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ANTÓNIO GIL

Terça-feira, 28.01.14

António Gil da Silveira Machado Bettencourt nasceu na Praia, ilha Graciosa, em 3 de Junho de 1846 e faleceu em Angra do Heroísmo, em 1883. Desde muito cedo se lançou na escrita, nomeadamente na poesia, destacando-se como poeta de cunho lamartiniano e prosador apurado, com variada colaboração nos jornais angrenses. Formou em Angra um grupo intelectual que lutava pelo desenvolvimento literário dos Açores e fundou o Grémio Literário de Angra do Heroísmo. Juntamente com outros intelectuais e homens de letras dedicou-se ao desenvolvimento da instrução popular e fundando a biblioteca do Grémio Literário, a primeira que nos Açores forneceu leitura ao domicílio. Foi também coleccionador de espécies bibliográficas açorianas, de jornais e de manuscritos, entre os quais a Topografia da Ilha Graciosa de Jerónimo Emiliano de Andrade. Fundou uma escola nocturna juntamente com Mateus Augusto, onde ensinavam pelo método de João de Deus. Fundou, já no fim da vida, uma fábrica de papel na Terceira, a primeira dos Açores. A nível político, defendia o separatismo pugnava pela independência dos Açores sob protectorado dos Estados Unidos da América.

Apenas publicou com Augusto Ribeiro o Almanaque Insulano mas não publicou em livro qualquer obra literária.

 

Dados retirados do CCA – Cultura Açores

 

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publicado por picodavigia2 às 21:29

A DECISÃO

Terça-feira, 28.01.14

Foi em Junho, pela festa do Espírito Santo da Casa de Cima que a decisão de Álvaro ir estudar para o Seminário foi tomada. A Dona Madalena, a professora da quarta classe, não cessava de anunciar e proclamar alto e bom som que era uma pena o garoto não seguir os estudos. Mas não havia volta a dar-lhe. Era de todo impossível e impensável. O futuro do último rebento dos Rodrigues estava traçado e seria igual ao dos irmãos mais velhos: viver ali, na ilha, agarrado à foice e à enxada, trabalhando à chuva ou ao sol, carregando cestos de batatas e molhos de incensos, levando as vacas ao pasto ou limpando-lhes o esterco do palheiro, ajudando o pai e os irmãos nas lides do campo. Só que o milagre aconteceu. Uma carta da América veio alterar-lhe, substancialmente, o destino. Uma tia, que há alguns anos para lá havia emigrado, considerando que esse acto teria sido uma fuga perversa ao que julgava serem responsabilidades suas, sentiu uma enorme necessidade de redimir-se. Como consequência custearia os estudos do sobrinho, mas para que a remissão a que ela aspirava fosse mais eficiente, só o poderia fazer no Seminário. O pai a princípio não aprovou a ideia. Embora o filho ainda fosse um badameco de meia tigela, já lhe fazia muita falta. Normalmente era ele que ia buscar e levar o gado, enquanto os mais velhos andavam a ceifar ou a mondar os campos. Uns dias depois, porém, o pai cedeu. Afinal a ideia até nem era de todo má, pois era uma oportunidade única e uma forma airosa de ver pelo menos um dos filhos sair das Flores, libertar-se dos trabalhos forçados, da miséria, da fome e de muitas outras limitações que proliferavam pela ilha. Além disso, perante o feitio e o temperamento que tinha, muito provavelmente o garoto nunca aguentaria aqueles doze longos anos fechado naquela casa e que eram requisito obrigatório e necessário para a Ordenação. Mas mesmo que desistisse, ficaria com os estudos. Depois era a pressão da avó e das tias Graça e Luzia, sempre muito devotas e dedicadas ao serviço de Deus. E decidiu-se que no Carvalho de Setembro Álvaro partiria para Ponta Delgada, para o Seminário Menor de Santo Cristo.

Os três meses que se seguiram foram de grande azáfama e consumição. Nos tempos que tinha livres das tarefas domésticas a irmã começou a preparar-lhe o enxoval de acordo com uma lista que havia sido enviada pela reitoria do Seminário e entregue pelo pároco e da qual constava, como mínimo necessário e obrigatório, quatro lençóis, dois cobertores, uma colcha, duas fronhas, um colchão e uma almofada. A colcha era o mais difícil, pois comprar uma nova era de todo impossível. Foi a avó que se comprometeu a costurá-la. E fê-lo com mestria. Arranjou dois bons bocados de fazenda enramados, um azulado e outro castanho, coseu-os em três dos lados, formando uma espécie de saco, dentro do qual colocou escondidas, algumas peças de roupa velha, devidamente alisadas. Depois coseu a extremidade equivalente à boca do saco, alinhavou, chuleou e voltou a chulear a futura colcha, de alto a baixo e de lado a lado, em linhas perpendiculares e paralelas, de tal maneira que formaram uma espécie de tabuleiro de xadrez, de forma a simular uma colcha acolchoada. Uma obra-prima! A lista também indicava a roupa que deveria levar para uso caseiro: dois lenços de mão, dois guardanapos, duas camisas, duas soeras, dois pares de calças, dois pares de meias e um par de sapatos, e dois guarda-pós. Arranjar tudo isto tornava-se complicadíssimo, até porque cuidava-se que não devia levar roupa usada. Uma encomenda da América, no entanto, veio resolver o problema, trazendo em triplicado algumas das peças de roupa indicadas na lista. Excepção feita para os dois guarda-pós que deviam ser de cotim e que foram mais difíceis de arranjar. No entanto como tinha um tio alfaiate ficaram-se pelo custo da fazenda, verificando-se procedimento idêntico para o fato preto que aparecia logo bem escarrapachado e em primeiro lugar na lista apresentada pelo pároco. Para arranjar os sapatos pretos é que foram elas… Só nas Lajes e os mais baratos custavam para cima de vinte escudos. Um rombo terrível no orçamento familiar! Além disso, a compra iria provocar grande revolta e contestação por parte dos irmãos mais velhos que andavam sempre descalços e a quem, nem sequer pela Comunhão Solene lhes haviam sido comprados uns sapatos novos. Mas não havia volta a dar-lhe: sem sapatos pretos é que não podia entrar no Seminário. A irmã que há muito substituíra a mãe, falecida há alguns anos, inventou uma artimanha para os arranjar. Para evitar a revolta dos irmãos Álvaro havia de jurar a pés juntos que os sapatos tinham sido oferecidos pelo senhor padre Silvestre, como recompensa de lhe ir ajudar à missa todas as manhãs. Ela, por sua vez, iria pedir vinte escudos à vizinha Celeste, muito amiga da mãe, antes de ela falecer e agora, sempre muito pronta a ajudar em momentos de aflição. Havia de lhos pagar, depois, em sete ou oito prestações de maneira a que os outros não se apercebessem do embuste. À lista seguia-se uma observação importante: todas e cada uma das peças deviam ser marcadas com as letras iniciais do nome e sobrenome do candidato, a fim de que a roupa não se perdesse e as lavadeiras não a misturassem com a dos outros alunos. Deliciosa tarefa para a irmã que era uma excelente bordadeira e adorava fazer ponto cruz. Depois foi papelada e mais papelada, o que implicou variadíssimas viagens a pé, entre a Fajã e as Lajes, sempre acompanhado pelo pai, para tirar fotografias, bilhete de identidade, marcar a passagem e comprar papel para os requerimentos. O pior foi quando o pai viu na lista apresentada pelo pároco, - ”uma folha de papel timbrado da Ouvidoria”. Como não soubesse o que era aquilo da Ouvidoria e cuidando que era engano, comprou a respectiva folha na Tesouraria da Fazenda Pública, onde habitualmente se comprava o papel selado. Para além dos recados que ouviu do prebendado, ao regressar à Fajã e de perder o dinheiro gasto no papel timbrado que não tinha nenhuma outra utilidade nem estorno, teve que voltar às Lajes no dia seguinte, exclusivamente para comprar uma folha de papel com o timbre da diocese de Angra do Heroísmo, em casa Senhor Ouvidor Eclesiástico.

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publicado por picodavigia2 às 20:58

RECORDANDO O PADRE COELHO

Terça-feira, 28.01.14

(TEXTO DE FERREIRA MORENO)

O padre Manuel Coelho de Sousa, (Padre Coelho como era popularmente conhecido), nasceu a 30 de setembro 1924 na Vila de São Sebastião, ilha Terceira dos Açores, ali falecendo a 2 de setembro 1995. Em outubro 1937 entrava no Seminário d’Angra, recebendo a ordenação sacerdotal a 20 de junho 1948. Foi professor no Seminário e Liceu d’Angra e chefe de redação (1956-62) no jornal “A União.” Frequentou (1962-63) o Curso de Filologia Hispânica na Universidade de Salamanca, Espanha, após o que regressou aos Açores e foi nomeado pároco de São Sebastião, onde permaneceu até à data do seu falecimento. No entretanto assumia, em 1976, o cargo de diretor-adjunto de “A União”, e mais tarde diretor do jornal, posto que manteve até se aposentar em  setembro 1994. Além de pároco, professor e jornalista, notabilizou-se ainda como orador sacro, poeta, dramaturgo, pintor, encenador e ensaiador, escritor e animador cultural.

Neste recordando transcrevo agora o que escrevi ao tempo da sua aposentação: “Que dizer acerca do nosso tão querido padre Coelho? Ele que ofereceu magnanimamente os melhores anos da sua vida ao serviço e prestígio de “A União”, apesar de juntamente acarretar tantas e tantas outras responsabilidades, não só como sacerdote mas também como professor, fazendo tudo isto, e muito mais, com um espírito sempre jovem e inquebrantável. É verdadeiramente inesgotável o rol de recordações que me prende ao padre Coelho, desde as aulas de Português no Seminário às peças de teatro na época

do Natal, desde a escuta reverente aos sermões na Sé Catedral à leitura proveitosa dos reflexos, das migalhas e tantos outros registos na imprensa local. Jamais esquecerei, por exemplo, numa das minhas romarias de saudade às ilhas, o convívio da minha visita a São Sebastião, terra natal do padre Coelho, donde parti de regresso à Califórnia trazendo comigo o livro “Na Rota da Emigração Amiga”, que li de ponta a ponta a bordo do avião. Mas a mais preciosa recordação, que ainda perdura na minha memória e que  mais se aviva neste momento, encontra-se intimamente entrelaçada com a data inesquecível da sua ordenação sacerdotal, ocorrida em Ponta Delgada, S. Miguel, no dia 20 de junho 1948. Nesse dia e data, a Imagem Peregrina de Nossa Senhora de Fátima estava presente em missa campal, com milhares de açorianos a testemunhar a sagração do neo-presbítero ao serviço do Povo das Ilhas de Nossa Senhora dos Açores.

Obrigado, meu caro amigo, padre Coelho. Recordei, p’ra sempre, o grito que uma vez fizeste ecoar pelo nosso arquipélago: É urgente despertar / Deste marasmo de ilhéu / E pôr bandeiras no ar / Quem não acorda, morreu!” Com a data de 10 d’outubro 1994, o padre Coelho enviou-me a seguinte mensagem: “Amigo Moreno: Acabo de receber o que entendeste escrever sobre a minha saída e substituição no jornal “A União.” Como sempre foste, continuas generoso. Obrigado! Já não era sem tempo. Um cargo como aquele e naquele jornal, 18 anos quase, é esgotante. Faltou pouco para não ser mortal. Conservo saudades dos amigos responsáveis pela feitura e missão daquele jornal tão centenário como útil. Mas saí cansado. Desiludido. Amargurado por não me terem compreendido a tempo e horas e com mais caridade e justiça. Desculpa. Contos largos. Que Deus nos ajude.Peço-te: Continua escrevendo. As tuas crónicas sabem muito bem, ecoando os Açores em tantos jornais das nossas comunidades. Continua e dispõe sempre deste teu velho amigo.”

O jornal “Expresso das Nove” de Ponta Delgada, na sua edição de 24 de dezembro 1993, publicou uma longa entrevista de Tibério Cabral com o padre Coelho. Serviu-me de tema p’ra uma série de quatro crónicas distribuídas pelo Portuguese Times e Portuguese Tribune, a que farei a devida referência no recordando da próxima semana, juntamente com a apresentação de diversos testemunhos de homenagem ao padre Coelho. Por ora registarei apenas os títulos e datas das obras literárias que o padre Coelho nos legou: Poemas de Aquém e Além (1955), Três de Espadas (1979), Na Rota da Emigração Amiga (1983), Migalhas (1987) e Boa Nova (1994), sendo os dois primeiros de poesias e os restantes de prosa. Como acentuou Luís Fagundes Duarte: “O padre Coelho foi mestre nestas duas artes. Enquanto escritor foi um grande cultor da língua portuguesa. Enquanto poeta foi um fino intérprete da aventura humana. Homem de fé, homem da igreja, ele foi também um homem do seu tempo, da sua terra, das pessoas com quem e sobretudo p’ra quem viveu.”

 

Conforme deixei dito no recordando da semana passada, o jornal “Expresso das Nove” de Ponta Delgada, (24-dezembro-1993), publicou uma longa entrevista de Tibério Cabral com o padre Manuel Coelho de Sousa (1924-1995). Serviu-me de tema p’ra uma série de quatro crónicas distribuídas pelo Portuguese Times e Portuguese Tribune. Evidentemente que, movido por um intuito parcimonioso, não irei repetir aqui e agora todos os excertos então utilizados. Tenciono transcrever tão somente as informações intimamente associadas com o sacerdócio do padre Coelho. “Fui um dos poucos padres que teve um processo na PIDE. Sofri seis horas de interrogatório e fui ameaçado de prisão por dizer a verdade e defender os Açores das injustiças desta adjacência que nos colonizou até aos nossos dias. Nunca me arrependi de ser padre. Foi a melhor escolha da minha vida. Deus tem-me ajudado. Tenho tido muitos defeitos e pecados, mas gosto de ser padre. Não me envergonho do meu sacerdócio. Tenho servido o melhor que posso. Poderia, talvez, ter servido melhor. Deus, talvez, não esteja tão contente comigo, como eu estou com Ele, mas sinto-me bem na Igreja. Isto p’ra dizer que gosto de ser padre e que respeito todos os meus colegas. Eu já disse ao meu bispo que um jornal como “A União”, apesar de pequeno e pobre, vale mais do que dez padres a pregar, porque a imprensa é o arquivo da História, o jornal é o arquivo do dia-a-dia do povo. Pena é que, muitas vezes, haja jornais que só saibam alimentar-se de escândalos e do negativo.”

Em resposta à pergunta se, ao longo da sua vida de sacerdote, havia sido alguma vez assediado por mulheres, o padre Coelho declarou abertamente: “Fui. Basta ser simpático e dar nas vistas. Eu dava nas vistas no púlpito. A maneira como eu falava, porque fiz muita poesia no púlpito. Nosso Senhor me perdoe. Eu imprimia um ar de beleza literária nos meus sermões. Nosso Senhor deu-me este dom, e eu não tinha papas na língua. Houve pessoas que me fizeram declarações de amor platónico, e tive de pedir a Nosso Senhor que me ajudasse e me defendesse. Tive insinuações de uma banda e de outra, pois quem está neste mundo apanha vento dos dois lados da cara. Não faço com isto um papão. Nosso Senhor ajudou-me. Acredito na força da oração e acredito na comunicação dos santos. Cheguei a padre não foi só porque tive professores e diretores espirituais. Foi também porque tive uma mãe que rezou muito por mim e um pai que trabalhou de sol-a-sol.”

Victor Rui Dores, (Crónicas Insulares, 2010) escrevendo acerca do padre Coelho, seu antigo professor no Liceu d’Angra, recordou com correnteza e carinho: “Estou a vê-lo, sorriso amistoso, ajeitando os óculos, caminhando esguio e elegante, nos corredores do Liceu, vestindo os impecáveis fatos de bom corte que sempre usava. É ele uma referência indelével no imaginário de várias gerações de estudantes. Era um interlocutor precioso e amabilíssimo, perspicaz e afectivo, dotado de agudeza de espírito e fina ironia. Profundamente humano, solidário e fraterno, eloquente e afável, culto e cativante, assumindo-se sempre como um homem do povo, desse povo que ele amou

verdadeiramente, e com quem viveu, festejou e sofreu. Em tempos de repressão fascista, ele foi a coragem e a voz resistente, no púlpito, na imprensa e na rádio. Foi um homem universal, porque sentia em si todo o Universo e toda a dor do mundo. Denunciou a falsidade, o egoísmo, a injustiça, o cinismo, a corrupção e a insensatez dos homens. Dotado de grande sensibilidade estética, além de sacerdote e professor, foi jornalista, poeta, prosador, dramaturgo, conferencista e animador cultural de reconhecidos méritos. Poeta lírico do humano e do simbólico, a sua poesia conta e canta a trindade Criador-Amor-Ilha, e é atravessada por um amor pressentido, luminoso e quase feliz.”

É da autoria de monsenhor Júlio da Rosa este cordial testemunho: “Coelho de Sousa foi um espírito dotado de variados dons. Verdadeiramente rico de ideias, projetos e obras. Espírito lúcido e fértil. Homem p’rá oratória, a poesia, a pintura, o drama e o jornalismo. Seria um dos maiores se se tivesse cingido a uma arte e feito uma opção. Sobraçou, contudo, com valor, mérito e glória um leque de valores artísticos, que só um talento bem dotado poderia criar e enriquecer.”

A fechar, esta sentimental e poética evocação do padre Coelho: “Deus / Aquele que é por ser quem é, somente / Igual a si e a mais ninguém / Mas que hei-de ver, gozar eternamente.”

 

Ferreira Moreno.

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publicado por picodavigia2 às 19:02

HORÁRIO DO FIM

Terça-feira, 28.01.14

EM SENTIDA MEMÓRIA DE UM AMIGO E COLEGA DE CURSO – JOSÉ MANUEL MEDEIROS FRANCO - UM POEMA DE MIA COUTO

morre-se nada

quando chega a vez

 

é só um solavanco

na estrada por onde já não vamos

 

morre-se tudo

quando não é o justo momento

 

e não é nunca

esse momento

 

Mia Couto, in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"        

 

Texto Publicado no Pico da Vigia em 14 de Fevereiro de 2013

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publicado por picodavigia2 às 15:29

LEMBRANÇAS DE NEMÉSIO

Terça-feira, 28.01.14

(UM TEXTO DE ARTUR GOULART)

 

Desde criança que o nome de Vitorino Nemésio me é familiar. Meu pai, colega de Nemésio no liceu de Angra, como ele partiu para Coimbra a continuar estudos. Embora frequentando faculdades diferentes, a amizade e o companheirismo mantiveram-se intensos no ambiente coimbrão, como aliás acontecia entre ilhéus e, por maioria de razão, da mesma ilha. Meu pai, em virtude de doença grave, felizmente ultrapassada, viu-se forçado a abandonar as matemáticas e o convívio da lusa atenas, mas os anos de Coimbra marcaram sempre indelevelmente as suas recordações. Daí que, anos mais tarde, já casado na vila das Velas, onde o destino e a profissão o fizeram assentar, as histórias coimbrãs com Nemésio dentro, a solo ou acompanhado, faziam parte dos nossos serões familiares.

 Quando os programas escolares me fizeram avançar nos estudos da língua e literatura portuguesas, foi duplamente empenhado e curioso que devorei os escritos de Nemésio. A poesia e a prosa, que iam saindo da imaginação, do saber e da pena do mestre, e que me chegavam às mãos, nutriam a minha admiração e o meu respeito, que mais se consolidaram quando assisti, no Seminário de Angra, julgo que em 1956 ou 57, a uma notável conferência por ele proferida sobre «a cultura como cúspide do saber», tema que desenvolveu, naquele seu jeito improvisado que lhe era peculiar, com profundidade, erudição e elegância.

Aí pelo verão de 1964, estava eu de férias em S. Jorge em casa de meus pais, Nemésio passou por lá de visita. Mal chegou, meu pai tratou logo de o convidar para um almoço em nossa casa e, do programa da visita, já não sei se por iniciativa da Câmara, fazia parte um passeio pela ilha. Conforme combinado, o almoço aconteceu. Com convidado tão ilustre, minha mãe aprimorou-se na cozinha, saíram à cena a toalha e a loiça dos dias de festa, um verdelho velho do Pico viu a luz do dia e evaporou-se, a conversa esteve agradabilíssima, Coimbra surgiu do passado, a Terceira estremeceu entre touradas e cantigas de terreiro. Nemésio, com a finura e simplicidade de homem culto, sociável e velho amigo, saboreava os cozinhados (sem favor, minha mãe era excelente cozinheira) e apaladava-se com as palavras, quando estas temperavam a refeição com o sabor regionalista e insólito de certas expressões. Uma nossa vizinha, moça nova que trabalhava lá em casa a ajudar minha mãe nas lides domésticas, sempre que avistava Nemésio com o prato quase vazio, dirigia-se-lhe pressurosa: «O sr. doutor não quer mais uma niquinha?» Ele aceitava ou rejeitava com um sorriso agradecido a saborear a etimologia e as conotações desta «niquinha» de linguagem.

 Para o passeio pela ilha tive a sorte de ser um dos indigitados para acompanhar Nemésio. Fomos de carro pelo Norte, a estrada e os verdes bordados de hortênsias, as fajãs adormecidas no fundo das falésias, a volta pelo Sul, a pequena joia da igreja de Santa Bárbara das Manadas entretecida de talhas, azulejos e alfarges, a Urzelina e as memórias do barão do Mau Tempo no Canal, anfitrião hospitaleiro de Margarida Dulmo, as velhas casas empertigadas nas negras cantarias de basalto, as Velas reclinadas lá ao fundo junto ao Morro, tudo pespontado com o comentário oportuno, o humor inteligente, o olhar penetrante de Nemésio. Já na vila, a passagem indispensável pela igreja de São Francisco, outrora da ordem franciscana, agora anexa ao hospital concelhio. Nemésio apreciava o altar-mór e os laterais, falava da mestria dos entalhadores, quando reparo que, devagar e ostensivamente, passava o dedo indicador pela bela grade de pau santo do presbitério. Reparando no meu olhar interrogativo perante gesto tão inusitado, apressou-se a esclarecer-me: «Estou a ver se as freiras mantêm limpa esta bela peça!» Na verdade estava impecável, e este gesto, para mim inesperado, de Nemésio trouxe-me à consciência um pormenor que, de tão natural, nem me tinha apercebido. De facto, como pude comprovar muitas vezes, as freiras, então ao serviço do hospital, mantinham a igreja e toda a casa numa limpeza exemplar.

Hoje, ao passar por tanto do nosso património em estado de abandono e sujidade, vem-me sempre à memória o gesto de Nemésio e, parafraseando o mestre, constato dolorosamente que tanta barbaridade e tanto desleixo só pode ser a cúspide da ignorância e da incultura

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publicado por picodavigia2 às 14:06

FIOS DE OURO

Terça-feira, 28.01.14

(CONTO TRADICIONAL)

 

Era uma vez uma mãe tinha duas filhas. A mais velha era muito preguiçosas, desajeitada, impertinente e, além disso, muito invejosa, a outra, a mais nova, era extremamente bondosa, aprimorada, metódica e muito trabalhadora.

A mãe não cessava de aconselhar a mais velha, atirando-lhe à cara o que em tempos lera num livro:

– “A inveja é filha do orgulho, autora do homicídio e da vingança, o início das sedições secretas, a perpétua atormentadora da virtude. A inveja é a imunda lama da alma; um veneno, um azougue que consome a carne e seca a medula dos ossos.”

Como se isso não bastasse ainda lhe apresentava, vezes sem conta, exemplos de pessoas que a inveja não só corrompera mas até arruinara.

Certo dia, a mãe e a irmã mais velha saíram de casa e foram à missa mas deixaram a cozer no forno, ao cuidado da irmã mais nova, sete pães de milho. Como se demorassem, a rapariga, depois de cozidos, foi comendo um a um os sete pães, de modo que, quando a irmã e a mãe regressaram da igreja não restava nenhum.

Faltando-lhes pão para o almoço, a mãe e a irmã mais velha, ralharam tanto com ele e fizeram tão grande barulho, que um dos mais ricos mercadores da cidade que naquele momento passava, por acaso, na rua onde moravam, teve que intervir, para as apaziguar

A mãe e a irmã mais velha gritavam ambas, falando ao mesmo tempo, acusando a mais nova de ser uma comilona, de comer por sete e roubar-lhes o pão que era delas. Mas o homem compreendendo que o barulho era motivado por inveja e que a rapariga se bem comia, melhor o merecia, pois trabalhava e fiava por sete, pediu-a em casamento à mãe e, para desespero e inveja da mais velha, começou logo a tratar de tudo para se casar com ela.

Realizado o casamento, o negociante partiu para uma longa viagem deixando à mulher, como tarefa, um grande quarto cheio de linho para fiar.

Estava prestes o regresso do negociante e a mulher ainda não tinha fiado nada. Por mais que quisesse não o podia fazer, e as outras duas jubilosas riam e troçavam dela, contentes por calcularem que o marido logo que chegasse não deixaria de a castigar severamente, talvez até a abandonasse e casasse com outra. Nessa altura, decerto que rico mercadora escolheria a mais velha para a substituir como esposa.

A pobre rapariga chorava, chorava, pretendendo debalde fiar o linho mesmo com lagrimas, mas não conseguia.

Um dia, enquanto estava à janela, a lastimar a sua sorte passaram umas fadas boas que, compadecendo-se da infeliz, lhe disseram que ao fiar, em lugar de passar os dedos pelos lábios, os passasse por farinha de milho.

A rapariga assim fez, e d'ai por diante, com grande alegria sua e raiva da irmã, não só podia fiar quanto queria mas também o fio, ao contacto da farinha de milho, transformava-se logo em rico fio de puro ouro.

 

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