por fim voltavam os mimos e as maçarocas de milho pois esperava-a de novo a grade. A terra tinha que ser de novo gradeada e alisada para que os grãos ficassem todos muito bem escondidinhos e assim germinassem mais facilmente.

É verdade que passadas umas semanas havia de consolar-se com as sobras do desbaste e mais tarde com a espiga e no Inverno com a rama seca. Ajudou-me muito a minha Benfeita. Mas nunca lhe faltei com erva fresquinha que lhe ia buscar de madrugada à lagoa das Covas, com incensos que acarretava da Cabaceira e com couves e rama de batata-doce que lhe trazia das Furnas.

Um homem afeiçoa-se tanto aos animais, que só Deus o sabe. E hoje chorei que nem uma Madalena, pois tive que ir levar a minha Benfeita à Vila, para a embarcar para Lisboa. O animal estava a ficar velho e, além disso, o outro dia ao descer a ladeira do Covão “pegou” no rapaz do Furtado. Durante toda a viagem até Santa Cruz, a pobrezinha não parou de berrar a berrar. Parecia que sabia para que estava destinada e para onde eu a levava.

Custou-me tanto, tanto separar-me dela que nem calculam.”

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publicado por picodavigia2 às 22:06

A VIOLA DA TERRA

Sexta-feira, 24.01.14

Embora sem nenhuma ligação directa à música popular e ao folclore açoriano, nem sequer com alguma formação ou competência musical, mas simplesmente como apreciador de costumes, tradições e valores culturais, recordo-me que desde sempre ouvia as mais nobres referências aquele, tão interessante, instrumento musical designado por “viola da terra”, que, na década de cinquenta, ainda existia em muitas casas da Fajã Grande, das Flores, como ícone quase sagrado e que importava perseverar.

Trata-se de um instrumento musical de cordas, tipicamente açoriano que, segundo reza a história, terá existido, desde os primórdios do povoamento do arquipélago e que é considerado como que um símbolo emblemático das ilhas açorianas, dos seus costumes e tradições, da sua música e, sobretudo, do seu folclore.

Na Fajã Grande e, muito provavelmente, em todo o arquipélago açoriano, na década de cinquenta, o uso da “viola da terra”, ligava-se, sobretudo, aos cantares festivos, aos "balhos”, casamentos, danças de carnaval, serões animados, matanças do porco e outros divertimentos e, por vezes, até em trabalhos colectivos.

A viola da terra, também conhecida como viola de dois corações, é um instrumento semelhante ao violão mas, sensivelmente, mais pequeno. Uma das suas características é a existência de um orifício, no tampo da caixa-de-ressonância, em formato de dois corações unidos, com as pontas em sentidos opostos e ligados por um coração mais pequeno, em vez do habitual buraco, geralmente, redondo, que os outros instrumentos possuem. Há quem, virando a posição da viola, veja nos corações invertidos o desenho de uma coroa do Espírito Santo, símbolo do Paráclito, de tanta devoção e com tantas tradições entre o povo de todas as ilhas. O desenho dos corações parece estar ligado ao sentimento de saudade, tão comum entre as gentes açorianas, sobretudo devido à sua eterna vocação emigrante e, por isso, a viola da terra, muitas vezes, era levada na bagagem pelos emigrantes que demandavam quer os Estados Unidos quer outras paragens.

Dizem os entendidos que “este instrumento musical possui cinco parcelas (ou ordens) de 12 cordas, sendo afinado, do mais agudo para o mais grave, mi, si, sol, ré, lá nas ilhas dos grupos Central e Ocidental, enquanto no grupo Oriental dos Açores a afinação da corda prima é feita num tom mais baixo, ou seja em ré.”.(1)

No Pico, na década de cinquenta e seguintes eram frequentes os serões chamados “Folgas”, onde a viola da terra estava sempre presente e desempenhava papel predominante. Geralmente à luz de uma Petromax ou de candeeiros a petróleo o povo bailava, por vezes quase até de madrugada. E dizem os historiadores que se juntavam os casais, em casa própria e com a viola da terra e outros instrumentos tocava-se e bailava-se a Chamarrita.

A viola da terra, antigamente, como que fazia parte da vida de cada família. Regra geral era uma herança de pai para filho, quando o pai morria, o filho mais velho ou outro que a soubesse tocar (e quase todos o sabiam fazer) recebia-a como herança. E, nas casas, as mulheres quando faziam a cama, era tradição colocar a viola sobre o travesseiro, ou no meio da cama, com um xaile à volta. Na Fajã Grande e creio que no Pico também, em tempos mais recuados, dizia-se que uma família que ficasse de luto por um familiar próximo devia esconder a viola no tecto, enquanto durasse o chamado “luto pesado”. Daqui se conclui a importância e do significado da viola da terra e o facto de simbolizar alegria e divertimento, um e outro, interditos em momentos de dor e sofrimento.

Segundo o recente testemunho de José Agostinho Serpa, um dos poucos tocadores actuais e o único construtor da “viola da terra” na ilha das Flores, divulgado no “Forum Ilha das Flores”, no passado dia 18 de Janeiro, «A viola da terra já esteve praticamente votada ao abandono na ilha das Flores. Hoje existem, apenas, dois ou três tocadores». No Pico, felizmente, esse número parece ser bem maior.

(1)     - Colaboração de Maria Antónia Fraga

 

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publicado por picodavigia2 às 20:41

FRANCISCO DE CHAVES E MELO

Sexta-feira, 24.01.14

Francisco Afonso de Chaves e Melo nasceu na cidade de Ponta Delgada, em 1685, tendo falecido na mesma cidade em 1747, Foi morgado e administrador do vínculo da família Chaves e Melo, capitão de ordenanças da companhia do Rosto de Cão, juiz da alfândega, mar e direitos reais e contador da Fazenda Real nas ilhas de S. Miguel e Santa Maria. Era parente da venerável Margarida de Chaves, decidindo escrever uma biografia dessa sua antepassada usando muita documentação familiar, com o fim de não deixar cair no esquecimento o processo de beatificação. O livro que veio a intitular Margarita Animata tornou-se num clássico da historiografia açoriana e uma preciosa fonte informativa para o século XVIII micaelense. A obra divide-se em duas partes, uma primeira com a biografia da venerável Margarida de Chaves e a segunda com a descrição da ilha de S. Miguel.

Outras obras: Idea Moral, Polticia e Historica, de Tres Estados, discursada na vida da Veneravel Margarida de Chaves e Virgem Maria Santíssima,

 

Dados retirados do CCA – Cultura Açores

 

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publicado por picodavigia2 às 19:13

O DIÁLOGO DOS VELHINOS

Sexta-feira, 24.01.14

Fajã Grande das Flores – anos cinquenta. Sentados à Praça, na soleira da porta da casa velha do Laureano Cardoso, (a casa que Pedro da Silveira descreve num dos seus poemas e que terá pertencido ao seu avô) dois velhinhos conversam, em puro “dialecto fajãgrandês”:

 

- Wei, home! E antão? Toca a descansá, pr’aí! Tás bunzinhe c’ma pareces?

 - Ó home, iste tá mun somenes. Ache qu’apanhei frie, tou sim fastie e cua caganeira dos diabes. Ainda pur cima doim-m’as aduelas qu’é ua coisa feia. Nim sequé me posse agaichar. Tou a modes c’ma tole, nem m’apetece pegá na navalha e falquejá…

 - Deixa lá, home, nã crames tante. Antes isso cum soque nun olhe! Mas olha qu’ei fique ben abalade cum isse. Mas ei nã te posse fazê nada. Há uns tempes atrás, tamen andei bem mal amanhade e coa casa cheia de monces piquenes pa m’apoquentar.

 - Pois é, home. Na noss’idade é contas e bordões. Istames quase entre a cruz e caldeirinha. Lá vai o tempe qu’agente nan parava in ramo verde. Ei ia ao mate num pé e vinha n’outro.

 - Ó home, fot’avantage! E ei tamen, quand’era nôve, nã tinha lanzeira nenhua. Trabalhava cm’um danade e nunca ranzelei. Sasquei muites dedes, fiz muitas tupadas, até cum dedes degolades e cui pés que pareciim pães de milhe, calcorriei muites caminhes, sempre descalce, trabalhei que me fartei. Às vezes, até parecia que deitava as tripas pela boca fora

 - Ei tamen nã parava in rame verde, home e nunca tive murrinha nenhua. Mas a minha mulhé ten m’ajudade muite. In casa é ua mulhé perfeita de mãos e ben escoimada. Nas terras é u que toda a gente vê: danada p’ra trabalhar. Trabalha c’ua gadanha ou cum ansinhe milhó que muites homes.

 - Tens bastanta sorte, home dos diabes. Ei é que tou mum semenes e, ainda pur cima, sozinhe neste munde. Nin sequé um prate de mangão sei fazê, nim muite menes cuzê bole do tijole.

 - É triste home, é triste. Mas o milhó é a gente falá in coisas ben más alegres.

 - Mixeriques, qués tu dzê?

 - Olha, sabes que virim a mulhé do Batoco caldeada cu Sabastião, nos apsteres lá de casa. Dizim qu’era un bonite fandine. Tavim ui dois in coire…

 - Virge Maria! Louvade e louvede! Mas tamen o Sabastião… fotavantage! Aquele sanabagana mete-se é cus fraques. Precisava era qu’álguém lh’aquecesse a pélia. Aqui atrasade, o sanabicha andava a dar arrefiadelas à piquena do Desalmade. E um badameque daqueles, no fim, ainda se põe a arreganhar ei ventas.

 - Mas a du Batoco tamen é ua boa bisca e ele, ainda por cima, coitade, já mal s’aguent’in pé, já mal mech’as aivecas, já nã pode cun gate pindurade p’lo rabe. E o pior é que nã s’incherga. Aquilh’é qu’é ua alminha de Deus. E ele cu Sabastião são amigues c’ma porcos.

 - Ó home, deixa lá! Isse tamen nã são contas do nosse rosaire. Falemes mas é dei nossas vacas. Olha, a minha Lavrada, benzá Deus obra, dá ua grandeza de leite mas o oitre dia, na relva das Queimadas saltou a parede e até m’arrebantou o estrape da campainha. Agora tenhe que lhe pô ua galocha, mas c’mei nan tenhe nenhua, vou mas é acabramá-la. Ela há-de s’amanhá assim.

 - Fazes ben, home, fazes ben. Ei minhas tão mas é no oitone, amarradas à estaca. Dão bem menes consumições, mas ainda onte, chuvia c’ma Deus a da dava, ua delas, puxa que puxa, a sanababicha, lá m’arrebantou o suevo! Amarrei-a cum’ua corda e c’ma ande a corrê o millhe du Areal, tirei-a do tailhe e deitei-lh’o desbaste.

 - Já vedei a minha relva da Pedra d’Agua! Pó mês que ven a minha vai dá bezerre.

 - Poisei minhas, ua tá dando e a outra vou ingordá-la pá mandá ver os sinhôs de bengala. Já sou mum velhe pa tratá de duas vacas sozinhe.

 - Ó home, mas isso é bunzissime! Menes trabalhe e mais móni in casa.

 - Agora cá, home. Bota ben sintide nu qu’ei digue. Olha q’ei nunca fui muite agarrad’ao dinheire, e agora, imbarcand’a vaca, nan vou guardá u dinheire nos caninhos, vou mas é cumprá ua barra, ua ministra e ua clauseta nova pá casa de fora e metê áugua in casa.

 - Fazes ben, home, fazes ben. Ei é que n’na posse. Só se fosse cum conchas de lapas.

 - Ó home, já chega de conversa. Ala botes, mas é pra casa, que já é ben tarde Tou danade p’ra ciá e são horas d’inchê o pandulhe e tim que me deitá cede. Goste de me deitá c’u as galinhas. Até amanhã, se Deus quisé.

 - Nã, mas pra casa é quéi nã vou ainda. Vou fica pur aqui mais um bom padaço. Mas ei nã queria ficá a vê navies. Pode ser que chegue algum, cum mais alcuvitices. Até amanhã, se Deus quisé, home.

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publicado por picodavigia2 às 18:02

O RAPAZ SEM OLHOS

Sexta-feira, 24.01.14

Era uma vez uma mãe que tinha dois filhos, mas como era muito pobre e pouco tinha para lhes dar. Um dia mandou-os pedir esmola mas havia de lhes dar, para levarem, um pequeno farnel do puco que ainda tinha em casa. Antes, porém, perguntou-lhes se queriam ambos comer da mesma vasilha ou levar cada um a sua comida separada. O mais velho disse que era melhor cada um levar a uma vasilha com a sua comida.

Assim fez a mãe. Pelo caminho o irmão mais novo disse que tinha fome e que queria comer o seu farnel. O mais velho concordou mas disse-lhe que era melhor comerem juntos, um dos farnéis, primeiro e depois o outro. Feito o acordo, no primeiro dia, comeram ambos a comida do mais novo. No segundo dia, à hora do almoço, disse este:

 - Ó irmão, vamos agora comer o teu farnel?

O mais velho disse-lhe que não pois ainda era muito cedo, mas às escondidas foi comendo tudo o que levava na sua vasilha sem dar nada ao mais novo.

À noite, o irmão mais novo voltou a pedir ao mais velho que, conforme o combinado repartisse com ele o seu farnel, pois estava a morrer de fome.

O mais velho retorquiu:

- Só se me deixares tirar um dos teus olhos.

A fome era tanta que o rapaz cedeu, pese embora, depois de lhe tirar um olho, o irmão mais velho não lhe tenha dado nenhuma comida.

Na manhã seguinte aconteceu o mesmo e o irmão mais novo ficou sem o outro olho.

Vendo o irmão cego, o mais velho decidiu abandoná-lo, deixando-o sozinho. Passado algum tempo, depois de caminhar na escuridão, o rapaz chegou a um sítio onde ouviu o barulho a água. Cuidando que era um rio e com medo de cair à água e morrer afogado o rapaz decidiu sentar-se ali, não se arriscando a atravessar o rio. Cansado e cheio de fome adormeceu.

Ora era naquele local que todas as noites se reuniam as feiticeiras para decidir o que haviam de fazer no dia seguinte. Vendo ali o menino, esfomeado, doente e cego, uma das feiticeiras decidiu que havia curá-lo. Havia ali perto uma árvore. A feiticeira apanhou três folhas e cuspiu-lhe três vezes, antes de amanhecer. Depois esmagou as folhas nas mãos, formando uma papa ou bálsamo com o qual untou as pálpebras dos olhos do rapaz, que assim voltou a ter os seus olhos e a ver.

Com esta “estória” pretendia mostrar-se que afinal as feiticeiras não eram tão más como, muitas vezes, se cuidava.

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publicado por picodavigia2 às 17:32

O PINÁCULO DO QUEIROAL

Sexta-feira, 24.01.14

O Pináculo do Queiroal era um enorme e abrupto rochedo como que plantado em riste no meio de um enorme e elíptico vale forrado de fresca alfombra e ornamentado de bardos de hortênsias. Apontado para o céu, visto de lado era como se fossem duas mãos postas, mas observado de frente, assemelhava-se ao frontispício de uma gigantesca catedral medieval. O Pináculo situava-se no lugar do Queiroal, donde lhe advinha o nome, na freguesia da Fajã Grande mas já na fronteira com o concelho de Santa Cruz. Tratava-se de um tosco, volumoso e altivo bloco de pedra basáltica, localizado num vale, aprazível, fresco e verdejante mas encafuado e escondido bem lá no centro da ilha das Flores, sem canadas, caminhos ou outros meios de acesso. Apenas através de veredas íngremes e de atalhos sinuosos, atravessando valados e saltando grotões, lá se chegava. Por isso pouca gente o conhecia e muita mais ainda o ignorava, pois ninguém por ali passava e era escasso e reduzido o número de pessoas que ali se deslocavam, nas suas fainas diárias, de acompanhamento e vigilância do gado. Era o fim de todos os atalhos, o termo de todos os caminhos, o início do degredo, do deserto, do emaranhado. No entanto a sua localização era privilegiada, em função da vista que dali se desfrutava sobre uma boa parte da ilha e do oceano, inserindo-se, além disso, num cenário maravilhoso quase bucólico, ideal para um desenvolvimento de aliciantes projectos turísticos, na década de cinquenta ainda impensados.

O Pináculo do Queiroal, encastoado num vale amplo, rodeado de vegetação luxuriante, impunha-se, sobretudo, no seu topo com dois picos, um semelhante a uma torre e o outro em forma de triângulo, como que simulando a parte central e superior da fachada de um templo. Esta era, muito provavelmente, a razão de ser do seu epíteto.

O acesso, não apenas ao Pináculo, mas a toda a zona do Queiroal, para além de longo e demorado, era muito difícil. Primeiro a íngreme subida da Rocha e o atravessar daqueles lameiros das primeiras relvas, onde proliferavam inúmeros e minúsculos mas extremamente pantanosos afluentes da Ribeira das Casas. A partir do Caldeirão da Ribeira das Casas não havia caminho, seguia-se por trilhos que, para além de maus, eram inseguros e pouco acessíveis, uma vez que a vereda, aparentemente, parecia diluir-se, mesmo fechar-se, obstruir-se com bardos de hortênsias, de queirós e de cedros, com copas seculares e enormes, que ali se haviam desenvolvido em excesso. Como alternativa era possível seguir através das relvas, sem trilhos demarcados ou veredas decalcadas sobre a erva, gastando-se em distância o que se poupava em esforço descontrolado e, por vezes, improfícuo.

Outra curiosidade deste idílico lugar onde se situava o famoso Pináculo é que do sentido contrário não havia qualquer tipo de acesso. Era uma floresta densa de cedros e queirós, obstruindo toda e qualquer passagem. Isto porque terminava ali o território da freguesia da Fajã Grande e iniciava-se o da de Ponta Delgada, já em pleno concelho de Santa Cruz.

Enquanto se passava por ali, naquela espécie de bucólica mas agreste vereda, defrontávamos pequenas manadas de gado alfeiro, um manso e domesticado que ali era colocado temporariamente e outro quase selvagem, ali nascido e que dali havia de ser retirado, apenas quando gordo e arrolado, pronto a embarcar no Carvalho com destino a Lisboa.

O Pináculo e o vale onde estava localizado, eram um dos mais belos locais, edificados pela natureza, não só da Fajã Grande mas até da ilha das Flores, depois da emblemática Rocha dos Bordões. E como monumento natural talvez fosse um dos mais interessantes dos Açores. Mas mais do que desconhecido e ignorado, na altura, o Pináculo do Queiroal, naturalmente, ter-se-á perdido no espaço, estando, hoje, totalmente desaparecido no tempo, talvez encoberto por arbustos e arvoredos, como muitos outros monumentos naturais, existentes na Fajã Grande, na década de cinquenta, semelhantes, embora mais pequenos, como eram os calhaus das Feiticeiras, do Tufo, do Touro, a Laje da Silveirinha, a Furna do Peito e tantos outros.  

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publicado por picodavigia2 às 16:20

RÚSTICO

Sexta-feira, 24.01.14

MENU 25 – “RÚSTICO”

 

 

 ENTRADA

 

Brócolos cozidos e caramelizados em açúcar.

Rodela de queijo fresco e nozes embebidas em mel.

 

 

PRATO

 

Filete de pescada, perfumado com alho, azeite e sumo de lima, cozido e grelhado em pão ralada, acamado sobre salada de feijão vede,

olhinhos de couve branca e miolo de pão.

Tiras de pimentos passadas por creme de queijo fresco.

 

 

SOBREMESA

 

Pera natural e Gelatina de ananás.

 

 

******

 

Preparação da Entrada: Cozer os brócolos e grelhá-los numa frigideira borrifada com açúcar. Retirar e colocar em prato ao redor da rodela de queijo fresco e das nozes. Borrifar estes últimos com mel.

 

Preparação do Prato – Cozer os olhinhos de couve picados muito finos, moer uma fatia de pão ou broa sem côdea. Alourar alho finamente picado em azeite, juntar a couve, os grãos de feijão-verde de lata e o miolo de pão, misturar bem. Temperar o filete com alho e sumo de lima, cozer, rapidamente, em água a ferver. Passar por pão ralado e grelhar. Colocar o filete sobre a salada e ornar ao redor com tirinhas de pimentos vermelhos e amarelos, borrifados com creme de queijo fresco.

 

 

Preparação das Sobremesas - Confecção tradicional

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publicado por picodavigia2 às 13:57

A PEREGRINAÇÃO

Sexta-feira, 24.01.14

Mataram-se porcos e carneiros, trouxe-se do melhor vinho dos arredores, cozeu-se pão nos melhores fornos da região, chamaram-se jograis e cantadores, fez-se festança como jamais outrora Lubisonda conhecera, pese embora o fronteiro de tanta canseira e abatimento, cedo se recolhesse aos aposentos que Pero Fogaça lhe disponibilizava. A festa, porem, prolongou-se fora dos umbrais de Lubisonda. Depressa e célere correu pelas redondezas notícia de tão grandioso evento. De perto e de longe começaram a chegar grupos de ricos-homens e camponeses, uns ávidos de oferecer préstimos a D. Paio de Farroncóbias, outros apenas curiosos de ver ao de perto a temível espada a que os infiéis não resistiam.

Na manhã do dia seguinte, alta madrugada, D. Paio de Farroncóbias partia, à frente da sua mesnada. Esperavam-no em Trancoso os braços ternos, meigos e amorosos de Iluminata, sua doce e amada esposa.

Algum tempo depois, recebeu D. Paio de Farroncóbias notícias de que Afonso Henriques, como aliás era seu intento, reiniciara peleja com o rei de Leão, Afonso VII. A missiva ainda mais dizia que Afonso Henriques quebrara a paz de Tui, recusava-se a continuar a prestar vassalagem ao monarca de Leão e como se isso não bastasse invadira a Galiza. Corriam, no entanto, rumores de que D. Afonso VII entrara em terras portuguesas vingando-se, arrasando castelos e, descendo as montanhas do Suajo, dirigia-se para Valdevez. Deviam seleccionar-se os melhores cavaleiros e guerreiros portugueses. As ordens eram para que o alcaide de Trancoso, partisse de imediato, juntasse tropas pelas terras circundantes e comandasse a peleja, enquanto o príncipe não regressasse. O zeloso fronteiro e alcaide de Trancoso avisou, de imediato, todos os seus homens de Penas Róias até Guarda, para que se reunissem e recrutassem todos os jovens que por ali existiam e preparou-se para partir, com destino a Valdevez.

Iluminata chorava perdidamente. Ainda não havia muito que o seu esposo amado e guerreiro valoroso chegara de Ourique, para onde se ausentara durante meses e meses. Agora, partia outra vez. E ela ficaria novamente ali, fechada no castelo, dias e noites, sozinha, sem amor, sem paixão, sem os braços de seu esposo querido. Iluminata era muito nova. A paixão ardia-lhe no peito e os sentidos impeliam-na para a aventura. Amava e necessitava de ser amada

D. Paio de Farroncóbias, quer porque acedesse às lamúrias mais que justas de Iluminata, quer porque temesse seriamente o confronto com o rei de Leão, ordenou-lhe que, uma vez que se aproximava a festa de São Tiago, em Compostela e, além disso, era ano de indulgência plenária, se preparasse para uma romaria aquela cidade. Levaria lacaios e guardas que a protegeriam a ela e a todo o seu séquito.

Aprontaram-se as duas comitivas. A mesnada de D. Paio de Farroncóbias foi a primeira a partir. Depois a comitiva de Iluminata: “Era tudo gente de cavalo e ela ia montada em soberba mula branca, no meio de muitos pajens e donzelas. Trazia manto de ciclaton, guarnecido de pele de marta, suspenso do ombro direito por uma fíbula de oiro, gorjeira de topázios e berilos que luziam como sóis, e doidejava-lhe acima dos cabelos um penacho tremulante e furta-cores de gemas de aljofres. De envolta fraldejavam belas capas de pano ingrês, gorras vermelhas, saios de bom ruão dos cavaleiros, zorames da famulagem...”

Seguiram ambos destinos diferentes. D. Paio encaminhou-se para Valdevez, onde o esperava dura peleja com os exércitos de Afonso VII. Iluminata tomou o rumo de Compostela. Durante a viagem, porém, a comitiva encontrou um velho e um jovem que seguiam idêntico destino, caminhando em míseras condições. Eram Beltrasanas e Banaboião que também se dirigiam em peregrinação a S. Tiago de Compostela na mira de indulgência plenária. Caminhavam a pé, sem comida nem sítio para dormir. Viviam das esmolas que o povo das diversas aldeias por onde passavam lhes dava porque deles se apiedavam ou trabalhavam nos campos, rachavam lenha, cavavam uma horta, malhavam uma eirada, cegavam feno, roçavam o tojo ou aqueciam um forno de pão para em troca lhes ser dada comida. Dormiam aqui e ali, ao relento, em estábulos estrebarias ou grutas. Além disso sofriam injúria e vitupérios de outros viandantes. Vendo-os em tal estado de abandono e tão cansados da caminhada e do trabalho que diariamente executavam, Iluminata apiedou-se deles e integrou-os na sua comitiva, não tanto por piedade do velho mas sobretudo por sedução pelo jovem. Como levava muitas mulas e jumentos de reserva, ordenou que dessem uma burra ao velho Beltrasanas e um robusto cavalo ao jovem Banaboião. Além disso passou a alimentá-los e a dar-lhes guarida em ricas tendas. Os servos de Deus bem recusavam o que Iluminata lhes oferecia, porque pensavam que tais luxos e requintes não eram agradáveis aos olhos de Deus Nosso Senhor e além disso excediam as exigências que haviam imposto à sua promessa. Mas era a nobre dama, Iluminata, esposa de D. Paio de Farroncóbias que ordenava e os servos de Deus tiveram que aceitar, passando a usufruir de tais luxos e conforto.

Fonte de Inspiração – Aquilino Ribeiro São Bonaboião Anacoreta e Mártir

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publicado por picodavigia2 às 11:36

A RUA NOVA (FAJÃ GRANDE)

Sexta-feira, 24.01.14

Na década de cinquenta, a Rua Nova, relativamente, quer ao número de casas, quer ao de pessoas que nelas moravam, era a rua mais pequena da Fajã Grande, uma vez que possuía, apenas, quatro casas habitadas, nas quais moravam dezasseis pessoas. Lá bem no fundo da Rua Nova e já quase nas Furnas, morava o Urbano, com a mulher e quatro filhos: a Maria Teresa, o José, o Edmundo e o Antonino. O Urbano, para além de trabalhar nos campos, foi sempre muito dedicado ao mar e à pesca e durante muitos anos foi um notável baleeiro e primoroso executor de uma das mais arriscadas e arrojadas tarefas da caça à baleia, a de “trancador” ou arpoador. Também se distinguiu como jogador de futebol e foi um dos fundadores do Atlético Clube da Fajã Grande, em 1939. Numa casa em frente, mas alugada, morava o José Pereira, com a mulher e dois filhos. O José Pereira foi um dos melhores pescadores de sempre da freguesia. Era verdadeiramente um homem do mar e, durante muitos anos, foi ele quem abasteceu de peixe a maior parte da população da Fajã Grande. Tinha uma lancha, era um excelente marítimo e um óptimo pescador, tendo também “arreado” durante várias épocas à baleia, exercendo a função de mestre de lancha, no gasolina “Sta Teresinha” que durante anos e anos ficou ancorada no Poceirão, do Porto Velho, a fim de, após o foguete lançado pelo vigia, puxar os botes para o mar alto, dar-lhes apoio durante o tiroteio da caça à baleia e arrastar, posteriormente, os cetáceos, já mortos, para a fábrica de óleo do Boqueirão, em Santa Cruz. Mais adiante e numa casa um pouco isolada vivia sozinha a senhora Josefina Greves, pessoa muito discreta, sensata e muita amiga de todos com quem por ali passava. Um pouco ao lado, na única travessa que a Rua Nova tinha, vivia o António Lourenço, irmão do Urbano e casado com a Marquinhas do Carmo, na companhia dos quatro filhos: o José, a Ema, o Lucindo e o Antonino. O António Lourenço era pessoa extremamente solícita, de tacto muito agradável e atencioso, foi director da Sociedade, cabeça de festas e do Fio. A esposa exerceu durante muitos anos a honrosa função de parteira da freguesia, sempre com uma dedicação e um êxito notáveis. Além disso exercia também a função de enfermeira e até de “médica”, tratando todos gratuitamente e sem distinção, quer os que a procuravam na sua própria casa, quer deslocando-se às casas dos que a não podiam procurar, mas necessitavam dos seus cuidados. E ficava por aqui a população residente na Rua Nova.

No que ao seu traçado dizia respeito a Rua Nova era a mais larga e uma das que possuía melhor piso na Fajã. Como o seu nome indica, muito provavelmente teria sido uma das últimas ruas da freguesia a ser construída, por isso mesmo mais cuidada e talvez mesmo mais moderna. A rua iniciava-se no cruzamento com a Rua Direita, frente à casa de Josézinho Fragueiro e era ladeada, logo no início pelas moradias do José Nascimento e do Afonso das Tomásias, porém quer uma quer outra, tinham a porta principal voltada para a Rua Direita. Depois prolongava-se numa recta até um dos mais belos e emblemáticos edifícios da Fajã Grande – a casa do Guarda Furtado. Tratava-se e um enorme casarão, com uma torre na parte superior que estava desabitado, no entanto, por vezes era arrendada. Ainda em plena época de cinquenta foi alugada pelos empreiteiros que vieram construir a estrada entre o Porto da Fajã e a Ribeira Grande e, no início da época de sessenta, pelo novo pároco, o padre José Gomes, uma vez que a paróquia não lhe disponibilizava passal. Frente a esta casa havia uma outra casa, cujo terreno onde se situava, mais tarde, deu origem à nova escola, A rua continuava, formando uma ampla curva em frente à casa da senhora Josefina Greves, prolongando-se, de seguida, novamente em recta, indo terminar no caminho que dava para as Furnas.

Como as casas eram relativamente poucas, quase toda a rua era ladeado por campos de cultivo, todos de grande produtividade. Talvez por isso é que esta era uma das ruas por onde também transitava a procissão das Rogações, realizada por altura das têmporas de Setembro para abençoar e aumentar a produtividade dos campos, ou para, em tempos de seca, implorar a bondade divina, a fim de que concedesse a chuva necessária.

Recentemente foi atribuída a esta rua o nome de “Rua Mariquinhas do Carmo”.

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publicado por picodavigia2 às 11:08

DÚVIDAS

Sexta-feira, 24.01.14

Durante o ano havia várias festas na vila. A maior era a festa em Honra do Divino Salvador. É que para além das celebrações religiosas havia muitas outras actividades que Mariana adorava. Na feira eram os carrosséis alguns destinados apenas às crianças, os artesãos expondo uma grande variedade de produtos artesanais e as barracas das farturas e de comes e bebes que proliferavam por toda a parte. A vila engalanava-se toda com bandeiras, luzes, arcos e balões. No domingo eram as celebrações litúrgicas que tinham lugar de realce. De manha missa cantada com sermão, com a Matriz a abarrotar de gente e de calor. À tarde era a procissão. Mariana adorava-a. A avó Leocádia, prevendo alguns problemas a quando do seu nascimento, prometera que, logo que a menina andasse pelos seus pezinhos, havia de ir todos os anos, na procissão, vestida de anjinho. A mãe esmerava-se na preparação das roupitas. Faltasse tudo lá em casa, mas promessa era promessa e, por isso, a roupa que a menina vestiria para a procissão do Divino Salvador nunca havia de faltar.

Os domingos eram dias diferentes, mas apenas da parte da manhã. As tardes, porém, eram ainda de mais labuta do que os dias de semana. Os pais reservavam para as tardes domingueiras os trabalhos mais leves mas considerados necessários. O pai dava feno e erva ao Lavrado, ordenhava a cabra e apanhava os legumes enquanto a mãe tratava do porco e dava uma barrela à casa.

Este trabalho contínuo, persistente e sem futuro começava, por vezes, a indignar o pai da Mariana. Aquilo era uma vida miserável. Trabalhava-se, trabalhava-se para ter apenas o sustento de cada dia. Por várias vezes ensaiara algumas tentativas de arranjar emprego nalgumas fábricas de móveis, que começavam a surgir por ali. Mas não tivera sorte, nunca fora admitido por falta de qualificação. É verdade que já lhe tinham oferecido emprego em Valongo e até no Porto, mas recusara-os. Os transportes eram muito caros e demorados, obrigando-o a sair alta madrugada e regressar a casa pela noite dentro. Assim ficava totalmente impossibilitado de continuar a trabalhar o campo e a Teresa sozinha e com as crianças muito pequeninas não podia atender a tudo. Além disso os ordenados propostos eram muito baixos, quase nem chegavam para os transportes.

Mas a ideia de abandonar a agricultura e mudar de vida nunca saiu por completo do pensamento do pai da Mariana. Muitas vezes, à noite juntamente com a mulher, quando as crianças já dormiam, lamentava aquela vida árdua e cansativa, sobretudo para ela. Não fora para aquilo que a tirara de casa dos pais, da Tornada, lá nas Caldas da Rainha. E os filhos? Que futuro lhes preparava? Continuarem ali, agarrados à rabiça do arado ou ao cabo da enxada para ter apenas um caldo de couves e um bocado de broa ao fim do dia? Não, não podia ser assim. Tinham que pensar em mudar de vida, em construir um futuro melhor sobretudo para os filhos. Para isso tinham que se aventurar.

A mulher bem o tentava demover lembrando que não estava nada incomodada com aquela vida. Casara com ele por amor e era por amor que tinha deixado os seus pais e tinha saído das Caldas. Além disso estava habituada à vida do campo. Também na Tornada, desde que terminara a quarta classe, sempre se habituara ao trabalho agrícola, ajudando os pais nas lides agrárias e que a mãe lhe estava sempre a dizer que ela não nascera para princesa.

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publicado por picodavigia2 às 10:46

PALAVRAS, DITOS E EXPRESSÕES UTILIZADOS NA FAJÃ GRANDE (XI)

Sexta-feira, 24.01.14

Abelhudo – Teimoso.

Ablorado – Que tem bolor, bolorento. Dizia-se do pão quando já estava velho, devendo ser estufado.

Abobra-menina – Abóbora acastanhada por fora, redonda e achatada.

Acalcado – Muito cheio.

Adanar – Nadar.

Afelegir – Afligir, preocupar.

Aferradela – Dentada de animal (gato ou cão).

Agarrado ao dinheiro – Avarento, forreta.

Agora cá – Não, de maneira nenhuma.

Aguentar-se nas canetas – Estar em pé.

Aivecas – Braços.

Alfeiro – Gado que não dá leite.

Aliviar o luto – Começar a usar roupas de cores.

Alma-do-diabo – Mau, maldito.

Alumiar – Iluminar.

Amigos c’ma porcos – Muito amigos.

Amouchado – Abatido, abaixado.

Arcada – Pedaço de arame retorcido preso no focinho dos porcos para que não fossem.

Asseado – Muito bom. Perfeito.

Abafado ou atabafado – Tempo húmido e quente.

Atarrachar – Aparafusar.

Atilho – Atacadores dos sapatos. Cordão ou fio grosso.

Atiradeira – Corda com que se prende o gado ao lavrar para os conduzir no rego.

Ave d’agoiro ou ave agoirenta – Pessoa que habitualmente dá más notícias.

Barriga de bichas – Barrigudo, que tem barriga grande.

Dar água pela borda – Estar aflito. Ter uma tarefa difícil de realizar.

Dar o fanico – Desfalecer, desmaiar.

Dar tafulho – Conseguir dar arranjo ou conserto a algo. Arranjar. Consertar.

Engatar – Conseguir, arranjar.

Engatar uma monça – Arranjar uma namorada.

Espertalhote – Coelho.

Estar acabado – Envelhecer.

Estar a estudar a tabuada – Dizia-se das vacas que estavam num campo ou relva e tinham pouco ou nada que comer.

Falar devagar – Falar em voz baixa.

Forrada de luto – Diz-se de mulher que veste totalmente de preto.

Fotaventage – O que fizeste não tem grande mérito.

Home e antão – O que aconteceu.

Lambuzar – Comer de maneira desajeitada e suja.

Mal ságuentar im pé – Estar fraco.

Máquina – Desnatadeira ou o local ou casa onde existia a desnatadeira.

Matar o desconsolo – Consolar-se em comer algo que já não se prova há muito tempo..

Moenda – Saco de farinha cheio de milho ou farinha. (Geralmente eram utilizadas as sacas das encomendas vindas da América).

Moirão – Peça de ferro enfiada no meio da eira, à volta da qual rodava o trilho.

Parece que tens azougue no corpo – Nunca estás quieto ou parado.

Parece que tens bicho-carpinteiro – Não estás quieto um instante.

Peixão – Mulher bonita e atraente.

Seja p’la tua saúde – Forma de agradecimento. Obrigado.

Seja p’l’alma dos teus - Forma de agradecimento. Obrigado.

Semenino – Fraquinho, magrinho.

Tainque – Tanque, local onde as vacas bebiam água.

 

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